Zé Henrique de Paula já havia adaptado
“As Troianas” de Eurípedes (480 aC-406 aC) em 2009, ambientando a montagem no clima
de terror que foi o campo de concentração de Auschwitz na Polônia durante a
segunda guerra mundial.
Na atual montagem, Zé Henrique trouxe
a história para ambiente de terror mais próximo: a chamada “Torre das Donzelas”
do Presídio Tiradentes em 1972, onde aconteciam os desmandos e barbaridades
cometidos pela ditadura brasileira com as presas políticas ali encarceradas.
Com base na história recente do país,
nas informações contidas no livro “A Torre: o cotidiano de mulheres
encarceradas pela ditadura” de Luiza Villaméa e na tragédia de Eurípedes Zé
Henrique criou dramaturgia poderosa que denuncia males do terrível regime que dominou
o Brasil de 1964 a 1985. De alguma maneira, esta montagem dialoga com “Brenda
Lee e o Palácio das Princesas” (2022) e “Codinome Daniel” (2024), outras duas
obras do Núcleo Experimental que Zé Henrique realizou em parceria com Fernanda
Maia na parte musical e que tratam de um período negro de nossa história.
As personagens da tragédia de
Eurípedes, Hécuba, Cassandra, Andrômaca e Helena, estão presentes na adaptação
do diretor, na pele de mulheres confinadas no presídio e as outras detentas
formam o coro, também uma referência ao original grego.
Pequenos, mas importantes, detalhes
escapam do espectador como a leitura de um texto teatral pelas presidiárias
(referência ao fato real de que na ocasião elas ensaiaram e apresentaram uma
peça na torre) e também a canção “Suíte dos Pescadores” entoada por Hécuba
quando uma detenta é retirada do local (referência à canção que as presidiárias
cantavam quando uma delas era retirada do local). Esses detalhes estão
relatados no programa repleto de informações, mas que, infelizmente só está
disponível via QR code.
O coro das detentas é formado por
Edyelle Brandão, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli e Vanessa
Esposito.
Os papeis masculinos cabem a Fernando
Tavares, Victor Edwards, Fabio Redkowicz (um advogado que remete a Taltíbio) e
Brian Penido Ross (um general prepotente que remete a Menelau).
Bia Rezi interpreta Andrômaca grávida
com bastante delicadeza, Mari Rosinski (substituindo Bruna Guerin na sessão a
que assisti) apresenta Helena com muita garra, Nábia Villela empresta seu
talento costumeiro para a interpretação de uma Hécuba vencida e envelhecida,
Patricia Gifford brilha como Cassandra, a vidente que prevê fatos realmente
acontecidos como a desativação do presídio e a construção de uma estação do
metrô no lugar.
A “Midas” Fernanda Maia compôs obras
(letra e música) de acordo com a época (anos 1970), onde canções de protesto
brasileiras e latino americanas estavam em voga). A direção musical, também de
Fernanda, é precisa e bela.
O espetáculo de Zé Henrique será
sempre importante e necessário quando nossa democracia correr perigo, como
parece ser o caso neste momento. Urge que os jovens o assistam!
AS TROIANAS está em cartaz às terças e
quartas feiras às 20h no Teatro do Núcleo Experimental.
NÃO DEIXE DE VER!
09/09/2026


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