A arte tem de ter
algo que me tira do chão e me deslumbra
(Ferreira Gullar)
Há um tesouro escondido no aconchegante teatro ºAndar e você só tem mais três oportunidades de descobri-lo. As últimas chances acontecem no próximo sábado (31/10) às 11h e 15h e no outro sábado (07/11) às 15h. Começo esta matéria por aquilo que normalmente vem escrito ao final porque INSISTO, este é um dos melhores espetáculos do ano e seria uma lástima alguém perdê-lo.
A personagem de Zelda Fitzgerald (1900-1948), que aparece por
poucos minutos no filme "Meia Noite em Paris" (2011) de Woody Allen chamou a atenção da atriz Larissa da Matta. Esse interesse
lhe conduziu a uma intensa pesquisa onde descobriu coisas sobre uma mulher
fascinante; a partir daí ela e Pedro Amaral construíram a dramaturgia deste
espetáculo que mostra a ascensão e queda de Zelda desde sua juventude marcada
pela irreverência no Alabama, o encontro e posterior casamento com F. Scott
Fitzgerald (1896-1940), os anos loucos e a era de ouro do jazz em Nova York, a
fama, as bebedeiras, as brigas e as mútuas acusações do casal, a ida a Paris e
depois à Riviera Francesa e a volta aos Estados Unidos onde apareceram os
primeiros sinais de esquizofrenia até sua morte trágica em 1948 em incêndio em
clínica onde ela estava internada. Muito bem construído, o texto flui
suavemente na pouco mais de uma hora que dura o espetáculo.
Ver Larissa da Matta em cena é um
verdadeiro assombro. Com domínio corporal extraordinário ela executa
performance de teatro-dança de tirar o fôlego do espectador mais insensível.
Cabeça, tronco e membros estão ali para auxilia-la a nos contar a trajetória de
Zelda, quer dançando a melindrosa, quer dialogando com Scott, ou mesmo sofrendo
numa clínica psiquiátrica. Poucas vezes, nas minhas mais de 5.000 idas ao
teatro, assisti a interpretação tão arrebatadora. Larissa, com apenas 28 anos,
deverá estar na lista das revelações de 2026, ano em que temos interpretações
femininas tão importantes como aquelas de Georgette Fadel em “Gota D’Água” e
Drica Moraes em “InterAlia”.
A encenação de Pedro Amaral, também um
jovem de 29 anos, é outro trunfo desta montagem tão bem sucedida, toda ela
centrada na interpretação de Larissa, mas também colaboram para o resultado
final:
- o cenário simples, mas muito bonito que consta
de um biombo, uma poltrona (onde um imaginário Scott está sentado), uma mesinha
e um lindo nicho em estilo art déco;
- os belíssimos figurinos que trazem a assinatura de Marcelo Leão;
- a trilha sonora repleta de jazz dos anos 1920/1930;
- a iluminação precisa e
- as magnificas coreografias e
preparação corporal da atriz realizadas por Ana Beatriz Trucharte.
O diretor assina a cenografia, a
iluminação e a trilha sonora.
Parafraseando Fernando Pessoa: “Tudo
vale a pena, quando o talento não é pequeno” e o talento desses jovens é grande, estando nas mãos deles o futuro do nosso teatro; por isso é muito importante
prestigia-los e conferir o que eles têm a dizer.
Tenho consciência que este texto talvez
esteja muito adjetivado, mas isso faz parte do entusiasmo e da surpresa com que
eu assisti ao espetáculo.
Urge que surjam novas temporadas para
que o grupo possa continuar a apresentar toda essa beleza.
ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!
25/10/2026
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