sexta-feira, 3 de março de 2023

BANCO DOS SONHOS – Primeira visita

 

Há muito o que se pensar, falar e/ou escrever sobre Banco dos Sonhos, uma obra de Kiko Marques que mais uma vez nos surpreende e nos tira do chão.

Conforme previ em matéria escrita dias atrás, o espetáculo revela muito mais do que uma sinopse pode conter. Na verdade, o universo criativo de Kiko Marques e da Velha Companhia é tão amplo que simples palavras dificilmente irão captar todas as nuances e camadas que esta instigante obra possui.

Uma segunda visita aos delírios de Benedita me deixarão mais à vontade para escrever sobre.

Por enquanto fica a sensação e a certeza de ser testemunha privilegiada do nascimento de mais um potente trabalho da Velha Companhia com interpretações absolutamente incríveis de Alejandra Sampaio, Virginia Buckowski, Maristela Chelala, Marília Santos, Valmir Sant’Anna, Mateus Matilde Menezes e Kiko Marques.

Alejandra e Kiko

Kiko e Marília

Valmir e Mateus

Maristela e Virginia

Virginia, Alejandra e Maristela já têm lugar garantido nas listas das melhores interpretações femininas do ano! Valmir se mostra ator cada vez mais poderoso com sua belíssima voz e Marília e Mateus são gratíssimas surpresas. A participação de Kiko em cena é pequena, mas extremamente significativa.

Visualmente belíssimo, o espetáculo conta com cenário e figurinos de João Pimenta, a abençoada iluminação de Marisa Bentivegna e as incríveis imagens criadas por vídeografismo e vídeo mapping por André Grynwask.

ADENDO: Conforme informação que acabo de receber de Marisa Bentivegna, a concepção do cenário é de Kiko Marques e não de João Pimenta como citado acima.

ADENDO 2: Acabo de receber mensagem "fresquinha" da querida Virginia Buckowski afirmando que o cenário da peça é de Kiko Marques e João Pimenta. 

E o que dizer da cena final com Benedita de costas e o espectador solitário sentado na outra plateia do teatro do SESC Pompeia? Você já presenciou muita coisa bela na vida, mas garanto que esta é uma daquelas insuperáveis e inesquecíveis. 

BANCO DOS SONHOS está em cartaz até 02 de abril no SESC Pompeia de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 18h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL! 

03/03/2023

 

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O BEIJO NO ASFALTO – 2023

 

Fotos de Kim Leekyung 

As rubricas de O Beijo no Asfalto são para o leitor da peça, tão estimulantes quanto os diálogos.

Pérolas como “em mangas de camisa, os suspensórios arriados, com um escandaloso revólver na cintura” para descrever o delegado Cunha e mais ainda “Amado Ribeiro tem toda a aparência de um cafajeste dionisíaco” aparecem já na primeira página do texto e seguem por toda a leitura tanto para descrever outros personagens como para definir ações dos mesmos (“Dona Matilde, apoplética de satisfação”, “Dona Judith, crispada de timidez”). Nelson não chama de black out o escurecimento das cenas, mas de TREVAS!

Realmente a leitura do texto é um espetáculo à parte e essas rubricas devem fazer as delícias do encenador e do elenco que irão montar a peça.

O diretor Bruno Perillo retorna agora com essa bem sucedida montagem estreada em 2019, com modificações no elenco: Lucas Frizo interpreta o Comissário Barros; Carolina Haddad assume com bastante propriedade o papel de Dália; Gustavo Trestini interpreta Aprígio com toda a angústia requerida pelo personagem e Iuri Saraiva tem a chance de mostrar mais uma vez o seu talento ao incorporar a “cafajestice dionisíaca” ao seu Amado Ribeiro. O restante do elenco permanece o mesmo de 2019 com algumas alterações no gestual e na movimentação cênica.

Escrevi sobre a apresentação de 2019 e, em linhas gerais, acredito que itens lá observados continuam válidos para esta de 2023. 

https://palcopaulistano.blogspot.com/2019/11/o-beijo-no-asfalto.html

Malgrado certo preconceito em relação ao homossexualismo, O Beijo no Asfalto (1961), junto com A Falecida (1953) e Toda Nudez Será Castigada (1965), forma, a meu ver, o melhor núcleo dentre as tragédias cariocas escritas por Nelson Rodrigues e a montagem de Bruno Perillo dignifica o texto, tanto em seus diálogos quanto em suas insuperáveis rubricas. 

O BEIJO NO ASFALTO está em cartaz no Teatro Itália apenas às quartas feiras às 21h até 26 de abril.

NÃO PERCA! 

02/03/2023

domingo, 26 de fevereiro de 2023

PLASTICUS DEI

 

Meu primeiro contato com essa incrível e talentosa família sorocabana foi em 2009 quando assisti absolutamente encantado a Astros, Patas e Bananas dirigido por Roberto Gill Camargo (pai) com participação de Janice Vieira (mãe) no acordeom e elenco liderado por Andréia Nhur (filha).

Seguiram-se As Estrelas São Para Sempre? (2015) e Mulher Sem Fim (2017), sempre com trabalhos impecáveis de Andréia Nhur.

Veio a pandemia, Andréia passou algum tempo se aperfeiçoando na cidade de Gent na Bélgica e ei-la de volta com este surpreendente Plasticus Dei onde radicaliza suas experiências com sonorocoreografia, usando a voz ora cantando suavemente, ora emitindo sons e grunhidos que servem de base para seus não menos que magníficos movimentos, onde pés, mãos e dedos atuam em perfeita sintonia com as expressões faciais e do resto do corpo

Guardadas as devidas proporções, a sensação que se tem ao assistir a performance de Andréia assemelha-se àquela que se sente ao ver passar o desfile de uma escola de samba. A cada momento é uma figura nova que surge e nos surpreende passando de uma jovem cantante, para um animal acuado e faminto, para uma rainha regiamente vestida com os plásticos que compõem a cena e até para uma donzela antipática que estende a mão para o público para em seguida rejeitá-lo.

A criação da encenação contou com a colaboração do coreógrafo moçambicano Horácio Macuacuá e de Paola Bertolini, além da mamãe Janice Vieira na sonorocoreografia. O papai Roberto Gill Camargo assina a iluminação junto com Paola Bertolini. Sempre em família!

São muitas as nuances deste excelente trabalho de Nhur que infelizmente cumpriu temporada relâmpago na Oficina Cultural Oswald de Andrade (apenas três dias, de 23 a 25 de fevereiro). Urge que o espetáculo retorne aos palcos paulistanos para que um público maior conheça e passe a admirar o talento de Andréia Nhur.

No sábado, dia 27, o delicado curta metragem O Cisne, minha mãe e eu com Andréia e Janice foi exibido antes da apresentação teatral, lotando a plateia do simpático e aconchegante Cineclube da Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Diga-se de passagem que é sempre muito agradável ir à Oswald, ambiente acolhedor com seu gostoso Café Colombiano e agora com a perspectiva da inauguração de um novo espaço para os livros e a leitura.

Cultura é bom e nós gostamos!! 

26/02/2023

 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A LIVRARIA CULTURA E O TEATRO EVA HERZ

 

Eu gostaria de separar o Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, se é que isso é possível. 

O teatro que leva o nome da saudosa fundadora da livraria, foi inaugurado em 2007 com curadoria artística de Dan Stulbach, assessorado pelo querido e competentíssimo André Acioli que mais tarde herdou o cargo e o exerce até hoje de maneira brilhante.

Espetáculos importantíssimos passaram pelo palco desse aconchegante teatro nesses 16 anos de vida, sendo que um deles (A Alma Imoral com Clarice Niskier) está ali em cartaz quase pelo mesmo tempo.

A Livraria Cultura surgiu muito antes, mas a memória dela aparece para mim no ano de 1972 quando eu trabalhava no escritório central da Philips, sediado na esquina da Augusta com a Paulista, no prédio hoje ocupado pelo Banco do Brasil. Todo dia na hora do almoço eu e alguns colegas íamos até a pequena livraria localizada na esquina onde hoje está a Livraria Drummond, lá os simpáticos vendedores Darcy e Piazza me atendiam das maneiras mais gentil e competente possíveis, sob os olhos atentos de Dona Eva e Sr. Kurtz, sempre presentes na loja (se fecho os olhos posso ainda ver o casal sentado em um canto da livraria).

Muita água passou debaixo da ponte nesses 50 anos, a livraria expandiu primeiramente dentro do Conjunto Nacional, cresceu com filiais em outros bairros e em outras cidades, mantendo durante um bom tempo as qualidades iniciais, mas nos últimos anos o gigantismo, o atendimento impessoal e talvez a má administração fizeram com que eu me afastasse, migrando para a Livraria Martins Fontes na esquina da Avenida Brigadeiro Luís Antonio. 

Sendo assim, me custa dizer que a Livraria Cultura para mim já fechou há muito tempo e a situação em que se encontra hoje não me sensibiliza. A minha frequência ao local se limita às idas ao teatro, sempre bem recebido por André Acioli e sua equipe.

Lamento pela perda do espaço que já foi ocupado pelo Cine Astor e que a julgar pelo andamento da carroça, pode se tornar um templo evangélico ou um supermercado e, mais que tudo, pelo Teatro Eva Herz que irá no mesmo embrulho em que for o espaço.

TRISTES TEMPOS!

 

15/02/2023

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

GÊNESE – ESTÚDIO DE CRIAÇÃO

 

Dias atrás escrevi uma matéria-lamento sobre os fechamentos do Teatro Alfa, do Teatro Eva Herz, dos cinemas e do Café Fellini do anexo do Espaço Itaú-Augusta, mas os nossos guerreiros homens da cultura privada não esmorecem e eis que por iniciativa de Alexandre Galindo e Eric Lenate surge moderno espaço multiuso em uma zona degradada dos Campos Elíseos, mas que tem todas as chances de se tornar um polo de cultura importante para nossa cidade, desde que tenha uma programação diversificada e atraente e que seja facilitado o acesso às suas dependências.

O release do espaço aponta o uso do mesmo para “a produção de shows, peças de teatro em prosa e musicais, dança, ensaios fotográficos, gravações audiovisuais, base de produção audiovisual e outras atividades e eventos criativos em geral, além de um exclusivo estúdio próprio de podcast e videocast”. Como se pode notar o espaço pode ter múltiplos usos e a visita que fiz, guiada pelo querido Iuri Saraiva, só comprova o fato, através de várias salas que aos poucos serão equipadas para essas atividades.

A cereja do bolo do espaço é Sala Fênix com 11m de largura por 22m de comprimento com 5m de pé direito em vão livre. A plateia poderá ser disposta de várias maneiras. Citando novamente o release “Em breve esse ambiente estará preparado para também receber espetáculos cênicos de pequeno e médio porte e público em torno de 150 pessoas”.


A inauguração ocorreu no dia 13 de fevereiro de 2023 com breves falas dos seus idealizadores, seguidas de um delicioso coquetel de confraternização onde o pessoal de teatro brindou ao sucesso desse importante empreendimento para a nossa cultura.





O teatro e a cultura de São Paulo agradecem a Lenate e a Galindo!

 

14/02/2023

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

BANCO DOS SONHOS – 20 ANOS DA VELHA COMPANHIA

 

 

Nos primeiros dias de 2013, assisti entre comovido e surpreso a um espetáculo que havia estreado meio obscuramente no final de 2012 e que mudou a minha vida tanto de espectador como de ser humano. Na ocasião escrevi “Há um verdadeiro tesouro a ser descoberto no espaço subterrâneo do Instituto Capobianco: trata-se de Cais ou Da Indiferença das Embarcações do grupo Velha Companhia, escrito e dirigido por Kiko Marques.”

Essa identificação com o universo retratado me levou a visitar Bonifácio, Magnólia, Waldeci, Nilmar, Walcimar, Berenice, Walciano, Juciara, Cachorrinho, Ozorio, Sargento Evilázio e a poita Rosimeri quatorze vezes, sempre me encantando, me emocionando e apreendendo com a lição de humanidade que Kiko Marques imprimiu às suas personagens e à sua narrativa.

E a paixão por Cais me levou a uma amizade duradoura com os componentes da VELHA COMPANHIA que neste ano completa 20 anos de presença em nossos palcos. O cuidado na maturação do texto e na encenação de um espetáculo e talvez o enorme sucesso de Cais poderiam ser a razão da companhia ter produzido apenas oito títulos nesse período, todos eles sucessos de público e de crítica.

Em 2018, por ocasião da comemoração dos 15 anos da companhia, fiz uma matéria com seus fundadores Alejandra Sampaio, Virginia Buckowski e Kiko Marques intitulada Imitando a Girafa...Uma visão afetiva da Velha Companhia cujo link segue abaixo:

https://palcopaulistano.blogspot.com/2018/04/velha-companhia-15-anos.html

Em 2019 outro soberbo trabalho de Kiko Marques e da companhia chegava em nossos palcos, trata-se de Casa Submersa, que teve sua temporada de sucesso interrompida pela pandemia e transformou-se em um podcast de 12 episódios que está disponível no spotfy.

Então é com muita alegria que anuncio: A VELHA COMPANHIA ESTÁ DE VOLTA, comemorando agora seus gloriosos vinte anos de existência.

No dia 02 de março estreia no Teatro do SESC Pompeia BANCO DOS SONHOS, texto e direção de Kiko Marques, tendo no elenco Alejandra Sampaio, Virginia Buckowski, Maristela Chelala, Valmir Sant’Anna, Mateus Matilde Menezes, Marília Santos e ele.

A sinopse da peça constante do release não revela muito: “A peça revela o universo onírico de uma transtornada atriz à beira da morte, em uma rua insone da cidade de São Paulo, a partir da visita de uma inesperada credora”, mas conhecedor do universo criativo de Kiko Marques, ouso afirmar que o espetáculo irá revelar muito mais.

A produção sempre impecável da companhia conta com João Pimenta no cenário e no figurino, Bruno Menegatti na trilha sonora original, Marisa Bentivegna no desenho de luz e Um Cafofo/André Grynwask no videografismo e videomapping. Assistência de direção de Fábio Mraz.

Temporada de 02 de março a 02 de abril de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 18h.

AGORA É SÓ SE PREPARAR para aquele, que tenho certeza, será um dos grandes eventos teatrais do ano.

 

13/02/2023

 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O TEATRO E O CINEMA


As artes me encantam e alimentam minha alma. Assim como não posso deixar de comer, tenho urgência em ouvir música, ler um bom livro, visitar uma exposição e, é claro, ir ao cinema e ao teatro, minhas maiores paixões, porque de alguma maneira essas duas artes englobam todas as outras.

Nos últimos tempos, por uma série de razões passei a frequentar mais o teatro do que o cinema. Em 2022 foram 216 idas ao teatro contra apenas 52 filmes, muitos deles assistidos em casa.

Nestes dias pré carnaval e considerando que já assisti à maioria das peças em cartaz - foram 21 até hoje, com destaque para as boas surpresas: SOLO DE MARAJÓ (vinda do Pará), F(R)ICÇÔES (grande momento de Vera Holtz e Rodrigo Portella) e VONTADE DE UMA COISA COM VOCÊ (delicado espetáculo com o grande ator Rogério Fróes) - e que há uma promoção nos cinemas com ingressos a dez reais resolvi por os filmes em dia, começando pelos candidatos ao Oscar na categoria de melhor filme.

O delirante e grandiloquente ELVIS de Baz Luhrmann eu já havia assistido no ano passado e nesta semana seguiram-se o bem chatinho OS FABELMANS (na tentativa de fazer um filme intimista, Steven Spieberg fez um filme sem conflitos e soporífero), o metido a pós moderno TÁR (onde Todd Field abusa da narrativa fragmentada e das cenas que não se desenvolvem, sendo que o único mérito do filme cabe à interpretação magnífica de Cate Blanchett), o histérico TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO (começa bem, mas depois abusa da velocidade das cenas em universos paralelos deixando o espectador tão desnorteado quanto a protagonista Evelyn, em ótima interpretação de Michelle Yeoh).

E ontem foi o dia de assistir a OS BANSHEES DE INISHERIN para o qual me dirigi meio incrédulo tanto pelo inusitado do título quanto pelas decepções com os outros candidatos.

E que grata surpresa!! A partir do rompimento de uma longa amizade por uma das partes, o filme idealizado e dirigido com muita delicadeza por Martin McDonagh trata, entre outras camadas, de solidão, de urgência em realizar coisas dada a finitude da vida e de amizade. Colin Farrell tem uma interpretação comovente como o inseguro Pádraic que faz de tudo para reaver a amizade do músico Coln interpretado por Brendan Gleeson. Têm função importante na trama a irmã de Pádraic (Kerry Condon, excelente), o rapaz problemático Dominic (Barry Keoghan), a misteriosa velha senhora Mrs. Cormick (Sheila Flitton), sem esquecer da adorável Jenny, a pequena mula companheira de Pádraic.

Tudo se passa na fictícia ilha de Inisherin na costa oeste da Irlanda no ano de 1923, época da guerra civil irlandesa, da qual se vêm e se ouvem os bombardeios ao longe.

Um grande pequeno filme que merecia o Oscar tanto de filme como de interpretação para o trio Colin (ator), Brendan (ator coadjuvante) e Kerry (atriz coadjuvante).

Dos cinco candidatos restantes não pretendo assistir nem a AVATAR e muito menos a TOP GUN. Assisto nesta semana NADA DE NOVO NO FRONT (na Netflix) e TRIÂNGULO DA TRISTEZA (aproveitando os últimos dias da promoção). Fica faltando ENTRE MULHERES (Women Talking) que não sei se já estreou ou estreará em breve.

Quanto à cerimônia do Oscar, garanto que não irei assistir.

E vou ficar atento aos lançamentos cinematográficos não hollywoodianos!!

VIVA o CINEMA!

VIVA O TEATRO!

12/02/2023