Esse espetáculo foi uma grata
surpresa.
Fui assisti-lo pensando em encontrar
mais um musical biográfico dos tantos que chegam aos nossos palcos cheios de
clichês, tratamento superficial da vida e obra do biografado e recheados de
canções que fizeram sucesso em outras situações e soam falso na atual
conjuntura, como por exemplo usar a canção “Atrás da Porta” toda a vez que há
um rompimento amoroso.
A dramaturgia de “Meu Filho É Um
Musical” de Fil Braz com colaboração de Beatriz Coelho não é nada disso; ela
faz um recorte mostrando as relações familiares de Paulo Gustavo e também as
dificuldades que ele teve para encontrar uma personagem que se adequasse ao seu
tipo de comediante, algo que, como se sabe, ele encontrou na própria mãe. A
cena da peça em que diante do espelho ele descobre sua personagem é memorável.
Nada na dramaturgia resvala para o melodramático, mesmo na cena final que tem
forte apelo dramático e emocional.
Outro fator que distingue este
espetáculo dos demais musicais biográficos é que as canções de Daniel Salve
foram compostas especialmente para ele, encaixando-se nas cenas sem
artificialidade.
É um espetáculo de produção cara com
cenografia requintada de Nello Marrese e figurinos de Theodoro Cochrane. Aqui
fica uma dúvida deste espectador: apesar de belos, qual a razão dos motivos
gregos nos cenários, nos figurinos e até na coreografia de Alonso Barros?
Do grande elenco os destaques vão para
Valéria Barcellos, hilária e esfuziante em cada aparição; Milena Machado como
Juju, a irmã masculinizada de Paulo Gustavo; Marcelo Varzea, ótimo como o pai;
Talita Castro como a madrasta e Stella Rodrigues encarnando a mãe Dona Déa com
muita garra (apesar de gritar um pouco demais nas primeiras cenas).
Por último, mas muito importante: Pierre
Baitelli que interpretou Paulo Gustavo na sessão em que estive presente. Dotado
de grande talento e de um tempo de comédia bom e equilibrado, Baitelli brilha
tanto como o jovem à procura do seu caminho, como quando veste a personagem da
mãe.
João Fonseca e Ju Amaral (irmã de
Paulo Gustavo) harmonizam todos esses componentes com uma direção também digna
de elogios.
Solar na sua maior parte, o espetáculo
torna-se sombrio ao mencionar a pandemia do Covid 19 e o desaparecimento de
cerca de 700 mil pessoas, cuja morte de parte delas poderia ter sido evitada
caso houvesse tido uma política em prol das vacinas.
A peça não explicita, mas fica claro
que houve negligência do malfadado governo da época com o assunto. Se isso
serviu de alerta para que o público
presente NÃO VOTE no filho daquele ser ignóbil, que tivemos o horror e a
vergonha de ter como presidente do nosso país, a peça já valeu a pena.
Dona Déa participa carinhosamente do
início e do fim da peça, recebendo aplausos carinhosos do público e
recomendando às mães e aos pais que não discriminem seus filhos devido às suas
opções sexuais.
Um grande elogio ao espetáculo é que
se sai dele com muita vontade de saber mais sobre a obra de Paulo Gustavo,
desaparecido precocemente em 04 de maio de 2021 aos 42 anos de idade.
MEU FILHO É UM MUSICAL está em cartaz
no Teatro Renault. Quinta e sexta, 20h / Sábado, 15h e 20h / Domingo, 14h30 e
19h30.
NÃO DEIXE DE VER!
27/09/2026



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