quinta-feira, 21 de maio de 2026

SETE MINUTOS

 

“Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem essa é

a primeira experiência teatral e outras para quem essa

será a última.”

(Ariane Mnouchkine) 

O texto de Antonio Fagundes é uma declaração de amor ao teatro e ao respeito e interação que deve haver entre o elenco e o público.

Os primeiros quinze minutos da peça mostram o incômodo e até a revolta da personagem do velho ator (Norival Rizzo) que representava MacBeth e interrompeu o espetáculo diante das atitudes do público como querer entrar atrasado na plateia após o espetáculo já ter iniciado, desembalar bala ruidosamente, atender o celular, se espreguiçar e até tirar os sapatos. Ele expõe seus sentimentos para um jovem ator (Conrado Sardinha) e para a produtora (Natália Beukers) que tentam pôr panos quentes na situação.

Como todo espectador que também vê o teatro como um espaço sagrado, não há como não se solidarizar com as queixas do ator.

Esses quinze minutos são o cerne da peça de Fagundes e sua parte mais brilhante, depois disso a ação apresenta a reação do público diante da interrupção do espetáculo pelo ator, entrando em cena uma mulher queixosa que chegou um minuto atrasada e foi impedida de entrar (Ana Andreatta), um senhor que vinha a um “show-teatro” pela primeira vez e viu o mesmo interrompido (Walter Breda) e um guarda (Fábio Esposito) que vê como missão descobrir se é o público ou o ator quem está com a razão. Esta segunda parte recai em uma comédia sem trazer maiores novidades para a trama, além de incluir cenas que parecem estar ali para aumentar a duração da peça, como as digressões do ator sobre a origem do teatro (Tespos), a história sobre um espetáculo de Martha Graham onde uma senhora do público chorou copiosamente contada pelo jovem ator e o longo monólogo do velho ator quase ao final do espetáculo, que resvala para uma melodramaticidade desnecessária.

A jovem Natália Beukers mostra-se corajosa e eficiente ao produzir o espetáculo contando com importantes profissionais como Fábio Namatame (cenário e figurinos), Domingos Quintiliano (design de luz), Jonatan Harold (música original e sonoplastia) e o próprio Antonio Fagundes na direção.

Os veteranos Norival Rizzo e Walter Breda (este apesar da pequena participação) brilham em cena e estão muito bem acompanhados pelos jovens Conrado Sardinha e Natália Beukers. Completam o elenco Fábio Esposito que exagera na truculência do policial e Ana Andreatta numa engraçada composição como a mulher estressada.

É importante mostrar no teatro o imediatismo que hoje existe onde as pessoas não têm mais paciência de ler um longo texto, ou de assistir uma obra mais longa, seja no cinema ou no teatro, sem consultar o celular para saber se a empregada já deu semente de girassol para o papagaio. Que a peça sirva de lição para aqueles que assim agem.

Teatro é um solo sagrado, vamos respeitar!! 

SETE MINUTOS está em cartaz no Teatro Cultura Artística até 1º de agosto. Sexta e sábado 20h / Domingo 18h

IMPERDÍVEL PARA QUEM AMA O TEATRO!


21/05/2026

domingo, 17 de maio de 2026

SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR

 

BETH CONTA CLARICE EM TEMPO DE DELICADEZA

 

        Intercalando falas de Clarice Lispector com trechos de suas obras, Beth Goulart construiu a dramaturgia deste raro recital onde a atriz apresenta a biografada com muita sensibilidade e delicadeza.

        A prosa de Lispector é cheia de nuances e filigranas, nem sempre detectadas em um primeiro contato; Beth consegue a proeza de traduzir essa prosa, que também é poesia, de forma clara e precisa embalando o público no universo “lispectoriano”.

        O cenário muito claro de Ronald Teixeira e Leobruno Gama é composto de uma enorme cortina de tiras que ocupa toda a volta do palco, uma cadeira e um sofá e é belamente iluminado com o usual talento de Maneco Quinderé.

        Dias atrás comentei sobre a problemática solução encontrada em um espetáculo, para a troca de figurinos das atrizes. Neste trabalho a troca de figurinos de Beth é uma verdadeira obra de arte. Sutilmente ela se dirige a um ponto da cortina e deixa elementos, retirando outros que elegantemente veste em cena sem quebrar o clima de encantamento.

        Beth Goulart é uma grande atriz que honra a herança recebida de seus pais Nicette e Paulo e é com muito talento que ela interpreta e dirige esse belíssimo espetáculo que tem supervisão artística de Amir Haddad. É muita gente boa reunida!!

        Esse trabalho foi concebido e apresentado há 17 anos, quando ganhou vários prêmios e o bonito, é que ele mantém o frescor e a mesma qualidade da estreia.

        A peça está em cartaz no Teatro Moise Safra (não confundir com o Teatro J. Safra) com capacidade para 420 espectadores e estava completamente lotado na sessão de ontem (16/05), onde as 420 pessoas presentes ovacionaram emocionadas a apresentação de Beth, que ao final ainda reforçou as ideias de Clarice e as suas próprias sobre a importância do amor, da espiritualidade e da humanidade na vida dos seres humanos.

        Grande lição de vida a ser prestigiada por todos aqueles que, como dizia Anne Frank, apesar de tudo ainda acreditam na bondade humana.

        Em cartaz até 13/06. Sessões sexta, 20h / sábado e domingo, 19h.

        17/05/2026

 

 

       

sexta-feira, 15 de maio de 2026

AS CENTENÁRIAS

 

        1 – A primeira montagem

Em 2009, apesar da excelência do autor (Newton Moreno), do diretor (Aderbal Freire Filho) e das atrizes (Andrea Beltrão e Marieta Severo) para mim algo não funcionou e sai do espetáculo frustrado quando vi a expectativa de ver esse quarteto de ouro não ser correspondida. O espetáculo fez muito sucesso e agradou a maioria das pessoas e, talvez, eu não estivesse em um bom dia para usufruir do mesmo. 

2 – Pura delícia

Quase dezessete anos depois Juliana Linhares teve a ideia de fazer um musical com a peça e o resultado é essa delícia ora em cartaz no SESC Bom Retiro.

Chico Cesar musicou letras escritas por Moreno, escreveu algumas letras e aproveitou “incelenças” que já constavam do original e o resultado é uma bela partitura muito bem dirigida e arranjada por Elisio Freitas. Um quarteto de músicos acompanha toda a encenação.

O texto de Moreno parece ter ganho um frescor com o reforço na gaiatice das personagens, algo muito valorizado por Laila Garin (Socorro), Juliana Linhares (Zaninha) e o músico Leandro Castilho em diversos papeis. Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto são referências muito bem-vindas nesta obra do dramaturgo e não há como não lembrar de João Grilo e Chicó na relação e nas atitudes das duas carpideiras, assim como na aparição de Nossa Senhora em “O Auto da Compadecida” na hilária cena em que Socorro se veste de Deus para salvar Zaninha da morte. Longe de imitação, trata-se de inspiração que valoriza ainda mais a obra desse grande autor.

Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do memorável “Vau de Sarapalha”, mais uma vez acerta acentuando o humor do texto e valorizando o trabalho do elenco, auxiliado pela parte musical já citada acima, pela movimentação das atrizes orquestrada por Vanessa Garcia, pela cenografia discreta, mas eficiente de Aurora dos Campos, iluminada por Elisa Tandeta e os figurinos (Kika Lopes e Heloisa Stockler), incluindo os crochets de Juliana Martins.

Se há um senão, e sempre há um senão, fica por conta das mudanças de figurino das atrizes de uma cena para outra, sempre realizadas da mesma forma com elas na penumbra, enquanto o conjunto toca uma música até elas estarem prontas e entrarem em cena novamente. Essas interrupções quebram momentaneamente o encanto do espetáculo e talvez pudessem ser realizadas de forma mais criativa.

O teatro brasileiro fica em festa com um espetáculo como esse, sentindo-se forte e valorizado.

Viva o teatro brasileiro! 

AS CENTENÁRIAS está em cartaz no SESC Bom Retiro até 14 de junho de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h.

O teatro é pequeno para comportar espetáculo tão bom e de forte apelo popular, por isso CORRA para adquirir o seu ingresso.

15/05/2026

 

 

 

 

 

 

domingo, 10 de maio de 2026

NA SALA DOS ESPELHOS

 

1 – Um voto tardio/Antes tarde do que nunca.

Quando os jurados da APCA da categoria teatro se reuniram para fazer as indicações do segundo semestre de 2025 ao analisarem os nomes das atrizes, aquele de Carolina Manica surgiu com muita força e bastante elogiado por boa parte do grupo pelo seu trabalho em “Na Sala de Espelhos”. Infelizmente, eu não tive a oportunidade de assistir ao espetáculo e na hora da votação, obviamente não pude votar em Carolina e ela recebeu a indicação junto com outra duas atrizes. Fiquei com muita vontade de assistir ao seu trabalho, mas a peça já não estava mais em cartaz.

Meses depois, na noite de ontem, tive a chance de assistir “Na Sala dos Espelhos” e comprovar o imenso talento de Carolina na interpretação daquela mãe que põe em xeque as aparências dela e de sua filha Nina. Aqueles colegas da APCA que votaram nela estavam certos e, embora tardiamente, meu voto também é para ela.

2 – O espetáculo

A peça é uma adaptação das diretoras Michelle Ferreira e Maira De Grandi do livro homônimo da quadrinista sueca Liv Strömquist (1978-) e a encenação não nega sua origem em uma história em quadrinhos. A iluminação cheia de nuances do premiado Caetano Vilela e os figurinos de Fábio Namatame colaboram para o bom resultado da encenação onde o foco principal é o trabalho da atriz.

Numa interpretação onde a expressão corporal tem a maior importância, a atriz dialoga em perfeita sintonia com a poderosa trilha sonora criada por Ava Rocha e Grisa. A movimentação cênica de Carolina na primeira parte da peça é de tirar o fôlego do público.

Quando parece que todas as surpresas tinham sido postas em cena, a atriz aparece como a rainha má da Branca de Neve e, mais uma vez, dá um show na frente do espelho ao perguntar várias vezes a ele “Diga, espelho meu, existe neste reino alguém mais bela do que eu?”

O tempo passa para todas as personagens e a peça termina de forma emocionante, do mesmo modo como acaba para todos nós.

A ovação do público ao final é prova da beleza desse espetáculo e do talento de Carolina Manica.

Neste domingo é a última apresentação na cúpula do Theatro Municipal, mas fique atento que ele pode voltar em outro espaço. 

10/05/2026

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O HOMEM DECOMPOSTO

 

Foto de Nil Caniné

“Que obra de arte o homem é”

(William Shakespeare) 

         A metáfora do espelho quebrado usada pelo dramaturgo romeno/francês Matéi Visniec (1956-) para comentar essa peça é muito oportuna. Realmente ele estilhaça/decompõe o ser humano e o revela impiedosamente por meio de seus cacos. Esses cacos humanos resultaram em cenas curtas que integram o texto.

        O encenador Ari Coslov recolheu alguns desses cacos e os mostra nesse belo espetáculo vindo do Rio de Janeiro e recém estreado no SESC Pinheiros. Ele deixa atrizes e atores à vontade em um palco nu, mas muito bem iluminado por Aurélio de Simoni, para brilharem, quer em solos, quer em cenas de conjunto, por meio de seus talentos e suas incríveis movimentações em cena dirigidas por Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

        A peça inicia com uma reconstituição, a meu ver irônica, mas muito bela da "Santa Ceia" de Leonardo Da Vinci e segue com a apresentação dos cacos humanos, sendo o primeiro aquele do homem que se refugia em um círculo, clara referência ao doentio individualismo que tomou conta da nossa espécie. Mario Borges defende com paixão esse personagem.

        E as cenas se sucedem com excelentes intervenções de Júnior Vieira (invejável dicção), Marcelo Aquino (ótimo como o homem que não consegue parar de correr), Andrea Dantas (estreando em São Paulo, substituindo brilhantemente Guida Vianna) e Dani Barros, de quem os palcos paulistanos estavam sentindo muito a sua falta.

Assistir a Dani Barros contando a história das borboletinhas carnívoras é uma prova de que os seres humanos são verdadeiramente uma obra de arte e, como tal, criam outras pérolas de arte.

Cabe notar, porém, que esse mesmo ser humano é capaz de ações terríveis, tal como mostra este espetáculo.

Cruel e mordaz em sua crítica aos desmandos do homem, mas repleto de toques de humor, “O Homem Decomposto” é mais uma prova que a obra de Visniec é cada vez mais necessária e prova também a qualidade de espetáculos cariocas que chegam até aqui.

O HOMEM DECOMPOSTO está em cartaz até 06/06 no SESC Pinheiros de quinta a sábado às 20h30.

IMPERDÍVEL! 

08/05/2026

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MADAME BLAVATSKY – AMORES OCULTOS

 

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”

(Shakespeare em “Hamlet”)

Já há alguns anos Mel Lisboa vem atuando nesse monólogo e só agora tive a oportunidade de assistir a esse belo trabalho que deveria ter merecido muitos prêmios na ocasião de sua estreia, mas nunca é tarde para elogiar a rigorosa composição de Helena Petrovna Blavatskaya (1831-1891), conhecida por Madame Blavatsky, criada por Mel.

Em recurso dramatúrgico bastante interessante, a autora Claudia Barral, levando em conta a mediunidade de Madame Blavatsky, coloca em cena uma atriz que por meio de uma incorporação mediúnica recebe Madame, que passa a revelar ao público fatos de sua vida e de seu pensamento.

Poucas vezes a frase de Shakespeare em epígrafe casou tão bem com um espetáculo.

Marcio Macena é o diretor do espetáculo e  João Pimenta assina o sugestivo figurino vestido pela atriz.

Mel transita de uma a outra personagem de maneira criativa, mostrando sua versatilidade em cena; para reforçar este fato basta citar que há poucos metros dali (Teatro Porto) ela incorpora Rita Lee há mais de um ano.

Nosso teatro precisa de atrizes com esse talento.

Parabéns Mel!! 

MADAME BLAVATSKY está em cartaz no Teatro Estúdio às segundas e terças às 20h no Teatro Estúdio.

NÃO DEIXE DE VER! 

07/05/2026


 

terça-feira, 5 de maio de 2026

MOMENTOS DA CERIMÔNIA DE ENTREGA DO PRÊMIO APCA 2025


MOMENTO NOBRE 

O Teatro de Contêiner Mungunzá foi premiado na categoria arquitetura por sua RESISTÊNCIA URBANA.

O grupo recebeu o prêmio com um protesto belíssimo e elegante sobre o despejo do Contêiner, digno de outro prêmio.

Um garoto, filho de Marcos Felipe e Sandra Modesto iniciou os agradecimentos, complementados por Sandra.

PARABÉNS MUNGUNZÁ!! E RESISTAM...


MAIS UM MOMENTO NOBRE 

Haisem Abaki foi premiado na categoria rádio e seu agradecimento foi acompanhado por um coro apaixonado do público: FICA ELDORADO!!!

Emocionante.


MOMENTO BOTIJA

 Os queridos Jhoao Junnior e Maria Alencar recebendo o prêmio APCA na categoria teatro infanto-juvenil pelo delicioso espetáculo A BOTIJA, um pequeno inventário de histórias fantásticas do Nordeste Brasileiro.

PARABÈNS!!! 


MAIS UM MOMENTO 

A cerimônia iniciou com a premiação da categoria televisão e o primeiro prêmio foi para Lima Duarte com o “Troféu especial 75 anos da TV brasileira”.

O grande Lima Duarte foi ovacionado de pé quando entrou no palco e iniciou um discurso sobre sua trajetória desde a infância. Premidos pelo tempo Barbara Salomé e Daniel Warren tentavam timidamente interromper o ator que se recusava a parar. Com a ajuda dos aplausos da plateia o discurso foi interrompido nos anos 1950, quando ele entrava na televisão. Se deixasse, Lima varava a noite até chegar nos seus atuais 95 anos.

Grande presença!


OUTRO MOMENTO 

Discreto e elegante Ney Matogrosso recebeu o Grande Prêmio da Crítica na categoria música popular.

Merecidamente muito aplaudido! 


O MOMENTO TEATRO 

E aqui fotos dos premiados na categoria TEATRO da qual faço parte como jurado.

PARABÉNS a essa turma linda que engrandece essa arte apaixonante.

Viva Silvia Gomez, Dinho Lima Flor, Marcelo Medici, Paula Cohen, Grupo Galpão, Programa Persona e Caetano Vilela.

Silvia Gomez
Dinho Lima Flor
Marcelo Medici
Paula Cohen
Grupo Galpão - Fernanda Vianna
Persona - Atilio Bari
Caetano Vilela