Ato único
Eu acho que eu não vou mais em estreias.
- Boa noite, eu gostaria de retirar um
par de convites.
- É convidado da produção ou de quem?
- Recebi o convite da assessoria de
imprensa.
- Ah, então não é aqui, é lá naquele
balcão.
Depois de perambular pelos 427 balcões
do teatro finalmente estou com o ingresso em mãos e me dirijo à entrada. Após
várias tentativas sem sucesso, finalmente o aparelho do porteiro consegue ler o
Qr code do meu bilhete e eu entro na sala de espera que está lotada de
convidados do elenco, de elementos da classe teatral, de críticos e de muita
gente especializada em ir a qualquer evento que sirva um coquetel.
- Oi, quanto tempo, que saudades!! (beijinhos,
beijinhos).
Com frases desse tipo, que remetem
àquelas da canção “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola, as pessoas vão
circulando rapidamente, para se fazer notar para o maior número dos presentes.
Entra-se na sala de espetáculos. Após
atraso de meia hora, toca o terceiro sinal e o espetáculo vai começar, mas pode
acontecer da cortina insistir em não abrir atrasando mais um pouco o início.
No palco sempre tem uma luz que não
foi afinada ou um spot que se recusa a acender, vez ou outra o som não foi
equalizado ou falha o microfone de alguém do elenco.
Acontece também de um ator não ter o
texto totalmente decorado ou de uma atriz ainda não saber a marcação da cena.
Barbara Heliodora dizia que na estreia
o espetáculo já devia estar completamente pronto, mas isso nem sempre acontece.
Como a plateia de estreia (e/ou sessão
vip e/ou sessão para convidados) é formada por amigos e familiares do elenco as
risadas e os aplausos quando um ou outro intérprete aparece em cena são comuns
e, ao final, os aplausos - em pé, é claro! -, são verdadeiras ovações, seguidas
de um prolongado e sonoro UUUU!; por
sinal quem foi que inventou esse terrível UUUU, antigamente isso era vaia!
Nesses aplausos finais o elenco chama ao
palco o autor e o diretor que falam algumas palavras e vão chamando todas as
outras pessoas da produção que se acotovelam no palco em busca de um lugar ao
sol, e ainda há lugar para pedir aplausos até para o papagaio de louça que
enfeita a mesinha do cenário, prolongando o evento por mais de cinco minutos,
com o público amigo sempre aplaudindo calorosamente e gritando cada vez mais UUUU,
UUUU!
Chegou a hora do coquetel e de toda
galera lutar para marcar presença e aparecer mais do que as estrelas da peça,
além de buscar avidamente sua taça de espumante e suas guloseimas salgadas.
Circulando velozmente por todo o
espaço dando beijinhos e abraços a quem vê pela frente todos parecem muito
felizes com o que acabaram de ver.
As conversas, então, são de uma
originalidade à toda prova:
- Puxa, quanto tempo! Fazia meses que a gente não se via. Você não
tem mais recebido cortesia para as estreias?
- Que tal? Gostou?
- Gostei, mas tenho uns senões. (segue-se
um rosário de senões para um interlocutor absolutamente desinteressado)
- Você vai escrever?
- Aquela atriz é bonita, mas está bem
fraquinha, você não achou?
- Eu achei a direção GENIAL! Esse
encenador é mesmo um gênio!
- Aquela outra é boa atriz, mas está
tão acabada.
- Olá Olegário, vou aguardar ansioso
sua crítica irretocável, repleta de adjetivos tão significativos.
- Sabe quem está muito doente?
- Onde estão servindo o espumante?
- Nossa, como a Eliseth Porciúncula
está gorda!
- O que você vai assistir amanhã?
- Você tira uma foto minha com o
Cassiano Lebourge? Adoro o trabalho dele nas novelas da TV.
- Não tenho visto o Eleotério, onde
ele anda? Será que está doente?
- Vem comigo, quero dar um abraço na
Fernanda e tirar uma foto com ela.
- Procura a comidinha aonde está o
Serafim, ele está sempre perto da mesa de quitutes devorando tudo o que vê pele
frente.
- Vamos fazer uma selfie!?
- Ih, mas são sempre os mesmos
salgadinhos.
É... sempre digo que não venho mais em
estreias, mas acabo vindo!
- Por falar nisso, você gostou? Vai na
estreia de amanhã?
FIM
11/02/2026













