É triste constatar
que se os mortos voltassem,
não se saberia,
absolutamente, o que fazer com eles.
(Alfred Hitchcock)
José Roberto Jardim é um ser humano de
rara sensibilidade, a qual ele empresta para o seu eu-encenador para presentear
o público com espetáculos preciosos.
O germe de “O Retorno”, está em outras
duas belíssimas realizações de Jardim: “Não Contém Glúten” (espetáculo
memorável de 2016) e “A Desumanização” (2020).
Em “O Retorno”, um casal em luto pela
morte/desaparecimento do filho recebe surpreso e alegre o filho de volta e
esses fatos (desaparecimento / volta) acontece tantas vezes que esse retorno
acaba se tornando banal e até indesejável. Esse retrato cruel de uma família é
o tema desse texto do dramaturgo e compositor norueguês Fredrik Brattberg
(1978).
Como bom compositor de música clássica
Brattberg escreve um texto que podia ser chamado de “variações em torno de um
retorno” e as cenas poderiam ser classificadas como os andamentos de uma
música: adagio, alegro, alegro ma non troppo, presto, dependendo das
reações do casal nos inúmeros regressos do filho.
Em bom momento, aquilo que poderia ser
uma encenação realista, Jardim transformou em um jogo cênico que beira o teatro
do absurdo onde todos os recursos teatrais (cenografia, imagens projetadas,
iluminação, figurinos, visagismo, trilha sonora e interpretação) são usados de
forma total e surpreendente e o mínimo explode em um máximo.
O artista alemão associado ao
movimento Bauhaus Oskar Schlemmer (1888-1943) assim definiu o teatro total “ O
teatro total deve ser uma criação artística, um conjunto orgânico de feixes de
relações entre luz, espaço, superfície, movimento, som e ser humano, com todas
as possibilidades de variações e de combinações desses diversos elementos”, e
é exatamente isso que Jardim fez ao conceber esse instigante espetáculo que
surpreende o público a cada cena (ou variação) posterior a um black out
luminoso (isso pode parecer um oxímoro, mas trata-se de um original efeito de
luz criado por Aline Santini que, pelo excesso de luz, cega o público criando
um efeito de black out. Só vendo! Só vendo!).
O espetáculo tem uma precisão
cirúrgica onde cada elemento tem seu tempo certo de interferir e de durar, algo
importante também para a interpretação e para a movimentação corporal do elenco
que brilha como a mãe (Helena Ranaldi), o pai (Leonardo Medeiros) e o filho (Pedro
Waddington).
A projeção de imagens (Coletivo
Bijari), assim como a deslumbrante (perdão por mais esse adjetivo!!) iluminação
criada por Aline Santini dialogam com a cena, assim como a trilha sonora de
Rafael Thomazini. É importante destacar aqui a importância da operação de áudio
e vídeo (também por Rafael Thomazini) que deve estar totalmente em sincronia
com o restante das funções.
O claro-escuro de algumas cenas
remete aos quadros de Caravaggio (1571-1610), assim como não há como não lembrar
de Edward Hopper (1882-1967) nas cenas de solidão do casal.
O resultado obtido por José Roberto
Jardim na regência de todos esses elementos não é menos que belo e
surpreendente, além de nos fazer refletir sobre as nuances das relações
familiares.
Desde já um dos mais importantes
espetáculos do ano.
Não é mais necessário ir a Bayreuth
para assistir a uma ópera de Wagner, mantidas as devidas proporções, temos um
bom exemplo de teatro total aqui em casa no SESC Santana, graças ao trabalho do
Zé!!
NÃO DEIXE DE VER e DE SE SURPREENDER
COM TANTA CRIATIVIDADE EM CENA!
Em tempo: O programa impresso (isso é pleonasmo, pois TODO programa deveria ser impresso) é muito rico em informações relatadas por grande parte dos envolvidos na encenação).
O RETORNO está em cartaz no SESC Santana até 01/03: sexta e sábado,20h e domingo, 18h. Para sessões extras consulte o site do SESC.
17/02/2026



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