domingo, 5 de julho de 2026

AS BONDOSAS

 

Há pitadas de “As Fúrias” de Rafael Alberti, de “A Casa de Bernarda Alba” de Garcia Lorca e das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, mas também muita originalidade e criatividade na trama criada pelo autor maranhense Ueliton Rocon sobre três carpideiras conservadoras (mas nem tanto...) atuando no velório de uma moça despudoradamente vestida com roupas vermelhas.

Angústia, Astúcia e Prudência procuram realizar suas funções rezando e chorando diante do esquife, mas não se furtam de observar e comentar sobre a família da falecida e as pessoas presentes no velório. Aos poucos os desejos reprimidos dessas mulheres vêm à tona até um final epifânico para elas.

A encenação poderia resvalar para a caricatura e o deboche, mas a direção de Tom Pires conduz o espetáculo para caminhos muito mais sóbrios e interessantes. Utilizando-se de trilha sonora de Philip Glass e conduzindo uma belíssima direção de movimento do elenco ele confere dignidade ao resultado final.

Digna de nota a bela iluminação desenhada por Eduardo Salina e operada por Arnaldo D’Ávila que emoldura toda a ação.

O cenário de Sidcley Batista é formado apenas por cinco ou seis caixotes que, manipulados pelos atores,  vão adquirindo as formas necessárias para a ação.

Bonitos e discretos os vestidos cor de terra criados por Leandro Mariz.

O elenco masculino brilha sem afetação no papel das três mulheres.

Sidcley Batista mostra severidade na composição de Prudência, sendo a última a ceder aos imperativos da luxúria, Gerson Lobo representa Angustia, a mais doce e indecisa das três mulheres e Leandro Mariz como Astúcia tem ares de safada desde o início da história, desencadeando a seguir o tsunâmi carnal por tantos anos reprimido dessas três pobres mulheres.

Um bravo aos três atores pernambucanos por esse belo trabalho e um especial ao Gerson Lobo por trazê-lo aos palcos paulistanos.

AS BONDOSAS está em cartaz no Galpão do Folias: sexta, 20h / sábado, 18h e 20h / domingo, 18h 

04/07/2026

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