sábado, 25 de julho de 2026

ENTRE IRMÃOS

 

Dionísio abençoou o aconchegante Espaço Convivência do Teatro Vivo iluminando o curador André Acioli para trazer apenas excelentes espetáculos para o local.

Ali já foi a sala de espera de um consultório médico (“Um Pequeno Incidente”), a sala dos professores de uma escola (“Oleanna”) e agora é o salão de um velório em “Entre Irmãos”. Todas elas com um mínimo ou nenhum cenário fazendo a magia da imaginação do espectador se manifestar de uma maneira que só o teatro permite. As três peças também são apenas com dois intérpretes.

Ao adentrar o velório uma visitante desatenta danificou parte do esquife que foi imediatamente restaurado pela organização da casa. Como se vê, o público participa do velório do pai de dois irmãos que não se encontravam há mais de vinte anos. Enquanto um deles ficou na família, se anulando profissionalmente para ajudar o pai na condução de um restaurante, o outro abandonou a todos após a morte da mãe tornando-se um fotógrafo de certa relevância. O encontro traz de volta muitos rancores e um acerto de contas doloroso para ambas as partes. Certas revelações mudam o caminho da trama em recurso bastante melodramático, no entanto a direção precisa de Marcos Damigo e, principalmente, a excelência dos intérpretes Fernando Pavão e Otávio Martins nunca fazem a ação resvalar para o melodrama, mantendo a dignidade do drama enfrentado pelos dois irmãos.

Qualquer pessoa que já esteve em um velório sabe que seu olhar passeia pelo caixão com o falecido, pelos familiares e pelas outras pessoas ali presentes e é exatamente isso que acontece nesta montagem: olhamos para o caixão com o cadáver (outra vez a magia da imaginação), para o embate entre os dois irmãos e para a reação das outras pessoas presentes na plateia (opa, no velório!) que estão sentadas em nossa frente.

Otávio Martins tem uma brilhante composição como o irmão mais velho que permaneceu com o pai, personagem tensa e estressada que mantém o corpo contraído durante toda a ação e os braços em torno do peito parecendo compensar a carência de toda uma vida. A atuação de Otávio explicita todos esses sentimentos. Já Fernando Pavão tem uma atuação mais interiorizada condizente com a personagem do irmão caçula que teve outro tipo de vida depois que abandonou a família. Duas excelentes interpretações que se complementam e envolvem o público presente.

Não assisti à montagem original concebida para palco italiano, mas acredito que a peça ganhou muito mais nesta versão onde o público participa do velório.

A trilha sonora de Ricardo Severo e o desenho de luz de Beto de Faria comentam e complementam a ação da peça. É muita bela a iluminação da cena em que um início de agressão termina em abraço emocionado dos dois irmãos.

Belo, digno e emocionante ENTRE IRMÃOS é um trabalho que precisa ser visto.

Em cartaz de 24/07 a 13/09. Sexta e sábado, 20h e domingo, 18h no Espaço Convivência do Teatro Vivo.

 

25/07/2026

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