sábado, 7 de fevereiro de 2026

CHOQUE: PROCURANDO SINAIS DE VIDA INTELIGENTE

 

Alô, alô Marciano

Aqui quem fala é da Terra

Pra variar, estamos em guerra

Você não imagina a loucura 

O ser humano tá na maior fissura 

(Rita Lee e Roberto de Carvalho)

         A canção em epígrafe poderia fazer parte da trilha sonora de mais esta viagem de Gerald Thomas ambientada nos escombros do capitalismo, onde uma mulher desesperançada com a humanidade procura contato com extraterrestres em busca de melhores dias.

O espetáculo de Thomas flui sem lógica aparente diretamente de seus pensamentos, traumas e devaneios. Apesar de ter por base o texto da norte americana Jane Wagner, são as intervenções criadas por ele que dão o colorido à montagem, resultando necessariamente caótica e sem agradar boa parte do público.

Como em todo espetáculo de Thomas, a estética procura encobrir suas incontáveis divagações com a cenografia de Fernando Passetti, a bela iluminação de Wagner Pinto e a inusitada trilha sonora assinada por ele.

A sonoplastia (Marcelo Alonso Neves) deu sinal de cansaço na noite de 06/02/2026 com problemas no microfone usado pela atriz, gerando uma incômoda paralização do espetáculo por quinze minutos. Entendo como deselegante o fato que nenhuma explicação tenha sido dada ao público sobre o que ocorreu.

Danielle Winits afasta-se de seus costumeiros papeis de moça bonita e glamorosa para interpretar uma moradora de rua que vive no meio do lixo, desconcertada com a realidade e sempre à espera de um contato alienígena. Fisicamente o tipo resultante remete àquele de Meryl Streep em “Ironweed”, importante e pouco conhecido filme de Hector Babenco. A atriz é bastante esforçada e sai-se bem dessa difícil empreitada, podendo se imaginar a dificuldade em decorar o texto de Thomas.

Ao final a mulher parece encontrar um caminho para dias melhores ao se dirigir a uma nave espacial dirigida pelos alienígenas de vida inteligente. Sem querer ser irônico, essa cena me fez lembrar da cena final do filme “E.T. O Extraterrestre”. 

CHOQUE está em cartaz no Teatro FAAP às sextas e sábados às 20h e os domingos às 17h até 29 de março. 

07/02/2026

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

AQUI, AGORA, TODO MUNDO

 

Foto de Kim Leekyung

Existem assuntos tabus que precisam vir à baila para serem discutidos e dentro do possível serem prevenidos. A saúde mental, a depressão que vem ocorrendo entre jovens, levando muitos deles a atitudes extremas são alguns desses assuntos que em bom momento nosso teatro vem discutindo.

Depois de “O Filho” e “Etiqueta do Luto”, “Aqui, Agora, Todo Mundo” trata também desse assunto espinhoso. Enquanto nas duas primeiras o depressivo é apresentado por meio de seus familiares, na última é ele próprio que fala de seus problemas.

O texto da peça de Felipe Barros é inspirado no livro homônimo de Alexandre Mortagua, mas parece conter também elementos de sua própria vida e o resultado é um retrato corajoso de jovens com a saúde mental comprometida. A dramaturgia é assinada por ele e pelo diretor Heitor Garcia.

Sozinho em cena o autor vai narrando a sua trajetória guiado pelas fichas previamente distribuídas para o público que são levantadas aleatoriamente. Felipe é um bom ator e tem boa comunicação com o público.

Valendo-se de um belo e preciso desenho de luz de Rodrigo Pivetti e um potente desenho de som de DJ Agatha que inclui músicas de Jaloo, Heitor Garcia dirige o espetáculo com segurança incomum para um estreante na função, não desviando a sua atenção no ator em nenhum momento.

Ao final do espetáculo a dramaturga Nanna de Castro fez um comovente e corajoso relato sobre os problemas relativos à saúde mental de sua filha de 16 anos que culminaram com o seu suicídio.


Que um espetáculo como esse sirva de alerta para os familiares de jovens e para todos que convivem com pessoas depressivas. 

AQUI, AGORA, TODO MUNDO está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso aos sábados, domingos e segundas às19h até 1º de março.

05/02/2026

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

HIP HOP HAMLET

 


Eu precisaria conhecer melhor a linguagem HIP HOP para escrever com mais propriedade sobre esta versão que Claudia Schapira fez da tragédia de Shakespeare. O recorte da autora concentra-se na primeira parte da obra, excluindo as cenas da visita dos comediantes e do duelo final, que são deliciosamente narradas pela MC, Dani Nega. Assuntos relativos a racismo e violência na periferia das grandes cidades são introduzidos na trama sem prejudicar o original.

Correndo o risco de ser impreciso na minha avaliação e de usar termos errados, sigo minha intuição de espectador para afirmar que o resultado é fascinante no gestual (direção de movimentos e coreografia de Luaa Gabarini e Flip Couto), no poderoso som marcado (direção musical de Eugênio de Lima, Daniel Oliva, Dani Nega e Roberta Estrela d”Alva) e na maneira de falar (métricas, “spoken words” e arranjos vocais de Roberta Estrela D’Alva e Dani Nega). Completam o fascínio as excelentes imagens projetadas em três telões (direção de arte e cenografia de Bijari).

Figurinos escuros e carregados de Claudia Schapira, visagismo de Maxime Weber. Desenho de luz de Wagner Pinto e desenho de som de Bruno Pinho

Guilherme Leme Garcia e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos harmonizam todas essas funções em um espetáculo único e belo, sem descuidar do elenco.

O elenco é homogêneo e cheio de garra, mas cabe destacar as duas coveiras interpretadas por Luaa Gabarini e Roberta Estrela D’Alva, a presença hipnotizante e a linda voz de Lilian Valeska como a Rainha Gertrudes. Jairo Pereira marca presença como o Rei Claudio. Ayomi Domenica dá novos rumos para a sua Ofélia e Dom Capelari se sai muito bem desde a primeira cena onde interpreta o famoso “ser ou não ser” de Hamlet com muita categoria. Dani Nega encarrega-se da importante presença de MC (figura fundamental nesse tipo de espetáculo) e Bgirl Bjump nos deixa boquiabertos com seus "malabarismos corporais" em cena.

Lilian Valeska - Rainha
Dom Capelari - Hamlet

Vale a pena prestar a atenção no desempenho de Daniel Oliva na guitarra e no violão e no DJ Eugênio Lima.

HIP HOP HAMLET está em cartaz no remodelado (agora tem sanitários ao lado da sala!) Teatro YouTube – Sala Eva Herz.

Belo e energizante.

NÃO DEIXE DE VER 

04/02/2026

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

MEDEA

 

Foto de João Caldas

Foi de Eurípedes (480 a.C.– 406 a.C.) a primeira “Medeia” a que assisti em 1970 com a eterna e memorável Cleyde Yáconis no papel título, dirigida por Silnei Siqueira, no mesmo palco do Teatro Anchieta onde hoje três grandes atrizes dividem o papel de Medea na versão de Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), sob a direção de Gabriel Villela. O mito é o mesmo, mas Sêneca é mais radical e bem mais cruel do que Eurípedes na descrição do furor vingativo de Medea.

Juliana Galdino, Leona Cavalli, Tânia Farias, Bete Coelho e Nicole Cordery foram outras atrizes que interpretaram essa figura mitológica, sem contar Bibi Ferreira que com sua Joana em “Gota D’Água” foi uma das mais poderosas versões da ira e da sede de vingança de Medeia.

O talento de três atrizes se soma à criatividade de Gabriel Villela para apresentar o árido e cruel texto de Sêneca, resultando desde já em um dos mais importantes espetáculos do ano.

Inconformada com o abandono de Jasão, Medea urde e realiza um sanguinário plano de vingança exterminando Creonte, sua filha Creusa (noiva de Jasão) e seus próprios filhos, poupando Jasão para que este viva o luto da perda dos entes queridos.

Rosana Stavis empresta seu enorme talento para interpretar a maior parte do texto, seguida de Mariana Muniz que atua tanto com a voz como com o corpo. Cabe a Walderez de Barros uma cena quase ao final onde ela lê o texto sentada, mas com muita garra e vigor, sendo aplaudida em cena aberta. São interpretações potentes e viscerais onde as atrizes levam quase ao limite o vigor de suas vozes.

Plínio Soares tem uma interpretação propositalmente comedida como a Ama conselheira; Jorge Emil incorpora Jasão com muita emoção e Claudio Fontana, sempre notável, é o poderoso Creonte. Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro encarregam-se do coro que, em certas cenas, tem também a presença de Fontana ou de Emil.

Os figurinos têm a marca registrada do barroquismo de Villela, muito bem complementados pelas máscaras de Shicó do Mamulengo e Junior Soares.

J.C. Serroni prova que beleza não é incompatível com o que se mostra em cena, em um cenário em tons avermelhados que remete a todo sangue resultante da violência e furor de Medea; a luz de Wagner Freire completa o efeito devastador das atitudes da personagem.

A sugestiva trilha sonora é de Carlos Zimbher

“Medea” é um espetáculo sombrio que se junta a outros em cartaz na cidade (“Mulher em Fuga”, “Habitat” e “O Motociclista no Globo da Morte”) para tratar da violência contemporânea que está cada vez mais perto das nossas portas.

Prepare-se para a fúria de Medea!

Em cartaz no Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 08/03/2026. Quintas a sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h. 

Essa foi a peça que escolhi para ser a quinta milésima (5.000ª) da minha vida de espectador apaixonado. A escolha não podia ter sido mais certa. Assisti na estreia, no dia 29/01/2026, junto com pessoas queridas.

VIVA O TEATRO, TEMPLO DA ESPERANÇA E DA UTOPIA! 

03/02/2026

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

PRÊMIO APCA DE TEATRO ADULTO 2025

 


PRÊMIO APCA DE TEATRO ADULTO 2025

Em reunião realizada no Sindicato dos Jornalistas no dia 26 de janeiro de 2026, os críticos da área de teatro adulto da APCA: Bob Souza, Edgar Olímpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, Gabriela Mellão, José Cetra Filho, Kyra Piscitelli, Miguel Arcanjo Prado e Vinicio Angelici; elegeram, por votação, os premiados do ano de 2025:

 

ATOR:  Marcelo Médici – Dona Lola

 

ATRIZ: Paula Cohen – Finlândia

 

DRAMATURGIA: Silvia Gomez – Lady Tempestade


DIREÇÃO: Dinho Lima Flor – Restinga de Canudos


ESPETÁCULO: (Um) Ensaio Sobre a Cegueira


PRÊMIOS ESPECIAIS:

- Programa Persona da TV Cultura que há dez anos reverencia a memória do teatro brasileiro.


- Caetano Vilela por sua trajetória teatral em desenho de luz.





A data da cerimônia de premiação será divulgada oportunamente.

26/01/2026

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

O MOTOCICLISTA NO GLOBO DA MORTE

 

Alguns espetáculos estreados neste início da temporada de 2026 estão testando os nervos e a indignação dos espectadores paulistanos.

Depois do impacto de “Mulher em Fuga” e “Habitat” surge “O Motociclista no Globo da Morte”, uma radiografia vigorosa da violência contemporânea.

O dramaturgo Leonardo Netto cria uma teia procurando (e conseguindo) demonstrar por A mais B que violência gera violência até no mais pacífico dos homens.

Há apenas uma cadeira no palco. O ator Eduardo Moscovis entra em cena, senta e já como personagem inicia o seu solo:

- Antônio. O nome é Antônio. Meu nome é Antônio e eu sou matemático.

E segue seu relato insistindo que é um homem pacífico e até covarde em certas situações.

Antônio pacífico e civilizado vê Antônio bruto e valentão no Bar do Zeca e como um motociclista no globo da morte procura desviar do outro motociclista, mas há um momento em que o embate se torna inevitável e fica difícil distinguir a vítima do algoz.

Antônio revela atônito como cenas de violência tanto com humanos, como com animais atraem as pessoas e sejam sempre vistas como grande entretenimento.

A evolução da ação no texto de Leonardo Netto é precisa e hipnotizante e, auxiliada pela excelente interpretação de Moscovis, mantém a plateia em um silêncio raramente visto em nossos teatros até o desfecho depois de uma hora, onde um longo silêncio surpreendente precede os aplausos que ovacionam o ator.

As pessoas saem da sala pasmas com o que acabaram de presenciar, sempre se questionando sobre sua semelhança com um dos Antônios.

Rodrigo Portella mostra mais uma vez seu talento como encenador burilando a interpretação de Moscovis com algumas pausas que reforçam o texto de Netto. Creio que seja do diretor a sutil mudança realizada na última cena da peça prevista no texto. Cabe lembrar que na peça-filme de Portella “(Re)Play” apresentada virtualmente em 2022 há uma cena de briga em família muito parecida com aquilo que acontece nesta peça.

O que se vê em cena é a união de três talentos (autor, ator e encenador) que resulta em um dos espetáculos teatrais mais potentes dos últimos anos.


O MOTOCICLISTA NO GLOBO DA MORTE está em cartaz no Teatro VIVO até 29/03: sexta e sábado, 20h e domingo, 18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

24/01/2026

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

HABITAT

 


De soco no estômago em soco de estômago o espectador teatral paulistano se enche de indignação e reflete sobre a perversidade da sociedade contemporânea, haja vista os dois espetáculos estreados no final da semana passada: MULHER EM FUGA e HABITAT, ambos escritos pelos jovens dramaturgos Édouard Louis (1992) e Rafael Primot (1982) que não têm medo de colocar a mão na ferida. Ambos procuram (e conseguem) mostrar como rasteja a humanidade.

MULHER EM FUGA foi assunto de matéria publicada em meu blog:

https://palcopaulistano.blogspot.com/2026/01/mulher-em-fuga.html 

HABITAT

Partindo de um fato real ocorrido em um super mercado de São Paulo onde um segurança espancou um cachorro até a morte, Primot coloca em cena uma jornalista e “influencer” que coordena uma ONG voltada à proteção de animais (Fernanda de Freitas), o segurança que matou o cachorro (Rafael Primot) e o gerente do estabelecimento onde houve a ocorrência (Rogério Brito) com uma estrutura dramatúrgica que me remeteu a algumas peças de David Mamet (Race e Hollywood).

A jornalista tem um confronto violento com o segurança esbravejando e ofendendo o homem durante um enorme “bife” (*) com cerca de vinte minutos, ele se defende argumentando que o mandaram  agir daquele modo. Como a revelação desse fato nas redes sociais comprometeu a empresa, o gerente da mesma entra em cena para “dialogar” com a jornalista.

Qual o preço de um ser humano? Por quanto ele se vende? A Senhora Luckerniddle em “Santa Joana dos Matadouros” se vendeu por dez pratos de sopa e esse assunto tão recorrente na obra de Brecht aparece com toda a força neste texto de Primot, desenvolvido de forma exemplar até o desfecho impactante que acontece com as derradeiras falas da jornalista.

É um verdadeiro privilégio para o espectador presenciar o jogo cênico entre o elenco: Rogério Brito empresta seu carisma e sua potente voz para a figura asquerosa e dúbia  do gerente, Rafael Primot se transfigura, tornando-se irreconhecível e feio, usando apenas recursos faciais e corporais e alterações no tom de voz, demostrando mais uma vez que é um dos melhores atores de sua geração e Fernanda de Freitas é uma grata surpresa iniciando a peça exagerando na atuação (a palavra “overacting” em inglês é mais bonita) e mantendo as mesmas fibra e garra até o final do espetáculo.

Suborno, manipulação pelo poder e pelo dinheiro, os perigos das redes sociais, as falsas notícias e o desprezo pelas classes menos favorecidas são alguns dos assuntos que Rafael Primot denuncia em seu denso espetáculo.

Lavínia Pannunzio e Eric Lenate dirigem o espetáculo discretamente focando a atenção no trabalho do elenco. O cenário de Lenate tem ventiladores que giram lentamente durante toda a apresentação e eles parecem ser as testemunhas mudas da violência que ocorre em cena.

Um potente espetáculo.

Cartaz do Teatro Estúdio às terças, quartas e quintas às 20h. 

(*) Jargão teatral para uma longa intervenção de uma personagem, sem a interrupção de outra personagem que também está em cena. 

20/01/2026