domingo, 9 de agosto de 2026

QUERIDA MAMÃE

 

 

        1Sobre a autora

A escolha de assuntos pertinentes, a clareza e o desenvolvimento das tramas, as personagens verossímeis e bem construídas e os diálogos ágeis e penetrantes são características das escritas de Maria Adelaide Amaral, seja nas peças de teatro, seja nos romances.

Nos romances destaco dois dos seus tesouros: “Aos Meus Amigos”, um retrato emocionado e amargo dos jovens dos anos 1970 a 1990 e “Luísa (Quase Uma História de Amor)”, do qual um dos capítulos deu origem à inesquecível “De Braços Abertos”, obra prima absoluta, encenada em 1985 com Irene Ravache e Juca Oliveira, que pede para ser reencenada.

Nas peças de teatro destaco “Bodas de Papel”, sua primeira peça encenada em 1978, a já citada “De Braços Abertos! (1985), “Querida Mamãe” (1995) e “Intensa Magia” (1996).

URGE que Maria Adelaide volte escrever para teatro, nossa dramaturgia está precisando! 

2 – Querida Mamãe

A primeira encenação apresentada em palcos paulistanos ocorreu em 1995 com Eva Wilma e Eliane Giardini dirigidas por José Wilker. Relações humanas nuca saem de cartaz, por isso trinta e um ano depois, ela volta atualíssima.

Dirigida com muita sensibilidade por Pedro Neschling a peça mostra o encontro quase sempre conflituoso entre Helô, uma jovem médica de pensamento liberal e sua mãe conservadora.

São cenas ocorridas ao longo de vários dias que na encenação são pontuadas por ligeiros escurecimentos de luz e delicados movimentos de tecidos suspensos efetuados pelas atrizes.

Espetáculos desse tipo só se realizam a contento quando dispõem de bom elenco e aqui não há do que se queixar.

Regiane Alves, que já havia atuado em outra peça de Maria Adelaide (“Para Tão Longo Amor” em 2016) interpreta a tempestuosa Helô com muita energia e muita emoção, deslocando-se com flexibilidade por todo o palco.

Em bem-vindo retorno aos nossos palcos, Nívea Maria apresenta a mãe com muita dignidade. Em virtude de sua longa jornada na televisão, Nívea concentra sua atuação nas expressões faciais e na perfeita dicção, movimentando pouco o corpo, mas isso nada compromete seu belo desempenho que culmina com uma explosão emocional nas últimas cenas.

A sessão do último sábado contou com a presença sempre simpática da querida  Maria Adelaide Amaral.

 

QUERIDA MAMÃE está em cartaz no Teatro Renaissance. Sexta, 21h30/Sábado, 19h/Domingo, 17h 

09/08/2026

 

sábado, 8 de agosto de 2026

ELOGIO DA LOUCURA

 

Existem espetáculos com temas bastantes importantes, excelentes encenações e trabalhos preciosos de atrizes e atores que passam quase desapercebidos em suas temporadas curtas, muitas vezes realizadas em teatros distantes e sem a devida divulgação por parte da mídia. Isso acontece com a maioria dos trabalhos realizados na periferia da cidade por grupos alternativos e acontece também com “Elogio da Loucura”, que se baseia em obra de um importante pensador e que tem no elenco uma atriz do porte de Leona Cavalli.

Ao que me consta em São Paulo a peça passou por rápidas temporadas pelo SESC Belenzinho (2022) e pelo Teatro J. Safra (2024) e se apresenta agora por apenas duas semanas na Caixa Cultural, sempre com pouca divulgação e repercussão.

É obra do filósofo e humanista holandês Erasmo de Rotterdam (1466-1536) onde a Loucura, filha de Plutão e da ninfa da Alegria surge em pessoa para conclamar os benefícios daqueles que dela se beneficiam.

Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo elaboraram saborosa dramaturgia a partir do livro de Erasmo. A encenação de Eduardo Figueiredo privilegia-se do cenário e incríveis adereços de Paula Mares e Kelly Siqueira, dos exuberantes figurinos criados por Kelly Siqueira e Mariana Baffa, da música executada ao vivo por Matheus Vieira (cello) e Cika (percussão) e, é claro, da presença magnética de Leona Cavalli.

Leona, mais bela do que nunca, é um furacão em cena. Sua energia transbordante é própria, mas também é herança dos tempos em que trabalhou com Zé Celso no Oficina. Às suas inesquecíveis Blanche e Geni (em ambas dirigida por Cibele Forjaz) e Dona Eduarda, Leona vem somar essa impressionante personagem chamada Loucura.

Em pouco mais de uma hora Leona advoga sobre as vantagens da loucura para o bem da humanidade. A atualidade do texto de Erasmo evidencia-se em momentos que parece que ele foi escrito para criticar os políticos e o clero de hoje

Aproveite estes dois últimos dias em cartaz na Caixa Cultural na Praça da Sé. É IMPERDÍVEL!


08/08/2026

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

MAZAL TOV – QUANDO A VIDA SORRI

 

Fotos de Mare Martin 

Colocar em um mesmo ambiente judeus ortodoxos, uma ariana europeia e um muçulmano poderia render embate ideológico e religioso bastante intenso e até trágico, mas como o sub título indica, a opção foi realizar uma comédia leve, praticamente sem conflitos e com um final feliz.

Desconheço o romance autobiográfico da autora belga J.S. Margot que deu origem à saborosa adaptação teatral realizada por Fernando Dourado Filho e Dan Rosseto cuja encenação é dirigida por este último.

Dinah Feldman, feliz da vida, brilha como Margot, a jovem ariana de belos olhos verdes que irá trabalhar para a família judaica liderada pelo patriarca Schneider interpretado, também de maneira brilhante, por Otávio Martins. João Baldasserini tem boa participação como Nima, o namorado iraniano de Margot. Completam o elenco os demais membros da família Schneider: Giovana Yedid (esposa), Gabriel Brener e Thay Bergamim (filhos).

Mazal Tov é um espetáculo despretensioso a que se assiste com prazer e deverá ser ainda mais prazeroso para aqueles que conhecem a cultura judaica.

“Mazel Tov” significa “Boa Sorte” em hebraico.

Destaque para a bela trilha sonora assinada por Dan Maia.

Em cartaz no Teatro Moise Safra até 30/09 de terça a quinta às 20h.

 

05/08/2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

INTER ALIA

 

        Jessica Parks é uma mulher bem estruturada. Tem uma relação aparentemente estável com o marido e com o filho adolescente e profissionalmente é uma juíza bem sucedida e conceituada que prima pela ética e pela defesa de um sistema judiciário mais humano.

Acontecimentos no âmbito familiar fazem com que, em grande conflito, ela reveja seus valores éticos, a maneira como a mulher é vista na sociedade patriarcal, a educação do filho e os modos de lidar com a justiça.

Com seus conhecimentos da área jurídica (ela é advogada) e dotada de imenso talento dramatúrgico a escritora australiana Suzie Miller (1965) criou essa personagem complexa que é ao mesmo tempo um presente e um desafio para uma grande atriz. Na Inglaterra Rosamund Pike ganhou os principais prêmios de 2025 por sua interpretação na montagem londrina estreada há pouco mais de um ano e o mesmo deve acontecer por aqui com a arrebatadora interpretação de Drica Moraes.

Afastada dos palcos paulistanos há algum tempo, Drica ressurge com uma incrível energia dominando a primeira meia hora da peça com um longo e poderoso monólogo. Caco Ciocler e Caio Cesar Passos que até então fazem só figuração, surgem como o marido (Caco) e o filho (Caio) que serão figuras importantes no desenvolvimento da trama, mas o protagonismo continuará com Drica até o final das quase duas horas que dura a peça, onde o público quase não respira para acompanhar as reviravoltas da trama tão bem urdida pela dramaturga.

A maneira como a família trata o filho adolescente e o fato do maior inimigo do garoto estar em seu quarto é bastante semelhante àquela da série “Adolescência” exibida na Netflix, mas a semelhança para por aí.

Inter Alia é uma expressão latina que significa “entre outras coisas” e é usado em termos jurídicos para mostrar que provas apresentadas e fundamentação legal são apenas um dos lados da questão em julgamento. E é bem assim, entre outras coisas, que se debate a personagem de Drica.

Um palco nu com um imenso pano branco ao fundo é o cenário inicial da peça que aos poucos vai sendo preenchido com móveis que revelam os diversos ambientes onde se desenvolve a ação. Cenário assinado por Rodrigo Portella e Mina Quental e iluminado por Ana Luzia Di Simoni.

A direção do sempre surpreendente Rodrigo Portella é bastante discreta focando toda a atenção na personagem que merece: Jessica! E Drica Moraes responda a isso com seu imenso talento onde a fragilidade de sua delicada e bela figura é inversamente proporcional à energia e garra mostradas em cena.

Pelos temas tratados - violências contra a mulher, falhas na educação de adolescentes, fragilidade dos meios jurídicos no tratamento de estupros – Inter Alia é um soco no estômago, do qual os espectadores saem com um gosto amargo na boca, misto de indignação e revolta.

INTER ALIA está em cartaz no Teatro Vivo até 20/09 com sessões às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL! 

05/08/2026

 

 

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

RITA LEE: BALADA DA LOUCA

 


        Nos dois anos que se passaram desde que tomou conhecimento de sua doença grave (câncer no pulmão) em 2021 até sua morte em 2023 Rita Lee (1947-2023) escreveu sua “Outra Autobiografia” onde relata o dia a dia do convívio com a doença e a presença da morte. Mantendo a sua tão gostosa irreverência o livro de Rita tem certa leveza e humor, apesar do tema tratado.

        Guilherme Samora realizou fiel e digna adaptação teatral do livro e a mesma foi encenada com direção de Beatriz Barros tudo sob a benção e aprovação do companheiro Roberto Carvalho e dos filhos da cantora. A trilha sonora é de Roberto, assim como a interpretação ao piano que se ouve durante o espetáculo.

O resultado é o belíssimo e comovente espetáculo em cartaz no Teatro FAAP onde Lilia Cabral brilha numa composição que reflete sua visão da biografada, sem querer imitar a inimitável Rita. Com muita humanidade e sensibilidade Lilia transmite ao público o drama de Rita e também sua irreverência. Em um dos melhores momentos da peça ela conta que apelidou o seu tumor de Jair e as metástases de 01, 02 e 03! Cena aplaudida vigorosamente pelo público.  

Lilia transmite os sentimentos de Rita tanto na tristeza, como na alegria, emocionando o público durante os setenta minutos que dura o espetáculo. Testemunhei muita gente, inclusive eu, com lágrimas nos olhos ao final.

A interpretação de alto nível de Lilia transcende aquelas de biografadas que comumente se vê em nossos palcos e, curiosamente, seu belo trabalho não recebeu sequer uma indicação de melhor atriz no primeiro semestre por parte dos jurados dos principais prêmios de São Paulo.

VIVA RITA LEE!

VIVA A MÚSICA BRASILEIRA!

VIVA LILIA CABRAL!

VIVA O TEATRO BRASILEIRO!

VIVA A NOSSA ARTE!! 

RITA LEE: BALADA DA LOUCA está em cartaz no Teatro FAAP até 09/08 às sextas e sábados às 20h e aos domingos às 17h.

NÃO PERCA!! 

P.S. Infelizmente assisti ao espetáculo perto do fim da temporada. Gostaria muito de recomenda-lo para “muita muita muita” gente!! 

03/08/2026

domingo, 2 de agosto de 2026

LINHA DO TEMPO DO TEATRO NO BRASIL – DANIEL MARANO

 


Um tesouro!

Em novembro de 2017 escrevi o seguinte; “Conheci Daniel Marano em junho de 2017 quando ele estava no elenco da peça “A Tropa” no Teatro Sérgio Cardoso. Conversamos um pouco ao final do espetáculo e fiquei impressionado como aquele jovem com 27 anos se interessava apaixonadamente pela história do teatro brasileiro e pelo imenso acervo de fotos, vídeos e textos que ele disse possuir em seu acervo iniciado quando era ainda um garoto. Marcamos um bate papo para o dia seguinte e fiquei muito feliz com o fato de meu livro passar a fazer parte desse rico memorial do nosso teatro.

 Daniel me mostrou fotos raríssimas que iriam compor o livro que estava escrevendo o qual ainda não foi publicado, mas brevemente o será para a alegria dos que, como ele, são apaixonados pelas artes cênicas do nosso país. (*)

O meu acervo contempla em sua maioria o teatro que acontece nos palcos paulistanos e, ao que entendi, aquele de Marano é mais abrangente e deve ter um maior número de espetáculos da cena carioca. Somamos assim considerável material que um dia poderá ser extremamente útil na preservação da tão desprezada memória de nosso teatro.”

        Depois disso acompanhei o curso “A Aventura do Teatro Brasileiro” que ele ministrou virtualmente, fui entrevistado por ele para uma série sobre teatro e nossa tornamos bons amigos juntando forças para a preservação da memória do nosso teatro. Para sorte do teatro paulistano Daniel mudou para cá e hoje é curador do Teatro Estúdio.

        O livro citado no texto acima (*) foi publicado, segundo Daniel com algumas imperfeições, mas para mim uma fonte rara de fotos e informações e no dia de ontem (01/08/2026) ganhei esse tesouro e de lambuja com uma carinhosa dedicatória do autor.

        Vai ocupar lugar de honra na minha biblioteca.

        Obrigado, Daniel.

 

        02/08/2026

 

sábado, 1 de agosto de 2026

LIA LIA

 

Fotos de Ricardo Cefalli

Eulália, Maria, Amélia, Joana, Dalia, José, Camélia, Pedro, Adélia, João, Lia, Lia...

Fragmentos da vida de um ser humano 

        Em flashes rápidos e não na ordem cronológica vamos tomando conhecimento de fatos da vida de uma mulher chamada Lia, fatos esses que também podiam fazer parte da sua ou da minha vida. O texto teatral é uma adaptação feita por Bete Coelho do livro “Lia: Cem Vistas do Monte Fuji” de Caetano W. Galindo.

        Dirigido por Bete e codirigido com toques cinematográficos por Gabriel Fernandes, “Lia Lia” é um espetáculo de rara beleza visual graças ao cenário emaranhado de “fios da vida” concebido por Daniela Thomas e Felipe Tassara, ao incrível desenho de luz de Beto Bruel, ao conjunto de oito mulheres dispostas simetricamente em dois grupos de quatro ao lado do cenário que, qual um coro de tragédias gregas, comenta e narra as ações vividas esplendidamente por Lia (Bete Coelho) e Lia (Camila Pitanga), além da presença de um homem (amante, pai) na vida de Lia interpretado por Roberto Audio. Destaque também para as participações de Laís Lacôrte (mãe e filha de Lia) e Lindsay Castro Lima como uma vizinha bisbilhoteira. Alunas do Núcleo de Artes Cênicas – NAC, do SESI-SP compõem exemplarmente o coro cênico.

        Outra beleza da montagem é a movimentação milimétricamente precisa do elenco  concebida por Bete Coelho que se assemelha aos passos de uma coreografia.

        Bete e Camila se revezam com muita garra como Lia. Bete, generosamente, cede para Camila cenas excelentes que incluem até uma interação delicada e afetiva com uma pessoa da plateia.


        Os aplausos calorosos do público heterogêneo que frequenta o Teatro do SESI ao final do espetáculo demonstram a compreensão da narrativa fragmentada da peça.

        LIA LIA cumpre curta temporada até 09/08 no Teatro do SESI de quarta a sábado às 20h e aos domingos às 18h.

        NÃO DEIXE DE VER!

 

        01/08/2026