sexta-feira, 6 de setembro de 2024

MIRADA 2024 – PRIMEIRO DIA

 


A chuva atrapalhou, mas não estragou o primeiro dia do MIRADA, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realização bienal do SESC na cidade de Santos.

O espetáculo EL TEATRO ES UM SUEÑO do grupo peruano Yuyachkani, inicialmente programado para uma praça defronte ao SESC, teve que se apresentar na área de convivência, fato que reduziu bastante a sua fruição, mesmo assim foi lindo ver o desfile das instigantes máscaras inspiradas em caricaturas do peruano Jorge Vinatea Reynoso (1900-1931) e sua interação com o público.

Depois desse movimentado e ruidoso espetáculo foi relaxante dar um passeio pela floresta amazônica deitado numa rede e ouvindo os sons da floresta na bela instalação FLORESTANIA concebida pela diretora teatral Eliana Monteiro.

Após a abertura formal com discursos das autoridades foi a vez do último espetáculo do dia: ESPERANZA. Melhor título não poderia haver para o espetáculo que abre um evento que enfatiza que o teatro é o templo da utopia e da esperança de melhores dias.

A peça, também do Peru, escrita por Marisol Palacios e Aldo Miyashiro e dirigida pela primeira, tem estruturas dramatúrgica e cênica bastante simples mostrando uma família de poucos recursos composta de pai, mãe , um filho e uma filha às voltas com dois problemas: o pai se preparando para receber um futuro candidato a prefeito para almoçar e os filhos preocupados com o desaparecimento do irmão menor de cinco anos; a mãe perambula meio  tonta entre as duas coisas.

Nos 70 minutos da peça os quatro personagens só falam disso, mas pouco fazem para resolver os problemas. Essa passividade mostra que se por um lado sempre há uma esperança, por outro lado ela leva à letargia e ao desânimo.

Um bom elenco interpreta as personagens de forma realista com destaque para o ator que interpreta o pai.

À maneira de Godot, o candidato nunca virá para o almoço e o irmão também não voltará, mas os quatro continuarão esperando, sentados à mesa à luz de velas, porque a companhia de energia cortou a luz por falta de pagamento.

Um brinde na comedoria encerrou o primeiro dia do MIRADA.

 

06/09/2024

 

 

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

SHAKESPEARE APAIXONADO

 

Com pouco mais de 40 anos, Rafael Gomes firma-se cada vez mais como realizador tanto de filmes como de peças teatrais, mesmo assim é digna de surpresa a maturidade e o excelente resultado do espetáculo Shakespeare Apaixonado ora em cartaz no 033 Rooftop.

O espaço cênico idealizado por André Cortez remete aos tempos elisabetanos do século XVI onde Shakespeare viveu, atuou e escreveu a maioria de suas peças. A suave trilha sonora dirigida por Rodrigo Hyppolito também colabora para o clima sugerido pela peça, assim como, os figurinos (Ligia Rocha, Marco Pacheco, Jemima Tuany), as perucas (Feliciano San Roman) e a bela luz desenhada por Wagner Antônio.

A trama, baseada no roteiro do filme homônimo adaptado teatralmente por Lee Hall, trata das inquietudes de William Shakespeare devido à falta de inspiração para escrever um texto e dos desejos da jovem Viola de trabalhar no teatro em uma época em que os palcos eram restritos aos homens. Do encontro dos dois desenvolve- se a história que culmina com as criações de Romeu e Julieta, onde Will e Viola atuam juntos e Noite de Reis, que terá uma personagem com o nome de Viola,

O espetáculo de Gomes não tem pontos mortos, a saída de um grupo é seguida imediatamente de entrada de outro, criando uma dinâmica incrível dos 22 atores no tablado que se assemelha a uma coreografia, algo que tem muito a ver com a direção de movimento assinada por Fabricio Liccursi.

O que seria de tantos pontos positivos se não houvesse um elenco à altura? Desde os pequenos papeis até o trio principal as interpretações são perfeitas desde a voz, a expressão corporal e a interpretação.

Do elenco cabe destacar a figura elegante de Leandro Villa como Marlowe, Gustavo Vaz como o pernóstico e engraçado Lorde Wessex, Thiago Ledier como Adam e Dagoberto Feliz como Fennyman. Destaque mais que especial para a atriz/palhaça Fafá Rennó como a Ama que com seus penetrantes olhos claros rouba todas as cenas em que aparece.


Em suas breves aparições, Ana Lucia Torre empresta todo seu talento para criar a altiva Rainha Elisabeth I.

Rodrigo Simas tem vigor, talento e beleza até demais para criar William Shakespeare, que ao que consta não era nada bonito.

        E todas as estrelas brilham quando Carla Salle entra em cena com sua beleza frágil e uma voz límpida e forte que toda artista deveria ter. Linda como Viola, potente como Romeu, Carla, mais conhecida por seus trabalhos na televisão, é uma grande revelação de atriz teatral.

Shakespeare Apaixonado é um espetáculo de forte apelo popular sem jamais cair no popularesco, mantendo alto nível artístico em suas quase três horas de puro prazer. Aplausos para a direção de Rafael Gomes.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

A peça está em cartaz até 22 de setembro no 033 Rooftop do Complexo JK. Sessões às quintas e sextas às 19h30 e aos sábados e domingos às 15h e 19h30.

 

02/09/2024

 

sábado, 31 de agosto de 2024

QUE FIM LEVOU CARLOTINHA?

 

O projeto Que Fim Levou Carlotinha? foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo; com circulação por doze cidades do interior de São Paulo, o projeto é composto por uma oficina sobre teatro de máscaras ministrado por Cida Almeida, apresentação da peça homônima por Arnaldo D’Ávila e palestra sobre teatro realizada por José Cetra Filho.


O time completo para realizar o trabalho é formado por sete pessoas: Arnaldo d’Ávila (ator, autor e produtor), Cida Almeida (diretora, palestrante), José Cetra Filho (autor, palestrante), Marcelo Andrade (cenógrafo, técnico de luz e som), Francine Laranjeira (intérprete libras), Nara Oliveira (intérprete libras) e Waldi Moreira Martins (motorista). Passaram também pelo grupo, participando de alguns encontros, Blue, Clau, Fabiano, Will e Luís Pedro.

A circulação começou na cidade de Iguape no dia 19 de julho e seguiu para Peruíbe, Espírito Santo do Pinhal, Araras, Piracicaba, Mogi das Cruzes, Pindamonhangaba, Santana de Parnaíba. Mococa, Salto, Indaiatuba, terminando em Tatuí em 30 de agosto sempre nos fins de semana. Foram doze cidades que nos receberam de braços abertos oferecendo as condições técnicas possíveis e muitas condições humanas para que realizássemos da melhor maneira o nosso trabalho.

Cida Almeida realizou com muita categoria sua oficina dando um histórico, conceituando a máscara neutra e dando exercícios onde os participantes tiveram a possibilidade de colocar a máscara e atuar com ela.

No intervalo entre a oficina e a apresentação da peça Arnaldo e o cenógrafo Marcelo montavam o cenário e ajustavam luz e som em árduo trabalho que se repetia ao final do evento para desmontar o cenário. Certa vez fui testemunha do desespero do cenógrafo quando a gaiola da calopsita caiu ao chão se desfazendo em dezenas de partes que ele teve de remontar pacientemente até o início da apresentação.

A peça é um texto escrito por José Cetra Filho e Arnaldo D’Ávila que dá chance ao ator (D’Ávila) de exercitar sua versatilidade interpretando uma velhota simpática, um senhor enigmático e até um gato revoltado. A proposta da peça é o público sair do teatro com uma pergunta: “Mas afinal que fim levou Carlotinha?”. Sucesso de público, a peça foi bastante aplaudida em todas as apresentações.


As palestras foram, a meu ver, também bem sucedidas. Devido à minha mobilidade reduzida realizei as primeiras sentado na cadeira de rodas, mas as seis últimas fiz em pé. Tive uma adesão muito boa dos presentes reagindo ativamente às minhas observações com sorrisos, olhares brilhantes e dando sinais que estavam acompanhando. Tive a confirmação disso com as breves conversas afetuosas ao final das palestras. Uma que me emocionou bastante foi a visita de Hipólita, Lisandro, Puck e Elfo, quatro simpáticos jovens que vieram me abraçar e perguntar quantas vezes eu havia assistido a encenações de Sonhos de Uma Noite de Verão, peça de Shakespeare que eles já haviam montado e interpretado essas personagens. Sinto-me realizado e com a missão cumprida, caso tenha conseguido transmitir minha paixão pelo teatro para quem assistiu às minhas palestras.

O sucesso do projeto coube a cada de nós e, principalmente, a Arnaldo D’Ávila que, como produtor, não, poupou esforços para oferecer ao grupo todas as condições de trabalho e ao público tudo o que foi prometido.


 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

MEMÓRIAS DO VINHO - PER BACCO

 

        Uma história simples e corriqueira: um pai e um filho se encontram após 20 anos de separação e após início cordial começam a trocar farpas sobre fatos do passado e a balancear o que é paixão e o que é trocar essa paixão por dinheiro.

        A paixão do pai é pelos vinhos e ele armazena o seu tesouro em uma imensa adega (qualquer semelhança com meu acervo de programas é mera coincidência, além disso o homem tem 80 anos e usa uma bengala!). O filho volta da Australia com a intenção de comercializar parte dos vinhos raros e caríssimos da adega do pai. O conflito está armado e por meio de diálogos ágeis e ações bem estruturadas a bela e criativa dramaturgia da saudosa Jandira Martini (a quem a encenação é dedicada) e Maurício Guilherme é apresentada ao público.

        Elias Andreato faz uma tradução cênica limpa focando a sua atenção no trabalho dos atores que são realmente as maiores atrações da peça. Vale-se do criativo cenário de Rebeca Oliveira que reproduz uma adega com todas as garrafas expostas em posição horizontal e uma trilha sonora com trechos do belíssimo álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Essas músicas não têm muito a ver com o tema da peça, mas funcionam muito bem para criar o ambiente da encenação.

        Caio Blat representa com muita desenvoltura o filho irrequieto que volta depois de um longo exílio na Australia para saber como estão as finanças do pai na tentativa de realizar seu sonho de fazer cinema. A venda de títulos raros da coleção do pai poderia ser uma das soluções. O ator reage com muita naturalidade às falas do pai e coleciona mais um sucesso em sua carreira.

        Herson Capri é o debilitado e desiludido pai. Colecionou fracassos e perdas na vida e tem um segredo desabonador que só será revelado perto do final da peça. As nuances da personagem são muito bem exploradas pelo ator, que forma uma excelente dupla com Blat.

        A encenação de Elias Andreato tem a elegância e o toque de um bom vinho; essa sensação somada à química entre os atores e ao emocionante brinde ao final  da peça resultam em uma dose de imenso prazer para o espectador que sai do teatro com a alma alimentada.

        Você não precisa ser apreciador de vinho para gostar do espetáculo, mas se o for saberá curti-lo melhor.


        MEMÓRIAS DO VINHO está em cartaz no Teatro Vivo às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h até 15vdec setembro.

        Pode curtir e saborear SEM moderação.

        05/08/2024

         

domingo, 14 de julho de 2024

PETRA

 


Lindsay Castro Lima em foto de Luiza Ananias
 

        1984

No início dos anos 1980 Rainer Fassbinder tinha falecido a pouco (1982), mas ainda estava em voga com seus filmes e com suas peças teatrais; além disso, o assunto homossexualismo feminino começava a ser mais presente nas discussões.

 Nada mais oportuno de que nossos produtores (Teatro dos 4) escolhessem um texto desse autor que tratasse desse assunto para a sua próxima montagem e a escolha recaiu em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant em uma montagem em grande estilo dirigido por Celso Nunes tendo nos principais papeis Fernanda Montenegro como Petra, Renata Sorrah (Karin.a amante) e Juliana Carneiro da Cunha (Marlene, a empregada muda).

A peça estreou no Rio de Janeiro e depois veio para São Paulo causando comoção e tendo enorme sucesso por onde passasse.

Por mais sucesso e prêmios recebidos por Fernanda e Renata, quem brilhou nesse espetáculo foi Juliana revelando todas sensações do seu personagem apenas com sua magnífica expressão corporal. Na saída do teatro e nas críticas teatrais só se enfatizava sua extraordinária performance eclipsando as interpretações das atrizes principais.

 

2001

A peça foi montada novamente em São Paulo dirigida por Ticiana Studart com Denise Weimberg, Deborah Sdecco e Miwa Yanagizawa, sem maior repercussão tanto na crítica como no público,

 

2024

Marlene continua sendo a maior atração de todas encenações dessa peça

        A montagem tem Bete Coelho e Luiza Curvo nos papeis de Petra e Karen. A ágil encenação também de Bete em parceria com Gabriel Fernandes conta com belo cenário de Daniela Thomas e Felipe Tassara envolvido em espelhos com poucos adereços manipulados em cena e luz desenhada por Beto Bruel. A destacar a cena da dança de Petra com a assistente e aquela da revolta de Petra com a amiga e as parentes que remete a cena típica de filme do Almodóvar

        O visagismo e o penteado (Claus Borges) enfeiam sobremaneira Bete Coelho chegando, a meu ver, a comprometer sua atuação que adquire um tom caricatural. Luiza Curvo defende a sensual e aproveitadora Karen com dignidade. Também as outras atrizes têm boa atuação em pequenas participações (Clarissa Kiste, Renata Melo, Miranda Diamant Frias) assim como a cantora/atriz Lais Lacôrte em bonitas e sensuais intervenções musicais acompanhada ao piano.

        Mas os melhores momentos do espetáculo ficam nas mãos, ou melhor, no corpo de Lindsay Castro Lima como Marlene, a servil assistente de Petra. Contrariando aquele de Petra o seu penteado bastante curto é o ideal para seu personagem, assim como seu figurino sóbrio em contraste com aqueles luxuosos das outras personagens (figurinos por Renata Correa). Com seu andar marcado e um impressionante controle da expressão corporal Lindsay faz as vezes da contrarregragem, assim como comenta todas ações e sensações de Petra com sua também incrível expressão facial. Trata-se de uma performance mais uma vez digna de atenção e de muitos prêmios. Sem desmerecer o restante da ficha técnica, a interpretação de Lindsay como Marlene é a melhor atração deste espetáculo. NÃO DEIXE DE VÊ-LA!


        PETRA está em cartaz no Teatro Cacilda Becker até 07 de agosto de quarta a sábado às 21h e domingos às 19h.

        Produção da Cia. BR116-teatrofilme

 

        14/07/2024

 

 

 

terça-feira, 9 de julho de 2024

ÁLBUM DE FAMÍLIA

 

         - Um pouco de história não faz mal a ninguém

Jorge Farjalla é obstinado pelas peças míticas de Nelson Rodrigues. Já montou Doroteia (1949) em 2017 e Senhora dos Afogados (1947) em 2018 e agora chegou a vez de Álbum de Família (1946), só faltando encenar profissionalmente Anjo Negro (1947) para completar a série.

Foi o crítico Sábato Magaldi que classificou de míticas essas quatro peças escritas em seguida (Álbum de Famíla>>Senhora dos Afogados>>Anjo Negro>>Doroteia) na segunda metade da década de 1940. Nelson Rodrigues as classificou de “peças desagradáveis”

Se há desagradabilidade nas quatro peças mencionadas, não resta dúvida que Álbum de Família seja a campeã nesse quesito pelo tema áspero e perverso tratado e pela forma como ele é tratado, apesar do enorme talento do autor.

A ciranda passional da peça é composta de um pai (Jonas) que tem atração pela filha (Gloria), o filho (Edmundo) com atração pela mãe (Senhorinha), enquanto esta tem atração pelo outro filho (Nonô) e para completar Guilherme é tarado pela irmã Gloria. O casal Jonas e Senhorinha vive com os quatro filhos e a irmã de Senhorinha (Ruth) em um ambiente opressivo e cheio de luxúria armazenada que extravasa vez ou outra. Retratos singelos dessa nobre família são mostrados durante a ação.

Ao que consta Farjalla nunca apresentou em São Paulo algumas das peças psicológicas ou das tragédias cariocas do autor.

Farjalla realizou uma montagem criativa de Doroteia que constava com uma notável interpretação de Rosamaria Murtinho, mas a encenação de Senhora dos Afogados foi, a meu ver, bastante equivocada prejudicando bastante um dos mais belos textos de Nelson Rodrigues.

Vejamos o que ele faz com Álbum de Família!

A encenação 

É poderosa a primeira impressão que se tem ao adentrar o espaço cênico formado por um chão de terra vermelha e um álbum ao vivo da família; a única figura presente é Nonô, que também será a última a ali permanecer: aquele chão consumirá toda a família. Louve- se de início a bela e equilibrada cenografia assinada pelo diretor Jorge Farjalla. Tudo iluminado com a tradicional beleza assinada por Aline Santini.

Como encenador, Farjalla tratou o texto com a crueldade e a perversidade que lhe são próprias, sem, porém, exagerar nos apelos eróticos/passionais e até enfatizando os lados poéticos, irônicos e até engraçados tão presentes na obra de Nelson Rodrigues. Assiste-se às desgraças daquela família mais que disfuncional com um misto de horror e de humor no semblante. Para tanto contou com a belíssima trilha sonora também assinada por ele, composta por canções de Cartola e com o harmonioso elenco formado em parte por atrizes e atores bastante jovens. O resultado é muito bom e bastante fiel ao universo rodriguiano.

Por decisão do encenador foi suprimido o personagem do locutor e as fotos do álbum que são substituídas por cenas ao vivo.


 

Com muita garra Mariana Barioni e Alexandre Galindo dominam a cena como os protagonistas Senhorinha e Jonas. Mesmo sem ter idade para a personagem a composição de Mariana é perfeita e Galindo reafirma seu talento como o atormentado Jonas.

Lidia Engelberg tem participação digna como a despeitada (nos dois sentidos) Ruth.

Roberto Borenstein empresta sua voz potente ao avô servil que oferece a neta virgem para Jonas.

Jullia Leite tem uma pequena, mas importante participação como a mulher de Edmundo.

Helena Cury, Lakís Farias e Lara Paulauskas completam o elenco feminino.

Daniel Marano e Iuri Saraiva defendem com força os revoltados irmãos Guilherme e Edmundo, assim como Fernanda Gidali como Gloria que tem uma boa participação apesar do excesso de agudo na voz que confere um tom infantil à sua personagem.

Finalmente Agmar Beirigo que empresta seu corpo para exprimir os sentimentos do mudo Nonô, que apesar de ser considerado louco por todos é a personagem mais lúcida e pura da história.

Há muito mistério a ser desvendado à medida que você folheia este inusitado álbum de família. Há muita magia. HÁ MUITO TEATRO!!

NÃO DEIXE DE VER

Prestigie o novo espaço teatral da cidade: TEATRO ESTÚDIO situado na Rua Conselheiro Nébias 891.

Temporada até 18 de agosto com sessões às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h 

09/07/2024

 

 

 



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terça-feira, 2 de julho de 2024

HEDDA GABLER

 


Depois que, em 1879, Nora bateu a porta da casa de bonecas dando adeus à burguesa vida familiar, Ibsen abriu uma fase de ouro em sua produção dramatúrgica criando quase anualmente obras primas como Espectros (1881), Um Inimigo do Povo (1882), O Pato Selvagem (1883), Rosmersholm (1886), A Dama do Mar (1888) e finalmente Hedda Gabler (1890).

Esta última foi a escolhida pelo Círculo de Atores para sua próxima realização.

        Hedda Gabler é uma peça difícil por retratar Hedda, uma personagem contraditória com a qual as outras personagens, com exceção do Juiz Brack, não sabem como lidar. Esse jogo complexo é um desafio para a direção da peça. Mais uma vez a premiada Clara Carvalho se sai muito bem desse tipo de desafio.

        Não encontro termo melhor para definir este trabalho, trata-se de uma direção cristalina: limpa, transparente e original como a água de uma fonte.

        A direção do ótimo elenco é exemplar na uniformidade do todo, sem deixar de destacar cada um,  a começar pela presença luminosa de Chris Couto em pequena, mas marcante participação.

        Com sua bela e potente voz, Nábia Villela se destaca tanto na interpretação da parte cantada da trilha, especialmente criada por Gregory Slivar, como a empregada da casa.

        Mariana Leme se impõe no difícil papel de companheira rejeitada. Bela e imponente presença em cena que em certos momentos me lembrou a dignidade e a classe da saudosa Cleyde Yáconis.

        Carlos de Niggro responde com talento pelo personagem de Lovborg.

        A virilidade de Jorge Tesman se contrapõe à sua insegurança e timidez e Guilherme Gorski sabe jogar com essa contradição na composição de seu personagem.

        Sergio Mastropasqua empresta seu talento e sua classe para compor o frio e perverso Juiz Brack.

        Karen Coelho foi uma escolha perfeita para o papel de Hedda, mesclando sua aparente fragilidade física com as ações onde defende com unhas e dentes os seus pontos de vista. Com este trabalho Karen se impõe como um dos grandes talentos jovens do nosso teatro.

        Dispondo desse texto e desse elenco de ouro, Clara conta ainda com a significativa cenografia de Chris Aizner que coloca até uma linda varanda no exíguo palco do auditório do Masp, a iluminação assinada por Nicolas Caratori , os figurinos de autoria de Marichilene Artisevskis e a incrível trilha sonora de Gregory Slivar executada ao vivo que comenta e complementa cada ação da peça.

        A preparação vocal realizada por Babaya Morais, aliada ao talento dos atores, permite que o público entenda o texto, apesar das péssimas condições acústicas do auditório do MASP

        Desse dilúvio de talentos só podia resultar um espetáculo com o quilate de Hedda Gabler.

        NÃO DEIXE DE VER.

 

        HEDDA GABLER está em cartaz no Auditório do MASP até 25/08 às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às18h

 

        02/07/2024