domingo, 2 de janeiro de 2022

ZESCAR TEATRO 2021

 

O melhor do teatro em São Paulo em 2021 na visão de José Cetra Filho.

Assim como Norma Desmond estava pronta para o seu close, eu também estou pronto para divulgar o ZESCAR de 2021.

Mais um ano difícil, marcado pelas muitas mortes provocadas pela Covid, pelos descalabros desse governo insano e, no caso específico do teatro, o fechamento do Viga Espaço Cênico e do Cemitério de Automóveis ; aa boas notícias ficaram por conta das vacinas que com certeza salvaram muitas vidas e com o significativo número de espetáculos virtuais de ótima qualidade tanto artística como técnica.

O recrudescimento da pandemia no primeiro semestre não permitiu a reabertura dos teatros naquela ocasião, por outro lado a tecnologia soprou a favor dos espetáculos virtuais, principalmente, com o surgimento das peças filme ou peças hibridas onde aparece um novo profissional para o teatro que é diretor de audiovisual que, na maioria dos casos, atua em parceria com o diretor teatral.

A partir de setembro os teatros começam a reabrir suas portas com espetáculos vindos de temporadas anteriores e também com produções contempladas em editais passados, mas que não puderam estrear em função da pandemia. Dessa maneira justifica-se que em 2021 o número de espetáculos virtuais tenha sido consideravelmente maior do que aquele dos presenciais.

No meu caso assisti a 216 espetáculos, sendo 182 virtuais e 34 presenciais. Desse total cabe notar apenas um show, uma ópera e dois espetáculos de dança virtuais e dois espetáculos de dança presenciais. Os 210 restantes são, como diria La Lupe, PURO TEATRO!

Estão anunciadas muitas estreias presenciais para 2022 e se a Covid deixar o quadro vai reverter e teremos muito mais espetáculos que acontecerão nos palcos da cidade com o público presente aplaudindo e vibrando junto com os artistas. Afinal, como bem disse Ilana Kaplan: “Do palco viemos, ao palco retornaremos

Os autores brasileiros dominaram a cena em 2021 respondendo por 146 espetáculos (22 presenciais e 124 virtuais) ficando os estrangeiros com 64 (10 presenciais e 54 virtuais).

Reforço que esses números resultam daquilo a que eu pude assistir e é desse universo que destaco aqueles que para mim foram os melhores do ano e que são merecedores do meu prêmio virtual, o ZESCAR! Ao fim desta matéria, faço uma relação de alguns espetáculos a que não tive a oportunidade de assistir.

O ZESCAR é minha lista pessoal. Ele leva em conta os espetáculos a que assisti no ano e nada tem a ver com a minha participação em comissões de premiação onde os premiados são eleitos por votação e nem sempre correspondem àqueles que a meu ver são os melhores.

Essa história do ZESCAR começou com uma brincadeira. Há muitos anos que faço minha lista particular do que considero os melhores do teatro e do cinema. Minha cunhada um dia brincou perguntando quando eu ia distribuir o ZESCAR (amálgama de Zé com o Oscar do cinema norte americano). A partir daí esse se tornou o nome da minha lista e nos últimos anos eu a torno pública por meio deste blog.       

        Minha lista está dividida em categorias e não há um número certo para cada categoria (se listo só dois é porque foram só eles, assim como posso listar sete ou mais). Por categoria, a lista está em ordem alfabética.

        Como faço todo ano distingo inicialmente aqueles espetáculos/eventos/artistas que foram, para mim, os “melhores dos melhores” e são merecedores desse destaque especial:

        - [...] metade é verdade – Ruth Escobar. A intensa e rigorosa pesquisa realizada por Alvaro Machado resultou nesse precioso documento sobre essa grande guerreira do nosso teatro.

- Constância - Com a razão e a emoção em equilíbrio não hesito em afirmar que Constância é uma obra prima absoluta: texto, direção, interpretação, cenário, iluminação e outros elementos cênicos se harmonizam para gerar um dos espetáculos mais pungentes e belos a que assisti nesta longa trajetória de meio século como espectador. O espetáculo é uma produção da Eró Criação e Produção do Rio de Janeiro (Paraty) e tem o pé fincado no sertão brasileiro com a seca, os vaqueiros, a boiada, a solidão, a fé, a descrença e também a esperança.

- Desfazenda - Me Enterrem Fora Desse Lugar - Forma e conteúdo exemplares e elenco impecável em um espetáculo obrigatório apresentado virtualmente em 2021.

        - Mariana Muniz. Essa grande atriz-dançarina participou e/ou realizou brilhantemente de cinco espetáculos virtuais: A Encomenda/Sônia, Um Ato Por Tolstói/Sete Histórias/Caminhantes/A Vida Secreta das Coisas.

        - Sueño: unanimidade de crítica e de público, este espetáculo escrito e dirigido por Newton Moreno é, junto com Cais ou Da Indiferença das Embarcações da Velha Companhia (2012), uma das primeiras obras primas apresentadas em nosso teatro nestas duas primeiras décadas do século. Elenco primoroso e trilha sonora executada ao vivo brilhantemente por Gregory Slivar.


E o ZESCAR vai para: 

ESPETÁCULO PRESENCIAL

- Cock

- Estilhaços de Janela Fervem no Céu de Minha Boca

- Humilhação

- Nossos Ossos

- O Arquiteto e o Imperador da Assíria

- Sueño 

ESPETÁCULO VIRTUAL

- A Genealogia Celeste de Uma Dança

- As Aves da Noite

- Constância

- Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar

- Diplomacia

- Do Outro Lado do Mar

- Leonardo da Vinci – A Obra Oculta

- Onde Vivem os Bárbaros

- Quando as Máquinas Param

- Terra Medeia

- Uma Peça Para Salvar o Mundo

- Vinte e Três de Setembro 

DIREÇÃO (PRESENCIAL)

- Eliana Monteiro – Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca

- Kleber Montanheiro – Nossos Ossos

- Newton Moreno - Sueño 

DIREÇÃO (VIRTUAL)

- André Garolli - Sede

- Bim de Verdier – Terra Medeia

- Bruno Kott – A Genealogia Celeste de Uma Dança

- Cristina Cavalcanti – Amanhã Eu Vou

- Hugo Coelho – As Aves da Noite

- João Caldas – Terra Medeia (direção de arte)

- Kiko Rieser – Quando as Máquinas Param

- Lenise Pinheiro – Viva Cacilda! Felicidade Guerreira!

- Marcio Meirelles – Do Outro Lado do Mar

- Ricardo Grasson – Diplomacia

- Roberta Estrela D’Alva – Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar

- Zé Henrique de Paula – Cabaret dos Bichos 

ATRIZ (PRESENCIAL)

- Clara Carvalho – Um Picasso 

ATRIZ (VIRTUAL)

- Bete Dorgam – Maria da Escócia

- Carolina Virgüez – Vozes do Silêncio

- Claudia Ribeiro – Constância

- Denise Fraga – Dez Por Dez

- Isabella Lemos – Viva Cacilda! Felicidade Guerreira!

- Joana Marinho – Constância

- Juliana Sanches - Medea

- Lilian Blanc – Amanhã Eu Vou

- Mariana Muniz – Sônia – Um Ato Por Tolstói

- Marina Nogaeva Tenório – A Dócil

- Nicole Cordery – Terra Medeia

- Sara Antunes – Dora

- Tuna Dwek – Amanhã Eu Vou

- Walderez de Barros - Bailegangaire

ATOR (PRESENCIAL)

- Chico Carvalho – Proto Henrique IV (assisti à versão presencial)

- Daniel Tavares - Cock

- Eric Lenate – O Arquiteto e o Imperador da Assíria

- Ronaldo Serruya – A Doença do Outro 

ATOR (VIRTUAL)

- Claudio Mendes – Lições Dramáticas Por João Caetano

- Edu Coutinho – Do Outro Lado do Mar

- Eduardo Semerjian – Diplomacia

- Leonardo Miggiorin – Não Se Mate

- Marco Bravo – Vinte e Três de Setembro

- Otávio Martins – Diplomacia

- Ricardo Correa – Monstro

- Rogerio Bandeira – Hamlet 16X8 (assisti à versão virtual)

ELENCO (PRESENCIAL)

- Sueño: Denise Weinberg, José Roberto Jardim, Leopoldo Pacheco, Michele Boesche, Paulo De Pontes, Simone Evaristo. 

ELENCO (VIRTUAL)

- Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg, Marina Esteves. 

DRAMATURGIA (PRESENCIAL)

- Newton Moreno - Sueño

DRAMATURGIA (VIRTUAL)

- Diego Fortes – Vinte e Três de Setembro

- Juliana Leite – A Genealogia Celeste de Uma Dança

- Kleber Di Lazzare – Sobre Todas as Coisas

- Rogério Corrêa – Entre Homens/De Bar Em Bar

ESPECIAL (PRESENCIAL)

- Aline Santini – O Arquiteto e o Imperador da Assíria (iluminação)

- Gregory Slivar – Sueño (trilha ao vivo)

- J.C. Serroni – O Arquiteto e o Imperador da Assíria (cenografia)

- Wagner Pinto – Sueño (iluminação)

ESPECIAL (VIRTUAL)

- Dani Nega –Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar (direção musical)

- Projeto (In)Confessáveis – Marcelo Varzea

- Projeto Abismos de Dostoievski -

PERDIDOS:

- Barnun: O Rei do Show

- Brás: Memórias e (Des)Memórias de Uma São Paulo Precária

- Donna Summer Musical

- Maria de Buenos Aires (opereta)

 SHOWS, CONCERTOS, ÓPERAS, DANÇA

- Grupo Corpo no Teatro Alfa

- Maria Bethânia – Show gravado na Cidade das Artes exibido na Globoplay.

- Sonho de Uma Noite de Verão – Transmissão pela TV Cultura da ópera de Benjamin Britten dirigida por Jorge Takla que foi apresentada em 2018 no Theatro São Pedro.

RESUMO: 

                        PRESENCIAL   VIRTUAL   TOTAL   

TEATRO                   32              178         210

SHOW                      -                   1             1

CONCERTO               -                  -               -

ÓPERA                      -                  1              1

DANÇA                     2                  2              4

TOTAL                     34               182         216 

 

JANEIRO DE 2022

 

 

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

PRÊMIO APCA DE TEATRO 2021

 


Tendo em vista algumas confusões surgidas em notícias divulgadas, cabe esclarecer que os críticos de teatro da APCA se reúnem três vezes ao ano; nas duas primeiras para fazer as indicações de cada semestre e na terceira para eleger os vencedores do ano. Somos em onze integrantes, mas nem sempre todos podem participar das reuniões.

Os premiados serão conhecidos no final de janeiro de 2022 e a premiação deverá ocorrer posteriormente.

Cabe esclarecer também que, a critério dos críticos participantes, a categoria que foi chamada de PRÊMIO AVANÇO DIGITAL no primeiro semestre, teve seu nome alterado para PRÊMIO NOVAS PROPOSTAS CÊNICAS.

Haverá também um prêmio especial cujo vencedor só será conhecido por ocasião da divulgação dos premiados. 

Segue abaixo, em ordem alfabética por categoria, todos os indicados ao prêmio de 2021: 

·         ESPETÁCULO PRESENCIAL: 

- COCK – Direção de Nelson Baskerville

- HAMLET 16X8 – Direção de Marco Antônio Rodrigues

- SUEÑO – Texto e direção de Newton Moreno 


·         ESPETÁCULO VIRTUAL:

- AS AVES DA NOITE – Direção de Hugo Coelho

- DESFAZENDA – ME ENTERREM FORA DESSE LUGAR – Grupo O Bonde

- DORA – Texto, direção e interpretação de Sara Antunes

- LEONARDO DA VINCI – A OBRA OCULTA – Direção de Marcio Medina

- MONSTRO – Cia. Artera de Teatro

- ONDE VIVEM OS BÁRBAROS – Coletivo Labirinto

- SEDE – Cia. Triptal

- TERRA MEDEIA – Direção de Bim de Verdier


·         PRÊMIO NOVAS PROPOSTAS CÊNICAS:

- ESTILHAÇOS DA JANELA FERVEM NO CÉU DA MINHA BOCA – Coletivo A Digna

- O HÍBRIDO – Concepção de Robson Catalunha

- THE ART OF FACING FEAR – Cia. Os Satyros 

Votaram os críticos: 

- Indicações do primeiro semestre: Celso Curi, Edgar Olímpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, Gabriela Mellão, José Cetra Filho, Kyra Piscitelli, Maria Eugênia de Menezes, Márcio Aquiles, Miguel Arcanjo Prado e Vinício Angelici.

- Indicações do segundo semestre: Celso Curi, Edgar Olímpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, José Cetra Filho, Kyra Piscitelli e Vinício Angelici.

23/12/2021

       

 

 


domingo, 19 de dezembro de 2021

MEDEIA

 

O que faz autores tão distintos como Consuelo de Castro, Sara Stridsberg e Mike Bartlett revisitarem o mito de Medeia?

O que faz diretores como Gabriel Fernandes/Bete Coelho, Bim de Verdier, Lavínia Pannunzio e Zé Henrique de Paula encenarem no mesmo ano obras tendo Medeia como protagonista?

O que faz atrizes como Bete Coelho, Nicole Cordery, Helena Ignez e Fani Feldman se entregarem visceralmente na interpretação do mito que foi imortalizado por Eurípedes há 2500 anos atrás?

Grafada como Medeia ou Medea, essa personagem tão potente compareceu em nossos palcos, ou melhor, nos nossos vídeos, por quatro vezes neste ano de 2021. Furiosa e vingativa em função das traições sofridas, Medeia talvez sirva como um grito de alerta contra as barbaridades sofridas pelos brasileiros vergonhosamente traídos por esse governo insano que está no poder.

Algumas dessas montagens já foram alvo de matérias que escrevi ao longo do ano e aqui me concentro na última a que assisti:

MEDEA de Mike Bartlett

 

O dramaturgo inglês Mike Bartlett (1980) está bastante em voga em nossos palcos. De sua autoria já assistimos duas versões de Contrações (uma delas se intitulou Um Contrato); Bull; Love. Love, Love; o recente Cock e para 2022 Marco Antônio Pâmio prepara a encenação de Terremotos.

Bartlett escreveu a sua versão da tragédia de Eurípedes, ora apresentada pela Cia. do Sopro, em 2012. A montagem dirigida por Zé Henrique de Paula cumpriu temporada presencial relâmpago no SESC Pompeia e realiza apresentações virtuais de 16 a 19 de dezembro no canal do YouTube da companhia.

Essa versão é ambientada no subúrbio de uma grande cidade e, além de Medea, dá destaque para duas mulheres (a vizinha Sarah e a colega de trabalho Pam) que fazem as vezes do coro original. Além de Jasão e Creonte (aqui rebatizado de Nick Carter) surge o vizinho Andrew para quem Medea se insinua com a pretensão de obter alguns favores. Em alguns momentos a câmera faz as vezes do filho Tom.

A versão de Bartlett enfatiza as dificuldades que uma mulher inteligente e livre pode ter numa sociedade machista. A trama é ágil e a versão de Diego Teza, em tom coloquial, flui muito bem.

O cenário de Bruno Anselmo mostra o esqueleto da casa de Medea e assim podemos visualizar as ações que se passam tanto defronte a casa como em seu interior. Algumas cenas acontecem também nos fundos da casa, recurso fácil na versão visual, mas desconheço como ocorreu quando da apresentação presencial. Por sinal, cabe destacar a excelente direção audiovisual de Murilo Alvesso.

Iluminação discreta e eficiente de Fran Barros e a excelência de sempre na trilha original de Fernanda Maia.

Zé Henrique de Paula harmoniza todos esses elementos com a movimentação do elenco, muito bem preparado por Inês Aranha.

Como protagonista Fani Feldman realiza um bom trabalho compondo uma Medea furiosa ou mansa nas horas certas; a atriz se despe de qualquer glamour ao mostrar as grosserias do que é capaz a personagem, chegando a escarrar em cena.

Daniel Infantini tem excelente presença cênica como Jasão. Plínio Meirelles interpreta o incrédulo vizinho Andrew assediado por Medea e Bruno Feldman é um vigoroso Nick Carter que vem dar ordens de despejo a Medeia.

Juliana Sanches (Pam) e Maristela Chelala (Sarah) encarregam-se da preciosa cena inicial de dez minutos onde comentam sobre suas preocupações com o que está acontecendo com Medea e Juliana tem uma poderosa cena final onde narra o que aconteceu na festa de casamento onde morreram Kate, a noiva de Jasão, e seu pai Nick Carter.

Última sessão virtual neste domingo às 21h.

Montagem merecedora de temporada presencial em 2022. 

19/12/2021

 

 

sábado, 18 de dezembro de 2021

BAILEGANGAIRE

 

 

Eu não tenho boa lembrança de Balangangueri, encenação da Cia. Ludens dirigida por Domingos Nunez, a qual assisti em 2011 no SESC Belenzinho. Não publiquei matéria a respeito, mas escrevi em minhas anotações que havia ficado irritado com as cenas histéricas que se passavam numa taverna onde dois homens faziam uma competição de risadas e o que se salvava na montagem era o trabalho das três atrizes Denise Wainberg, Fernanda Viacava e Tatiana Thomé.

Eis que dez anos depois, Nunez retorna com esse texto em uma versão de bolso (seria a original?), agora com o título de Bailegangaire e com a ação concentrada apenas nas três mulheres, onde a velha Mommo narra tudo o que aconteceu naquele dia da competição de risadas. Todas as cenas na taverna foram eliminadas, assim como as personagens que ali transitavam. Com isso a peça ganhou em ritmo e, quem diria, em ação!

Amazyles de Almeida e Natalia Gonsales são grandes atrizes e impressionam como as netas Mary e Dolly, que são obrigadas a ouvir ad infinitum as recordações da avó senil. Walderez de Barros é uma atriz superlativa e sua Mommo é digna de todos os louvores.

Tudo o que me incomodou em Balangangueri não está presente em Bailegangaire que é um momento brilhante dessas três excelentes atrizes.

Brincadeira a parte, a mudança de título fez bem a essa peça!!

 

18/12/2021

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

SOBRE TODAS AS COISAS

 

Meu primeiro contato com a obra do dramaturgo Kleber Di Lázzare foi através da leitura da Trilogia do Desejo e da Punição (Editora Giostri) formada pelas peças Coisas de Meninos, E Isto É Tudo ou Do Que Podemos Lembrar e Você Precisa Saber de Mim. Percebi naqueles escritos muita originalidade e uma potência cênica muito alta. No final do livro há um álbum com fotos das encenações dessas peças, as quais não tive oportunidade de assistir.

Eis que agora surge a versão virtual de Sobre Todas as Coisas escrita em 2011, antes, portanto, da Trilogia.

A peça, muito bem estruturada, é dividida em prólogo, cinco cenas e epílogo e trata de Mateus, um escritor à beira de um ataque de nervos devido à constante rejeição de uma obra sua pelo editor e também à relação conflituosa com a ex-esposa Beatriz.

Essas cenas mostram Mateus em três situações: em relação pirandelliana com aqueles que virão a ser suas personagens; em relação com as personagens do livro que são uma prostituta e seu “dono” e em relação com a ex-esposa. A intercalação dessas relações nas cenas é feita de maneira perfeita e harmoniosa.

O elenco é formado por atriz e atores sediados em diversas partes do mundo: Carlos Sanmartin (Cidade do Mexico), Luciana Ramanzini (São Paulo) e Mateus Monteiro (Londres) e por conta da pandemia a gravação foi realizada com cada um deles em seus locais de moradia. O diretor/autor sabiamente evitou o uso do que eu batizei de “teatro de janelinha” muito usado pelas peças virtuais realizadas pelo zoom. Aqui cada participante movimenta-se em cenário de tela cheia e os diálogos e a continuidade dão-se de forma perfeita.

Em dois momentos o teatro-filme, conforme definido por Di Lázzare, me remeteu ao memorável filme Moulin Rouge (2001) de Baz Luhrmann: no sub-título “... e as principais delas: o amor e a liberdade” (no filme era: verdade, beleza, liberdade e amor”) e na cena em que Mateus termina o seu romance de maneira frenética e clama: FIM. Coincidência ou uma homenagem ao filme de Luhrmann? Nada que desabone o magnífico trabalho de Di Lázzare.

Carlos Sanmartin defende bravamente o personagem de Mateus, praticamente não saindo da cena a qual divide com Mateus Monteiro, grande ator há tempos sediado na Inglaterra e que faz falta em nossos palcos, e com a mais que talentosa Luciana Ramanzini, que transita tão bem entre a comédia (quem vai esquecer de sua antológica intervenção na peça sobre Carmen Miranda, onde ela procura traduzir a letra de uma música cantada pela cantora? ) e o drama e aqui interpreta com muita intensidade tanto a prostituta como a ex-mulher Beatriz.

Outra bem-vinda referência da peça é o fato de o casal amar a música Alfonsina y el Mar, divinamente cantada por Mercedes Sosa (1935-2009) e que trata da poetisa Alfonsina Storni (1892-1938) que se suicidou por afogamento no Mar Del Plata. A audição da música pelo casal se dá em raro momento de trégua da peça.

Assim, desde que nossa triste realidade cultural permita, Kleber Di Lázzare vai pondo à mostra sua surpreendente obra já realizada e o que está para ser realizado, afinal conforme as palavras de Mateus ao final da peça: “A melhor obra de arte é a que ainda está por vir”.

Sobre Todas as Coisas é teatro da melhor qualidade e merece ser prestigiado por todos aqueles que acreditam na evolução da chamada arte do efêmero. 

15/12/2021 

Temporada virtual via Sympla de 14 a 21 de dezembro às 20h

Ingressos: sympla.com.br

 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

2021 – 4X4 – TRÁGICAS

 

2500 anos nos separam da época em que as tragédias gregas foram escritas,        mas Ésquilo (524 a.C.–455 a.C.), Sófocles (496 a.C.–405 a.C.) e Eurípedes (480 a.C.–406 a.C.) podiam ser nossos contemporâneos porque os acontecimentos por eles narrados continuam, infelizmente, mais atuais do que nunca.

Por essa razão é que me torno profundamente indignado ao assistir essas poderosas quatro cenas concebidas por Lavínia Pannunzio e admiravelmente interpretadas por Karen Rodrigues, Cleide Queiroz, Miriam Mehler e Helena Ignez e a indignação aumenta ainda mais ao ler a dedicatória que aparece no início de cada cena e que tomo a liberdade de reproduzir:

“A todos aqueles que cessaram de respirar entre os anos 2020 e 2021, que, sem luto ou sepultura, se tornaram banquete fácil dos abutres e cães, durante a pandemia de Covid 19, disseminada propositalmente por Jair Messias Bolsonaro e seu governo genocida”

Antígona, Hécuba e Medeia são personagens emblemáticas da dramaturgia grega e trazem consigo muitas das barbaridades das quais o ser humano é algoz e vítima ainda hoje.

Lavínia concentra sua direção na interpretação das atrizes, cujas imagens são captadas em close, transmitindo o seu texto basicamente com a voz e as poderosas expressões faciais; para tanto é fundamental a belíssima direção de fotografia de Gabriela Miranda e Matheus Brant, a incrível trilha sonora de LP Daniel e, é claro, atrizes talentosíssimas capazes de dar conta de personagens tão complexas.

Lavínia selecionou cenas de três tragédias que são interpretadas por Karen Rodrigues e Cleide Queiroz (Antígona), Miriam Mehler, emocionante ao transmitir a dor de Hécuba e Helena Ignez revelando toda a fúria indignada de Medeia. Quatro momentos brilhantes de quatro grandes atrizes.

Infelizmente este trabalho fica disponível apenas até às 21h de hoje (14/12) (vide acesso na foto). CORRA!!! 

14/12/2021

 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O ANO DE MARIANA MUNIZ - ATRIZ E DANÇARINA - NO MUNDO VIRTUAL


Em junho deste ano, após assistir a Sete Histórias, dirigida por Clara Carvalho eu escrevi: “Que Mariana Muniz é uma grande atriz não há ninguém que o negue e sua performance em ‘Sete Histórias’ só comprova o seu talento com aquele vozeirão e aquela expressão corporal que o Universo lhe concedeu”. Antes disso, Mariana já havia brilhado com sua breve participação em A Encomenda ou A Memória do Mar e, principalmente, em seu arrebatador solo Sonia-Um Ato por Tolstói.

 A Encomenda

Sonia - Um Ato Por Tolstói

Sete Histórias

        Para fechar o ciclo, eis que neste final de ano, Mariana nos brinda com duas belíssimas performances de teatro-dança: uma delas em parceria com o igualmente magnífico Luis Arrieta (Caminantes), lindamente fotografada no Jardim Botânico de São Paulo e a outra gravada nos aposentos de sua casa onde ela dialoga com a vida secreta dos objetos/coisas ali presentes (A Vida Secreta das Coisas).

Caminantes

A Vida Secreta das Coisas

        Neste último trabalho, a atriz/dançarina faz uso minimalista de todos os recursos corporais que domina tão bem. São lindos e sugestivos os movimentos de seus braços e suas mãos, assim como, as expressões faciais que vão do dramático ao cômico em questão de segundos. Não sou especialista, nem tenho conhecimento do assunto “dança”, mas sei apreciar o que é belo; quanto à questão teatral as performances de Mariana Muniz beiram a perfeição, não só com os trabalhos virtuais deste ano, como em tantos outros como atriz desde Nijinsky (1987), passando por Lago 21 (1988), O Fingidor (1999), O Fantástico Reparador de Feridas (2009), A Máquina Tchekhov (2015), A Cantora Careca (2018) e O Jardim das Cerejeiras (2019).

        Um currículo invejável para uma grande atriz que ainda não teve seu valor totalmente reconhecido.

        Na frase que abre esta matéria eu escrevo que o Universo concedeu, mas muito trabalho e dedicação contribuíram para Mariana Muniz chegar onde chegou.

 

        13/12/2021

 

 

SERVIÇO

 

Para assistir CAMINANTES (até 19/12) e A VIDA SECRETA DAS COISAS (até 22/12), acesse:  www.youtube.com/movicenaproducoes