“A arte tem de ter
algo que me tira do chão e deslumbra”
(Ferreira Gullar)
Inicio esta matéria com um chavão: a sensibilidade
à flor da pele das duas euritmistas que abrem o espetáculo é transmitida de
imediato para o público que acompanha deslumbrado a evolução da cena.
Este escrito pode parecer exagerado,
mas poucas vezes em minha longa trajetória como espectador tive essa sensação
de deslumbramento a que se refere Ferreira Gullar na frase em epígrafe.
O mote da peça de Dino Bernardi é o dilema
e o remorso de Santos Dumont diante do uso bélico e destruidor de sua invenção.
As divagações do inventor são ditas de maneira solene por Fernando Aveiro,
provando sua versatilidade, haja vista sua composição gaiata e extrovertida em “Lokona”
(ainda em cartaz no mesmo espaço).
Leigo no assunto recorri ao Google na
definição suscinta de euritmia: “Ela tem como objetivo tornar visível
através do corpo aquilo que normalmente apenas ouvimos; traduzindo ritmos,
melodias, vogais e consoantes em gestos.” e isso realmente se torna visível
nas impressionantes performances de Marília Barreto e Renate Nisch, algo
bastante distinto de uma coreografia para ballet ou da expressão corporal de
atores em peças de teatro. Fica difícil traduzir em palavras, mas é diferente e
extremamente sensitivo.
O diálogo cênico entre o gestual das euritmistas,
os sons sofisticadíssimos compostos por Marcelo Petraglia e executados ao vivo
por Luis Antonio Ramoska (fagote) e Saulo Camargo (percussão) e as intervenções
de Fernando Aveiro como Santos Dumont é indescritível.
Somam-se à beleza da encenação de Dino
Bernardi, os objetos de cena criados por ele e Cesar Rezende e a iluminação de
Thiago Capella.
Nem sempre a soma de tantos talentos
resulta em algo poderoso e belo, mas neste caso está mais que provado que dois
mais dois é muito mais que quatro.
Só vendo! Só vendo!
Vejo no release que este espetáculo data
de 2019 e fico muito surpreso que nesses sete anos não tenha tido a repercussão
merecida por parte da crítica nos palcos paulistanos.
Ainda há tempo dos sensíveis de plantão
degustarem esta obra prima no Teatro Manás Laboratório até 29 de maio, com
sessões de quarta a sexta às 21h.
23/05/2026









