O
cartaz dessa peça dá a entender que se trata de mais uma peça gay como tantas outras
que estiveram (ou ainda estão) em cartaz nos palcos paulistanos nos últimos
meses (Brokeback Mountain, Marginal Genet, Romeu e Romeu, Homem Que É Homem Não
Chora, Meu Garoto, Tenente Seblon), mas o enfoque aqui é bastante diverso.
A
dramaturgia de Arthur Pires coloca dois homens em um quarto de motel em uma
situação relativamente banal sem conflitos onde o mais velho, de fachada hetero
e pai de família, se encontra com um experiente garoto programa para uma tarde
de sexo efêmero sem maiores consequências.
Por recurso narrativo
presente na teoria do drama (“coup de théâtre”) o autor introduz um conflito na
segunda parte da peça, que irá alimenta-la até o fim da mesma. Por motivos
óbvios “anti-spoiler”, não cabe indicar aqui qual é esse conflito, bastando
escrever que ele altera por completo a relação dos dois homens levando
inclusive a mudanças de rumo em suas vidas para além do quarto 2107.
A
montagem de Rodrigo Ferraz conduz essa trama discretamente com foco nas
interpretações de Alexandre Acquiste (o homem) e Bruno Gadiol (o garoto de
programa). Os atores respondem com dignidade às questões abordadas pela peça em
interpretação naturalista que jamais envereda para o melodrama.
As cenas de sexo são
bem resolvidas sem jamais resvalar para a nudez explícita, o erótico apelativo
e o mau gosto, algo muito comum nesse tipo de espetáculo.
O toque feminino de
Kyra Piscitelli na assistência da direção com certeza colaborou para a
elegância e a discrição do resultado final.
A palavra digna pode
muito bem ser utilizada para adjetivar essa montagem em cartaz no Espaço
Parlapatões.
26/05/2026
Está precisando enxergar e entender melhor a imagem. Até para comparar com os cartazes de várias outras peças gays que estão por aí …
ResponderExcluir… O cartaz talvez dê a entender algo para quem ainda olha corpos LGBTQIA+ apenas como um ‘tema’. Para mim, ele comunica linguagem, desejo, intimidade e cinema.
ResponderExcluirA escolha estética da imagem não nasce de provocação gratuita, mas de uma tradição visual consolidada em grandes obras do cinema e do teatro queer, onde o corpo masculino ocupa espaço narrativo, emocional e simbólico. Filmes como Brokeback Mountain, Call Me by Your Name, Moonlight trabalham justamente essa tensão entre vulnerabilidade, erotismo e afeto através da presença física dos personagens.
Existe uma diferença importante entre erotização vazia e construção estética do desejo. O cartaz de ‘Quarto 2107’ não vende nudez; ele apresenta intimidade. E talvez o desconforto não esteja na imagem em si, mas no fato de dois corpos masculinos ocuparem esse lugar de protagonismo sem pedir licença.
Reduzir o cartaz a ‘mais uma peça gay’ diz mais sobre a limitação do olhar crítico do que sobre a complexidade da obra. Porque quando narrativas heterossexuais exploram corpos, paixão e sensualidade, isso é chamado de cinema, dramaturgia ou romance. Quando homens gays fazem o mesmo, ainda há quem trate como nicho ou excesso.
A fotografia foi construída para servir à história, ao clima e à proposta dramatúrgica da peça. E fico feliz que a imagem tenha provocado leitura, debate e reação. A arte, quando realmente comunica algo, dificilmente passa despercebida.