quarta-feira, 9 de setembro de 2026

AS TROIANAS

 

 

Foto de Anne Beatriz

Zé Henrique de Paula já havia adaptado “As Troianas” de Eurípedes (480 aC-406 aC) em 2009, ambientando a montagem no clima de terror que foi o campo de concentração de Auschwitz na Polônia durante a segunda guerra mundial.

Na atual montagem, Zé Henrique trouxe a história para ambiente de terror mais próximo: a chamada “Torre das Donzelas” do Presídio Tiradentes em 1972, onde aconteciam os desmandos e barbaridades cometidos pela ditadura brasileira com as presas políticas ali encarceradas.

Com base na história recente do país, nas informações contidas no livro “A Torre: o cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura” de Luiza Villaméa e na tragédia de Eurípedes Zé Henrique criou dramaturgia poderosa que denuncia males do terrível regime que dominou o Brasil de 1964 a 1985. De alguma maneira, esta montagem dialoga com “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” (2022) e “Codinome Daniel” (2024), outras duas obras do Núcleo Experimental que Zé Henrique realizou em parceria com Fernanda Maia na parte musical e que tratam de um período negro de nossa história.

As personagens da tragédia de Eurípedes, Hécuba, Cassandra, Andrômaca e Helena, estão presentes na adaptação do diretor, na pele de mulheres confinadas no presídio e as outras detentas formam o coro, também uma referência ao original grego.

Pequenos, mas importantes, detalhes escapam do espectador como a leitura de um texto teatral pelas presidiárias (referência ao fato real de que na ocasião elas ensaiaram e apresentaram uma peça na torre) e também a canção “Suíte dos Pescadores” entoada por Hécuba quando uma detenta é retirada do local (referência à canção que as presidiárias cantavam quando uma delas era retirada do local). Esses detalhes estão relatados no programa repleto de informações, mas que, infelizmente só está disponível via QR code.

O coro das detentas é formado por Edyelle Brandão, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli e Vanessa Esposito.

Foto de Edgar Machado

Os papeis masculinos cabem a Fernando Tavares, Victor Edwards, Fabio Redkowicz (um advogado que remete a Taltíbio) e Brian Penido Ross (um general prepotente que remete a Menelau).

Bia Rezi interpreta Andrômaca grávida com bastante delicadeza, Mari Rosinski (substituindo Bruna Guerin na sessão a que assisti) apresenta Helena com muita garra, Nábia Villela empresta seu talento costumeiro para a interpretação de uma Hécuba vencida e envelhecida, Patricia Gifford brilha como Cassandra, a vidente que prevê fatos realmente acontecidos como a desativação do presídio e a construção de uma estação do metrô no lugar.

A “Midas” Fernanda Maia compôs obras (letra e música) de acordo com a época (anos 1970), onde canções de protesto brasileiras e latino americanas estavam em voga). A direção musical, também de Fernanda, é precisa e bela.

O espetáculo de Zé Henrique será sempre importante e necessário quando nossa democracia correr perigo, como parece ser o caso neste momento. Urge que os jovens o assistam!

AS TROIANAS está em cartaz às terças e quartas feiras às 20h no Teatro do Núcleo Experimental.

NÃO DEIXE DE VER! 

09/09/2026

 

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