quarta-feira, 5 de agosto de 2026

INTER ALIA

 

        Jessica Parks é uma mulher bem estruturada. Tem uma relação aparentemente estável com o marido e com o filho adolescente e profissionalmente é uma juíza bem sucedida e conceituada que prima pela ética e pela defesa de um sistema judiciário mais humano.

Acontecimentos no âmbito familiar fazem com que, em grande conflito, ela reveja seus valores éticos, a maneira como a mulher é vista na sociedade patriarcal, a educação do filho e os modos de lidar com a justiça.

Com seus conhecimentos da área jurídica (ela é advogada) e dotada de imenso talento dramatúrgico a escritora australiana Suzie Miller (1965) criou essa personagem complexa que é ao mesmo tempo um presente e um desafio para uma grande atriz. Na Inglaterra Rosamund Pike ganhou os principais prêmios de 2025 por sua interpretação na montagem londrina estreada há pouco mais de um ano e o mesmo deve acontecer por aqui com a arrebatadora interpretação de Drica Moraes.

Afastada dos palcos paulistanos há algum tempo, Drica ressurge com uma incrível energia dominando a primeira meia hora da peça com um longo e poderoso monólogo. Caco Ciocler e Caio Cesar Passos que até então fazem só figuração, surgem como o marido (Caco) e o filho (Caio) que serão figuras importantes no desenvolvimento da trama, mas o protagonismo continuará com Drica até o final das quase duas horas que dura a peça, onde o público quase não respira para acompanhar as reviravoltas da trama tão bem urdida pela dramaturga.

A maneira como a família trata o filho adolescente e o fato do maior inimigo do garoto estar em seu quarto é bastante semelhante àquela da série “Adolescência” exibida na Netflix, mas a semelhança para por aí.

Inter Alia é uma expressão latina que significa “entre outras coisas” e é usado em termos jurídicos para mostrar que provas apresentadas e fundamentação legal são apenas um dos lados da questão em julgamento. E é bem assim, entre outras coisas, que se debate a personagem de Drica.

Um palco nu com um imenso pano branco ao fundo é o cenário inicial da peça que aos poucos vai sendo preenchido com móveis que revelam os diversos ambientes onde se desenvolve a ação. Cenário assinado por Rodrigo Portella e Mina Quental e iluminado por Ana Luzia Di Simoni.

A direção do sempre surpreendente Rodrigo Portella é bastante discreta focando toda a atenção na personagem que merece: Jessica! E Drica Moraes responda a isso com seu imenso talento onde a fragilidade de sua delicada e bela figura é inversamente proporcional à energia e garra mostradas em cena.

Pelos temas tratados - violências contra a mulher, falhas na educação de adolescentes, fragilidade dos meios jurídicos no tratamento de estupros – Inter Alia é um soco no estômago, do qual os espectadores saem com um gosto amargo na boca, misto de indignação e revolta.

INTER ALIA está em cartaz no Teatro Vivo até 20/09 com sessões às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL! 

05/08/2026

 

 

 

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