De soco no estômago em soco de
estômago o espectador teatral paulistano se enche de indignação e reflete sobre
a perversidade da sociedade contemporânea, haja vista os dois espetáculos
estreados no final da semana passada: MULHER EM FUGA e HABITAT, ambos escritos pelos
jovens dramaturgos Édouard Louis (1992) e Rafael Primot (1982) que não têm medo
de colocar a mão na ferida. Ambos procuram (e conseguem) mostrar como rasteja a
humanidade.
MULHER EM FUGA foi assunto de matéria
publicada em meu blog:
https://palcopaulistano.blogspot.com/2026/01/mulher-em-fuga.html
HABITAT
Partindo de um fato real ocorrido em
um super mercado de São Paulo onde um segurança espancou um cachorro até a
morte, Primot coloca em cena uma jornalista e “influencer” que coordena uma ONG
voltada à proteção de animais (Fernanda de Freitas), o segurança que matou o
cachorro (Rafael Primot) e o gerente do estabelecimento onde houve a ocorrência
(Rogério Brito) com uma estrutura dramatúrgica que me remeteu a algumas peças
de David Mamet (Race e Hollywood).
A jornalista tem um confronto violento
com o segurança esbravejando e ofendendo o homem durante um enorme “bife” (*)
com cerca de vinte minutos, ele se defende argumentando que o mandaram agir
daquele modo. Como a revelação desse fato nas redes sociais comprometeu a
empresa, o gerente da mesma entra em cena para “dialogar” com a jornalista.
Qual o preço de um ser humano? Por
quanto ele se vende? A Senhora Luckerniddle em “Santa Joana dos Matadouros” se
vendeu por dez pratos de sopa e esse assunto tão recorrente na obra de Brecht
aparece com toda a força neste texto de Primot, desenvolvido de forma exemplar
até o desfecho impactante que acontece com as derradeiras falas da jornalista.
É um verdadeiro privilégio para o
espectador presenciar o jogo cênico entre o elenco: Rogério Brito empresta seu
carisma e sua potente voz para a figura asquerosa e dúbia do gerente, Rafael Primot se transfigura,
tornando-se irreconhecível e feio, usando apenas recursos faciais e corporais e
alterações no tom de voz, demostrando mais uma vez que é um dos melhores atores
de sua geração e Fernanda de Freitas é uma grata surpresa iniciando a peça
exagerando na atuação (a palavra “overacting” em inglês é mais bonita) e
mantendo as mesmas fibra e garra até o final do espetáculo.
Suborno, manipulação pelo poder e pelo
dinheiro, os perigos das redes sociais, as falsas notícias e o desprezo pelas
classes menos favorecidas são alguns dos assuntos que Rafael Primot denuncia em
seu denso espetáculo.
Lavínia Pannunzio e Eric Lenate
dirigem o espetáculo discretamente focando a atenção no trabalho do elenco. O
cenário de Lenate tem ventiladores que giram lentamente durante toda a
apresentação e eles parecem ser as testemunhas mudas da violência que ocorre em
cena.
Um potente espetáculo.
Cartaz do Teatro Estúdio às terças, quartas e quintas às 20h.
(*) Jargão teatral para uma longa intervenção de uma personagem, sem a interrupção de outra personagem que também está em cena.
20/01/2026

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