Recorrendo
ao “Dicionário de Teatro” de Patrice Pavis: “O ponto ajuda os atores em
dificuldade, falando em voz baixa, soprando, articulando bem, mas sem gritar,
escondido na coxia ou em uma concha colocada no meio e na frente do palco... Ao
observar os atores, o bom ponto deve saber antecipar o erro ou a dificuldade e
interferir no momento exato”.
Essa definição deveria estar no tempo
passado pois essa função criada no século XVIII, hoje está extinta.
Pode-se dizer que o ponto seria o
bastidor dos bastidores do teatro.
Pois é essa figura sempre invisível para
o público que o dramaturgo português Tiago Rodrigues (1977) coloca em cena como
protagonista da peça “Sopro”: Cristina Vidal, uma profissional de teatro que
exerceu a função de ponto de 1978 até a sua extinção (a cena portuguesa foi uma
das últimas a fazê-lo no mundo todo).
Na montagem dirigida pelo autor,
“quase” assistida presencialmente em São Paulo em 2020 na MITsp (os teatros
fecharam devido à pandemia da Covid dois dias antes da apresentação) era a
própria Cristina que fazia o papel. A peça ficou disponível de maneira virtual
durante algum tempo.
Seis anos depois Marco Antonio Rodrigues
traz à cena paulistana uma nova montagem com Noemi Marinho (sempre ótima)
representando Cristina Vidal, a “ponto”. A novidade aqui é que apresentação é
pontuada por canções compostas por Zeca Baleiro, na maioria das vezes vindas da
bela voz de Amanda Acosta.
Nesse belo exercício de meta teatro a
“ponto” dialoga com o diretor (Dagoberto Feliz) que teve a ideia de montar uma
peça com ela no papel principal. Surgem em cena a diretora de outras montagens
(Amanda) e atrizes (Biah Ramos e Nada Rocco) e ator (Nicolas Trevijano) que
apresentam cenas de montagens onde a “ponto” participou, entre elas “As Três
Irmãs” de Tchekhov, “Antígona” de Sófocles e “Berenice” de Racine.
O texto utilizado foi o original escrito
em português lusitano e Marco Antonio optou para que o elenco falasse com esse
sotaque, algo que nem sempre acontece com alguns dos intérpretes. Noemi, que
tem grande parte das falas da peça, mantém o sotaque de ponta a ponta e marca
mais um ponto em sua brilhante trajetória.
O cenário da peça de autoria de Ulisses
Cohn representa os bastidores de um teatro e é iluminado sempre com o toque
poético de Aline Santini. Os figurinos levam a assinatura de Cassio Brasil.
O sopro da “ponto” Noemi, dirigido
por Marco Antonio é uma festa repleta de
guloseimas teatrais para quem faz e para quem ama teatro, podendo também
agradar bastante ao público em geral.
SOPRO está em cartaz no SESC 14 Bis de
22 de outubro a 15 de novembro. Quinta a sábado, 20h/Domingo,18h.
NÃO DEIXE DE VER!
23/10/2026












