quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

MEDEA

 

Foto de João Caldas

Foi de Eurípedes (480 a.C.– 406 a.C.) a primeira “Medeia” a que assisti em 1970 com a eterna e memorável Cleyde Yáconis no papel título, dirigida por Silnei Siqueira, no mesmo palco do Teatro Anchieta onde hoje três grandes atrizes dividem o papel de Medea na versão de Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), sob a direção de Gabriel Villela. O mito é o mesmo, mas Sêneca é mais radical e bem mais cruel do que Eurípedes na descrição do furor vingativo de Medea.

Juliana Galdino, Leona Cavalli, Tânia Farias, Bete Coelho e Nicole Cordery foram outras atrizes que interpretaram essa figura mitológica, sem contar Bibi Ferreira que com sua Joana em “Gota D’Água” foi uma das mais poderosas versões da ira e da sede de vingança de Medeia.

O talento de três atrizes se soma à criatividade de Gabriel Villela para apresentar o árido e cruel texto de Sêneca, resultando desde já em um dos mais importantes espetáculos do ano.

Inconformada com o abandono de Jasão, Medea urde e realiza um sanguinário plano de vingança exterminando Creonte, sua filha Creusa (noiva de Jasão) e seus próprios filhos, poupando Jasão para que este viva o luto da perda dos entes queridos.

Rosana Stavis empresta seu enorme talento para interpretar a maior parte do texto, seguida de Mariana Muniz que atua tanto com a voz como com o corpo. Cabe a Walderez de Barros uma cena quase ao final onde ela lê o texto sentada, mas com muita garra e vigor, sendo aplaudida em cena aberta. São interpretações potentes e viscerais onde as atrizes levam quase ao limite o vigor de suas vozes.

Plínio Soares tem uma interpretação propositalmente comedida como a Ama conselheira; Jorge Emil incorpora Jasão com muita emoção e Claudio Fontana, sempre notável, é o poderoso Creonte. Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro encarregam-se do coro que, em certas cenas, tem também a presença de Fontana ou de Emil.

Os figurinos têm a marca registrada do barroquismo de Villela, muito bem complementados pelas máscaras de Shicó do Mamulengo e Junior Soares.

J.C. Serroni prova que beleza não é incompatível com o que se mostra em cena, em um cenário em tons avermelhados que remete a todo sangue resultante da violência e furor de Medea; a luz de Wagner Freire completa o efeito devastador das atitudes da personagem.

A sugestiva trilha sonora é de Carlos Zhimber

“Medea” é um espetáculo sombrio que se junta a outros em cartaz na cidade (“Mulher em Fuga”, “Habitat” e “O Motociclista no Globo da Morte”) para tratar da violência contemporânea que está cada vez mais perto das nossas portas.

Prepare-se para a fúria de Medea!

Em cartaz no Teatro Anchieta (SESC Consolação) até 08/03/2026. Quintas a sábados, 20h. Domingos e feriados, 18h. 

Essa foi a peça que escolhi para ser a quinta milésima (5.000ª) da minha vida de espectador apaixonado. A escolha não podia ter sido mais certa. Assisti na estreia, no dia 29/01/2026, junto com pessoas queridas.

VIVA O TEATRO, TEMPLO DA ESPERANÇA E DA UTOPIA! 

03/02/2026

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