domingo, 5 de abril de 2026

A HORA DO BOI

 

 

Eh, oh, oh, vida de gado / Povo marcado, eh! / Povo feliz!

(Zé Ramalho) 

Citando Zé Ramalho, Guimarães Rosa, Chico Buarque, São Francisco de Assis, Euclides da Cunha e até Baudelaire, a dramaturga carioca Daniela Pereira de Carvalho criou esta bela fábula sobre o afeto que nasce entre Seu Francisco, um homem rude que trabalha em um abatedouro, e o boi Chico.

A peça tem alguma semelhança com “Cachorro Enterrado Vivo”, outra obra exemplar de Daniela, que colocava em cena o cachorro Paulo César em situação limite de abandono. Aqui a presença é do boi Chico prestes a ser abatido por seu melhor amigo. As duas peças são monólogos onde os atores representam os animais e os seres humanos com quem se relacionam. Este fato exige uma forte presença física do intérprete, assim como expressão corporal que revele o corpo e o gestual do animal. Leonardo Fernandes brilhava em “Cachorro”, assim como Vandré Silveira em “A Hora o Boi”.

Vandré Silveira, ator pouco conhecido em São Paulo, é um monumento em cena. Vestindo um figurino ao mesmo tempo rústico e sensual de autoria de Carlos Alberto Nunes, Vandré desdobra-se na interpretação das três personagens. Pequenas alterações no gestual, na voz e, principalmente, no olhar situam o público qual a personagem que está em cena.


Trabalho impecável de atuação que vai dar trabalho aos jurados de prêmios, haja vista a quantidade de interpretações masculinas marcantes surgidas no primeiro trimestre deste ano.

A direção de André Paes Leme foca toda sua atenção no trabalho do ator e  faz o público viajar com Seu Francisco, Chico, São Francisco de Assis e Rosa pelo abatedouro, pelos campos e pelo santuário em um palco quase nu.

Espetáculo simples na confecção, mas poderosíssimo na imaginação de cada um e na mensagem apresentada sobre a relação do homem com outras formas de vida. Grande mérito da autora, do diretor e mais do que tudo do ator Vandré Silveira, do qual espera-se que esteja cada vez mais presente nos palcos paulistanos.

A montagem recebeu indicações e prêmios em sua longa temporada no Rio de Janeiro e deverá repetir esses feitos nesta mais que bem-vinda temporada em São Paulo.

A HORA DO BOI está em cartaz no Ágora Teatro até 26/04. Sexta e sábado, 20h e domingo 19h.

NÃO PERCA essa chance de conhecer o texto de Daniela e presenciar o trabalho do grande ator Vandré Silveira.

 

05/04/2026


sábado, 4 de abril de 2026

MINHA ESTRELA DALVA

 

“Este amor quase tragédia/Que me fez um grande mal”

Fim de Comédia

ERA UMA VEZ...

- DALVA E EU

Quando era pequeno eu ouvia minha mãe cantar umas músicas junto com uma voz muito bonita que ela ouvia no rádio, com o tempo aprendi a cantar junto com mamãe e achava engraçado uma da qual eu não entendia quase nada da letra, mas era aquela que eu mais gostava. A música era “Kalu”, a cantora Dalva de Oliveira.

O tempo passou, cresci, mas aquela voz ficou guardada lá no fundo da minha memória.

No início dos anos 1970, ao pesquisar canções das décadas de 1930 a 1950, a chamada idade de ouro do rádio brasileiro, para a trilha de uma peça que eu estava dirigindo, tive o impacto de voltar a ouvir Dalva de Oliveira (1917-1972). Foi paixão instantânea e eu era olhado com certa desconfiança pelos meus engajados companheiros do grupo de teatro que achavam aquele tipo de música ultrapassada, cafona e reacionária.

Fui atrás da obra de Dalva, cheia de canções passionais, calúnias, males de amor e perdas que refletiam a sua vida cheia de lances dramáticos. Queria assistir a um de seus shows que nesta fase já não eram constantes. Dalva já não tinha muita saúde e se mostrava bastante debilitada. Seu último show em São Paulo foi no extinto “Teatro Veredas” que ficava numa travessa do Largo do Arouche. Não tive a oportunidade de assistir e a querida Dalva partiu logo depois.

Adquiri todos os vinis de Dalva, aprendi as letras sofridas de todas as canções que ela interpretava e sempre que possível as cantava com minha voz desafinada. Até minha mãe um dia se surpreendeu ao me ouvir cantar “Kalu, Kalu, tira o verde desses oios di riba d eu”.

Enquanto escrevo estas linhas, ouço Dalva cantando “Ave Maria no Morro” e mais uma vez me emociono até as lágrimas. Que voz! Quanta paixão e quanta verdade vindas daquela voz maravilhosa.

 

 - DALVA, MARÍLIA, BORGHI, TALMA E EU

Em 1987, Renato Borghi, outro apaixonado por Dalva de Oliveira, escreveu “A Estrela Dalva”; a peça estreou no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, dirigida por Roberto Talma tendo a inigualável Marília Pêra como protagonista. Borghi guardou para si o papel de Herivelto Martins. Deixei de comparecer às bodas de ouro dos meus pais para ir ao Rio de Janeiro assistir a esse espetáculo que reunia meus dois mitos: Marília Pêra e Dalva de Oliveira. Era o dia 17 de julho de 1987. Era uma montagem grandiosa e emocionante que guardo na memória com muito carinho.

        Ao final da temporada carioca houve um desentendimento entre Marília e a produção do espetáculo e ela não participou da temporada paulistana em 1988, sendo substituída por Silvia Massari.

 

- DALVA, SORAYA, BORGHI, ELCIO, VELLAME, ELIAS, BRECHT, WEILL E EU

2026 – 39 anos depois Renato Borghi realiza uma nova montagem de sua homenagem a Dalva de Oliveira, agora rebatizada de “Minha Estrela Dalva”. A personagem Renato Borghi interpretada por ele mesmo e Elcio Nogueira Seixas invade o camarim da cantora para propor que ela faça um espetáculo cantando canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Esse é o mote para que se conte um pouco da vida de Dalva e se ouça suas inesquecíveis canções.

O grande desafio era a escolha da atriz/cantora que tivesse talento dramático e um timbre  compatível com aquele de Dalva e “para a felicidade geral da nação” a escolhida foi Soraya Ravenle, que tem uma interpretação emocionante que nada fica a dever àquela de Marília Pêra. Ouso dizer que como cantora, Soraya supera Marília.

O público acompanha maravilhado e emocionado o espetáculo, aplaudindo e cantando junto muitas das canções. Onde estiver, Dalva deve estar muito feliz com essa linda homenagem que Borghi lhe faz. Pessoalmente passei todo o espetáculo com um lenço na mão enxugando as lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos. Haja coração para ver/ouvir Soraya interpretando “Ave Maria no Morro”.

Entre tantos momentos belíssimos, destaco aquele onde Dalva faz duelo com Herivelto Martins interpretado com muito talento e belíssima voz por Ivan Vellame. Ali cada um interpreta aquelas canções que ficaram famosas quando Herivelto e Dalva se separaram.

Pelo mote proposto não soa falso a inclusão de algumas canções de Brecht e Weill no espetáculo: “Alabama Song” interpretada por Vellame, acompanhado pelos ótimos músicos liderados por William Guedes e “Jenny dos Piratas” na interpretação vigorosa de Soraya.

Borghi e Elcio muito à vontade em cena imprimem mais emoção a esse belíssimo trabalho dirigido com muito brilho por Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas.

A cenografia de Marcia Moon composta de várias escadarias que se movimentam exigem muito suor dos contrarregras. Destaque também para o desenho de luz de Wagner Pinto e para os belos figurinos desenhados por Fábio Namatame, usados por Dalva/Soraya durante o espetáculo.

Tudo e todos estão perfeitos no espetáculo, mas o brilho maior fica com Soraya Ravenle, maravilhosa como Dalva.

Ao final a ovação do público atesta a beleza e a grandeza desse belíssimo trabalho idealizado por Borghi e Elcio, que encontra seu melhor palco no Teatro do SESI cujos espetáculos são gratuitos e dão acesso a um grande público, para que as novas gerações tomem conhecimento quem foi a grande Dalva de Oliveira.

Para ser completa a minha felicidade só faltou Soraya/Dalva cantar “Kalu”! 

Curiosidade: Soraya participou do coro na montagem de 1987 com Marília Pêra, ainda como Soraya Jarlicht. 

MINHA ESTRELA DALVA está em cartaz no Teatro do SESI de quinta a sábado, 20h e domingo, 19h até 12/07. A temporada é longa, mas não perca tempo, vá logo, porque você vai querer ir de novo! 

04/04/2026

terça-feira, 31 de março de 2026

GOTA D’ÁGUA no tempo

 

Foto de Barbara Campos

Cansei de esperar”

Fala de Jasão na peça 

Não há a menor dúvida que “Gota d’Água” é uma obra prima não só de Chico Buarque e Paulo Pontes, mas de toda a dramaturgia brasileira.

Escrita em 1976 no auge da ditadura civil militar foi encenada por Gianni Ratto tendo uma interpretação antológica de Bibi Ferreira como Joana, a variação da Medeia de Eurípedes. Ambientada nos morros cariocas a trama era e ainda é um retrato cruel da classe pobre do país.

Por suas qualidades dramatúrgicas, vez por outra a peça é remontada. Gabriel Villela a revisitou em 2001 em sua característica roupagem barroca tendo Cleide Queiroz como protagonista. Em 2006, uma versão com o sub título  “Breviário” subiu aos palcos paulistanos com Georgette Fadel. Em 2016, a versão “A Seco” de Rafael Gomes foi apresentada apenas com as personagens de Joana (Laila Garin) e Jasão (Alessandro Claveaux). A montagem de 2019 de Jé Oliveira (“Preta”) era representada apenas com elenco negro tendo Juçara Marçal como Joana.

Neste século já foram apresentadas quatro versões do texto e surge agora uma nova versão realizada pela “Cia. Coisas Nossas de Teatro” com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi revisitando aquela que realizaram em 2006. O sub título “no tempo” revela que muita coisa mudou nesses 20 anos e que esta nova montagem leva isso em conta.

A Joana 2026 de Georgette Fadel mantém sua fúria e indignação, mas carrega também uma ironia que fortalece ainda mais a personagem.

Por que você quer me deixar?” pergunta Joana a Jasão e a resposta dele é reveladora e relativiza a sua atitude “Essa vida que a gente tem não dá mais. Cansei de esperar”. Ao perceber uma ascensão social casando com a filha de Creonte ele abandona Joana. É a tal história que todo homem tem seu preço, como preconizava Bertolt Brecht. Essa opção racional de Jasão revela toda a perversidade de um sistema movido pela ganância do capital.

A Vila do Meio Dia está presente no palco nu do Teatro Anchieta cercada de espectadores por todos os lados. O elenco e os músicos misturam-se com o público dando a impressão que todos ali são os habitantes do conjunto habitacional onde moram Joana, Jasão, Creonte e sua filha Alma.

A tragédia densa da trama é permeada pelas belas canções de Chico Buarque: Basta Um Dia, Flor da Idade, Bem Querer e Gota d’Água.

A interpretação visceral de Georgette Fadel quase nos faz esquecer do que a memória guarda dos monólogos eternizados por Bibi Ferreira em um velho vinil dos anos 1970.

Primeiro foi a Medea de Sêneca que ocupou o palco do Anchieta no início deste ano, vem a seguir a Joana de Chico Buarque e Paulo Pontes. Qual será a próxima filicida a se apresentar ali?

“Gota d’Água no tempo”, dirigida por Georgette e Cristiano é uma montagem brilhante desse importantíssimo texto teatral. 

Cartaz do Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 03/05. Sextas e sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h. 

NÃO DEIXE DE VER.

 

31/03/2026

segunda-feira, 30 de março de 2026

TINA – O MUSICAL

 

“Tina” se diferencia da maioria dos musicais porque tem dramaturgia consistente, algo raro nesse gênero de teatro que prima mais pela forma do que pelo conteúdo.

Para tanto a vida de Tina Turner (1939-2023), cheia de lances dramáticos, em muito contribuiu e a dramaturga Katori Hall soube tirar proveito desses fatos criando trama envolvente para embalar as canções potentes da biografada.

Dirigida por Phyllida Lloyd a obra estreou em Londres em 2018 com muito sucesso, já rodou boa parte de mundo e agora estreia em São Paulo com muita pompa no Teatro Santander.

A peça inicia na infância de Anna Mae Bullock (nome de batismo de Tina) em cena que se passa em um templo evangélico onde a garota já demonstra sua vivacidade e seu ritmo. A jovem Alice Pietra representa essa cena com tal energia que já arrebata o público para tudo que vem depois.

A trajetória de Tina desprezada e abandonada pela mãe, violentada e abusada pelo companheiro Ike, vítima de preconceitos de raça, de gênero e idade, carente de dinheiro em muitas fases da vida é apresentada de forma ágil, assim como sua bravura em enfrentar todos esses percalços. Os números musicais corais são discretos e todos os spots se dirigem para os solos de Tina.

Sabe-se que Tina Turner não só participou da elaboração desse musical, como o aprovou e se emocionou ao vê-lo.

Analu Pimenta é um furacão em cena. Interpreta Tina com muita paixão e é arrebatadora nos números musicais. A sua resistência física ao cantar, dançar e interpretar é algo impressionante.

César Mello interpreta Ike corretamente, mas não havia necessidade de tal excesso de trejeitos faciais para mostrar que seu personagem é uma pessoa perversa.

Uma boa surpresa é a presença de Leonardo Miggiorin como o empresário John Carpenter.

Digna de nota é a presença de Renata Vilela como Zelma, a mãe autoritária de Tina.

E as duas doçuras ficam para o final: a já citada Alice Pietra e Aline Cunha e sua belíssima voz como a Vovó Georgeanna.

“Tina – O Musical” é um prato cheio para os admiradores de Tina Turner, mas também é bastante atraente para aqueles que, como eu, conheciam apenas duas ou três canções que a “Rainha do Rock ‘n’ Roll interpretava.

TINA – O MUSICAL está em cartaz no Teatro Santander: quarta, quinta e sexta – 20h/sábado – 16h e 20h30/domingo – 15h e 19h30. 

MUITO BOM! 

30/03/2026

terça-feira, 24 de março de 2026

OS SETE MACHADOS

 

"Sê como o machado, que fere o sândalo que o perfuma"

Inversão de um famoso dito popular

Urge que surjam na cena teatral outros jovens com a garra e o talento de Luccas Papp para garantir a sobrevivência do nosso teatro. Aos 33 anos de idade, Papp tem um currículo invejável como ator, diretor, dramaturgo e produtor.

Escrita há dez anos, quando Papp tinha apenas 23 anos, a peça revela surpreendente maturidade para um jovem daquela idade, tanto na estrutura dramatúrgica como no tema apresentado.

O que cada um de nós faria para fazer justiça à morte de um ente querido? Essa é a questão que os integrantes da Família Machado enfrentam e ela repercute forte no pensamento de cada espectador.

Carlos foi assassinado durante um assalto. Seu irmão Tom e o cunhado sequestram o assassino, conhecido como Vagalume, e o levam para um cativeiro onde os esperam a mãe Rosa e a irmã Silvia. Juntam-se a eles Ester, a viúva de Carlos e seus filhos Felipe e Sarah. São sete à mesa, sem perigo de empate. A decisão é matar Vagalume ou poupa-lo e entrega-lo à polícia.

Surgem argumentos de cada lado e o inventivo jogo criado por Papp por meio de diálogos ágeis faz com que o espectador se envolva na ação permitindo-lhe uma escolha íntima conforme suas convicções e, mais importante, fazendo-o refletir sobre essa escolha. Está aí a reflexão, uma das mais nobres funções do teatro.

A essa trama principal, Papp inclui duas sub tramas. Na primeira, Ester confessa que chegou a pedir uma separação ao marido, um dia antes de seu assassinato. Na segunda, Vagalume faz um relato sobre sua vida, tentando justificar a razão de ter assaltado Carlos, colocando mais uma pedra no sapato na decisão dos sete e dos espectadores.

O encenador (também Luccas Papp) escolheu uma pequena sala do Teatro das Artes para situar o cativeiro onde se passa a ação da peça. O espaço é o próprio cenário apenas com a inclusão de alguns móveis (arquitetura cênica de Gustavo Gonçalo e Luccas Papp). A abordagem realista também está presente nos figurinos de Thaís Boneville.

O elenco afinado e homogêneo é quem defende o ótimo texto de Luccas Papp que também está presente como ator, fazendo com muita garra o rebelde e inquieto Tom.

Se é que Luccas me permite, volto a sugerir que ele não dê uma de Charlie Chaplin acumulando tantas funções em um espetáculo. Um outro diretor, que não ele, poderia mostrar outros aspectos do texto e até propor alguns pequenos cortes que enriqueceriam ainda mais este ótimo espetáculo.

Quanto ao elenco cabe destacar Cris Carniato como Ester e a presença luminosa de Annamaria Dias como a matriarca Rosa que até em silêncio com seu olhar, transmite o que está acontecendo quando os outros estão se manifestando.

A peça tem uma surpreendente reviravolta no final, recurso dramatúrgico que é uma característica das peças de Papp.

OS SETE MACHADOS está em cartaz na Sala Wilson Rodriguez do Teatro das Artes até 29/03. Sábado, 21h e domingo, 19h.

ÙLTIMA SEMANA. NÃO DEIXE DE VER.

 

24/03/2026

 

terça-feira, 17 de março de 2026

GAL, O MUSICAL

 

Fotos de Edgar Machado

        Marília Toledo e Emilio Boechat vêm se especializando em musicais biográficos de artistas brasileiros e seus últimos trabalhos (“Ney Matogrosso – Homem Com H” e este “Gal – O Musical”) revelam maturidade na concepção e muito bem-vinda originalidade em relação a seus similares da Broadway. Kleber Montanheiro, outro especialista em musicais junta-se a Marilia na direção do espetáculo sobre Gal e o resultado é uma festa colorida que deve fazer Gal cantar “Balancê”, esteja onde estiver.

        Em boa hora a dramaturgia não cita a última companheira de Gal, nem mostra sua triste partida, terminando apoteoticamente com elenco e público cantando “Festa no Interior”.

        A encenação deve muito à coreografia e a dinâmica direção de movimento de Semardha S. Rodrigues, à cenografia de Carmem Guerra que ocupa criativamente o espaço do 033rooftop e aos desenhos de luz (Gabriele Souza) e de som (Eduardo Pinheiro). Os figurinos de época são de autoria de Kleber Montanheiro.

        Não há como não destacar o visagismo (Louise Helène) e as perucas (Emi Sato) que muito colaboram para a caracterização de Walerie Gondim, que em certos momentos parece ser a própria Gal.

        Como as personagens do espetáculo provem de várias partes do Brasil é de muita importância a função de Andréia Vitfer na preparação vocal e de sotaque.

        A direção musical é de Daniel Rocha e os músicos são regidos por Vivi Godoy.

        O elenco afinado e animado canta e interpreta muito bem. Não há como não destacar Bruna Pazinato, como Lúcia Verissimo que tem belos duetos com Gal / Ivan Parente como o irriquieto Guilherme Araújo / Edu Coutinho (em boa hora estreando em São Paulo) como Caetano Veloso / Vinicius Loyola, muito bem como Tom Zé, mas nem tanto como João Gilberto / Marco França, Badu Morais e Fernanda Ventura que formam as divindades da Suméria que acompanham e criticam a trajetória de Gal / Théo Charles como Gilberto Gil / Daniela Cury (mãe de Gal).

        E que todos os holofotes e aplausos dirijam-se para Walerie Gondim, graciosa, simpática e bonita, que incorpora Gal Costa de maneira to-tal e fa-tal. Em certos momentos tem-se a impressão que é a própria Gal que esta ali. Some-se a isso a sua bela e afinadíssima voz, tal qual Gal (até rimou!!). Uma artista a quem se deve prestar muita atenção.

         A montagem é cheia de belos momentos, mas vale lembrar dos duetos de Gal com Lúcia Veríssimo (“Azul”), com a mãe (“Vapor Barato”), “Força Estranha” (solo de Gal) e “Fé Cega, Faca Amolada” com os Doces Bárbaros.

  

        GAL, O MUSICAL está em cartaz no 033 Rooftop (junto ao Teatro Santander). Sexta, 20h30 / Sábado, 16h30 e 20h30 / Domingo, 15h30 e 19h30.

        Delicioso demais para perder!

17/03/2026 – Dia do aniversário da Elis!

 

 

domingo, 15 de março de 2026

TRÁFICO

 

Sim!! Existe autoficção inteligente, criativa e que transcende o umbigo do autor.

 Sergio Blanco é o melhor exemplo disso com suas peças, muitas delas já encenadas por aqui, sendo que aquela que para mim é a melhor resolvida (“O Bramido de Düsseldorf”), curiosamente ainda não subiu em nossos palcos em montagem brasileira.

“Tráfico” teve uma rápida passagem por São Paulo em 2019, após se apresentar no Festival de Curitiba. Dirigida pelo autor, tinha o ator colombiano Wilderman García Buitrago como intérprete.

Blanco ao conhecer o ator Robson Torinni viu nele o tipo físico ideal para interpretar Alex, o personagem de “Tráfico”. Traduzida por Carolina Virguez, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta e adaptada para a montagem brasileira pelos dois últimos. a peça estreou no Rio de Janeiro em 2022, tendo cumprido temporadas de sucesso desde então. Finalmente chega em São Paulo em 2026, estando em cartaz no Teatro Estúdio.

Alex, um rapagão bonito, de classe baixa, vive na periferia de uma cidade qualquer e sobrevive como garoto de programa e depois se aprofunda na marginalidade atuando como matador de aluguel. Blanco define a personagem assim: “Alex tem trinta e três anos, é belo e mora na periferia de uma cidade qualquer. Tem uma moto. Uma arma. E um celular. Só isso”.

Ao mesmo tempo que tem prazer em contar sobre suas atividades, Alex vai a igreja confessar seus pecados, chora ao lembrar de sua mãezinha e chega a se apaixonar por um de seus clientes, um francês chamado...Sergio Blanco, que é dramaturgo e está escrevendo um monólogo chamado “Tráfico”!! (desta vez a personagem de Blanco não aparece em cena).

Sem qualquer qualquer conotação sexual é preciso declarar que a presença física de Robson Torinni é um colírio para os olhos e é com muita simpatia e sorrindo que ele recebe o público.

Além do físico exuberante, Torinni é um excelente ator e tem uma interpretação visceral como Alex, merecendo todas as indicações que recebeu aos prêmios cariocas de 2022. O fato deve se repetir em São Paulo.

A motocicleta presente na montagem de Blanco é aqui substituída por dois espelhos que a substituem de forma eficaz e tornam a cena muito bonita. A iluminação de Bernardo Lorga comenta e complementa toda a ação. O diretor Peralta também se vale da brilhante direção de movimento assinada por Toni Rodrigues que dá maior colorido à interpretação de Torinni.

O ano, ao que parece, será pródigo em memoráveis interpretações masculinas. Robson Torinni junta-se a Rafael Primot (Habitat), Edu Moscovis (O Motociclista no Globo da Morte), Gabriel Leone (Hamlet), Marco Antônio Pâmio e Luciano Gatti (Nós, os Justos) nessa lista dos melhores.

TRÁFICO está em cartaz no Teatro Estúdio até 03 de maio com sessões sextas e sábados 20h e domingos 18h.

IMPERDÍVEL! 

15/03/2026