“Cansei de esperar”
Fala de Jasão na peça
Não há a menor dúvida que “Gota d’Água”
é uma obra prima não só de Chico Buarque e Paulo Pontes, mas de toda a
dramaturgia brasileira.
Escrita em 1976 no auge da ditadura
civil militar foi encenada por Gianni Ratto tendo uma interpretação antológica
de Bibi Ferreira como Joana, a variação da Medeia de Eurípedes. Ambientada nos
morros cariocas a trama era e ainda é um retrato cruel da classe pobre do país.
Por suas qualidades dramatúrgicas, vez
por outra a peça é remontada. Gabriel Villela a revisitou em 2001 em sua
característica roupagem barroca tendo Cleide Queiroz como protagonista. Em
2006, uma versão com o sub título “Breviário”
subiu aos palcos paulistanos com Georgette Fadel. Em 2016, a versão “A Seco” de
Rafael Gomes foi apresentada apenas com as personagens de Joana (Laila Garin) e
Jasão (Alessandro Claveaux). A montagem de 2019 de Jé Oliveira (“Preta”) era
representada apenas com elenco negro tendo Juçara Marçal como Joana.
Neste século já foram apresentadas
quatro versões do texto e surge agora uma nova versão realizada pela “Cia.
Coisas Nossas de Teatro” com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi revisitando
aquela que realizaram em 2006. O sub título “no tempo” revela que muita coisa
mudou nesses 20 anos e que esta nova montagem leva isso em conta.
A Joana 2026 de Georgette Fadel mantém
sua fúria e indignação, mas carrega também uma ironia que fortalece ainda mais
a personagem.
“Por que você quer me deixar?”
pergunta Joana a Jasão e a resposta dele é reveladora e relativiza a sua
atitude “Essa vida que a gente tem não dá mais. Cansei de esperar”.
Ao perceber uma ascensão social casando com a filha de Creonte ele abandona
Joana. É a tal história que todo homem tem seu preço, como preconizava Bertolt
Brecht. Essa opção racional de Jasão revela toda a perversidade de um sistema
movido pela ganância do capital.
A Vila do Meio Dia está presente no
palco nu do Teatro Anchieta cercada de espectadores por todos os lados. O
elenco e os músicos misturam-se com o público dando a impressão que todos ali
são os habitantes do conjunto habitacional onde moram Joana, Jasão, Creonte e
sua filha Alma.
A tragédia densa da trama é permeada
pelas belas canções de Chico Buarque: Basta Um Dia, Flor da Idade, Bem Querer e
Gota d’Água.
A interpretação visceral de Georgette
Fadel quase nos faz esquecer do que a memória guarda dos monólogos eternizados
por Bibi Ferreira em um velho vinil dos anos 1970.
Primeiro foi a Medea de Sêneca que
ocupou o palco do Anchieta no início deste ano, vem a seguir a Joana de Chico
Buarque e Paulo Pontes. Qual será a próxima filicida a se apresentar ali?
“Gota d’Água no tempo”, dirigida por Georgette e Cristiano é uma montagem brilhante desse importantíssimo texto teatral.
Cartaz do Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 03/05. Sextas e sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h.
NÃO DEIXE DE VER.
31/03/2026

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