quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

HABITAT

 


De soco no estômago em soco de estômago o espectador teatral paulistano se enche de indignação e reflete sobre a perversidade da sociedade contemporânea, haja vista os dois espetáculos estreados no final da semana passada: MULHER EM FUGA e HABITAT, ambos escritos pelos jovens dramaturgos Édouard Louis (1992) e Rafael Primot (1982) que não têm medo de colocar a mão na ferida. Ambos procuram (e conseguem) mostrar como rasteja a humanidade.

MULHER EM FUGA foi assunto de matéria publicada em meu blog:

https://palcopaulistano.blogspot.com/2026/01/mulher-em-fuga.html 

HABITAT

Partindo de um fato real ocorrido em um super mercado de São Paulo onde um segurança espancou um cachorro até a morte, Primot coloca em cena uma jornalista e “influencer” que coordena uma ONG voltada à proteção de animais (Fernanda de Freitas), o segurança que matou o cachorro (Rafael Primot) e o gerente do estabelecimento onde houve a ocorrência (Rogério Brito) com uma estrutura dramatúrgica que me remeteu a algumas peças de David Mamet (Race e Hollywood).

A jornalista tem um confronto violento com o segurança esbravejando e ofendendo o homem durante um enorme “bife” (*) com cerca de vinte minutos, ele se defende argumentando que o mandaram  agir daquele modo. Como a revelação desse fato nas redes sociais comprometeu a empresa, o gerente da mesma entra em cena para “dialogar” com a jornalista.

Qual o preço de um ser humano? Por quanto ele se vende? A Senhora Luckerniddle em “Santa Joana dos Matadouros” se vendeu por dez pratos de sopa e esse assunto tão recorrente na obra de Brecht aparece com toda a força neste texto de Primot, desenvolvido de forma exemplar até o desfecho impactante que acontece com as derradeiras falas da jornalista.

É um verdadeiro privilégio para o espectador presenciar o jogo cênico entre o elenco: Rogério Brito empresta seu carisma e sua potente voz para a figura asquerosa e dúbia  do gerente, Rafael Primot se transfigura, tornando-se irreconhecível e feio, usando apenas recursos faciais e corporais e alterações no tom de voz, demostrando mais uma vez que é um dos melhores atores de sua geração e Fernanda de Freitas é uma grata surpresa iniciando a peça exagerando na atuação (a palavra “overacting” em inglês é mais bonita) e mantendo as mesmas fibra e garra até o final do espetáculo.

Suborno, manipulação pelo poder e pelo dinheiro, os perigos das redes sociais, as falsas notícias e o desprezo pelas classes menos favorecidas são alguns dos assuntos que Rafael Primot denuncia em seu denso espetáculo.

Lavínia Pannunzio e Eric Lenate dirigem o espetáculo discretamente focando a atenção no trabalho do elenco. O cenário de Lenate tem ventiladores que giram lentamente durante toda a apresentação e eles parecem ser as testemunhas mudas da violência que ocorre em cena.

Um potente espetáculo.

Cartaz do Teatro Estúdio às terças, quartas e quintas às 20h. 

(*) Jargão teatral para uma longa intervenção de uma personagem, sem a interrupção de outra personagem que também está em cena. 

20/01/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário