domingo, 2 de agosto de 2026

LINHA DO TEMPO DO TEATRO NO BRASIL – DANIEL MARANO

 


Um tesouro!

Em novembro de 2017 escrevi o seguinte; “Conheci Daniel Marano em junho de 2017 quando ele estava no elenco da peça “A Tropa” no Teatro Sérgio Cardoso. Conversamos um pouco ao final do espetáculo e fiquei impressionado como aquele jovem com 27 anos se interessava apaixonadamente pela história do teatro brasileiro e pelo imenso acervo de fotos, vídeos e textos que ele disse possuir em seu acervo iniciado quando era ainda um garoto. Marcamos um bate papo para o dia seguinte e fiquei muito feliz com o fato de meu livro passar a fazer parte desse rico memorial do nosso teatro.

 Daniel me mostrou fotos raríssimas que iriam compor o livro que estava escrevendo o qual ainda não foi publicado, mas brevemente o será para a alegria dos que, como ele, são apaixonados pelas artes cênicas do nosso país. (*)

O meu acervo contempla em sua maioria o teatro que acontece nos palcos paulistanos e, ao que entendi, aquele de Marano é mais abrangente e deve ter um maior número de espetáculos da cena carioca. Somamos assim considerável material que um dia poderá ser extremamente útil na preservação da tão desprezada memória de nosso teatro.”

        Depois disso acompanhei o curso “A Aventura do Teatro Brasileiro” que ele ministrou virtualmente, fui entrevistado por ele para uma série sobre teatro e nossa tornamos bons amigos juntando forças para a preservação da memória do nosso teatro. Para sorte do teatro paulistano Daniel mudou para cá e hoje é curador do Teatro Estúdio.

        O livro citado no texto acima (*) foi publicado, segundo Daniel com algumas imperfeições, mas para mim uma fonte rara de fotos e informações e no dia de ontem (01/08/2026) ganhei esse tesouro e de lambuja com uma carinhosa dedicatória do autor.

        Vai ocupar lugar de honra na minha biblioteca.

        Obrigado, Daniel.

 

        02/08/2026

 

sábado, 1 de agosto de 2026

LIA LIA

 

Fotos de Ricardo Cefalli

Eulália, Maria, Amélia, Joana, Dalia, José, Camélia, Pedro, Adélia, João, Lia, Lia...

Fragmentos da vida de um ser humano 

        Em flashes rápidos e não na ordem cronológica vamos tomando conhecimento de fatos da vida de uma mulher chamada Lia, fatos esses que também podiam fazer parte da sua ou da minha vida. O texto teatral é uma adaptação feita por Bete Coelho do livro “Lia: Cem Vistas do Monte Fuji” de Caetano W. Galindo.

        Dirigido por Bete e codirigido com toques cinematográficos por Gabriel Fernandes, “Lia Lia” é um espetáculo de rara beleza visual graças ao cenário emaranhado de “fios da vida” concebido por Daniela Thomas e Felipe Tassara, ao incrível desenho de luz de Beto Bruel, ao conjunto de oito mulheres dispostas simetricamente em dois grupos de quatro ao lado do cenário que, qual um coro de tragédias gregas, comenta e narra as ações vividas esplendidamente por Lia (Bete Coelho) e Lia (Camila Pitanga), além da presença de um homem (amante, pai) na vida de Lia interpretado por Roberto Audio. Destaque também para as participações de Laís Lacôrte (mãe e filha de Lia) e Lindsay Castro Lima como uma vizinha bisbilhoteira. Alunas do Núcleo de Artes Cênicas – NAC, do SESI-SP compõem exemplarmente o coro cênico.

        Outra beleza da montagem é a movimentação milimétricamente precisa do elenco  concebida por Bete Coelho que se assemelha aos passos de uma coreografia.

        Bete e Camila se revezam com muita garra como Lia. Bete, generosamente, cede para Camila cenas excelentes que incluem até uma interação delicada e afetiva com uma pessoa da plateia.


        Os aplausos calorosos do público heterogêneo que frequenta o Teatro do SESI ao final do espetáculo demonstram a compreensão da narrativa fragmentada da peça.

        LIA LIA cumpre curta temporada até 09/08 no Teatro do SESI de quarta a sábado às 20h e aos domingos às 18h.

        NÃO DEIXE DE VER!

 

        01/08/2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES

 


- AH! COMO É BONITA A LÍNGUA PORTUGUESA!

Essa foi a minha reação após ouvir o texto do Padre Antônio Vieira (1608-1697) dito por Márcio Vito e Moacir Chaves.

Para ouvidos tão acostumados com a linguagem coloquial do dia a dia comendo erres e esses e cheia de imperfeições, chega a ser surpresa e mesmo uma descoberta ouvir o português castiço do Padre Vieira nas vozes desses dois intérpretes.

Em um palco quase nu Márcio e Moacir se revezam na interpretação desse sermão que denuncia o tratamento dado aos povos indígenas pelos colonizadores portugueses. Apesar de seus quase quatro séculos de existência o tema do sermão, infelizmente, continua atual. As falas são permeadas por música executada ao vivo por Gustavo Corsi.

Moacir Chaves é velho conhecido de nossos palcos como diretor de mais de uma dezena de espetáculos que aqui chegaram (“Sermão da Quarta Feira de Cinzas”, também de Padre Vieira; “Bugiaria”; “Utopia” e “A Lua Vem da Ásia” entre outros), mas é a primeira vez que surge como ator e o faz com muita espontaneidade e talento estabelecendo simpático contato com o público.

Márcio Vito já havia mostrado seu talento no ano passado com o solo “Clautrofobia” e o reforça agora contracenando com Moacir nessa pequena joia em cartaz na cidade.

Atuações e dicções impecáveis fazem realmente o público se surpreender com a beleza da nossa língua. Só por isso já teria valido a pena assistir a esse espetáculo, mas o texto do Padre Vieira completa o prazer. 

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES está em cartaz no SESC Pinheiros até 08/08. Quinta a sábado, 20h30. Na sexta também às 16h. 

31/07/2026

terça-feira, 28 de julho de 2026

NO ESCURINHO DO CINEMA

 

        Indo ao teatro de quatro a cinco vezes por semana tem me sobrado pouco tempo para ir ao cinema, arte que gosto tanto quanto o teatro.

        Aproveitei o início desta semana para pôr alguns filmes em dia.

        Na segunda feira criei coragem para descer a montanha que vai da Avenida Paulista até o CineSesc: a descida íngreme e a calçada irregular são verdadeiros desafios para um portador de bengala.

        A sala de espera do CineSesc está com uma pequena e bela exposição sobre os cinemas de rua de São Paulo e isso me fez lembrar que esse espaço já surgiu como cinema de arte em 1969 com o nome de Cine Orly e exibindo na estreia nada mais, nada menos que “Eu Te Amo, Eu Te Amo” (1968) de Alain Resnais.


Em 1975 mudou o nome para Cinema Um e em 21/09/1979 foi adquirido pelo SESC passando a chamar-se CineSesc.

A exposição mostra um pouco do que foi a nossa Cinelândia onde os cinemas de rua reinavam absolutos com cartazes gigantescos dos filmes em cartaz.

Assisti a dois filmes:

- O CONVITE (2026), direção de Olivia Wilde. Os dois primeiros terços do filme são muito bons levando a crer que teremos uma comédia amarga ao gosto de Edward Albee, mas depois da tentativa de troca de casais o filme começa a explicar tudo bem ao modo do cinema norte americano e tem um final feliz e conservador para não desagradar as “famílias”.

E a Clarice sempre presente! 

        - ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (2026), direção de Daniel Solá Santiago. Fui esperando um documentário sobre o lendário TEN criado por Abdias Nascimento, mas como o título “Ecos” anuncia, trata-se mais da influência que os grupos negros contemporâneos tiveram do TEN. É um belo filme e tem depoimentos preciosos de Ruth de Souza, Lea Garcia, Milton Gonçalves e João Acaiabe, entre outros.

        Na terça feira fui ao oftalmologista no Shopping Santa Cruz e depois de comer um delicioso cheeseburger na Achapa e saborear um enorme Chocochapa (sorvete em taça que ressuscita o Chocolamour da saudosa Sorveteria Alaska) resolvi enfrentar uma sessão de cinema.

        - A ODISSEIA (2026), direção de Christopher Nolan.

        Sentei numa poltrona D-BOX que provoca vibrações e trepidações de acordo com o que acontece no filme.

        O filme é bem realizado, tem um bom elenco e procura mostrar os incidentes relatados por Homero na saga de Ulisses na tentativa de volta a Ítaca e à sua amada Penélope. Como todo filme norte americano ele não deixa de sucumbir a muitas cenas de luta e violência e a um final feliz.

 Fazer o quê??

 

28/07/2026

domingo, 26 de julho de 2026

IDIOTA CONVICTO

 

Hugo Possolo é a entidade palhaça do teatro paulistano atual.

Rio “a bandeiras despregadas” com ele desde o início dos anos 1990 quando se formou os Parlapatões. Quem não se lembra de “Sardanapalo” (1994) e “ppp@WLLMSHKSPR.br” (1998)? São também inesquecíveis seus dois solos “Prego na Testa” (2005) e “Eu Cão Eu” (2012).

Ei-lo de volta com um saboroso solo que está sendo apresentado apenas aos sábados às 22h no Espaço Parlapatões.

Dramaturgas (Ana Saggese, Maíra Dvorek e Michelle Ferreira) e dramaturgos (Luís Alberto de Abreu e Sérgio Roveri) escreveram pequenos textos para Hugo que os costurou no roteiro de “Idiota Convicto” e o resultado tem a cara do “costureiro”!

Hugo tem aquela característica dos bons palhaços ao nos fazer rir e depois refletir sobre as misérias humanas.

- Seria cômico, se não fosse trágico, mas já que estamos aqui, vamos rir.

Esse parece ser o pensamento das várias personagens que compõem “Idiota Convicto”.

Aos quase 64 anos de idade e 45 de carreira, Hugo Possolo continua mostrando seu tão bem-vindo humor e talento ao público da cidade.

Longa vida à nossa entidade palhaça!

 

26/07/2026

sábado, 25 de julho de 2026

ENTRE IRMÃOS

 

Dionísio abençoou o aconchegante Espaço Convivência do Teatro Vivo iluminando o curador André Acioli para trazer apenas excelentes espetáculos para o local.

Ali já foi a sala de espera de um consultório médico (“Um Pequeno Incidente”), a sala dos professores de uma escola (“Oleanna”) e agora é o salão de um velório em “Entre Irmãos”. Todas elas com um mínimo ou nenhum cenário fazendo a magia da imaginação do espectador se manifestar de uma maneira que só o teatro permite. As três peças também são apenas com dois intérpretes.

Ao adentrar o velório uma visitante desatenta danificou parte do esquife que foi imediatamente restaurado pela organização da casa. Como se vê, o público participa do velório do pai de dois irmãos que não se encontravam há mais de vinte anos. Enquanto um deles ficou na família, se anulando profissionalmente para ajudar o pai na condução de um restaurante, o outro abandonou a todos após a morte da mãe tornando-se um fotógrafo de certa relevância. O encontro traz de volta muitos rancores e um acerto de contas doloroso para ambas as partes. Certas revelações mudam o caminho da trama em recurso bastante melodramático, no entanto a direção precisa de Marcos Damigo e, principalmente, a excelência dos intérpretes Fernando Pavão e Otávio Martins nunca fazem a ação resvalar para o melodrama, mantendo a dignidade do drama enfrentado pelos dois irmãos.

Qualquer pessoa que já esteve em um velório sabe que seu olhar passeia pelo caixão com o falecido, pelos familiares e pelas outras pessoas ali presentes e é exatamente isso que acontece nesta montagem: olhamos para o caixão com o cadáver (outra vez a magia da imaginação), para o embate entre os dois irmãos e para a reação das outras pessoas presentes na plateia (opa, no velório!) que estão sentadas em nossa frente.

Otávio Martins tem uma brilhante composição como o irmão mais velho que permaneceu com o pai, personagem tensa e estressada que mantém o corpo contraído durante toda a ação e os braços em torno do peito parecendo compensar a carência de toda uma vida. A atuação de Otávio explicita todos esses sentimentos. Já Fernando Pavão tem uma atuação mais interiorizada condizente com a personagem do irmão caçula que teve outro tipo de vida depois que abandonou a família. Duas excelentes interpretações que se complementam e envolvem o público presente.

Não assisti à montagem original concebida para palco italiano, mas acredito que a peça ganhou muito mais nesta versão onde o público participa do velório.

A trilha sonora de Ricardo Severo e o desenho de luz de Beto de Faria comentam e complementam a ação da peça. É muita bela a iluminação da cena em que um início de agressão termina em abraço emocionado dos dois irmãos.

Belo, digno e emocionante ENTRE IRMÃOS é um trabalho que precisa ser visto.

Em cartaz de 24/07 a 13/09. Sexta e sábado, 20h e domingo, 18h no Espaço Convivência do Teatro Vivo.

 

25/07/2026

quinta-feira, 23 de julho de 2026

MANIFESTO

 

“Por tão poucos terem tanto, é que tantos têm tão pouco”

(Eduardo Marinho) 

        Desconheço como foi que Lee Taylor conheceu Eduardo Marinho, mas vejo como foi importante ele ter trazido a público, por meio deste espetáculo, a vivência e os pensamentos desse homem de aparência simples e com um conteúdo humano imenso e rico.

Lee fez a organização dramatúrgica das falas e escritas de Marinho, mas o mérito do rico conteúdo do texto  é totalmente creditado a Marinho, artista de rua, escritor e ativista social, também chamado de “filósofo de rua” vindo de uma família conservadora de classe média que, como a maioria dos jovens, obedeceu o pai militar na escolha do seu futuro, tentando carreira militar, partindo depois para uma formação universitária cursando Direito e finalmente  rompendo com tudo e com todos de maneira corajosa indo viver na rua em busca de um sentido para sua vida e de uma sinceridade que ele não encontrava no mundo burguês. A saga de Marinho é rica em detalhes e suas observações sobre o mundo e a sociedade são profundas e importantes, haja vista a frase que serve de epígrafe para esta matéria.

Tal qual Charlie Chaplin, Lee Taylor tem total domínio corporal/facial em cena, com a vantagem de que ele fala e tem belíssima e possante voz. É um verdadeiro privilégio ver Lee tão de perto incorporando em cena a figura de Marinho.

Dirigida por Georgette Fadel com codireção do próprio Lee, a encenação tem resoluções cênicas simples, mas muito belas e criativas como o uso da luz e das sombras e aquelas que acontecem na capota de Kombi presente em cena, carinhosamente batizada de Celestina por Marinho.

As palavras e os desenhos de Marinho que complementam o texto dito pela personagem, vão surgindo aos poucos em cartazes que vão sendo pendurados em varais.

Soluções aparentemente óbvias, mas que necessitam de muita criatividade para surgirem e quando aparecem vem a reação “Puxa! Como não pensei nisso antes?”

MANIFESTO é outro monólogo masculino surgido numa temporada repleto deles, mas tem destaque especial pela riqueza do texto e pela belíssima interpretação de Lee Taylor que colhe mais um sucesso em sua sólida carreira teatral.

Na noite de 22/07/2026 Eduardo Marinho estava presente sendo abraçado efusivamente por um emocionado Lee Taylor ao final da apresentação sob os aplausos do público que também não escondia sua emoção após tamanha demonstração de solidariedade e humanidade.

COMO ESTAMOS PRECISANDO DISSO!

O espetáculo é apresentado no pátio da unidade da Funarte de quinta a sábado às 19h30 e domingos às 19h.

E essa preciosidade tem ingressos gratuitos!

23/07/2026