A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra
(Ferreira Gullar)
Em 2024, iniciei matéria sobre a
encenação de “Shakespeare Apaixonado” com a seguinte frase: “Com pouco mais
de 40 anos, Rafael Gomes firma-se cada vez mais como realizador tanto de filmes
como de peças teatrais, mesmo assim é digna de surpresa a maturidade e o
excelente resultado do espetáculo ora em cartaz no 033 Rooftop.”
Em 2026, com a soberba encenação de
“Hamlet”, Rafael, ainda distante de completar 50 anos (nasceu em 1982), surpreende
ainda mais e qualifica-se junto com Rodrigo Portella (nascido em 1977), como os
melhores encenadores jovens do teatro brasileiro e em quem se deposita a
esperança de que realizem mais e mais grandes trabalhos dignos de Antunes,
Aderbal e Zé Celso, memoráveis encenadores que deixaram grandes lacunas no
cenário teatral.
Rafael situa o seu espetáculo nas
ruínas do Cine Copan, desativado há alguns anos. Usando como cena a antiga
plateia do cinema, ele explora todo o amplo espaço de maneira exemplar com o
grande auxílio da direção de movimento do elenco e a coreografia assinados por
Fabrício Licursi e também com a cenografia de André Cortez.
Hamlet é uma peça difícil no conteúdo em
função da trama não linear e com muitos personagens complexos envolvidos. Com
pequenas mudanças na ordem de algumas cenas a tragédia de Hamlet, muito bem
traduzida por Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington está ali
por inteira, podendo ser perfeitamente entendida e apreciada por todo e
qualquer público.
A forma de encenar Hamlet exige muita
criatividade do encenador para resolver cenicamente cenas como o aparecimento
do fantasma e a morte de Ofélia, entre outras. As soluções encontradas por
Rafael são de uma beleza de arrepiar. A iluminação de Wagner Antônio contribui
de maneira decisiva para a beleza da encenação.
A sonorização de um espetáculo no
grande ambiente do Cine Copan também é fator decisivo para a compreensão
daquilo que é dito em cena e para os efeitos sonoros de grande importância na
trama. Créditos para Barulhista e Antonio Pinto (trilha sonora) e Gabriel
D’Angel, Fernando Wada e Gabriel Villas (design de som)
Ainda a destacar na imensa ficha
técnica o visagismo (Pamella Franco), os figurinos (Alexandre Herchcovich) e a
maquinária e vestimenta cênica (Tibúrcio Produções)
Rafael Gomes se vale de todo esse
aparato técnico para realizar uma das encenações melhor sucedidas do teatro
contemporâneo, mas nada disso aconteceria se ele não tivesse um elenco à altura
para materializar as personagens.
Elenco homogêneo e integrado, mas não
há como não destacar Felipe Frazão como Horácio, Eucir de Souza que brilha
tanto como o Fantasma como o Rei Claudio, Samya Pascotto que mostra firmeza na
fragilidade de Ofélia, Fafá Renó, que já havia se destacado como a Ama em “Shakespeare
Apaixonado”, volta a mostrar a sua versatilidade como Polônio e Susana Ribeiro
como a Rainha Gertrudes e o Ator da Companhia de Teatro.
Propositalmente deixo por último o
destaque dos destaques: Gabriel Leone. Este espetáculo não existiria se não
contasse com essa superlativa interpretação. Ao conceber o personagem de
Hamlet, Shakespeare deve tê-lo imaginado como Lawrence Oliver e Gabriel Leone.
Na minha trajetória de espectador já assisti a vários intérpretes de Hamlet:
Walmor Chagas, Marco Ricca, Diogo Vilela, Wagner Moura e Patrícia Selonk, todos
excelentes, mas nenhum se iguala a Gabriel Leone na completude da personagem.
Gestual preciso, movimentação cênica, emissão de voz e perfeição nas nuances de
comportamento exigidas pela personagem fazem do seu Hamlet um momento mágico de
nosso teatro.
Não há temporada teatral em qualquer
lugar do mundo que pode contar com espetáculos do calibre de “Medea” de Gabriel
Villela, de “O Retorno” de José Roberto Jardim e de “Hamlet” de Rafael Gomes
simultaneamente em cartaz.
No ano de 1975 tive o privilégio de assistir “Timon de Atenas” em Paris montada por Peter Brook no teatro “Bouffes du Nord”, que na ocasião estava em ruínas. Aquela sensação estranha e ao mesmo tempo fascinante de assistir a um Shakespeare em ambiente sombrio e em ruínas foi sentida novamente ao presenciar “Hamlet” no Cine Copan.
Aplausos calorosos para toda a equipe do
espetáculo e em particular para Gabriel Leone e Rafael Gomes.
O resto é silêncio.
HAMLET está em cartaz no Cine Copan até 19/04 com sessões quartas e sextas, 20h / quintas, 20h30 / sábados 16h e 20h / domingos, 17h. O espetáculo tem duas horas de duração, sem intervalo.
ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL
27/02/2026










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