terça-feira, 25 de setembro de 2018

O JOGO DE A[R]MARELINHA





        Tudo na vida é obra do acaso? Ou nada na vida é por acaso?
       Desço para a plataforma do metrô. Escolho o vagão que vou entrar ou pego o vagão que está na minha frente. Quem está nesse vagão? Como foi que eles/elas foram parar nesse vagão? Pode ser que uma/um delas/deles seja minha metade da laranja? A gente vai se olhar? Será que ele/ela vai descer na mesma estação que eu? Em caso negativo desço na dele/dela? Ele/Ela vai para a esquerda ou para a direita? De maneira muito brilhante Julio Cortázar já falou sobre a casualidade em sua obra e, em particular, no conto Manuscrito Achado Num Bolso, que inspirou Paulo Azevedo a escrever este instigante A[R]mar em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso.
        Eu tive o privilégio de viajar no mesmo vagão e em um banco muito próximo de ELE e ELA (assim são denominados os personagens) e ser testemunha dos seus encontros e desencontros. Em um primeiro momento é o acaso que faz esses dois seres cruzarem olhares e iniciar um relacionamento que atinge um apogeu seguido de desgaste. É necessário fazer alguma coisa para reativar a chama e não dá mais para confiar no acaso...
        A direção do autor é madura e enxuta valendo-se de uma criativa disposição cênica colocando no palco alguns espectadores que farão parte da história como passageiros do metrô, de excelente trilha sonora de Érico Theobaldo e Mano Bap, de projeções em vídeo (Janaína Patrocínio) e, fundamentalmente, de dois excelentes intérpretes como Rita Pisano e Bruno Perillo, sem os quais espetáculo deste tipo naufragaria. A química entre eles é perfeita dando vida ao casal de maneira intensa na surpresa do primeiro encontro, nas descobertas sobre cada na mesa de um no bar e na provocante cena de sexo realizada de maneira delicada e bela sem necessidade de explicitar nada.
        Vários filmes e textos literários são lembrados no programa como citados na dramaturgia, mas quando se trata de casualidade não há como não se lembrar de outra obra prima do gênero, o filme Corra Lola, Corra do alemão Tom Tykwer.



        A[R]MAR é uma gratíssima surpresa da atual temporada paulistana e está em cartaz só até o dia 1º de outubro (Segunda feira) no Teatro Sérgio Cardoso: Sexta e Sábado (19h30), Domingo (20h) e Segunda (19h).
        Reestreia na sexta feira, dia 05/10 no Teatro Cacilda Becker às sextas, sábados e domingos até 21/10.
        SABOROSO DEMAIS PARA VOCÊ DEIXAR PASSAR!

        25/09/2018


sábado, 22 de setembro de 2018

EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE



        Jean-Luc Lagarce (1957-1995) escreveu J’Étais Dans Ma Maison et J’Attendais Que la Pluie Vienne em 1994, um ano antes de sua morte, que ele já pressentia, pois estava contaminado pelo vírus da aids desde 1986. A peça trata de uma eterna espera tal como aquela de Estragon e Vladimir no clássico Esperando Godot de Beckett. Aqui, são cinco mulheres denominadas pelo autor como “a mais velha de todas”, “a mãe”, “a filha mais velha”, “a segunda” e “a mais nova” que após esperarem anos a fio pela volta do neto, filho e irmão, continuam a esperar que ele saia de uma espécie de coma na qual entrou quando de sua volta ao lar e assim possa relatar como foi sua vida de aventuras nos anos em que esteve fora depois que foi expulso pelo pai, agora já falecido.
        Eu havia assistido a uma montagem da peça em 2007 no Sesc Paulista com direção de Marcelo Lazzaratto da qual gostei e tenho boas lembranças dos trabalhos de Miriam Mehler como “a mais velha de todas” e de Carolina Fabri (sempre ótima) como “a filha mais velha”. Consultando as anotações da época constato minha admiração pela obra com a ressalva de achá-la muito longa e do texto ser belo, porém verborrágico.


        Onze anos depois, o mestre Antunes Filho utiliza-se da mesma tradução de Maria Clara Ferrer reduzindo-a quase pela metade e adaptando-a segundo sua concepção cênica, Com isso o que era bom ficou ainda melhor.
        Um espaço cênico cheio de cadeiras que simbolizam o vazio da eterna espera é aos poucos invadido por aquelas cinco mulheres de vida solitária cujos desejos e motivações o espectador vai aos poucos descobrindo, ou melhor, imaginando.
        Apesar de árido, o texto de Lagarce é bastante poético e Antunes imprime mais poesia em sua bela encenação, haja vista, a primeira cena onde “a filha mais velha” (interpretação primorosa de Fernanda Gonçalves, filha do saudoso Enio Gonçalves) faz talvez o mais belo monólogo de toda a peça. Louvem-se, de passagem, as perfeitas dicção e emissão de vozes das atrizes fazendo com que o espectador não perca uma palavra do texto, qualquer que seja sua posição na plateia (coisa que anda rara em nossos palcos).
        Há muita simbologia na encenação de Antunes e apesar do encenador solicitar no programa que não interpretemos a peça, não há como não imaginar o porquê do gesto lembrando a saudação fascista quando as mulheres se encontram, o porquê da bandeira vermelha carregada pela “mais velha de todas” (TFP?), o porquê do ritual de tirar e por objetos de uma caixinha e mesmo o porquê daquele contorno superior pintado com flores muito coloridas que contrasta com a aridez do resto do cenário. Antunes joga todos esses porquês e a imaginação do espectador que preencha os vazios como quiser.
        O texto remete (sem perder sua grande originalidade) ao já citado Esperando Godot, ao filme O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled) de 1970, dirigido por Don Siegel e também a A Casa de Bernarda Alba de Garcia Lorca. Todas essas obras com certeza eram de conhecimento do autor.


        Do elenco afinadíssimo, destaque para a visceral interpretação de Suzan Damasceno, figura trágica da “mãe”, cujas expressões vão do autoritarismo à imensa tristeza. A figura lembra muito a personagem Bernarda Alba da obra de Lorca citada acima.
        O caprichado programa, com trechos dos monólogos das cinco personagens e textos do autor e do encenador, tem várias ilustrações e entre elas, uma do quadro No Leito da Morte de Edvard Munch. O lancinante grito de revolta/impotência/indignação dado na cena final pela “mais nova” nos leva àquele que é quadro mais famoso do pintor norueguês.
        E por último fica a questão: o que aconteceria com aquelas mulheres se o “caçula” acordasse?
         Grande Mestre Antunes, sempre nos surpreendendo e nos tirando do chão.

        EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE é uma produção do CPT/Sesc e do Grupo de Teatro Macunaíma. Em cartaz no Teatro Anchieta às sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h. Até 16/12/2018

        22/09/2018. Início da primavera.



sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CARMEN – A GRANDE PEQUENA NOTÁVEL




        Contrariando as regras da boa redação vou usar várias vezes o adjetivo: notável a iniciativa de Heloisa Seixas e Julia Romeu de escreverem um livro sobre Carmen Miranda endereçado às crianças e depois transformá-lo em musical; mais notável ainda a iniciativa de Kleber Montanheiro de montar e dirigir com tanto amor o espetáculo que está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil apenas aos sábados no horário que abriga as peças infantis (11h). A mais que notável pequena notável precisa ser conhecida pelos jovens como a mulher que enfrentou com seu imenso talento o mundo machista e conservador da primeira metade do século 20 dominando não só a cena brasileira como também o fechado show business norte americano. Acusada pelos radicais de plantão de se vender ao gosto norte americano, sua obra mostra que a portuguesa Carmen soube como ninguém mostrar a rica música brasileira ao mundo. Tudo muito notável.
        O palco do CCBB é muito pequeno para nele caber a grandeza da pequena notável, o brilho de Amanda Acosta e as letras gigantescas que formam o nome “Carmen” que atravancam a movimentação dos atores além de encobrirem a singela pintura em preto e branco de Victor Grizzo que compõe o cenário concebido pelo diretor. Os figurinos belos e muito coloridos criados por Montanheiro  contrastam harmoniosamente com o sóbrio cenário.

O diretor Kleber Montanheiro e Amanda Acosta na estreia para convidados em 19/09/18 

        Depois de sua impressionante caracterização como Bibi Ferreira, eis Amanda Acosta entoando a voz no ritmo de Carmen, usando o seu erre tão característico e cantando como ninguém... Como ninguém NÃO! Como Carmen Miranda! Esses dois trabalhos qualificam Amanda como a mais versátil estrela dos musicais brasileiros. O elenco de apoio sustenta o espetáculo nas ausências de Amanda para troca de figurino, mas a cena só volta a brilhar em sua reaparição. Em alguns momentos há certo exagero nas intervenções humorísticas que desbalanceiam a delicadeza do espetáculo.
        A direção musical de Ricardo Severo é impecável, sendo que os números musicais muito bem tocados e cantados pelo elenco constituem-se como o ponto forte da peça.
        ATENÇÃO MAMÃES E PAPAIS: Levem seus pequenos para assistir a este delicioso espetáculo; eles vão adorar... E vocês também!
        Apesar de endereçada ao público infantil a peça tem fôlego para temporada em horário noturno e, se possível, em um palco maior.

         P.S. Tenho certeza que Marília Pêra adoraria não só assistir, mas também participar deste trabalho. Carinhosamente há no programa um agradecimento (in memorian) a ela, que emprestou seu imenso talento a exuberantes Carmens Mirandas em tantas ocasiões.

Aplausos!!

            



        21/09/2018

terça-feira, 18 de setembro de 2018

a ponte - itaú cultural


a_ponte - cena do teatro universitário

            Uma consequência natural da efetiva participação dos universitários nos assuntos políticos do Brasil, na década de 1960, foi a criação de vários grupos de teatro universitário que buscavam discutir através de suas encenações a situação política e cultural do país. Naquele período os direitos humanos começavam a ser violados e a liberdade se tornava cada vez mais cerceada. Em São Paulo a criação do Teatro da Universidade Católica (TUCA) em 1965, com Morte e Vida Severina, talvez corresponda ao início desse movimento estudantil. Seguiram-se, entre outros, o Teatro Sedes Sapientae (TESE) em 1966; o Grupo Experimental Mauá (GEMA) da Escola de Engenharia Mauá em 1968; o Grupo Experimental de Teatro Universitário (GEXTU) em 1969, ligado à Escola Superior de Administração de Negócios (ESAN); o Teatro do Onze do Centro Acadêmico Onze de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1970 que viria a se transformar no até hoje atuante Teatro União e Olho Vivo (TUOV), não mais de caráter universitário e sempre liderado por César Vieira; o novo Teatro Universitário da Pontifícia Universidade Católica (TUPUC) em 1972. Os participantes não pertenciam a escolas de teatro, sendo que na época o único curso de teatro que existia era aquele ministrado na Escola de Arte Dramática (EAD) e seus espetáculos limitavam-se a apresentações de fim de ano dentro do próprio campus; já os espetáculos dos grupos universitários cumpriam temporadas nos teatros da cidade e eram dirigidos por encenadores profissionais. Todos esses grupos tiveram maior ou menor longevidade, mas nenhum deles sobreviveu até o fim da década de 1970, quando a censura e a repressão tornaram impossível a participação estudantil nos assuntos políticos. A consequência disso é notável quase meio século depois, por isso é extremamente importante a iniciativa do Itaú Cultural de criar a_ponte-cena do teatro universitário para “estudantes brasileiros de cênicas intercambiarem entre si e apontarem novas tendências da área”.
        Trata-se de projeto ambicioso de caráter nacional que resultará na apresentação de dez trabalhos escolhidos por comissão avaliadora nas dependências do Itaú Cultural no período de 24 de janeiro a 03 de fevereiro de 2019. As inscrições ficam abertas de 19/09 a 22/10 no endereço http://itaucultural.formstack.com/forms/a_ponte
        A apresentação do projeto foi feita no dia 17/09 por uma entusiasmada Galiana Brasil, gerente do Núcleo de Cênicas do Itaú Cultural e esse entusiasmo tomou conta de todos os presentes  que vêm no projeto não só um elemento catalisador das realizações teatrais dos universitários de todo o Brasil, como também uma volta dos estudantes na participação dos problemas do país.  

        18/09/2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

DIAS DE MIRADA (05 a 15 de setembro de 2018)



        Onze dias e dezoito espetáculos depois terminou o MIRADA 2018. Hospedado no quarto 1208 do hotel Sheraton, caminhei todos os dias os 400 metros que o separam do SESC Santos - QG do Festival - para participar das mesas Encontros de Vozes e Urgências, retirar os ingressos para os espetáculos que havia escolhido e encontrar muita gente que tem, como eu, o teatro por paixão. Foram muitas conversas e muitas trocas das quais tenho certeza todos saíram enriquecidos. O Festival aconteceu em vários espaços de Santos e teve prolongamento em algumas cidades da Baixada Santista. Foram 41 espetáculos de 13 países, a maioria deles discutindo importantes questões sociais e políticas da realidade de seu país. Alguns escorregaram nas dramaturgias que, do meu ponto de vista, não deram conta da força dramática da realidade em que se baseavam (caso de Nimby, Cine Splendid e La Ciudad Vacía).  
        A cada realização o Mirada homenageia um país o qual junto com o Brasil tem uma maior representatividade em número de espetáculos. Foi assim com a Argentina (2010), o México (2012), o Chile (2014) a Espanha (2016) e agora com a Colômbia que apresentou nove espetáculos e uma instalação.
        Gostar ou não gostar é algo pessoal e intransferível, no entanto não quero me furtar de apresentar a minha lista classificada na ordem da minha preferência (alguns desses títulos foram alvo de matérias que publiquei durante a realização do Festival):

        - El Bramido de Düsseldorf (Uruguai)
        - Mucho Ruido Por Nada (Peru)
        - Labio de Liebre (Colômbia)
        - Quando Estallan las Paredes (Colômbia)
        - La Ciudad de los Otros (Colômbia)
        - Del Manantial Del Corazón (México)
        - Souvenir Asiático (Colômbia)
        - Colônia (Brasil)
        - Estado Vegetal (Chile)
        - La Despedida (Colômbia)
        - Nos Hemos Olvidado de Todo (Colômbia)
        - Nimby (Chile)
        - Ñaña (Peru)
        - Cine Splendid (Paraguai)
        - Euria (Espanha)
        - La Ciudad Vacía (Nicaragua)
        - Promesa de Fin de Año (Colômbia)

        OBS: 1. Não houve como apreciar Caliban – A Tempestade de Augusto Boal apresentado no Emissário que além de atrasar o início (sem explicações) por quase uma hora, não organizou o público que acabou se comprimindo em um espaço reduzido, sendo que era quase impossível ver ou mesmo ouvir os atores.
                2. Espetáculos nacionais aos quais eu já havia assistido e que não entraram na lista acima: A Invenção do Nordeste, A Vida, Grande Sertão: Veredas, Guanabara Canibal, Odisseia, Preto e Vou Voltar.
             3. Dois espetáculos estrangeiros a que infelizmente não assisti e que foram bastante elogiados: El Ritmo (Argentina) e Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas (Portugal).
             4. Alguns dos espetáculos foram apresentados nos SESCs de São Paulo no Extensão Mirada e La Miel Es Más Dulce Que la Sangre (Colômbia) será apresentado no SESC Pompeia na próxima quinta feira, dia 20.

        Longa vida ao Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas!
        Que venha o MIRADA 2020.

        17/09/2018

         

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

EL BRAMIDO DE DÜSSELDORF (URUGUAI) – MIRADA 2018



        A verdade, onde está a verdade? Ou melhor: O que é a verdade? Essa relatividade da verdade está presente na obra de Pirandello e o uruguaio Sergio Blanco torna suas peças ainda mais pirandellianas ao colocar a si próprio no centro da ação, desenvolvendo o que ele chama de autoficção onde há um pacto com a mentira, ao contrário da autobiografia onde deve haver um pacto com a verdade. Isso que já estava presente em A Ira de Narciso se radicaliza em El Bramido de Düsseldorf, até agora o melhor e mais instigante espetáculo apresentado no Mirada 2018. 
        Em um cenário muito alvo dois atores e uma atriz (todos excelentes) iniciam a peça dublando Losing My Religion do grupo R.E.M. e a seguir apresentam epicamente as personagens que vão representar: Gustavo Saffores será o próprio autor, Walter Rey será seu pai e um rabino muito importante para a trama e Soledad Frugone fará as diversas figuras femininas. A encenação é dividida em prólogo, cinco bramidos e epílogo. Depois desses dados iniciais o público é iniciado na trama que envolve pai e filho em suas estadias na cidade alemã onde não faltarão a produção de filmes pornográficos, uma exposição sobre Peter Kurten (o vampiro de Dusseldorf), o filme Bambi e até uma frustrada circuncisão. Parece muito? Pois a peça tem muito mais envolvendo a plateia no jogo do que é verdadeiro e o que é falso na vida de Blanco.

Walter Rey, Soledad Frugone, Gustavo Saffores e Sergio Blanco

        Muitas referências são feitas à sua peça anterior A Ira de Narciso, inclusive sobre Vinko, um rapaz chileno que cometeu suicídio logo após ter assistido à mesma. Tal fato comprovadamente verdadeiro motivou a criação de El Bramido de Düsseldorf e o epílogo da peça mostra um fragilizado Blanco dialogando com Lenka, mãe de Vinko.
        Como nada é por acaso e comprovando a magia do teatro, um espectador (o ator, diretor e dramaturgo Henrique Fontes do Grupo Carmin do Rio Grande do Norte) conheceu Vinko em Santiago, meses antes do seu suicídio.
        O jogo de metalinguagem proposto por Blanco (também diretor da peça) excita o público fazendo-o a cada momento se lembrar de que está em uma sala de teatro assistindo a uma representação.
        É difícil escrever mais sobre obra tão complexa em sua aparente simplicidade.

        ATENÇÃO SÃO PAULO: A peça será apresentada no SESC Avenida Paulista na EXTENSÃO MIRADA nos dias 15/09 (21h30) e 16/09 (18h30). CORRA para garantir seu ingresso. Caso os ingressos estejam esgotados vá para a fila da esperança! Garanto que vale a pena!

13/09/2018

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A PRIMEIRA SEMANA DO MIRADA 2018



        Nesta terça feira se encerra a primeira semana desse que é um dos mais importantes festivais internacionais de teatro que se realiza no país e sua relevância maior está em concentrar a atenção nos  países da América Latina, tão próximos, mas ao mesmo tempo tão distantes do nosso conhecimento. Sabemos muito mais sobre os Estados Unidos e sobre os países europeus do que sobre nossos vizinhos. Por ter caráter ibero-americano, o Mirada também contempla espetáculos vindos da Espanha e de Portugal. A cada edição o festival homenageia um país e em 2018 a homenageada é a Colômbia que se apresenta com nove espetáculos e uma instalação.

        Sob o título de Encontros de Vozes e Urgências a dramaturga Dione Carlos e o diretor e dramaturgo André Guerreiro Lopes organizaram mesas dentro das atividades formativas para discutir assuntos importantíssimos para a nossa realidade com a participação de profissionais envolvidos nos espetáculos. Tais mesas estão mobilizando e emocionando o público que toda manhã comparece às mesmas e muitas vezes suplantam em força dramática os espetáculos apresentados. Não foram poucos os que saíram com lágrimas nos olhos do encontro mediado por Rosane Borges que reuniu Leda Maria Martins, Grace Passô e a chilena Marcela Salinas. Outra participação emocionante foi a da exuberante mexicana Conchi León, dando um baile de frescor quanto à causa feminista. Lucero Millán da Nicarágua foi o maior exemplo do quanto a realidade é mais dramática que a ficção. Abaixo alguns momentos das mesas:






        Até o momento tive a oportunidade de assistir a 11 espetáculos, três deles já comentados neste blog. Dos oito restantes cabe destacar a delicadeza do ritualístico Del Manantial Del Corazón do México que inclui até a participação de um bebê num batizado Maia; a virulência do anárquico e destrutivo Quando Estallan las Paredes do mesmo Teatro Petra do já comentado Labio de Liebre; a energia e a beleza do grupo de dança colombiano Sankofa naquele que talvez seja o espetáculo (La Ciudad de los Otros) que literalmente tirou todo mundo da poltrona na sua surpreendente apresentação. Na sua fala a já citada Leda Maria Martins disse que “No tambor pulsa o coração do Cosmos”. Esta aí o espetáculo do Sankofas para comprovar tal assertiva.

Del Manantial del Corazón (México)

Sankofas (Colômbia)

        Temos quatro dias pela frente que com certeza serão portadores de muitas coisas para alimentar nossos corações e mentes.
        Não posso de deixar registrada aqui a maneira profissional e elegante com a qual o SESC tem tratado aqueles que estão cobrindo o Festival.

        11/09/2018 (Triste data onde recordamos a instalação da sangrenta ditadura militar de Pinochet no Chile em 1973 e a destruição do World Trade Center em Nova York em 2001)

MUCHO RUIDO POR NADA (PERU)




SHAKESPEARE PRESENTE NO MIRADA 2018

       Depois de dois espetáculos de temática pesada (torturados e torturadores em Labio de Liebre e exclusão social em Nimby) foi um verdadeiro bálsamo assistir a Mucho Ruido Por Nada encenação do Teatro de la Plaza do Peru a partir da gostosa comédia de Shakespeare. Remetendo ao fato que na época elisabetana os papeis femininos eram interpretados por homens e mais ainda para enfatizar que “qualquer maneira de amor vale a pena” a encenadora optou por entregar os papeis de Hero, Beatriz, Antonia e das duas criadas para barbados que o fazem de maneira brilhante sem trejeitos nem caricaturas.
       O sugestivo cenário de Luís Alberto León e Chela de Ferrari abriga os figurinos de Gustavo Valdez que belamente pendurados no alto da cena descem no momento em que os atores devem vesti-los.
       A peça é dirigida com leveza e graça por Chela de Ferrari, encenadora peruana responsável por montagens importantes como O Beijo da Mulher Aranha (2008), Ricardo III (2013) e La Cautiva (2014), sendo que esta última provocou grande polêmica ao tratar do terrorismo no Peru.
       A encenação flui de maneira divertida terminando de maneira surpreendente louvando ao mesmo tempo a diversidade sexual e o empoderamento da mulher com uma surpreendente participação do público.
       Os atores são excelentes e versáteis interpretando e cantando as canções inseridas na ação. Por não haver a distribuição dos papeis na ficha técnica, destaco aqueles que mais me surpreenderam pelas personagens que interpretam: Beatriz, Benedito, Leonato e Conde Claudio.


       Uma verdadeira festa para amenizar a angústia dos tempos sombrios que temos vivido e que colocou de pé o entusiasmado público que lotou o palco e a plateia do Teatro Coliseu na fria noite santista do feriado da independência.

       10/09/2018

sábado, 8 de setembro de 2018

NIMBY (NOSOTROS SOMOS LOS BUENOS)



        Qual a reação de uma pessoa engajada e militante, defensora dos direitos dos sem teto e dos menos favorecidos, quando um morador de rua fixar moradia na porta de sua casa, ou se uma favela se instalar no quarteirão de seu prédio ou condomínio situado em bairro classe média? Essa parece ser a reflexão proposta aos espectadores da peça Nimby, apresentada pelo grupo chileno Colectivo Zoológico em conjunto com o alemão Theater Orchester Heidelberg no Festival Mirada.
        Os encenadores Nicolás Espinoza e Laurént Lamaitre nos contam, por meio da dramaturgia de Juan Pablo Troncoso, o que sucede quando há a proposta da construção de um conjunto de moradias populares nas proximidades de uma comunidade ecológica que, a princípio é defensora dos direitos dos mais fracos. Em auxílio à defesa de seus próprios direitos o grupo pede ajuda a uma entidade alemã ficando clara a união entre colonizador e colonizado. Dentre os colonizados há ainda a presença da diferença de classes representada pelos moradores e pelo empregado Germán que será figura chave para o desenlace da trama. O elenco formado por chilenos e alemães é bastante bom e homogêneo, apesar de suas personagens não serem tão bem delineadas.
        Há um início de interatividade com o público, colocando-o como parte de uma assembleia que irá discutir como fazer a exclusão dos ditos “invasores”, mas a direção não ousa em aprofundar esse envolvimento, o que é uma pena.
        A conclusão que se chega ao analisar o nosso entorno é que a realidade tem força dramática muito mais potente do que aquela apresentada pelo grupo chileno.


        O diretor Nicolás Espinoza participou da primeira atividade formativa do Festival ocorrida no dia 07/09/2018 junto com o dramaturgo Gustavo Colombini (Colônia) e o encenador Pedro Kosowski (Cara de Cavalo, Caranguejo Overdrive e Guanabara Canibal) cujo tema foi “Respostas ao Colonialismo”. O debate foi mediado por Sérgio Luís de Oliveira.

        08/09/2018

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

LABIO DE LIEBRE (MIRADA 2018)



PERDÓN? ou PERDÓN!

        Labio de Liebre foi o espetáculo de abertura do MIRADA 2018. Trata-se de produção da companhia colombiana Teatro Petra que já pode ser considerada como um dos grandes momentos do Festival.
        A peça inicia em cenário realista que mostra a sala de uma casa aparentemente situada em zona rural; lá fora neva e a presença de cabeças de vacas, galinhas e coelhos olhando pela janela para um pacato cidadão que assiste TV dá a sensação que vamos assistir a um suave espetáculo de teatro infantil.
        Aos poucos ficamos sabendo que esse senhor não é tão pacato e que se trata de preso político que foi exilado em um país muito frio após ser condenado por promover torturas em seu país tropical.    
         A casa passa a ser invadida por uma família formada pela matriarca, por dois filhos (sendo que eu deles tem lábio leporino) e pela filha; por animais e por um crescer constante de frondosa vegetação tropical.
        Todos ali; humanos, fauna e flora; parecem clamar por justiça e pela reparação dos males provocados por aquele homem e aí o público toma conhecimento que ele foi um torturador que dizimou muitos humanos (inclusive toda aquela família), um número ainda maior de animais e por tabela deve ter sido no mínimo cúmplice da destruição da natureza vegetal, sendo que esta teve a triste função de servir de cemitério para as pessoas torturadas e assassinadas.
        Em clima de realismo fantástico, tão rico aos colombianos, a peça vai se desenvolvendo em crescente tensão onde o homem tenta se defender dizendo que agiu cumprindo ordens e pensando na defesa de sua pátria, discurso esse presente na boca de todo torturador que grassou pelos países da América Latina que passaram por ditaduras na segunda metade do século XX.
        A família insiste em saber aonde cada membro foi enterrado e após muita relutância, o torturador revela os diversos locais situados na floresta. A peça termina com uma significativa palavra proferida pelo homem: “Perdón”. Uma exclamação significando arrependimento ou uma interrogação significando pouco caso podem definir o caráter e os sentimentos desse homem. A decisão fica por conta do espectador. 

Marcela Valencia

        A peça conta com elenco homogêneo com destaque para Marcela Valencia (fundadora do grupo junto com o diretor e autor do texto Fabio Rubiano Orjuela) que interpreta a mãe. O cenário de Henry Alarcón é iluminado de maneira significativa por Adélio Leiva e Leonardo Murcia e a trilha sonora de Camilo Sanabria ajuda a compor o clima de quase terror que vai se instalando ao longo do espetáculo. Um soco no estômago!
        O Teatro Petra ainda vai apresentar no Festival o espetáculo Quando Explodem as Paredes, sua última criação.
       
06/09/2018