domingo, 15 de março de 2026

TRÁFICO

 

Sim!! Existe autoficção inteligente, criativa e que transcende o umbigo do autor.

 Sergio Blanco é o melhor exemplo disso com suas peças, muitas delas já encenadas por aqui, sendo que aquela que para mim é a melhor resolvida (“O Bramido de Düsseldorf”), curiosamente ainda não subiu em nossos palcos em montagem brasileira.

“Tráfico” teve uma rápida passagem por São Paulo em 2019, após se apresentar no Festival de Curitiba. Dirigida pelo autor, tinha o ator colombiano Wilderman García Buitrago como intérprete.

Blanco ao conhecer o ator Robson Torinni viu nele o tipo físico ideal para interpretar Alex, o personagem de “Tráfico”. Traduzida por Carolina Virguez, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta e adaptada para a montagem brasileira pelos dois últimos. a peça estreou no Rio de Janeiro em 2022, tendo cumprido temporadas de sucesso desde então. Finalmente chega em São Paulo em 2026, estando em cartaz no Teatro Estúdio.

Alex, um rapagão bonito, de classe baixa, vive na periferia de uma cidade qualquer e sobrevive como garoto de programa e depois se aprofunda na marginalidade atuando como matador de aluguel. Blanco define a personagem assim: “Alex tem trinta e três anos, é belo e mora na periferia de uma cidade qualquer. Tem uma moto. Uma arma. E um celular. Só isso”.

Ao mesmo tempo que tem prazer em contar sobre suas atividades, Alex vai a igreja confessar seus pecados, chora ao lembrar de sua mãezinha e chega a se apaixonar por um de seus clientes, um francês chamado...Sergio Blanco, que é dramaturgo e está escrevendo um monólogo chamado “Tráfico”!! (desta vez a personagem de Blanco não aparece em cena).

Sem qualquer qualquer conotação sexual é preciso declarar que a presença física de Robson Torinni é um colírio para os olhos e é com muita simpatia e sorrindo que ele recebe o público.

Além do físico exuberante, Torinni é um excelente ator e tem uma interpretação visceral como Alex, merecendo todas as indicações que recebeu aos prêmios cariocas de 2022. O fato deve se repetir em São Paulo.

A motocicleta presente na montagem de Blanco é aqui substituída por dois espelhos que a substituem de forma eficaz e tornam a cena muito bonita. A iluminação de Bernardo Lorga comenta e complementa toda a ação. O diretor Peralta também se vale da brilhante direção de movimento assinada por Toni Rodrigues que dá maior colorido à interpretação de Torinni.

O ano, ao que parece, será pródigo em memoráveis interpretações masculinas. Robson Torinni junta-se a Rafael Primot (Habitat), Edu Moscovis (O Motociclista no Globo da Morte), Gabriel Leone (Hamlet), Marco Antônio Pâmio e Luciano Gatti (Nós, os Justos) nessa lista dos melhores.

TRÁFICO está em cartaz no Teatro Estúdio até 03 de maio com sessões sextas e sábados 20h e domingos 18h.

IMPERDÍVEL! 

15/03/2026

 

sábado, 14 de março de 2026

VIGIADA E PUNIDA

 

Um musical "desagradável"

 

Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni...”

(Chico Buarque)

       Safia Nolin é uma cantora pop de Quebec, Canada nascida em 1992. Gorda, lésbica e de descendência árabe ela sofreu, assim como Geni, agressões tríplices de gordofobia, homofobia e xenofobia nas redes sociais.


Safia reuniu todos esses xingamentos nas letras das canções que escreveu para este musical, que, a maneira de Nelson Rodrigues, classifiquei de “desagradável”, mas que é muito bom e pertinente.

Atuam no espetáculo Sofia e a atriz Katia Lévesque, gorda como ela. Um afinadíssimo coral misto entoa as belas canções repletas de palavrões e de escatologia nas letras.

Safia canta, com voz muito doce, algumas canções se acompanhando ao violão.

A irreverência de Safia me remeteu a Nina Hagen, cantora alemã que fez muito barulho nos anos 1980.

O final, mais movimentado, com Safia e Katia à frente do coro remete àqueles finais tradicionais dos musicais.


À primeira vista pode parecer bizarro, mas é uma denúncia realizada com tal ímpeto e originalidade que toca e emociona. A reação entusiasmada do público ao final, prova a força da peça de Safia, dirigida por Philippe Cyr. 

VIGIADA E PUNIDA faz parte da 11ª MITsp e fica em cartaz até domingo, dia 15 no Teatro do SESI.

NÃO DEIXE DE VER!

14/03/2026

 

 

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

EPÍLOGO

 

Acredito que “O Que Meu Corpo Nu Te Conta” (criação de Marcelo Varzea de   2021) e “Epílogo” (criação de Rosane Chamecki e Andrea Lerner, apresentada da 11ª MITsp) nunca souberam um do outro, mas há um forte diálogo e pontos em comum entre eles, podendo até o segundo ter como sub título, o título do primeiro. Em ambos, indivíduos sem se preocuparem em fazer parte dos perversos padrões de beleza estabelecidos, desnudam-se de corpo e alma para apresentar diversas facetas da condição humana.

Rosana e Andrea são artistas brasileiras que criaram o “chameckilerner” (junção dos sobrenomes das duas) em Nova York em 1993. “Epílogo” foi criado em Nova York com artistas locais e recriado agora no Brasil com artistas curitibanos.

O elenco formado por quatro mulheres e quatro homens já está em cena desnudo quando o público adentra o espaço cênico que tem o chão coberto por tecido verde que imita grama.

Em um lúdico jogo de estátuas, um a um, eles se deslocam no espaço e ao parar congelam os movimentos formando imagens que remetem a obras de arte (esculturas, fotografias e quadros famosos). Frases são emitidas sobre as obras de arte citadas, sobre as particularidades dos corpos, sobre intimidades e até sobre as preferências gastronômicas de cada um.

As movimentações são individuais, enquanto isso o resto do elenco permanece em posição congelada de estátua.

Esse jogo acontece durante cerca de uma hora e a humanidade que ele transpira toma conta do público até a catarse final.

É uma pena que espetáculo tão bom tenha se limitado a apenas duas apresentações em São Paulo na MITsp deste ano. Urge que outras entidades da cidade (SESC, SESI, CCSP, CCBB) o programem para uma temporada mais longa. 

13/03/2026

quinta-feira, 12 de março de 2026

QUEM MATOU MEU PAI?

 

 

- Um grande (talvez o maior) momento da 11ª MITsp -

        O universo retratado pelo autor francês Édouard Louis em seus livros mostra-se bastante familiar ao encenador alemão Thomas Ostermeier (fato já demonstrado em “História da Violência”) e com pequenas alterações/supressões no texto do livro, a encenação de “Quem Matou Meu Pai?” é bastante fiel ao mesmo.

        Enquanto o público adentra a sala do Teatro Paulo Autran, Édouard Louis já está em cena no fundo do palco, na penumbra, manipulando um notebook.

        As luzes se apagam e com grande desenvoltura para quem não tem formação de ator, Édouard Louis inicia sua conversa com um pai que já não está mais ali, mas é representado por uma poltrona e um cobertor. E é nesse monólogo do filho se dirigindo ao pai, ora acusando, ora se justificando que ocorre todo o espetáculo.

        Louis se movimenta em cena entre o notebook e a poltrona, tendo ao fundo um telão que mostra sombrias imagens em branco e preto ilustrativas das situações apresentadas.

        Fora o recurso das imagens, são introduzidos alguns “números musicais” onde Louis dança e dubla intérpretes de “dance music” parecendo provar ao pai que ser “viado” não afeta a sua dignidade de ser humano.

Em outro belo momento da encenação, após contar sobre ter ganhado do pai um DVD com o filme “Titanic”, ele dubla com muita paixão Celine Dion interpretando o tema do filme, arrancando aplausos do público em cena aberta.

        Salvo esses dois recursos (imagens e intervenções musicais) o foco está na interpretação espontânea e comovente do escritor que se sai muito bem como ator.

        O livro e a peça mostram como Louis entendeu que seus pais e o irmão mais velho não eram violentos e preconceituosos porque queriam, mas sim por serem resultado de uma sociedade perversa e injusta com a classe trabalhadora. Nominando os políticos franceses que, com suas determinações discriminatórias, “arruinaram” seu pai, ele passa dos sentimentos de revolta e ódio à compaixão.

        Contando com poucos recursos cênicos e com a enorme empatia e talento de Édouard Louis, “Quem Matou Meu Pai?” é de grande impacto artístico e social, merecendo a imensa ovação recebida ao final da apresentação.

        Os poucos (três até agora) espetáculos apresentados justificam de maneira honrosa a palavra “internacional” que aparece entre “mostra” e “teatro” da MITsp, à qual desejo sempre VIDA LONGA e louvo a ação e a garra de Antonio Araújo, Guilherme Marques e Rafael Steinhauser.


        12/03/2026

terça-feira, 10 de março de 2026

NÓS, OS JUSTOS

 

Conheço Kiko Rieser desde 2012, ano em que ele fez a revisão de Português da minha dissertação de Mestrado na Unesp; desde então acompanho suas incursões no fazer teatral como autor, diretor e produtor.

Meus comentários positivos ou negativos sobre seus espetáculos sempre geram discussões calorosas entre nós, duas pessoas polêmicas e seguras de seus pontos de vista.

Mais de uma dezena de títulos faz parte do currículo de Rieser e arrisco dizer que “Nós, os Justos” escrita há oito anos é sua obra mais madura, tanto como autor como diretor.

Um gesto ou uma fala podem atingir grandes proporções por meio da propagação pela fofoca e pelas notícias falsas podendo provocar o cancelamento das pessoas envolvidas. Tal qual em “Quem conta um conto” de Machado de Assis, as personagens de Rieser vão relatando as suas versões sobre um fato e a cada relato o público acredita que é ali que está a verdade, mas como diria Luigi Pirandello: “A verdade, onde está a verdade?”

A ação da peça se passa em um ambiente corporativo onde há a suspeita de ter ocorrido assédio a uma funcionária e Mendonça, que representa a autoridade da empresa naquela situação, interroga os envolvidos no ato (a funcionária, o suspeito de ter feito o assédio e uma outra funcionária que diz ter presenciado parte do tal assédio). Com diálogos ágeis e fluentes a trama se desenvolve em clima de relativo suspense. Para melhor fruição do futuro espectador não me estendo em mais detalhes.

Essa relatividade da verdade acontece de forma abusiva e perversa nos dias de hoje, fato que torna a peça de Kiko Rieser mais atual do que quando foi concebida há oito anos.

A encenação dirigida pelo autor traduz o texto de forma brilhante com o recurso de não tirar ninguém de cena depois que entrou. As cenas formadas por diálogos de Mendonça com os envolvidos acontecem sem necessidade de black outs, apenas com rápidas mudanças de luz e mantendo estáticos em cena aqueles que não participam do diálogo.

Elenco talentoso é fundamental para esse tipo de espetáculo e talento é o que não falta para Thamiris Mandú, uma grata surpresa como Shirley, Camila dos Anjos como Milena, a suposta vítima de assédio, Luciano Gatti, excelente como Tony, o suposto assediador e Marco Antônio Pâmio jogando toda sua versatilidade e talento para compor o estressado Mendonça.

A cena inicial com o primeiro encontro entre Gatti e Pâmio é uma aula de interpretação!

E na cena final, onde uma verdade se mostra escancarada, os personagens ainda levantam a relatividade da mesma.

Marichilene Artisevskis é responsável pelos figurinos, premiando os personagens masculinos com típico uniforme de “executivo Faria Lima” com direito a calças com barras “pula brejo”. Uma das personagens femininas veste-se também com terninho de executiva de médio padrão, cabendo o único figurino solar a Shirley, a tal funcionária que testemunhou parte do que aconteceu. À medida que a ação se aproxima do fim, todos vão se desfazendo de paletós, bolsas e casaquinhos emblemáticos do padrão corporativo de se vestir.

A iluminação, às vezes intermitente, desenhada por Rodrigo Palmieri reforça o ambiente de embate da trama.

A cenografia que reproduz uma sala de reuniões de uma empresa é assinada por Bruno Anselmo e a discreta trilha sonora é de Marcelo Pellegrini.

Kiko Rieser rege todos esses elementos de maneira rigorosa oferecendo um espetáculo que junto com “Habitat” de Rafael Primot, atesta que não é por falta de bons autores e bons encenadores que nosso teatro possa um dia morrer.

NÓS. OS JUSTOS está em cartaz no Teatro Itália, sexta e sábado, 20h e domingo,19h. 

NÃO DEIXE DE VER! 

10/03/2026

 

domingo, 8 de março de 2026

11ª MITsp nos dois primeiros dias

 

1.   ABERTURA

Entre aplausos e vaias aconteceu a abertura da 11ª MITsp no Teatro Liberdade na sexta-feira, dia 06 de março de 2026. Após os infindáveis e cansativos discursos realizados pelos patrocinadores com duração de mais de uma hora, foi FINALMENTE apresentada a esperada peça de abertura: “História da Violência”. 

2.   HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA

O escritor francês Edouard Louis (1992-) parece ter encontrado no encenador alemão Thomas Ostemeier (1968 -) o melhor tradutor cênico de seus livros que partem de suas experiências pessoais para fazer críticas social e política ao preconceito de gênero, às injustiças com a classe trabalhadora e à violência no mundo contemporâneo. O pensamento e a estética de Ostermeier têm tudo a ver com o que se encontra nas escritas de Louis.

O mote da peça e do livro é a agressão que Louis sofreu após levar para seu apartamento um desconhecido que encontrou na rua onde uma esperada transa termina em assédio físico e moral; a trama, no entanto,  se amplia para a relação do jovem com sua irmã, nas atitudes dos seus pais e no suicídio do irmão mais velho, assuntos tratados nos outros livros do autor.

Ostermeier desconstrói uma narrativa linear numa montagem que prima pelo distanciamento, tão caro a Bertolt Brecht, nas interrupções da ação com observações para o público tanto do protagonista como de sua irmã, cujas falas trazem um pouco de humor à tensa trama.

Projeções ao fundo e de imagens gravadas em cena também não permitem que a trama resvale para um drama tradicional do teatro burguês.

A montagem tem mais a “cara” de teatro alemão do que de teatro francês, mas isso em nada diminui, nem desvirtua o texto de Edouard Louis.

A apresentação da agressão em vários ângulos (narrado e apresentado) e a inclusão de situações apresentadas em outros livros do autor, fazem com que a peça dure duas horas e dez minutos.

Excelente peça de abertura da MITsp!!

Na próxima semana será  apresentado “Quem Matou Meu Pai? outro texto de Louis também dirigido por Ostermeier.

3.   A CARTA

O encenador suíço Milo Rau (1977) foi a grande atração da MITsp de 2019 apresentando três espetáculos; desta vez ele comparece na dramaturgia e na direção de um delicioso exercício de metateatro interpretado com muita graça e empatia com o público pela francesa Olga Mouak e o belga Arne de Tremerie.

Uma atriz e um ator fazem um ensaio teatral: enquanto ele opta por “A Gaivota” de Tchekhov e memórias de sua avó, ela insiste em cenas sobre a francesa Joana D’Arc.

Jogando de maneira lúdica com a participação do público eles apresentam várias cenas das duas escolhas que resultam em um espetáculo a que se assiste com muito prazer, um sorriso nos lábios e até uma lagrimazinha que insiste em escorrer pelos olhos.

A 11ª MITsp começa MUITO BEM com esses dois espetáculos.

 

08/03/2026

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

HAMLET SONHOS QUE VIRÃO

A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra

(Ferreira Gullar) 

Em 2024, iniciei matéria sobre a encenação de “Shakespeare Apaixonado” com a seguinte frase: “Com pouco mais de 40 anos, Rafael Gomes firma-se cada vez mais como realizador tanto de filmes como de peças teatrais, mesmo assim é digna de surpresa a maturidade e o excelente resultado do espetáculo ora em cartaz no 033 Rooftop.

Em 2026, com a soberba encenação de “Hamlet”, Rafael, ainda distante de completar 50 anos (nasceu em 1982), surpreende ainda mais e qualifica-se junto com Rodrigo Portella (nascido em 1977), como os melhores encenadores jovens do teatro brasileiro e em quem se deposita a esperança de que realizem mais e mais grandes trabalhos dignos de Antunes, Aderbal e Zé Celso, memoráveis encenadores que deixaram grandes lacunas no cenário teatral.

Rafael situa o seu espetáculo nas ruínas do Cine Copan, desativado há alguns anos. Usando como cena a antiga plateia do cinema, ele explora todo o amplo espaço de maneira exemplar com o grande auxílio da direção de movimento do elenco e a coreografia assinados por Fabrício Licursi e também com a cenografia de André Cortez.

Hamlet é uma peça difícil no conteúdo em função da trama não linear e com muitos personagens complexos envolvidos. Com pequenas mudanças na ordem de algumas cenas a tragédia de Hamlet, muito bem traduzida por Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington está ali por inteira, podendo ser perfeitamente entendida e apreciada por todo e qualquer público.

A forma de encenar Hamlet exige muita criatividade do encenador para resolver cenicamente cenas como o aparecimento do fantasma e a morte de Ofélia, entre outras. As soluções encontradas por Rafael são de uma beleza de arrepiar. A iluminação de Wagner Antônio contribui de maneira decisiva para a beleza da encenação.

A sonorização de um espetáculo no grande ambiente do Cine Copan também é fator decisivo para a compreensão daquilo que é dito em cena e para os efeitos sonoros de grande importância na trama. Créditos para Barulhista e Antonio Pinto (trilha sonora) e Gabriel D’Angel, Fernando Wada e Gabriel Villas (design de som)

Ainda a destacar na imensa ficha técnica o visagismo (Pamella Franco), os figurinos (Alexandre Herchcovich) e a maquinária e vestimenta cênica (Tibúrcio Produções)

Rafael Gomes se vale de todo esse aparato técnico para realizar uma das encenações melhor sucedidas do teatro contemporâneo, mas nada disso aconteceria se ele não tivesse um elenco à altura para materializar as personagens.

Elenco homogêneo e integrado, mas não há como não destacar Felipe Frazão como Horácio, Eucir de Souza que brilha tanto como o Fantasma como o Rei Claudio, Samya Pascotto que mostra firmeza na fragilidade de Ofélia, Fafá Renó, que já havia se destacado como a Ama em “Shakespeare Apaixonado”, volta a mostrar a sua versatilidade como Polônio e Susana Ribeiro como a Rainha Gertrudes e o Ator da Companhia de Teatro.

Propositalmente deixo por último o destaque dos destaques: Gabriel Leone. Este espetáculo não existiria se não contasse com essa superlativa interpretação. Ao conceber o personagem de Hamlet, Shakespeare deve tê-lo imaginado como Lawrence Oliver e Gabriel Leone. Na minha trajetória de espectador já assisti a vários intérpretes de Hamlet: Walmor Chagas, Marco Ricca, Diogo Vilela, Wagner Moura e Patrícia Selonk, todos excelentes, mas nenhum se iguala a Gabriel Leone na completude da personagem. Gestual preciso, movimentação cênica, emissão de voz e perfeição nas nuances de comportamento exigidas pela personagem fazem do seu Hamlet um momento mágico de nosso teatro.

Não há temporada teatral em qualquer lugar do mundo que pode contar com espetáculos do calibre de “Medea” de Gabriel Villela, de “O Retorno” de José Roberto Jardim e de “Hamlet” de Rafael Gomes simultaneamente em cartaz.

No ano de 1975 tive o privilégio de assistir “Timon de Atenas” em Paris montada por Peter Brook no teatro “Bouffes du Nord”, que na ocasião estava em ruínas. Aquela sensação estranha e ao mesmo tempo fascinante de assistir a um Shakespeare em ambiente sombrio e em ruínas foi sentida novamente ao presenciar “Hamlet” no Cine Copan.

        Aplausos calorosos para toda a equipe do espetáculo e em particular para Gabriel Leone e Rafael Gomes.


        O resto é silêncio.

        HAMLET está em cartaz no Cine Copan até 19/04 com sessões quartas e sextas, 20h / quintas, 20h30 / sábados 16h e 20h / domingos, 17h. O espetáculo tem duas horas de duração, sem intervalo.

        ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL


        27/02/2026