Há pitadas de “As Fúrias” de Rafael
Alberti, de “A Casa de Bernarda Alba” de Garcia Lorca e das tragédias cariocas
de Nelson Rodrigues, mas também muita originalidade e criatividade na trama
criada pelo autor maranhense Ueliton Rocon sobre três carpideiras conservadoras
(mas nem tanto...) atuando no velório de uma moça despudoradamente vestida com
roupas vermelhas.
Angústia, Astúcia e Prudência procuram
realizar suas funções rezando e chorando diante do esquife, mas não se furtam de
observar e comentar sobre a família da falecida e as pessoas presentes no
velório. Aos poucos os desejos reprimidos dessas mulheres vêm à tona até um
final epifânico para elas.
A encenação poderia resvalar para a
caricatura e o deboche, mas a direção de Tom Pires conduz o espetáculo para
caminhos muito mais sóbrios e interessantes. Utilizando-se de trilha sonora de
Philip Glass e conduzindo uma belíssima direção de movimento do elenco ele
confere dignidade ao resultado final.
Digna de nota a bela iluminação
desenhada por Eduardo Salina e operada por Arnaldo D’Ávila que emoldura toda a
ação.
O cenário de Sidcley Batista é formado
apenas por cinco ou seis caixotes que, manipulados pelos atores, vão adquirindo as formas necessárias para a
ação.
Bonitos e discretos os vestidos cor de
terra criados por Leandro Mariz.
O elenco masculino brilha sem afetação
no papel das três mulheres.
Sidcley Batista mostra severidade na
composição de Prudência, sendo a última a ceder aos imperativos da luxúria,
Gerson Lobo representa Angustia, a mais doce e indecisa das três mulheres e
Leandro Mariz como Astúcia tem ares de safada desde o início da história,
desencadeando a seguir o tsunâmi carnal por tantos anos reprimido dessas três
pobres mulheres.
Um bravo aos três atores pernambucanos
por esse belo trabalho e um especial ao Gerson Lobo por trazê-lo aos palcos
paulistanos.
AS BONDOSAS está em cartaz no Galpão do Folias: sexta, 20h / sábado, 18h e 20h / domingo, 18h
04/07/2026



















