1 – Um pouco de história
Comédias rasgadas que tem os
bastidores teatrais como cenário sempre rendem boas gargalhadas do público,
principalmente para aqueles que convivem com o fazer teatral.
Elas são melhor estruturadas do que o
gênero, assim chamado, besteirol (*), mas não deixam de revelar que são
herdeiras das memoráveis “Quem Tem Medo de Itália Fausta” (1979) de Ricardo de
Almeida e Miguel Magno e “Pedra, a Tragédia” (1986) de Vicente Pereira. E muito
antes (1970) não se pode esquecer da visita que Braulio Pedroso fez ao gênero
com “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” onde Marília Pêra
brilhava como a vedete Joana.
Foi assim com “Barbara Não Lhe Adora” (2001), comédia impagável de Henrique Tavares que mostrava um grupo teatral sequestrando a crítica Barbara Heliodora e obrigando-a a assistir todos os ensaios da peça que estava sendo montada e isso se repete com este texto de Emilio Boerchat dirigido com muito humor por Kleber Montanheiro. Ambas são de “rir às bandeiras despregadas”, como se dizia das comédias de Dercy Gonçalves nos anos 1960.
2 – Cansei de Ser Belo
Boechat e Montanheiro conhecem os
meandros do mundo teatral e sabem tirar partido disso com piadas e situações
cômicas desse ambiente.
Rodrigo (Fernando Pavão) é galã típico
de telenovelas. Bonitão por fora e oco por dentro um dia resolve provar que
também é bom ator e para isso quer abrir mão de sua bela estampa. Estão em jogo
os interesses comerciais de seu empresário (Wilson de Santos), do autor de telenovelas
(Marcelo Goes) e de sua companheira espevitada que se julga uma vênus platinada
(opa!) com sua longa peruca que circula afetadamente ao redor da cabeça (Erica
Montanheiro).
As peripécias de Rodrigo para tornar-se
feio envolvem várias situações: ensaios com outros diretores, outras atrizes,
vivência como morador de rua (os famosos laboratórios que os artistas faziam há
algumas décadas) e convívio com hippies e drogados; tudo isso relatado com um
humor escrachado e muito engraçado. Com exceção de Fernando Pavão que
interpreta o ator, o restante do elenco se reveza em vários personagens todos
eles bastante caricaturais. O resultado é muito divertido e a direção de Kleber
Montanheiro é muito responsável por isso criando situações cênicas impagáveis
como o final da peça, que não vou comentar por aqui para não tirar o prazer do
riso do futuro espectador.
Erica Montanheiro dá um show como as
diversas mulheres que atravessam a vida de Rodrigo. Wilson de Santos está ótimo
como o empresário e como o diretor de teatro pobre que é viciado em whisky Old
Eight. Marcelo Goes reveza-se com versatilidade em outros papeis. Fernando
Pavão sabe passar do charmoso e maneiroso galã para um tipo nada belo ou
atraente sem usar máscaras ou maquiagem.
Rindo e se divertindo também crescemos.
CANSEI DE SER BELO está em cartaz no Teatro YouTube até 22/11. Sexta e sábado, 20h / Domingo, 18
(*) Besteirol é um gênero de comédia surgido nos anos 1980 focado em humor pastelão, situações absurdas, piadas visuais e escatologia, sem grande compromisso com a seriedade.
05/10/2026







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