quarta-feira, 23 de abril de 2014

O PAI E O FILHO DO PAI



     Por coincidência, em torno da semana santa assisti a dois espetáculos muito distintos um do outro que tratam dos expoentes máximos da mitologia cristã: Deus e Jesus Cristo. Segue um breve comentário sobre cada um deles:
     MEU DEUS
 
 
     Desiludido com as ações de suas criaturas, O Criador entra em depressão e resolve descer à terra e se consultar com uma terapeuta que é ateia. Partindo dessa interessante premissa a dramaturga israelense Anat Gov escreveu a peça Meu Deus que está em cartaz na FAAP com direção de Elias Andreato. Apesar de tocar em alguns pontos que merecem reflexão (o individualismo do homem contemporâneo, as guerras, a luta pelo poder a qualquer custo), no todo a peça é bastante inofensiva não passando de um bom espetáculo comercial fadado a fazer sucesso entre o grande público, mas tem qualidades como a construção dos ótimos diálogos.  O grande diferencial, porém, é o trabalho dos atores: Dan Stulbach está ótimo como o Deus que perdeu o rumo e deseja acabar com a sua criação e Irene Ravache desempenha a incrédula terapeuta de maneira espontânea num trabalho que já pode ser considerado como um dos melhores do ano: é  um prazer imenso ver o seu desempenho, tendo-se a impressão que ela faz aquilo com a maior facilidade. Pelo mote da peça e pelo desempenho dos atores, vale a pena assistir a Meu Deus.
 
 
     JESUS CRISTO SUPERSTAR
 
 
     Após 42 anos está de volta o musical de Tim Rice(letra) e Andrew Lloyd Webber(música) que junto com Evita reputo como os  melhores trabalhos da carreira da dupla. Após Evita ambos seguiram caminhos separados e a trajetória de Webber apesar de muito bem sucedida (vide O Fantasma da Ópera), nunca mais teve uma dramaturgia consistente para acompanhar suas belas canções.
     Jesus Cristo Superstar foi montada no Brasil em 1972 por Altair Lima após o enorme sucesso (artístico e comercial) de Hair; a montagem, porém, não teve a mesma repercussão, em grande parte pela direção equivocada do próprio produtor. A curiosidade fica por conta de que a versão das letras era assinada por Vinicius de Moraes.
 
Capa do LP original e do programa da montagem de 1972
 
     E agora chegou a vez do Jesus Cristo Superstar 2014 na bela encenação de Jorge Takla, em cartaz no Teatro do Complexo Ohtake Cultural. O cenário é formado por estruturas metálicas flexíveis que se adéquam aos vários ambientes da ação da peça. As músicas são lindas e muito bem interpretadas tanto pela orquestra como pelo homogêneo elenco. No primeiro ato o Cristo de Igor Rickli, apesar do físico apropriado para o papel e a bela voz, parece deslocado do todo, mas adquire força no segundo ato. Alírio Netto  (Judas) tem presença cênica e voz  poderosa. Negra Li tem voz adequada para as canções mais suaves da ópera-rock. Rogério Guedes (Caifás) e Julio Mancini (Annas) são responsáveis por uma ótima cena (Jesus vai morrer). O ponto culminante do musical de elevada carga dramática (Pilatos e Cristo e as 39 chibatadas) reafirma o grande talento de Fred Silveira (que já havia se destacado como Tony em West Side Story e como Che Guevara em Evita), fazendo dele o grande destaque do elenco. 
 
Fred Silveira
 
Alírio Netto e elenco

 
     Meu Deus e Jesus Cristo Superstar são dois bem sucedidos espetáculos comerciais que vão agradar a quem espera do teatro algo mais do que diversão inconsequente.

terça-feira, 22 de abril de 2014

MAGILUTH CONTA "VIÚVA , PORÉM HONESTA"


 
     Nelson Rodrigues chamou a sua peça de 1957, Viúva, Porém Honesta de “farsa irresponsável em três atos” e Pedro Vilela, diretor do grupo pernambucano Magiluth, levou - com muita responsabilidade - ao pé da letra essa classificação, montando com bastante irreverência esse delicioso texto do dramaturgo.
Nelson Rodrigues (1912-1980)
Pedro Vilela, diretor
     Contando com o talento, a histrionice e o carisma de seu grupo (agora enriquecido com o ótimo Mário Sérgio Cabral), Vilela mostra as aventuras da agora viúva Ivonete com muito escracho e deboche fazendo os cinco atores “rodopiarem” por todas as personagens da peça. O espetáculo é divertidíssimo e dá margem a ótimos momentos para todos os atores: Giordano Castro rouba a cena como a jovem Ivonete brincando com as bonecas, assim como o pândego Mário Sérgio na cena em que ela vai ao ginecologista e Pedro Wagner cria uma viúva antológica. A interação entre os atores é perfeita e percebe-se que eles se divertem tanto quanto o público durante toda a representação. Além de fazer a sonoplastia, Pedro Vilela intervém com muita naturalidade em alguns momentos orquestrando com muita garra aquele aparente e engraçado caos.
 
Giordano Castro
 
Mário Sérgio Cabral
 
Pedro Wagner
 
Lucas Torres, Erivaldo Oliveira, Pedro Wagner
 
     J.B., Pardal, Madame Cricri, Diabo da Fonseca, Dorothy Dalton, Ivonete e todas as outras personagens nunca mais serão as mesmas após esta deliciosa reconstrução do Magiluth. E resta a pergunta: como Nelson Rodrigues veria o tratamento dado à sua peça? A meu ver creio que ele adoraria.
 
     Na noite em que assisti ao espetáculo, Rita Cadillac estava na plateia e foi homenageada pelo grupo com um ramalhete de flores e com uma tatuagem de seu nome na bunda do Mário Sérgio Cabral. Delicioso arremate, compatível com o clima descontraído da montagem.
     Este divertido e imperdível espetáculo foi apresentado no Itaú Cultural de 15 a 20 de abril sempre com lotação esgotada e volta a ser apresentado na FUNARTE de 23 a 26 de abril às 20h e 27 às 19h com entrada gratuita. CORRA PARA GARANTIR SEU INGRESSO E NÃO RIA SE FOR CAPAZ!

OH OS BELOS DIAS – MOMENTO ILUMINADO DE UMA GRANDE ATRIZ



     Sandra Dani é uma atriz gaúcha praticamente desconhecida pelo público paulistano, mas consagrada em sua terra natal com um vasto currículo tanto acadêmico como teatral. Sob a direção do paulista Rubens Rusche (especialista em Samuel Beckett) a atriz está interpretando Oh Os Belos Dias texto do autor irlandês em cartaz no Sesc Santana. Essa montagem estreou em 2013 em Porto Alegre e no mesmo ano fez algumas poucas apresentações em São Paulo no Cultura Inglesa Festival. Com o título de Dias Felizes essa peça teve uma montagem dirigida por Jacqueline Laurence em 1996 tendo Fernanda Montenegro como protagonista e em 2010 foi a vez de Norma Bengell interpretar a personagem, dirigida por Emílio Di Biasi.
 
Fernanda Montenegro na montagem de 1996
 
     Oh Os Belos Dias mostra a personagem Winnie “curtindo seus belos dias” enterrada até a cintura no primeiro ato e até o pescoço no segundo. Tudo é pretexto para ela preencher o seu tempo: a leitura de frases inscritas na escova de dente, o tira e põe de objetos de uma sacola e a tentativa de se comunicar com o seu companheiro Willie que está dentro de um buraco. Winnie fala continuamente durante as quase duas horas do espetáculo e suas palavras adquirem tons melancólicos, tristes e muitas vezes engraçados pelo absurdo da situação. A cena hipnotizante (centrada na figura de Winnie que não se movimenta em cena) e o texto árido tornam o espetáculo um exercício árduo para o espectador, mas o esforço é recompensado pelo resultado final que nos apresenta mais perguntas do que respostas sobre a condição humana.
 
Samuel Beckett (1906-1989)
 
     Sandra Dani domina totalmente a cena com extrema versatilidade nas entonações de voz e nas  expressões faciais. Interpreta uma Winnie intensa que nos emociona e até nos faz rir. Trata-se de momento iluminado de uma grande atriz que precisa ser testemunhado por quem ama teatro e principalmente pelos atores que o fazem.
 
Willie (Luiz Paulo Vasconcellos) e Winnie (Sandra Dani)
 
     A direção de Rubens Rusche - extremamente fiel ao texto e às marcações de Beckett  - é discreta, deixando o espaço livre para Sandra Dani brilhar. O cenário de Ulisses Cohn apresenta um bonito recorte da montanha em que Winnie está enterrada e a iluminação minimalista de Wagner Freire é pontual e precisa.
 
 
 
     Oh Os Belos Dias é um espetáculo obrigatório para os amantes de teatro e pode ser visto no Sesc Santana às sextas e sábados às 21h e domingos às 18h de 12/04 a 18/05.
 
     NOTA: O título Oh Os Belos Dias refere-se àquele em francês Oh Les Beaux Jours, já o título Dias Felizes acompanha aquele em inglês Happy Days, língua em que o texto foi escrito.
 
 
 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A VIOLAÇÃO DE LUCRECIA - NOITE DE MUITA EMOÇÃO

 
     O belíssimo poema A Violação de Lucrécia (The Rape of Lucrece) escrito por Shakespeare em 1594, trazido para o Festival de Curitiba pela Royal Shakespeare Company e apresentado no último fim de semana no Sesc Pinheiros constitui-se desde já num dos melhores espetáculos  teatrais apresentados nos palcos paulistanos neste  ano de 2014. Antes do início da peça eu comentava como são importantes para mim esses minutos que antecedem o apagar das luzes da plateia: neles sempre me preparo para assistir a um dos melhores espetáculos de minha vida, fato raramente concretizado. Nessa noite vivi um desses momentos mágicos que só o teatro pode proporcionar.
     Ambientado na Roma antiga, o texto do bardo conta como o nobre Tarquínio, obcecado pelo que ouviu de Colatino sobre as virtudes de sua esposa Lucrécia, encontra um meio de ir visitá-la na ausência do marido e usando de seu prestígio e da confiança que nele depositam ficar para pernoitar na residência. Enquanto urde o ataque pondera sobre as consequências do mesmo, mas o desejo é mais forte e ele consuma a violação nos aposentos da incrédula Lucrécia. Sentindo-se desonrada a infeliz mulher pede que seu marido e seu pai retornem ao lar, conta-lhes o sucedido e suicida-se enterrando uma faca no peito. Após um inflamado discurso do pai diante da filha morta, Colatino promete vingança. Tarquínio é deportado, sendo o seu maior castigo passar o resto de seus dias com o remorso de ter destruído não só uma família, mas também uma vida.

     Essa trágica história é contada pela atriz/cantora irlandesa Camille O’Sullivan que passa de maneira muito sutil (uma mudança no tom de voz, no gestual ou no figurino) da narração dos fatos para a interpretação das personagens (Tarquínio, Lucrécia e o pai). Em vários momentos ela canta com uma belíssima voz trechos do poema que foram musicados por Feargal Murray que também a acompanha ao piano. Os momentos emocionantes da montagem atingem o seu ápice na lamentação do pai diante da filha morta. As últimas cenas têm muito a ver com o desfecho de várias outras tragédias de Shakespeare.

     O espetáculo dirigido por Elisabeth Freestone conjuga o desempenho da atriz, com o pianista, com cenários, figurinos, iluminação e objetos de cena (alvos pares de sapato de Lucrécia numa extremidade e pesadas botas pretas de Tarquínio na outra), resultando num todo harmonioso, belo e muito emocionante. Com os olhos marejados o público ovacionou a atriz ao final. Caroline O’Sullivan , além de seu imenso talento como atriz e cantora, é simpaticíssima, sorridente e muito bonita.
     Apresentado em São Paulo para poucos privilegiados apenas por três dias, este é mais um daqueles espetáculos da série “QUEM VIU, VIU...”.

sábado, 12 de abril de 2014

A VERDADE... ONDE ESTÁ A VERDADE?


 
     No ano de 1985 eu não fui ao Rio de Janeiro! No entanto tenho, não só o programa da peça Assim É Se Lhe Parece como o canhoto do ingresso no Teatro dos 4, datado de 09 de novembro de 1985; mais ainda: folheando o programa chego a rememorar cenas da peça com a inesquecível Yara Amaral como a Senhora Amália Agazzi e com Nathalia Timberg ( Senhora Frola), sem falar no José Wilker (Senhor Ponza) e no Sergio Brito (Laudisi). E eu não fui ao Rio de Janeiro em 1985! Com certeza também não assisti à lendária montagem do TBC dirigida por Adolfo Celi em 1953, pois eu tinha apenas nove anos, mas não me é difícil visualizar Cleyde Yaconis como a Senhora Frola. Tenho mais recordações dessas montagens do que daquela a que realmente assisti em 1972 em São Paulo dirigida por Flavio Rangel tendo Paulo Autran, Madalena Nicol e Helio Ary nos papéis principais. Aqui também a Senhora Agazzi teve o privilégio de ser interpretada pela não menos inesquecível Myrian Muniz. Quais os mecanismos da memória ? Algo muito sonhado ou idealizado acaba tornando-se realidade? Mas o que é realidade? O que é verdade? Por mais incrível que possa parecer é assim e não me peça explicações lógicas porque se assim me parece, assim é!
 
 
1953 - TBC - Paulo Autran e Cleyde Yaconis

1972 - Madalena Nicol e Paulo Autran

1985 - Rio de Janeiro (com o canhoto do ingresso no canto inferior esquerdo)


     Todo esse pensamento me veio à luz depois de assistir ontem à noite, à nova montagem desse intrigante texto escrito há quase um século (1917) por Luigi Pirandello e que como bom clássico continua muito atual. A abordagem de Marco Antônio Pâmio é bastante interessante e dá destaque especial para a personagem de Laudisi que é defendida bravamente por Rubens Caribé. Laudisi é o porta voz do autor e é através dele que temos a ponderação do que se fala nos dois núcleos da peça: de um lado os vizinhos bisbilhoteiros querendo saber mais da vida dos outros do que de suas próprias e do outro o mistério dos novos vizinhos: a Senhora Frola , o seu genro Senhor Ponza e sua esposa.
 
 
The Gossips
 
     Pâmio articulou uma dinâmica movimentação dos 12 atores em cena, abrindo o espetáculo com uma bonita representação da fofoca que remete ao famoso quadro The Gossips de Norman Rockwell. Auxiliado por uma inspirada iluminação de Caetano Vilela (que pontua as ações com cores diversas), pelo despojado cenário de Fabio Namatame (cujas cortinas vão sendo desvendadas na mesma medida que o mistério sobre os novos vizinhos) e por uma adequada trilha sonora escolhida pelo próprio encenador, Pâmio realiza um espetáculo dinâmico, engraçado na medida certa e fazendo refletir sobre os perigos das verdades absolutas.
 
     Talvez pela tradição do “papel de galã”, aquele do Senhor Ponza sempre foi o escolhido pelos atores mais famosos do momento (Paulo Autran por duas vezes e José Wilker), no entanto a personagem que oferece as melhores oportunidades para um ator é Laudisi e como já citei Rubens Caribé aproveitou e cria um dos melhores trabalhos de sua carreira. Bete Dorgan depois de fazer uma série de personagens histriônicas nos brinda com uma humana Senhora Frola e a sua entrada em cena na primeira visita aos Agazzi é algo para se guardar na memória. O restante do elenco cumpre o seu papel sendo justo destacar a energia de Joca Andreazza como o Senhor Agazzi. Na estreia o ator Nicolas Trevijano pareceu ter problemas com a voz nas cenas em que necessita da mesma num tom mais elevado.
 
     Depois de duas horas de espetáculo os vizinhos e nós público estamos ansiosos para saber quem é louco, o Senhor Ponza ou a Senhora Frola. Uma mulher encoberta com um véu preto é chamada para nos revelar a verdade. Mas onde está verdade?
 
     Além de excelente ator, Pâmio nos apresenta aqui um refinado trabalho de direção numa montagem que merece ser vista.
 
     Assim É (Se Lhe Parece) está em cartaz no teatro do Sesc Vila Mariana de 11/04/2014 a 18/05/2014. Sexta s e sábados às 21h e domingos às 18h.

sábado, 29 de março de 2014

FESTIVAL DE CURITIBA 2014 5 – FECHANDO COM CHAVE DE OURO.



      Ontem foi meu último dia em Curitiba para acompanhar o Festival e como despedida fui assistir ao premiado espetáculo paulista Cais ou Da Indiferença das Embarcações. Merecidamente contemplado com os prêmios APCA e Shell - São Paulo, o texto de Kiko Marques mostra a história de três gerações de habitantes de Ilha Grande no Rio de Janeiro narrada por um barco e tendo uma poita (âncora com boia) como testemunha. Tudo de maneira poética e muito humana. Três horas de muita emoção que passam voando.
Foto de Ligia Jardim
 
     Apresentado em São Paulo no Instituto Capobianco para plateias restritas a 40 lugares, expandiu-se em Curitiba quando foi para um imenso galpão do Centro de Eventos Sistema FIEP adaptado para teatro e com 120 assentos. Se a peça ganha em amplitude e no seu caráter épico, perde na compreensão do texto quando os atores estão de costas para o espectador devido às condições acústicas do local; mas no todo a montagem manteve toda a sua magia e emoção, além de ganhar algumas novas soluções muito bonitas como a posição dos músicos à vista do público, a entrada dos atores no início da peça cantando Timoneiro (Paulinho da Viola) ao redor do cais, o belo solo de Marcelo Marotti no início do segundo ato com Estrela do Mar (Marino Pinto/Paulo Soledade) e o camarim mais compacto situado agora do lado oposto dos músicos.
Foto de Fernanda Capobianco
 
     Um problema técnico de iluminação ocasionou um atraso de cerca de meia hora no início do espetáculo fazendo com que o mesmo terminasse à meia noite e meia; mas isso não tirou o entusiasmo e a emoção do público que ovacionou os atores ao final. Como prova de bom acolhimento, a produção ofereceu lanche e café no intervalo da peça.
Ingresso do espetáculo
 
     O cineasta Nelson Rodrigues que realiza um documentário sobre o espetáculo, estava presente documentando a primeira apresentação de Cais fora de seu habitat paulista, o Instituto Capobianco.
     E assim completei minha jornada no Festival de Curitiba que agora passo a acompanhar de longe. Vim embora, mas o Festival continua a pleno vapor até o dia 06 de abril. Mais de 30 estreias na Mostra Oficial e as peças do Fringe que deixam qualquer espectador paranoico ao tentar escolher entre os 400 títulos oferecidos.
     Acompanhe o festival: festivaldecuritiba.com.br

sexta-feira, 28 de março de 2014

FESTIVAL DE CURITIBA 2014 4 – AS COLETIVAS


 


     Respira-se teatro em Curitiba: pela manhã as coletivas de imprensa, no almoço comenta-se sobre espetáculos vistos, a tarde vai-se atrás de espetáculos no Fringe, jantar falando de teatro antes ou depois de assistir a um espetáculo da Mostra Oficial e para fechar a noite uma cervejinha onde o assunto é... TEATRO!  Para um espectador apaixonado não há melhor maneira de ocupar o tempo. Minha jornada no Festival de Curitiba termina hoje (28 de março). Foram quatro dias de intensa atividade e de muita alegria pela maneira amigável e profissional como o Festival nos recebe.
     Em três dias, foram 14 coletivas bastante interessantes e esclarecedoras sobre os espetáculos realizados pelos entrevistados.
     O grupo carioca Teatro Inominável representado pelos jovens dramaturgos Diogo Liberano e Keli Freitas comentou a gênese do espetáculo Concreto Armado que tem como pano de fundo o Rio de Janeiro às vésperas da Copa do Mundo. Segundo eles o grupo evoluiu da ideia de incluir no roteiro a destruição do Maracanã para algo mais intimista e pessoal.
     O dramaturgo Romeno Matéi Visniec está presente em dois espetáculos da Mostra Oficial: Espelho Para Cegos vindo da Bahia, que segundo o diretor Marcio Meirelles é a reunião de 18 pequenas peças contidas no livro Teatro Decomposto e 2 X Matei espetáculo carioca com Guida Vianna e Gilberto Gawronski. Em ambos os casos os entrevistados creditam essa febre de montagens de textos de Visniec (esta semana estreia em São Paulo A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais) ao lançamento de 18 livros de textos teatrais do dramaturgo pela Editora É e, obviamente, à qualidade e à contemporaneidade dos mesmos. Segundo Gawronski as peças de Visniec lembram o universo de Samuel Beckett com forte influência de seu compatriota Eugene Ionesco, ambos representantes do que se chamou Teatro do Absurdo.
Guida Vianna e Gilberto Gawronski
 
     O ator chileno Claudio Lopes da companhia chilena La Gran Reyneta comentou sobre as dificuldades técnicas do espetáculo de abertura do Festival El Hombre Venido de Ninguna Parte e também de sua adaptação para espaço fechado, uma vez que foi concebido para a rua.
Claudio Lopes
 
     Várias mostras especiais estão contidas no Fringe: Sergio Ferrara, Aldo Valentim e Imara Reis comentaram a Mostra Ademar Guerra e falaram sobre o Projeto de mesmo nome promovido pelo Governo do Estado de São Paulo que difunde o teatro no interior de São Paulo com cursos de formação em diversas áreas; em relação à Mostra de Teatro Capixaba os seus representantes comentaram sobre os espetáculos (todos eles produzidos por grupos de pesquisa continuada) e também sobre as dificuldades de se fazer teatro naquele estado; finalmente sobre a Mostra Baiana a entusiasmada Maria Marighella comentou que o principal objetivo da mesma é tornar visível o bom teatro que se faz na Bahia.
Sergio Ferrara, Aldo Valentim, Imara Reis
 

     Dois Shakespeares adaptados para poucas personagens fizeram parte de duas entrevistas: os chilenos da Compañia Viajeinmóvil reduziram Otelo ao quarteto principal da trama (Otelo, Desdemona, Iago e Emília) parte deles interpretados pelos atores (Iago e Emília) e a outra por bonecos manipulados pelos mesmos atores (Otelo e Desdemona); segundo o ator Jaime Lorca a companhia ensaia no momento Ricardo III para crianças, enfatizando um eventual bullying sofrido por Ricardo na infância que justificaria em parte a crueldade do mesmo. O grupo carioca representado pelo ator Gustavo Gasparani e o diretor Sergio Módena foi mais radical e apresenta Ricardo III com um único ator fazendo 22 personagens.
Teresita Iacobelli, Jaime Lorca (Otelo)
 
Gustavo Gasparani, Sergio Modena (Ricardo III)
 

     Boa parte do elenco da premiada Cais ou Da Indiferença das Embarcações compareceu à entrevista sobre o espetáculo. O veterano ator Walter Portela que faz o barco narrador fez um breve discurso sobre a importância de trabalhos humanistas como o de Kiko Marques (autor, diretor e ator da peça) e sobre a importância do teatro; disse ele que “um povo que não cultiva o teatro, já morreu ou está moribundo”. Os presentes emocionados aplaudiram a sua fala. A seguir Kiko Marques falou sobre o processo de escrita da peça que conta 60 anos da vida da Ilha Grande no Rio de Janeiro.
Parte do elenco de Cais
 
Walter Portela, Kiko Marques
 
     A solar curitibana Ana Rosa Tezza fez uma apresentação entusiasmada e entusiasmante sobre seu trabalho com o coletivo Ave Lola do qual serão apresentadas duas peças no Fringe (Os Malefícios da Mariposa e Tchekhov). Ana trabalhou na companhia chilena Sombrero Verde sob a direção de Andres Pérez Araya que passou 15 anos no Théâtre du Soleil e no ano passado  o Ave Lola trouxe quatro componentes do grupo de Ariane Mnouchkine para uma residência de quatro meses  junto a ele. O espetáculo Tchekhov é, em parte, resultado dessa troca de experiências e tem trilha sonora composta por Jean-Jacques Lemêtre, compositor oficial das trilhas sonoras dos espetáculos do Soleil.
Ana Rosa Tezza
 
     O texto italiano Tumba de Cães foi apresentado por sua autora Letizia Russo, pelo diretor curitibano Marino Jr. e pelo elenco da peça que faz sua estreia no Festival.A peça tem a participação da ator Ranieri Gonzales da Companhia Brasileira de Teatro e fala de relações familiares que tem como pano de fundo uma guerra motivada por falta de água.
Marino Jr., Letizia Russo
 
     As mineiras Débora Falabella e Yara de Novaes apresentarão no Festival a peça Contrações do autor inglês Mike Bartlett. Comentaram sobre a qualidade do texto e a encenação de Grace Passô que coloca os técnicos de som e luz no palco e inclui até “solos” de bateria por Débora Falabella.
Débora Falabella, Yara de Novaes
     Sergio Módena voltou à cadeira dos entrevistados para falar da peça italiana dirigida por ele A Arte da Comédia de Eduardo de Filippo proveniente do Rio de Janeiro e de uma bem sucedida temporada em São Paulo. A peça trata das dificuldades em se fazer o bom teatro devido a questões burocráticas e econômicas e revela-se um verdadeiro hino de amor ao teatro.
     Todas as fotos desta matéria foram tiradas por mim.