segunda-feira, 29 de junho de 2026

ANYWHERE

 

Ricardo Corrêa fez uma longa pesquisa por meio de entrevistas com refugiados e imigrantes LGBTQIAPN+ originários de várias partes do mundo e o resultado de seu importante trabalho consta do livro “Anywhere” publicado por ele de forma independente.

Corrêa elegeu um dos relatos para compor a dramaturgia de sua peça de mesmo nome, ora encenada pela Cia Artera de Teatro.

Samir é um jovem gay iraniano que tinha um companheiro de nome Zyan que foi assassinado pelas forças repressoras do governo. Temendo por sua vida Samir resolve imigrar passando por todos os conhecidos perigos de um processo clandestino como pressão de coiotes por dinheiro, barcos super lotados e perigosos e a chegada clandestina a um país onde é retido em aeroporto onde aguarda visto legal de entrada no mesmo.

A dramaturgia de Corrêa inicia na sala de espera do aeroporto onde Samir aguarda impaciente há meses a permissão de entrada e ali ele recorda seu passado no Irã, o assassinato de Zyan e a sua fuga.

Após uma breve introdução, Ricardo Corrêa parte para a interpretação de Samir com muita garra e indignação mantendo esse ritmo durante os 80 minutos que dura o espetáculo. A meu modo de ver o resultado seria mais impactante se ele começasse em ritmo mais suave para ter espaço de ir crescendo durante a ação, mas isso absolutamente não invalida nem desmerece sua brilhante interpretação.

A direção de Davi Reis é focada no trabalho do ator e se vale da cenografia de Carlos Tibúrcio, que reproduz a frieza e a impessoalidade de uma sala de espera de um aeroporto, e das excelentes imagens reproduzidas em vídeos criados por Renato Grieco e Ricardo Corrêa.

Corrêa dá um desfecho catártico ao seu personagem, fazendo com que ele receba o visto e possa entrar no novo país para finalmente ver o sol e respirar em liberdade.

Tudo está bem quando bem acaba, já dizia Shakespeare, mas infelizmente na maioria das vezes o desfecho do destino de seres refugiados é bem mais triste.

“Anywhere” trata de temas contemporâneos muito importantes como o desumano tratamento recebido por refugiados e o preconceito com seres LGBTQIAPN+, onde quer (anywhere) que eles estejam

 Merece ser visto e discutido.

Em cartaz na Cia. da Revista até 12/07. Sábado 20h e domingo 19h.

29/06/2026

 

 

domingo, 28 de junho de 2026

LAS CHORONAS



Foto: Guto Muniz

“Dicen que no tengo duelo, llorona
Porque no me ven llorar
Hay muertos que no hacen ruido, llorona
Y es mas grande su penar”

(Folclore mexicano) 

        Era uma vez mais um grupo mineiro que chegou a São Paulo para nos surpreender e nos encantar...

        O coletivo Las Choronas Companheiras Teatrais” chegou de leve na cidade, bem ao estilo mineiro, e trouxe essa caixinha de surpresas chamada “Las Choronas” que se abre com belo número do intérprete de libras (Uziel Ferreira) e vai se desdobrando em cenas e imagens que desafiam a imaginação dos espectadores.

        Dar aqui uma descrição dessas cenas seria tirar o prazer da descoberta para quem ainda vai assistir ao espetáculo.

        O jovem dramaturgo Byron O’Neill (ele é mineiro da gema, apesar do nome) dirige o espetáculo de maneira harmoniosa e bela mesclando números de e com bonecos, cenas interpretadas só pelo elenco, cenas cantadas e dançadas.

Samuel Beckett e David Lynch comparecem ao lado de Cauby Peixoto e Janis Joplin criando um clima surreal com toques de absurdo sem que nenhum se importe com a presença do outro e o resultado além de muito instigante é bastante belo em função da cenografia e figurinos de Eduardo Felix e da criação de luz por Marina Arthuzzi e Wellington Santos.

        O excelente elenco é formado por:

- Carol Oliveira e Liz Schrickte que passam com muito estilo de bonecas a bonequeiras sem pedir licença

Foto: Daniel Protzner

-  Aurora Majnoni que nos olha do alto cantando e manipulando belas asas vermelhas

Foto: Lina Mintz

- Joyce Malta que ri muito para depois chorar com a mesma intensidade

Foto: Daniel Protzner

- Eduardo Felix que interage com o boneco Elaino com a mesma mestria que dubla Cauby cantando “Camarim”.

Foto: Guto Muniz

- Tom Farato faz um número de dança incrivelmente belo e enigmático

Foto:Lina Mintz

- Uziel Ferreira acompanha todo o espetáculo como intérprete de libras.

Foto: Lina Mintz

        O espetáculo termina apoteoticamente com todo o elenco no palco ao som de “Cry Baby” com Janis Joplin.

        Pedir mais seria gulodice!

        Repito que “Las Choronas” surpreende e encanta simultaneamente.

        Em cartaz no CCBB até 27/07. Quinta, sexta e segunda, 19h / Sábado e domingo, 18h.

        CORRA!!!

 

        28/06/2026

 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

DIAS FELIZES

 

 

“Ah, que dia feliz, este terá sido mais um dia feliz.”

(Winnie, enterrada até o pescoço)

        Enquanto houver desesperança e falta de perspectiva no mundo Samuel Beckett (1906-1989) será atual e necessário.

        A falta de perspectiva em uma Europa devastada pela segunda guerra mundial está presente na trilogia da desesperança de Beckett: “Esperando Godot” (1948), “Fim de Partida” (1957) e “Dias Felizes” (1960) e de alguma maneira os dias de hoje marcados por muitas guerras e a eminência de um caos climático também não oferecem muitas perspectivas para o ser humano.

        Em um ambiente inóspito, Winnie, a personagem de “Dias Felizes”, está enterrada até a cintura e apesar do seu interminável dia a dia e a presença do companheiro Willie que só reforça a sua solidão, insiste em dizer que os dias estão e são lindos (me agrada o título da peça em francês “Ah, les beaux jours!”). Mais tarde (no segundo ato), ela está enterrada até o pescoço e continua clamando que os dias são lindos e felizes.

        A nova montagem de “Dias Felizes” chega a São Paulo pela “Armazém Companhia de Teatro”.

        O cenário criado por Paulo de Moraes e Carla Berri para a atual montagem reproduz o ambiente árido e íngreme sugerido pelo autor e um sol inclemente inunda a primeira parte.

        Patrícia Selonk que já foi Hamlet, já foi Geni e já foi Próspero se propõe a esse novo desafio de ser Winnie e, mais uma vez, o faz de modo brilhante.

        A Winnie do primeiro ato ainda tem braços e mãos para se distrair com o batom e a escova de sua bolsa, com uma lupa, com o guarda chuva e até com um revólver. Selonk dá um toque carioca em sua interpretação e a presença física de Willie (Jopa Moraes) dinamiza a ação.

O ambiente do segundo ato é mais soturno concentrando-se na cabeça de Winnie e em um telão ao fundo que a reproduz. A interpretação de Selonk é tão intensa que o espectador esquece a imagem ao fundo que a meu ver nem era necessária tal é a força de sua interpretação.

O suave abrasileiramento proposto por Jupa Moraes na tradução do texto incorpora-se na encenação permitindo que Winnie recite trechos de “Canteiros” de Cecília Meirelles e que ela cantarole “Eu sonhei que estavas tão linda” no final da peça.

Em São Paulo Winnie já foi interpretada por Fernanda Montenegro em 1996 (direção de Jacqueline Laurence), Norma Bengell em 2010 (direção de Emílio Di Biasi) e Lavínia Pannunzio em 2023 (direção de César Ribeiro) e agora é a vez de Patrícia Selonk dirigida por Paulo de Moraes, tendo em cena o filho Jopa Moraes como Willie.

Grande personagem! Grandes atrizes!!

Fotos de João Gabriel Monteiro 

DIAS FELIZES está em cartaz no SESC Pompeia até 19 de julho. Quintas, 20h / Sextas, 16h e 20h / Sábados, 20h / Domingos, 18h. 

26/06/2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EDDY – VIOLÊNCIA & METAMORFOSE

 

Em 2023, “Vista” foi um espetáculo impactante vindo do Rio de Janeiro revelando Julia Lund (atriz) e Luiz Felipe Reis (diretor) da companhia POLIFÔNICA para os palcos paulistanos. Três anos depois eles voltam à cidade com “Eddy – Violência & Metamorfose” que tem em comum com “Vista” a agressão e a violência praticadas por seres humanos contra outros seres humanos

“Eddy” é a tradução cênica do livro “História da Violência” escrito pelo jovem autor francês Édouard Louis (1992-), permeada por trechos de outros livros dele (“O Fim de Eddy” e “Mudar: Método”).

Em harmonioso diálogo entre teatro e cinema (imagens gravadas e imagens da cena captadas por câmeras e celulares manipulados pelo elenco) a montagem conta o que aconteceu com o autor na noite de Natal de 2012 em Paris:

Após um jantar com amigos, ao voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina, chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas, após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem e quase assassinado.”

 Esse diálogo harmonioso é garantido pela origem dos dois encenadores: Luiz Felipe Reis, homem de teatro e Marcelo Grabowsky, vindo do cinema.

No livro o escritor visita a irmã Clara na sua cidade de origem (Hallencourt) e conta a ela o que aconteceu naquela noite de Natal e ela tece comentários com ele e com o marido sobre o ocorrido.

Na encenação de Reis e Grabowsky João Côrtes interpreta Louis e Erom Cordeiro se reveza como Redá, o marido de Clara e o investigador da polícia. Cabe a Julia Lund o papel de Clara que em bem-vindo recurso de distanciamento narra e comenta criticamente a ação.

A dramaturgia realizada pelos dois diretores é bastante fiel ao espírito da obra de Édouard Louis e sua passagem para o palco confirma essa fidelidade.

Encenação dinâmica que em nenhum momento resvala para o melodramático ou o sensacionalismo. A bela cena de sexo é exemplo disso, sendo realizada sem nenhum falso pudor, mas com muita elegância.

O elenco é composto por Erom Cordeiro que com poucos recursos transita entre as personagens que lhe cabem, sendo bastante eloquente ao mostrar as contradições de Redá.

Julia Lund é responsável por trazer ao público as incoerências de Louis numa interpretação bastante diversa daquela de “Vista”, fato que só confirma sua versatilidade e seu talento.

A grande surpresa para nós paulistanos, é o trabalho de João Côrtes numa composição perfeita daquele que imaginamos ser Édouard Louis. Corpo e voz extremamente expressivos demonstrando sua luta entre o desejo e a insegurança de ser agredido no momento em que conhece Redá na rua. Foi muito justa sua indicação como melhor ator pela APTR e o mesmo deve acontecer em São Paulo.

A montagem não fica nada a dever àquela dirigida por Thomas Ostermeier apresentada na MITsp em março deste ano, tendo até alguns pontos a seu favor como uma ambientação mais latina (francesa e brasileira) do que germânica.

EDDY está em cartaz no Teatro FAAP até 06 de agosto. Terças, quartas e quintas às 20h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL

 

24/06/2026

segunda-feira, 22 de junho de 2026

ORKHESTRA PHANTASMA

 

Felipe Hirsch já provoca e irrita de início com o programa da peça impresso em papel vegetal com os textos sobrepostos só legíveis com uma folha em branco atrás da página, além disso a virada da página é bem dificultosa pela fragilidade do papel.

A provocação e a irritação continuam ao longo do espetáculo apesar de excelentes momentos onde se mostra a perfeita sintonia do elenco na emissão de sons e vozes e a força e a beleza de alguns textos. A irritação provém da repetição de cada cena até a exaustão e não resta dúvida que essa é outra provocação do encenador.

Em certas cenas a sensação é a mesma daquela quando se ouve certas composições radicais de compositores contemporâneos (Stockhausen, John Cage e mais atualmente Tan Dun): estranhamento inicial>>reconhecimento dos signos>>fruição (ou não).

O elenco está perfeitamente afinado com a proposta de Hirsch e cada um tem momentos importantes: Milla Fernandez que vem de uma temporada de sucesso de  “Tip” encarrega-se da locutora do rádio e da DJ; Roberta Estrela d’Alva, entre outras coisas,  “fiscaliza a meditação” do público; Gabriela Geluda empresta sua voz lírica para várias cenas; Pascoal da Conceição faz uma previsão da ocorrência da morte e até canta em francês; Renato Livera tem bons momentos ao dublar o som das estações de rádio, o crédito dos gritos alucinantes do primeiro e do segundo ato é de Thiago Amaral e  Thalin faz um belo solo de contorcionista/dançarino.

Não há como não destacar o brilho de Georgette Fadel tanto como o  bebê da cena inicial como em todos os diversos solos que ela apresenta. Depois de sua excelente composição de Joana em “Gota d’Água”, Georgette volta a demonstrar sua versatilidade e talento neste espetáculo.

Em pouco mais de três horas Felipe Hirsch mostra sua Orkhestra Phantasma que, a meu modo de ver, renderia muito mais se durasse uma hora a menos, mesmo mantendo todas as cenas presentes.

O negócio é seguir o conselho de Hirsch: “Esqueça tudo. A cabeça é sua.” 

ORKHESTRA PHANTASMA está em cartaz no SESC Vila Mariana até 02/08 de quinta a sábado às 20h e domingo às 18h. 

22/08/2026

domingo, 21 de junho de 2026

DOS PRAZERES 2026

 

Dos prazeres de rever depois de seis anos “Dos Prazeres”, o solo teatral da ótima Maristela Chelala que brilha mais uma vez no papel e curiosamente caiu uma tremenda chuva durante a apresentação, algo que também ocorreu quando assisti à peça em 2020 no SESC Vila Mariana. Será que a água é só metáfora, como dizia o programa daquela montagem?!!

Reproduzo abaixo o que escrevi sobre o espetáculo em 2020, sabendo que a atual montagem sofreu várias alterações:

        A peça mescla fatos da vida da própria atriz com as peripécias de Dos Prazeres, personagem de um conto de Gabriel García Márquez, que é uma prostituta de 76 anos, amazonense como Chelala, que vive exilada em Barcelona durante a ditadura franquista e que faz os preparativos para a sua morte, anunciada em uma visão. Essa anunciação vai provocar boas surpresas tanto para ela como para o espectador. O conto foi traduzido para a cena teatral por Ivan Marsiglia que junto com Chelala inseriu acontecimentos dramáticos ocorridos na infância da atriz. Misturam-se assim fatos da guerra civil espanhola, da truculência de Franco e da não menos truculenta situação do Brasil atual. A direção de Ivan Andrade brinca com o metateatro incluindo uma constante menção às interferências de Rachel, a operadora de som e orquestra dinâmica movimentação cênica da atriz, fazendo com que o espetáculo seja bastante dinâmico e ágil. O programa da peça comenta que a água é uma das metáforas centrais do espetáculo e uma água nada metafórica acompanhou o público nestes primeiros dias muito chuvosos de fevereiro”.

        E eu peço emprestada uma frase de Zélia Gattai para fechar esta escrita sobre Dos Prazeres: ANARQUISTA, GRAÇAS A DEUS!

        P.S. Cabe notar que os prazeres da noite incluíram o acolhimento sempre afetivo das meninas do ºAndar (Ana Paula Dias e Anayan Moretto), o encontro com o Marcelo Laham e a Adriana Dham e a companhia das minhas queridas amigas Rose e Nadya.

        Grande noite!!

        21/06/2026

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

POR SER DAQUI

 


QUE SOEM AS TROMBETAS:

O GRUPO PONTO DE PARTIDA está de volta a São Paulo, depois de nove anos! 

Em 2017 fiquei absolutamente arrebatado com dois espetáculos que esse incrível grupo mineiro apresentou no SESC 24 de maio naquela ocasião: “Vou Voltar” contava a trajetória do grupo de teatro uruguaio El Galpón durante seus oito anos de exílio no México e “Mineiramente” com poesias e músicas de autores mineiros. Na ocasião escrevi “Se ‘Vou Voltar’ me tirou do chão, ‘Mineiramente’ me fez voar”.

Finalmente o grupo está de volta a São Paulo para apenas duas apresentações no Teatro Sérgio Cardoso nos dias 27/06 (20h) e 28/06 (16h), desta vez trazendo com ele os Meninos de Araçuaí, um coro de crianças que também dança e que já se apresentou com Milton Nascimento e Gilberto Gil.

Palavras do encenador Ulysses Cruz: “A junção do Grupo Ponto de Partida com os Meninos de Araçuaí é algo para não se esquecer jamais. Daquelas experiências de teatro que a gente vai ficando velho e vai sempre lembrando e cada vez a gente tem a sensação que fica melhor. É muito lindo, é uma emoção inesquecível”

E é esse conjunto com 38 artistas com idades de 5 a 65 anos que estará nos encantando no palco do Sérgio Cardoso com canções, humor e memória para manter viva nossa capacidade de sonhar.

Trata-se de oportunidade rara de rever ou conhecer a apresentação do Ponto de Partida, fundado há 45 anos em Barbacena onde desenvolve importantes projetos de música e de teatro.

“Por Ser Daqui” tem como base a obra de Lido Loschi e é dirigido por Regina Bertola que também assina a dramaturgia. A música é executada ao vivo e cantada pelo elenco e pelos Meninos.

Vai ser lindo admirar esses mineiros maravilhosos brilharem mais uma vez em palcos paulistanos.

“Por ser daqui, conheço as frases e as pausas
Entendo todas as piadas
Sei distinguir um pôr do Sol de uma alvorada
Dia de chuva sei prever”
 

(Tó Brandileone e Vinicius Calderoni) 

15/06/2026

Referências: Matérias sobre a temporada de 2017:

https://palcopaulistano.blogspot.com/2017/11/vou-voltar.html

https://palcopaulistano.blogspot.com/2017/11/ponto-de-partidamais-uma-vez.html

 

sábado, 13 de junho de 2026

OS GIGANTES DA MONTANHA

 

É estimulante ver um grupo de jovens atrizes e atores empenhados em produzir e interpretar um texto difícil e complexo como “Os Gigantes da Montanha” de Luigi Pirandello (1867-1936). Tal fato nos faz acreditar que, pelo menos por mais uma geração, nosso teatro tem futuro. Que venham outras e mais outras gerações!

Dentro da peça há o mago Cotrone que transita com o sonho e a fantasia, enquanto fora dela temos o mago Kiko Marques que com seu talento e criatividade nos oferece sempre espetáculos preciosos.

Pirandello dedicou os últimos oito anos de vida na elaboração dessa obra e a deixou inacabada. A peça trata de assuntos caros ao autor como a relatividade da verdade, os tênues limites entre sonho e realidade e a vulnerabilidade da arte no mundo moderno e no meu modo de ver, nesta última obra ele flerta com o teatro do absurdo e o realismo mágico que só iriam surgir décadas depois com Ionesco e Beckett (anos 1950) e García Márquez (anos 1960). Pirandello só não é o fundador desses gêneros porque ele justifica as ações do segundo ato como sendo sonhos.

A montagem de Kiko é resultado de uma oficina realizada com esse jovem elenco e o rendimento do grupo é surpreendente. A encenação acontece nas dependências da Zona Franca em espaço que um dia deve ter sido uma garagem e com um pouco de imaginação o público acompanha e mergulha no ambiente mágico e misterioso proposto pela peça.

Cleyde Yáconis em 1969 e Inês Peixoto em 2013 já interpretaram a Condessa Ilse e desta vez cabe a Alejandra Sampaio, como atriz convidada, interpretar essa que é uma das mais importantes personagens femininas do teatro do século XX. A interpretação de Alejandra é arrebatadora e ilumina a cena de forma extraordinária, sem ofuscar a interpretação do resto do elenco menos experiente.

Existe um equilíbrio nas interpretações e Kiko teve o cuidado de oferecer solos importantes para Ingrid Ruiz, para Isadora Maffei numa emocionante composição de Stefano, o filho de Pirandello, ao final do espetáculo e para os atores que interpretam o Conde, o amante suicida e Crono.

Por último, mas não menos importante, o segundo papel da peça é aquele de Cotrone que já foi vivido por Ziembinski (1969) e Eduardo Moreira (2013). O jovem ator Bruno Rods, com uma dicção impecável, interpreta o mago com muita garra, faltando, porém, a aura de magia que pessoalmente vejo na personagem. Outro figurino que não esse que mais lembra um malandro carioca e outro tom de voz talvez contribuísse para uma composição mais adequada de Cotrone.

São cem minutos de tudo aquilo que chamamos de verdadeiro TEATRO e é um privilégio vivenciar plenamente esses momentos.

A simpatia do grupo se estende após o término do espetáculo e as conversas que tive com minha querida Lelê, Bruno, Ingrid, Isabella, Gustavo (que interpreta o Pequeno) e o ator que interpreta Crono renderiam outra matéria repleta de afeto e trocas. Presentes também nessas conversas gente querida como o Imad, o Fábio Mraz, o André Garolli , a Barbara Bruno, o Roberto Borenstein, dois simpáticos senhores mineiros e um rapaz muito legal, apesar dele ter adorado um espetáculo que eu odiei (viva a diferença!!).

Sem contar o ambiente acolhedor que é a Zona Franca sempre com um cafezinho e os pães e os bolos maravilhosos que a Lelè traz da padaria.

Esta matéria está muito afetuosa? É PRA ESTAR MESMO!!

Mais uma noite memorável que o teatro oferece para este espectador apaixonado.

VIVA O TEATRO!

OS GIGANTES DA MONTANHA está em cartaz na Zona Franca (Rua Almirante Marques de Leão, 378 na Bela Vista) até 28 de junho. Sexta e sábado, 20h/Domingo, 18h.

IMPERDÍVEL 

13/06/2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O PEQUENINO GRÃO DE AREIA

 

 

Há um pequeno tesouro escondidinho no palco do Teatro Popular do SESI à espera que as crianças de São Paulo o descubram. Escrita por João Falcão há mais de 40 anos a montagem atual, dirigida pelo autor, tem o frescor e beleza de um recém-nascido.

Inspirado na canção de Marino Pinto e Paulo Soledade imortalizada por Dalva de Oliveira onde um grão de areia se apaixona por uma estrela, João Falcão criou essa bela trama onde um grupo de grãos, cada um com uma característica (chorão, mandão, medroso, sabichão, apaixonado) está reunido e especula sobre a paixão de um deles pela estrela. Tudo acontece permeado pelas belas canções compostas por Falcão; m bom momento ele não optou pelo óbvio, que seria utilizar a canção famosa no espetáculo.

O elenco, jovem e simpático, interpreta, toca e canta muito bem; a direção musical é de Ricco Viana. Destaque para Renato Luciano que interpreta um tipo de líder dos grãos e para Fábio Enriquez em deliciosa composição como o grão apaixonado; ambos vindos do grupo Barca dos Corações Partidos.


Tudo acontece com delicadeza e beleza nos preciosos 50 minutos que dura o espetáculo; não há, nem criança nem adulto, que não acompanhe a peça com um sorriso nos lábios e com a alma plena de alegria.

Esta matéria é pequenina como um grão de areia, mas tem a nobre intenção de estimular crianças e adultos a se dirigirem ao Teatro do SESI para assistirem a essa preciosidade. 

O PEQUENINO GRÃO DE AREIA está em cartaz no Teatro Popular do SESI até 26 de julho. Quintas e sextas, 11h/Sábados e domingos, 15h. Ingressos gratuitos. 

P.S. ATENÇÃO: João Falcão está morando em São Paulo. Urge que nos valhamos mais do seu talento e criatividade 

12/06/2026

segunda-feira, 8 de junho de 2026

DONATELLO

 

Vitor Rocha é um rapaz (Rapaz, sim! Ele tem apenas 28 anos) de muito talento e rara sensibilidade. Lançou-se como autor com apenas 21 anos com “Cargas d’Água” e não parou mais, acumulando sucessos de crítica e de público com os quatro espetáculos que se seguiram, culminando com essa preciosidade chamada “Donatello”, escrita e estreada em 2024 e agora retornando a São Paulo para uma bem-vinda temporada no Teatro do Núcleo Experimental.

A peça mostra um homem que desde menino teve uma relação muito amorosa com seu avô Donatello. Foi numa sorveteria muito frequentada pelos dois que surgiram os primeiros sinais de Alzheimer no velho. A partir daí o homem mostra os desdobramentos da doença do avô e a relação com seus pais e uma primeira namorada; cada sentimento experimentado por ele tem o sabor de um sorvete criando um jogo deliciosamente lúdico com a plateia, coroado com frase emblemática que reproduzo a seguir:

Tem gente que é tão boa que merece virar sabor de sorvete”.

A encenação dirigida por Victória Ariante privilegia a presença de Vitor em cena interpretando o neto de Donatello. As belas canções que permeiam a narrativa têm letras do próprio Vitor e músicas de Elton Towersey. Tudo flui de maneira delicada e bem humorada apesar de tratar de assunto sério e doloroso.

Vitor Rocha é presença luminosa em cena. É simpático, bonito e carismático criando uma relação de intimidade e cumplicidade com o público pouco vista em tantos espetáculos a que já assisti.

Sentado no palco, pude ver os olhos de muita gente na plateia tão marejados de emoção como os meus.

“Donatello” não resvala para o melodrama em nenhum momento graças ao texto e interpretação de Vitor, à direção de Victória e às intervenções do pianista Guilherme Gila.

Muitos são os momentos marcantes desses noventa minutos que passam voando, mas se é para destacar apenas um, fico com aquele que é quase uma cena de cabaré onde Vitor canta e interage com o pianista sentado ao seu lado.

As relações do narrador com a nova namorada (que é uma das espectadoras) quando ele descobre o amor que tem sabor de flocos também é uma cena deliciosa que para este espectador tem sabor de chocolate já que este é meu sabor preferido.

“Donatello” agrada em cheio qualquer que seja o sabor de sua preferência e é preciso estar com o coração aberto para melhor degusta-lo.


Em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental aos sábados, 20h e aos domingos, 19h até 19 de julho.

Corra para ir, pois você vai querer ver de novo. O espetáculo tem gosto de QUERO MAIS! 

08/06/2026

 

sábado, 6 de junho de 2026

OS SAPATOS QUE DEIXEI PELO CAMINHO

 

O Teatro do Kaos é um grupo teatral sediado em Cubatão que até hoje realizou poucas temporadas mais longas nos teatros deste lado da serra. Ao que eu saiba a última temporada que fez por aqui foi em 2012 com “A Falecida” na área livre da saudosa Oficina Cultural Oswald de Andrade. Quatorze anos!!

Por outro lado, as atividades do Kaos em Cubatão são intensas com realização de espetáculos no belo teatro existente em sua sede, cursos de formação de atores e atrizes, festivais de teatro e uma grande apresentação anual intitulada “Caminhos da Independência” na Semana da Pátria. Lourimar Vieira, fundador do grupo há 29 anos, está a frente das atividades do Kaos.

Por tudo isso é muito bem-vinda a temporada do Kaos no Teatro Sérgio Cardoso de 05 a 28 de junho com “Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho”, espetáculo icônico criado pelo grupo em 2014.

A dramaturgia de Cícero Gilmar Lopes baseia-se em argumento de Lourimar Vieira que fala sobre as agruras e também alegrias de Poim (apelido de Lourimar) como migrante do Piauí para São Paulo, desde sua chegada muito assustado até a criação do Kaos em 1997.

O elenco de uma atriz (a bela Camila Sandes) e quatro atores (Fabiano Di Melo, Levi Tavares, Lourimar Vieira e Luiz Guilherme) encarrega-se de contar a saga de Poim de forma onírica e não cronológica sob a direção de Marcos Felipe do Grupo Mungunzá.

O sugestivo título da peça parece referir-se às coisas más e boas que surgem em nossas vidas e que por uma razão ou outra deixamos para trás.

Homofobia, aceitação de homossexualismo, burocracia e um imenso amor ao teatro são temas tratados neste espetáculo.

Trata-se de ótima oportunidade de a cidade conhecer o trabalho desse importante grupo teatral.

Sextas, sábados e domingos às 19h

 

06/06/2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

VISITA A DOMICÍLIO

 

        “Visita a domicilio” ou “Visita em domicílio”? Levando em conta a situação da peça onde um médico se dirige a um domicílio para atender um paciente, o mais correto, segundo o Google, seria “Visita em domicílio” (*).

        Polêmica gramatical à parte, a peça do dramaturgo argentino Alberto Romero (“Tu Hipocampo y Mi Caballito de Mar”, no original) trata do reencontro inesperado entre dois homens. Um deles (Gabo) chama um médico para tratar de uma crise de nervo ciático e para surpresa de ambos, este médico é Fernando que foi seu namorado na adolescência e a relação foi bruscamente interrompida por razões que Gabo desconhece. A peça ocorre entre acertos e desacertos na conversa dos dois homens para só esclarecer os motivos que levaram Fernando a interromper a relação nas cenas finais. O texto não oferece maiores novidades e tem um desenlace previsível, sendo bastante valorizado pela interpretação dos dois atores.

        A direção de Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado é discreta e bastante focada na interpretação do elenco.

        Há várias trocas de objetos de cena feitas à vista do público por dois contra regras que a meu ver são desnecessárias, pois toda a ação da peça se passa no domicílio de Gabo e em vez de dinamizar (creio que foi essa a intenção dos encenadores) essas trocas quebram o ritmo da peça. Apesar de bastante vibrantes, as canções da trilha sonora também não colaboram para enriquecer a cena.

        Os maiores trunfos da peça são os dois intérpretes.

Cícero de Andrade é ator bastante sensível sabendo dosar as dúvidas, a ternura e a indignação presentes no seu personagem Fernando. É um grande prazer vê-lo em cena.

Gabo é a personagem principal da peça e Juan Tellategui o compõe de forma surpreendente. Transitando entre a comédia e o drama, ele usa sua expressão facial como a principal arma para mostrar os sentimentos de Gabo. Em muitos momentos suas expressões patéticas (no sentido de suaves, ingênuas, enternecedoras) me remeteram ao saudoso Stan Laurel (o Magro da dupla cinematográfica). Tellategui também não descuida da expressão corporal e de sua potente voz.

A cena final, onde muita coisa se esclarece tem um embate furioso entre Gabo e Fernando que reafirma os talentos de Cícero e Juan.

Trata-se de mais uma peça com tema LGBT+ em cartaz na cidade que tem o mérito de fugir dos clichês tão comuns nesse gênero de espetáculo.

O simpático Alberto Romero, autor da peça, estava presente na apresentação a que assisti.

(*)   Visita a domicílio: Usa-se a preposição "a", pois o termo "visita" e o verbo "ir" transmitem ideia de movimento ou deslocamento até um local.

       Visita em domicílio: Usa-se a preposição "em" para indicar o local fixo onde a ação está acontecendo. É muito comum na área da saúde para descrever o atendimento que é realizado dentro da moradia do paciente.

        VISITA A DOMÍCILIO está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso (Sala Paschoal Carlos Magno) às quartas e quintas às 19h até 25/06.


        04/06/2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MUDANDO DE PELE

 

Parece que Amanda Wilkin, dramaturga e atriz britânica, autora desse texto (Shedding a Skin), não gosta de revelar sua idade. Pelas fotos ela é uma bela mulher negra que aparenta ter cerca de quarenta anos.  Foi Taís Araujo, que tem até uma semelhança física com Wilkin, quem descobriu a peça e idealizou sua encenação.

Em termos de conteúdo a peça é uma história já muitas vezes contada sobre alguém que vive em uma sociedade opressora e preconceituosa, mas acha brechas para sair desse ambiente e se realizar como ser humano.

Sempre há muitas formas de se contar uma história e com uma somatória de talentos se pode chegar a excelentes resultados e é este o caso do espetáculo ora em cartaz na cidade.

Pela tradução de Diego Teza e o dramaturgismo de Nathalia Cruz o texto flui de maneira ágil e atraente na deliciosa interpretação de Taís Araujo, que mantém o público nas suas mãos nos quase noventa minutos de duração da peça, fazendo denúncias de maneira leve e com muitos toques de humor.

Existem encenadores que parecem ter um estoque de criatividade dentro de si, surpreendendo o público a cada novo trabalho e este é o caso de Yara de Novaes. As muitas surpresas desta encenação como a criativa iluminação de Gabriele Souza, o cenário móvel de André Cortez, as intervenções de Dani Nega e Layla e, é claro, Taís Araujo no centro de tudo, são regidas por Yara com mão de mestre, provando que a forma pode tornar brilhante um conteúdo mais simples.

Cabe notar também o belo programa impresso da peça que contém mensagens esclarecedoras de Taís, do SESC, de Yara onde ela faz uma descrição afetuosa de todas mulheres que participaram da encenação e da produtora Quintal que tem uma poética definição de teatro que quero reproduzir no final desta matéria:

TEATRO, esse lugar que é restaurador, democrático, coletivo, imenso e infinito. Lugar que embala esperanças, aprimora as percepções de mundo e nos aproxima do mundo.”

É ISSO AÍ!!

MUDANDO DE PELE está em cartaz no SESC 14 Bis de 04/06 a 05/07 de quinta a sábado, 20h e domingo, 18h.

IRRESISTÍVEL! 

04/06/2026