sábado, 4 de abril de 2026

MINHA ESTRELA DALVA

 

“Este amor quase tragédia/Que me fez um grande mal”

Fim de Comédia

ERA UMA VEZ...

- DALVA E EU

Quando era pequeno eu ouvia minha mãe cantar umas músicas junto com uma voz muito bonita que ela ouvia no rádio, com o tempo aprendi a cantar junto com mamãe e achava engraçado uma da qual eu não entendia quase nada da letra, mas era aquela que eu mais gostava. A música era “Kalu”, a cantora Dalva de Oliveira.

O tempo passou, cresci, mas aquela voz ficou guardada lá no fundo da minha memória.

No início dos anos 1970, ao pesquisar canções das décadas de 1930 a 1950, a chamada idade de ouro do rádio brasileiro, para a trilha de uma peça que eu estava dirigindo, tive o impacto de voltar a ouvir Dalva de Oliveira (1917-1972). Foi paixão instantânea e eu era olhado com certa desconfiança pelos meus engajados companheiros do grupo de teatro que achavam aquele tipo de música ultrapassada, cafona e reacionária.

Fui atrás da obra de Dalva, cheia de canções passionais, calúnias, males de amor e perdas que refletiam a sua vida cheia de lances dramáticos. Queria assistir a um de seus shows que nesta fase já não eram constantes. Dalva já não tinha muita saúde e se mostrava bastante debilitada. Seu último show em São Paulo foi no extinto “Teatro Veredas” que ficava numa travessa do Largo do Arouche. Não tive a oportunidade de assistir e a querida Dalva partiu logo depois.

Adquiri todos os vinis de Dalva, aprendi as letras sofridas de todas as canções que ela interpretava e sempre que possível as cantava com minha voz desafinada. Até minha mãe um dia se surpreendeu ao me ouvir cantar “Kalu, Kalu, tira o verde desses oios di riba d eu”.

Enquanto escrevo estas linhas, ouço Dalva cantando “Ave Maria no Morro” e mais uma vez me emociono até as lágrimas. Que voz! Quanta paixão e quanta verdade vindas daquela voz maravilhosa.

 

 - DALVA, MARÍLIA, BORGHI, TALMA E EU

Em 1987, Renato Borghi, outro apaixonado por Dalva de Oliveira, escreveu “A Estrela Dalva”; a peça estreou no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, dirigida por Roberto Talma tendo a inigualável Marília Pêra como protagonista. Borghi guardou para si o papel de Herivelto Martins. Deixei de comparecer às bodas de ouro dos meus pais para ir ao Rio de Janeiro assistir a esse espetáculo que reunia meus dois mitos: Marília Pêra e Dalva de Oliveira. Era o dia 17 de julho de 1987. Era uma montagem grandiosa e emocionante que guardo na memória com muito carinho.

        Ao final da temporada carioca houve um desentendimento entre Marília e a produção do espetáculo e ela não participou da temporada paulistana em 1988, sendo substituída por Silvia Massari.

 

- DALVA, SORAYA, BORGHI, ELCIO, VELLAME, ELIAS, BRECHT, WEILL E EU

2026 – 39 anos depois Renato Borghi realiza uma nova montagem de sua homenagem a Dalva de Oliveira, agora rebatizada de “Minha Estrela Dalva”. A personagem Renato Borghi interpretada por ele mesmo e Elcio Nogueira Seixas invade o camarim da cantora para propor que ela faça um espetáculo cantando canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Esse é o mote para que se conte um pouco da vida de Dalva e se ouça suas inesquecíveis canções.

O grande desafio era a escolha da atriz/cantora que tivesse talento dramático e um timbre  compatível com aquele de Dalva e “para a felicidade geral da nação” a escolhida foi Soraya Ravenle, que tem uma interpretação emocionante que nada fica a dever àquela de Marília Pêra. Ouso dizer que como cantora, Soraya supera Marília.

O público acompanha maravilhado e emocionado o espetáculo, aplaudindo e cantando junto muitas das canções. Onde estiver, Dalva deve estar muito feliz com essa linda homenagem que Borghi lhe faz. Pessoalmente passei todo o espetáculo com um lenço na mão enxugando as lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos. Haja coração para ver/ouvir Soraya interpretando “Ave Maria no Morro”.

Entre tantos momentos belíssimos, destaco aquele onde Dalva faz duelo com Herivelto Martins interpretado com muito talento e belíssima voz por Ivan Vellame. Ali cada um interpreta aquelas canções que ficaram famosas quando Herivelto e Dalva se separaram.

Pelo mote proposto não soa falso a inclusão de algumas canções de Brecht e Weill no espetáculo: “Alabama Song” interpretada por Vellame, acompanhado pelos ótimos músicos liderados por William Guedes e “Jenny dos Piratas” na interpretação vigorosa de Soraya.

Borghi e Elcio muito à vontade em cena imprimem mais emoção a esse belíssimo trabalho dirigido com muito brilho por Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas.

A cenografia de Marcia Moon composta de várias escadarias que se movimentam exigem muito suor dos contrarregras. Destaque também para o desenho de luz de Wagner Pinto e para os belos figurinos desenhados por Fábio Namatame, usados por Dalva/Soraya durante o espetáculo.

Tudo e todos estão perfeitos no espetáculo, mas o brilho maior fica com Soraya Ravenle, maravilhosa como Dalva.

Ao final a ovação do público atesta a beleza e a grandeza desse belíssimo trabalho idealizado por Borghi e Elcio, que encontra seu melhor palco no Teatro do SESI cujos espetáculos são gratuitos e dão acesso a um grande público, para que as novas gerações tomem conhecimento quem foi a grande Dalva de Oliveira.

Para ser completa a minha felicidade só faltou Soraya/Dalva cantar “Kalu”! 

Curiosidade: Soraya participou do coro na montagem de 1987 com Marília Pêra, ainda como Soraya Jarlicht. 

MINHA ESTRELA DALVA está em cartaz no Teatro do SESI de quinta a sábado, 20h e domingo, 19h até 12/07. A temporada é longa, mas não perca tempo, vá logo, porque você vai querer ir de novo! 

04/04/2026

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