quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

WEST SIDE STORY ONTEM (1961) e HOJE (2021)

 

 

West Side Story (1961) é um dos filmes da minha vida. Perdi o número de vezes a que o assisti no cinema e em casa, desde aquela primeira vez quando eu tinha 17 anos e ouvia embevecido as músicas no LP emprestado pelo amigo Marcel Bouquet. 

Capa do LP

É daqueles preferidos para me emocionar até as lágrimas na véspera de Natal. Assisti também montagens teatrais em Londres (não a original de 1957!) e em São Paulo, mas para mim o filme de Robert Wise tem um toque de magia especial.

Eis que sessenta anos depois Steven Spielberg recria esse estupendo musical e foi com certa desconfiança que fui assisti-lo no dia de sua estreia (09/12) em São Paulo na primeira sessão das 14h do Reserva Cultural.

Procurei abstrair todo o referencial do primeiro, mas não houve como não fazer comparações.

Um grande achado da versão de Spielberg foi criar a personagem de Valentina (viúva de Doc) vivida intensamente por Rita Moreno, a inesquecível Anita de 1961; não me surpreenderia se ela voltasse a receber um Oscar por sua emocionante atuação agora em novo papel (em 1961 ela ganhou como melhor atriz coadjuvante). Seria justo e lindo.

Outros pontos a favor da atual versão é a ambientação em uma Nova York em demolição para dar lugar ao Lincoln Center e a ênfase no preconceito racial e à diferença de classe (Maria trabalha no setor de limpeza da loja de modas)

Rachel Zegler é bonitinha, tem o physique du rôle para o papel, mas Natalie Wood vai permanecer para mim como a mais emocionante Maria que vi tanto no teatro como no cinema. Ansel Elgort (Tony) é só um pouquinho menos sem graça que Richard Beymer. David Alvarez (Bernardo), Ariana De Bose (Anita não ficam nada a dever a seus antecessores George Chakiris e Rita Moreno, enquanto Mike Faist (Riff) não tem a agilidade coreográfica e o carisma de Russ Tamblyn.

Algumas locações mudaram: a sensacional cena America no topo do prédio passou para a rua e Cool passou de uma garagem para ruínas de prédios em demolição. Questão de gosto, mas eu prefiro os originais, assim como a pungente cena final que perde em emoção na versão atual, apesar da presença linda de Valentina no cortejo fúnebre.

Curiosamente as legendas das versões das letras das músicas tomam certas liberdades poéticas que às vezes até mudam o sentido da cena. (Sondheim não ia gostar). Para o título do filme isso já é verdade há 60 anos: Amor, Sublime Amor!!!

Curiosidades: A Filarmõnica de Nova York é regida por Gustavo Dudamel (mais um toque latino do filme) / Quem canta Somewhere é Valentina / A coreografia é assinada por Justin Peck, citando que a original é de Jerome Robbins/ Roteiro de Tony Kushner, dramaturgo autor de Angels in America//Rita Moreno aparece como uma das produtoras executivas do filme.

A versão de Spielberg não decepciona, mas aquela de Robert Wise/Jerome Robbins é INSUPERÁVEL!

 

09/12/2021

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O QUE MEU CORPO NU TE CONTA?

 

Não é simples escrever sobre a experiência como espectador deste belo e complexo espetáculo concebido por Marcelo Varzea com o Coletivo Impermanente.

Após as duas versões virtuais de (In)Confessáveis cada elemento do grupo repete confissões verdadeiras ou fictícias desta vez presencialmente e desnudos de corpo e, principalmente, de alma.

São 15 atores em cena, dispostos de tal maneira que irão apresentar seu relato para três ou seis espectadores. Cada cena será repetida 12 vezes nas 12 rodadas em que acontece o espetáculo assim como as interferências que ocorrem durante os relatos; essas interferências serão ouvidas pelo espectador também doze vezes e servirão quase como um fio de Ariadne a juntar os cacos de cada narrativa apresentada. Parece complicado, mas durante a apresentação tudo se torna bastante claro e muito envolvente e emocionante.

O espetáculo acontece em um clima dramático, pois não há relatos leves ou engraçados. Todos eles tratam de situações ou traumas emocionais provenientes de homofobia, assédio sexual, gordofobia, racismo, transfobia, problemas de saúde, entre outros. Em ato bastante corajoso o ator está há menos de dois metros do espectador e mostra toda sua intimidade corporal desfazendo eventuais mitos ou preconceitos de quem o assiste.

Das quinze cenas só é possível assistir a 12 em cada apresentação. O elenco, formado na maioria por gente bastante jovem, é homogêneo, muito talentoso e se entrega de maneira vertiginosa na proposta de Varzea. Fica difícil destacar esta ou aquela cena, mas algumas delas têm um impacto maior para cada espectador. A mim tocaram bastante as cenas da mulher trans (Daniela D’Eon), do rapaz com vitiligo (André Torquato), da bela jovem que foi taxada de gorda (Thiene Garrido), da mulher dona de seu “compartimento” (Ana Bahia) e dos muitos jovens assediados sexualmente (cenas de Vini Hideki, Renan Rezende e Daniel Tonsig). Destaque também para a única cena mais leve, aquela de Agmar Berigo.

Os intensos e emocionados aplausos finais são testemunha do bom resultado desta corajosa iniciativa de Marcelo Varzea que foi abraçada com muita paixão pelos integrantes do Coletivo Impermanente ao qual desejamos longa vida.

Com apenas duas apresentações, o espetáculo se despede hoje (07/12) às 20h da Oficina Cultural Oswald de Andrade. 

07/12/2021

PAISAGENS ANTES DO FIM

 

É gratificante quando o espectador vai se envolvendo aos poucos em um evento teatral e ao final tem a visão completa do que os criadores queriam transmitir. Por mais óbvio que pareça ser, o fato é que nem sempre isso acontece.

Ao que me parece, esta criação da Cia. La Leche nasceu modesta e programada para poucas apresentações virtuais e tem muitos méritos para merecer vida e divulgação mais longas.

São três cenas curtas de aproximadamente 15 minutos cada sobre um mundo que está prestes a acabar: em um a terra queima, em outro o ar falta e no terceiro o mar seca. Temas atualíssimos que já foram tratados muitas vezes, mas aqui surgem de maneira bastante original graças à criativa dramaturgia imaginada por Alessandro Hernandez. São espantalhos, pinguins e seres humanos com idades que superam os milhões de anos engolidos por uma baleia que refletem sobre esse fim que está prestes a chegar, em paisagens estranhas do Grajaú, da Brasilândia e de Guaianases.

A criativa direção de Cris Lozano tem como fortes aliadas a captação e edição de imagens de Guta Pacheco e a direção de fotografia de Thais Taverna. Chris Aizner contribui com os belos figurinos e os cenários são de Julio Dojcsar. Trilha sonora discreta e original de Morris.

Ana Paula Lopez e Alessandro Hernandez demonstram talento e versatilidade ao interpretar personagens tão díspares como pinguins, espantalhos e velhos milenares. Gestuais e tons de voz são os únicos recursos que ambos utilizam para diferenciar as personagens de cada cena.

AINDA HÁ TEMPO, IRMÃOS! – era a inscrição em uma faixa na paisagem desolada de fim de mundo na última cena do filme A Hora Final (1959) de Stanley Kramer e eu conclamo os admiradores de boas histórias que refletem o tempo presente: AINDA HÁ TEMPO de assistir a Paisagens Antes do Fim: transmissões pelo YouTube da Companhia a qualquer hora até o próximo dia 12 de dezembro: www.youtube.com/CiaLaLeche

As cenas podem ser vistas isoladamente, mas, no meu modo de ver, é interessante assisti-las em conjunto.

 

07/12/2021

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

A DOENÇA DO OUTRO

 

Em certo momento da peça/palestra/performance A Doença do Outro é projetada uma cena emblemática do filme Philadelphia (1993) planejada para que o publico se emocione e chore...” uma dessas cenas que o cinema criou para que os soluços cortassem o silêncio da sala escura”, segundo o autor/ator Ronaldo Serruya.

Em outra cena, enquanto o ator fala, são projetadas atrás dele cenas de filmes que tratam do HIV. Entre elas, a antológica e pungente cena do filme sobre Cazuza em que ele descobre que foi “tocado” pelo vírus da AIDS. Filmes, peças de teatro e romances sobre o assunto sempre resvalam para o dramático e para o trágico e é na contramão dessa tendência que Serruya elabora o seu belo trabalho.

Segundo o dito popular quanto mais a doença floresce, mais o corpo padece, mas não se pode esquecer que é essa entidade física chamada CORPO que todos nós temos que vai lutar por mais vida. Óbvio, mas nem sempre reconhecido!

Momento especialíssimo na carreira de Serruya, o corpo como forma de resistência é a proposta desse espetáculo que é a mais pura celebração da vida e literalmente termina em festa onde corpos suados e emocionados se congraçam e se abraçam.

Estou vendo no Facebook que hoje, dia 06 de dezembro, é o aniversário de Ronaldo Serruya, mas foi ele que presenteou os privilegiados espectadores que assistiram a uma dessas seis apresentações de sua admirável performance. Temporada relâmpago que deve ser complementada no ano que vem por apresentações virtuais e, talvez, também presenciais.

Dignas de nota a direção enxuta de Fabiano Dadado de Freitas e a videoarte de Evee Avila e Maurício Bispo. 

06/12/2021

               

domingo, 5 de dezembro de 2021

VILA ITORORÓ

 

Admiramos as ruinas gregas e romanas, mas achamos que a Vila Itororó está caindo aos pedaços!! Na devida proporção, as ruinas do casario da Vila são tão significativas como a Acrópole, o Parthenon, o Coliseu e o Fórum romano.

Não sou especialista em patrimônio histórico, mas acho que a restauração da Vila Itororó deve ser feita com muita parcimônia. Quanto, por exemplo, do majestoso palacete deveria ser restaurado? Creio que as restaurações devem ser feitas no limite, apenas para que haja a possibilidade de se visitar seus interiores com segurança e para que não haja maior desgaste do edifício.

No final da tarde de ontem me dirigi à Vila Itororó para assistir ao espetáculo As Mulheres dos Cabelos Prateados..

A Vila está belissimamente iluminada (Ligia Chaim) e cada recanto é um verdadeiro esplendor. À medida que anoitece a iluminação vai adquirindo maior força. Uma parte do casario está completamente reformada e abriga escritórios e um pequeno museu com paredes e pisos originais e um histórico da Vila.


Um belíssimo painel restaurado tem à sua frente uma piscina vazia.

Por meio de um grande pátio chega-se a um aconchegante espaço onde se realizam shows de música. Na noite em que lá estive Jurema Peçanha fez belo show de samba acompanhada de ótimo trio. Crianças e adultos sambaram gostoso durante todo o evento. Uma barraca no pátio vendia uma cervejinha para acompanhar o samba.

Vale muito a pena visitar a Vila Itororó para curtir a sua beleza e saber um pouco de como e porque ela surgiu em 1922. O acesso é pela Rua Maestro Cardim, 60 (o metrô mais próximo é o São Joaquim).

A foto de cabeceira desta matéria é de Arnaldo D'Ávila e as restantes são minhas. 

05/12/2021

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

COCK


E assim, aos poucos, vamos voltando para os espaços teatrais da cidade. Ontem foi o dia da Oficina Cultural Oswald Andrade e foi com grande prazer que tomamos nosso café no aconchegante Café Colombiano e constatamos que as dependências da Oficina estão bem conservadas e parte delas (as salas de espetáculos) foram reformuladas e pintadas de novo.

A sala onde se apresenta o espetáculo Cock está muito bonita e reformulada em quatro plateias em função da encenação. O espaço cênico é um quadrado com cerca de cinco metros de lado onde acontece a “briga de galos” proposta pelo criativo dramaturgo inglês Mike Bartlett (1980). O cenário bastante clean de Chris Aizner tem uma belíssima iluminação de Wagner Freire em vermelho nas estruturas que contornam o espaço em contraste com uma imensa luminária central de luz fria que escancara as reações das personagens.

Sem usar nenhum penduricalho adicional Nelson Baskerville concentra sua encenação no embate das quatro personagens.

John, em toda sua indecisão, é o protagonista da peça e as outras personagens não são nominadas; são elas o outro homem (o caso de John), a mulher (garota que entra na vida de John) e o pai do outro homem.

A peça é apresentada em pequenas cenas (rounds) separadas por blackouts onde se mostram os diálogos/conflitos entre John e o namorado e entre John e a namorada. Essas cenas são seguidas de uma mais longa onde os três mais o pai do outro homem se encontram e onde há o desfecho deste excelente texto de Bartlett.

A trilha sonora de Dan Maia acompanha todos os blackouts, assim como fecha o espetáculo com a bonita canção You Know em parceria com Ligiana Costa.

O pai tem uma importante participação para o desfecho da trama e Hugo Coelho o interpreta com seu habitual talento.

Andrea Dupré prova, com delicadeza e sensualidade, que sua personagem não é nada masculina, mas demonstra muita energia ao se ver agredida e diminuída pelos “machos” da trama.

Marco Antônio Pâmio, que ultimamente tem se dedicado mais à sua importante carreira de diretor, tem um bem-vindo retorno como ator ao representar o namorado de John que se vê preterido em prol de uma mulher!! Suas entradas e saídas de cena com passinhos curtos e fazendo caras e bocas são impagáveis, tanto quanto suas reações de indignação e fúria frente às ações de John.

Com muita categoria Daniel Tavares representa John, o eterno indeciso entre seu antigo namorado e o horizonte feminino que se descortina ao conhecer e também amar uma mulher. Esse conflito com sua sexualidade está explícito nas excelentes reações faciais do quase sempre passivo John, que mais ouve os argumentos do que os responde e quando o faz parecendo pender para um lado, logo a seguir se volta para o outro lado. Há muitas nuances nesse personagem e Daniel sabe tirar o maior proveito dessa dificuldade em explicitar algo tão sutil.

Os diálogos da peça fluem de maneira bastante ágil (mérito do autor, do diretor e do elenco) e a peça com certeza ganhará maior ritmo ao longo da temporada, principalmente na brilhante cena do confronto final.

Cock é mais uma boa surpresa neste final de temporada de 2021 e deve ser vista por quem aprecia bom teatro com texto bem escrito, boa tradução cênica do diretor e elenco de primeira. QUER MAIS??!!

E pra não dizer que a peça não tem nenhum penduricalho, há uma significativa surpresa pouco antes das luzes se apagarem. 

03/12/2021 

SERVIÇO:
De 2 a 18 de dezembro – de segunda a sexta, às 20h; sábados, às 18h
Oficina Cultural Oswald de Andrade - Sala 03 - Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro, São Paulo, SP
Ingressos: Grátis, distribuídos 1h antes de cada sessão
Duração: 100 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

 

 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

CARNE VIVA

 

Se você é daquelas ou daqueles que adoram uma maminha mal passada sangrando fique longe deste espetáculo.

O texto foi escrito por Luh Maza ainda adolescente e quando ainda atendia por Luciano. Realço isso porque é bastante importante saber que a virulência do texto contra o machismo e a sensibilidade da mulher que perpassam toda a ação da peça tenham brotado da imaginação de alguém que era visto como um rapaz. Isso só pode ter ocorrido porque, independentemente do corpo, a alma de Luh já era feminina.

Reginaldo Nascimento do Teatro Kaus Cia. Experimental ambientou a peça em uma cozinha onde os móveis brancos estão manchados de sangue. Amália Pereira em um trabalho intenso e corajoso interpreta aquela mulher oprimida cuja maior função é preparar a maminha para seu macho em um abate que se assemelha àquele sofrido pelo animal do qual vem a carne.

Nesse processo de violência, seja física ou moral, essa mulher tem um surto onde se vê como Jesus, o símbolo maior do cristianismo que, como não podia deixar de ser, é um homem.

Facas, carnes e muito sangue são uma constante neste espetáculo que não dá trégua ao espectador.

Pelas condições em que foi filmado a atriz tem pouca movimentação em cena, permanecendo acuada/encostada em uma parede praticamente durante toda a ação. Quando for apresentada em um teatro a peça vai se enriquecer com a movimentação da atriz e com sua interação com o público, bem mais emocionante do que atuar para uma câmera.

De qualquer maneira, enquanto o presencial não chega, vale a pena conhecer este forte trabalho em sua versão virtual. 

01/12/2021 

SERVIÇO:

Temporada de 03/12 a 19/12 de sexta a domingo às 20h

Acesso: YouTube das Oficinas Culturais do Estado de SP

Gratuito

Não recomendado para menores de 18 anos