segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SÁBADO DE PROGRAMA DUPLO COM A NADYA E O ARNALDO NO TEATRO SANTANDER

 


16H – GIL – ANDAR COM FÉ – Teatro Santander

O Tempo Rei narra fases da vida de Gilberto Gil, entremeada com as canções do compositor. A original estrutura dramatúrgica criada por Newton Moreno tem tradução cênica de Miguel Falabella.

A coreografia (Leilane Teles e Tiago Dias) com forte acento afro é bela, mas nem sempre funciona e a cenografia monumental e modernosa (Natália Lana) não combina com a obra de Gil.

É sempre difícil apresentar personagens baseadas em figuras reais muito conhecidas sem cair na representação caricatural baseada apenas no exterior da pessoa e infelizmente é o que acontece com os intérpretes de Caetano, Gal, Elis, Bethânia, Chacrinha e Chico Buarque. A honrosa exceção é Gui Ventura em excelente composição como Gil. Ele atravessa todo o espetáculo com muita garra e emoção, além de se parecer com o biografado.

Gui e Guga Barbosa como Tempo Rei são os grandes trunfos da montagem.

 

20H – SETE MULHERES E UM MISTÉRIO – 033 Rooftop

Uma explosão de talentos femininos dirigida com muito humor e talento por Ricardo Grasson e Heitor Garcia.

Seja nas cenas coletivas, seja nos belos solos que cada uma tem direito, essas sete mulheres maravilhosas brilham e nos divertem muito. Fica difícil destacar esta ou aquela, mas é impossível deixar de escrever sobre as performances de Veronica Valentino como a esposa Marguerita brincando muito com a versatilidade de sua voz, de Stella Miranda como a vovó Perfídia e, principalmente, de Bruna Guerin como a espevitada governanta Suzette; além de cantar muito bem, Bruna revela um surpreendente tempo de comédia, algo novo em sua brilhante carreira.

Palmas também para Laura Castro (Catarina), Malu Rodrigues (Bianca), Paula Capovilla (Augusta) e Larissa Noel (Bete) substituindo Letícia Soares nessa apresentação.

O belo cenário com dependências da casa é de Natália Lana (cenógrafa também de “Gil”).

Músicas e letras de Anna Toledo.

Para resumir em apenas duas palavras: PURA DELÍCIA!

 

14/09/2026

domingo, 13 de setembro de 2026

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER

 

 

1     -Um pouco sobre Edwin Luisi

Durante os anos 1970 e no início dos 1980 o ator paulistano Edwin Luisi, formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) em 1970, apareceu de forma regular nos palcos da cidade.

Ator de grande talento já interpretou Mozart (1982) e Freud (1985), sendo inesquecível também o seu Tom Wingfield em “À Margem da Vida” (1976) ao lado de Beatriz Segall, dirigido por Flávio Rangel.

Após a mudança para o Rio de Janeiro a presença de Luisi nos palcos paulistanos tornou-se cada vez mais rara.

Das poucas vezes que esteve em São Paulo neste século, cabe lembrar de “Triunfo Silencioso” (2005) ao lado de Herson Capri e de “Alair” (2017). Seu último trabalho por aqui foi em uma montagem despretensiosa de título “O Martelo” (2019).

Elogiadíssimo e premiado em 2007 na montagem carioca de “Eu Sou Minha Própria Mulher”, o ator finalmente chega em São Paulo com uma nova encenação da peça.

 

2     - Eu Sou Minha Própria Mulher

A vida da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf foi tema de um docudrama alemão de 1992 dirigido por Rosa von Praunhein.

A partir de entrevistas que realizou com Charlotte, o dramaturgo norte-americano Doug Wright (1962) escreveu a peça que mostra  sua trajetória sendo perseguida tanto pelo regime nazista até o fim da segunda guerra, como pela “Stasi”, polícia política da Alemanha Oriental durante o regime comunista. Charlotte sobreviveu com elegância e bom humor a esses duros períodos colecionando antiguidades e até montando um museu.

Além de Charlotte aparecem na trama o próprio Wright, um colega seu jornalista, o pai e a mãe de Charlotte e mais uma dezena de personagens, todos e todas interpretados/as por Edwin Luisi em composição merecedora de todos os prêmios que recebeu e que ainda há de receber.

Pequenas mudanças no tom de voz e no sugestivo figurino preto desenhado por Marcelo Marques são o suficiente para Luisi se transformar de uma para outra personagem, todas ótimas, mas atingindo a perfeição na figura frágil e bem humorada de Charlotte.

Herson Capri foca toda a direção do espetáculo na impressionante e bela interpretação de Edwin Luisi.

Muito emocionado, ao final do espetáculo Edwin registrou a presença na plateia de companheiras e companheiros da sua turma de 1970 na EAD.

Foto cedida por Pedro Cosmos 

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER está em cartaz no Teatro FAAP até 29 de novembro às sextas e sábados, 20h e domingos, 17h.

NÃO DEIXE DE VER! 

13/09/2026

sábado, 12 de setembro de 2026

CONFUZO – está escurecendo dentro de mim –

 

Foto de Renato Mangolin

“A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar)

        “Enquanto você pedala, eu crio raízes”, esta é uma citação, com uma mudança no primeiro verbo, do título da montagem anterior da Cia. Dos à Deux, enquanto voava agora você pedala para gerar energia na forma de luz e eu já criei raízes!

        A peça mostra o Homem-Árvore e o Homem-Luz, enquanto um deles busca o pertencimento por meio de suas raízes, o outro gera luz e liberdade por meio de seus intensos movimentos ao pedalar.

        Conforme citação dos componentes do grupo (André Curti e Artur Luanda Ribeiro): “o corpo, a imagem, a luz, o espaço e a matéria ocupam o centro da dramaturgia”, mas desta vez eles acrescentam a fala para criar essa fábula contemporânea.

        Esteticamente muito belo o espetáculo tem outro ponto fortíssimo na surpreendente trilha sonora de Federico Puppi que acompanha toda a ação. É notável a sincronia dos movimentos e falas com o som e a luz.

        André Curti interpreta o Homem-Árvore equilibrando na cabeça uma raiz de 4,5kg e Artur Luanda Ribeiro é o Homem-Luz pedalando mais de 30km para gerar toda a luz da encenação. Além do já conhecido talento da dupla, eles mostram um incrível preparo físico.

Foto de Victor Pollak

        É mais um trabalho impecável da Cia. Dos à Deux!

        “Confuzo” deve ser visto, sem prevenções, com olhos à procura do novo e do surpreendente; a beleza visual esconde atrás de si, um retrato de como caminha a humanidade.

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 18/10: quinta e sexta, 19h – sábado e domingo, 18h.

Não perca essa oportunidade de se deslumbrar!

12/09/2026

       

       

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

AS TROIANAS

 

 

Foto de Anne Beatriz

Zé Henrique de Paula já havia adaptado “As Troianas” de Eurípedes (480 aC-406 aC) em 2009, ambientando a montagem no clima de terror que foi o campo de concentração de Auschwitz na Polônia durante a segunda guerra mundial.

Na atual montagem, Zé Henrique trouxe a história para ambiente de terror mais próximo: a chamada “Torre das Donzelas” do Presídio Tiradentes em 1972, onde aconteciam os desmandos e barbaridades cometidos pela ditadura brasileira com as presas políticas ali encarceradas.

Com base na história recente do país, nas informações contidas no livro “A Torre: o cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura” de Luiza Villaméa e na tragédia de Eurípedes Zé Henrique criou dramaturgia poderosa que denuncia males do terrível regime que dominou o Brasil de 1964 a 1985. De alguma maneira, esta montagem dialoga com “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” (2022) e “Codinome Daniel” (2024), outras duas obras do Núcleo Experimental que Zé Henrique realizou em parceria com Fernanda Maia na parte musical e que tratam de um período negro de nossa história.

As personagens da tragédia de Eurípedes, Hécuba, Cassandra, Andrômaca e Helena, estão presentes na adaptação do diretor, na pele de mulheres confinadas no presídio e as outras detentas formam o coro, também uma referência ao original grego.

Pequenos, mas importantes, detalhes escapam do espectador como a leitura de um texto teatral pelas presidiárias (referência ao fato real de que na ocasião elas ensaiaram e apresentaram uma peça na torre) e também a canção “Suíte dos Pescadores” entoada por Hécuba quando uma detenta é retirada do local (referência à canção que as presidiárias cantavam quando uma delas era retirada do local). Esses detalhes estão relatados no programa repleto de informações, mas que, infelizmente só está disponível via QR code.

O coro das detentas é formado por Edyelle Brandão, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli e Vanessa Esposito.

Foto de Edgar Machado

Os papeis masculinos cabem a Fernando Tavares, Victor Edwards, Fabio Redkowicz (um advogado que remete a Taltíbio) e Brian Penido Ross (um general prepotente que remete a Menelau).

Bia Rezi interpreta Andrômaca grávida com bastante delicadeza, Mari Rosinski (substituindo Bruna Guerin na sessão a que assisti) apresenta Helena com muita garra, Nábia Villela empresta seu talento costumeiro para a interpretação de uma Hécuba vencida e envelhecida, Patricia Gifford brilha como Cassandra, a vidente que prevê fatos realmente acontecidos como a desativação do presídio e a construção de uma estação do metrô no lugar.

A “Midas” Fernanda Maia compôs obras (letra e música) de acordo com a época (anos 1970), onde canções de protesto brasileiras e latino americanas estavam em voga). A direção musical, também de Fernanda, é precisa e bela.

O espetáculo de Zé Henrique será sempre importante e necessário quando nossa democracia correr perigo, como parece ser o caso neste momento. Urge que os jovens o assistam!

AS TROIANAS está em cartaz às terças e quartas feiras às 20h no Teatro do Núcleo Experimental.

NÃO DEIXE DE VER! 

09/09/2026

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O CÉU DE BIBI FERREIRA

 

Fotos de Guilherme Logullo

Quatro excelentes atrizes/cantoras, cada uma com seu estilo e seu sotaque se dividem no palco para apresentar números que fizeram parte da carreira da inesquecível Bibi Ferreira (1922 – 2019): canções de Edith Piaf, Amalia Rodrigues e Frank Sinatra; trechos de “Hello Dolly” e “My Fair Lady”; a Joana de “Gota d’Água” e até o famoso “Monólogo das Mãos” de Giuseppe Ghiaroni, imortalizado na interpretação de Bibi.

Sem absolutamente desmerecer o belíssimo trabalho de Bárbara Sut, Carol Botelho, Fernanda Biancamano e Giulia Nadruz não custa lembrar que as quatro fazem no palco aquilo que Bibi fazia sozinha.

Trata-se de um delicioso musical entremeado por falas de Bibi e textos de Gabriel Chalita, com primorosa direção musical de Carlos Bauzys e direção geral de Gustavo Barchilon.

A banda que acompanha as cantoras é ótima.

Cenários bonitos de Natália Lana, iluminados por Ana Luzia de Simoni. Figurinos, a meu ver muito escuros e pesados, assinados por Karen Brusttolin.

Cabe a Roberta Serrado e Natacha Travassos a bela e harmoniosa movimentação das atrizes em cena.

Trata-se de musical muito bem produzido a que se assiste com muito prazer e é certo que Bibi também ia gostar muito da performance dessas quatro estrelas tanto nas cenas grupais como nos excelentes solos.

Carol Botelho encanta nas canções portuguesas e latinas; Giulia Nadruz empresta sua beleza nas cenas dos musicais da Broadway; Fernanda Biancamano interpreta as canções francesas com muita energia e Bárbara Sut, que até certo momento tinha uma participação discreta, arrebata o público como a Joana de “Gota d’Água”.

Bárbara Sut/Joana

Grandes momentos que somados preenchem os oitenta minutos de duração desse delicioso espetáculo ovacionado pelos presentes. 

O CÉU DE BIBI FERREIRA está em cartaz no Teatro do SESI-SP até 20 de setembro. Quinta a sábado, 20h / Domingo, 19h. Ingressos gratuitos. 

04/09/2026

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA

 

Trata-se de virulenta comédia do dramaturgo italiano Dario Fo (1926-2016) escrita a partir de tragédia ocorrida em Milão em 1969, quando um anarquista suspeito de um crime detido em um prédio da polícia “se suicidou” jogando- se de uma janela.

Ri-se muito na comédia de Fo, mas não há como esquecer  da truculência com que a nossa polícia trata os detentos e de como foram torturados os presos políticos nas masmorras da ditadura militar brasileira. Wladimir Herzog me veio à lembrança em muitos momentos da peça e isso não é para rir!

Por meio de muitas artimanhas um “louco” preso na delegacia será o responsável por desvendar os mistérios que envolvem a morte do anarquista.

Essa incrível personagem já foi interpretada por Sérgio Britto no Rio de Janeiro em 1980, por Antônio Fagundes na montagem de Antônio Abujamra (1982) e por Dan Stulbach na montagem de Hugo Coelho estreada em 2015. Marcelo Laham substituiu Stulbach em 2018 e por incrível que possa parecer até agora eu não tinha assistido à performance desse grande ator que eu muito admiro desde que o vi em “Cais” em 2013.

Extremamente versátil, Laham tem excelente desempenho nos papeis dramáticos, mas é na comédia que ele brilha e se mostra mais à vontade, haja vista a sua participação na série “Embrulha Pra Viagem” e interpretando esse delicioso louco de “Morte Acidental de Um Anarquista”.

A montagem de Hugo Coelho, irreverente como convém ao texto de Dario Fo, começa com uma cantoria na sala de espera do teatro seguida de um bate papo com o público sobre a origem da peça e a apresentação do elenco e das personagens e, já com o público à vontade, inicia a trama propriamente dita.

O divertido elenco inclui os ótimos ex-Parlapatões Henrique Stroeter e Claudinei Brandão, o diretor Hugo Coelho, Rodrigo Bella Dona em rápida intervenção como o segurança, a bela Maira Chasseraux como a jornalista que entra em cena em momento de alta voltagem dos outros intérpretes, mas se impõe com muita energia e Demian Pinto que faz o som ao vivo no teclado, além de intervir em vários momentos da ação. Tudo isso flui de maneira harmoniosa e gravita em torno da astúcia do “louco” que encontrou em Marcelo Laham seu intérprete ideal.

Merecidamente ganhador do Prêmio Prio de Humor 2023 por sua atuação no espetáculo, Laham continua divertindo multidões se metamorfoseando em vários tipos, improvisando bastante e deslizando chaplinianamente pelo palco. Só vendo, só vendo!

E prepara-se para o surpreendente final!

MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA está em cartaz no Teatro Estúdio às terças e quartas às 20h até 30 de setembro.

NÃO PERCA A OPORTUNIDADE DE RIR MUITO!

02/09/2026

 

                                                                                                                           

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

MOSTRA DE TEATRO HELIÓPOLIS – A PERIFERIA EM CENA

 

É sempre muito prazeroso ir à sede da   Cia. de Teatro Heliópolis e ser acolhido com muito carinho e atenção por Dalma Régia, Miguel Rocha e Davi Guimarães, trinca querida que conheço desde 2012 quando assisti a “O Dia Em Que Túlio Descobriu a África”. A partir daí assisti a todos os espetáculos da companhia com muito entusiasmo.

Na noite de 15/08/2026 a casa estava em festa com a abertura da Mostra de Teatro Heliópolis já em sua sétima edição.

A curadoria da Mostra ficou a cargo de Dalma e Alexandre Mate trazendo oito espetáculos entre os dias 17 e 22 de agosto, além da vivência “Dramaturgias do Vestígio”

O espetáculo da abertura foi “Republikkk ou Encruzilhada Não É Beco” do REC Instituto, reflexão potente de Hercules Morais sobre as consequências da pandemia do Covid 19 em uma comunidade do interior do Brasil.

Em um cenário coberto de feno idealizado por Clara Lindorfer e belamente iluminado por Docini desenrola-se a história de um pai que vivencia a morte da filha. Figuras folclóricas como bumba meu boi ilustram a montagem.

Um delicioso coquetel realizado no jardim da casa terminou com uma roda de conversa liderada por Alexandre Mate.

Grande noite! 

A sede da companhia fica na Casa de Teatro Maria José de Carvalho na Rua Silva Bueno 1533 no Ipiranga.

 

18/08/2016