segunda-feira, 26 de agosto de 2019

NESTE MUNDO LOUCO, NESTA NOITE BRILHANTE



Silvia Gomez e seus coelhos voadores

        É difícil, ou quase impossível, escrever de maneira cartesiana sobre uma peça de Silvia Gomez. Quem assistiu a O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade (2008), Mantenha Fora do Alcance do Bebê (2015) e Marte, Você Está Aí? (2017) sabe ao que estou me referindo. Ela mesma define este seu último trabalho como um delírio e é um pouco nesse estado que devemos assistir ao espetáculo.
        A princípio a estrutura da trama é simples: uma Vigia está no km 23 de uma rodovia, quase um fim de mundo, onde é comum ocorrerem crimes e principalmente estupros, aos quais ela está acostumada. Acontece mais um com uma jovem chamada apenas de L. e a Vigia relata de forma impessoal o fato, mas pouco a pouco a relação das duas evolui em outro sentido levando o público a uma viagem pelos delírios da autora onde coelhos voam e onde “comissários de bordo fazem o mundo parecer sob controle”. Usando recursos de metateatro as atrizes saem de seus personagens para indicar qual a melhor iluminação e a melhor música para determinada cena da peça (em certo momento a Vigia pede uma música do tipo “o mundo é bom e as pessoas generosas”). A música, por sinal, é deliciosamente tocada pela banda de jovens colombianas Las Majas.
        Visualmente a montagem é muito bonita com cenário em perspectiva de André Cortez e Luiz Duva, este último responsável pelo vídeo cenário. A criativa iluminação de André Prado e Gabriel Fontes Paiva em certos momentos chega a invadir toda a plateia criando efeito muito interessante para o envolvimento do público na trama.
        Yara de Novaes mais uma vez é absolutamente poderosa como a Vigia, dominando a cena do início ao fim da peça. Débora Falabella, dona de excelente expressão corporal, interpreta a jovem L. com muita precisão.
        Gabriel Fontes Paiva – membro do Grupo 3 de Teatro junto com Yara de Novaes e Débora Falabella - orquestra elenco, músicos, cenário e iluminação de maneira harmoniosa criando um todo belo e intrigante, fiel à escrita delirante da autora.
        Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante é o tipo de espetáculo mais para ser sentido do que entendido, apesar de ficar bastante claro o que ele quer dizer. Quando o público adentra a sala de espetáculos as atrizes e as garotas músicas estão realizando um exercício com varas e a seguir Yara e Débora têm um breve diálogo sobre a dificuldade em iniciar a peça. Coisas de Silvia Gomez!
 
      Débora Falabella, Yara de Novaes, Gabriel Fontes Paiva, Silvia Gomez

        A peça está em cartaz no Teatro Anchieta até 06/10 com sessões ás sextas e sábados (21h) e domingos (18h).


        27/08/2019

domingo, 25 de agosto de 2019

A NEVE ou FORA DE CONTROLE



 
São só mais cinco minutos...

        Nem sempre um bom texto literário resulta em bom espetáculo. Os dois primeiros trabalhos apresentados nesta 5ª edição da sempre bem-vinda e tão necessária Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do CCSP careciam, a meu modo de ver, de dramaturgia cênica, sendo mais interessantes lidos do que encenados.
 
        A Neve, último espetáculo da Mostra, no entanto, tem exuberância cênica, apesar dos poucos recursos de produção disponíveis.
        O texto de René Piazentin parte de premissas caras ao realismo fantástico para contar uma história que infelizmente é muito real e nada fantástica. Os porões do regime totalitário brasileiro são mostrados com certa crueza enquanto lá fora faz sol e ao mesmo tempo neva sobre o Pão de Açúcar. Pedro é o jovem que desaparece aos olhos de sua irmã e de sua companheira e em torno deles gravitam personagens muito interessantes e bem construídas como Dona Serena (a proprietária da padaria), o jovem Neneno da Dor Profunda (talvez a figura mais interessante da peça), Dodô (amigo de Pedro), o Presidente, Militares e Carcereiros. Tudo transcorre em um clima de sonho, ou melhor, de pesadelo.
        O próprio autor dirige a montagem com mãos certeiras mostrando bastante domínio especialmente nos vários momentos em que coloca sonho, imaginação e realidade simultaneamente em cena e também usando recursos cênicos e interpretativos quando a trama parece resvalar para o melodrama evitando assim essa armadilha.
        O cenário de Eliseu Weide composto de estruturas móveis deslocadas pelos atores é simples, mas bastante eficiente e é particularmente notável o painel “tropicalista” pintado com o Pão de Açúcar coberto de neve. A trilha sonora selecionada pelo autor/diretor pontua bem e discretamente toda a ação e fecha o espetáculo de maneira irônica com a marchinha de carnaval que antecedia Presidente Bossa Nova que a saudosa Elis cantava em Saudade do Brasil. Pois é Elis! Se em 1980 você tinha saudade do Brasil de 1960, o que dizer do que sentimos neste calamitoso 2019.
        O programa tem o mérito de incluir o texto integral da peça, porém presta um desserviço ao elenco! Na ficha técnica não há a relação de quem faz o que, dificultando a nominação deste ou aquele trabalho. Destaco então o trabalho do elenco feminino: a firmeza de Thaís e de Carmen, a humanidade de Serena e principalmente, a inocência e a perplexidade da garota que interpreta Neneno Dor profunda. Do elenco masculino o destaque vai para o ator que representa o locutor e o militar.

Elenco com Neneno Dor Profunda à frente

Thaís e Carmen

Dona Serena
 
        A Neve ou Fora de Controle é espetáculo bem escrito e bem encenado, contando bem uma história com final surpreendente, que não vou ser desmancha prazer de contar aqui.

        E a neve continua a cair sobre todo o Brasil, mas só por mais cinco minutos...

        A NEVE ou FORA DE CONTROLE está em cartaz no Centro Cultural São Paulo até 15/09 às sextas e sábados (20h30) e domingos (19h30). NÃO DEIXE DE VER!

 

        25/08/2019

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

PROJETO REVIDE


Foto de Leekyung Kim

       No programa da peça Hotel Mariana, verbatim foi definido como “um tipo de teatro documentário que reproduz no palco as palavras exatas de depoimentos reais sobre um determinado tema ou evento”. Herbert Bianchi volta a usar o verbatim em sua nova direção Projeto Revide. O grupo passou a se chamar Teatro Verbatim.

       Quatro atrizes e três atores se revezam em cena com fone de ouvido reproduzindo os relatos de pessoas que foram entrevistadas durante o processo de criação do espetáculo. O tema escolhido pelo grupo foi a violência que cresce dia a dia neste Brasil que está se tornando uma imensa terra de ninguém. Os relatos são em sua maioria áridos e pesados.

       Herbert Bianchi e Letícia Sobral que assinam a dramaturgia criaram uma narrativa para ligar os relatos localizando a ação em um espaço repleto de arquivos de aço (arquitetura cênica de Bianchi e Eric Lenate), símbolos da burocracia e da inércia de nosso país em tratar de assuntos de tamanha gravidade. Ali um suposto chefe (Carlos Moreno) dá instruções burocráticas para uma arquivista novata (Letícia Sobral).

       O elenco interpreta com bastante sobriedade as personagens entrevistadas e o resultadoi é bastante homogêneo e sóbrio, apesar da crueldade do tema tratado.

       Projeto Revide vem se somar a Terror e Miséria no Terceiro Milênio na denúncia das mazelas políticas e sociais em que o Brasil está enterrado. É notável testemunhar os trabalhos de grupos que suplantam a autocensura (algo mais  nefasto que uma censura oficial) e fazem suas denúncias de forma direta e corajosa.


       PROJETO REVIDE está em cartaz no Teatro Cacilda Becker somente até 25/08 com sessões no sábado às 21h e no domingo às 19h.

 

       19/08/2019

domingo, 18 de agosto de 2019

TEATRO CACILDA BECKER




O DIA EM QUE GRETA GARBO VIROU CACILDA BECKER OU VICE-VERSA
 
       No início da noite do quente domingo de 18 de agosto de 2019 me dirigi ao Teatro Cacilda Becker para assistir ao espetáculo Projeto Revide.
       Atravessando a Rua Tito notei um enorme painel com o retrato de uma mulher que me pareceu a Greta Garbo. Mas o que fazia a Greta Garbo na entrada do Teatro Cacilda Becker?
       A curiosidade exigiu que eu perguntasse para a senhora da bilheteria sobre o assunto e ela me garantiu que aquela era a Cacilda Becker e me indicou o pintor Johnny que estava realizando a pintura. Fui falar com ele sobre a semelhança com a Greta Garbo e ele me disse que tinha feito o trabalho a partir da foto que lhe entregaram como modelo e em seguida me mostrou a foto.
 
 
 
       - Mas esta é a Greta Garbo, eu exclamei.
       - Essa foto estava entre as fotos da Cacilda no Google, Johnny respondeu.
       Patrícia Borges Roggero - simpaticíssima e solícita diretora do teatro - estava por lá e eu fui falar com ela. A princípio incrédula, depois ela concordou comigo que houve um grande equívoco que precisa ser reparado: o lindo retrato de Greta infelizmente vai desaparecer para dar lugar a quem de direito: Cacilda Becker!
       Além deste, Johnny deverá realizar mais retratos de Cacilda nos muros que circundam o teatro.
       Essa homenagem à grande atriz brasileira que dá nome ao teatro é uma belíssima iniciativa do grupo que administra o espaço.
 
 
VIVA CACILDA BECKER (1921-1969)
VIVA O TEATRO BRASILEIRO
 
       18/08/2019
       

terça-feira, 13 de agosto de 2019

FRANCESCO


Francisco, segundo Pennacchi


       Quem conhece a obra e a personalidade do dramaturgo italiano Dario Fo (1926-2016) sabe que jamais uma obra sua sobre Francisco de Assis se assemelharia ao adocicado Irmão Sol, Irmã Lua de Franco Zeffirelli. O seu Francesco é irreverente, cheio de vida e humor, claramente contrário aos dogmas da igreja católica, e trata o biografado de forma muito humana e poética. Pode-se avaliar a importância desse monólogo para Fo ao saber que ele próprio o interpretou por quinze anos (de 2000 a 2015).

       Neyde Veneziano, nossa especialista em teatro de revista e em Dario Fo conduz com muita energia a encenação, focando a atenção na interpretação de Paulo Goulart Filho que se não nos surpreende com suas conhecidas qualidades de dançarino, nos espanta com sua interpretação vigorosa e versátil (ele dá conta de cerca de vinte personagens, incluindo um urso). Dono de porte e voz potentes, o ator em cena lembra muito o seu pai, o saudoso Paulo Goulart (1933-2014).
 
Neyde Veneziano e Paulo Goulart Filho nos agradecimentos
 
       As pequenas igrejas, as catedrais, o palácio papal e a paisagem da Itália medieval ganham vida no palco nu do teatro por meio do engenhoso desenho de luz criado por André Lemes.

       Enriquecem o espetáculo a bela trilha sonora de Daniel Maia e o sóbrio e franciscano figurino criado por Fabio Namatame.

       Francesco é espetáculo alegre, cheio de vida e com cheiro de terra, digno daquele Francisco humano que compartilhou suas histórias com o povão de sua terra e que nas horas vagas conversava com ursos e passarinhos.


       FRANCESCO está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 31/08 com sessões às quintas, sextas, sábados e segundas às 20h e aos domingos às 18h.


       Detalhe extra crítica: Toda a família Goulart (com exceção de Beth) estava presente na noite de 12/08 prestigiando orgulhosa o trabalho do filho/marido/irmão/tio/pai e foi um verdadeiro privilégio testemunhar o perfil da querida Nicette Bruno (ela estava sentada na fileira da frente da minha) acompanhando alegre e emocionada o trabalho do seu Paulinho.

 

       13/08/2019

      




domingo, 11 de agosto de 2019

O CASO SEVERINA


 
Foto: Arnaldo Pereira

        Desde os primeiros momentos da peça fica-se sabendo que Severina Maria da Silva foi a mandante do assassinato do próprio pai Zé Fuba. O restante da peça trata de forma bastante didática a reconstituição dos fatos que antecederam e sucederam o crime, buscando as razões que levaram Severina a tal atitude.
        Acostumados ao humor consciente que sempre permeou as montagens da Fraternal Companhia de Arte e Malas Artes, somos surpreendidos por uma narrativa densa e dramática baseada em fatos reais e que denuncia de forma contundente as violências praticadas com as mulheres neste vasto Brasil. Na hora e meia do espetáculo não há, nem deveria haver, nenhum pequeno espaço para o riso épico tão comum ao grupo.
        A direção de Ednaldo Freire acompanha o didatismo e a linearidade propostos pela dramaturgia de Alex Moletta que é baseada em fato real ocorrido em 2005 no agreste nordestino. Não se sente falta de cenário no palco nu nem de muitos figurinos para se acompanhar com tensão os fatos interpretados/descritos pelos atores/narradores. A trilha sonora de Luiã Borges e Luiz Carlos Bahia é discreta e pontual, comentando e enriquecendo com muita precisão as ações da peça.
        Mirtes Nogueira e Aiman Hammoud, excelentes intérpretes e veteranos da Fraternal, encarregam-se das personagens de Severina e Zé Fuba, enquanto Maria Siqueira, Carlos Mira e Giovana Arruda dividem-se nas demais figuras que de alguma maneira tiveram participação nos fatos ocorridos.
        Pelo tema tratado O Caso Severina é teatro urgente e de denúncia e deve ser visto por todos que se interessam pelas barbaridades ocorridas contra as mulheres e os seres humanos em geral neste Brasil tão propenso à violência e às impunidades.
        Temporadas curtas, normalmente inferiores a um mês, dificultam o boca a boca, recurso tão importante para a divulgação de bons espetáculos. O Caso Severina sai de cartaz no próximo domingo (18/08) e espera-se que encontre recursos para prorrogar sua carreira.

        O CASO SEVERINA está em cartaz no Galpão do Folias às sextas e sábados ás 21h e aos domingos às 19h. NÃO DEIXE DE VER.

        11/08/2019


       

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

AUTO DA COMPADECIDA


Foto de Tati Motta

ALEGRIA, ALEGRIA!

        “Vou fazer a louvação do que deve ser louvado: louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado”, já diziam Torquato Neto e Gilberto Gil.

        Louvar essa delícia clássica de Ariano Suassuna e a assinatura de Gabriel Villela na direção é discorrer sobre o óbvio. O texto de Suassuna tem vigor juvenil e é atualíssimo, além de extremamente popular; Villela tem mãos de Midas transformando tudo o que toca em cores vivas, além de conduzir os atores de forma vibrante.
        Agora a louvação deve se dirigir a essa surpresa para nós paulistanos que é o Grupo Maria Cutia que já tem 13 anos e é formado por jovens e talentosos mineiros com grande vivência em teatro popular e de rua.
        A encenação já coloca o público em suas mãos com a entrada pelas escadas do teatro do Bloco Maria Cutia cantando sorridente e triunfante. Depois de interpretarem com muita garra um ícone da nossa música resistente que é Eu Quero Botar o Meu Bloco na Rua do saudoso Sérgio Sampaio e dedicarem ao momento atual uma sequencia hilária de canções (“Já fui pobre, já fui jornaleiro”, seguida de “O Guarani”) que Elis imortalizou em Falso Brilhante e que eles interpretam da mesma maneira que ela, nossos corpos ainda estão sentados, mas nossa alma já está no palco e preparada para ver e ouvir as peripécias de Chicó e João Grilo, deliciosamente interpretados respectivamente por Hugo da Silva e Leonardo Rocha.
        É difícil descrever toda a beleza e a alegria de assistir a este espetáculo. O desenvolvimento da conhecida trama intercalado por canções da época da Tropicália e ilustrado com o cenário e os figurinos coloridos tão característicos de Villela mostram atores em estado de graça que interpretam as várias personagens e cantam muito bem, preparados vocalmente pela sempre competente Babaya.
        Assim como o gato de João Grilo que “descome” dinheiro, o espetáculo “deslouva” o “ruim”, sem deixá-lo de lado como na letra de Torquato Neto. De maneira divertida e direta com pequenas inserções no texto original mostra com humor como é ridícula e atemorizante a situação atual do nosso pobre Brasil com todo o “ruim” que emana do Planalto Central.
        O espectador sai energizado do espetáculo acreditando que um dia este Brasil poderá ser melhor. Resta saber o que ele fará com essa esperança.

        “Sei não, só sei que foi assim”.

         AUTO DA COMPADECIDA está em cartaz no SESC Pompeia de quinta a sábado às 21h e domingos às 18h só até 1º de setembro. CURTA TEMPORADA! CORRA!!

 

        09/08/2019