terça-feira, 10 de março de 2026

NÓS, OS JUSTOS

 

Conheço Kiko Rieser desde 2012, ano em que ele fez a revisão de Português da minha dissertação de Mestrado na Unesp; desde então acompanho suas incursões no fazer teatral como autor, diretor e produtor.

Meus comentários positivos ou negativos sobre seus espetáculos sempre geram discussões calorosas entre nós, duas pessoas polêmicas e seguras de seus pontos de vista.

Mais de uma dezena de títulos faz parte do currículo de Rieser e arrisco dizer que “Nós, os Justos” escrita há oito anos é sua obra mais madura, tanto como autor como diretor.

Um gesto ou uma fala podem atingir grandes proporções por meio da propagação pela fofoca e pelas notícias falsas podendo provocar o cancelamento das pessoas envolvidas. Tal qual em “Quem conta um conto” de Machado de Assis, as personagens de Rieser vão relatando as suas versões sobre um fato e a cada relato o público acredita que é ali que está a verdade, mas como diria Luigi Pirandello: “A verdade, onde está a verdade?”

A ação da peça se passa em um ambiente corporativo onde há a suspeita de ter ocorrido assédio a uma funcionária e Mendonça, que representa a autoridade da empresa naquela situação, interroga os envolvidos no ato (a funcionária, o suspeito de ter feito o assédio e uma outra funcionária que diz ter presenciado parte do tal assédio). Com diálogos ágeis e fluentes a trama se desenvolve em clima de relativo suspense. Para melhor fruição do futuro espectador não me estendo em mais detalhes.

Essa relatividade da verdade acontece de forma abusiva e perversa nos dias de hoje, fato que torna a peça de Kiko Rieser mais atual do que quando foi concebida há oito anos.

A encenação dirigida pelo autor traduz o texto de forma brilhante com o recurso de não tirar ninguém de cena depois que entrou. As cenas formadas por diálogos de Mendonça com os envolvidos acontecem sem necessidade de black outs, apenas com rápidas mudanças de luz e mantendo estáticos em cena aqueles que não participam do diálogo.

Elenco talentoso é fundamental para esse tipo de espetáculo e talento é o que não falta para Thamiris Mandú, uma grata surpresa como Shirley, Camila dos Anjos como Milena, a suposta vítima de assédio, Luciano Gatti, excelente como Tony, o suposto assediador e Marco Antônio Pâmio jogando toda sua versatilidade e talento para compor o estressado Mendonça.

A cena inicial com o primeiro encontro entre Gatti e Pâmio é uma aula de interpretação!

E na cena final, onde uma verdade se mostra escancarada, os personagens ainda levantam a relatividade da mesma.

Marichilene Artisevskis é responsável pelos figurinos, premiando os personagens masculinos com típico uniforme de “executivo Faria Lima” com direito a calças com barras “pula brejo”. Uma das personagens femininas veste-se também com terninho de executiva de médio padrão, cabendo o único figurino solar a Shirley, a tal funcionária que testemunhou parte do que aconteceu. À medida que a ação se aproxima do fim, todos vão se desfazendo de paletós, bolsas e casaquinhos emblemáticos do padrão corporativo de se vestir.

A iluminação, às vezes intermitente, desenhada por Rodrigo Palmieri reforça o ambiente de embate da trama.

A cenografia que reproduz uma sala de reuniões de uma empresa é assinada por Bruno Anselmo e a discreta trilha sonora é de Marcelo Pellegrini.

Kiko Rieser rege todos esses elementos de maneira rigorosa oferecendo um espetáculo que junto com “Habitat” de Rafael Primot, atesta que não é por falta de bons autores e bons encenadores que nosso teatro possa um dia morrer.

NÓS. OS JUSTOS está em cartaz no Teatro Itália, sexta e sábado, 20h e domingo,19h. 

NÃO DEIXE DE VER! 

10/03/2026

 

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