"Sê como o machado, que fere o sândalo que o perfuma"
Inversão de um famoso dito popular
Urge que surjam na cena teatral outros
jovens com a garra e o talento de Luccas Papp para garantir a sobrevivência do
nosso teatro. Aos 33 anos de idade, Papp tem um currículo invejável como ator,
diretor, dramaturgo e produtor.
Escrita há dez anos, quando Papp tinha
apenas 23 anos, a peça revela surpreendente maturidade para um jovem daquela
idade, tanto na estrutura dramatúrgica como no tema apresentado.
O que cada um de nós faria para fazer
justiça à morte de um ente querido? Essa é a questão que os integrantes da
Família Machado enfrentam e ela repercute forte no pensamento de cada
espectador.
Carlos foi assassinado durante um
assalto. Seu irmão Tom e o cunhado sequestram o assassino, conhecido como
Vagalume, e o levam para um cativeiro onde os esperam a mãe Rosa e a irmã
Silvia. Juntam-se a eles Ester, a viúva de Carlos e seus filhos Felipe e Sarah.
São sete à mesa, sem perigo de empate. A decisão é matar Vagalume ou poupa-lo e
entrega-lo à polícia.
Surgem argumentos de cada lado e o
inventivo jogo criado por Papp por meio de diálogos ágeis faz com que o
espectador se envolva na ação permitindo-lhe uma escolha íntima conforme suas
convicções e, mais importante, fazendo-o refletir sobre essa escolha. Está aí a
reflexão, uma das mais nobres funções do teatro.
A essa trama principal, Papp inclui
duas sub tramas. Na primeira, Ester confessa que chegou a pedir uma separação ao
marido, um dia antes de seu assassinato. Na segunda, Vagalume faz um relato
sobre sua vida, tentando justificar a razão de ter assaltado Carlos, colocando
mais uma pedra no sapato na decisão dos sete e dos espectadores.
O encenador (também Luccas Papp)
escolheu uma pequena sala do Teatro das Artes para situar o cativeiro onde se
passa a ação da peça. O espaço é o próprio cenário apenas com a inclusão de
alguns móveis (arquitetura cênica de Gustavo Gonçalo e Luccas Papp). A
abordagem realista também está presente nos figurinos de Thaís Boneville.
O elenco afinado e homogêneo é quem
defende o ótimo texto de Luccas Papp que também está presente como ator,
fazendo com muita garra o rebelde e inquieto Tom.
Se é que Luccas me permite, volto a
sugerir que ele não dê uma de Charlie Chaplin acumulando tantas funções em um
espetáculo. Um outro diretor, que não ele, poderia mostrar outros aspectos do
texto e até propor alguns pequenos cortes que enriqueceriam ainda mais este
ótimo espetáculo.
Quanto ao elenco cabe destacar Cris
Carniato como Ester e a presença luminosa de Annamaria Dias como a matriarca
Rosa que até em silêncio com seu olhar, transmite o que está acontecendo quando
os outros estão se manifestando.
A peça tem uma surpreendente
reviravolta no final, recurso dramatúrgico que é uma característica das peças
de Papp.
OS SETE MACHADOS está em cartaz na
Sala Wilson Rodriguez do Teatro das Artes até 29/03. Sábado, 21h e domingo, 19h.
ÙLTIMA SEMANA. NÃO DEIXE DE VER.
24/03/2026



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