O que pode esperar do futuro uma moça oriunda
de família pobre e ignorante residindo numa vila operária de uma cidade também
com poucos recursos? Trabalhar em uma padaria, engravidar muito jovem, casar
com um homem onde “quem manda na minha casa sou eu”, ter muitos outros filhos e
aguentar os assédios e proibições do
marido.
O jovem escritor Édouard Louis (1992)
nasceu em Hallencourt no extremo norte da França, numa família disfuncional que
ele trata de maneiras crua e corajosa em sua obra literária focando em cada livro
a mãe, o pai, o irmão e ele mesmo, que sofreu grande repressão por se revelar
homossexual desde pequeno. Trata- se de auto ficção que ultrapassa o
confessional para tratar das grandes mazelas da sociedade machista e
preconceituosa em que vivemos.
Pedro Kosovski fez a adaptação teatral
dos livros que o autor dedica à mãe (“Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher” e
“Monique se Liberta”) os unindo no ato único “Mulher em Fuga”. A primeira parte
trata da submissão e da vida monótona da mãe e a segunda mostra como ela
conseguiu se libertar dessas amarras que a vida lhe impôs.
A encenação de Inez Viana tem uma
precisão cirúrgica (jamais fria!) valendo-se do projeto cenográfico de Dina
Salem Levy que de início parece ser grande demais, mas que ao longo da
encenação vai ser o suporte para a movimentação do elenco, sempre acompanhado
do preciso desenho de luz de Aline Santini.
Nesse ambiente Tiago Martelli como o
filho e Malu Galli como a mãe representam a história criada por Édouard Louis
baseada na sua pesada experiência pessoal.
Malu Galli é uma grande atriz que não
tem que nos provar mais nada, mas volta a surpreender com uma interpretação
visceral de uma mulher à beira do esgotamento depois de anos de submissão,
agressão e humilhação que vieram não só de seus companheiros, mas de toda
sociedade. Quando encontra meios (até financeiros) para se libertar desse
esquema, Malu mostra essa reviravolta de modo muito original e catártico, que
evito revelar aqui, para não tirar o prazer da surpresa para quem vai assistir
ao espetáculo.
Uma pequena observação sobre o
visagismo assinado por Vini Kilesse: a peruca loira usada pela atriz encobre em
certos momentos a poderosa expressão facial da atriz. Creio que uma fivela
discreta poderia resolver esse problema.
Tiago Martelli acompanha a atriz no
mesmo nível e tem interpretação e dicção dignas de elogios.
Para compreender melhor o pensamento e
a obra de Édouard Louis assista ao programa “Roda Viva” da TV Cultura em que
ele foi entrevistado (disponível no Youtube), leia seus livros e assista a
este importante e corajoso espetáculo.
O escritor deve participar como ator da próxima MITsp com a dramatização do livro “Quem Matou Meu Pai”.
MULHER EM FUGA está em cartaz no SESC
14 Bis até 08/02. Quinta a sábado, 20h /Domingo, 18h
ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL.
17/01/2026

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