sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SAVANNAH BAY É VOCÊ

 

A adaptação que André Guerreiro Lopes fez do original de Marguerite Duras (1914-1996) e sua transposição cênica privilegiam dois dos nossos sentidos.

A beleza estética do espetáculo com projeção de imagens, a presença muito bela de Djin Sganzerla, a manipulação da água projetada numa tela e a iluminação mágica de Aline Santini são um colírio para nossa visão.

Instrumentos de percussão e de objeto metálico delicadamente manipulados por Djin, a trilha sonora de Gregory Slivar e principalmente a voz ao mesmo tempo poderosa e delicada de Helena Ignez, somente ouvida na maior parte do espetáculo estimulam prazerosamente a audição do espectador.

O olfato e o tato (nos abraços e cumprimentos) e o paladar (no pró seco e no salgadinho) não deixaram de ser contemplados no coquetel ao final da apresentação.

A peça é uma poesia cênica realmente mais para ser sentida do que analisada e entendida de maneira racional.

A jovem interpretada por Djin busca em suas memórias e até em seus delírios (algo que remete à Alaíde de Nelson Rodrigues) aquilo que resta de sua relação física ou emocional com a enigmática Madeleine com quem ela dialoga durante os 60 minutos de duração da peça. Muito é sugerido, mas propositalmente nada é esclarecido.

Savannah Bay que é nome de um lugar é também na peça o nome da jovem. Coisas da Marguerite Duras; afinal é dela a famosa frase final do filme “Hiroshima, Meu Amor” (1959) de Alain Resnais: “Tu es Hiroshima”.

Reafirmo aqui que a solução achada pelo encenador para manter apenas a voz de Helena Ignez ouvida em cena durante a primeira meia hora da peça é um achado muito feliz, permitindo ao espectador usufruir de um encanto poucas vezes encontrado em um teatro.

Pura poesia! Puro teatro! 

SAVANNAH BAY É VOCÊ está em cartaz no Itaú Cultural até 18/10 com sessões de quinta a sábado às 20h e domingo às 18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

02/10/2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

CASA DO NORTE

 

 

O Grupo Clariô que afirma no programa da peça que produz teatro PELA periferia, NA periferia e PARA a periferia, contraria desta vez o NA e o PARA ao se apresentar NO Teatro Anchieta PARA público mais amplo, com o espetáculo “Casa do Norte” que celebra os 20 anos da trajetória do grupo.

Quem já foi “Grupo Lasca o Oco” (2002) e “ETônoBorô” (2005), passou a se chamar” Grupo Clariô” a partir de 2005 com sede na Rua Santa Luzia em Taboão da Serra onde pratica uma arte militante muito fiel ao PELA, NA e PARA a periferia.

Como o nome indica, a peça escrita por Jhonny Salaberg é ambientada nesses comércios espalhados pelos bairros populares da cidade que vendem produtos vindos do norte/nordeste do país e onde migrantes se encontram para matar as saudades de seus lugares de origem. Esses locais, sempre sujeitos a serem desalojados pela especulação imobiliária podem também servir como metáfora para centros culturais e teatros que sofreram e ainda sofrem dos mesmos males.

A encenação de Naruna Costa propositalmente acumula excessos: é excessiva na interpretação exteriorizada e gritada do elenco, no humor escrachado e na sua duração (mais de duas horas) e resulta numa boa comédia onde se procura descobrir quem roubou a caixa de correio do estabelecimento. O final apoteótico é um delicioso show de música brega.

O elenco diverte o público e diverte-se em cena ao interpretar figuras masculinas como Raimundão (Alexandre Souza), Sacola (Cleydson Catarina), Piruinha (Washington Gabriel), Ganga (Rager Luan) e femininas que brilham em cena como Walquíria (Naloana Lima), Yolanda (Martinha Soares) e Charlene (Naruna Costa).

O cenário criado por Rager Luan reproduz em detalhes uma casa do norte e é iluminado por Zerlô.

A destacar também as músicas criadas pelo grupo com direção musical de Naloana Lima.

O espetáculo pode não agradar a todos os públicos, mas diverte, faz pensar e, o que é mais importante, é fiel aos princípios de um grupo teatral militante da periferia da cidade.

VIVA O GRUPO CLARIÔ DE TEATRO! 

CADA DO NORTE está em cartaz no Teatro Anchieta até 01/11/2026. Quinta a sábado, 20h / Domingo, 18h. 

28/09/2026

domingo, 27 de setembro de 2026

MEU FILHO É UM MUSICAL

 

Esse espetáculo foi uma grata surpresa.

Fui assisti-lo pensando em encontrar mais um musical biográfico dos tantos que chegam aos nossos palcos cheios de clichês, tratamento superficial da vida e obra do biografado e recheados de canções que fizeram sucesso em outras situações e soam falso na atual conjuntura, como por exemplo usar a canção “Atrás da Porta” toda a vez que há um rompimento amoroso.

A dramaturgia de “Meu Filho É Um Musical” de Fil Braz com colaboração de Beatriz Coelho não é nada disso; ela faz um recorte mostrando as relações familiares de Paulo Gustavo e também as dificuldades que ele teve para encontrar uma personagem que se adequasse ao seu tipo de comediante, algo que, como se sabe, ele encontrou na própria mãe. A cena da peça em que diante do espelho ele descobre sua personagem é memorável. Nada na dramaturgia resvala para o melodramático, mesmo na cena final que tem forte apelo dramático e emocional.

Outro fator que distingue este espetáculo dos demais musicais biográficos é que as canções de Daniel Salve foram compostas especialmente para ele, encaixando-se nas cenas sem artificialidade.

É um espetáculo de produção cara com cenografia requintada de Nello Marrese e figurinos de Theodoro Cochrane. Aqui fica uma dúvida deste espectador: apesar de belos, qual a razão dos motivos gregos nos cenários, nos figurinos e até na coreografia de Alonso Barros?

Do grande elenco os destaques vão para Valéria Barcellos, hilária e esfuziante em cada aparição; Milena Machado como Juju, a irmã masculinizada de Paulo Gustavo; Marcelo Varzea, ótimo como o pai; Talita Castro como a madrasta e Stella Rodrigues encarnando a mãe Dona Déa com muita garra (apesar de gritar um pouco demais nas primeiras cenas).

Por último, mas muito importante: Pierre Baitelli que interpretou Paulo Gustavo na sessão em que estive presente. Dotado de grande talento e de um tempo de comédia bom e equilibrado, Baitelli brilha tanto como o jovem à procura do seu caminho, como quando veste a personagem da mãe.

João Fonseca e Ju Amaral (irmã de Paulo Gustavo) harmonizam todos esses componentes com uma direção também digna de elogios.

Solar na sua maior parte, o espetáculo torna-se sombrio ao mencionar a pandemia do Covid 19 e o desaparecimento de cerca de 700 mil pessoas, cuja morte de parte delas poderia ter sido evitada caso houvesse tido uma política em prol das vacinas.

A peça não explicita, mas fica claro que houve negligência do malfadado governo da época com o assunto. Se isso serviu de  alerta para que o público presente NÃO VOTE no filho daquele ser ignóbil, que tivemos o horror e a vergonha de ter como presidente do nosso país, a peça já valeu a pena.

Dona Déa participa carinhosamente do início e do fim da peça, recebendo aplausos carinhosos do público e recomendando às mães e aos pais que não discriminem seus filhos devido às suas opções sexuais.

Um grande elogio ao espetáculo é que se sai dele com muita vontade de saber mais sobre a obra de Paulo Gustavo, desaparecido precocemente em 04 de maio de 2021 aos 42 anos de idade.

MEU FILHO É UM MUSICAL está em cartaz no Teatro Renault. Quinta e sexta, 20h / Sábado, 15h e 20h / Domingo, 14h30 e 19h30.

NÃO DEIXE DE VER! 

27/09/2026

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A GENTE MIRA NO AMOR E ACERTA NA SOLIDÃO

“Podemos ler que o amor contém a solidão em seu interior,

pois no coração do amor está sempre a solidão,

 e por isso quem não suporta a solidão também não suporta o amor.”

(Ana Suy)

       A adaptação teatral do livro de Ana Suy realizada por Júlia Portes é um dos trunfos dessa deliciosa montagem dirigida por Helena Varvaki: um guia turístico propõe ao público fazer uma visita ao coração e através dela vão surgindo os temas do amor e da solidão contidos no livro.

       Johnny Massaro faz toda a diferença no espetáculo. Demonstrando vulnerabilidade e insegurança o seu personagem seduz o público nas primeiras palavras ditas e a partir daí rola muita emoção até o final. À medida que discorre sobre a anatomia do coração o guia relembra as dores de um amor perdido e da solidão do ser humano.

       Massaro é um ator de muita sensibilidade, fino traço de humor e muito carismático o que resulta em rara comunhão com o público durante os 60 minutos de duração do espetáculo.

       A direção de Helena Varvaki foca toda a atenção no trabalho do ator e conta com a colaboração da cenografia de um coração estilizado de autoria de Aurora dos Campos e cena belamente iluminada por Nina Balbi.

       O coração visitado, atento às digressões do guia, vez ou outra chama a sua atenção com a voz de Júlia Portes.

       “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” é um espetáculo singelo, bonito e emocionante que tem o grande mérito de confirmar o talento desse ator chamado Johnny Massaro.

       A peça está em cartaz no SESC Pinheiros até 31 de outubro de quinta a sábado às 20h30.

       NÃO PERCA!!!

       25/09/2026

 

      

      

       

terça-feira, 22 de setembro de 2026

BAAL – O MITO DA CARNE

 

Foto de Kym Kobayashi

Brecht (1898 – 1956) escreveu “Baal” em 1918 com apenas vinte anos, bem antes de desenvolver suas teorias e práticas sobre teatro épico. Ao longo dos anos fez várias versões da peça e segundo o encenador Marcelo Marcus Fonseca, a atual montagem utilizou trechos de várias delas resultando em um espetáculo frenético de duas horas e meia de duração.

Baal é um sujeito rebelde, sempre bêbado, seduzindo e jogando fora aqueles que não lhe interessam mais. É um ser amoral, típico anti-herói, que, de certo modo, se filia a outras personagens literários e/ou teatrais como o Till Eulenspiegel (século XVI), o Peer Gynt (1867) de Ibsen e até o Macunaíma (1928) de Mário de Andrade.

Marcelo Marcus Fonseca ambienta sua montagem em um espaço nu, onde cenários não fazem a menor falta, dada a potência das interpretações que estimulam a imaginação do espectador.

Toda a peça gravita em torno de Baal que se ausenta de cena em breves momentos. Marcelo interpreta a personagem título com muita garra dando um toque de ironia ao observar o mundo burguês que o circunda.

A relação de Baal com Ekart, companheiro de aventuras, é bastante acentuada do ponto de vista erótico na encenação de Marcelo, explicitando uma homossexualidade apenas sugerida no original de Brecht. Daniel Ortega entrega-se com energia à personagem de Ekart.

A destacar também a participação da bela Stella Rocha que, apesar de sua juventude e pouca experiência teatral, faz uma ótima composição como Sophie, a amante grávida de Baal que depois é abandonada por ele.

O elenco de apoio tem boa atuação apesar de exagerar no volume da voz e no som gutural da mesma.

Marcelo Marcus Fonseca retorna a essa peça depois de 30 anos; foi com ela que ele deu início às atividades do Teatro do Incêndio, grupo que ele mantém com muita garra, quase sempre sem nenhum apoio, tendo montado praticamente uma peça por ano com a visão anárquica e surrealista, que lhe é característica.

Longa vida ao Teatro do Incêndio que já tem planos de mudança em seu espaço e a montagem de um Shakespeare nunca visto em nossos palcos. 

BAAL está em cartaz até 04/10 no Teatro do Incêndio (Rua Treze de Maio, 48) Aos sábados e domingos ás 20h. 

22/09/2026

 

 

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

DO CAVALO NADA SABEMOS

 

       João Paulo Lorenzon é um solitário no palco. Das doze peças que tenho registro que ele participou desde “Rei Lear” no ano 2000, seis foram trabalhos solos; do memorável “Memória do Mundo” (2009) onde ele visitou o universo de Jorge Luis Borges até o atual “Do Cavalo Nada Sabemos” onde a inspiração vem de fato ocorrido com Friedrich Nietzsche ao presenciar o espancamento de um cavalo.

       Partindo de um poema de Denise Stoklos, Lorenzon e Renata Zambonelli elaboraram a dramaturgia onde cavalo, observador e açoitador revezam-se para contar uma história sobre a crueldade humana: em algum momento da vida o ser humano sempre será vítima de um açoite.

       Como em outros trabalhos de Lorenzon a parte visual é bastante elaborada, como prova a ficha técnica: Dominic Kiessling responde pelo objeto cenográfico que envolve o ator na parte final, Leandro Castro assina o figurino sóbrio do ator e a cena é iluminada com o habitual talento de Wagner Freire.

       O ator teve preparação corporal de Toshiko Oiwa e Lu Favoreto, preparação circense de Kiko Caldas, preparação física de Leandro Marques e preparação contínua de Isabel Setti, além do olhar também contínuo das diretoras Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, tudo isso resultando numa interpretação muito sofisticada na sua aparente simplicidade, incluindo chibatadas em uma “coreografia extenuante”, conforme informa o programa da peça.

       DO CAVALO NADA SABEMOS está em cartaz no SESC Ipiranga até 11/10. Sextas, 21h / Sábados e domingos, 18h30.

 

       20/09/2026

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DE BRAÇOS ABERTOS


Uma noite muito especial no Centro de Pesquisa e Formação do SESC

 

” Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem

essa é a primeira experiência teatral

e outras para quem essa será a última”

-Recado de Ariane Mnouchkine a seu elenco- 

         Vanessa Bruno idealizou o projeto “Dramaturgas Contemporâneas” que mapeia a trajetória de dramaturgas brasileiras vivas por meio de uma visão crítica de suas obras e da leitura de um de seus textos.

Já estiveram presentes Silvia Gomez, Michelle Ferreira, Janaína Leite, Luh Maza, Dione Carlos e nessa memorável noite de 16 de setembro foi a vez de Maria Adelaide Amaral. Para os próximos encontros estão previstas Ave Terrena e Claudia Schapira.

        Silvana Garcia abriu o encontro fazendo relato sobre as características da obra para teatro de Maria Adelaide, a seguir, dirigidos por Vanessa, Paula Cohen e Jiddu Pinheiro fizeram uma leitura apaixonada da peça “De Braços Abertos”, obra prima da autora, que foi imenso sucesso de publico e de crítica nos anos 1984/1985 com Irene Ravache e Juca de Oliveira dirigidos por José Possi Neto. Tenho carinho muito especial por essa peça, não só pelas suas imensas qualidades, mas também por ter sido a última peça que Vera, minha mulher, presenciou e como isso foi importante para seus últimos dias de vida. (vide palavras de Ariane Mnouchkine em epígrafe)

        Maria Adelaide abriu sua fala comentando sobre suas antecessoras na dramaturgia feminina brasileira: Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Isabel Câmara que abriram o caminho no ano de 1969. Sua primeira peça “A Resistência” escrita em 1975 só foi montada em 1980, cabendo sua estreia nos palcos em 1978 com “Bodas de Papel”. A seguir comentou o sucesso de” De Braços Abertos” em 1984 e questionou os presentes sobre a atualidade da peça. Relações humanas nunca saem de moda, foi quase a unanimidade das respostas.

        Parabéns a Vanessa Bruno pela idealização de projeto que contribui para a preservação da memória do teatro brasileiro e também ao Centro de Pesquisa e Formação do SESC por abrigar evento de tal importância.

        Noite inesquecível!

 

        18/09/2026