sexta-feira, 14 de novembro de 2025

TEATRO ESTÚDIO

 

Com programação de primeiríssima qualidade, espaço cênico bastante maleável abrigando as mais diversas concepções cênicas, café aconchegante na sala de espera e acolhimento simpático por parte de Alexandre Galindo, Daniel Marano e Lucas Asseituno, o Teatro Estúdio vem se tornando um dos espaços teatrais mais simpáticos e concorridos da cidade.

Nestes últimos dias estão cartaz “Novas Diretrizes Em Tempo de Paz”, o magnífico novo trabalho de Eric Lenate / “Mary Stuart”, o monumento do teatro essencial de Denise Stoklos que mantém o frescor e o vigor depois de 40 anos de sua estreia / “Um Fax Para Colombo, leitura dramática também com Denise Stoklos / “Veneno”, com interpretações marcantes de Cleo Paris e Alexandre Galindo / “Real Politik”, sucesso de Daniela Pereira de Carvalho que vem atravessando toda a temporada de 2025. Programação para ninguém botar defeito.

“Juego de Niños”, “Tráfico” e “Escuta as Feras” são alguns dos espetáculos de inquestionável valor artístico que estão programados para entrar em cartaz no teatro e muita coisa boa vem por aí, segundo Galindo.

Inaugurado em fevereiro de 2023 como “Gênese – Estúdio de Criação”, foi rebatizado como “Teatro Estúdio” em julho do mesmo ano e por ali já passaram, segundo Marano, 22 de espetáculos.

Localizado na Rua Conselheiro Nébias, próximo ao Terminal Princesa Isabel e à Estação Santa Cecília do metrô o teatro revitalizou e tornou mais bonito um local até então inóspito.

LONGA VIDA AO TEATRO ESTÚDIO!

 

14/11/2025

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

5000!

 

A 5.000ª VEM AÍ

Tudo começou em 1964 com “Quatro Num Quarto” e “Pequenos Burgueses”, duas peças russas no Teatro Oficina, depois veio “O Ovo”, vaudeville francês que inaugurou o Teatro Aliança Francesa e finalmente “Depois da Queda”, drama de Arthur Miller com Maria Della Costa e Paulo Autran. O vírus de Dionisio me pegou e não largou mais.

São sessenta e um anos percorrendo os teatros de São Paulo, do Rio de Janeiro e dos locais por onde viajei. Teatros abriram na cidade de São Paulo, muitos outros fecharam. Novas vozes surgiram e outras se calaram.

Enumero abaixo as peças de “número redondo”: 

500 – 1978 – MACUNAÍMA – ANTUNES FILHO – THEATRO SÃO PEDRO 

1000 – 1994 -A GAIVOTA – FRNCISCO MEDEIROS – CCSP 

1500 – 2003 – PEQUENO SONHO EM VERMELHO – FRANSCISCO MEDEIROS – TEATRO ANCHIETA 

2000 – 2008 - O CAMINHO PARA MECA – YARA DE NOVAES -   SESC IPIRANGA 

2500 - 2012 – MARIA DO CARITÓ – JOÃO FONSECA – FAAP 

3000 – 2015 – DE TEMPO SOMOS – SIMONE ORDONES e LYDIA DEL PICCHIA – SESC SANTANA 

3500 – 2017 – A VISITA DA VELHA SENHORA – LUIS VILLAÇA - SESI 

4000 – 2020 – BRINCANDO COM FOGO – EDUARDO TOLENTINO – TEATRO ALIANÇA FRANCESA 

4500 – 2022 – ONDE VIVEM OS BÁRBAROS – W. MOTA – SESC POMPEIA 

E QUAL SERÁ A

5000 ???

Faltam 28! 

13/11/2025

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 

Cego é aquele que não quer ver

(Dito popular) 

        Eu conheço o “Grupo Galpão” desde 1993 quando assisti pela primeira vez sua versão de “Romeu e Julieta” dirigida por Gabriel Villela, desde então creio ter assistido a todas suas montagens, inclusive uma inesquecível apresentação de “Romeu e Julieta” no “Shakespeare Globe Theatre” de Londres no ano 2000.

        Uma característica desse querido grupo mineiro é trocar de encenador a cada nova montagem. Além de Villela, já assinaram a direção de espetáculos do grupo Cacá Carvalho, Paulo José, Paulo de Moraes, Jurij Alschitz, Yara de Novaes, Marcio Abreu, além de integrantes do grupo, Eduardo Moreira, Chico Pelúcio, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia e Simone Ordones. O grupo troca de roupa, mas o corpo permanece com a mesma personalidade, afinal o que seria um espetáculo do Galpão sem a Simone Ordones tocando trombone e sem a presença luminosa de Teuda Bara? E assim acontece com “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira” baseado no livro de José Saramago. Há o toque vibrante de Rodrigo Portella na direção, mas o Galpão está ali, quase inteiro, de corpo e alma. Quase inteiro porque Teuda não participa desta montagem.

        O primeiro ato, em parte interpretado e em parte narrado, mostra a primeira pessoa a ficar cega no trânsito, a reação dos transeuntes com o fato, o médico oftalmologista que o cego consulta e que também adquire a cegueira e a série de pessoas que vai ficando cega. Constatada a epidemia e sendo a cegueira facilmente transmissível as autoridades resolvem isolar os cegos em um antigo manicômio desativado.

        O segundo ato passa-se no isolamento e ali com o número cada vez maior de cegos instaura-se o medo, a insegurança e a falta de saciar necessidades primárias como a fome. Com tal cenário abole-se a solidariedade e o sentido de comunidade.  A subsistência cria um individualismo exacerbado que gera clima de tensão entre todos os envolvidos. Pessoas do público previamente selecionadas, participam vendadas deste ato.

Além disso as autoridades, de quem só se ouve as ordens, ameaçam matar quem ultrapassar os limites impostos. Em certo momento eles exigem que as mulheres lhes prestem serviços sexuais em troca de alimentos para o grupo. Um dos momentos mais belos do espetáculo ocorre após a volta das mulheres, quando uma delas é escolhida para ser lavada/purificada pelas outras. Totalmente inerte ela vai sendo ensaboada e envolvida. Na forma, essa cena me remeteu a outra de um trabalho de Pina Bausch onde uma mulher também inerte vai sendo apalpada e envolvida por inúmeros homens.

Este segundo ato que ocupa a maior parte do espetáculo é bastante tenso e claustrofóbico, dando margem a intensas participações de todo o elenco.

Sem querer ser desmancha prazer apenas escrevo que o final distópico do livro quando o grupo recupera a visão e sai à rua encontrando uma cidade devastada. transforma-se em um final libertador na versão teatral de Rodrigo Portella, dando um respiro para o espectador.

Que cegueira branca é essa, acometida por toda uma população? São várias as hipóteses para responder a essa questão, de qualquer maneira fica claro que não se trata de uma doença, nem de uma transformação física do tipo daquela mostrada por Ionesco em “Rinocerontes”. Aqui é a individualidade e a direção do olhar para o próprio umbigo que faz o ser humano esquecer de olhar para o lado e “reparar” (citando Saramago) como caminha a humanidade.

Difícil citar um só nome: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones brilham de forma comunitária ao contrário das personagens da peça.

A música esfuziante e propositalmente repetitiva de Federico Puppi interfere magnificamente em vários momentos na interpretação do grupo, permitindo um bem-vindo distanciamento da tensa ação dramática.

(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA é mais um espetáculo marcante do Grupo Galpão.

Em cartaz:

- SESC Santo André de 6 a 16 de novembro. Quinta a sábado, 19h e domingo, 17h

-SESC 24 de maio de 20 de novembro a 14 de dezembro. Quinta a sábado, 19h e domingo, 18h

Conselho: Quem tem condições de assistir em Santo André o faça, porque a temporada em São Paulo promete ser concorridíssima, pois o teatro do SESC 24 de maio é muito pequeno para comportar o público do Grupo Galpão. 

9/11/2025

 

 

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

ANTES DE MIM NO FUNDO – A 4.968ª

 

O elemento água está muito presente na obra de Daniela Schitini e é a água que aprisiona e ao mesmo tempo liberta essas mulheres, personagens de “Antes de Mim no Fundo”, presas no delírio de uma delas, onde dialoga com sua irmã e com suas ancestrais femininas: mãe, avó, bisavó e tataravó.

O conteúdo dos diálogos é onírico e muitas vezes ilógico, como ao que se imagina ser o pensamento (?) de um ser em coma. Daniela escreve esses diálogos com muita mestria, remetendo ao pensamento de Alaíde, personagem de “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues.

Com a elegância e a delicadeza que lhe são habituais Clara Carvalho dirige a cena, ancorada na bela iluminação de Wagner Pinto e no talento das três grandes atrizes em cena.

Daniela Schitini encarrega-se do papel da irmã e tem dois ótimos solos em cena.

Mariana Muniz tem autoridade, maturidade e talento para desdobrar-se como a mãe, a avó, a bisavó e a tataravó, apenas com uma mudança no cabelo ou o uso de um véu.

A personagem da mulher em coma é a mais complexa e Lais Marques a interpreta visceralmente sem jamais cair na armadilha melodramática.

Interpretações como essas engrandecem o nosso teatro e nós, espectadores apaixonados, agradecemos o privilégio de estarmos presentes quando elas acontecem.

Divagações após ao aplausos:

- Ao final do espetáculo Laís estava felicíssima com a reação entusiasmada de um grupo de jovens que estava indo ao teatro pela primeira vez. Lembrei-me de algumas palavras de Ariane Mnouchkine que deveriam ser lembradas por todo artista que se preza: “Antes de começar o espetáculo temos que nos lembrar de que na sala há algumas pessoas para quem essa é a primeira experiência teatral e outras para quem essa será a última.” Quando a primeira experiência é boa o teatro ganhou mais um espectador e quando é a última aquela pessoa levará consigo tudo aquilo que o teatro lhe deu de maravilhoso.

- Quando comentei com Laís que estava próximo do meu quinto milésimo espetáculo teatral, ela perguntou qual seria o número de “Antes de Mim o Mundo”. Ao chegar em casa fui olhar. Foi a 4.968ª. Estão faltando 32!!

 Parafraseando Violeta Parra:

“Gracias a la vida que me ha dado tanto

Gracias al teatro que me ha dado tanto quanto” 

ANTES DE MIM NO FUNDO está em cartaz na SP Escola de Teatro até 16/11 aos sábados e domingos às 16h. De 20 a 30/11 vai para o Teatro Cacilda Becker de quarta a sábado às 21h e domingo às 19h. 

6/11/2025

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O AUTO DO FIM DO TEMPO

 

Foto de Jamil Kubruk 

Jovens e inquietos, Fernanda Zancopé e Dante Passarelli são os líderes do “Manás Laboratório de Dramaturgia”, grupo criado por eles em 2010 quando ainda estavam no CPT de Antunes Filho. Corajosos também ao assumir desde o início de 2025, o local antes ocupado pelo grupo Elevador que agora leva o nome de “Teatro Manás Laboratório”.

É difícil acreditar que o espetáculo “O Auto do Fim do Tempo” tenha saído das cabeças de dois jovens tão solares e sorridentes como Fernanda e Dante: os temas tratados são sombrios (guerra, fome, caos, fim do mundo) e a montagem remete aos porões da idade média presentes nas obras de Hieronymus Bosch (1450-1516) e Pieter Bruegel, o velho (1525-1569). Tanto Fernanda na dramaturgia, como Dante na encenação não fazem a menor concessão para facilitar a vida do espectador e aí está, ao meu ver, o grande mérito do espetáculo, apesar de correr o risco não ser fruído pela maioria.

Os profissionais presentes na ficha técnica do espetáculo revelam os cuidados da produção: Fernando Passetti na cenografia, Aline Santini no belo e detalhado desenho de luz, Leopoldo Pacheco no visagismo, Rosangela Ribeiro nos figurinos, Ana Paula Lopez na complexa direção dos movimentos, Ale Martins na trilha sonora e Vic Von Poser na criativa e bela videografia que ilustra e comenta toda a ação indicando o coro que está sendo apresentado.

As interpretações dos doze episódios que compõem a peça estão a cargo de Eduardo Leoni, Fernando Aveiro e Fernanda Zancopé.

A inquietação do grupo já presente em seu trabalho anterior (“Por Um Pingo” de 2024) mostra-se ampliada neste novo e complexo projeto. Olho vivo naquilo que eles preparam para o futuro.

Longa vida ao “Manás Laboratório de Dramaturgia”, o teatro precisa de jovens como vocês!

O simpático e acolhedor “Teatro Manás Laboratório” fica na Rua Treze de Maio, 222 e tem uma vasta programação para os próximos meses.

 

5/11/2025

 

 

 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

UM CLÁSSICO: MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

 

O meu fascínio pelo diálogo entre o cinema e o teatro já rendeu até um curso que ministrei no Cine SESC, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC e na Oficina Cultural Oswald de Andrade nos anos 2018 e 2019.

Filmes como “Kiss Me Kate”, “Tio Vânia em Nova York”, “O Beijo no Asfalto” (de Murilo Benício) e as encenações de Christiane Jatahy foram algumas das obras que ilustraram as minhas exposições.

Uma pena que na época Luiz Fernando Marques (Lubi) ainda não tivesse concebido essa delícia que é um grande exemplo de como uma arte dialoga com a outra.

Um ator (Walmick de Holanda) se apresenta timidamente ao pequeno público que a sala comporta. É ele mesmo ou é uma personagem que se dirige ao público? Ele será o narrador do que vai acontecer a seguir: cenas dos filmes “Matou a Família e Foi ao Cinema” de Julio Bressane de 1968 e “Dois Em Casa, Nenhum Jogo Fora” de Djalma Limongi de 1969, além de cenas gravadas pelo grupo serão entremeadas por cenas interpretadas ao vivo tendo a rua e os passantes ao fundo.

O espetáculo foi concebido para a Vila Maria Zélia, sede do Grupo XIX, mas teve ótima adaptação para uma sala dentro do Teatro Cultura Artística, local aonde assisti a essa pequena joia, dentro da MIACENA 25.

Lubi gosta de ambientar seus trabalhos em espaços não convencionais e aqui reforça essa tendência: enquanto um telão mostra cenas filmadas, as portas da sala se abrem e o elenco apresenta cenas paralelas na calçada enquanto transeuntes curiosos passam por ali. A presença de um lindo fusca cor de rosa em cena completa a alegria do público.

Tudo isso é costurado pelo narrador que abre o espetáculo e o fecha pedindo um beijo de alguém da plateia. Talvez por timidez o pedido não foi atendido por ninguém na sessão em que estive presente. 

FIQUE ATENTA/O: Essa delícia deve ser reapresentada na Mostra “2025 Em Cena” que ocorre na cidade no mês de dezembro.

CORRA  ATRÁS PORQUE VALE A PENA! 

04/11/2025

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ

 

Na primeira década deste século o dramaturgo Bosco Brasil (1960-) esteve bastante presente nos palcos paulistanos com várias obras cujos maiores destaques foram “O Acidente” em duas montagens em 2000 e 2004 e com o grande sucesso “Novas Diretrizes e Tempos de Paz” (2002-2003) que teve três intérpretes como Segismundo (Jairo Mattos, Paschoal da Conceição e Tony Ramos) e sempre Dan Stulbach como o imigrante polonês Clausewitz.

Esperava- se que o autor mantivesse o mesmo ritmo nos anos seguintes, no entanto, ao que me consta a última vez que houve um texto de Bosco Brasil montado em São Paulo foi “!00 Gramas de Dentes! em 2009. Passaram-se dezesseis anos sem a presença desse importante dramaturgo brasileiro em nossos palcos.

Em boa hora Eric Lenate traz de volta “Novas Diretrizes em Tempos de Paz” dirigindo, concebendo a magnífica arquitetura cênica e interpretando Clausewitz, o imigrante polonês que chega ao Brasil ao final da segunda guerra mundial e que depende de um visto de entrada no país que pode ser dado por Segismundo, um arrogante funcionário da polícia política interpretado com grande categoria por Fernando Billi. Os questionamentos feitos pelo funcionário ao imigrante são o cerne desse excelente texto de Bosco Brasil repleto de diálogos ágeis e inteligentes.

A ação se passa no escritório de controle da imigração - com muitos objetos, rádio, luminárias, telefone, escrivaninha e repleto de processos amarelados de imigração - apoiado em uma estrutura redonda que permanece em movimento durante toda a peça, permitindo ao público uma visão em 360º daquilo que ali se passa.

São muitos os méritos desta montagem:

- Em primeiro lugar o texto de Bosco Brasil dramaticamente bem construído e denunciando as atrocidades de todo e qualquer sistema autoritário, além de fazer uma bela homenagem ao poder do teatro.

- A primorosa composição de Clausewit onde Lenate não descuida em nenhum momento do sotaque e do gestual da personagem imprimindo rara humanidade à figura do cansado imigrante.

 - Fernando Billi, por sua vez, compartilha a cena com Lenate de igual para igual imprimindo autoridade à personagem de Segismundo.

 - A cenografia criada por Lenate complexa e grandiosa é iluminada de maneira exemplar por Aline Sayuri e o próprio Lenate.

 Como se nota, Eric Lenate desempenha várias funções nesse magnífico espetáculo.

O versátil espaço do Teatro Estúdio desta vez tornou-se uma arena que abriga o imenso cenário, rodeada de arquibancadas para o público.

NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ está em cartaz no Teatro Estúdio até 8/2/2026 com sessões sextas e sábados 20h e domingos 16h.

NÃO DEIXE DE VER.

 

02/11/2025