terça-feira, 3 de novembro de 2026

FÔLEGO

 

Quando Andréa Bassit recebeu (e aceitou) a proposta de Marcus Montenegro para escrever um texto em comemoração aos 90 anos de carreira de Nathalia Timberg, ela não tinha ideia do texto maravilhoso que iria resultar dessa ideia.

Andréa coloca em cena Rosa, uma senhora de 97 anos (a idade real de Nathalia), proprietária de um teatro decadente, repleto de dívidas, mas também de lembranças maravilhosas. Juliana (Carla Marins), uma sobrinha astuciosa e materialista luta para vender o espaço para uma igreja e Laura (Rita Elmôr), filha de antigos funcionários do teatro, está ao lado de Rosa na tentativa de manter aquele espaço como ícone teatral.

É a cultura vs. a barbárie, o espaço cultural vs. especulação imobiliária. Assuntos tão presentes em nossa cidade, com a destruição de tantos teatros por conta de política perversa e anticultural da atual prefeitura.

O texto de Andréa passa por essas questões graves, mas é revestido de muita ternura ao mostrar a relação de Laura com Rosa, cheia de lembranças de momentos significativos daquele teatro.

Um momento mágico do espetáculo acontece quando, sob uma iluminação suave, Laura espalha papeis relembrando espetáculos ali apresentados: “Um Panorama Visto da Ponte”, “Esperando Godot”, “O Pagador de Promessas”, “Pedreira das Almas” (a maioria deles contou com Nathalia no elenco em seus tempos no TBC!).

Conhecedora da história do teatro paulistano Andréa não deixa de fazer outras homenagens como relatar que Rosa e sua irmã Maria, que também era atriz, adquiriram um antigo cinema para transformar em teatro, clara referência àquilo que fizeram Nydia Licia e Sérgio Cardoso nos anos 1950.

De relato em relato a dramaturga construiu um texto que é uma delícia não só para os amantes de teatro, mas para todo o público que aprecia o bom teatro.

Escrito para Nathalia, o texto transcende essa homenagem para se tornar um dos mais belos e emocionantes escritos sobre o nosso teatro.

Clara Marins se reveste de toda antipatia necessária para interpretar a vilã Juliana, já Rita Elmôr transborda simpatia como a doce Laura; ambas o fazem com muito talento.

É claro que Nathalia é o foco das maiores atenções e é um privilégio assistir ao trabalho cheio de energia e de nuances dessa grande atriz quase centenária. Aplausos em cena aberta são espontâneos após ela cantarolar versos de “La Mer”. Uma verdadeira joia!

Ricardo Grasson dirige o espetáculo com as mesmas delicadeza e ternura com que Andréa escreveu o texto enfatizando o trabalho das três atrizes.

O cenário de Chris Aizner reproduz o teatro de Rosa e foi concebido para facilitar as caminhadas de Nathalia pelo palco. Cesar Pivetti assina o desenho de luz, propositalmente desordenado (as mudanças de iluminação parecem ser aleatórias, sem muito a ver com o que se passa em cena). Figurinos do Atelier Fabio Namatame.

Merecidamente as atrizes são ovacionadas ao final e Nathalia agradece os aplausos emocionada.


Tive a honra de presentear Nathalia com uma pastinha contendo ficha técnica, capa do programa e resenha que escrevi sobre os 14 espetáculos do TBC que ela participou de 1956 a 1961. 

FÔLEGO está em cartaz no SESC Santo Amaro até 13 de dezembro. De quinta a sábado, 20h / domingo, 18h.

            NEM PENSE EM PERDER, mesmo considerando que o SESC Santo Amaro é um pouco longe.


        03/11/2026

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A ÚLTIMA VALSA DE ZELDA FITZGERALD

 

A arte tem de ter algo que me tira do chão e me deslumbra

(Ferreira Gullar) 

           Há um tesouro escondido no aconchegante teatro ºAndar e você só tem mais três oportunidades de descobri-lo. As últimas chances acontecem no próximo sábado (31/10) às 11h e 15h e no outro sábado (07/11) às 15h. Começo esta matéria por aquilo que normalmente vem escrito ao final porque INSISTO, este é um dos melhores espetáculos do ano e seria uma lástima alguém perdê-lo.

        A  personagem de Zelda Fitzgerald (1900-1948), que aparece por poucos minutos no filme "Meia Noite em Paris" (2011) de Woody Allen chamou a atenção da atriz Larissa da Matta. Esse interesse lhe conduziu a uma intensa pesquisa onde descobriu coisas sobre uma mulher fascinante; a partir daí ela e Pedro Amaral construíram a dramaturgia deste espetáculo que mostra a ascensão e queda de Zelda desde sua juventude marcada pela irreverência no Alabama, o encontro e posterior casamento com F. Scott Fitzgerald (1896-1940), os anos loucos e a era de ouro do jazz em Nova York, a fama, as bebedeiras, as brigas e as mútuas acusações do casal, a ida a Paris e depois à Riviera Francesa e a volta aos Estados Unidos onde apareceram os primeiros sinais de esquizofrenia até sua morte trágica em 1948 em  incêndio em  clínica onde ela estava internada. Muito bem construído, o texto flui suavemente na pouco mais de uma hora que dura o espetáculo.

        Ver Larissa da Matta em cena é um verdadeiro assombro. Com domínio corporal extraordinário ela executa performance de teatro-dança de tirar o fôlego do espectador mais insensível. Cabeça, tronco e membros estão ali para auxilia-la a nos contar a trajetória de Zelda, quer dançando a melindrosa, quer dialogando com Scott, ou mesmo sofrendo numa clínica psiquiátrica. Poucas vezes, nas minhas mais de 5.000 idas ao teatro, assisti a interpretação tão arrebatadora. Larissa, com apenas 28 anos, deverá estar na lista das revelações de 2026, ano em que temos interpretações femininas tão importantes como aquelas de Georgette Fadel em “Gota D’Água” e Drica Moraes em “InterAlia”.

        A encenação de Pedro Amaral, também um jovem de 29 anos, é outro trunfo desta montagem tão bem sucedida, toda ela centrada na interpretação de Larissa, mas também colaboram para o resultado final:

-  o cenário simples, mas muito bonito que consta de um biombo, uma poltrona (onde um imaginário Scott está sentado), uma mesinha e um lindo nicho em estilo art déco;

- os belíssimos figurinos que trazem a assinatura de Marcelo Leão; 

-  a trilha sonora repleta de jazz dos anos 1920/1930;

-  a iluminação precisa e

- as magnificas coreografias e preparação corporal da atriz realizadas por Ana Beatriz Trucharte.

O diretor assina a cenografia, a iluminação e a trilha sonora.

Pedro e Larissa

        Parafraseando Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, quando o talento não é pequeno” e o talento desses jovens é grande, estando nas mãos deles o futuro do nosso teatro; por isso é muito importante prestigia-los e conferir o que eles têm a dizer.

        Tenho consciência que este texto talvez esteja muito adjetivado, mas isso faz parte do entusiasmo e da surpresa com que eu assisti ao espetáculo.

        Urge que surjam novas temporadas para que o grupo possa continuar a apresentar toda essa beleza.

        ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

        25/10/2026

  

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

SOPRO

 

            Recorrendo ao “Dicionário de Teatro” de Patrice Pavis: “O ponto ajuda os atores em dificuldade, falando em voz baixa, soprando, articulando bem, mas sem gritar, escondido na coxia ou em uma concha colocada no meio e na frente do palco... Ao observar os atores, o bom ponto deve saber antecipar o erro ou a dificuldade e interferir no momento exato”.

        Essa definição deveria estar no tempo passado pois essa função criada no século XVIII, hoje está extinta.

        Pode-se dizer que o ponto seria o bastidor dos bastidores do teatro.

        Pois é essa figura sempre invisível para o público que o dramaturgo português Tiago Rodrigues (1977) coloca em cena como protagonista da peça “Sopro”: Cristina Vidal, uma profissional de teatro que exerceu a função de ponto de 1978 até a sua extinção (a cena portuguesa foi uma das últimas a fazê-lo no mundo todo).

Na montagem dirigida pelo autor, “quase” assistida presencialmente em São Paulo em 2020 na MITsp (os teatros fecharam devido à pandemia da Covid dois dias antes da apresentação) era a própria Cristina que fazia o papel. A peça ficou disponível de maneira virtual durante algum tempo.

        Seis anos depois Marco Antonio Rodrigues traz à cena paulistana uma nova montagem com Noemi Marinho (sempre ótima) representando Cristina Vidal, a “ponto”. A novidade aqui é que apresentação é pontuada por canções compostas por Zeca Baleiro, na maioria das vezes vindas da bela voz de Amanda Acosta.

        Nesse belo exercício de meta teatro a “ponto” dialoga com o diretor (Dagoberto Feliz) que teve a ideia de montar uma peça com ela no papel principal. Surgem em cena a diretora de outras montagens (Amanda) e atrizes (Biah Ramos e Nada Rocco) e ator (Nicolas Trevijano) que apresentam cenas de montagens onde a “ponto” participou, entre elas “As Três Irmãs” de Tchekhov, “Antígona” de Sófocles e “Berenice” de Racine.

        O texto utilizado foi o original escrito em português lusitano e Marco Antonio optou para que o elenco falasse com esse sotaque, algo que nem sempre acontece com alguns dos intérpretes. Noemi, que tem grande parte das falas da peça, mantém o sotaque de ponta a ponta e marca mais um ponto em sua brilhante trajetória.

        O cenário da peça de autoria de Ulisses Cohn representa os bastidores de um teatro e é iluminado sempre com o toque poético de Aline Santini. Os figurinos levam a assinatura de Cassio Brasil.

O sopro da “ponto” Noemi, dirigido por  Marco Antonio é uma festa repleta de guloseimas teatrais para quem faz e para quem ama teatro, podendo também agradar bastante ao público em geral.

SOPRO está em cartaz no SESC 14 Bis de 22 de outubro a 15 de novembro. Quinta a sábado, 20h/Domingo,18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

23/10/2026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

FILUMENA MARTURANO

 

 

 1 -Um pouco de história

        O dramaturgo napolitano Eduardo De Filippo escreveu “Filumena Marturano” em 1946 no imediato pós segunda guerra numa Itália, em especial do Sul, devastada pela pobreza e pela fome. A peça foi escrita para sua irmã Titina. Em 1951 Eduardo dirigiu o filme sobre a peça com Titina como Filumena e ele como o seu companheiro Domenico.

        Em 1964 Vittorio De Sica dirige sua versão (“Matrimônio à Italiana”) tendo Sophia Loren e Marcello Mastroianni nos papeis principais.

        Em 1979 Laurence Oliver filma a peça com Joan Plowright e Frank Finlay.

        No Brasil a peça foi montada em 1988 no Rio de Janeiro com direção de Paulo Mamede tendo os saudosos Yara Amaral e José Wilker como protagonistas. Yara foi substituída por Nathália Timberg após sua trágica morte no réveillon de 1988/1989 com o naufrágio do Bateau Mouche na Baía de Guanabara.

                2 -A Filumena do TAPA

Esta Filumena só podia dar certo! 

Como que o ótimo texto de Eduardo De Filippo sob a direção sempre precisa de Eduardo Tolentino, interpretado por um elenco de ouro e com a produção sempre cuidadosa de Mauricio Inafre poderia dar errado?

NUNCA!

O comerciante Domenico conheceu Filumena em um bordel e eles vivem juntos há 25 anos. Ao saber que ele pretende se casar com uma jovem, ela finge estar à beira da morte pedindo como último desejo que ele se case com ela.

A peça inicia quando Domenico descobre as artimanhas que Filumena armou para que ele se casasse com ela e dá margem aos primeiros momentos hilários da peça quando os criados da casa Alfredo (Walter Breda) e Rosália (Maria do Carmo Soares) quase roubam a cena com suas reações mudas às imprecações de Domenico (André Garolli) e as reações não menos intempestivas de Filumena (Sandra Corveloni).

O elenco formado pelo imenso talento desse quarteto muito bem acompanhado pela criada Lucia (Mari Teixeira), pelos três filhos de Filumena (Ivan Nóbrega, Felipe Souza e Ruiz Angellus), pelo advogado (Daniel Volpi) da amante Diana (Luisa Ferrari) de Domenico garante o humor reinante durante toda a duração da peça dirigida com o habitual esmero de Eduardo Tolentino de Araujo. Poucas vezes se vê elenco tão uniforme na qualidade do desempenho.

Não há como não destacar mais uma vez o brilhantismo de André e Sandra e a garra com que defendem suas personagens.

Momentos como aquele em que Domenico bate a cabeça de Lucia na cristaleira e outro em que ele escorrega no tapetinho da sala enriquecem ainda mais essa gostosa comédia napolitana.

Sandra tem outros momentos memoráveis como Filumena, ora cantando “canzonetas” napolitanas, ora relembrando a sua origem pobre e difícil e ainda quando enfrenta com energia o machismo de Domenico.

Como toda produção com a marca TAPA há muito cuidado com a cenografia (Flavio Tolezani), com a iluminação (Wagner Pinto) e com os figurinos (Mariana Baffa).

O bem-vindo programa impresso contém textos e belas fotografias de Ronaldo Gutierrez.

Trata-se de uma comédia popular muito engraçada e bem realizada que agradará em cheio o público frequentador do Teatro do SESI. Excelente como formador de público, porque quem vai ao teatro perla primeira vez e assiste a espetáculo tão delicioso como esse vai querer voltar.

Com todo esse humor a peça não deixa de fazer uma crítica severa ao patriarcado e revelar a capacidade da mulher de reagir e enfrentar o ambiente machista.

FILUMENA MARTURANO está em cartaz no Teatro do SESI até 20 de dezembro de quinta a sábado, 20h e domingo, 19h. Ingressos gratuitos.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL! 

18/10;2026

 

 

 

sábado, 17 de outubro de 2026

FRANCISCO DE ASSIS - 800 ANOS – O MUSICAL


Baseada em fatos históricos Alcione Alves descreve o jovem Francisco como um rapaz alegre que ajuda seu pai comerciante, mas que gasta tudo o que ganha com os amigos em festas e encontros. Ao perceber a miséria em que viviam os pobres de sua terra, inicia uma conscientização que o leva a distribuir seus bens aos menos favorecidos no que é seguido por alguns amigos e pela jovem Clara criando a ordem franciscana.

Alcione narra a curta vida de Francisco (ele morreu com 44 anos) com muita suavidade e muito amor no texto e na tradução cênica feita por ela mesma; Abigail Wimer compôs o belo comentário musical que acompanha o espetáculo e participa da banda ao piano.

Tudo é muito delicado na montagem, sem nenhum ranço de pregação religiosa. Trata-se “apenas” de mostrar um homem que com sua bondade e seu amor fez muito bem à humanidade.

O cenário da peça assinado por Otávio Donasci é dividido em dois níveis: o inferior é o terrestre repleto de cubos removíveis onde predomina a cor preta e o superior é o celeste onde predomina a cor azul. Tudo isso  belamente iluminado pelo desenho de luz criado por Vini Hideki e Silen de Castro.

Um elenco de 16 intérpretes, uma banda de 6 músicos e um grupo de oito euritmistas “celestes” compõem o grupo formado para contar a história de Francisco e Clara.

Do elenco bastante harmonioso cabe destacar as presenças de Maria Bia (bonita e ótima em vários papeis), Eduardo Leoni (perfil perfeito para interpretar Jesus Cristo em algum espetáculo), Carlos Meceni (surpreendente em cena), Silen Castro (a Diretora), Flavio Baiocchi (Ângelo, um dos seguidores de Francisco), Vini Hideki (bela presença em cena demonstrando seus dotes circenses), Tânia Paes (bela e suave como Clara) e Glau Gurgel (excelente composição da figura de Francisco). Todo o elenco interpreta e canta muito bem e as cenas corais são ótimas.


“Francisco” é um espetáculo digno e bem realizado que merece ser visto como antídoto para esses tempos de ódio e guerras onde parece que a humanidade rasteja para trás.

Em cartaz no icônico Teatro Maria Della Costa (que está a merecer uma boa reforma) até 29/10 com sessões às quartas e quintas às 20h30. 

16/10/2026

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

TEATRO FAAP 50

 

O Teatro FAAP é um aconchegante espaço situado dentro da Fundação Armando Álvares Penteado no Pacaembu. Dispõe de 477 poltronas e um espaçoso palco sustentado por duas enormes colunas que são um verdadeiro desafio à criatividade dos cenógrafos que ali têm que criar o cenário de um espetáculo.

Ao lado da bilheteria tem uma cafeteria e a sala de espera pode se estender para um amplo jardim situado defronte à entrada para a sala de espetáculos.

Há exatos 50 anos os spots do teatro se acenderam para iluminar o espetáculo de estreia da casa: “A Moratória” de Jorge Andrade com direção de Emílio Di Biasi tendo no elenco Mariam Mehler, Carlos Augusto Strazzer e Riva Nimitz entre outros.

A partir daí aquele palco recebeu cerca de 70 importantes espetáculos que fazem parte da história do teatro brasileiro realizados pelos nossos encenadores mais importantes ( José Possi Neto, Celso Nunes, Bibi Ferreira, Paulo Autran, Cacá Rosset, Aderbal Freire Filho, Jorge Takla, Jo Soares, Enrique Diaz, Felipe Hirsch, Elias Andreato, Charles Möeller, Duda Maia, Fernando Philbert, Rodrigo Portella, Gerald Thomas, só para citar alguns) e interpretados por Lilian Lemmertz, Paulo Betti, Antônio Fagundes, Paulo Autran, Irene Ravache, Juca de Oliveira, Gloria Menezes, Tarcísio Meira, Laura Cardoso, Rodrigo Santiago, Giulia Gam, pessoal do Ornitorrinco, os Parlapatões, Christiane Torloni, Beatriz Segall, Diogo Vilela, Debora Bloch, Raul Cortez, Marília Pêra, Debora Falabella, Maria Manoella, Marco Ricca, Denise Fraga, Yara de Novaes, Emílio de Mello, Fernando Eiras, Marco Nanini, Mariana Lima, Marcelo Medici, Lilia Cabral, Dan Stulbach, Marieta Severo, Marilia Gabriela, a Barca dos Corações Partidos, Mel Lisboa, Cacá Carvalho, Marcos Caruso, Totia Meirelles, Marisa Orth, Vera Holtz, Luciana Braga, Cassio Scapin, Amanda Acosta, Norival Rizzo, Marcos Vera e Edwin Luisi que são apenas  alguns dos nomes dos elencos de ouro que pisaram em um palco que se tornou sagrado, um verdadeiro “solo da fama”.

Como não lembrar de “O Homem Elefante” (1981), “De Braços Abertos” (1984), “Divinas Palavras” (1986), “A Comédia dos Erros” (1994), “Tio Vânia” (2003), “Mademoiselle Chanel” (2004), “Hamlet” (2008), “In On It” (2010), “Pterodátilos” (2011), “Incêndios” (2013), “Auê” (2016), “O Escândalo Philippe Dussaert” (2018), “By Heart”  (último espetáculo de 2020 dentro da MITsp seguido da pandemia que fechou os teatros por bom tempo), “F(r)icções” (2023), “Eu Sou Minha Propria Mulher” (atualmente em cartaz).

O Teatro FAAP tem um currículo notável não só na quantidade, mas principalmente na qualidade, garantida pelas curadorias que já passaram por ele, hoje nas mãos do Luque Daltrozo.

VIVA O TEATRO FAAP NO SEU MEIO SÉCULO!! 

12/10/2026

sábado, 10 de outubro de 2026

QUANDO DESPERTARMOS DE ENTRE OS MORTOS

 

O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) escreveu esta sua última peça em 1899 aos setenta e um anos de idade e o escultor Rubek, protagonista da trama, poderia ser seu alter ego, pois tem idade próxima à sua e sofre de angústias pessoais e profissionais, algo que também podia estar acontecendo com ele na época da escrita.

Ao que se sabe essa peça nunca foi montada em São Paulo e teve apenas três apresentações no Theatro Municipal em 1991 dentro da “Mostra de Teatro da 21ª Bienal Internacional”, numa montagem assinada por Bob Wilson com Joel Grey (o mestre de cerimônias do filme “Cabaret”) no papel de Rubek.

Revendo um velho caderno meu da época escrevi que o espetáculo era visualmente muito bonito, mas pouco entendível porque não havia legendas.

Sendo assim, é muito bem vinda esta montagem produzida pelo “Ágora Teatro” para conhecimento desta importante obra de Ibsen, do qual conhecemos tantas outras.

A produção é muito bem cuidada a começar pela excelente cenografia assinada por Sylvia Moreira que contempla com muita beleza os três espaços exigidos pela peça, dando-se ao luxo de reproduzir parte de um quadro de Monet para compor o jardim da casa. Os figurinos (sóbrios para os homens e muito sugestivos e belos para as mulheres) também são de Sylvia. A cena é iluminada por Wagner Freire e Dan Maia percorre novos caminhos com uma belíssima e envolvente trilha sonora que remete àquelas  para cinema de John Barry.

Contando com essa incrível equipe criativa e um ótimo elenco Elias Andreato dirigiu o espetáculo obtendo um resultado harmonioso e belo.

Angelo Brandini tem uma rápida aparição no início como o inspetor, que na verdade não se sabe a quantas vem.

Fernando Nitsch é vigoroso na composição de Ulfheim, o caçador de ursos, exagerando às vezes nos gritos.

Maria Fernanda Candido representa a etérea Irene de maneira muito solene, algo que prejudica a personagem.

Maria Manoella como Maja, a esposa de Rubek, é uma grande figura em cena com sua beleza e sua classe. A cena entre ela e Frateschi no segundo ato é um grande, talvez o melhor, momento da peça.

Com todo seu talento, Celso Frateschi não faz esforço para brilhar como Rubek e acrescenta mais um tento em sua carreira.

Teatrão clássico muito bom que não deve agradar aqueles acostumados ao vapt vupt dos chamados “tempos modernos”.

O programa impresso contém uma importante matéria de Wellington Andrade para ser lida antes do início da peça para melhor fruição da mesma.

QUANDO DESPERTARMOS DE ENTRE OS MORTOS está em cartaz no SESC Pinheiros – Teatro Paulo Autran até 08 de novembro. De quinta a sábado, 20h e domingo, 18h 

Minha observação como espectador e não como o autor desta matéria: Seria mais elegante e mais justo que nos aplausos finais Celso trouxesse para a frente da cena não só ele e Maria Fernanda, mas também Maria Manoella que tem uma importante participação no espetáculo. 

09/10/2026