Dionísio abençoou o aconchegante
Espaço Convivência do Teatro Vivo iluminando o curador André Acioli para trazer
apenas excelentes espetáculos para o local.
Ali já foi a sala de espera de um
consultório médico (“Um Pequeno Incidente”), a sala dos professores de uma
escola (“Oleanna”) e agora é o salão de um velório em “Entre Irmãos”. Todas
elas com um mínimo ou nenhum cenário fazendo a magia da imaginação do
espectador se manifestar de uma maneira que só o teatro permite. As três peças
também são apenas com dois intérpretes.
Ao adentrar o velório uma visitante
desatenta danificou parte do esquife que foi imediatamente restaurado pela
organização da casa. Como se vê, o público participa do velório do pai de dois
irmãos que não se encontravam há mais de vinte anos. Enquanto um deles ficou na
família, se anulando profissionalmente para ajudar o pai na condução de um
restaurante, o outro abandonou a todos após a morte da mãe tornando-se um
fotógrafo de certa relevância. O encontro traz de volta muitos rancores e um
acerto de contas doloroso para ambas as partes. Certas revelações mudam o
caminho da trama em recurso bastante melodramático, no entanto a direção
precisa de Marcos Damigo e, principalmente, a excelência dos intérpretes
Fernando Pavão e Otávio Martins nunca fazem a ação resvalar para o melodrama,
mantendo a dignidade do drama enfrentado pelos dois irmãos.
Qualquer pessoa que já esteve em um
velório sabe que seu olhar passeia pelo caixão com o falecido, pelos familiares
e pelas outras pessoas ali presentes e é exatamente isso que acontece nesta
montagem: olhamos para o caixão com o cadáver (outra vez a magia da
imaginação), para o embate entre os dois irmãos e para a reação das outras
pessoas presentes na plateia (opa, no velório!) que estão sentadas em nossa
frente.
Otávio Martins tem uma brilhante
composição como o irmão mais velho que permaneceu com o pai, personagem tensa e
estressada que mantém o corpo contraído durante toda a ação e os braços em
torno do peito parecendo compensar a carência de toda uma vida. A atuação de
Otávio explicita todos esses sentimentos. Já Fernando Pavão tem uma atuação
mais interiorizada condizente com a personagem do irmão caçula que teve outro
tipo de vida depois que abandonou a família. Duas excelentes interpretações que
se complementam e envolvem o público presente.
Não assisti à montagem original
concebida para palco italiano, mas acredito que a peça ganhou muito mais nesta
versão onde o público participa do velório.
A trilha sonora de Ricardo Severo e o
desenho de luz de Beto de Faria comentam e complementam a ação da peça. É muita
bela a iluminação da cena em que um início de agressão termina em abraço
emocionado dos dois irmãos.
Belo, digno e emocionante ENTRE IRMÃOS
é um trabalho que precisa ser visto.
Em cartaz de 24/07 a 13/09. Sexta e
sábado, 20h e domingo, 18h no Espaço Convivência do Teatro Vivo.
25/07/2026






















