Foi de Eurípedes (480 a.C.– 406 a.C.)
a primeira “Medeia” a que assisti em 1970 com a eterna e memorável Cleyde
Yáconis no papel título, dirigida por Silnei Siqueira, no mesmo palco do Teatro
Anchieta onde hoje três grandes atrizes dividem o papel de Medea na versão de Sêneca
(4 a.C. – 65 d.C.), sob a direção de Gabriel Villela. O mito é o mesmo, mas
Sêneca é mais radical e bem mais cruel do que Eurípedes na descrição do furor
vingativo de Medea.
Juliana Galdino, Leona Cavalli, Tânia
Farias, Bete Coelho e Nicole Cordery foram outras atrizes que interpretaram
essa figura mitológica, sem contar Bibi Ferreira que com sua Joana em “Gota
D’Água” foi uma das mais poderosas versões da ira e da sede de vingança de
Medeia.
O talento de três atrizes se soma à
criatividade de Gabriel Villela para apresentar o árido e cruel texto de Sêneca,
resultando desde já em um dos mais importantes espetáculos do ano.
Inconformada com o abandono de Jasão,
Medea urde e realiza um sanguinário plano de vingança exterminando Creonte, sua
filha Creusa (noiva de Jasão) e seus próprios filhos, poupando Jasão para que
este viva o luto da perda dos entes queridos.
Rosana Stavis empresta seu enorme
talento para interpretar a maior parte do texto, seguida de Mariana Muniz que atua
tanto com a voz como com o corpo. Cabe a Walderez de Barros uma cena quase ao
final onde ela lê o texto sentada, mas com muita garra e vigor, sendo aplaudida
em cena aberta. São interpretações potentes e viscerais onde as atrizes levam
quase ao limite o vigor de suas vozes.
Plínio Soares tem uma interpretação propositalmente
comedida como a Ama conselheira; Jorge Emil incorpora Jasão com muita emoção e
Claudio Fontana, sempre notável, é o poderoso Creonte. Letícia Teixeira e
Gabriel Sobreiro encarregam-se do coro que, em certas cenas, tem também a
presença de Fontana ou de Emil.
Os figurinos têm a marca registrada do
barroquismo de Villela, muito bem complementados pelas máscaras de Shicó do
Mamulengo e Junior Soares.
J.C. Serroni prova que beleza não é
incompatível com o que se mostra em cena, em um cenário em tons avermelhados
que remete a todo sangue resultante da violência e furor de Medea; a luz de
Wagner Freire completa o efeito devastador das atitudes da personagem.
A sugestiva trilha sonora é de Carlos
Zhimber
“Medea” é um espetáculo sombrio que se
junta a outros em cartaz na cidade (“Mulher em Fuga”, “Habitat” e “O
Motociclista no Globo da Morte”) para tratar da violência contemporânea que
está cada vez mais perto das nossas portas.
Prepare-se para a fúria de Medea!
Em cartaz no Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 08/03/2026. Quintas a sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h.
Essa foi a peça que escolhi para ser a quinta milésima (5.000ª) da minha vida de espectador apaixonado. A escolha não podia ter sido mais certa. Assisti na estreia, no dia 29/01/2026, junto com pessoas queridas.
VIVA O TEATRO, TEMPLO DA ESPERANÇA E
DA UTOPIA!
03/02/2026










