domingo, 24 de maio de 2026

12º ROUND – A HISTÓRIA DE EMILE GRIFFITH

 

Ambientes conservadores como o futebol, os esportes em geral e até o meio religioso costumam negar que neles há homossexualismo, mas a realidade já se mostrou bem diferente.

Em boa hora vem à tona a história de Emile Griffith (1938-2013), um caso perverso de cancelamento por preconceito sofrido por esse boxeador pelo fato de ser homossexual em um meio machista e conservador como o box nas décadas de 1950 e 1960 onde preconceitos e censura eram ainda mais  acirrados do que nos dias de hoje, mesmo assim o nome de Emile Griffith ainda parece ter sido apagado da história do esporte, como reforça o diretor do espetáculo, Bruno Lourenço, no release da peça; “Um campeão mundial praticamente apagado do nosso imaginário por homofobia. Como é possível que saibamos tanto sobre Muhammad Ali, Pelé, Michael Jordan e quase nada de Griffith?”, daí a importância do resgate idealizado pelo ator Fernando Vitor, dramatizado por Sérgio Roveri e trazido a cena pelo recém criado “Coletivo Nocaute” com direção de Bruno Lourenço.

No cenário concebido por Maira Souto e Natália Burger, um ringue de box divide o vestiário e uma sala onde acontecem várias cenas. A iluminação é assinada por Ariel Rodrigues.

O texto de Roveri percorre a trajetória de Griffith em rounds, terminando no 12º em 1962, onde o boxeador nocauteou seu adversário – aquele que o havia agredido verbalmente, chamando-o de bicha e viado - com tal violência que resultou na morte do sujeito dez dias após a luta. Essa morte causou remorso a Griffith durante muitos anos.

A encenação de Bruno Lourenço é pop, pondo o elenco a coreografar “dance music” em vários momentos, suavizando a aridez do tema. Cabe notar a ótima trilha sonora a partir de sucessos da época.

Fernando Vitor tem físico e preparo técnico no box para interpretar Griffith com muito vigor e paixão. Alexandre Ammano, que já brilhou em “O Avesso da Pele” e “A Máquina”, volta a fazê-lo nos papeis do amante e do adversário cubano. Letícia Calvosa empresta sua bela figura às diversas personagens femininas da trama.

Após temporada no SESC Ipiranga em 2025, o espetáculo está de volta em bem-vinda temporada no TUSP – Maria Antônia de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 19h. Ingressos gratuitos.

 

24/05/2026

sábado, 23 de maio de 2026

NA ANATOMIA OCA DOS PÁSSAROS

 

Fotos de Guto Muniz

A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar) 

Inicio esta matéria com um chavão: a sensibilidade à flor da pele das duas euritmistas que abrem o espetáculo é transmitida de imediato para o público que acompanha deslumbrado a evolução da cena.

Este escrito pode parecer exagerado, mas poucas vezes em minha longa trajetória como espectador tive essa sensação de deslumbramento a que se refere Ferreira Gullar na frase em epígrafe.

        O mote da peça de Dino Bernardi é o dilema e o remorso de Santos Dumont diante do uso bélico e destruidor de sua invenção. As divagações do inventor são ditas de maneira solene por Fernando Aveiro, provando sua versatilidade, haja vista sua composição gaiata e extrovertida em “Lokona” (ainda em cartaz no mesmo espaço).


        Leigo no assunto recorri ao Google na definição suscinta de euritmia: “Ela tem como objetivo tornar visível através do corpo aquilo que normalmente apenas ouvimos; traduzindo ritmos, melodias, vogais e consoantes em gestos.” e isso realmente se torna visível nas impressionantes performances de Marília Barreto e Renate Nisch, algo bastante distinto de uma coreografia para ballet ou da expressão corporal de atores em peças de teatro. Fica difícil traduzir em palavras, mas é diferente e extremamente sensitivo.

        O diálogo cênico entre o gestual das euritmistas, os sons sofisticadíssimos compostos por Marcelo Petraglia e executados ao vivo por Luis Antonio Ramoska (fagote) e Saulo Camargo (percussão) e as intervenções de Fernando Aveiro como Santos Dumont é indescritível.

        Somam-se à beleza da encenação de Dino Bernardi, os objetos de cena criados por ele e Cesar Rezende e a iluminação de Thiago Capella.

        Nem sempre a soma de tantos talentos resulta em algo poderoso e belo, mas neste caso está mais que provado que dois mais dois é muito mais que quatro.

        Só vendo! Só vendo!

        Vejo no release que este espetáculo data de 2019 e fico muito surpreso que nesses sete anos não tenha tido a repercussão merecida por parte da crítica nos palcos paulistanos.

        Ainda há tempo dos sensíveis de plantão degustarem esta obra prima no Teatro Manás Laboratório até 29 de maio, com sessões de quarta a sexta às 21h.

 

        23/05/2026       

 

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

SETE MINUTOS

 

“Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem essa é

a primeira experiência teatral e outras para quem essa

será a última.”

(Ariane Mnouchkine) 

O texto de Antonio Fagundes é uma declaração de amor ao teatro e ao respeito e interação que deve haver entre o elenco e o público.

Os primeiros quinze minutos da peça mostram o incômodo e até a revolta da personagem do velho ator (Norival Rizzo) que representava MacBeth e interrompeu o espetáculo diante das atitudes do público como querer entrar atrasado na plateia após o espetáculo já ter iniciado, desembalar bala ruidosamente, atender o celular, se espreguiçar e até tirar os sapatos. Ele expõe seus sentimentos para um jovem ator (Conrado Sardinha) e para a produtora (Natália Beukers) que tentam pôr panos quentes na situação.

Como todo espectador que também vê o teatro como um espaço sagrado, não há como não se solidarizar com as queixas do ator.

Esses quinze minutos são o cerne da peça de Fagundes e sua parte mais brilhante, depois disso a ação apresenta a reação do público diante da interrupção do espetáculo pelo ator, entrando em cena uma mulher queixosa que chegou um minuto atrasada e foi impedida de entrar (Ana Andreatta), um senhor que vinha a um “show-teatro” pela primeira vez e viu o mesmo interrompido (Walter Breda) e um guarda (Fábio Esposito) que vê como missão descobrir se é o público ou o ator quem está com a razão. Esta segunda parte recai em uma comédia sem trazer maiores novidades para a trama, além de incluir cenas que parecem estar ali para aumentar a duração da peça, como as digressões do ator sobre a origem do teatro (Tespos), a história sobre um espetáculo de Martha Graham onde uma senhora do público chorou copiosamente contada pelo jovem ator e o longo monólogo do velho ator quase ao final do espetáculo, que resvala para uma melodramaticidade desnecessária.

A jovem Natália Beukers mostra-se corajosa e eficiente ao produzir o espetáculo contando com importantes profissionais como Fábio Namatame (cenário e figurinos), Domingos Quintiliano (design de luz), Jonatan Harold (música original e sonoplastia) e o próprio Antonio Fagundes na direção.

Os veteranos Norival Rizzo e Walter Breda (este apesar da pequena participação) brilham em cena e estão muito bem acompanhados pelos jovens Conrado Sardinha e Natália Beukers. Completam o elenco Fábio Esposito que exagera na truculência do policial e Ana Andreatta numa engraçada composição como a mulher estressada.

É importante mostrar no teatro o imediatismo que hoje existe onde as pessoas não têm mais paciência de ler um longo texto, ou de assistir uma obra mais longa, seja no cinema ou no teatro, sem consultar o celular para saber se a empregada já deu semente de girassol para o papagaio. Que a peça sirva de lição para aqueles que assim agem.

Teatro é um solo sagrado, vamos respeitar!! 

SETE MINUTOS está em cartaz no Teatro Cultura Artística até 1º de agosto. Sexta e sábado 20h / Domingo 18h

IMPERDÍVEL PARA QUEM AMA O TEATRO!


21/05/2026

domingo, 17 de maio de 2026

SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR

 

BETH CONTA CLARICE EM TEMPO DE DELICADEZA

 

        Intercalando falas de Clarice Lispector com trechos de suas obras, Beth Goulart construiu a dramaturgia deste raro recital onde a atriz apresenta a biografada com muita sensibilidade e delicadeza.

        A prosa de Lispector é cheia de nuances e filigranas, nem sempre detectadas em um primeiro contato; Beth consegue a proeza de traduzir essa prosa, que também é poesia, de forma clara e precisa embalando o público no universo “lispectoriano”.

        O cenário muito claro de Ronald Teixeira e Leobruno Gama é composto de uma enorme cortina de tiras que ocupa toda a volta do palco, uma cadeira e um sofá e é belamente iluminado com o usual talento de Maneco Quinderé.

        Dias atrás comentei sobre a problemática solução encontrada em um espetáculo, para a troca de figurinos das atrizes. Neste trabalho a troca de figurinos de Beth é uma verdadeira obra de arte. Sutilmente ela se dirige a um ponto da cortina e deixa elementos, retirando outros que elegantemente veste em cena sem quebrar o clima de encantamento.

        Beth Goulart é uma grande atriz que honra a herança recebida de seus pais Nicette e Paulo e é com muito talento que ela interpreta e dirige esse belíssimo espetáculo que tem supervisão artística de Amir Haddad. É muita gente boa reunida!!

        Esse trabalho foi concebido e apresentado há 17 anos, quando ganhou vários prêmios e o bonito, é que ele mantém o frescor e a mesma qualidade da estreia.

        A peça está em cartaz no Teatro Moise Safra (não confundir com o Teatro J. Safra) com capacidade para 420 espectadores e estava completamente lotado na sessão de ontem (16/05), onde as 420 pessoas presentes ovacionaram emocionadas a apresentação de Beth, que ao final ainda reforçou as ideias de Clarice e as suas próprias sobre a importância do amor, da espiritualidade e da humanidade na vida dos seres humanos.

        Grande lição de vida a ser prestigiada por todos aqueles que, como dizia Anne Frank, apesar de tudo ainda acreditam na bondade humana.

        Em cartaz até 13/06. Sessões sexta, 20h / sábado e domingo, 19h.

        17/05/2026

 

 

       

sexta-feira, 15 de maio de 2026

AS CENTENÁRIAS

 

        1 – A primeira montagem

Em 2009, apesar da excelência do autor (Newton Moreno), do diretor (Aderbal Freire Filho) e das atrizes (Andrea Beltrão e Marieta Severo) para mim algo não funcionou e sai do espetáculo frustrado quando vi a expectativa de ver esse quarteto de ouro não ser correspondida. O espetáculo fez muito sucesso e agradou a maioria das pessoas e, talvez, eu não estivesse em um bom dia para usufruir do mesmo. 

2 – Pura delícia

Quase dezessete anos depois Juliana Linhares teve a ideia de fazer um musical com a peça e o resultado é essa delícia ora em cartaz no SESC Bom Retiro.

Chico Cesar musicou letras escritas por Moreno, escreveu algumas letras e aproveitou “incelenças” que já constavam do original e o resultado é uma bela partitura muito bem dirigida e arranjada por Elisio Freitas. Um quarteto de músicos acompanha toda a encenação.

O texto de Moreno parece ter ganho um frescor com o reforço na gaiatice das personagens, algo muito valorizado por Laila Garin (Socorro), Juliana Linhares (Zaninha) e o músico Leandro Castilho em diversos papeis. Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto são referências muito bem-vindas nesta obra do dramaturgo e não há como não lembrar de João Grilo e Chicó na relação e nas atitudes das duas carpideiras, assim como na aparição de Nossa Senhora em “O Auto da Compadecida” na hilária cena em que Socorro se veste de Deus para salvar Zaninha da morte. Longe de imitação, trata-se de inspiração que valoriza ainda mais a obra desse grande autor.

Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do memorável “Vau de Sarapalha”, mais uma vez acerta acentuando o humor do texto e valorizando o trabalho do elenco, auxiliado pela parte musical já citada acima, pela movimentação das atrizes orquestrada por Vanessa Garcia, pela cenografia discreta, mas eficiente de Aurora dos Campos, iluminada por Elisa Tandeta e os figurinos (Kika Lopes e Heloisa Stockler), incluindo os crochets de Juliana Martins.

Se há um senão, e sempre há um senão, fica por conta das mudanças de figurino das atrizes de uma cena para outra, sempre realizadas da mesma forma com elas na penumbra, enquanto o conjunto toca uma música até elas estarem prontas e entrarem em cena novamente. Essas interrupções quebram momentaneamente o encanto do espetáculo e talvez pudessem ser realizadas de forma mais criativa.

O teatro brasileiro fica em festa com um espetáculo como esse, sentindo-se forte e valorizado.

Viva o teatro brasileiro! 

AS CENTENÁRIAS está em cartaz no SESC Bom Retiro até 14 de junho de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h.

O teatro é pequeno para comportar espetáculo tão bom e de forte apelo popular, por isso CORRA para adquirir o seu ingresso.

15/05/2026

 

 

 

 

 

 

domingo, 10 de maio de 2026

NA SALA DOS ESPELHOS

 

1 – Um voto tardio/Antes tarde do que nunca.

Quando os jurados da APCA da categoria teatro se reuniram para fazer as indicações do segundo semestre de 2025 ao analisarem os nomes das atrizes, aquele de Carolina Manica surgiu com muita força e bastante elogiado por boa parte do grupo pelo seu trabalho em “Na Sala de Espelhos”. Infelizmente, eu não tive a oportunidade de assistir ao espetáculo e na hora da votação, obviamente não pude votar em Carolina e ela recebeu a indicação junto com outra duas atrizes. Fiquei com muita vontade de assistir ao seu trabalho, mas a peça já não estava mais em cartaz.

Meses depois, na noite de ontem, tive a chance de assistir “Na Sala dos Espelhos” e comprovar o imenso talento de Carolina na interpretação daquela mãe que põe em xeque as aparências dela e de sua filha Nina. Aqueles colegas da APCA que votaram nela estavam certos e, embora tardiamente, meu voto também é para ela.

2 – O espetáculo

A peça é uma adaptação das diretoras Michelle Ferreira e Maira De Grandi do livro homônimo da quadrinista sueca Liv Strömquist (1978-) e a encenação não nega sua origem em uma história em quadrinhos. A iluminação cheia de nuances do premiado Caetano Vilela e os figurinos de Fábio Namatame colaboram para o bom resultado da encenação onde o foco principal é o trabalho da atriz.

Numa interpretação onde a expressão corporal tem a maior importância, a atriz dialoga em perfeita sintonia com a poderosa trilha sonora criada por Ava Rocha e Grisa. A movimentação cênica de Carolina na primeira parte da peça é de tirar o fôlego do público.

Quando parece que todas as surpresas tinham sido postas em cena, a atriz aparece como a rainha má da Branca de Neve e, mais uma vez, dá um show na frente do espelho ao perguntar várias vezes a ele “Diga, espelho meu, existe neste reino alguém mais bela do que eu?”

O tempo passa para todas as personagens e a peça termina de forma emocionante, do mesmo modo como acaba para todos nós.

A ovação do público ao final é prova da beleza desse espetáculo e do talento de Carolina Manica.

Neste domingo é a última apresentação na cúpula do Theatro Municipal, mas fique atento que ele pode voltar em outro espaço. 

10/05/2026

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O HOMEM DECOMPOSTO

 

Foto de Nil Caniné

“Que obra de arte o homem é”

(William Shakespeare) 

         A metáfora do espelho quebrado usada pelo dramaturgo romeno/francês Matéi Visniec (1956-) para comentar essa peça é muito oportuna. Realmente ele estilhaça/decompõe o ser humano e o revela impiedosamente por meio de seus cacos. Esses cacos humanos resultaram em cenas curtas que integram o texto.

        O encenador Ari Coslov recolheu alguns desses cacos e os mostra nesse belo espetáculo vindo do Rio de Janeiro e recém estreado no SESC Pinheiros. Ele deixa atrizes e atores à vontade em um palco nu, mas muito bem iluminado por Aurélio de Simoni, para brilharem, quer em solos, quer em cenas de conjunto, por meio de seus talentos e suas incríveis movimentações em cena dirigidas por Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

        A peça inicia com uma reconstituição, a meu ver irônica, mas muito bela da "Santa Ceia" de Leonardo Da Vinci e segue com a apresentação dos cacos humanos, sendo o primeiro aquele do homem que se refugia em um círculo, clara referência ao doentio individualismo que tomou conta da nossa espécie. Mario Borges defende com paixão esse personagem.

        E as cenas se sucedem com excelentes intervenções de Júnior Vieira (invejável dicção), Marcelo Aquino (ótimo como o homem que não consegue parar de correr), Andrea Dantas (estreando em São Paulo, substituindo brilhantemente Guida Vianna) e Dani Barros, de quem os palcos paulistanos estavam sentindo muito a sua falta.

Assistir a Dani Barros contando a história das borboletinhas carnívoras é uma prova de que os seres humanos são verdadeiramente uma obra de arte e, como tal, criam outras pérolas de arte.

Cabe notar, porém, que esse mesmo ser humano é capaz de ações terríveis, tal como mostra este espetáculo.

Cruel e mordaz em sua crítica aos desmandos do homem, mas repleto de toques de humor, “O Homem Decomposto” é mais uma prova que a obra de Visniec é cada vez mais necessária e prova também a qualidade de espetáculos cariocas que chegam até aqui.

O HOMEM DECOMPOSTO está em cartaz até 06/06 no SESC Pinheiros de quinta a sábado às 20h30.

IMPERDÍVEL! 

08/05/2026

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MADAME BLAVATSKY – AMORES OCULTOS

 

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”

(Shakespeare em “Hamlet”)

Já há alguns anos Mel Lisboa vem atuando nesse monólogo e só agora tive a oportunidade de assistir a esse belo trabalho que deveria ter merecido muitos prêmios na ocasião de sua estreia, mas nunca é tarde para elogiar a rigorosa composição de Helena Petrovna Blavatskaya (1831-1891), conhecida por Madame Blavatsky, criada por Mel.

Em recurso dramatúrgico bastante interessante, a autora Claudia Barral, levando em conta a mediunidade de Madame Blavatsky, coloca em cena uma atriz que por meio de uma incorporação mediúnica recebe Madame, que passa a revelar ao público fatos de sua vida e de seu pensamento.

Poucas vezes a frase de Shakespeare em epígrafe casou tão bem com um espetáculo.

Marcio Macena é o diretor do espetáculo e  João Pimenta assina o sugestivo figurino vestido pela atriz.

Mel transita de uma a outra personagem de maneira criativa, mostrando sua versatilidade em cena; para reforçar este fato basta citar que há poucos metros dali (Teatro Porto) ela incorpora Rita Lee há mais de um ano.

Nosso teatro precisa de atrizes com esse talento.

Parabéns Mel!! 

MADAME BLAVATSKY está em cartaz no Teatro Estúdio às segundas e terças às 20h no Teatro Estúdio.

NÃO DEIXE DE VER! 

07/05/2026


 

terça-feira, 5 de maio de 2026

MOMENTOS DA CERIMÔNIA DE ENTREGA DO PRÊMIO APCA 2025


MOMENTO NOBRE 

O Teatro de Contêiner Mungunzá foi premiado na categoria arquitetura por sua RESISTÊNCIA URBANA.

O grupo recebeu o prêmio com um protesto belíssimo e elegante sobre o despejo do Contêiner, digno de outro prêmio.

Um garoto, filho de Marcos Felipe e Sandra Modesto iniciou os agradecimentos, complementados por Sandra.

PARABÉNS MUNGUNZÁ!! E RESISTAM...


MAIS UM MOMENTO NOBRE 

Haisem Abaki foi premiado na categoria rádio e seu agradecimento foi acompanhado por um coro apaixonado do público: FICA ELDORADO!!!

Emocionante.


MOMENTO BOTIJA

 Os queridos Jhoao Junnior e Maria Alencar recebendo o prêmio APCA na categoria teatro infanto-juvenil pelo delicioso espetáculo A BOTIJA, um pequeno inventário de histórias fantásticas do Nordeste Brasileiro.

PARABÈNS!!! 


MAIS UM MOMENTO 

A cerimônia iniciou com a premiação da categoria televisão e o primeiro prêmio foi para Lima Duarte com o “Troféu especial 75 anos da TV brasileira”.

O grande Lima Duarte foi ovacionado de pé quando entrou no palco e iniciou um discurso sobre sua trajetória desde a infância. Premidos pelo tempo Barbara Salomé e Daniel Warren tentavam timidamente interromper o ator que se recusava a parar. Com a ajuda dos aplausos da plateia o discurso foi interrompido nos anos 1950, quando ele entrava na televisão. Se deixasse, Lima varava a noite até chegar nos seus atuais 95 anos.

Grande presença!


OUTRO MOMENTO 

Discreto e elegante Ney Matogrosso recebeu o Grande Prêmio da Crítica na categoria música popular.

Merecidamente muito aplaudido! 


O MOMENTO TEATRO 

E aqui fotos dos premiados na categoria TEATRO da qual faço parte como jurado.

PARABÉNS a essa turma linda que engrandece essa arte apaixonante.

Viva Silvia Gomez, Dinho Lima Flor, Marcelo Medici, Paula Cohen, Grupo Galpão, Programa Persona e Caetano Vilela.

Silvia Gomez
Dinho Lima Flor
Marcelo Medici
Paula Cohen
Grupo Galpão - Fernanda Vianna
Persona - Atilio Bari
Caetano Vilela

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CHEZ TOI

 

Abigail (Barbara Bruno) é uma senhora idosa voluntariosa e impertinente sempre praguejando contra as brincadeiras da vizinha adolescente Paulina (Nalu Albuquerque) e muito incomodada com a relação delicada que tem com sua filha Emily (Bianca Rinaldi). Laura (Viviane Figueiredo), ex-companheira de Abigail, aparece de forma inusitada para ajudar a resolver esses problemas de relacionamento.

O autor Dan Rosseto apresenta esse universo feminino usando elementos de realismo mágico para denunciar de forma delicada e com toques do humor assuntos sérios como etarismo e preconceito.

Rosseto, também diretor do espetáculo, imprime tom realista desde o cenário até a interpretação das atrizes.

Bianca Rinaldi compõe Emily com delicadeza, mas sempre reagir com firmeza quando necessário,

Nalu Albuquerque, filha de Dan, é o que se pode dizer, uma “gracinha” em cena, com dicção perfeita e muito à vontade, prenunciando um belo futuro na carreira teatral.

Viviane Figueiredo utiliza seus recursos vocais e de dançarina para compor a enigmática Laura, em um registro que foge do tom realista.

Como veículo para o talento de Barbara Bruno, a peça acerta em cheio. A querida atriz comemora neste ano 55 anos de presença nos palcos e 70 anos de presença na vida. Vê-la em cena como Abigail é daqueles prazeres que o teatro ocasionalmente nos oferece.

De lambuja, tive o prazer de sair em uma fotografia com Barbara e Beth Goulart, que foi prestigiar a irmã naquela sessão.

VIVA A FAMÍLIA BRUNO GOULART!

VIVA O TEATRO!! 

CHEZ TOI está em cartaz no Teatro Nair Bello no Shopping Frei Caneca de 01/05 a 07/06. Sexta e sábad0 20h e domingo 18h. 

04/05/2026

 

domingo, 3 de maio de 2026

UMA VELHA CANÇÃO QUASE ESQUECIDA

 

Fotos de Ronaldo Gutierrez

Doenças, acidentes, perdas de parentes e amigos são temas sempre difíceis, incômodos e até desagradáveis para serem tratados pelo cinema e pelo teatro. Alguns bons exemplos podem ser encontrados nas duas artes, mas em geral resultam em obras tristes e sombrias.

A dramaturga irlandesa Deirdre Kinaham (1968-) realiza caminho inverso em “Uma Velha Canção Quase Esquecida” mostrando com muita delicadeza e toques do humor a decadência de um velho ator com doença de Alzheimer e sua luta para resgatar velhas memórias contando para isso com o auxílio do seu eu mais jovem. Esse achado dramatúrgico resultou em excelente texto teatral, traduzido cenicamente para nossos palcos por Domingo Nunez também com muita delicadeza.

Domingo Nunez da “Cia Ludens” é especialista no teatro irlandês e já apresentou significativas obras daquele país em nossos palcos. Esta montagem ancora-se na interpretação de dois atores, mas é bem complementada pelo cenário criado por Marisa Rebollo e belamente iluminado por Zerlô.

A trilha sonora composta por Mario da Silva é executada ao vivo por Aline Reis, Mafê e Vinicius Leite, dialogando e até interferindo com as cenas.

Genézio de Barros interpreta o velho ator com seus talento e elegância habituais. Apenas mudanças faciais podem trazer todo o significado do que está ocorrendo. Esta vigorosa interpretação vem se somar a outros grandes trabalhos já realizados por esse grande ator.

Iuri Saraiva tem o desafio e o privilégio de contracenar com Genézio interpretando o ator quando jovem como também outras figuras que passaram por sua vida como a mãe orgulhosa do filho ator. Apesar de relativamente jovem, Iuri é um ator consagrado no cinema e no teatro, mas seu desempenho neste espetáculo, no meu modo de ver, supera tudo o que fez até hoje, pela versatilidade, pela movimentação ágil e pela garra em cena.

Presenciar a atuação desses dois grandes atores é mais um presente que o teatro gentilmente oferece a este velho espectador.

O belo programa com fotos de Ronaldo Gutierrez e textos importantes, me foi gentilmente enviado pelo diretor de produção André Roman e, infelizmente, não foi impresso pelo SESC Pompeia. Um desserviço irreparável. 

Todo grupo responsável por esse belo trabalho

UMA VELHA CANÇÃO QUASE ESQUECIDA está em cartaz no SESC Pompeia de 02 a 24 de maio. Sessões: Quarta, quinta e sábado - 20h / Sexta – 16h e 20h / Domingo – 18h

Não DEIXE DE VER! 

03/05/2026

sábado, 2 de maio de 2026

TIP

 

 

Muito bonita, Milla Fernandez chega a São Paulo como um furacão incendiando o palco do Teatro YouTube/Eva Herz com muita garra e energia ao relatar sua experiência como “camgirl”(**) durante a pandemia da Covid em 2020/2021, com o intuito de se sustentar e sobreviver.

A peça é uma autoficção, mas vem recheada de fatos não acontecidos saídos da imaginação da autora.

O primeiro terço da peça é um desabafo lufado em alta velocidade (às vezes até incompreensível) onde Milla conta os antecedentes de sua experiência. No restante do espetáculo ela “dá uma aula” de como entrar nesse universo erótico virtual e depois ilustra com vários casos acontecidos com ela durante sua exposição como “camgirl”.

Para tanto a atriz desdobra-se no palco com invejável vigor físico dançando, falando, tocando sax e cantando de maneira admirável. Há até uma deliciosa dança dos pés, iluminada com carinho por Rodrigo Portella.

Rodrigo Portella, em mais um exemplo de sua criatividade, dirige o espetáculo e a interpretação de Milla a partir do cenário e da iluminação criadas por ele. Milla desloca-se em perfeita sintonia com os focos de luz, driblando com incrível domínio as dobras dos dois tapetes vermelhos que compõem o cenário.

É digna de nota a trilha sonora criada por Federico Puppi e por Leonardo Bandeira. O figurino flexível vestido por Milla é de autoria de Karen Brusttolin.

Milla Fernandez mantém o público “aceso” nas quase duas horas que dura o espetáculo, algo surpreendente quando se trata de um monólogo.

Pode parecer superficial da minha parte escrever que a figura de Milla me remeteu à exuberância de Norma Bengell e sua interpretação me fez lembrar de Marília Pêra em alguns momentos. Espero que a atriz veja isso como um elogio 

TIP está em cartaz no Teatro Youtube/Eva Herz até 31/05. Sexta e sábado 20h. Domingo 17h. 

(*) – Gorjeta em inglês. 

(**) Direto da wikpedia: “Uma modelo de webcam, também conhecida como camgirl , é uma mulher que atua na Internet através de imagens de webcam ao vivo. Um modelo de webcam geralmente realiza serviços sexuais (como striptease e masturbação) em troca de dinheiro, bens, atenção, ou gorjetas (tip)” 

02/05/2026

 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

FIM DE PARTIDA

 

Samuel Beckett (1906-1989) escreveu suas três peças mais conhecidas entre 1948 e 1960, período de pós guerra, onde reinava certo ar de desesperança em uma Europa devastada pela segunda guerra mundial.

Esse clima sombrio e de falta de perspectiva está presente em “Esperando Godot” (1948/1952), “Fim de Partida” (1957) e “Dias Felizes” (o título mais irônico do teatro!) (1960) e, com certeza “Fim de Partida” é a mais desesperançada das três peças.

Entre

- “É o fim. Isto vai acabar. Talvez...acabe” dito pelo personagem Clov no início da peça e

- “Visto que isso é assim... seja assim e... não falemos mais nisso”, últimas palavras de Hamm agora totalmente solitário já que Clov e o pai não respondem mais aos seus chamados.

acontece a ação da peça que é um suceder de diálogos entre Hamm um homem cego, paralítico e autoritário e seu serviçal (?) Clov, submisso e infeliz.

Em certos momentos entram em cena Nagg e Nell, pais de Hamm que repousam, até felizes, em duas latas de lixo.

Das três peças, “Fim de Partida” talvez seja aquela de maior dificuldade de comunicação com o público, mas isso não é problema para Rodrigo Portella, diretor do presente espetáculo, que o faz com rara sensibilidade.

Considero Portella “l’enfant terrible” do teatro brasileiro.

Desde o memorável “Tom na Fazenda” em 2017, ele vem colecionando sucessos de crítica e de público com espetáculos muito bem sucedidos (“Insetos”, “As Crianças”, “Ficções”, “[Um] Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Motociclista no Globo da Morte”, são algumas das encenações que chegaram em São Paulo). Estão estreando em São Paulo este “Fim de Partida” e “Tip”. “Deus da Carnificina” está em cartaz no Rio de Janeiro e já há outro trabalho em ensaios por lá.

Currículo invejável nessa trajetória de menos de dez anos a partir de “Tom na Fazenda” que o qualificam para o título que lhe dei acima.

A encenação de “Fim de Partida” em cartaz no SESC Pinheiros é primorosa desde o cenário limpo, mas claustrofóbico de Daniela Thomas e iluminado pelo sempre brilhante Beto Bruel. Os figurinos são de Antonio Guedes e a trilha sonora com toques de humor felliniano assinada por Federico Puppi já prepara o público para o que há de vir com a cortina ainda fechada. Portella harmoniza todo esse conjunto com as interpretações soberbas do elenco.

O toque de mestre do diretor já se faz presente no início da peça quando se ouve uma gravação com as rubricas da peça e Clov se movimenta de acordo com as mesmas.

Helena Ignez (Nell) e Ary França (Nagg) brilham nos momentos que lhes é permitido colocar as cabeças fora das latas de lixo.

Marco Nanini empresta seu talento mais que comprovado na composição do inerte Hamm, onde toda interpretação depende apenas da parte vocal, pois não vemos os seus olhos nem movimentos corporais.

Grande destaque para Guilherme Weber que interpreta Clov curvado o tempo todo com toques piolinianos(*), chaplinianos e fellinianos, tudo ao mesmo tempo! Belíssimo trabalho.

Tudo isso faz de “Fim de Partida” um espetáculo absolutamente IMPERDÍVEL.

Cartaz do SESC Pinheiros de 30/04 a 31/05. Quarta a sábado, 20h. Domingo, 18h. 

(*) Refere-se a Piolin (1897-1973), um dos palhaços mais engraçados e humanos surgidos no circo brasileiro. 

01/05/2026