Quando Andréa Bassit recebeu (e
aceitou) a proposta de Marcus Montenegro para escrever um texto em comemoração
aos 90 anos de carreira de Nathalia Timberg, ela não tinha ideia do texto
maravilhoso que iria resultar dessa ideia.
Andréa coloca em cena Rosa, uma
senhora de 97 anos (a idade real de Nathalia), proprietária de um teatro
decadente, repleto de dívidas, mas também de lembranças maravilhosas. Juliana
(Carla Marins), uma sobrinha astuciosa e materialista luta para vender o espaço
para uma igreja e Laura (Rita Elmôr), filha de antigos funcionários do teatro,
está ao lado de Rosa na tentativa de manter aquele espaço como ícone teatral.
É a cultura vs. a barbárie, o espaço
cultural vs. especulação imobiliária. Assuntos tão presentes em nossa cidade,
com a destruição de tantos teatros por conta de política perversa e anticultural
da atual prefeitura.
O texto de Andréa passa por essas
questões graves, mas é revestido de muita ternura ao mostrar a relação de Laura
com Rosa, cheia de lembranças de momentos significativos daquele teatro.
Um momento mágico do espetáculo
acontece quando, sob uma iluminação suave, Laura espalha papeis relembrando
espetáculos ali apresentados: “Um Panorama Visto da Ponte”, “Esperando Godot”, “O
Pagador de Promessas”, “Pedreira das Almas” (a maioria deles contou com Nathalia
no elenco em seus tempos no TBC!).
Conhecedora da história do teatro
paulistano Andréa não deixa de fazer outras homenagens como relatar que Rosa e
sua irmã Maria, que também era atriz, adquiriram um antigo cinema para
transformar em teatro, clara referência àquilo que fizeram Nydia Licia e Sérgio
Cardoso nos anos 1950.
De relato em relato a dramaturga
construiu um texto que é uma delícia não só para os amantes de teatro, mas para
todo o público que aprecia o bom teatro.
Escrito para Nathalia, o texto
transcende essa homenagem para se tornar um dos mais belos e emocionantes
escritos sobre o nosso teatro.
Clara Marins se reveste de toda
antipatia necessária para interpretar a vilã Juliana, já Rita Elmôr transborda
simpatia como a doce Laura; ambas o fazem com muito talento.
É claro que Nathalia é o foco das
maiores atenções e é um privilégio assistir ao trabalho cheio de energia e de
nuances dessa grande atriz quase centenária. Aplausos em cena aberta são
espontâneos após ela cantarolar versos de “La Mer”. Uma verdadeira joia!
Ricardo Grasson dirige o espetáculo
com as mesmas delicadeza e ternura com que Andréa escreveu o texto enfatizando o trabalho das três atrizes.
O cenário de Chris Aizner reproduz o
teatro de Rosa e foi concebido para facilitar as caminhadas de Nathalia pelo
palco. Cesar Pivetti assina o desenho de luz, propositalmente desordenado (as
mudanças de iluminação parecem ser aleatórias, sem muito a ver com o que se
passa em cena). Figurinos do Atelier Fabio Namatame.
Merecidamente as atrizes são
ovacionadas ao final e Nathalia agradece os aplausos emocionada.
Tive a honra de presentear Nathalia com uma pastinha contendo ficha técnica, capa do programa e resenha que escrevi sobre os 14 espetáculos do TBC que ela participou de 1956 a 1961.
FÔLEGO está em cartaz no SESC Santo Amaro até 13 de dezembro. De quinta a sábado, 20h / domingo, 18h.
NEM PENSE EM PERDER, mesmo
considerando que o SESC Santo Amaro é um pouco longe.
03/11/2026

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