domingo, 22 de fevereiro de 2026

ESSE MUNDO É DOS LOUCOS ... AINDA BEM!

 

Fachada da sede da ºAndar

“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”

(Caetano Veloso) 

Na busca insaciável de desmantelar a cultura e contribuindo para a especulação imobiliária, certos órgãos públicos paulistanos permitiram, só nos últimos meses, o desaparecimento do “Espaço Vento Forte”, do “Teatro de Contêiner” e do “Teatro Procópio Ferreira”.

Mas... Existem os loucos que insistem em investir em cultura, sacrificando até seus próprios bolsos.

A criação do “IBT (Instituto Brasileiro de Teatro)” em 2021 com o lema “Afinal, água e teatro não se negam a ninguém” por cinco jovens (Elisa Volpatto, Guto Portugal, José Aragão, Oliver Tibeau e Samya Pascotto), é o primeiro exemplo que me ocorre e o resultado é aquele importante centro cultural em um edifício no final da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, palco de importantes manifestações teatrais.


Ricardo Grandi transformou o seu estúdio de cinema no Butantã, no “Teatroiquè”, espaço ainda pouco conhecido, que já abrigou “Odisseia – Instalação Para Um Retorno” e “A Máquina”, dois espetáculos importantes da temporada de 2025.


Os jovens Dante Passarelli e Fernanda Zancopé assumiram o espaço antes ocupado pelo “Teatro Elevador”, que agora se chama “Teatro Manás Laboratório” e tem ótima programação.


Por falar em qualidade de programação, é importante citar o “Teatro Estúdio” administrado por Alexandre Galindo e com curadoria de Daniel Marano. Além disso o espaço contribui para a revitalização de uma área da cidade bastante degradada.

E como esquecer de Marcos Felipe e Lucas Bêda, os loucos da “Mungunzá”, que lutam para criar um novo espaço para o “Teatro de Contêiner.”

Lembrando ainda da reabertura do Instituto Capobianco e da criação do ME Teatro, iniciativa de Mara Carvalho, nos fundos do seu restaurante.

A esse bando de benditos loucos, juntam-se Ana Paula Dias e Anayan Moretto que já haviam cometido a audácia de criar o espaço cultural “°Andar” em 2017 em um prédio da Rua Dr. Gabriel dos Santos e agora partindo para a loucura total mudam-se para um belo casarão, totalmente reformado, na mesma rua. O casarão tem salas de ensaio e de exposição (a notar, a importante mostra de fotos de Roberto Setton, ora em cartaz) e ao fundo foi construída uma espaçosa e flexível sala preta multiuso que abrigará os espetáculos teatrais programados para o local.

A abertura do espaço aconteceu numa deliciosa noite de sábado com a apresentação do monólogo “Bombordo ou Uma Ilha Para o Esquecimento” com Ana Paula Dias. Espetáculos estão programados até o fim de junho e tudo indica, pelo entusiasmo das meninas, que a casa continuará com boa programação por muito tempo.

Ao final do espetáculo aconteceu um coquetel onde todos brindaram junto com Ana Paula, Anayan e Telma Fernandes a abertura desse importante espaço para a cultura paulistana.

O que seria de nós se essa gente louca não investisse em suas benditas loucuras?

 

VIVA A LOUCURA

VIVA O TEATRO, TEMPLO DA UTOPIA E DA ESPERANÇA

 

22/02/2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O RETORNO

 

É triste constatar que se os mortos voltassem,

não se saberia, absolutamente, o que fazer com eles.

(Alfred Hitchcock)

         José Roberto Jardim é um ser humano de rara sensibilidade, a qual ele empresta para o seu eu-encenador para presentear o público com espetáculos preciosos.

O germe de “O Retorno”, está em outras duas belíssimas realizações de Jardim: “Não Contém Glúten” (espetáculo memorável de 2016) e “A Desumanização” (2020).

Em “O Retorno”, um casal em luto pela morte/desaparecimento do filho recebe surpreso e alegre o filho de volta e esses fatos (desaparecimento / volta) acontece tantas vezes que esse retorno acaba se tornando banal e até indesejável. Esse retrato cruel de uma família é o tema desse texto do dramaturgo e compositor norueguês Fredrik Brattberg (1978).

Como bom compositor de música clássica Brattberg escreve um texto que podia ser chamado de “variações em torno de um retorno” e as cenas poderiam ser classificadas como os andamentos de uma música: adagio, alegro, alegro ma non troppo, presto, dependendo das reações do casal nos inúmeros regressos do filho.

Em bom momento, aquilo que poderia ser uma encenação realista, Jardim transformou em um jogo cênico que beira o teatro do absurdo onde todos os recursos teatrais (cenografia, imagens projetadas, iluminação, figurinos, visagismo, trilha sonora e interpretação) são usados de forma total e surpreendente e o mínimo explode em um máximo.

O artista alemão associado ao movimento Bauhaus Oskar Schlemmer (1888-1943) assim definiu o teatro total “ O teatro total deve ser uma criação artística, um conjunto orgânico de feixes de relações entre luz, espaço, superfície, movimento, som e ser humano, com todas as possibilidades de variações e de combinações desses diversos elementos”, e é exatamente isso que Jardim fez ao conceber esse instigante espetáculo que surpreende o público a cada cena (ou variação) posterior a um black out luminoso (isso pode parecer um oxímoro, mas trata-se de um original efeito de luz criado por Aline Santini que, pelo excesso de luz, cega o público criando um efeito de black out. Só vendo! Só vendo!).

O espetáculo tem uma precisão cirúrgica onde cada elemento tem seu tempo certo de interferir e de durar, algo importante também para a interpretação e para a movimentação corporal do elenco que brilha como a mãe (Helena Ranaldi), o pai (Leonardo Medeiros) e o filho (Pedro Waddington).

A projeção de imagens (Coletivo Bijari), assim como a deslumbrante (perdão por mais esse adjetivo!!) iluminação criada por Aline Santini dialogam com a cena, assim como a trilha sonora de Rafael Thomazini. É importante destacar aqui a importância da operação de áudio e vídeo (também por Rafael Thomazini) que deve estar totalmente em sincronia com o restante das funções.

O claro-escuro de algumas cenas remete aos quadros de Caravaggio (1571-1610), assim como não há como não lembrar de Edward Hopper (1882-1967) nas cenas de solidão do casal.

O resultado obtido por José Roberto Jardim na regência de todos esses elementos não é menos que belo e surpreendente, além de nos fazer refletir sobre as nuances das relações familiares.

Desde já um dos mais importantes espetáculos do ano.

Não é mais necessário ir a Bayreuth para assistir a uma ópera de Wagner, mantidas as devidas proporções, temos um bom exemplo de teatro total aqui em casa no SESC Santana, graças ao trabalho do Zé!!

NÃO DEIXE DE VER e DE SE SURPREENDER COM TANTA CRIATIVIDADE EM CENA!

 

Em tempo: O programa impresso (isso é pleonasmo, pois TODO programa deveria ser impresso) é muito rico em informações relatadas por grande parte dos envolvidos na encenação). 

O RETORNO está em cartaz no SESC Santana até 01/03: sexta e sábado,20h e domingo, 18h. Para sessões extras consulte o site do SESC. 

17/02/2026

sábado, 14 de fevereiro de 2026

PROJETO WISLAWA

Foto de João Caldas

Cesar Ribeiro tem estilo. Simples assim.

Seus espetáculos têm marca própria na beleza da cenografia (sempre assinada por J.C. Serroni), na potência dos figurinos (Telumi Helen), no forte visagismo (Louise Helène), na iluminação (Rodrigo Palmieri, na atual montagem), na sempre surpreendente trilha sonora escolhida por ele mesmo, na escolha do elenco que pode contar, sempre que possível, com a presença iluminada de Clara Carvalho e na escolha de temas fortes que reproduzam o caos e a violência da contemporaneidade. 

CENOGRAFIA X FIGURINO X VISAGISMO X TRILHA X ELENCO X TEMA 

Não que outros encenadores não estejam atentos a esses pontos; mas o que distingue Ribeiro é o fato que ele enfatiza cada um deles com profissionais altamente qualificados, para depois equilibrá-los dando uma uniformidade que resulta no espetáculo final.

Essa forte atenção aos seis componentes e o equilíbrio deles forma a cartilha desse encenador que nos surpreende a cada novo espetáculo.

Uma vez cumpridos cenografia, figurino, visagismo, trilha e elenco, resta o tema – via dramaturgia - para completar o espetáculo.

 No meu modo de ver os espetáculos melhor sucedidos de Ribeiro foram aqueles que tinham dramaturgias consistentes [“Esperando Godot” (2017), “O Arquiteto e o Imperador da Assíria” (2021), “Dias Felizes” (2023) e “Trilogia Kafka” (2025)].

Dramaturgias frágeis a partir de textos não teatrais resultaram em espetáculos menos felizes [“Dias de Amor e de Guerra” (2024), “Projeto Clarice” (2025) e o atual “Projeto Wislawa” (2026)].

Uma grande exceção foi “Prontuário 12.528” (2024) onde a dramaturgia de Cesar Ribeiro costurou de forma brilhante textos de sua autoria com textos que vão desde Pero Vaz de Caminha até Luis Fernando Veríssimo. O resultado foi uma dramaturgia consistente e poderosa.        

Para ilustrar a obra da escritora polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), Ribeiro se vale do artifício de colocar em cena uma mulher condenada à morte por assassinar Wislawa. Essa mulher (papel de Clara Carvalho) serve como narradora e condutora da ação que conta com intervenções da poetisa interpretada por Vera Zimmermann. A sequência dos textos pareceu confusa para este espectador que desconhece a obra de Wislawa tornando o espetáculo um pouco cansativo apesar da curta duração.

Clara Carvalho sempre surpreende a cada novo trabalho e acrescenta mais um ponto em sua carreira. A voz estridente e expressões corporais marcantes são as novidades desta atuação.

Foto de João Caldas

Vera Zimmermann também tem uma rica atuação formando uma dupla coesa com Clara.

Projeto Wislawa é um espetáculo sério, digno e muito belo que merece ser visto e prestigiado.

Em cartaz no Teatro Paulo Eiró até 01/03.

Quinta a sábado, 20h e domingo, 19h 

13/02/2026

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

ESTREIAS TEATRAIS


Ato único

 

Eu acho que eu não vou mais em estreias.

 

- Boa noite, eu gostaria de retirar um par de convites.

- É convidado da produção ou de quem?

- Recebi o convite da assessoria de imprensa.

- Ah, então não é aqui, é lá naquele balcão.

 

Depois de perambular pelos 427 balcões do teatro finalmente estou com o ingresso em mãos e me dirijo à entrada. Após várias tentativas sem sucesso, finalmente o aparelho do porteiro consegue ler o Qr code do meu bilhete e eu entro na sala de espera que está lotada de convidados do elenco, de elementos da classe teatral, de críticos e de muita gente especializada em ir a qualquer evento que sirva um coquetel.

 

- Oi, quanto tempo, que saudades!! (beijinhos, beijinhos).

Com frases desse tipo, que remetem àquelas da canção “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola, as pessoas vão circulando rapidamente, para se fazer notar para o maior número dos presentes.

 

Entra-se na sala de espetáculos. Após atraso de meia hora, toca o terceiro sinal e o espetáculo vai começar, mas pode acontecer da cortina insistir em não abrir atrasando mais um pouco o início.

No palco sempre tem uma luz que não foi afinada ou um spot que se recusa a acender, vez ou outra o som não foi equalizado ou falha o microfone de alguém do elenco.

Acontece também de um ator não ter o texto totalmente decorado ou de uma atriz ainda não saber a marcação da cena.

Barbara Heliodora dizia que na estreia o espetáculo já devia estar completamente pronto, mas isso nem sempre acontece.

Como a plateia de estreia (e/ou sessão vip e/ou sessão para convidados) é formada por amigos e familiares do elenco as risadas e os aplausos quando um ou outro intérprete aparece em cena são comuns e, ao final, os aplausos - em pé, é claro! -, são verdadeiras ovações, seguidas de um prolongado e sonoro UUUU!;  por sinal quem foi que inventou esse terrível UUUU, antigamente isso era vaia!

Nesses aplausos finais o elenco chama ao palco o autor e o diretor que falam algumas palavras e vão chamando todas as outras pessoas da produção que se acotovelam no palco em busca de um lugar ao sol, e ainda há lugar para pedir aplausos até para o papagaio de louça que enfeita a mesinha do cenário, prolongando o evento por mais de cinco minutos, com o público amigo sempre aplaudindo calorosamente e gritando cada vez mais UUUU, UUUU!

 

Chegou a hora do coquetel e de toda galera lutar para marcar presença e aparecer mais do que as estrelas da peça, além de buscar avidamente sua taça de espumante e suas guloseimas salgadas.

Circulando velozmente por todo o espaço dando beijinhos e abraços a quem vê pela frente todos parecem muito felizes com o que acabaram de ver.

As conversas, então, são de uma originalidade à toda prova:

 

- Puxa, quanto tempo!  Fazia meses que a gente não se via. Você não tem mais recebido cortesia para as estreias?

- Que tal? Gostou?

- Gostei, mas tenho uns senões. (segue-se um rosário de senões para um interlocutor absolutamente desinteressado)

- Você vai escrever?

- Aquela atriz é bonita, mas está bem fraquinha, você não achou?

- Eu achei a direção GENIAL! Esse encenador é mesmo um gênio!

- Aquela outra é boa atriz, mas está tão acabada.

- Olá Olegário, vou aguardar ansioso sua crítica irretocável, repleta de adjetivos tão significativos.

- Sabe quem está muito doente?

- Onde estão servindo o espumante?

- Nossa, como a Eliseth Porciúncula está gorda!

- O que você vai assistir amanhã?

- Você tira uma foto minha com o Cassiano Lebourge? Adoro o trabalho dele nas novelas da TV.

- Não tenho visto o Eleotério, onde ele anda? Será que está doente?

- Vem comigo, quero dar um abraço na Fernanda e tirar uma foto com ela.

- Procura a comidinha aonde está o Serafim, ele está sempre perto da mesa de quitutes devorando tudo o que vê pele frente.

- Vamos fazer uma selfie!?

- Ih, mas são sempre os mesmos salgadinhos.

 

 É... sempre digo que não venho mais em estreias, mas acabo vindo!

- Por falar nisso, você gostou? Vai na estreia de amanhã?

 

FIM

11/02/2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CHOQUE: PROCURANDO SINAIS DE VIDA INTELIGENTE

 

Alô, alô Marciano

Aqui quem fala é da Terra

Pra variar, estamos em guerra

Você não imagina a loucura 

O ser humano tá na maior fissura 

(Rita Lee e Roberto de Carvalho)

         A canção em epígrafe poderia fazer parte da trilha sonora de mais esta viagem de Gerald Thomas ambientada nos escombros do capitalismo, onde uma mulher desesperançada com a humanidade procura contato com extraterrestres em busca de melhores dias.

O espetáculo de Thomas flui sem lógica aparente diretamente de seus pensamentos, traumas e devaneios. Apesar de ter por base o texto da norte americana Jane Wagner, são as intervenções criadas por ele que dão o colorido à montagem, resultando necessariamente caótica e sem agradar boa parte do público.

Como em todo espetáculo de Thomas, a estética procura encobrir suas incontáveis divagações com a cenografia de Fernando Passetti, a bela iluminação de Wagner Pinto e a inusitada trilha sonora assinada por ele.

A sonoplastia (Marcelo Alonso Neves) deu sinal de cansaço na noite de 06/02/2026 com problemas no microfone usado pela atriz, gerando uma incômoda paralização do espetáculo por quinze minutos. Entendo como deselegante o fato que nenhuma explicação tenha sido dada ao público sobre o que ocorreu.

Danielle Winits afasta-se de seus costumeiros papeis de moça bonita e glamorosa para interpretar uma moradora de rua que vive no meio do lixo, desconcertada com a realidade e sempre à espera de um contato alienígena. Fisicamente o tipo resultante remete àquele de Meryl Streep em “Ironweed”, importante e pouco conhecido filme de Hector Babenco. A atriz é bastante esforçada e sai-se bem dessa difícil empreitada, podendo se imaginar a dificuldade em decorar o texto de Thomas.

Ao final a mulher parece encontrar um caminho para dias melhores ao se dirigir a uma nave espacial dirigida pelos alienígenas de vida inteligente. Sem querer ser irônico, essa cena me fez lembrar da cena final do filme “E.T. O Extraterrestre”. 

CHOQUE está em cartaz no Teatro FAAP às sextas e sábados às 20h e os domingos às 17h até 29 de março. 

07/02/2026

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

AQUI, AGORA, TODO MUNDO

 

Foto de Kim Leekyung

Existem assuntos tabus que precisam vir à baila para serem discutidos e dentro do possível serem prevenidos. A saúde mental, a depressão que vem ocorrendo entre jovens, levando muitos deles a atitudes extremas são alguns desses assuntos que em bom momento nosso teatro vem discutindo.

Depois de “O Filho” e “Etiqueta do Luto”, “Aqui, Agora, Todo Mundo” trata também desse assunto espinhoso. Enquanto nas duas primeiras o depressivo é apresentado por meio de seus familiares, na última é ele próprio que fala de seus problemas.

O texto da peça de Felipe Barros é inspirado no livro homônimo de Alexandre Mortagua, mas parece conter também elementos de sua própria vida e o resultado é um retrato corajoso de jovens com a saúde mental comprometida. A dramaturgia é assinada por ele e pelo diretor Heitor Garcia.

Sozinho em cena o autor vai narrando a sua trajetória guiado pelas fichas previamente distribuídas para o público que são levantadas aleatoriamente. Felipe é um bom ator e tem boa comunicação com o público.

Valendo-se de um belo e preciso desenho de luz de Rodrigo Pivetti e um potente desenho de som de DJ Agatha que inclui músicas de Jaloo, Heitor Garcia dirige o espetáculo com segurança incomum para um estreante na função, não desviando a sua atenção no ator em nenhum momento.

Ao final do espetáculo a dramaturga Nanna de Castro fez um comovente e corajoso relato sobre os problemas relativos à saúde mental de sua filha de 16 anos que culminaram com o seu suicídio.


Que um espetáculo como esse sirva de alerta para os familiares de jovens e para todos que convivem com pessoas depressivas. 

AQUI, AGORA, TODO MUNDO está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso aos sábados, domingos e segundas às19h até 1º de março.

05/02/2026

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

HIP HOP HAMLET

 


Eu precisaria conhecer melhor a linguagem HIP HOP para escrever com mais propriedade sobre esta versão que Claudia Schapira fez da tragédia de Shakespeare. O recorte da autora concentra-se na primeira parte da obra, excluindo as cenas da visita dos comediantes e do duelo final, que são deliciosamente narradas pela MC, Dani Nega. Assuntos relativos a racismo e violência na periferia das grandes cidades são introduzidos na trama sem prejudicar o original.

Correndo o risco de ser impreciso na minha avaliação e de usar termos errados, sigo minha intuição de espectador para afirmar que o resultado é fascinante no gestual (direção de movimentos e coreografia de Luaa Gabarini e Flip Couto), no poderoso som marcado (direção musical de Eugênio de Lima, Daniel Oliva, Dani Nega e Roberta Estrela d”Alva) e na maneira de falar (métricas, “spoken words” e arranjos vocais de Roberta Estrela D’Alva e Dani Nega). Completam o fascínio as excelentes imagens projetadas em três telões (direção de arte e cenografia de Bijari).

Figurinos escuros e carregados de Claudia Schapira, visagismo de Maxime Weber. Desenho de luz de Wagner Pinto e desenho de som de Bruno Pinho

Guilherme Leme Garcia e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos harmonizam todas essas funções em um espetáculo único e belo, sem descuidar do elenco.

O elenco é homogêneo e cheio de garra, mas cabe destacar as duas coveiras interpretadas por Luaa Gabarini e Roberta Estrela D’Alva, a presença hipnotizante e a linda voz de Lilian Valeska como a Rainha Gertrudes. Jairo Pereira marca presença como o Rei Claudio. Ayomi Domenica dá novos rumos para a sua Ofélia e Dom Capelari se sai muito bem desde a primeira cena onde interpreta o famoso “ser ou não ser” de Hamlet com muita categoria. Dani Nega encarrega-se da importante presença de MC (figura fundamental nesse tipo de espetáculo) e Bgirl Bjump nos deixa boquiabertos com seus "malabarismos corporais" em cena.

Lilian Valeska - Rainha
Dom Capelari - Hamlet

Vale a pena prestar a atenção no desempenho de Daniel Oliva na guitarra e no violão e no DJ Eugênio Lima.

HIP HOP HAMLET está em cartaz no remodelado (agora tem sanitários ao lado da sala!) Teatro YouTube – Sala Eva Herz.

Belo e energizante.

NÃO DEIXE DE VER 

04/02/2026