terça-feira, 22 de setembro de 2026

BAAL – O MITO DA CARNE

 

Foto de Kym Kobayashi

Brecht (1898 – 1956) escreveu “Baal” em 1918 com apenas vinte anos, bem antes de desenvolver suas teorias e práticas sobre teatro épico. Ao longo dos anos fez várias versões da peça e segundo o encenador Marcelo Marcus Fonseca, a atual montagem utilizou trechos de várias delas resultando em um espetáculo frenético de duas horas e meia de duração.

Baal é um sujeito rebelde, sempre bêbado, seduzindo e jogando fora aqueles que não lhe interessam mais. É um ser amoral, típico anti-herói, que, de certo modo, se filia a outras personagens literários e/ou teatrais como o Till Eulenspiegel (século XVI), o Peer Gynt (1867) de Ibsen e até o Macunaíma (1928) de Mário de Andrade.

Marcelo Marcus Fonseca ambienta sua montagem em um espaço nu, onde cenários não fazem a menor falta, dada a potência das interpretações que estimulam a imaginação do espectador.

Toda a peça gravita em torno de Baal que se ausenta de cena em breves momentos. Marcelo interpreta a personagem título com muita garra dando um toque de ironia ao observar o mundo burguês que o circunda.

A relação de Baal com Ekart, companheiro de aventuras, é bastante acentuada do ponto de vista erótico na encenação de Marcelo, explicitando uma homossexualidade apenas sugerida no original de Brecht. Daniel Ortega entrega-se com energia à personagem de Ekart.

A destacar também a participação da bela Stella Rocha que, apesar de sua juventude e pouca experiência teatral, faz uma ótima composição como Sophie, a amante grávida de Baal que depois é abandonada por ele.

O elenco de apoio tem boa atuação apesar de exagerar no volume da voz e no som gutural da mesma.

Marcelo Marcus Fonseca retorna a essa peça depois de 30 anos; foi com ela que ele deu início às atividades do Teatro do Incêndio, grupo que ele mantém com muita garra, quase sempre sem nenhum apoio, tendo montado praticamente uma peça por ano com a visão anárquica e surrealista, que lhe é característica.

Longa vida ao Teatro do Incêndio que já tem planos de mudança em seu espaço e a montagem de um Shakespeare nunca visto em nossos palcos. 

BAAL está em cartaz até 04/10 no Teatro do Incêndio (Rua Treze de Maio, 48) Aos sábados e domingos ás 20h. 

22/09/2026

 

 

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

DO CAVALO NADA SABEMOS

 

       João Paulo Lorenzon é um solitário no palco. Das doze peças que tenho registro que ele participou desde “Rei Lear” no ano 2000, seis foram trabalhos solos; do memorável “Memória do Mundo” (2009) onde ele visitou o universo de Jorge Luis Borges até o atual “Do Cavalo Nada Sabemos” onde a inspiração vem de fato ocorrido com Friedrich Nietzsche ao presenciar o espancamento de um cavalo.

       Partindo de um poema de Denise Stoklos, Lorenzon e Renata Zambonelli elaboraram a dramaturgia onde cavalo, observador e açoitador revezam-se para contar uma história sobre a crueldade humana: em algum momento da vida o ser humano sempre será vítima de um açoite.

       Como em outros trabalhos de Lorenzon a parte visual é bastante elaborada, como prova a ficha técnica: Dominic Kiessling responde pelo objeto cenográfico que envolve o ator na parte final, Leandro Castro assina o figurino sóbrio do ator e a cena é iluminada com o habitual talento de Wagner Freire.

       O ator teve preparação corporal de Toshiko Oiwa e Lu Favoreto, preparação circense de Kiko Caldas, preparação física de Leandro Marques e preparação contínua de Isabel Setti, além do olhar também contínuo das diretoras Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, tudo isso resultando numa interpretação muito sofisticada na sua aparente simplicidade, incluindo chibatadas em uma “coreografia extenuante”, conforme informa o programa da peça.

       DO CAVALO NADA SABEMOS está em cartaz no SESC Ipiranga até 11/10. Sextas, 21h / Sábados e domingos, 18h30.

 

       20/09/2026

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DE BRAÇOS ABERTOS


Uma noite muito especial no Centro de Pesquisa e Formação do SESC

 

” Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem

essa é a primeira experiência teatral

e outras para quem essa será a última”

-Recado de Ariane Mnouchkine a seu elenco- 

         Vanessa Bruno idealizou o projeto “Dramaturgas Contemporâneas” que mapeia a trajetória de dramaturgas brasileiras vivas por meio de uma visão crítica de suas obras e da leitura de um de seus textos.

Já estiveram presentes Silvia Gomez, Michelle Ferreira, Janaína Leite, Luh Maza, Dione Carlos e nessa memorável noite de 16 de setembro foi a vez de Maria Adelaide Amaral. Para os próximos encontros estão previstas Ave Terrena e Claudia Schapira.

        Silvana Garcia abriu o encontro fazendo relato sobre as características da obra para teatro de Maria Adelaide, a seguir, dirigidos por Vanessa, Paula Cohen e Jiddu Pinheiro fizeram uma leitura apaixonada da peça “De Braços Abertos”, obra prima da autora, que foi imenso sucesso de publico e de crítica nos anos 1984/1985 com Irene Ravache e Juca de Oliveira dirigidos por José Possi Neto. Tenho carinho muito especial por essa peça, não só pelas suas imensas qualidades, mas também por ter sido a última peça que Vera, minha mulher, presenciou e como isso foi importante para seus últimos dias de vida. (vide palavras de Ariane Mnouchkine em epígrafe)

        Maria Adelaide abriu sua fala comentando sobre suas antecessoras na dramaturgia feminina brasileira: Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Isabel Câmara que abriram o caminho no ano de 1969. Sua primeira peça “A Resistência” escrita em 1975 só foi montada em 1980, cabendo sua estreia nos palcos em 1978 com “Bodas de Papel”. A seguir comentou o sucesso de” De Braços Abertos” em 1984 e questionou os presentes sobre a atualidade da peça. Relações humanas nunca saem de moda, foi quase a unanimidade das respostas.

        Parabéns a Vanessa Bruno pela idealização de projeto que contribui para a preservação da memória do teatro brasileiro e também ao Centro de Pesquisa e Formação do SESC por abrigar evento de tal importância.

        Noite inesquecível!

 

        18/09/2026

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O ALIENISTA


Foto de Ronaldo Gutierrez 

“Todo mundo nasce louco, só que alguns permanecem”

(Samuel Beckett)

        Estreada em 2022 no Rio de Janeiro, “O Alienista” na versão da Cia Teatro Epigenia era há muito tempo aguardada em São Paulo. E chegou com a cara e a coragem, sem patrocínio, com uma equipe de cerca de vinte pessoas.

        O texto teatral escrito por Gustavo Paso e Celso Taddei inspira-se no conto de Machado de Assis lhe modificando com a intenção de denunciar as mazelas da atualidade brasileira. A aparição de um pneu em cena, os discursos feministas e até a mudança do destino de Simão Bacamarte ao final são alguns sinais dessas alterações do original. Os perigos das verdades absolutas e das mentiras presentes no conto, permanecem intactos na adaptação teatral. O texto substitui a sutileza de Machado de Assis por uma proposital truculência.

        A montagem de Gustavo Paso ambientada em cenário “desequilibrado” que remete aos filmes alemães da década de 1920 tem caráter expressionista tanto no visual como na interpretação exagerada do elenco. Não há como não lembrar da montagem de “Ubu Rei” realizada por Cacá Rosset em 1985, que também utilizava recursos de Patafísica.

        Roger Gobeth domina a cena na interpretação do protagonista Simão Bacamarte; mas é bem acompanhado por Luciana Fávero como a esposa Dona Evarista, Gláucio Gomes, excelente, como o ajudante Crispim e Augusto Cezar Astos como o barbeiro Porfírio. Todos os outros participantes têm boa atuação tanto nos solos, como nas cenas corais.

        Além da direção e da autoria, Gustavo Paso assina o cenário e a direção de arte do espetáculo.

            O visagismo do elenco é uma verdadeira obra de arte. É desenhada, sempre em branco e preto, a máscara de cada personagem de acordo com as características de sua personalidade e sua função na trama. Os rostos dos bonecos que representam o povo são outra relíquia da montagem com o detalhe que eles (o povo) são literalmente jogados no lixo após a sua participação.

        Se me fosse dado o desafio de premiar apenas uma das muitas qualidades dessa bela montagem eu premiaria o visagismo e os rostos dos bonecos.

        A Cia Teatro Epigenia comemora 26 anos de existência em grande estilo, graças ao empenho de seus idealizadores Luciana Fávero e Gustavo Paso e espera-se que o fôlego desses dois lutadores seja forte para a realização de novos espetáculos.

        O ALIENISTA está em cartaz no Teatroiquê. Sexta, 21h/Sábado, 20h/Domingo,18h

 

        NÃO DEIXE DE VER!

 

        16/09/2026

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SÁBADO DE PROGRAMA DUPLO COM A NADYA E O ARNALDO NO TEATRO SANTANDER

 


16H – GIL – ANDAR COM FÉ – Teatro Santander

O Tempo Rei narra fases da vida de Gilberto Gil, entremeada com as canções do compositor. A original estrutura dramatúrgica criada por Newton Moreno tem tradução cênica de Miguel Falabella.

A coreografia (Leilane Teles e Tiago Dias) com forte acento afro é bela, mas nem sempre funciona e a cenografia monumental e modernosa (Natália Lana) não combina com a obra de Gil.

É sempre difícil apresentar personagens baseadas em figuras reais muito conhecidas sem cair na representação caricatural baseada apenas no exterior da pessoa e infelizmente é o que acontece com os intérpretes de Caetano, Gal, Elis, Bethânia, Chacrinha e Chico Buarque. A honrosa exceção é Gui Ventura em excelente composição como Gil. Ele atravessa todo o espetáculo com muita garra e emoção, além de se parecer com o biografado.

Gui e Guga Barbosa como Tempo Rei são os grandes trunfos da montagem.

 

20H – SETE MULHERES E UM MISTÉRIO – 033 Rooftop

Uma explosão de talentos femininos dirigida com muito humor e talento por Ricardo Grasson e Heitor Garcia.

Seja nas cenas coletivas, seja nos belos solos que cada uma tem direito, essas sete mulheres maravilhosas brilham e nos divertem muito. Fica difícil destacar esta ou aquela, mas é impossível deixar de escrever sobre as performances de Veronica Valentino como a esposa Marguerita brincando muito com a versatilidade de sua voz, de Stella Miranda como a vovó Perfídia e, principalmente, de Bruna Guerin como a espevitada governanta Suzette; além de cantar muito bem, Bruna revela um surpreendente tempo de comédia, algo novo em sua brilhante carreira.

Palmas também para Laura Castro (Catarina), Malu Rodrigues (Bianca), Paula Capovilla (Augusta) e Larissa Noel (Bete) substituindo Letícia Soares nessa apresentação.

O belo cenário com dependências da casa é de Natália Lana (cenógrafa também de “Gil”).

Músicas e letras de Anna Toledo.

Para resumir em apenas duas palavras: PURA DELÍCIA!

 

14/09/2026

domingo, 13 de setembro de 2026

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER

 

 

1     -Um pouco sobre Edwin Luisi

Durante os anos 1970 e no início dos 1980 o ator paulistano Edwin Luisi, formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) em 1970, apareceu de forma regular nos palcos da cidade.

Ator de grande talento já interpretou Mozart (1982) e Freud (1985), sendo inesquecível também o seu Tom Wingfield em “À Margem da Vida” (1976) ao lado de Beatriz Segall, dirigido por Flávio Rangel.

Após a mudança para o Rio de Janeiro a presença de Luisi nos palcos paulistanos tornou-se cada vez mais rara.

Das poucas vezes que esteve em São Paulo neste século, cabe lembrar de “Triunfo Silencioso” (2005) ao lado de Herson Capri e de “Alair” (2017). Seu último trabalho por aqui foi em uma montagem despretensiosa de título “O Martelo” (2019).

Elogiadíssimo e premiado em 2007 na montagem carioca de “Eu Sou Minha Própria Mulher”, o ator finalmente chega em São Paulo com uma nova encenação da peça.

 

2     - Eu Sou Minha Própria Mulher

A vida da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf foi tema de um docudrama alemão de 1992 dirigido por Rosa von Praunhein.

A partir de entrevistas que realizou com Charlotte, o dramaturgo norte-americano Doug Wright (1962) escreveu a peça que mostra  sua trajetória sendo perseguida tanto pelo regime nazista até o fim da segunda guerra, como pela “Stasi”, polícia política da Alemanha Oriental durante o regime comunista. Charlotte sobreviveu com elegância e bom humor a esses duros períodos colecionando antiguidades e até montando um museu.

Além de Charlotte aparecem na trama o próprio Wright, um colega seu jornalista, o pai e a mãe de Charlotte e mais uma dezena de personagens, todos e todas interpretados/as por Edwin Luisi em composição merecedora de todos os prêmios que recebeu e que ainda há de receber.

Pequenas mudanças no tom de voz e no sugestivo figurino preto desenhado por Marcelo Marques são o suficiente para Luisi se transformar de uma para outra personagem, todas ótimas, mas atingindo a perfeição na figura frágil e bem humorada de Charlotte.

Herson Capri foca toda a direção do espetáculo na impressionante e bela interpretação de Edwin Luisi.

Muito emocionado, ao final do espetáculo Edwin registrou a presença na plateia de companheiras e companheiros da sua turma de 1970 na EAD.

Foto cedida por Pedro Cosmos 

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER está em cartaz no Teatro FAAP até 29 de novembro às sextas e sábados, 20h e domingos, 17h.

NÃO DEIXE DE VER! 

13/09/2026

sábado, 12 de setembro de 2026

CONFUZO – está escurecendo dentro de mim –

 

Foto de Renato Mangolin

“A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar)

        “Enquanto você pedala, eu crio raízes”, esta é uma citação, com uma mudança no primeiro verbo, do título da montagem anterior da Cia. Dos à Deux, enquanto voava agora você pedala para gerar energia na forma de luz e eu já criei raízes!

        A peça mostra o Homem-Árvore e o Homem-Luz, enquanto um deles busca o pertencimento por meio de suas raízes, o outro gera luz e liberdade por meio de seus intensos movimentos ao pedalar.

        Conforme citação dos componentes do grupo (André Curti e Artur Luanda Ribeiro): “o corpo, a imagem, a luz, o espaço e a matéria ocupam o centro da dramaturgia”, mas desta vez eles acrescentam a fala para criar essa fábula contemporânea.

        Esteticamente muito belo o espetáculo tem outro ponto fortíssimo na surpreendente trilha sonora de Federico Puppi que acompanha toda a ação. É notável a sincronia dos movimentos e falas com o som e a luz.

        André Curti interpreta o Homem-Árvore equilibrando na cabeça uma raiz de 4,5kg e Artur Luanda Ribeiro é o Homem-Luz pedalando mais de 30km para gerar toda a luz da encenação. Além do já conhecido talento da dupla, eles mostram um incrível preparo físico.

Foto de Victor Pollak

        É mais um trabalho impecável da Cia. Dos à Deux!

        “Confuzo” deve ser visto, sem prevenções, com olhos à procura do novo e do surpreendente; a beleza visual esconde atrás de si, um retrato de como caminha a humanidade.

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 18/10: quinta e sexta, 19h – sábado e domingo, 18h.

Não perca essa oportunidade de se deslumbrar!

12/09/2026