segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CANSEI DE SER BELO

 

        1 – Um pouco de história

Comédias rasgadas que tem os bastidores teatrais como cenário sempre rendem boas gargalhadas do público, principalmente para aqueles que convivem com o fazer teatral.

Elas são melhor estruturadas do que o gênero, assim chamado, besteirol (*), mas não deixam de revelar que são herdeiras das memoráveis “Quem Tem Medo de Itália Fausta” (1979) de Ricardo de Almeida e Miguel Magno e “Pedra, a Tragédia” (1986) de Vicente Pereira. E muito antes (1970) não se pode esquecer da visita que Braulio Pedroso fez ao gênero com “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” onde Marília Pêra brilhava como a vedete Joana.

Foi assim com “Barbara Não Lhe Adora” (2001), comédia impagável de Henrique Tavares que mostrava um grupo teatral sequestrando a crítica Barbara Heliodora e obrigando-a a assistir todos os ensaios da peça que estava sendo montada e isso se repete com este texto de Emilio Boerchat dirigido com muito humor por Kleber Montanheiro. Ambas são de “rir às bandeiras despregadas”, como se dizia das comédias de Dercy Gonçalves nos anos 1960.

2 – Cansei de Ser Belo

Boechat e Montanheiro conhecem os meandros do mundo teatral e sabem tirar partido disso com piadas e situações cômicas desse ambiente.

Rodrigo (Fernando Pavão) é galã típico de telenovelas. Bonitão por fora e oco por dentro um dia resolve provar que também é bom ator e para isso quer abrir mão de sua bela estampa. Estão em jogo os interesses comerciais de seu empresário (Wilson de Santos), do autor de telenovelas (Marcelo Goes) e de sua companheira espevitada que se julga uma vênus platinada (opa!) com sua longa peruca que circula afetadamente ao redor da cabeça (Erica Montanheiro).

As peripécias de Rodrigo para tornar-se feio envolvem várias situações: ensaios com outros diretores, outras atrizes, vivência como morador de rua (os famosos laboratórios que os artistas faziam há algumas décadas) e convívio com hippies e drogados; tudo isso relatado com um humor escrachado e muito engraçado. Com exceção de Fernando Pavão que interpreta o ator, o restante do elenco se reveza em vários personagens todos eles bastante caricaturais. O resultado é muito divertido e a direção de Kleber Montanheiro é muito responsável por isso criando situações cênicas impagáveis como o final da peça, que não vou comentar por aqui para não tirar o prazer do riso do futuro espectador.

Erica Montanheiro dá um show como as diversas mulheres que atravessam a vida de Rodrigo. Wilson de Santos está ótimo como o empresário e como o diretor de teatro pobre que é viciado em whisky Old Eight. Marcelo Goes reveza-se com versatilidade em outros papeis. Fernando Pavão sabe passar do charmoso e maneiroso galã para um tipo nada belo ou atraente sem usar máscaras ou maquiagem.

Rindo e se divertindo também crescemos.


 

CANSEI DE SER BELO está em cartaz no Teatro YouTube até 22/11. Sexta e sábado, 20h / Domingo, 18

(*) Besteirol é um gênero de comédia surgido nos anos 1980 focado em humor pastelão, situações absurdas, piadas visuais e escatologia, sem grande compromisso com a seriedade.

05/10/2026

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