“Este amor quase
tragédia/Que me fez um grande mal”
Fim de Comédia
ERA
UMA VEZ...
-
DALVA E EU
Quando era pequeno eu ouvia minha mãe
cantar umas músicas junto com uma voz muito bonita que ela ouvia no rádio, com
o tempo aprendi a cantar junto com mamãe e achava engraçado uma da qual eu não
entendia quase nada da letra, mas era aquela que eu mais gostava. A música era “Kalu”,
a cantora Dalva de Oliveira.
O tempo passou, cresci, mas aquela voz
ficou guardada lá no fundo da minha memória.
No início dos anos 1970, ao pesquisar
canções das décadas de 1930 a 1950, a chamada idade de ouro do rádio
brasileiro, para a trilha de uma peça que eu estava dirigindo, tive o impacto
de voltar a ouvir Dalva de Oliveira (1917-1972). Foi paixão instantânea e eu
era olhado com certa desconfiança pelos meus engajados companheiros do grupo de
teatro que achavam aquele tipo de música ultrapassada, cafona e reacionária.
Fui atrás da obra de Dalva, cheia de
canções passionais, calúnias, males de amor e perdas que refletiam a sua vida
cheia de lances dramáticos. Queria assistir a um de seus shows que nesta fase
já não eram constantes. Dalva já não tinha muita saúde e se mostrava bastante
debilitada. Seu último show em São Paulo foi no extinto “Teatro Veredas” que
ficava numa travessa do Largo do Arouche. Não tive a oportunidade de assistir e
a querida Dalva partiu logo depois.
Adquiri todos os vinis de Dalva,
aprendi as letras sofridas de todas as canções que ela interpretava e sempre
que possível as cantava com minha voz desafinada. Até minha mãe um dia se
surpreendeu ao me ouvir cantar “Kalu, Kalu, tira o verde desses oios di riba
d eu”.
Enquanto escrevo estas linhas, ouço
Dalva cantando “Ave Maria no Morro” e mais uma vez me emociono até as lágrimas.
Que voz! Quanta paixão e quanta verdade vindas daquela voz maravilhosa.
- DALVA, MARÍLIA, BORGHI, TALMA E EU
Em 1987, Renato Borghi, outro
apaixonado por Dalva de Oliveira, escreveu “A Estrela Dalva”; a peça estreou no
Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, dirigida por Roberto Talma tendo a
inigualável Marília Pêra como protagonista. Borghi guardou para si o papel de
Herivelto Martins. Deixei de comparecer às bodas de ouro dos meus pais para ir
ao Rio de Janeiro assistir a esse espetáculo que reunia meus dois mitos:
Marília Pêra e Dalva de Oliveira. Era o dia 17 de julho de 1987. Era uma montagem
grandiosa e emocionante que guardo na memória com muito carinho.
Ao final da temporada carioca houve um
desentendimento entre Marília e a produção do espetáculo e ela não participou
da temporada paulistana em 1988, sendo substituída por Silvia Massari.
- DALVA, SORAYA, BORGHI, ELCIO, VELLAME,
ELIAS, BRECHT, WEILL E EU
2026 – 39 anos depois Renato Borghi
realiza uma nova montagem de sua homenagem a Dalva de Oliveira, agora
rebatizada de “Minha Estrela Dalva”. A personagem Renato Borghi interpretada
por ele mesmo e Elcio Nogueira Seixas invade o camarim da cantora para propor
que ela faça um espetáculo cantando canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill.
Esse é o mote para que se conte um pouco da vida de Dalva e se ouça suas
inesquecíveis canções.
O grande desafio era a escolha da
atriz/cantora que tivesse talento dramático e um timbre compatível com
aquele de Dalva e “para a felicidade geral da nação” a escolhida foi Soraya
Ravenle, que tem uma interpretação emocionante que nada fica a dever àquela de
Marília Pêra. Ouso dizer que como cantora, Soraya supera Marília.
O público acompanha maravilhado e
emocionado o espetáculo, aplaudindo e cantando junto muitas das canções. Onde
estiver, Dalva deve estar muito feliz com essa linda homenagem que Borghi lhe
faz. Pessoalmente passei todo o espetáculo com um lenço na mão enxugando as
lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos. Haja coração para ver/ouvir
Soraya interpretando “Ave Maria no Morro”.
Entre tantos momentos belíssimos,
destaco aquele onde Dalva faz duelo com Herivelto Martins interpretado com
muito talento e belíssima voz por Ivan Vellame. Ali cada um interpreta aquelas
canções que ficaram famosas quando Herivelto e Dalva se separaram.
Pelo mote proposto não soa falso a
inclusão de algumas canções de Brecht e Weill no espetáculo: “Alabama Song”
interpretada por Vellame, acompanhado pelos ótimos músicos liderados por
William Guedes e “Jenny dos Piratas” na interpretação vigorosa de Soraya.
Borghi e Elcio muito à vontade em cena
imprimem mais emoção a esse belíssimo trabalho dirigido com muito brilho por
Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas.
A cenografia de Marcia Moon composta
de várias escadarias que se movimentam exigem muito suor dos contrarregras.
Destaque também para o desenho de luz de Wagner Pinto e para os belos figurinos
desenhados por Fábio Namatame, usados por Dalva/Soraya durante o espetáculo.
Tudo e todos estão perfeitos no
espetáculo, mas o brilho maior fica com Soraya Ravenle, maravilhosa como Dalva.
Ao final a ovação do público atesta a
beleza e a grandeza desse belíssimo trabalho idealizado por Borghi e Elcio, que
encontra seu melhor palco no Teatro do SESI cujos espetáculos são gratuitos e
dão acesso a um grande público, para que as novas gerações tomem conhecimento
quem foi a grande Dalva de Oliveira.
Para ser completa a minha felicidade só faltou Soraya/Dalva cantar “Kalu”!
Curiosidade: Soraya participou do coro na montagem de 1987 com Marília Pêra, ainda como Soraya Jarlicht.
MINHA ESTRELA DALVA está em cartaz no Teatro do SESI de quinta a sábado, 20h e domingo, 19h até 12/07. A temporada é longa, mas não perca tempo, vá logo, porque você vai querer ir de novo!
04/04/2026


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