quinta-feira, 12 de março de 2026

QUEM MATOU MEU PAI?

 

 

- Um grande (talvez o maior) momento da 11ª MITsp -

        O universo retratado pelo autor francês Édouard Louis em seus livros mostra-se bastante familiar ao encenador alemão Thomas Ostermeier (fato já demonstrado em “História da Violência”) e com pequenas alterações/supressões no texto do livro, a encenação de “Quem Matou Meu Pai?” é bastante fiel ao mesmo.

        Enquanto o público adentra a sala do Teatro Paulo Autran, Édouard Louis já está em cena no fundo do palco, na penumbra, manipulando um notebook.

        As luzes se apagam e com grande desenvoltura para quem não tem formação de ator, Édouard Louis inicia sua conversa com um pai que já não está mais ali, mas é representado por uma poltrona e um cobertor. E é nesse monólogo do filho se dirigindo ao pai, ora acusando, ora se justificando que ocorre todo o espetáculo.

        Louis se movimenta em cena entre o notebook e a poltrona, tendo ao fundo um telão que mostra sombrias imagens em branco e preto ilustrativas das situações apresentadas.

        Fora o recurso das imagens, são introduzidos alguns “números musicais” onde Louis dança e dubla intérpretes de “dance music” parecendo provar ao pai que ser “viado” não afeta a sua dignidade de ser humano.

Em outro belo momento da encenação, após contar sobre ter ganhado do pai um DVD com o filme “Titanic”, ele dubla com muita paixão Celine Dion interpretando o tema do filme, arrancando aplausos do público em cena aberta.

        Salvo esses dois recursos (imagens e intervenções musicais) o foco está na interpretação espontânea e comovente do escritor que se sai muito bem como ator.

        O livro e a peça mostram como Louis entendeu que seus pais e o irmão mais velho não eram violentos e preconceituosos porque queriam, mas sim por serem resultado de uma sociedade perversa e injusta com a classe trabalhadora. Nominando os políticos franceses que, com suas determinações discriminatórias, “arruinaram” seu pai, ele passa dos sentimentos de revolta e ódio à compaixão.

        Contando com poucos recursos cênicos e com a enorme empatia e talento de Édouard Louis, “Quem Matou Meu Pai?” é de grande impacto artístico e social, merecendo a imensa ovação recebida ao final da apresentação.

        Os poucos (três até agora) espetáculos apresentados justificam de maneira honrosa a palavra “internacional” que aparece entre “mostra” e “teatro” da MITsp, à qual desejo sempre VIDA LONGA e louvo a ação e a garra de Antonio Araújo, Guilherme Marques e Rafael Steinhauser.


        12/03/2026

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