domingo, 26 de abril de 2026

AS PALAVRAS DA NOSSA CASA E A VILA SECRETA

 

Foto de Hernani Rocha

O que seria do teatro e das artes em geral se não houvesse os loucos que investem a própria alma para realizarem os seus sonhos abrindo assim novos horizontes para nossa tão destratada cultura.

Adriana Câmara é uma dessas loucas que desde 2017 vem realizando seus espetáculos imersivos/itinerantes que já circularam pela Oficina Cultural Oswald de Andrade, Casa das Rosas, Vila Itororó, Theatro Municipal e Hotel San Raphael. Desta vez o local escolhido foi a mansão existente dentro da Vila Secreta, um oásis dentro do emaranhado de casas e prédios no sobe e desce montanhoso da Aclimação.

A Vila Secreta é um espaço surpreendente que nos transporta para o São Paulo colonial do século XVIII graças a um capricho do colecionador Raful de Raful (mais um louco) que construiu no vasto quintal de sua casa uma vila, utilizando material original da época. A visita é um mergulho delicioso ao passado da cidade e inclui um museu com toda a coleção de objetos de Raful, harmoniosamente distribuídos pela Vila. O simpático Victor Raful (outro louco), neto do colecionador, mantém a casa e conduz a visita ao local. O público que vai assistir à peça tem essa visita como um gratificante bônus, mas as visitas guiadas podem ser reservadas no site https://vilasecreta.com.br

Vila Secreta fica na Rua Rubi, 50 na Aclimação.

Após a bela visita, o público de apenas 18 pessoas adentra o casarão onde vai acontecer “As Palavras de Nossa Casa”.

As personagens Eva (Adriana Câmara) e seu marido Victor (Glau Gurgel) já estão em cena, ou melhor, na sala de sua casa aguardando a chegada de Charlotte, cantora famosa, mãe de Eva (Gizelle Menon), há muito tempo distante da filha.

O texto elaborado em conjunto pelo elenco inspira-se em alguns filmes de Ingmar Bergman, principalmente “Sonata de Outono” que mostra os acertos de contas entre mãe e filha por meio de um embate onde ódio e amor se chocam a cada instante.

Por meio de uma encenação realista, Adriana dirige a cena focada na interpretação do elenco (do qual ela faz parte) fazendo o público cúmplice e participante do que está acontecendo. Em vários momentos se sente vontade de intervir nas ações das personagens.

Percorrendo os vários cômodos da casa e subindo e descendo várias vezes as escadas o público acompanha com emoção os dramas dessa família. A simpática e gentil Letícia Alves monitora o deslocamento do público pelos diversos ambientes onde ocorrem as ações.

Glau Gurgel tem uma participação discreta, mas muito boa, como o pastor marido de Eva. Adriana e Gizelle incumbem-se com muita garra dos papeis da filha e da mãe.

Espetáculo muito especial assistido apenas por 18 privilegiadíssimos espectadores a cada sessão. Por isso CORRA para reservar um lugarzinho na mansão de Eva e Victor.


Os privilegiados de 25/04/2026

A peça encerrou uma temporada mais que relâmpago no sábado, dia 25 de abril, mas a boa notícia é que já há algumas sessões agendadas:

- 31/05 – 15h – ESGOTADO

- 31/05 – 18h – ESGOTADO

- 27/06 – 15h e 18h – INGRESSOS DISPONÍVEIS

Adriana Câmara está negociando datas para julho e agosto com Victor Raful, da Vila Secreta, mas ainda é incerto, por isso procure garantir o seu ingresso nas sessões já agendadas.

 

Vendas por este link:

https://www.sympla.com.br/produtor/vilasecretasp

Mas, se já tiverem esgotado os ingressos, a pessoa interessada pode preencher nossa lista de espera que avisaremos quando marcarmos outras sessões:

https://forms.gle/wiuK2JK1HUad76u88 

26/04/2026

 

 

 

 

 

sábado, 25 de abril de 2026

A LINHA SOLAR

 

      “Nós vamos discutir a noite toda e os dois vão ter razão, eu e você”

Casal acertando contas e discutindo calorosamente a relação é tema recorrente na dramaturgia contemporânea. Desde “Quem Tem Medo de Virginia Woolf” de Edward Albee várias foram as peças que trataram do assunto, sendo “Finlândia” de Pascal Rambert, o último bom exemplo que chegou aos palcos paulistanos. Na dramaturgia brasileira vale destacar “Mão na Luva” de Oduvaldo Vianna Filho que termina com a emblemática frase citada em epígrafe e o memorável      “De Braços Abertos” de Maria Adelaide do Amaral.

Agora chegou a vez dessa pérola intitulada “A Linha Solar” escrita pelo dramaturgo russo Ivan Viripaev (1974 -) e muito bem traduzida para o português por Elena Vássina e Aimar Labaki com diálogos ágeis e cortantes, um verdadeiro ping pong verbal que Carol Gonzalez e Chico Carvalho defendem com unhas e dentes. Outro grande mérito do texto, mantido na encenação, é a presença do humor, mesmo que no todo a cena seja densa e trate de assunto muito sério.    

O casal Barbara e Werner discute exaustivamente sobre o lado bom e o lado ruim de cada um e na visão deste espectador é a linha solar do título que divide metaforicamente esses lados.

A beleza da encenação de Marcelo Lazzaratto deve muito ao sofisticado desenho de luz assinado por ele que reforça e complementa aquilo que se passa em cena e também à dinâmica movimentação dos intérpretes realizada em boa parte sobre cadeiras com rodinhas, cujo resultado é quase um balé sobre oito rodas!! Louve-se também a direção de arte creditada a Simone Mina e a assistência de direção de Marina Vieira, que segundo eu soube, muito contribuiu com o trabalho de Lazzaratto.

Fotos de Bob Sousa

O que seria de tudo de isso se não tivéssemos elenco à altura? Carol Gonzalez interpreta Barbara com raiva e paixão sempre com um toque de ironia e humor e Chico Carvalho é brilhante (a personagem Barbara diz que Werner é um diamante!!) na composição de Werner somando este memorável trabalho a tantos outros que já realizou; seu “gestus” em cena e a perfeita dicção são uma aula de teatro para quem deseja se enredar na profissão de ator ou atriz.

Cabe lembrar o mérito de Carol Gonzalez por ter descoberto esse texto de Ivan Viripaev e idealizado o projeto e produzido a encenação.

O “maestro” Lazzaratto rege toda essa “orquestra” com rara sensibilidade oferecendo ao público um espetáculo que já se inscreve entre os melhores do ano. 

A LINHA SOLAR está em cartaz no CCBB/ São Paulo de 24/04 a 17/05. Quintas, sextas e segundas 19h / Sábados e domingos 18h.

NÃO PERCA!!! 

25/04/2026

segunda-feira, 20 de abril de 2026

TRAVESSIA

 

Foto do elenco de Bob Souza

É inegável a beleza cênica de “Travessia”. As cenas de conjunto fazem jus e transcendem a grandeza do quadro “A Balsa Medusa” do pintor francês Géricault (1791-1824) com os movimentos do elenco belamente coreografados por Reinaldo Soares.

Duas premissas da encenação de Gabriela Mellão são muito louváveis: a primeira é se valer de culturas diversas na formação do elenco (além dos brasileiros há a presença de africanos e outros latino americanos) e a segunda é relacionar o naufrágio mostrado no quadro de Géricault com a situação de imigrantes que fogem de seus países em embarcações sem segurança.

Completam esses lados positivos da encenação a iluminação sempre “luminosa” de Aline Santini, a discreta cenografia de Camila Schmidt se utilizando de lençóis esvoaçantes, a trilha sonora de Federico Puppi e a excelência do elenco do qual fica difícil fazer algum destaque, mas sempre fazendo lembrar de Vitor Britto, Prudence Kalambay, Mariama Bintu Bah e Miriam Rinaldi.

Gabriela Mellão rege todos esses elementos com mão de mestre e criou a dramaturgia a partir de uma criação coletiva com o elenco e aí talvez esteja o maior problema da encenação, pois com todos os aspectos positivos citados acima o espetáculo poderia ter resultado muito melhor não fosse a dramaturgia bastante prejudicada pelo excesso de referências e pela falta de costura entre cenas isoladas que são belas, mas que destoam do todo e fogem da premissa da encenação. Para este espectador esses fatos alongam desnecessariamente o espetáculo e dão uma sensação de incompreensão do todo.

TRAVESSIA está em cartaz no SESC Belenzinho até 03/05. Quinta a sábado, 20h. Domingo e feriado, 18h30. 

20/04/2026

domingo, 19 de abril de 2026

OLEANNA

 

“Qualquer que seja o lado que você fique, você está errado”

(David Mamet)

Em primeiro lugar louve-se a qualidade do texto do dramaturgo norte-americano David Mamet (1947 -) escrito em 1992 que, por meio de diálogos ágeis e consistentes, nos mostra o embate entre John, um professor universitário muito seguro de si e Carol, uma aluna de classe social inferior que está com dificuldades em acompanhar o curso.

Na primeira parte da trama o professor vale-se de sua retórica e, detentor do poder naquele momento, procura manipular a jovem em função da inferioridade (intelectual e de classe) que vê nela.

Na segunda parte, Carol sentindo-se humilhada e assediada pelo professor o denuncia por elitismo, sexismo e até assédio físico fazendo com que ele possa perder as possibilidades de uma promoção; agora é ela que detém o poder, enquanto ele tenta convencê-la a retirar a denúncia.

Esse ping pong de poder e de argumentos é o cerne da peça levando o espectador a cada momento,  dar razão a um dos lados, fazendo valer o pensamento de Mamet em epígrafe.

O jogo entre as personagens proposto pelo autor é complexo e exige intérpretes de alto nível e isso é o que não falta a Velson D’Souza e Juliana Gerais que se entregam de forma brilhante ao embate. O espectador tem o privilégio de apreciar tanto a personagem que tem a vez de falar como as reações daquela que a escuta. Momentos mágicos que só a arte teatral tem o dom de oferecer.

Daniela Stirbulov, uma jovem encenadora que já havia surpreendido em “O Mercador de Veneza”, reitera seu talento com uma direção enxuta totalmente focada na interpretação realista de Velson e Juliana, cuja proximidade com o público cria um clima de cumplicidade com o mesmo.

O cenário (Carmem Guerra) e os adereços (Rebeca Oliveira) também de cunho realista se fantasiam um pouco com a iluminação mais impressionista de Fran Barros.

Todos esses fatores colaboram para tornar esta montagem de “Oleanna”, um dos pontos altos da temporada teatral paulistana de 2026.

Curiosidades:

1 - Por que “Oleanna”? David Mamet retirou o título de uma canção folclórica norueguesa que recebeu letras em inglês de Pete Seeger e que fala de Oleanna, um lugar onde a utopia seria possível.

2 – A peça teve duas montagens importantes apresentadas nos palcos paulistanos: em 1996 com Antonio Fagundes e Mara Carvalho dirigidos por Ulysses Cruz e em 2015 dirigido por Gustavo Paso com Luciana Fávero como Carol e Miwa Yanagizawa/Walter Breda revezando-se no papel do professor.

3 – A versão cinematográfica dirigida pelo autor data de 1994 tendo William H. Macy e Debra Eisenstadt como intérpretes 

OLEANNA está em cartaz no Espaço Convivência do Teatro Vivo até 07 de junho. Sexta e sábado 20h e domingo 18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

19/04/2026

 

domingo, 5 de abril de 2026

A HORA DO BOI

 

 

Eh, oh, oh, vida de gado / Povo marcado, eh! / Povo feliz!

(Zé Ramalho) 

Citando Zé Ramalho, Guimarães Rosa, Chico Buarque, São Francisco de Assis, Euclides da Cunha e até Baudelaire, a dramaturga carioca Daniela Pereira de Carvalho criou esta bela fábula sobre o afeto que nasce entre Seu Francisco, um homem rude que trabalha em um abatedouro, e o boi Chico.

A peça tem alguma semelhança com “Cachorro Enterrado Vivo”, outra obra exemplar de Daniela, que colocava em cena o cachorro Paulo César em situação limite de abandono. Aqui a presença é do boi Chico prestes a ser abatido por seu melhor amigo. As duas peças são monólogos onde os atores representam os animais e os seres humanos com quem se relacionam. Este fato exige uma forte presença física do intérprete, assim como expressão corporal que revele o corpo e o gestual do animal. Leonardo Fernandes brilhava em “Cachorro”, assim como Vandré Silveira em “A Hora o Boi”.

Vandré Silveira, ator pouco conhecido em São Paulo, é um monumento em cena. Vestindo um figurino ao mesmo tempo rústico e sensual de autoria de Carlos Alberto Nunes, Vandré desdobra-se na interpretação das três personagens. Pequenas alterações no gestual, na voz e, principalmente, no olhar situam o público qual a personagem que está em cena.


Trabalho impecável de atuação que vai dar trabalho aos jurados de prêmios, haja vista a quantidade de interpretações masculinas marcantes surgidas no primeiro trimestre deste ano.

A direção de André Paes Leme foca toda sua atenção no trabalho do ator e  faz o público viajar com Seu Francisco, Chico, São Francisco de Assis e Rosa pelo abatedouro, pelos campos e pelo santuário em um palco quase nu.

Espetáculo simples na confecção, mas poderosíssimo na imaginação de cada um e na mensagem apresentada sobre a relação do homem com outras formas de vida. Grande mérito da autora, do diretor e mais do que tudo do ator Vandré Silveira, do qual espera-se que esteja cada vez mais presente nos palcos paulistanos.

A montagem recebeu indicações e prêmios em sua longa temporada no Rio de Janeiro e deverá repetir esses feitos nesta mais que bem-vinda temporada em São Paulo.

A HORA DO BOI está em cartaz no Ágora Teatro até 26/04. Sexta e sábado, 20h e domingo 19h.

NÃO PERCA essa chance de conhecer o texto de Daniela e presenciar o trabalho do grande ator Vandré Silveira.

 

05/04/2026


sábado, 4 de abril de 2026

MINHA ESTRELA DALVA

 

“Este amor quase tragédia/Que me fez um grande mal”

Fim de Comédia

ERA UMA VEZ...

- DALVA E EU

Quando era pequeno eu ouvia minha mãe cantar umas músicas junto com uma voz muito bonita que ela ouvia no rádio, com o tempo aprendi a cantar junto com mamãe e achava engraçado uma da qual eu não entendia quase nada da letra, mas era aquela que eu mais gostava. A música era “Kalu”, a cantora Dalva de Oliveira.

O tempo passou, cresci, mas aquela voz ficou guardada lá no fundo da minha memória.

No início dos anos 1970, ao pesquisar canções das décadas de 1930 a 1950, a chamada idade de ouro do rádio brasileiro, para a trilha de uma peça que eu estava dirigindo, tive o impacto de voltar a ouvir Dalva de Oliveira (1917-1972). Foi paixão instantânea e eu era olhado com certa desconfiança pelos meus engajados companheiros do grupo de teatro que achavam aquele tipo de música ultrapassada, cafona e reacionária.

Fui atrás da obra de Dalva, cheia de canções passionais, calúnias, males de amor e perdas que refletiam a sua vida cheia de lances dramáticos. Queria assistir a um de seus shows que nesta fase já não eram constantes. Dalva já não tinha muita saúde e se mostrava bastante debilitada. Seu último show em São Paulo foi no extinto “Teatro Veredas” que ficava numa travessa do Largo do Arouche. Não tive a oportunidade de assistir e a querida Dalva partiu logo depois.

Adquiri todos os vinis de Dalva, aprendi as letras sofridas de todas as canções que ela interpretava e sempre que possível as cantava com minha voz desafinada. Até minha mãe um dia se surpreendeu ao me ouvir cantar “Kalu, Kalu, tira o verde desses oios di riba d eu”.

Enquanto escrevo estas linhas, ouço Dalva cantando “Ave Maria no Morro” e mais uma vez me emociono até as lágrimas. Que voz! Quanta paixão e quanta verdade vindas daquela voz maravilhosa.

 

 - DALVA, MARÍLIA, BORGHI, TALMA E EU

Em 1987, Renato Borghi, outro apaixonado por Dalva de Oliveira, escreveu “A Estrela Dalva”; a peça estreou no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, dirigida por Roberto Talma tendo a inigualável Marília Pêra como protagonista. Borghi guardou para si o papel de Herivelto Martins. Deixei de comparecer às bodas de ouro dos meus pais para ir ao Rio de Janeiro assistir a esse espetáculo que reunia meus dois mitos: Marília Pêra e Dalva de Oliveira. Era o dia 17 de julho de 1987. Era uma montagem grandiosa e emocionante que guardo na memória com muito carinho.

        Ao final da temporada carioca houve um desentendimento entre Marília e a produção do espetáculo e ela não participou da temporada paulistana em 1988, sendo substituída por Silvia Massari.

 

- DALVA, SORAYA, BORGHI, ELCIO, VELLAME, ELIAS, BRECHT, WEILL E EU

2026 – 39 anos depois Renato Borghi realiza uma nova montagem de sua homenagem a Dalva de Oliveira, agora rebatizada de “Minha Estrela Dalva”. A personagem Renato Borghi interpretada por ele mesmo e Elcio Nogueira Seixas invade o camarim da cantora para propor que ela faça um espetáculo cantando canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Esse é o mote para que se conte um pouco da vida de Dalva e se ouça suas inesquecíveis canções.

O grande desafio era a escolha da atriz/cantora que tivesse talento dramático e um timbre  compatível com aquele de Dalva e “para a felicidade geral da nação” a escolhida foi Soraya Ravenle, que tem uma interpretação emocionante que nada fica a dever àquela de Marília Pêra. Ouso dizer que como cantora, Soraya supera Marília.

O público acompanha maravilhado e emocionado o espetáculo, aplaudindo e cantando junto muitas das canções. Onde estiver, Dalva deve estar muito feliz com essa linda homenagem que Borghi lhe faz. Pessoalmente passei todo o espetáculo com um lenço na mão enxugando as lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos. Haja coração para ver/ouvir Soraya interpretando “Ave Maria no Morro”.

Entre tantos momentos belíssimos, destaco aquele onde Dalva faz duelo com Herivelto Martins interpretado com muito talento e belíssima voz por Ivan Vellame. Ali cada um interpreta aquelas canções que ficaram famosas quando Herivelto e Dalva se separaram.

Pelo mote proposto não soa falso a inclusão de algumas canções de Brecht e Weill no espetáculo: “Alabama Song” interpretada por Vellame, acompanhado pelos ótimos músicos liderados por William Guedes e “Jenny dos Piratas” na interpretação vigorosa de Soraya.

Borghi e Elcio muito à vontade em cena imprimem mais emoção a esse belíssimo trabalho dirigido com muito brilho por Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas.

A cenografia de Marcia Moon composta de várias escadarias que se movimentam exigem muito suor dos contrarregras. Destaque também para o desenho de luz de Wagner Pinto e para os belos figurinos desenhados por Fábio Namatame, usados por Dalva/Soraya durante o espetáculo.

Tudo e todos estão perfeitos no espetáculo, mas o brilho maior fica com Soraya Ravenle, maravilhosa como Dalva.

Ao final a ovação do público atesta a beleza e a grandeza desse belíssimo trabalho idealizado por Borghi e Elcio, que encontra seu melhor palco no Teatro do SESI cujos espetáculos são gratuitos e dão acesso a um grande público, para que as novas gerações tomem conhecimento quem foi a grande Dalva de Oliveira.

Para ser completa a minha felicidade só faltou Soraya/Dalva cantar “Kalu”! 

Curiosidade: Soraya participou do coro na montagem de 1987 com Marília Pêra, ainda como Soraya Jarlicht. 

MINHA ESTRELA DALVA está em cartaz no Teatro do SESI de quinta a sábado, 20h e domingo, 19h até 12/07. A temporada é longa, mas não perca tempo, vá logo, porque você vai querer ir de novo! 

04/04/2026

terça-feira, 31 de março de 2026

GOTA D’ÁGUA no tempo

 

Foto de Barbara Campos

Cansei de esperar”

Fala de Jasão na peça 

Não há a menor dúvida que “Gota d’Água” é uma obra prima não só de Chico Buarque e Paulo Pontes, mas de toda a dramaturgia brasileira.

Escrita em 1976 no auge da ditadura civil militar foi encenada por Gianni Ratto tendo uma interpretação antológica de Bibi Ferreira como Joana, a variação da Medeia de Eurípedes. Ambientada nos morros cariocas a trama era e ainda é um retrato cruel da classe pobre do país.

Por suas qualidades dramatúrgicas, vez por outra a peça é remontada. Gabriel Villela a revisitou em 2001 em sua característica roupagem barroca tendo Cleide Queiroz como protagonista. Em 2006, uma versão com o sub título  “Breviário” subiu aos palcos paulistanos com Georgette Fadel. Em 2016, a versão “A Seco” de Rafael Gomes foi apresentada apenas com as personagens de Joana (Laila Garin) e Jasão (Alessandro Claveaux). A montagem de 2019 de Jé Oliveira (“Preta”) era representada apenas com elenco negro tendo Juçara Marçal como Joana.

Neste século já foram apresentadas quatro versões do texto e surge agora uma nova versão realizada pela “Cia. Coisas Nossas de Teatro” com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi revisitando aquela que realizaram em 2006. O sub título “no tempo” revela que muita coisa mudou nesses 20 anos e que esta nova montagem leva isso em conta.

A Joana 2026 de Georgette Fadel mantém sua fúria e indignação, mas carrega também uma ironia que fortalece ainda mais a personagem.

Por que você quer me deixar?” pergunta Joana a Jasão e a resposta dele é reveladora e relativiza a sua atitude “Essa vida que a gente tem não dá mais. Cansei de esperar”. Ao perceber uma ascensão social casando com a filha de Creonte ele abandona Joana. É a tal história que todo homem tem seu preço, como preconizava Bertolt Brecht. Essa opção racional de Jasão revela toda a perversidade de um sistema movido pela ganância do capital.

A Vila do Meio Dia está presente no palco nu do Teatro Anchieta cercada de espectadores por todos os lados. O elenco e os músicos misturam-se com o público dando a impressão que todos ali são os habitantes do conjunto habitacional onde moram Joana, Jasão, Creonte e sua filha Alma.

A tragédia densa da trama é permeada pelas belas canções de Chico Buarque: Basta Um Dia, Flor da Idade, Bem Querer e Gota d’Água.

A interpretação visceral de Georgette Fadel quase nos faz esquecer do que a memória guarda dos monólogos eternizados por Bibi Ferreira em um velho vinil dos anos 1970.

Primeiro foi a Medea de Sêneca que ocupou o palco do Anchieta no início deste ano, vem a seguir a Joana de Chico Buarque e Paulo Pontes. Qual será a próxima filicida a se apresentar ali?

“Gota d’Água no tempo”, dirigida por Georgette e Cristiano é uma montagem brilhante desse importantíssimo texto teatral. 

Cartaz do Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 03/05. Sextas e sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h. 

NÃO DEIXE DE VER.

 

31/03/2026