segunda-feira, 9 de setembro de 2024

QUARTO MIRADA – O ESTADO DO MUNDO e CABARÉ CORAGEM

 

O ESTADO DO MUNDO


Ainda me vem à lembrança a emoção experimentada ao assistir a A CAMINHADA DOS ELEFANTES do grupo português Formiga Atômica, há dois anos no MIRADA 2022. Com essa expectativa me dirigi ao Teatro Guarany para assistir a O ESTADO DO MUNDO (QUANDO ACORDAS).

A abordagem deste novo trabalho da dupla Inês Barahona e Miguel Fragata é diferente e a encenação de Miguel reforça o caráter tecnológico do mesmo, criando um complexo equipamento que tem suas partes focalizadas pelo intérprete e reproduzidas em um imenso painel redondo. Desta vez se está mais no campo da razão do que da emoção. Os objetos continuam tendo importância fundamental na apresentação.

O ator fala muito rápido dificultando às vezes o entendimento devido ao seu sotaque lusitano, mas isso não é um problema para os infantes, uma vez que a percepção deles é diferente daquela dos adultos que querem racionalizar cada sílaba falada.

CABARÉ CORAGEM



 

Essa delícia do Grupo Galpão já foi alvo de matéria que escrevi quando assisti ao espetáculo em São Paulo.

https://palcopaulistano.blogspot.com/search?q=cabar%C3%A9+coragem

Mais uma vez o público vai ao delírio durante a apresentação que é pura energia.



Viva o GRUPO GALPÃO!!

 

Na manhã desse dia houve um excelente encontro entre Lydia Del Picchia e Mariana de Althaus, mediado com muita categoria e conhecimento por Adriana Couto

 

09/09/2024

 

TERCEIRO DIA DO MIRADA - GRANADA E YO SOY EL MONSTRUO


GRANADA

 

O que um rapto descrito na mitologia grega ocorrido sabe lá em que século antes de Cristo, tem em comum com outro acontecido na noite de ontem em uma casa qualquer de uma cidade qualquer do século 21? A prepotência masculina e a impunidade do homem após praticar violência contra a mulher. Seja Hades, Perséfone, Leopoldo ou Elvira a história se repete por séculos e séculos e há sempre alguém a denunciar essa violência através da arte. É o caso da diretora chilena Paula Aros Gho que retoma o mito para falar dos dias de hoje.

Na opção da diretora o elenco não fala e o espectador munido com fone de ouvido ouve por meio de uma gravação a narração dos fatos e as falas das personagens. Tal recurso, a princípio interessante, torna-se cansativo e sonífero no decorrer a apresentação.

As boas atrizes Belén Herrera e Valentina Parada têm boas interpretações como Perséfone e a mãe Deméter e foi uma boa surpresa encontrar no elenco, Malicho Vaca, que havia brilhado no MIRADA 2022 com o emocionante REMINISCÊNCIA.

Três atrizes brasileiras participam do espetáculo em pequenos papeis.

A encenação foi realizada no pátio do Outeiro de Santa Catarina, importante monumento histórico da cidade de Santos

 

YO SOY EL MONSTRUO QUE OS HABLA

 

Este pode não ser o melhor espetáculo do MIRADA, mas com certeza é o mais importante, tanto pelo tema tratado contestando o conceito da diferença sexual praticado pela psicanálise como pela quantidade de informações importantes e pouco conhecidas que chegam até o público.

O importante filósofo espanhol Paul B. Preciado dirige o espetáculo colocando o público como os psicanalistas presentes no seu discurso semi concluído em 2019, colocando suas palavras nas bocas de cinco “monstros¨, todos trans e não binários.

Trata-se de um espetáculo árido, uma vez que reproduz o discurso sem poucos recursos cênicos que o dinamize, no entanto o conteúdo é tão intenso e importante que mantém a atenção dos espectadores até o final de suas quase duas horas de duração.

Para amenizar a aridez da encenação, por duas vezes o elenco canta uma interessante versão da canção Fumando Espero  com a letra voltada para o tema tratado. 

Na parte da manhã houve um interessante encontro com Faby Hernandez, atriz deste espetáculo, e o ator Daniel Veiga

 

09/09/2024

 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

SUBTERRÂNEO, UM MUSICAL OBSCURO

 

No início dos anos 1980 surgiu a moda das performances: um grupo de jovens se reunia em torno de um tema, fazia o que se chamava “laboratório”, colocando uma música de rock progressivo (as escolhas quase sempre recaiam em King Grimson ou Pink Floyd), apagando a luz e fazendo uma interação física se arrastando pelo chão, se abraçando, se lambendo e às vezes até tirando a roupa. O resultado desse exercício ia para os teatros em espetáculos sem pé nem cabeça que tiravam os críticos do sério. O memorável crítico Anatol Rosenfeld tem matérias memoráveis sobre o assunto.

A primeira meia hora dessa coprodução luso-brasileira tem todas as características dessas performances mostrando a sobrevivência de um grupo em um buraco profundo, mudando depois para diálogos/monólogos que buscam traduzir o que falavam ou pensavam 33 homens presos no desabamento de uma mina no Chile em 2010. As cenas nem sempre são bem resolvidas e o todo é longo demais. A melhor cena foge do mote principal quando duas atrizes e dois atores fazem uma cena hilária de cortina discorrendo sobre o passado e o presente numa obra literária e numa peça de teatro. O humor sempre faz bem e é quase sempre mais potente do que uma agressiva mensagem política.

Um grupo musical acompanha toda a trama e o jovem elenco interpreta e canta muito bem.

Três grupos respondem pelo espetáculo, o português Má-Criação (de Lisboa) e os brasileiros Foguete Maravilha (do Rio de Janeiro) e Dimenti (de Salvador)




Nesse mesmo dia tive a oportunidade de assistir a EL TEATRO ES UM SUEÑO do grupo peruano Yuyachkani que voltou a se apresentar na área de convivência do SESC Santos, pois a forte chuva os impediu de se apresentar na Praça Mauá. Trata-se de espetáculo bem realizado, mas não resta dúvida que seu maior atrativo são as fabulosas máscaras usadas pelo elenco, que reproduz com perfeição no gestual as características sugeridas pelas respectivas máscaras. Puro deleite.


Nesse dia ainda fiz a imersão proposta pela instalação FLORESTANIA de Eliana Monteiro. Minha entrada e saída da rede ajudado/carregado pelos gentilíssimos Ligia e Luciano foram cenas cômicas, dignas das Pegadinhas do Faustão[jc1] ; rimos muito com a situação, mas uma vez acomodado na rede foi relaxante e inspiradora a experiência de ouvir/sentir os sons da floresta. 

06/09/2024


 [jc1]





MIRADA 2024 – PRIMEIRO DIA

 


A chuva atrapalhou, mas não estragou o primeiro dia do MIRADA, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realização bienal do SESC na cidade de Santos.

O espetáculo EL TEATRO ES UM SUEÑO do grupo peruano Yuyachkani, inicialmente programado para uma praça defronte ao SESC, teve que se apresentar na área de convivência, fato que reduziu bastante a sua fruição, mesmo assim foi lindo ver o desfile das instigantes máscaras inspiradas em caricaturas do peruano Jorge Vinatea Reynoso (1900-1931) e sua interação com o público.

Depois desse movimentado e ruidoso espetáculo foi relaxante dar um passeio pela floresta amazônica deitado numa rede e ouvindo os sons da floresta na bela instalação FLORESTANIA concebida pela diretora teatral Eliana Monteiro.

Após a abertura formal com discursos das autoridades foi a vez do último espetáculo do dia: ESPERANZA. Melhor título não poderia haver para o espetáculo que abre um evento que enfatiza que o teatro é o templo da utopia e da esperança de melhores dias.

A peça, também do Peru, escrita por Marisol Palacios e Aldo Miyashiro e dirigida pela primeira, tem estruturas dramatúrgica e cênica bastante simples mostrando uma família de poucos recursos composta de pai, mãe , um filho e uma filha às voltas com dois problemas: o pai se preparando para receber um futuro candidato a prefeito para almoçar e os filhos preocupados com o desaparecimento do irmão menor de cinco anos; a mãe perambula meio  tonta entre as duas coisas.

Nos 70 minutos da peça os quatro personagens só falam disso, mas pouco fazem para resolver os problemas. Essa passividade mostra que se por um lado sempre há uma esperança, por outro lado ela leva à letargia e ao desânimo.

Um bom elenco interpreta as personagens de forma realista com destaque para o ator que interpreta o pai.

À maneira de Godot, o candidato nunca virá para o almoço e o irmão também não voltará, mas os quatro continuarão esperando, sentados à mesa à luz de velas, porque a companhia de energia cortou a luz por falta de pagamento.

Um brinde na comedoria encerrou o primeiro dia do MIRADA.

 

06/09/2024

 

 

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

SHAKESPEARE APAIXONADO

 

Com pouco mais de 40 anos, Rafael Gomes firma-se cada vez mais como realizador tanto de filmes como de peças teatrais, mesmo assim é digna de surpresa a maturidade e o excelente resultado do espetáculo Shakespeare Apaixonado ora em cartaz no 033 Rooftop.

O espaço cênico idealizado por André Cortez remete aos tempos elisabetanos do século XVI onde Shakespeare viveu, atuou e escreveu a maioria de suas peças. A suave trilha sonora dirigida por Rodrigo Hyppolito também colabora para o clima sugerido pela peça, assim como, os figurinos (Ligia Rocha, Marco Pacheco, Jemima Tuany), as perucas (Feliciano San Roman) e a bela luz desenhada por Wagner Antônio.

A trama, baseada no roteiro do filme homônimo adaptado teatralmente por Lee Hall, trata das inquietudes de William Shakespeare devido à falta de inspiração para escrever um texto e dos desejos da jovem Viola de trabalhar no teatro em uma época em que os palcos eram restritos aos homens. Do encontro dos dois desenvolve- se a história que culmina com as criações de Romeu e Julieta, onde Will e Viola atuam juntos e Noite de Reis, que terá uma personagem com o nome de Viola,

O espetáculo de Gomes não tem pontos mortos, a saída de um grupo é seguida imediatamente de entrada de outro, criando uma dinâmica incrível dos 22 atores no tablado que se assemelha a uma coreografia, algo que tem muito a ver com a direção de movimento assinada por Fabricio Liccursi.

O que seria de tantos pontos positivos se não houvesse um elenco à altura? Desde os pequenos papeis até o trio principal as interpretações são perfeitas desde a voz, a expressão corporal e a interpretação.

Do elenco cabe destacar a figura elegante de Leandro Villa como Marlowe, Gustavo Vaz como o pernóstico e engraçado Lorde Wessex, Thiago Ledier como Adam e Dagoberto Feliz como Fennyman. Destaque mais que especial para a atriz/palhaça Fafá Rennó como a Ama que com seus penetrantes olhos claros rouba todas as cenas em que aparece.


Em suas breves aparições, Ana Lucia Torre empresta todo seu talento para criar a altiva Rainha Elisabeth I.

Rodrigo Simas tem vigor, talento e beleza até demais para criar William Shakespeare, que ao que consta não era nada bonito.

        E todas as estrelas brilham quando Carla Salle entra em cena com sua beleza frágil e uma voz límpida e forte que toda artista deveria ter. Linda como Viola, potente como Romeu, Carla, mais conhecida por seus trabalhos na televisão, é uma grande revelação de atriz teatral.

Shakespeare Apaixonado é um espetáculo de forte apelo popular sem jamais cair no popularesco, mantendo alto nível artístico em suas quase três horas de puro prazer. Aplausos para a direção de Rafael Gomes.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

A peça está em cartaz até 22 de setembro no 033 Rooftop do Complexo JK. Sessões às quintas e sextas às 19h30 e aos sábados e domingos às 15h e 19h30.

 

02/09/2024

 

sábado, 31 de agosto de 2024

QUE FIM LEVOU CARLOTINHA?

 

O projeto Que Fim Levou Carlotinha? foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo; com circulação por doze cidades do interior de São Paulo, o projeto é composto por uma oficina sobre teatro de máscaras ministrado por Cida Almeida, apresentação da peça homônima por Arnaldo D’Ávila e palestra sobre teatro realizada por José Cetra Filho.


O time completo para realizar o trabalho é formado por sete pessoas: Arnaldo d’Ávila (ator, autor e produtor), Cida Almeida (diretora, palestrante), José Cetra Filho (autor, palestrante), Marcelo Andrade (cenógrafo, técnico de luz e som), Francine Laranjeira (intérprete libras), Nara Oliveira (intérprete libras) e Waldi Moreira Martins (motorista). Passaram também pelo grupo, participando de alguns encontros, Blue, Clau, Fabiano, Will e Luís Pedro.

A circulação começou na cidade de Iguape no dia 19 de julho e seguiu para Peruíbe, Espírito Santo do Pinhal, Araras, Piracicaba, Mogi das Cruzes, Pindamonhangaba, Santana de Parnaíba. Mococa, Salto, Indaiatuba, terminando em Tatuí em 30 de agosto sempre nos fins de semana. Foram doze cidades que nos receberam de braços abertos oferecendo as condições técnicas possíveis e muitas condições humanas para que realizássemos da melhor maneira o nosso trabalho.

Cida Almeida realizou com muita categoria sua oficina dando um histórico, conceituando a máscara neutra e dando exercícios onde os participantes tiveram a possibilidade de colocar a máscara e atuar com ela.

No intervalo entre a oficina e a apresentação da peça Arnaldo e o cenógrafo Marcelo montavam o cenário e ajustavam luz e som em árduo trabalho que se repetia ao final do evento para desmontar o cenário. Certa vez fui testemunha do desespero do cenógrafo quando a gaiola da calopsita caiu ao chão se desfazendo em dezenas de partes que ele teve de remontar pacientemente até o início da apresentação.

A peça é um texto escrito por José Cetra Filho e Arnaldo D’Ávila que dá chance ao ator (D’Ávila) de exercitar sua versatilidade interpretando uma velhota simpática, um senhor enigmático e até um gato revoltado. A proposta da peça é o público sair do teatro com uma pergunta: “Mas afinal que fim levou Carlotinha?”. Sucesso de público, a peça foi bastante aplaudida em todas as apresentações.


As palestras foram, a meu ver, também bem sucedidas. Devido à minha mobilidade reduzida realizei as primeiras sentado na cadeira de rodas, mas as seis últimas fiz em pé. Tive uma adesão muito boa dos presentes reagindo ativamente às minhas observações com sorrisos, olhares brilhantes e dando sinais que estavam acompanhando. Tive a confirmação disso com as breves conversas afetuosas ao final das palestras. Uma que me emocionou bastante foi a visita de Hipólita, Lisandro, Puck e Elfo, quatro simpáticos jovens que vieram me abraçar e perguntar quantas vezes eu havia assistido a encenações de Sonhos de Uma Noite de Verão, peça de Shakespeare que eles já haviam montado e interpretado essas personagens. Sinto-me realizado e com a missão cumprida, caso tenha conseguido transmitir minha paixão pelo teatro para quem assistiu às minhas palestras.

O sucesso do projeto coube a cada de nós e, principalmente, a Arnaldo D’Ávila que, como produtor, não, poupou esforços para oferecer ao grupo todas as condições de trabalho e ao público tudo o que foi prometido.


 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

MEMÓRIAS DO VINHO - PER BACCO

 

        Uma história simples e corriqueira: um pai e um filho se encontram após 20 anos de separação e após início cordial começam a trocar farpas sobre fatos do passado e a balancear o que é paixão e o que é trocar essa paixão por dinheiro.

        A paixão do pai é pelos vinhos e ele armazena o seu tesouro em uma imensa adega (qualquer semelhança com meu acervo de programas é mera coincidência, além disso o homem tem 80 anos e usa uma bengala!). O filho volta da Australia com a intenção de comercializar parte dos vinhos raros e caríssimos da adega do pai. O conflito está armado e por meio de diálogos ágeis e ações bem estruturadas a bela e criativa dramaturgia da saudosa Jandira Martini (a quem a encenação é dedicada) e Maurício Guilherme é apresentada ao público.

        Elias Andreato faz uma tradução cênica limpa focando a sua atenção no trabalho dos atores que são realmente as maiores atrações da peça. Vale-se do criativo cenário de Rebeca Oliveira que reproduz uma adega com todas as garrafas expostas em posição horizontal e uma trilha sonora com trechos do belíssimo álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Essas músicas não têm muito a ver com o tema da peça, mas funcionam muito bem para criar o ambiente da encenação.

        Caio Blat representa com muita desenvoltura o filho irrequieto que volta depois de um longo exílio na Australia para saber como estão as finanças do pai na tentativa de realizar seu sonho de fazer cinema. A venda de títulos raros da coleção do pai poderia ser uma das soluções. O ator reage com muita naturalidade às falas do pai e coleciona mais um sucesso em sua carreira.

        Herson Capri é o debilitado e desiludido pai. Colecionou fracassos e perdas na vida e tem um segredo desabonador que só será revelado perto do final da peça. As nuances da personagem são muito bem exploradas pelo ator, que forma uma excelente dupla com Blat.

        A encenação de Elias Andreato tem a elegância e o toque de um bom vinho; essa sensação somada à química entre os atores e ao emocionante brinde ao final  da peça resultam em uma dose de imenso prazer para o espectador que sai do teatro com a alma alimentada.

        Você não precisa ser apreciador de vinho para gostar do espetáculo, mas se o for saberá curti-lo melhor.


        MEMÓRIAS DO VINHO está em cartaz no Teatro Vivo às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h até 15vdec setembro.

        Pode curtir e saborear SEM moderação.

        05/08/2024