sábado, 12 de abril de 2025

CARNE VIVA


 Texto/interpretação, movimentação e visagismo do elenco/ cenário/adereços/figurinos/iluminação/trilha sonora/projeção de imagens. 

    Não é fácil harmonizar todos os elementos que compõem um espetáculo teatral. Essa é a função atribuída ao encenador (diretor) que muitas vezes negligencia um ou outro elemento prejudicando o resultado final.

    Luh Mazza revela uma notável maturidade na direção do texto de sua autoria em cartaz no SESC 24 de maio.

    Conheci o trabalho de Luh em 2016 quando assisti a “Kiwi”, dirigido por ela, depois assisti a uma versão virtual de “Carne Viva” em 2021, dirigida por Reginaldo Nascimento. Meu conhecimento profissional de Luh limitava-se a esses dois trabalhos, dai a minha surpresa com o alto nível da atual direção. Pesquisando sobre sua carreira tomei conhecimento dos muitos trabalhos realizados por ela nos vinte anos em que está na ativa.

    Quando assisti à versão virtual de “Carne Viva” escrevi algo que voltei a sentir ao presenciar esta versão no teatro e reproduzo o texto a seguir “O texto foi escrito por Luh Maza ainda adolescente e quando ainda atendia por Luciano. Realço isso porque é bastante importante saber que a virulência do texto contra o machismo e a sensibilidade da mulher que perpassam toda a ação da peça tenham brotado da imaginação de alguém que era visto como um rapaz. Isso só pode ter ocorrido porque, independentemente do corpo, a alma de Luh já era feminina.”

    Luh retrata o universo feminino com crueza, mas com delicadeza. Na versão atual Luh distribuiu o monólogo original para três atrizes.

    O espetáculo inicia com uma belíssima cena da silhueta das atrizes e daí em diante a beleza não abandona mais o palco. 

    A maturidade da direção está em conciliar os elementos citados no início desta matéria: o cenário formado por uma mesa com um espelho d’água de autoria da própria autora, a belíssima iluminação de Aline Santini, a potente trilha sonora composta pelo português Bruno Moraes, os figurinos pretos e brancos assinados por Telumi Hellen e Mari Morais, o visagismo assinado por Louise Helène e a precisa movimentação cênica das atrizes orquestrada por Bruna Longo.

    A tudo isso se somam aa interpretações das atrizes: Mawusi Tulani empresta sua bela voz para várias intervenções / Tenca Silva, que já havia causado grande impressão em Agro Peça, volta a brilhar com sua poderosa presença em cena / Christiane Tricerri põe sua grande sensibilidade à disposição da personagem que interpreta.


    Carne Viva é exemplo de teatro total onde todos elementos têm igual importância e se somam para resultar em um espetáculo magnífico.


    Fotos de Ariela Bueno

    CARNE VIVA está em cartaz no SESC 24 de maio até 20/04 com sessões às quintas (19h), sextas e sábados (20h) e domingos (18h). Sessão extra no dia 19 /04 (sábado) às 17h.


    12/04/2025


terça-feira, 8 de abril de 2025

CANÇÂO INDIGESTA


     Há 46 anos assisti “Mãos Sujas de Terra”, se não me engano no Teatro Aplicado, onde hoje é Teatro Bibi Ferreira. A peça de forte conteúdo social era produzida pelo recém fundado “Grupo Apoena” do Luiz Carlos Moreira. 

     O tempo passou, em 1993 o grupo passa a se chamar “Engenho Teatral” criando um teatro móvel para apresentar espetáculos em vários locais da periferia da cidade. Posteriormente o grupo se instala em um terreno da Vila Carrão e ali coloca de forma permanente seu teatro, sempre fiel ao seu posicionamento socio - político objetivando formação de público e apresentando espetáculos sempre voltados ao esclarecimento e à reflexão do público sobre os temas tratados.

     2025. Sempre fieis aos seus objetivos Moreira e Irací Tomiatto estão em cartaz com dois espetáculos Festa (aos sábados às 19h) e Canção Indigesta (aos domingos às 18h).

     Quem faz o simpático e caloroso acolhimento ao público é Moreira.

     A seguir entra-se no espaço cênico, onde uma mesa com comidinhas veganas, suco de melancia e cerveja nos espera. 

     “Canção Indigesta” questiona como os poderosos usaram a mídia e a publicidade para transformar necessidades dos cidadãos em desejos de consumo. Cinco intérpretes em cena vão desfilando os fatos, ora com raiva, ora com bom humor, colocando em primeiro plano um perdido e manipulado Zé Ninguém.

     A dramaturgia do espetáculo foi criada coletivamente e o texto final é de autoria de Moreira. 

     O elenco formado por Irací Tomiatto, Maria Clara Haro, Michelle Gabriolli, Dinho Hortêncio e João Victor de Morais se desdobra na interpretação das várias cenas e canta (muito bem!) as músicas compostas por Lucas Vasconcelos.

     A ida ao “Engenho Teatral” é um prazer sempre renovado e a certeza de assistir a um espetáculo que nos diverte e nos faz refletir sobre as mazelas contemporâneas.

     08/04/2025



segunda-feira, 7 de abril de 2025

EU FIZ POR MERECER


O TEMPO E O VERBO DE PLÍNIO MARCOS


 Amo os atores e por eles amo o teatro 

e sei que é por eles que o teatro é eterno

(Plínio Marcos)

Corrente da memória: então é assim, alguém que tem lembranças de fatos vividos no teatro e conheceu outros artistas resolve transmitir suas memórias para outras pessoas, as quais irão passar adiante essas histórias formando uma rede de preservação da MEMÓRIA DO TEATRO. 

Oswaldo Mendes, profundo conhecedor da vida e obra de Plínio Marcos (1935-1999), generosamente resolveu transmitir parte desse conhecimento por meio dessa  deliciosa e comovente “quase” revista musical onde ele reconta histórias das quebradas do mundaréu.

Em cenário simples e bonito de Carlos Palma, os veteranos e experientes Oswaldo Mendes e Walter Breda juntam-se ao surpreendente Fernando Rocha para narrar as histórias, como também emprestam suas vozes para as falas do repórter do tempo mau que foi a ditadura brasileira.


       De lambuja interpretam belas canções que ilustram aquilo que está sendo contado. 

Tudo acontece de maneira informal e espontânea para a fruição do público.

Aquelas e aqueles que fazem e/ou amam teatro vão rir e chorar com esse delicioso espetáculo.


        Próximas apresentações:

Espaço Barra-SP

       Rua Barra Funda, 519

       próximo ao Metrô Marechal 

       Sábado, 12 de abril, 20h

      Domingo, 13 de abril, 18h

      Grátis


NÃO DEIXE DE VER!


07/04/2025


sábado, 5 de abril de 2025

LADY

     Os palcos paulistanos têm o privilégio de ter em cartaz no momento dois importantes espetáculos que dialogam entre si trazendo ao público um pouco da memória (tão desprezada!) das nossas artes.

      Enquanto Othon Bastos dá uma aula de teatro falando de sua carreira no SESC 14 Bis, Susana Vieira repassa sua vida e trajetória na televisão brasileira no recém estreado “Lady” no Teatro Vivo. Cada um à sua maneira.

Em “Lady” uma atriz se prepara para interpretar Lady Macbeth na peça de Shakespeare e conversa com o público nos intervalos dos ensaios. O bem elaborado roteiro de Vana Medeiros intercala cenas da tragédia com momentos da vida e da obra de Susana proporcionado ao público duas horas de bom teatro.

Susana tem completo domínio do palco tanto quando assume ares shakespearianos ao criar cenas da tragédia como na espontaneidade ao falar de sua vida e de sua trajetória na televisão brasileira. Susana é irreverente e debochada na medida certa, criando uma rara empatia com o público que a acompanha com um brilho nos olhos.

Há muita sinceridade em seus relatos, não poupando críticas a situações e pessoas (sem nominá-las) e falando abertamente sobre doença e seu relacionamento tóxico com o último companheiro. Susana comove e faz rir, dependendo do caso.

Em certo momento a atriz cita Dulcina, Tônia Carrero, Bibi Ferreira e Marília Pêra, grandes inspiradoras para ela; aliás cabe lembrar a semelhança dela com Marília na dosagem certa de humor, deboche e ironia em seus trabalhos, algo raro mesmo nas melhores atrizes brasileiras.

“Lady” é criado por um verdadeiro trio de ouro feminino: Vana Medeiros como autora, Leona Cavalli como diretora e Susana Vieira brilhando como atriz.

O TRIO DE OURO: Vana, Susana e Leona

O papo ao final do espetáculo só comprova a simpatia e a espontaneidade de Susana. Cheguei até a contar a ela que a tirei para dançar em um daqueles baile de formatura tão comuns nos anos 1960. Ela era uma jovem muito bonita com um vestido rodado branco lembrando aquele modelo de Maria no baile de “West Side Story” e já tinha uma certa fama participando da “TV de Comédia” na TV Tupi. Eu, um jovem bobinho terminando o colegial criei coragem e a tirei para dançar. E ELA ACEITOU!!!

E saímos rodando pelo salão ao som dos boleros tocados pela orquestra do Enrico Simonetti e sob os olhares incrédulos de meus colegas de colégio: “Olha, o Zé está dançando com a Susana Vieira!”


LADY está em cartaz no Teatro VIVO de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h.

DELÍCIA DE EPETÀCULO!!

05/04/2025


sexta-feira, 4 de abril de 2025

TUDO ACONTECE NUMA SEGUNDA FEIRA DE MANHÃ

 

Vinicius Piedade é um artista inquieto sempre procurando retratar em cada nova obra as mazelas da nossa sociedade. 

Nessa trilogia que ele chama de “Pessoas trabalhando” e que inicia com a presente peça, ele põe em foco a perversidade que pode estar presente em uma entrevista para admissão a um emprego. Pode ser um jogo terrível entre dominador (o entrevistador) e dominado (o candidato) e sempre acontece às segundas feiras, dia da semana que as empresas, normalmente, dedicam à seleção de pessoal.

Sabiamente o dramaturgo situa a ação em área que lhe é familiar, uma entrevista de teatro: um ator pleiteia um papel numa peça. O jogo de rato e gato está formado e Vinicius brinca com a situação fazendo um exercício de meta teatro saborosíssimo dando chance para atuações marcantes ao elenco, formado por ele mesmo e Evas Carretero.

São duas cenas distintas onde cada um assume uma ou outra função e dentro da mesma cena pode haver troca de papeis. Pode parecer complicado, mas na representação isso é um prazeroso exercício para o espectador que se mantém atento e curioso até o final.

A diretora Silvana Garcia foca toda a sua atenção no vigoroso embate entre os atores que acontece em um palco quase vazio iluminado por César Pivetti.

Todo destaque para as interpretações vigorosas e apaixonadas de Vinicius Piedade e Evas Carretero que se saem muito bem tanto na agressividade e prepotência do dominador como na passividade e obediência do dominado. As reações mudas de Carretero às ações de seu opositor são um espetáculo à parte.

TUDO ACONTECE NUMA SEGUNDA FEIRA DE MANHÂ está em cartaz apenas até domingo (06/04) no Itaú Cultural com sessões de quinta a sábado às 20h e no domingo às 19h. Em maio volta ao cartaz para mais cinco sessões na Biblioteca Mário de Andrade. 

È muito pouco para espetáculo tão bom. Por isso, programe-se!

        Fotos de Danilo Ferrara

04/04/2025


terça-feira, 1 de abril de 2025

UM TARTUFO e A MAGIA DO TEATRO


     A “Companhia Teatro Esplendor” do Rio de Janeiro para comemorar seus 15 anos de existência resolveu montar um clássico do teatro francês escrito em meados do século XVII: Tartufo de Molière (1622-1673). 

     Nos ensaios o diretor Bruce Gomlevsky propôs ao grupo que improvisasse as cenas sem se ater ao texto escrito, recurso bastante usado nesse estágio do processo criativo.

     Algo que ninguém esperava é que essas improvisações evoluíram de tal maneira que estavam superando o que poderia resultar em uma montagem tradicional. 

     Só a magia do teatro e o talento e a criatividade daqueles que o fazem podem explicar o resultado arrebatador desse processo: UM TARTUFO! 

     Gomlevsky transformou um clássico em um dos espetáculos mais radicais e contemporâneos que os nossos palcos já viram, sem ser infiel ao conteúdo original, mas recriando-o e atualizando deixando claro os perigos do fanatismo e da crença em falsos mitos ,tão em voga no Brasil de hoje.

     O impacto visual do início remete às encenações de Tadeuz Kantor (em especial a “A Nossa Classe”) para enveredar, a seguir, para o expressionismo alemão. estética que acompanha todo o espetáculo, nas cores dos figurinos, do cenário e na caracterização do elenco. A potência da encenação é reforçada pela trilha sonora realizada a partir das músicas do compositor esloveno Borut Krzisnik  que evolui junto com a movimentação corporal precisa do elenco. O resultado é eletrizante.

     A história do fanático e servil Orgonte e do seu explorador, o falso monge Tartufo, é contada sem uma única palavra e torna-se compreensível mesmo para quem não conhece o original de Molière.

     Em uma coreografia precisa e harmônica o elenco movimenta-se no palco de maneira brilhante.

     Pela importância dos papéis de Orgonte (Gustavo Damasceno que já havia interpretado “Outra Revolução dos Bichos”) e de Tartufo (impressionante caracterização de Yasmin Gomlevsky) tornam-se os destaques, mas é importante ressaltar a excelência de Thiago Guerrante, Ricardo Lopes, Victoria Reis, Glauce Guima, Lucas Garbois e Gustavo Luz nos demais papéis.

     “Um Tartufo” não é apenas para ser recomendado pelas suas inúmeras qualidades, mas para alertar que se trata de uma experiência poucas vezes vista em nossos palcos e que deve obrigatoriamente ser vista por aqueles que se interessam pelos possíveis caminhos das artes cênicas.

     A peça cumpriu uma curta temporada em quatro fins de semana no Teatro D Jaraguá, mas urge que volte ao cartaz em São Paulo pelo seu alto valor artístico e renovador.

     31/03/2025


domingo, 30 de março de 2025

GENTE É GENTE?



UM POUCO DE HISTÓRIA, NÂO FAZ MAL A NINGUÉM

     Um homem comum é seduzido e manipulado pelo poder, pelo dinheiro e pela ideologia da guerra. Em 1925, época difícil da entre guerras na Alemanha, Bertolt Brecht (1898-1956) escreveu “Um Homem É Um Homem” mostrando a transformação que o cidadão Galy Gay sofre por não saber dizer não e não ter opinião própria. A peça foi montada em São Paulo em 1971 com direção de Emílio Di Biasi e em 2006 com o Grupo Balcão, dirigida por Paulo José.


2025

     Claudia Barral transforma a Viúva Begbick na cafetina Amorosa, Galy Gay no motorista de aplicativo Gesualdo Brilhante que à vista de todos se transforma em Jeremias Leite devido ao assédio dos militares. O homem pacífico sai de casa para comprar peixe e se torna um soldado, tão sanguinário como seus colegas; isso tudo em cenário carnavalesco bem brasileiro. Qualquer semelhança com a manipulação sofrida por parte do povo brasileiro em tempos recentes, não é mera coincidência, afinal também estamos numa entre guerras, sabe-se lá o que nos espera em 2026!  O texto de Barral é contemporâneo, mas não trai a estrutura da peça de Brecht que lhe inspirou. Sabiamente, no título, ele trocou “homem” por “gente” e colocou um instigante ponto de interrogação ao final.

     O cenário formado por emaranhado de fios de Márcio Medina, os figurinos de Cássio Brasil e a saborosa trilha sonora de Zeca Baleiro formam o tripé que colabora com a direção colorida e contagiante de Marco Antonio Rodrigues.

     O bom elenco completa a encenação, com boas cenas de grupo com destaque para Dagoberto Feliz, Paulo Américo como Gesualdo/Jeremias (ele divide esse papel com Ailton Graça) e todas as honras para mais uma memorável interpretação da Nábia Villela, emprestando sua potente voz e sua presença cênica para compor a cafetina Amorosa (papel que foi de Cleyde Yáconis em 1971).

     "Gente É Gente?" faz jus a toda boa encenação que carrega como inspiração o dramaturgo Bertolt Brecht, divertindo, mas fazendo pensar sobre os desmandos da contemporaneidade.


     GENTE É GENTE? está em cartaz no SESC Vila Mariana dec29 de março a 04 de maio de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 18h.


     30/03/2025