terça-feira, 6 de abril de 2021

CACILDA CEM ANOS!

 

Em 1965 eu era um jovem e inexperiente espectador. Já tinha no currículo Paulo Autran, Maria Della Costa e Dina Sfat em Depois da Queda; algumas montagens do Teatro Popular do SESI e Pequenos Burgueses com o elenco milionário do Oficina, todos assistidos em 1964. Espetáculos importantíssimos, mas ainda vistos com certo olhar amador.

Conhecia Cacilda Becker dos teleteatros na TV Record, do filme Floradas na Serra (1954) e de sua fama de grande atriz: dizia-se que talvez fosse a maior atriz brasileira em atividade nos nossos palcos.

 

Uma peça com título estranho para a época estreava no teatro que levava o nome da atriz situado na Avenida Brigadeiro Luís Antônio: Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

O texto do dramaturgo norte americano Edward Albee colocava em cena dois casais: Nick e Benzinho formavam o casal mais jovem interpretado por Fulvio Stefanini e Lilian Lemmertz e o casal mais velho era Jorge (Walmor Chagas) e Marta (Cacilda Becker). Walmor e Fulvio estavam ótimos, mas Lilian (que interpretou Marta em 1978, substituindo Tônia Carrero, quando esta brigou com o diretor Antunes Filho e abandonou o espetáculo) e, principalmente, Cacilda roubavam a cena.


A peça, hoje bastante conhecida, revela as marcas deixadas pela vida em casal de meia idade e uma de suas cenas capitais mostra embate furioso entre Marta e Jorge. Assistindo à interpretação visceral de Cacilda, descobri que para mim o teatro era a arte mais potente para enfrentar a vida e a partir daí fui lapidando o espectador teatral que sou hoje. SIM, DEVO ISSO A CACILDA BECKER!

 

Cacilda com sua pronúncia tão particular, sua poderosa voz grave e sua respiração ofegante tornou-se para aquele jovem espectador o paradigma do que uma atriz de teatro devia ser.  Presenciei outras grandes atrizes no palco como sua irmã Cleyde Yáconis, Marília Pêra, Glauce Rocha, Laura Cardoso e tantas outras e Cacilda com apenas três peças a que assisti com ela, ficará para sempre junto às outras no Olimpo do teatro brasileiro. Some-se a isso a militância da cidadã Cacilda que lutou contra a censura estabelecida pela censura da ditadura e enfrentou os poderosos para tentar tirar artistas das garras dos torturadores; sua presença frente à Comissão Estadual de Teatro (CET) foi de forte impacto positivo para o teatro paulista.

 

A segunda peça a que assisti com Cacilda foi Isso Devia Ser Proibido (1967), uma brincadeira de metateatro escrita por Braulio Pedroso e Walmor Chagas para driblar a ferrenha censura da época; uma espécie de respiro entre dois trabalhos de grande envergadura da companhia: Virginia Woolf (1965) e Esperando Godot (1969). Uma equipe de grande talento assinava a montagem: Gianni Ratto (direção), Ciro Del Nero (cenário), Alceu Penna (figurinos), Julio Medaglia (música), Marilena Ansaldi (coreografia) e na interpretação Cacilda e Walmor. Com todo esse potencial a montagem não teve grande acolhida nem da crítica, nem do público. Da minha parte, lembro vagamente de Cacilda (de cabelos curtos) e Walmor no palco representando, de alguma maneira, eles mesmos, mas a peça não me marcou.

E em abril de 1969, chegou o dia de esperar Godot. Estreava no Teatro Cacilda Becker a visão de Flávio Rangel da peça de Samuel Beckett.


                Assisti a Esperando Godot (*) em uma quinta-feira, feriado de primeiro de maio. Cacilda Becker ainda representou Estragon naquele fim de semana. Na terça feira seguinte, dia 6 de maio, durante uma apresentação para estudantes, sentiu-se mal no intervalo, sofreu um aneurisma cerebral e nunca mais retornou aos palcos. Seu falecimento ocorreu em um sábado, 14 de junho de 1969, dia de luto para o teatro brasileiro. Naquele feriado eu deveria ir à praia e, caso isso tivesse ocorrido, teria perdido o espetáculo. Foram poucas as peças a que assisti com ela, porém foram experiências inesquecíveis. Jamais me perdoaria se tivesse trocado por um banho de mar a última chance de ver Cacilda.

 No capítulo dedicado a Cacilda Becker, apresentado em 19 de outubro de 1981 na série concebida por Julio Lerner para a TV Cultura    A Aventura do Teatro Paulista, Walmor Chagas fez um emocionante relato sobre o último espetáculo em que os dois atuaram. Na ocasião tomei nota do que ele afirmou: 

Era uma sessão vespertina para estudantes. Cacilda sempre tomava Cafiaspirina antes de ir para o teatro. Ao final do primeiro ato me pediu um café. Tomou e fumou um cigarro. Após o primeiro sinal para o início do segundo ato comentou que estava com dor de cabeça e queria outra Cafiaspirina. Pediu outro café e sentou-se. Segundo sinal. “Não estou bem” disse Cacilda. A xícara de café caiu de suas mãos. “Walmor, acho que vou ter um derrame”. Ela quis levantar. “Não estou conseguindo”. Suas mãos baquearam. “Não sei o que estou sentindo!”. Foram suas últimas palavras. Solicitamos se havia algum médico na plateia. O Líbero (Rípoli Filho) pegou Cacilda no colo e, atravessando a plateia já evacuada, levou-a até a ambulância. Seus dedos foram tocando a primeira poltrona de cada fileira. Ao chegar ao hospital, Cacilda tentou levantar da cama e, não conseguindo, caiu no chão e sangrou a boca com o tombo. Socorrida, nunca mais reagiu nem disse mais nada. Foi operada duas ou três horas depois. Após 39 dias em coma e cercada de pessoas queridas, faleceu na manhã de um sábado, dia 14 de junho de 1969. 

                A Companhia de Cacilda Becker locava o teatro pertencente à Federação Paulista de Futebol, localizado na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 917, ao lado do atual Teatro Bibi Ferreira. Pequeno, agradável e acolhedor, o espaço foi testemunha de boa parte dos trabalhos que Cacilda realizou após sair do elenco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e também do último ato da atriz. Por isso tudo, se este país tivesse memória e respeito por seus artistas, esse espaço ainda deveria levar o nome de Cacilda. Hoje, fechado para o público, é auditório da Faculdade Ibero Americana.

         Este foi meu primeiro contato com a encenação de um texto de Samuel Beckett e o impacto foi muito grande. A peça tem uma estrutura circular e a noção de tempo é eliminada. Junto a uma árvore seca, os vagabundos Vladimir e Estragon discorrem sobre o nada enquanto esperam pela chegada sempre anunciada, mas nunca concretizada, de Godot. Seus caminhos são atravessados pelas figuras bizarras de Pozzo e seu criado Lucky e também por um menino, suposto representante de Godot que vem anunciar que naquele dia Godot não virá, mas que deverá aparecer no dia seguinte sem falta... São dois atos muito parecidos, onde a ação dramática é quase eliminada. No entanto, a perplexidade e a comoção estão presentes durante todo o tempo do espetáculo. Lembro-me bem da direção enxuta de Flávio Rangel, do cenário árido de Cyro Del Nero e das interpretações de todo o elenco, com destaque para o Lucky de Carlos Silveira, um ator sensível e com um enorme potencial, que, no entanto, abandonou o teatro e fez carreira como dublador. O seu longo monólogo permeado de fatos absurdos e desconexos era um dos grandes momentos do espetáculo.

Sentei-me em uma das primeiras fileiras do teatro, e a cena - eternizada pela câmera de Cristiano Mascaro, onde ela tenta tirar a bota apertada, era representada a poucos metros da minha poltrona. Havia tal humanidade nas expressões de Cacilda/Estragon, o seu sofrimento perante o vazio da existência era tão dilacerante, que não havia como não se emocionar e compartilhar aquele momento de tamanha grandeza. Lendo sobre o caráter passional de Cacilda e pelo momento que passava em sua vida pessoal, fica difícil distinguir a atriz da personagem.


         Para sempre ficará em minha memória a patética cena do final de cada ato: 

ESTRAGON: Então vamos?

VLADIMIR: Reerga as calças.

ESTRAGON: O quê?

VLADIMIR: Reerga as calças.

ESTRAGON: Para eu erguer as calças?

VLADIMIR: Reerguer as calças.

(Estragon reergue as calças. Silêncio)

VLADIMIR: Então, vamos?

ESTRAGON: Vamos.

(Eles não se movem)

CAI O PANO  

                “Vamos.” Foi a última palavra de Cacilda Becker em um palco. E assim, ela deve ter ido ao encontro de Godot e dos chamados deuses do teatro, pois, se o teatro era a sua vida, foi também a sua morte.



     Se um dia realizarem um filme sobre Cacilda a minha sugestão é que a última cena seja ela sendo carregada para ser socorrida após o incidente no intervalo de Esperando Godot com um close de sua mão magra e os dedos tamborilando as poltronas do teatro. Não tenho dúvida que ela estava se despedindo de seu teatro e, quiçá, da vida.


         Neste 06 de abril de 2021 Cacilda estaria completando um centenário. Dificilmente ela estaria viva hoje, mas podia ter sido poupada por mais algum tempo e não ter sua vida ceifada com apenas 48 anos. Tenho certeza que, se assim fosse, Walmor, Cleyde, Cuca, Clara, a classe teatral, o público e, com certeza, todo o teatro brasileiro, teriam sido muito mais felizes.

 

VIVA CACILDA BECKER!

VIVA O TEATRO! 

         (*) O relato referente ao espetáculo Esperando Godot, faz parte do meu livro O Palco Paulistano de Golpe a Golpe (1964-2016).

           06/04/2021

 

        

        

 



segunda-feira, 5 de abril de 2021

NÃO SE MATE

 

 

Tenho sangrado demais

Tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri

Mas esse ano eu não morro

(Belchior) 

        A dramaturgia da peça Não Se Mate de Giovani Tozi é toda pontuada por poemas de Carlos Drummond de Andrade, mas no meu modo de ver os versos que melhor definem o espetáculo são os citados em epígrafe, trecho da canção Sujeito de Sorte de Belchior.

        Carlos, o personagem da peça de Tozi, decididamente não é, ou no mínimo, não está um sujeito de sorte: acaba de perder a mãe, o emprego e a namorada. Tudo de uma vez, como ele se queixa em altos brados. Em seu desespero depressivo ele perde a vontade de pintar e pensa em se suicidar, entretanto muda de ideia ao surgir uma espécie de deus ex machina de nome José, em recurso dramatúrgico muito interessante que joga com o tempo e que me fez lembrar a Valsa Brasileira de Chico Buarque; mais não revelo para não ser desmancha prazer para quem vai assistir este instigante trabalho de um jovem dramaturgo.

        Tozi, admirador confesso da obra de Drummond, acertadamente não abusa dos versos do poeta, aproveitando trechos dos mesmos apenas para ilustrar (e enriquecer) o seu texto.

        Leonardo Miggiorin despe-se de qualquer charme televisivo para interpretar o indignado Carlos e o faz com total entrega e muito talento. Este talvez seja o seu trabalho mais maduro.

        A peça conta ainda com a presença iluminada de Luiz Damasceno no papel de José.

        O cenário (não creditado na ficha técnica) simples, mas bastante prático é iluminado por Cesar Pivetti, o figurino é assinado por Fábio Namatame e a bela trilha sonora é de DW Ribatski.

        Tudo isso regido pelo autor Giovani Tozi, também diretor deste importante espetáculo.

        NÃO SE MATE. Temporada online de 02 a 11 de abril de sexta a domingo às 20h pelo Sympla. ÚLTIMA SEMANA. NÃO PERCA!

        05/04/2021

       

 

 

domingo, 4 de abril de 2021

SERTÃO SEM FIM

 


Para contar a história da brava guerreira Bastia era necessário gente também guerreira e dessa equipe talentosa resultou “Sertão Sem Fim”.

O talento inicia com o ótimo texto de Rudinei Borges dos Santos que mostra a luta de uma mulher em um sertão sem clichês, passa pela direção enxuta de Donizeti Mazonas que tão bem captou o clima proposto por Rudinei com a grande ajuda da incrível cenografia de Eliseu Weide, iluminada por Hernandes de Oliveira, embalada pela majestosa - sim, eu escrevi, majestosa – trilha sonora de Gregory Slivar e culmina, é claro, com a pungente interpretação de Tertulina Alves, na verdade a guerreira Mór do espetáculo.

Muita adjetivação? Pode ser, mas o espetáculo me deixou de quatro e não havia outra maneira de me expressar.

Detalhe: a captação de imagens também é perfeita. 

Temporada até 11 de abril às sextas, sábados e domingos às 21h.

Exibição pelo canal do Youtube/movicenaproducoes 

03/04/2021

sábado, 3 de abril de 2021

VOZES DO SILÊNCIO

 

Carolina Virgüez já demonstrou seu “fôlego” e enorme talento na antológica cena de Caranguejo Overdrive onde ela, como uma prostituta paraguaia do mangue, conta em velocidade vertiginosa a história da política brasileira para um homem esfomeado.

Pois a atriz consegue se superar na peça Não Eu (Not I) que faz parte do espetáculo Vozes do Silêncio com três peças curtas de Samuel Beckett (1906-1989). Não Eu é um monólogo que, de acordo com o autor, deve mostrar apenas a boca da intérprete. Concebida para o teatro, a peça ganha destaque especial com o close permitido pela linguagem audiovisual. A interpretação de Carolina é hipnotizante e seus quase uivos ao questionar “O QUÊ?” vão permanecer na memória do espectador por muito tempo.

Uma velha mulher está sentada em uma cadeira de balanço movendo-se continuamente enquanto se ouve sua voz gravada; pêndulos marcam o ritmo da cena. Esta é a peça Cadência (Rockaby), segunda do “filmeNãofilme”, conforme o grupo batizou o espetáculo.

Passos (Footfalls), terceira e última peça, mostra uma filha caminhando continuamente com nove passos para a direita e nove passos para a esquerda enquanto sua mãe lhe dirige a palavra. Concebida para duas atrizes, neste caso Carolina interpreta as duas mulheres.

Segundo a direção, as três peças revelam existências femininas marcadas pela repetição dos hábitos e eu acrescentaria que esses hábitos são sombrios e bastante depressivos, muito de acordo com o clima mostrado na maioria das peças do dramaturgo irlandês.

O espetáculo termina com a boca da primeira cena dando voz a Marielle Franco, dando o toque político ao espetáculo.

Gravado em belíssimo preto e branco o filmeNãofilme tem direção segura e cenografia de Fábio Ferreira, criando clima propício para o universo beckettiano; para tanto é importante mencionar a iluminação de Renato Machado, o visagismo de Cleber de Oliveira e a instigante trilha sonora de Felipe Storino. Tudo isso coroado com a presença luminosa de Carolina Virgüez.

Vozes do Silêncio não é um espetáculo fácil, mas importantíssimo para se tentar entender um pouco mais os meandros da alma humana. 

Temporada de 02 a 25 de abril, de sexta a domingo às 19h. Ingressos gratuitos pelo Sympla. 

03/04/2021

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

LIÇÕES DRAMÁTICAS POR JOÃO CAETANO

 

Aquilo que pelo título pode parecer didático e cansativo de acompanhar trata-se de delicioso e lúdico exercício teatral que vai agradar não só a quem faz teatro, mas ao público em geral.

Em 1862 o ator João Caetano (1808-1863) publicou o livro Lições Dramáticas onde discorre sobre a arte da interpretação dirigindo-se principalmente aos jovens atores.

Claudio Mendes compilou as 12 lições contidas no livro com o auxílio de Isaac Bernat que também responde pela direção dos episódios que formam a web serie formada por 12 episódios deliciosos com cerca de dez minutos cada que obedecem a uma estrutura simples e funcional: o ator “ministra a aula” acompanhado de canções da época tocadas ao vivo por violão (André Mendes) e cavaquinho (Pedro Cantalice) e ao final faz leitura de trechos de peças que têm como tema o teatro.

Sem afetação e com muito talento Claudio Mendes incorpora a figura de João Caetano e apesar de se restringir às falas e ao linguajar do velho ator, traz uma atualidade impressionante a tudo o que é dito. Há um momento saboroso na décima segunda lição, onde se reproduz diálogo entre João Caetano e Martins Pena (1815-1848) no qual o primeiro conclui que nunca sofreu pateada (designação comum na época, hoje fora de moda, para o ruído que o público faz com os pés nos espetáculos teatrais em sinal de reprovação), diz ainda que “o público brasileiro é muito tolerante e que seria bom que fosse mais severo para que não tivéssemos entre nós tantas gralhas ornadas com penas de pavão”.

As lições referem-se à voz, ao gestual, à compreensão do texto e em tudo há indicação/sugestão de equilíbrio e comedimento. Não há registros das atuações de João Caetano, mas os escritos sobre ele o descrevem como um ator de gestos grandiloquentes que não declamava em cena...ele rugia! A verdade, onde está a verdade? Ou ainda: “Faça o que eu digo e não faça o que eu faço”.

Polêmicas à parte, não resta dúvida que João Caetano foi um importante e inovador ator de teatro e Claudio Mendes o representa com muita verve e talento.

A direção de Isaac Bernart é precisa, simples, perfeitamente adequada à linguagem audiovisual e em harmonia com o belo cenário de Carlos Alberto Nunes construído no amplo espaço do teatro de arena do SESC Copacabana. A delicadeza da montagem fica por conta da parte musical interpretada por André Mendes e Pedro Cantalice e a cereja do bolo, é claro, é Claudio Mendes com sua interpretação primorosa e emocionada de João Caetano e das personagens das peças que ele apresenta ao final de cada episódio.

Na noite de 1º de abril de 2021 assisti à entrevista que o ator concedeu ao SESC Rio e me propus a assistir ao primeiro episódio. Tal foi o entusiasmo que passei para o segundo, para o terceiro e quando percebi estava ao final do décimo segundo. Foram mais de duas horas de puro deleite.

ESSAS LIÇÕES DRAMÁTICAS são ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEIS. Não perca a oportunidade de assistir a um ator em pleno estado de graça interpretando outro ator que dá lições de interpretação.

O acesso é pelo canal do SESC Rio no YouTube (uma vez no portal, clicar em vídeos):

 

 https://www.youtube.com/user/portalsescrio


02/04/2021


terça-feira, 30 de março de 2021

BERTA E SEVERINO

 

 

No final de 2019 fui contratado pela associação Amigos da Arte para realizar pesquisa sobre os 40 anos do Teatro Sérgio Cardoso. 

O teatro foi inaugurado no dia 13 de outubro de 1980 após um longo período de obras no local onde anteriormente ficava o Teatro Bela Vista (inaugurado em 1956) que por sua vez ocupava o edifício reformado do Cine Theatro Esperia (inaugurado em 1914).

Na primeira parte do trabalho me concentrei nos antecedentes do Teatro, ou seja, o Bela Vista e o Esperia.

A seguir foi a fase de consultar meus arquivos e os da associação para criar um banco de dados com a ficha técnica básica de cerca de 700 eventos que passaram pelos palcos das duas salas do complexo.

A terceira fase consistiu em tentar recolher dados curiosos sobre o espaço nos meus arquivos e naqueles do Centro Cultural São Paulo e dos jornais O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. Tentativa bastante frustrante que resultou apenas com alguma informação do CCSP e com aquelas recolhidas nos recortes do meu acervo.

No dia 10 de março de 2020 junto com a diretoria da Amigos da Arte dei por encerrada essa parte do trabalho e agora a ideia era partir para uma pesquisa externa entrevistando pessoal do entorno e artistas que, de alguma maneira, passaram pelo teatro.

Prioridade um: Berta Zemel, única remanescente de Hamlet (peça que inaugurou o Teatro Bela Vista em 1956) e também intérprete de Anjo Duro, peça que marcou sua volta ao teatro após ausência de 30 anos e que foi apresentada na Sala Paschoal Carlos Magno em 2000.

Prioridade dois: O pipoqueiro Severino, verdadeira testemunha ocular da história, que viu passar por sua carrocinha os espectadores dos 40 anos do teatro, além de conversar e “bisbilhotar” com funcionários do teatro e com os artistas que ali estavam se apresentando. É unânime a opinião que Severino sabia mais sobre o teatro e seus bastidores do que qualquer teórico de teatro com seus livros e enciclopédias.

Três dias depois a pandemia chegou galopante, trancafiando cada um de nós em suas celas particulares. Cheguei a fazer contatos virtuais com Ligia Cortez, Samir Yazbek, Johana Albuquerque e Maria Thereza Vargas que não puderam ir adiante por força das circunstâncias, mas o acesso a Berta e a Severino eram mais difíceis.

Já com idade avançada e debilitada, Berta nos deixou no final de fevereiro e agora foi a vez da covid levar o Severino.

Mesmo que um dia voltemos a fazer a pesquisa sobre o Teatro Sérgio Cardoso ela nunca mais será completa: os espaços reservados a Berta e a Severino estarão para sempre vazios 

VIVA BERTA ZEMEL

VIVA O SEVERINO PIPOQUEIRO

VIVA O TEATRO BRASILEIRO

30/03/2021

domingo, 28 de março de 2021

27’S (VINTE SETES)

 

Gustavo Rodrigues é um ator carioca pouco presente nos palcos paulistanos; dotado de grande talento e versatilidade, quem teve o privilégio de assistir a Billdog em 2014 no saudoso CIT Ecum onde ele interpretava nada menos que 38 personagens sabe do que estou falando. Gustavo chegou a montar Billdog 2 que infelizmente ficou restrito aos palcos cariocas.

Partindo de fato realmente surpreendente o ator, dotado também de alma roqueira, solicitou à dramaturga Daniela Pereira de Carvalho que escrevesse um texto sobre a morte prematura aos 27 anos de cinco ídolos do rock, a saber: Jimi Hendrix (27/11/1942 – 18/09/1970), Janis Joplin (19/01/1943-04/10/1970), Jim Morrison (08/12/1943-03/07/1971), Kurt Cobain (20/02/1967-05/04/1994) e Amy Winehouse (14/09/1983-23/07/2011); lembrando ainda que quem puxou a fila muito antes foi o cantor e guitarrista de blues Robert Johnson (08/05/1911-16/08/1938).

De posse dessa ideia a dramaturga criou a personagem de um roqueiro de meia idade que, de certa forma, também morreu aos 27 anos (não revelo a razão para não estragar o prazer do futuro espectador) e é com os traumas dessa personagem e suas recordações dos cinco artistas mortos que a peça se desenvolve.

Mais um trabalho de fôlego de Gustavo Rodrigues que toca, canta, narra e vive as estrelas do rock em questão. Ele é acompanhado da bela voz de Laura Lenzi (que, além de tecladista, interpreta as canções de Amy e Janis), Arthur Martau (baterista), Tauã de Lorena (guitarrista) e Sandra Nisseli (baixista). Ricco Vianna e Tauã de Lorena assinam a excelente direção musical.

Com as novas linguagens surgidas nestes tempos de pandemia a peça-filme (segundo release) transita entre teatro e áudio visual naquilo que também já se definiu como peça híbrida. Independentemente do nome que se queira dar, o importante é que o resultado dessa direção conjunta de Vera Holtz (interpretação), Guilherme Leme Garcia (encenação) e Gustavo Leme (olhar cinematográfico) é simplesmente excepcional.

Fotografado em belíssimo preto e branco o espetáculo revela o corpo suado e cansado e a alma também exausta desse homem desesperançado que, de alguma maneira, sofre por não ter tido o mesmo destino do pessoal do Clube dos 27: Bob, Jimi, Janis, Jim, Kurt e Amy.

27’s não se restringe à morte dos biografados e procura mostrar as razões dessas mortes: “O mundo está cheio de gente querendo apontar seus dedos na cara daqueles que lhe são diferentes”, exclama com indignação o roqueiro em certo momento da peça. E não é isso o que o dito homo sapiens mais sabe fazer?

27’s é ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL e pode ser visto no YouTube (bit.ly/espetaculo27s) nos dias 28, 29 e 30 às 19h e às 21h e no dia 31 às 19h.

28/03/2021