Jessica Parks é uma mulher bem
estruturada. Tem uma relação aparentemente estável com o marido e com o filho
adolescente e profissionalmente é uma juíza bem sucedida e conceituada que
prima pela ética e pela defesa de um sistema judiciário mais humano.
Acontecimentos no âmbito familiar
fazem com que, em grande conflito, ela reveja seus valores éticos, a maneira
como a mulher é vista na sociedade patriarcal, a educação do filho e os modos
de lidar com a justiça.
Com seus conhecimentos da área
jurídica (ela é advogada) e dotada de imenso talento dramatúrgico a escritora
australiana Suzie Miller (1965) criou essa personagem complexa que é ao mesmo
tempo um presente e um desafio para uma grande atriz. Na Inglaterra Rosamund
Pike ganhou os principais prêmios de 2025 por sua interpretação na montagem
londrina estreada há pouco mais de um ano e o mesmo deve acontecer por aqui com
a arrebatadora interpretação de Drica Moraes.
Afastada dos palcos paulistanos há
algum tempo, Drica ressurge com uma incrível energia dominando a primeira meia hora
da peça com um longo e poderoso monólogo. Caco Ciocler e Caio Cesar Passos que
até então fazem só figuração, surgem como o marido (Caco) e o filho (Caio) que
serão figuras importantes no desenvolvimento da trama, mas o protagonismo
continuará com Drica até o final das quase duas horas que dura a peça, onde o
público quase não respira para acompanhar as reviravoltas da trama tão bem
urdida pela dramaturga.
A maneira como a família trata o filho
adolescente e o fato do maior inimigo do garoto estar em seu quarto é bastante
semelhante àquela da série “Adolescência” exibida na Netflix, mas a semelhança
para por aí.
Inter Alia é uma expressão latina que
significa “entre outras coisas” e é usado em termos jurídicos para mostrar que
provas apresentadas e fundamentação legal são apenas um dos lados da questão em
julgamento. E é bem assim, entre outras coisas, que se debate a personagem de
Drica.
Um palco nu com um imenso pano branco
ao fundo é o cenário inicial da peça que aos poucos vai sendo preenchido com
móveis que revelam os diversos ambientes onde se desenvolve a ação. Cenário
assinado por Rodrigo Portella e Mina Quental e iluminado por Ana Luzia Di
Simoni.
A direção do sempre surpreendente
Rodrigo Portella é bastante discreta focando toda a atenção na personagem que
merece: Jessica! E Drica Moraes responda a isso com seu imenso talento onde a
fragilidade de sua delicada e bela figura é inversamente proporcional à energia
e garra mostradas em cena.
Pelos temas tratados - violências
contra a mulher, falhas na educação de adolescentes, fragilidade dos meios
jurídicos no tratamento de estupros – Inter Alia é um soco no estômago, do qual
os espectadores saem com um gosto amargo na boca, misto de indignação e
revolta.
INTER ALIA está em cartaz no Teatro
Vivo até 20/09 com sessões às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às
18h.
ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!
05/08/2026
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