- Um grande (talvez o maior) momento da 11ª MITsp -
O universo retratado pelo autor francês Édouard
Louis em seus livros mostra-se bastante familiar ao encenador alemão Thomas
Ostermeier (fato já demonstrado em “História da Violência”) e com pequenas
alterações/supressões no texto do livro, a encenação de “Quem Matou Meu Pai?” é
bastante fiel ao mesmo.
Enquanto o público adentra a sala do
Teatro Paulo Autran, Édouard Louis já está em cena no fundo do palco, na
penumbra, manipulando um notebook.
As luzes se apagam e com grande
desenvoltura para quem não tem formação de ator, Édouard Louis inicia sua
conversa com um pai que já não está mais ali, mas é representado por uma
poltrona e um cobertor. E é nesse monólogo do filho se dirigindo ao pai, ora
acusando, ora se justificando que ocorre todo o espetáculo.
Louis se movimenta em cena entre o
notebook e a poltrona, tendo ao fundo um telão que mostra sombrias imagens em
branco e preto ilustrativas das situações apresentadas.
Fora o recurso das imagens, são
introduzidos alguns “números musicais” onde Louis dança e dubla intérpretes de “dance
music” parecendo provar ao pai que ser “viado” não afeta a sua dignidade de ser
humano.
Em outro belo momento da encenação,
após contar sobre ter ganhado do pai um DVD com o filme “Titanic”, ele dubla
com muita paixão Celine Dion interpretando o tema do filme, arrancando aplausos
do público em cena aberta.
Salvo esses dois recursos (imagens e
intervenções musicais) o foco está na interpretação espontânea e comovente do
escritor que se sai muito bem como ator.
O livro e a peça mostram como Louis
entendeu que seus pais e o irmão mais velho não eram violentos e
preconceituosos porque queriam, mas sim por serem resultado de uma sociedade perversa e injusta com a
classe trabalhadora. Nominando os políticos franceses que, com suas
determinações discriminatórias, “arruinaram” seu pai, ele passa dos sentimentos
de revolta e ódio à compaixão.
Contando com poucos recursos cênicos e
com a enorme empatia e talento de Édouard Louis, “Quem Matou Meu Pai?” é de
grande impacto artístico e social, merecendo a imensa ovação recebida ao final
da apresentação.
Os poucos (três até agora) espetáculos
apresentados justificam de maneira honrosa a palavra “internacional” que
aparece entre “mostra” e “teatro” da MITsp, à qual desejo sempre VIDA LONGA e
louvo a ação e a garra de Antonio Araújo, Guilherme Marques e Rafael
Steinhauser.
12/03/2026




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