sábado, 13 de junho de 2026

OS GIGANTES DA MONTANHA

 

É estimulante ver um grupo de jovens atrizes e atores empenhados em produzir e interpretar um texto difícil e complexo como “Os Gigantes da Montanha” de Luigi Pirandello (1867-1936). Tal fato nos faz acreditar que, pelo menos por mais uma geração, nosso teatro tem futuro. Que venham outras e mais outras gerações!

Dentro da peça há o mago Cotrone que transita com o sonho e a fantasia, enquanto fora dela temos o mago Kiko Marques que com seu talento e criatividade nos oferece sempre espetáculos preciosos.

Pirandello dedicou os últimos oito anos de vida na elaboração dessa obra e a deixou inacabada. A peça trata de assuntos caros ao autor como a relatividade da verdade, os tênues limites entre sonho e realidade e a vulnerabilidade da arte no mundo moderno e no meu modo de ver, nesta última obra ele flerta com o teatro do absurdo e o realismo mágico que só iriam surgir décadas depois com Ionesco e Beckett (anos 1950) e García Márquez (anos 1960). Pirandello só não é o fundador desses gêneros porque ele justifica as ações do segundo ato como sendo sonhos.

A montagem de Kiko é resultado de uma oficina realizada com esse jovem elenco e o rendimento do grupo é surpreendente. A encenação acontece nas dependências da Zona Franca em espaço que um dia deve ter sido uma garagem e com um pouco de imaginação o público acompanha e mergulha no ambiente mágico e misterioso proposto pela peça.

Cleyde Yáconis em 1969 e Inês Peixoto em 2013 já interpretaram a Condessa Ilse e desta vez cabe a Alejandra Sampaio, como atriz convidada, interpretar essa que é uma das mais importantes personagens femininas do teatro do século XX. A interpretação de Alejandra é arrebatadora e ilumina a cena de forma extraordinária, sem ofuscar a interpretação do resto do elenco menos experiente.

Existe um equilíbrio nas interpretações e Kiko teve o cuidado de oferecer solos importantes para Ingrid Ruiz, para Isadora Maffei numa emocionante composição de Stefano, o filho de Pirandello, ao final do espetáculo e para os atores que interpretam o Conde, o amante suicida e Crono.

Por último, mas não menos importante, o segundo papel da peça é aquele de Cotrone que já foi vivido por Ziembinski (1969) e Eduardo Moreira (2013). O jovem ator Bruno Rods, com uma dicção impecável, interpreta o mago com muita garra, faltando, porém, a aura de magia que pessoalmente vejo na personagem. Outro figurino que não esse que mais lembra um malandro carioca e outro tom de voz talvez contribuísse para uma composição mais adequada de Cotrone.

São cem minutos de tudo aquilo que chamamos de verdadeiro TEATRO e é um privilégio vivenciar plenamente esses momentos.

A simpatia do grupo se estende após o término do espetáculo e as conversas que tive com minha querida Lelê, Bruno, Ingrid, Isabella, Gustavo (que interpreta o Pequeno) e o ator que interpreta Crono renderiam outra matéria repleta de afeto e trocas. Presentes também nessas conversas gente querida como o Imad, o Fábio Mraz, o André Garolli , a Barbara Bruno, o Roberto Borenstein, dois simpáticos senhores mineiros e um rapaz muito legal, apesar dele ter adorado um espetáculo que eu odiei (viva a diferença!!).

Sem contar o ambiente acolhedor que é a Zona Franca sempre com um cafezinho e os pães e os bolos maravilhosos que a Lelè traz da padaria.

Esta matéria está muito afetuosa? É PRA ESTAR MESMO!!

Mais uma noite memorável que o teatro oferece para este espectador apaixonado.

VIVA O TEATRO!

OS GIGANTES DA MONTANHA está em cartaz na Zona Franca (Rua Almirante Marques de Leão, 378 na Bela Vista) até 28 de junho. Sexta e sábado, 20h/Domingo, 18h.

IMPERDÍVEL 

13/06/2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O PEQUENINO GRÃO DE AREIA

 

 

Há um pequeno tesouro escondidinho no palco do Teatro Popular do SESI à espera que as crianças de São Paulo o descubram. Escrita por João Falcão há mais de 40 anos a montagem atual, dirigida pelo autor, tem o frescor e beleza de um recém-nascido.

Inspirado na canção de Marino Pinto e Paulo Soledade imortalizada por Dalva de Oliveira onde um grão de areia se apaixona por uma estrela, João Falcão criou essa bela trama onde um grupo de grãos, cada um com uma característica (chorão, mandão, medroso, sabichão, apaixonado) está reunido e especula sobre a paixão de um deles pela estrela. Tudo acontece permeado pelas belas canções compostas por Falcão; m bom momento ele não optou pelo óbvio, que seria utilizar a canção famosa no espetáculo.

O elenco, jovem e simpático, interpreta, toca e canta muito bem; a direção musical é de Ricco Viana. Destaque para Renato Luciano que interpreta um tipo de líder dos grãos e para Fábio Enriquez em deliciosa composição como o grão apaixonado; ambos vindos do grupo Barca dos Corações Partidos.


Tudo acontece com delicadeza e beleza nos preciosos 50 minutos que dura o espetáculo; não há, nem criança nem adulto, que não acompanhe a peça com um sorriso nos lábios e com a alma plena de alegria.

Esta matéria é pequenina como um grão de areia, mas tem a nobre intenção de estimular crianças e adultos a se dirigirem ao Teatro do SESI para assistirem a essa preciosidade. 

O PEQUENINO GRÃO DE AREIA está em cartaz no Teatro Popular do SESI até 26 de julho. Quintas e sextas, 11h/Sábados e domingos, 15h. Ingressos gratuitos. 

P.S. ATENÇÃO: João Falcão está morando em São Paulo. Urge que nos valhamos mais do seu talento e criatividade 

12/06/2026

segunda-feira, 8 de junho de 2026

DONATELLO

 

Vitor Rocha é um rapaz (Rapaz, sim! Ele tem apenas 28 anos) de muito talento e rara sensibilidade. Lançou-se como autor com apenas 21 anos com “Cargas d’Água” e não parou mais, acumulando sucessos de crítica e de público com os quatro espetáculos que se seguiram, culminando com essa preciosidade chamada “Donatello”, escrita e estreada em 2024 e agora retornando a São Paulo para uma bem-vinda temporada no Teatro do Núcleo Experimental.

A peça mostra um homem que desde menino teve uma relação muito amorosa com seu avô Donatello. Foi numa sorveteria muito frequentada pelos dois que surgiram os primeiros sinais de Alzheimer no velho. A partir daí o homem mostra os desdobramentos da doença do avô e a relação com seus pais e uma primeira namorada; cada sentimento experimentado por ele tem o sabor de um sorvete criando um jogo deliciosamente lúdico com a plateia, coroado com frase emblemática que reproduzo a seguir:

Tem gente que é tão boa que merece virar sabor de sorvete”.

A encenação dirigida por Victória Ariante privilegia a presença de Vitor em cena interpretando o neto de Donatello. As belas canções que permeiam a narrativa têm letras do próprio Vitor e músicas de Elton Towersey. Tudo flui de maneira delicada e bem humorada apesar de tratar de assunto sério e doloroso.

Vitor Rocha é presença luminosa em cena. É simpático, bonito e carismático criando uma relação de intimidade e cumplicidade com o público pouco vista em tantos espetáculos a que já assisti.

Sentado no palco, pude ver os olhos de muita gente na plateia tão marejados de emoção como os meus.

“Donatello” não resvala para o melodrama em nenhum momento graças ao texto e interpretação de Vitor, à direção de Victória e às intervenções do pianista Guilherme Gila.

Muitos são os momentos marcantes desses noventa minutos que passam voando, mas se é para destacar apenas um, fico com aquele que é quase uma cena de cabaré onde Vitor canta e interage com o pianista sentado ao seu lado.

As relações do narrador com a nova namorada (que é uma das espectadoras) quando ele descobre o amor que tem sabor de flocos também é uma cena deliciosa que para este espectador tem sabor de chocolate já que este é meu sabor preferido.

“Donatello” agrada em cheio qualquer que seja o sabor de sua preferência e é preciso estar com o coração aberto para melhor degusta-lo.


Em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental aos sábados, 20h e aos domingos, 19h até 19 de julho.

Corra para ir, pois você vai querer ver de novo. O espetáculo tem gosto de QUERO MAIS! 

08/06/2026

 

sábado, 6 de junho de 2026

OS SAPATOS QUE DEIXEI PELO CAMINHO

 

O Teatro do Kaos é um grupo teatral sediado em Cubatão que até hoje realizou poucas temporadas mais longas nos teatros deste lado da serra. Ao que eu saiba a última temporada que fez por aqui foi em 2012 com “A Falecida” na área livre da saudosa Oficina Cultural Oswald de Andrade. Quatorze anos!!

Por outro lado, as atividades do Kaos em Cubatão são intensas com realização de espetáculos no belo teatro existente em sua sede, cursos de formação de atores e atrizes, festivais de teatro e uma grande apresentação anual intitulada “Caminhos da Independência” na Semana da Pátria. Lourimar Vieira, fundador do grupo há 29 anos, está a frente das atividades do Kaos.

Por tudo isso é muito bem-vinda a temporada do Kaos no Teatro Sérgio Cardoso de 05 a 28 de junho com “Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho”, espetáculo icônico criado pelo grupo em 2014.

A dramaturgia de Cícero Gilmar Lopes baseia-se em argumento de Lourimar Vieira que fala sobre as agruras e também alegrias de Poim (apelido de Lourimar) como migrante do Piauí para São Paulo, desde sua chegada muito assustado até a criação do Kaos em 1997.

O elenco de uma atriz (a bela Camila Sandes) e quatro atores (Fabiano Di Melo, Levi Tavares, Lourimar Vieira e Luiz Guilherme) encarrega-se de contar a saga de Poim de forma onírica e não cronológica sob a direção de Marcos Felipe do Grupo Mungunzá.

O sugestivo título da peça parece referir-se às coisas más e boas que surgem em nossas vidas e que por uma razão ou outra deixamos para trás.

Homofobia, aceitação de homossexualismo, burocracia e um imenso amor ao teatro são temas tratados neste espetáculo.

Trata-se de ótima oportunidade de a cidade conhecer o trabalho desse importante grupo teatral.

Sextas, sábados e domingos às 19h

 

06/06/2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

VISITA A DOMICÍLIO

 

        “Visita a domicilio” ou “Visita em domicílio”? Levando em conta a situação da peça onde um médico se dirige a um domicílio para atender um paciente, o mais correto, segundo o Google, seria “Visita em domicílio” (*).

        Polêmica gramatical à parte, a peça do dramaturgo argentino Alberto Romero (“Tu Hipocampo y Mi Caballito de Mar”, no original) trata do reencontro inesperado entre dois homens. Um deles (Gabo) chama um médico para tratar de uma crise de nervo ciático e para surpresa de ambos, este médico é Fernando que foi seu namorado na adolescência e a relação foi bruscamente interrompida por razões que Gabo desconhece. A peça ocorre entre acertos e desacertos na conversa dos dois homens para só esclarecer os motivos que levaram Fernando a interromper a relação nas cenas finais. O texto não oferece maiores novidades e tem um desenlace previsível, sendo bastante valorizado pela interpretação dos dois atores.

        A direção de Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado é discreta e bastante focada na interpretação do elenco.

        Há várias trocas de objetos de cena feitas à vista do público por dois contra regras que a meu ver são desnecessárias, pois toda a ação da peça se passa no domicílio de Gabo e em vez de dinamizar (creio que foi essa a intenção dos encenadores) essas trocas quebram o ritmo da peça. Apesar de bastante vibrantes, as canções da trilha sonora também não colaboram para enriquecer a cena.

        Os maiores trunfos da peça são os dois intérpretes.

Cícero de Andrade é ator bastante sensível sabendo dosar as dúvidas, a ternura e a indignação presentes no seu personagem Fernando. É um grande prazer vê-lo em cena.

Gabo é a personagem principal da peça e Juan Tellategui o compõe de forma surpreendente. Transitando entre a comédia e o drama, ele usa sua expressão facial como a principal arma para mostrar os sentimentos de Gabo. Em muitos momentos suas expressões patéticas (no sentido de suaves, ingênuas, enternecedoras) me remeteram ao saudoso Stan Laurel (o Magro da dupla cinematográfica). Tellategui também não descuida da expressão corporal e de sua potente voz.

A cena final, onde muita coisa se esclarece tem um embate furioso entre Gabo e Fernando que reafirma os talentos de Cícero e Juan.

Trata-se de mais uma peça com tema LGBT+ em cartaz na cidade que tem o mérito de fugir dos clichês tão comuns nesse gênero de espetáculo.

O simpático Alberto Romero, autor da peça, estava presente na apresentação a que assisti.

(*)   Visita a domicílio: Usa-se a preposição "a", pois o termo "visita" e o verbo "ir" transmitem ideia de movimento ou deslocamento até um local.

       Visita em domicílio: Usa-se a preposição "em" para indicar o local fixo onde a ação está acontecendo. É muito comum na área da saúde para descrever o atendimento que é realizado dentro da moradia do paciente.

        VISITA A DOMÍCILIO está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso (Sala Paschoal Carlos Magno) às quartas e quintas às 19h até 25/06.


        04/06/2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MUDANDO DE PELE

 

Parece que Amanda Wilkin, dramaturga e atriz britânica, autora desse texto (Shedding a Skin), não gosta de revelar sua idade. Pelas fotos ela é uma bela mulher negra que aparenta ter cerca de quarenta anos.  Foi Taís Araujo, que tem até uma semelhança física com Wilkin, quem descobriu a peça e idealizou sua encenação.

Em termos de conteúdo a peça é uma história já muitas vezes contada sobre alguém que vive em uma sociedade opressora e preconceituosa, mas acha brechas para sair desse ambiente e se realizar como ser humano.

Sempre há muitas formas de se contar uma história e com uma somatória de talentos se pode chegar a excelentes resultados e é este o caso do espetáculo ora em cartaz na cidade.

Pela tradução de Diego Teza e o dramaturgismo de Nathalia Cruz o texto flui de maneira ágil e atraente na deliciosa interpretação de Taís Araujo, que mantém o público nas suas mãos nos quase noventa minutos de duração da peça, fazendo denúncias de maneira leve e com muitos toques de humor.

Existem encenadores que parecem ter um estoque de criatividade dentro de si, surpreendendo o público a cada novo trabalho e este é o caso de Yara de Novaes. As muitas surpresas desta encenação como a criativa iluminação de Gabriele Souza, o cenário móvel de André Cortez, as intervenções de Dani Nega e Layla e, é claro, Taís Araujo no centro de tudo, são regidas por Yara com mão de mestre, provando que a forma pode tornar brilhante um conteúdo mais simples.

Cabe notar também o belo programa impresso da peça que contém mensagens esclarecedoras de Taís, do SESC, de Yara onde ela faz uma descrição afetuosa de todas mulheres que participaram da encenação e da produtora Quintal que tem uma poética definição de teatro que quero reproduzir no final desta matéria:

TEATRO, esse lugar que é restaurador, democrático, coletivo, imenso e infinito. Lugar que embala esperanças, aprimora as percepções de mundo e nos aproxima do mundo.”

É ISSO AÍ!!

MUDANDO DE PELE está em cartaz no SESC 14 Bis de 04/06 a 05/07 de quinta a sábado, 20h e domingo, 18h.

IRRESISTÍVEL! 

04/06/2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

MASSAPÊ

 

No belo programa impresso da peça, o ator Antônio Chapéu declara: “O que nóis quer mesmo é falar de nóis. É só deixar que nóis fala. Viva a cultura e os saberes populares. Viva o Massapê” e é com essa simplicidade e até certa humildade que ele nos conta a saga da sua família (Silva) que migrou do interior de Minas Gerais para trabalhar nos canaviais de Piracicaba.

A pesquisa das lembranças e memórias dos cortadores de cana realizada pelo “Grupo Andaime”, do qual Chapéu é um dos fundadores, foi a base para Solange Dias criar a dramaturgia do espetáculo que flui cenicamente com Chapéu contando de maneira saborosa os causos reais e inventados que são intercalados com as canções criadas por Juh Vieira tocadas por ele, Marcos Coin e Dicinho Areias.


A encenação de Rogério Tarifa preserva a singeleza da concepção de Chapéu no cenário criado por ele e Diego Dac que contém elementos da natureza como água e um tapete de massapê, o solo escuro propício para o cultivo de cana, que dá título ao espetáculo. O ambiente é enriquecido com os adereços de Luana Miyamoto, muito importantes para o desenvolvimento da trama. A iluminação da cena é assinada por Marisa Bentivegna.

Massapê me parece um “Amarcord” caipira realizado com muito amor por Chapéu, Tarifa, Vieira e todo o Grupo Andaime que leva o público a sentir na boca um gostinho de café com bolo de fubá servido por Dona Mariana, mãe de Chapéu, em um fim de tarde ensolarado de Piracicaba. Não deixa de haver também um gosto amargo de indignação ao se ouvir as denúncias de racismo e do tratamento de alguns familiares como escravos.

Pouco antes do final do espetáculo parentes do ator são convidados a entrar em cena e aí a emoção transborda tanto no palco como na plateia.

A noite de estreia (28/05) foi coroada com a presença de dois irmãos e uma fofinha irmã de 86 anos que cantaram junto com Chapéu a última canção da peça.

Mais um gol de Tarifa em sua defesa e preservação do teatro de grupo. Muito louvável a atitude do Andaime de convida-lo para dirigir “Massapê” que comemora os 40 anos do grupo.

MASSAPÊ está em cartaz no SESC Belenzinho até 14/06 às sextas e sábados às 19h e aos domingos às 16h

 

29/05/2026