Em 2023, “Vista” foi um espetáculo
impactante vindo do Rio de Janeiro revelando Julia Lund (atriz) e Luiz Felipe
Reis (diretor) da companhia POLIFÔNICA para os palcos paulistanos. Três anos
depois eles voltam à cidade com “Eddy – Violência & Metamorfose” que tem em
comum com “Vista” a agressão e a violência praticadas por seres humanos contra
outros seres humanos
“Eddy” é a tradução cênica do livro
“História da Violência” escrito pelo jovem autor francês Édouard Louis (1992-),
permeada por trechos de outros livros dele (“O Fim de Eddy” e “Mudar: Método”).
Em harmonioso diálogo entre teatro e
cinema (imagens gravadas e imagens da cena captadas por câmeras e celulares
manipulados pelo elenco) a montagem conta o que aconteceu com o autor na noite
de Natal de 2012 em Paris:
“Após um jantar com amigos, ao
voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina,
chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas,
após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem
e quase assassinado.”
Esse
diálogo harmonioso é garantido pela origem dos dois encenadores: Luiz Felipe
Reis, homem de teatro e Marcelo Grabowsky, vindo do cinema.
No livro o escritor visita a irmã
Clara na sua cidade de origem (Hallencourt) e conta a ela o que aconteceu
naquela noite de Natal e ela tece comentários com ele e com o marido sobre o
ocorrido.
Na encenação de Reis e Grabowsky João
Côrtes interpreta Louis e Erom Cordeiro se reveza como Redá, o marido de Clara
e o investigador da polícia. Cabe a Julia Lund o papel de Clara que em
bem-vindo recurso de distanciamento narra e comenta criticamente a ação.
A dramaturgia realizada pelos dois
diretores é bastante fiel ao espírito da obra de Édouard Louis e sua passagem
para o palco confirma essa fidelidade.
Encenação dinâmica que em nenhum
momento resvala para o melodramático ou o sensacionalismo. A bela cena de sexo
é exemplo disso, sendo realizada sem nenhum falso pudor, mas com muita
elegância.
O elenco é composto por Erom Cordeiro
que com poucos recursos transita entre as personagens que lhe cabem, sendo
bastante eloquente ao mostrar as contradições de Redá.
Julia Lund é responsável por trazer ao
público as incoerências de Louis numa interpretação bastante diversa daquela de
“Vista”, fato que só confirma sua versatilidade e seu talento.
A grande surpresa para nós
paulistanos, é o trabalho de João Côrtes numa composição perfeita daquele que
imaginamos ser Édouard Louis. Corpo e voz extremamente expressivos demonstrando
sua luta entre o desejo e a insegurança de ser agredido no momento em que
conhece Redá na rua. Foi muito justa sua indicação como melhor ator pela APTR e
o mesmo deve acontecer em São Paulo.
A montagem não fica nada a dever
àquela dirigida por Thomas Ostermeier apresentada na MITsp em março deste ano,
tendo até alguns pontos a seu favor como uma ambientação mais latina (francesa
e brasileira) do que germânica.
EDDY está em cartaz no Teatro FAAP até
06 de agosto. Terças, quartas e quintas às 20h.
ABSOÇUTAMENTE IMPERDÍVEL
24/06/2026









