terça-feira, 31 de março de 2026

GOTA D’ÁGUA no tempo

 

Foto de Barbara Campos

Cansei de esperar”

Fala de Jasão na peça 

Não há a menor dúvida que “Gota d’Água” é uma obra prima não só de Chico Buarque e Paulo Pontes, mas de toda a dramaturgia brasileira.

Escrita em 1976 no auge da ditadura civil militar foi encenada por Gianni Ratto tendo uma interpretação antológica de Bibi Ferreira como Joana, a variação da Medeia de Eurípedes. Ambientada nos morros cariocas a trama era e ainda é um retrato cruel da classe pobre do país.

Por suas qualidades dramatúrgicas, vez por outra a peça é remontada. Gabriel Villela a revisitou em 2001 em sua característica roupagem barroca tendo Cleide Queiroz como protagonista. Em 2006, uma versão com o sub título  “Breviário” subiu aos palcos paulistanos com Georgette Fadel. Em 2016, a versão “A Seco” de Rafael Gomes foi apresentada apenas com as personagens de Joana (Laila Garin) e Jasão (Alessandro Claveaux). A montagem de 2019 de Jé Oliveira (“Preta”) era representada apenas com elenco negro tendo Juçara Marçal como Joana.

Neste século já foram apresentadas quatro versões do texto e surge agora uma nova versão realizada pela “Cia. Coisas Nossas de Teatro” com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi revisitando aquela que realizaram em 2006. O sub título “no tempo” revela que muita coisa mudou nesses 20 anos e que esta nova montagem leva isso em conta.

A Joana 2026 de Georgette Fadel mantém sua fúria e indignação, mas carrega também uma ironia que fortalece ainda mais a personagem.

Por que você quer me deixar?” pergunta Joana a Jasão e a resposta dele é reveladora e relativiza a sua atitude “Essa vida que a gente tem não dá mais. Cansei de esperar”. Ao perceber uma ascensão social casando com a filha de Creonte ele abandona Joana. É a tal história que todo homem tem seu preço, como preconizava Bertolt Brecht. Essa opção racional de Jasão revela toda a perversidade de um sistema movido pela ganância do capital.

A Vila do Meio Dia está presente no palco nu do Teatro Anchieta cercada de espectadores por todos os lados. O elenco e os músicos misturam-se com o público dando a impressão que todos ali são os habitantes do conjunto habitacional onde moram Joana, Jasão, Creonte e sua filha Alma.

A tragédia densa da trama é permeada pelas belas canções de Chico Buarque: Basta Um Dia, Flor da Idade, Bem Querer e Gota d’Água.

A interpretação visceral de Georgette Fadel quase nos faz esquecer do que a memória guarda dos monólogos eternizados por Bibi Ferreira em um velho vinil dos anos 1970.

Primeiro foi a Medea de Sêneca que ocupou o palco do Anchieta no início deste ano, vem a seguir a Joana de Chico Buarque e Paulo Pontes. Qual será a próxima filicida a se apresentar ali?

“Gota d’Água no tempo”, dirigida por Georgette e Cristiano é uma montagem brilhante desse importantíssimo texto teatral. 

Cartaz do Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 03/05. Sextas e sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h. 

NÃO DEIXE DE VER.

 

31/03/2026

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