Conheço Kiko Rieser desde 2012, ano em
que ele fez a revisão de Português da minha dissertação de Mestrado na Unesp;
desde então acompanho suas incursões no fazer teatral como autor, diretor e
produtor.
Meus comentários positivos ou
negativos sobre seus espetáculos sempre geram discussões calorosas entre nós,
duas pessoas polêmicas e seguras de seus pontos de vista.
Mais de uma dezena de títulos faz
parte do currículo de Rieser e arrisco dizer que “Nós, os Justos” escrita há
oito anos é sua obra mais madura, tanto como autor como diretor.
Um gesto ou uma fala podem atingir
grandes proporções por meio da propagação pela fofoca e pelas notícias falsas podendo
provocar o cancelamento das pessoas envolvidas. Tal qual em “Quem conta um
conto” de Machado de Assis, as personagens de Rieser vão relatando as suas
versões sobre um fato e a cada relato o público acredita que é ali que está a
verdade, mas como diria Luigi Pirandello: “A verdade, onde está a verdade?”
A ação da peça se passa em um ambiente
corporativo onde há a suspeita de ter ocorrido assédio a uma funcionária e
Mendonça, que representa a autoridade da empresa naquela situação, interroga os
envolvidos no ato (a funcionária, o suspeito de ter feito o assédio e uma outra
funcionária que diz ter presenciado parte do tal assédio). Com diálogos ágeis e
fluentes a trama se desenvolve em clima de relativo suspense. Para melhor
fruição do futuro espectador não me estendo em mais detalhes.
Essa relatividade da verdade acontece
de forma abusiva e perversa nos dias de hoje, fato que torna a peça de Kiko
Rieser mais atual do que quando foi concebida há oito anos.
A encenação dirigida pelo autor traduz
o texto de forma brilhante com o recurso de não tirar ninguém de cena depois
que entrou. As cenas formadas por diálogos de Mendonça com os envolvidos
acontecem sem necessidade de black outs, apenas com rápidas mudanças de
luz e mantendo estáticos em cena aqueles que não participam do diálogo.
Elenco talentoso é fundamental para
esse tipo de espetáculo e talento é o que não falta para Thamiris Mandú, uma
grata surpresa como Shirley, Camila dos Anjos como Milena, a suposta vítima de
assédio, Luciano Gatti, excelente como Tony, o suposto assediador e Marco
Antônio Pâmio jogando toda sua versatilidade e talento para compor o estressado
Mendonça.
A cena inicial com o primeiro encontro
entre Gatti e Pâmio é uma aula de interpretação!
E na cena final, onde uma verdade se
mostra escancarada, os personagens ainda levantam a relatividade da mesma.
Marichilene Artisevskis é responsável
pelos figurinos, premiando os personagens masculinos com típico uniforme de “executivo
Faria Lima” com direito a calças com barras “pula brejo”. Uma das personagens
femininas veste-se também com terninho de executiva de médio padrão, cabendo o
único figurino solar a Shirley, a tal funcionária que testemunhou parte do que
aconteceu. À medida que a ação se aproxima do fim, todos vão se desfazendo de
paletós, bolsas e casaquinhos emblemáticos do padrão corporativo de se vestir.
A iluminação, às vezes intermitente,
desenhada por Rodrigo Palmieri reforça o ambiente de embate da trama.
A cenografia que reproduz uma sala de
reuniões de uma empresa é assinada por Bruno Anselmo e a discreta trilha sonora
é de Marcelo Pellegrini.
Kiko Rieser rege todos esses elementos
de maneira rigorosa oferecendo um espetáculo que junto com “Habitat” de Rafael
Primot, atesta que não é por falta de bons autores e bons encenadores que nosso
teatro possa um dia morrer.
NÓS. OS JUSTOS está em cartaz no Teatro Itália, sexta e sábado, 20h e domingo,19h.
NÃO DEIXE DE VER!
10/03/2026

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