sexta-feira, 8 de maio de 2026

O HOMEM DECOMPOSTO

 

Foto de Nil Caniné

“Que obra de arte o homem é”

(William Shakespeare) 

         A metáfora do espelho quebrado usada pelo dramaturgo romeno/francês Matéi Visniec (1956-) para comentar essa peça é muito oportuna. Realmente ele estilhaça/decompõe o ser humano e o revela impiedosamente por meio de seus cacos. Esses cacos humanos resultaram em cenas curtas que integram o texto.

        O encenador Ari Coslov recolheu alguns desses cacos e os mostra nesse belo espetáculo vindo do Rio de Janeiro e recém estreado no SESC Pinheiros. Ele deixa atrizes e atores à vontade em um palco nu, mas muito bem iluminado por Aurélio de Simoni, para brilharem, quer em solos, quer em cenas de conjunto, por meio de seus talentos e suas incríveis movimentações em cena dirigidas por Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

        A peça inicia com uma reconstituição, a meu ver irônica, mas muito bela da "Santa Ceia" de Leonardo Da Vinci e segue com a apresentação dos cacos humanos, sendo o primeiro aquele do homem que se refugia em um círculo, clara referência ao doentio individualismo que tomou conta da nossa espécie. Mario Borges defende com paixão esse personagem.

        E as cenas se sucedem com excelentes intervenções de Júnior Vieira (invejável dicção), Marcelo Aquino (ótimo como o homem que não consegue parar de correr), Andrea Dantas (estreando em São Paulo, substituindo brilhantemente Guida Vianna) e Dani Barros, de quem os palcos paulistanos estavam sentindo muito a sua falta.

Assistir a Dani Barros contando a história das borboletinhas carnívoras é uma prova de que os seres humanos são verdadeiramente uma obra de arte e, como tal, criam outras pérolas de arte.

Cabe notar, porém, que esse mesmo ser humano é capaz de ações terríveis, tal como mostra este espetáculo.

Cruel e mordaz em sua crítica aos desmandos do homem, mas repleto de toques de humor, “O Homem Decomposto” é mais uma prova que a obra de Visniec é cada vez mais necessária e prova também a qualidade de espetáculos cariocas que chegam até aqui.

O HOMEM DECOMPOSTO está em cartaz até 06/06 no SESC Pinheiros de quinta a sábado às 20h30.

IMPERDÍVEL! 

08/05/2026

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MADAME BLAVATSKY – AMORES OCULTOS

 

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”

(Shakespeare em “Hamlet”)

Já há alguns anos Mel Lisboa vem atuando nesse monólogo e só agora tive a oportunidade de assistir a esse belo trabalho que deveria ter merecido muitos prêmios na ocasião de sua estreia, mas nunca é tarde para elogiar a rigorosa composição de Helena Petrovna Blavatskaya (1831-1891), conhecida por Madame Blavatsky, criada por Mel.

Em recurso dramatúrgico bastante interessante, a autora Claudia Barral, levando em conta a mediunidade de Madame Blavatsky, coloca em cena uma atriz que por meio de uma incorporação mediúnica recebe Madame, que passa a revelar ao público fatos de sua vida e de seu pensamento.

Poucas vezes a frase de Shakespeare em epígrafe casou tão bem com um espetáculo.

Marcio Macena é o diretor do espetáculo e  João Pimenta assina o sugestivo figurino vestido pela atriz.

Mel transita de uma a outra personagem de maneira criativa, mostrando sua versatilidade em cena; para reforçar este fato basta citar que há poucos metros dali (Teatro Porto) ela incorpora Rita Lee há mais de um ano.

Nosso teatro precisa de atrizes com esse talento.

Parabéns Mel!! 

MADAME BLAVATSKY está em cartaz no Teatro Estúdio às segundas e terças às 20h no Teatro Estúdio.

NÃO DEIXE DE VER! 

07/05/2026


 

terça-feira, 5 de maio de 2026

MOMENTOS DA CERIMÔNIA DE ENTREGA DO PRÊMIO APCA 2025


MOMENTO NOBRE 

O Teatro de Contêiner Mungunzá foi premiado na categoria arquitetura por sua RESISTÊNCIA URBANA.

O grupo recebeu o prêmio com um protesto belíssimo e elegante sobre o despejo do Contêiner, digno de outro prêmio.

Um garoto, filho de Marcos Felipe e Sandra Modesto iniciou os agradecimentos, complementados por Sandra.

PARABÉNS MUNGUNZÁ!! E RESISTAM...


MAIS UM MOMENTO NOBRE 

Haisem Abaki foi premiado na categoria rádio e seu agradecimento foi acompanhado por um coro apaixonado do público: FICA ELDORADO!!!

Emocionante.


MOMENTO BOTIJA

 Os queridos Jhoao Junnior e Maria Alencar recebendo o prêmio APCA na categoria teatro infanto-juvenil pelo delicioso espetáculo A BOTIJA, um pequeno inventário de histórias fantásticas do Nordeste Brasileiro.

PARABÈNS!!! 


MAIS UM MOMENTO 

A cerimônia iniciou com a premiação da categoria televisão e o primeiro prêmio foi para Lima Duarte com o “Troféu especial 75 anos da TV brasileira”.

O grande Lima Duarte foi ovacionado de pé quando entrou no palco e iniciou um discurso sobre sua trajetória desde a infância. Premidos pelo tempo Barbara Salomé e Daniel Warren tentavam timidamente interromper o ator que se recusava a parar. Com a ajuda dos aplausos da plateia o discurso foi interrompido nos anos 1950, quando ele entrava na televisão. Se deixasse, Lima varava a noite até chegar nos seus atuais 95 anos.

Grande presença!


OUTRO MOMENTO 

Discreto e elegante Ney Matogrosso recebeu o Grande Prêmio da Crítica na categoria música popular.

Merecidamente muito aplaudido! 


O MOMENTO TEATRO 

E aqui fotos dos premiados na categoria TEATRO da qual faço parte como jurado.

PARABÉNS a essa turma linda que engrandece essa arte apaixonante.

Viva Silvia Gomez, Dinho Lima Flor, Marcelo Medici, Paula Cohen, Grupo Galpão, Programa Persona e Caetano Vilela.

Silvia Gomez
Dinho Lima Flor
Marcelo Medici
Paula Cohen
Grupo Galpão - Fernanda Vianna
Persona - Atilio Bari
Caetano Vilela

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CHEZ TOI

 

Abigail (Barbara Bruno) é uma senhora idosa voluntariosa e impertinente sempre praguejando contra as brincadeiras da vizinha adolescente Paulina (Nalu Albuquerque) e muito incomodada com a relação delicada que tem com sua filha Emily (Bianca Rinaldi). Laura (Viviane Figueiredo), ex-companheira de Abigail, aparece de forma inusitada para ajudar a resolver esses problemas de relacionamento.

O autor Dan Rosseto apresenta esse universo feminino usando elementos de realismo mágico para denunciar de forma delicada e com toques do humor assuntos sérios como etarismo e preconceito.

Rosseto, também diretor do espetáculo, imprime tom realista desde o cenário até a interpretação das atrizes.

Bianca Rinaldi compõe Emily com delicadeza, mas sempre reagir com firmeza quando necessário,

Nalu Albuquerque, filha de Dan, é o que se pode dizer, uma “gracinha” em cena, com dicção perfeita e muito à vontade, prenunciando um belo futuro na carreira teatral.

Viviane Figueiredo utiliza seus recursos vocais e de dançarina para compor a enigmática Laura, em um registro que foge do tom realista.

Como veículo para o talento de Barbara Bruno, a peça acerta em cheio. A querida atriz comemora neste ano 55 anos de presença nos palcos e 70 anos de presença na vida. Vê-la em cena como Abigail é daqueles prazeres que o teatro ocasionalmente nos oferece.

De lambuja, tive o prazer de sair em uma fotografia com Barbara e Beth Goulart, que foi prestigiar a irmã naquela sessão.

VIVA A FAMÍLIA BRUNO GOULART!

VIVA O TEATRO!! 

CHEZ TOI está em cartaz no Teatro Nair Bello no Shopping Frei Caneca de 01/05 a 07/06. Sexta e sábad0 20h e domingo 18h. 

04/05/2026

 

domingo, 3 de maio de 2026

UMA VELHA CANÇÃO QUASE ESQUECIDA

 

Fotos de Ronaldo Gutierrez

Doenças, acidentes, perdas de parentes e amigos são temas sempre difíceis, incômodos e até desagradáveis para serem tratados pelo cinema e pelo teatro. Alguns bons exemplos podem ser encontrados nas duas artes, mas em geral resultam em obras tristes e sombrias.

A dramaturga irlandesa Deirdre Kinaham (1968-) realiza caminho inverso em “Uma Velha Canção Quase Esquecida” mostrando com muita delicadeza e toques do humor a decadência de um velho ator com doença de Alzheimer e sua luta para resgatar velhas memórias contando para isso com o auxílio do seu eu mais jovem. Esse achado dramatúrgico resultou em excelente texto teatral, traduzido cenicamente para nossos palcos por Domingo Nunez também com muita delicadeza.

Domingo Nunez da “Cia Ludens” é especialista no teatro irlandês e já apresentou significativas obras daquele país em nossos palcos. Esta montagem ancora-se na interpretação de dois atores, mas é bem complementada pelo cenário criado por Marisa Rebollo e belamente iluminado por Zerlô.

A trilha sonora composta por Mario da Silva é executada ao vivo por Aline Reis, Mafê e Vinicius Leite, dialogando e até interferindo com as cenas.

Genézio de Barros interpreta o velho ator com seus talento e elegância habituais. Apenas mudanças faciais podem trazer todo o significado do que está ocorrendo. Esta vigorosa interpretação vem se somar a outros grandes trabalhos já realizados por esse grande ator.

Iuri Saraiva tem o desafio e o privilégio de contracenar com Genézio interpretando o ator quando jovem como também outras figuras que passaram por sua vida como a mãe orgulhosa do filho ator. Apesar de relativamente jovem, Iuri é um ator consagrado no cinema e no teatro, mas seu desempenho neste espetáculo, no meu modo de ver, supera tudo o que fez até hoje, pela versatilidade, pela movimentação ágil e pela garra em cena.

Presenciar a atuação desses dois grandes atores é mais um presente que o teatro gentilmente oferece a este velho espectador.

O belo programa com fotos de Ronaldo Gutierrez e textos importantes, me foi gentilmente enviado pelo diretor de produção André Roman e, infelizmente, não foi impresso pelo SESC Pompeia. Um desserviço irreparável. 

Todo grupo responsável por esse belo trabalho

UMA VELHA CANÇÃO QUASE ESQUECIDA está em cartaz no SESC Pompeia de 02 a 24 de maio. Sessões: Quarta, quinta e sábado - 20h / Sexta – 16h e 20h / Domingo – 18h

Não DEIXE DE VER! 

03/05/2026

sábado, 2 de maio de 2026

TIP

 

 

Muito bonita, Milla Fernandez chega a São Paulo como um furacão incendiando o palco do Teatro YouTube/Eva Herz com muita garra e energia ao relatar sua experiência como “camgirl”(**) durante a pandemia da Covid em 2020/2021, com o intuito de se sustentar e sobreviver.

A peça é uma autoficção, mas vem recheada de fatos não acontecidos saídos da imaginação da autora.

O primeiro terço da peça é um desabafo lufado em alta velocidade (às vezes até incompreensível) onde Milla conta os antecedentes de sua experiência. No restante do espetáculo ela “dá uma aula” de como entrar nesse universo erótico virtual e depois ilustra com vários casos acontecidos com ela durante sua exposição como “camgirl”.

Para tanto a atriz desdobra-se no palco com invejável vigor físico dançando, falando, tocando sax e cantando de maneira admirável. Há até uma deliciosa dança dos pés, iluminada com carinho por Rodrigo Portella.

Rodrigo Portella, em mais um exemplo de sua criatividade, dirige o espetáculo e a interpretação de Milla a partir do cenário e da iluminação criadas por ele. Milla desloca-se em perfeita sintonia com os focos de luz, driblando com incrível domínio as dobras dos dois tapetes vermelhos que compõem o cenário.

É digna de nota a trilha sonora criada por Federico Puppi e por Leonardo Bandeira. O figurino flexível vestido por Milla é de autoria de Karen Brusttolin.

Milla Fernandez mantém o público “aceso” nas quase duas horas que dura o espetáculo, algo surpreendente quando se trata de um monólogo.

Pode parecer superficial da minha parte escrever que a figura de Milla me remeteu à exuberância de Norma Bengell e sua interpretação me fez lembrar de Marília Pêra em alguns momentos. Espero que a atriz veja isso como um elogio 

TIP está em cartaz no Teatro Youtube/Eva Herz até 31/05. Sexta e sábado 20h. Domingo 17h. 

(*) – Gorjeta em inglês. 

(**) Direto da wikpedia: “Uma modelo de webcam, também conhecida como camgirl , é uma mulher que atua na Internet através de imagens de webcam ao vivo. Um modelo de webcam geralmente realiza serviços sexuais (como striptease e masturbação) em troca de dinheiro, bens, atenção, ou gorjetas (tip)” 

02/05/2026

 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

FIM DE PARTIDA

 

Samuel Beckett (1906-1989) escreveu suas três peças mais conhecidas entre 1948 e 1960, período de pós guerra, onde reinava certo ar de desesperança em uma Europa devastada pela segunda guerra mundial.

Esse clima sombrio e de falta de perspectiva está presente em “Esperando Godot” (1948/1952), “Fim de Partida” (1957) e “Dias Felizes” (o título mais irônico do teatro!) (1960) e, com certeza “Fim de Partida” é a mais desesperançada das três peças.

Entre

- “É o fim. Isto vai acabar. Talvez...acabe” dito pelo personagem Clov no início da peça e

- “Visto que isso é assim... seja assim e... não falemos mais nisso”, últimas palavras de Hamm agora totalmente solitário já que Clov e o pai não respondem mais aos seus chamados.

acontece a ação da peça que é um suceder de diálogos entre Hamm um homem cego, paralítico e autoritário e seu serviçal (?) Clov, submisso e infeliz.

Em certos momentos entram em cena Nagg e Nell, pais de Hamm que repousam, até felizes, em duas latas de lixo.

Das três peças, “Fim de Partida” talvez seja aquela de maior dificuldade de comunicação com o público, mas isso não é problema para Rodrigo Portella, diretor do presente espetáculo, que o faz com rara sensibilidade.

Considero Portella “l’enfant terrible” do teatro brasileiro.

Desde o memorável “Tom na Fazenda” em 2017, ele vem colecionando sucessos de crítica e de público com espetáculos muito bem sucedidos (“Insetos”, “As Crianças”, “Ficções”, “[Um] Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Motociclista no Globo da Morte”, são algumas das encenações que chegaram em São Paulo). Estão estreando em São Paulo este “Fim de Partida” e “Tip”. “Deus da Carnificina” está em cartaz no Rio de Janeiro e já há outro trabalho em ensaios por lá.

Currículo invejável nessa trajetória de menos de dez anos a partir de “Tom na Fazenda” que o qualificam para o título que lhe dei acima.

A encenação de “Fim de Partida” em cartaz no SESC Pinheiros é primorosa desde o cenário limpo, mas claustrofóbico de Daniela Thomas e iluminado pelo sempre brilhante Beto Bruel. Os figurinos são de Antonio Guedes e a trilha sonora com toques de humor felliniano assinada por Federico Puppi já prepara o público para o que há de vir com a cortina ainda fechada. Portella harmoniza todo esse conjunto com as interpretações soberbas do elenco.

O toque de mestre do diretor já se faz presente no início da peça quando se ouve uma gravação com as rubricas da peça e Clov se movimenta de acordo com as mesmas.

Helena Ignez (Nell) e Ary França (Nagg) brilham nos momentos que lhes é permitido colocar as cabeças fora das latas de lixo.

Marco Nanini empresta seu talento mais que comprovado na composição do inerte Hamm, onde toda interpretação depende apenas da parte vocal, pois não vemos os seus olhos nem movimentos corporais.

Grande destaque para Guilherme Weber que interpreta Clov curvado o tempo todo com toques piolinianos(*), chaplinianos e fellinianos, tudo ao mesmo tempo! Belíssimo trabalho.

Tudo isso faz de “Fim de Partida” um espetáculo absolutamente IMPERDÍVEL.

Cartaz do SESC Pinheiros de 30/04 a 31/05. Quarta a sábado, 20h. Domingo, 18h. 

(*) Refere-se a Piolin (1897-1973), um dos palhaços mais engraçados e humanos surgidos no circo brasileiro. 

01/05/2026