segunda-feira, 30 de setembro de 2024

CORTE SECO

 

Conforme indica o título, o texto de Marcelo Oriani é um corte seco sem concessões em um assunto escabroso e grave que ocorre com maior frequência do que se imagina que é o abuso sexual infantil, praticado, na maioria das vezes, dentro de casa, por um amigo da família, ou um tio, ou o avô ou até o próprio pai da criança.

Claudia Schapira ao traduzir cenicamente tema tão difícil, o fez com uma beleza e um equilíbrio dignos de nota. Sua direção harmoniza a potente trilha sonora (Dani Nega), os excelentes efeitos de luz criados por Rodrigo Palmieri, a cenografia clean de Juliana Fernandes, os figurinos de Rosângela Ribeiro, a preparação vocal realizada por Sandra X e a fantástica preparação corporal e direção de movimento (Luaa Gabanini) das atrizes que circulam pelo espaço em sincronia e com gestual impressionante. Tudo isso a serviço da atuação das três atrizes (Camila Fernandes, Nandda Oliveira e Raquel Domingues) que interpretam visceralmente os vários personagens da peça.


 Esse equilíbrio entre todos elementos de uma encenação é o que para mim demonstra que uma direção foi bem sucedida.

A ficha técnica indica também Dani Hell (Live-DJ) e Eliana Monteiro na provocação cênica.

O autor é enfático ao escrever no programa: “Eu gostaria que essa peça não existisse, mas, se ela existe, é porque o assunto sobre o qual ela trata ainda existe”.

Tão grave quando o abuso é o silêncio daqueles (mães normalmente) que convivem com ele.

- O que aconteceu com você não é visível

- E se não é visível é como se nunca tivesse existido

E a criança convive com o trauma silenciosamente, muitas vezes até carregando um sentimento de culpa.

CORTE SECO precisa ser visto e divulgado. 

Em curta temporada no Centro Cultural São Paulo às quintas e sextas às 21h e aos sábados e domingos às 17h e 19h

ALERTA DA PRODUÇÃO:: nessa última semana não haverá sessões no domingo, por conta das eleições. As próximas sessões serão: quinta às 21h, sexta e sábado às 19h e as 21h.

 

30/09/2024

domingo, 29 de setembro de 2024

PARA MARIELA

 


 

O Sobrevento reinventa os tempos de delicadeza 

Parafraseando o Seu Bertolt: Eu vivo nas cidades nos tempos de guerra, insegurança e violência. Eu vivo num tempo sem sol.

As pessoas andam tristes, cabisbaixas e olhando para o próprio umbigo em um individualismo assustador.

Mais ou menos nesse estado de espírito percorrendo de Uber essa cidade da qual restará apenas o vento que por ela perpassa (olha o Brecht de novo) chega-se ao aconchegante Espaço Sobrevento que fica muito perto do tenebroso templo de Salomão.

Crianças circulam brincando na frente do teatro e um público bastante simples aguarda o início do espetáculo Para Mariela, concebido, dirigido e interpretado pelo casal fundador do grupo há 38 anos, Sandra Vargas e Luiz André Cherubini.

O espaço cênico foi reformulado para o espetáculo: a plateia fica em volta de uma plataforma retangular coberta de areia que será o cenário do espetáculo.

Os atores vestindo macacões, no bolso dos quais vão tirando objetos que farão parte da cena, iniciam histórias que rememoram a infância passada na zona rural de um país. Boa parte dessas histórias foi recolhida pelo grupo com as crianças bolivianas que moram nas imediações do teatro. Ao formatar casinhas com a areia da plataforma eles vão construindo uma cidade em clima que lembra uma atmosfera tchekoviana com longos silêncios e gestos lentos. Cabe notar que a grande quantidade de crianças presentes acompanha as cenas com muita atenção e em silêncio.

Os mais variados objetos vão surgindo em cena, material extremamente lúdico cuja manipulação é uma característica do teatro de objetos do Sobrevento.

Em clima nostálgico um homem comenta sobre a vontade de ver o mar que inexiste na Bolívia, o grupo canta uma canção enquanto há um desfile de objetos que podem ser encontrados no mar.

De repente, explode uma canção boliviana que vira o jogo do clima silencioso e meditativo para um clima de festa com desfile de máscaras e tipos do folclore bolivariano. A participação das crianças da plateia é a coisa mais emocionante desse momento que cada um de nós sente um lampejo de esperança no futuro.

Certas cenas da peça me lembraram o bonito texto de Eduardo Galeano sobre um menino que não conhecia o mar e foi com o pai até ele. Ao chegar o menino deslumbrado com aquela magnitude e beleza olhou para o pai e disse: “Por favor pai, me ajude a olhar.” E é isso que o espetáculo faz, nos ajuda a sentir a vida com mais paciência e mais esperança. Viva o Sobrevento! 

PARA MARIELA está em cartaz de sexta a segunda às 20h até 14 de outubro. Ingressos grátis - reservas no email: info@sobrevento.com.br 

29/09/2024

 

 

sábado, 28 de setembro de 2024

TRÊS GRANDES ATRIZES NOS PALCOS PAULISTANOS

 

Introdução talvez inútil 

Fiz uma pesquisa recentemente e constatei como a presença feminina é preponderante nos palcos brasileiros.

Tendo como parâmetro aquilo que considero uma grande atriz (talento, presença, versatilidade, personalidade) levantei o nome daquelas nascidas no século XX. Cheguei a 71 nomes e provavelmente alguns outros devem ter me escapado. Usando o mesmo critério para os atores cheguei a pouco mais que uma dezena.

As atrizes nascidas nas duas primeiras décadas do século já partiram, mas daquelas nascidas na década de 1920 ainda temos a presença forte de Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Nathália Timberg e Monah Delacy.

A década de 1930 foi pródiga em trazer ao mundo grandes atrizes (19), infelizmente a grande maioria já partiu restando apenas Miriam Mehler e Suely Franco.

Da década de 1940 (8) temos as presenças de Walderez de Barros, Irene Ravache, Renata Sorrah e Juliana Carneiro Cunha.

Da década de 1950 em diante todas estão vivíssimas e brilhando em nossos teatros.

Mais três grandes momentos femininos nos palcos 

Neste ano de 2024 já tivemos grandes interpretações femininas, basta lembrar de Rafaela Azevedo (King Kong Fran), Luciana Ramanzini (Codinome Daniel), Mel Lisboa (Rita Lee), Noemi Marinho (O Vazio da Mala), Debora Duboc (Glauce), Guida Vianna e Silvia Buarque (A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe), Lindsay Castro Lima (Petra), Fafá Rennó e Carla Salle (Shakespeare Apaixonado).

Chego finalmente à razão desta matéria: nesta última semana do mês de setembro tivemos três monólogos com interpretações não menos que soberbas de atrizes brasileiras.

PRIMA FACIE

Débora Falabella empresta todo seu talento para a personagem de Tessa, uma advogada que defende acusados de violência sexual que é assediada e estuprada em sua casa por um colega de trabalho. O inconformismo de Tessa explode em cena na interpretação visceral de Débora. A peça foi escrita por uma mulher (Suzie Miller) e dirigida por outra (Yara de Novaes).

Cartaz do Teatro Vivo 

MONGA


Monga revela o talento e a coragem de jovem atriz cearense Jéssica Teixeira de mostrar os preconceitos com sua má formação física por meio da história de uma mulher mexicana, aquela apelidada de Monga (mulher macaco) que teve seu corpo (vivo e depois morto) explorado em circos e exposições por mais de 150 anos. Jéssica é uma grande performer, que canta, dança e interage de forma muito simpática com o público. Além de atuar, Jéssica é autora do texto e assina a direção.

Cartaz do SESC Avenida Paulista

DORA


Sara Antunes convive há algum tempo com a figura de Maria Auxiliadora Lara Barcellos (Dora), mulher destemida. guerrilheira, que pagou com a própria vida os maus tratos sofridos pela truculenta ditadura brasileira. O texto escrito pela atriz baseia-se na correspondência trocada entre Dora e sua mãe. A peça já foi apresentada virtualmente, mas encontra seu lugar certo ao ser encenada ao vivo. Em um verdadeiro tour de force Sara interpreta apaixonadamente Dora e ao mesmo tempo faz toda a complexa contrarregragem exigida pela encenação também assinada pela atriz.

Cartaz do SESC Ipiranga 

VIVA AS GRANDES ATRIZES BRASILEIRAS!

VIVAS O TEATRO! 

28/09/2024

domingo, 15 de setembro de 2024

BALANÇO DO MIRADA 2024

 

        Em onze dias (de 05/09 a 15/09) o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, o popular MIRADA apresentou 33 espetáculos, 20 internacionais e 13 nacionais. Tive a oportunidade de assistir a 14 internacionais e 2 nacionais.

        Comentei todos eles nas matérias que publiquei durante o evento. Resumindo, segue aquilo que em minha opinião foi a principal característica de cada um e a respectiva nota (de 0 a 10)

        - Surpreendente: CRUZADES (Espanha) - 10

        - Gostoso: CABARÉ CORAGEM (Brasil) – 10

- Importante e necessário: YO SOY EL MONSTRUO QUE OS HABLA (Espanha)- 9

        - Vigoroso: MENDONZA (Mexico) – 9

        - Bonito: EL TEATRO ES SUEÑO (Peru) – 9

        - Energético: POPERÓPERA TRANSATLÂNTICA (Brasil) – 8

        - Repetitivo: TIERRA (Uruguai)- 7

        - Perspicaz: G.O.L.P. (Portugal /Chile) - 7

        - Tecnológico: O ESTADO DO MUNDO (Portugal)- 7

        - Morno: ESPERANZA (Peru) – 6

        - Irregular: SOMBRAS POR SUPUESTO (Argentina)– 6

        - Longo: SUBTERRÂNEO (Portugal/Brasil) - 5

        - Sonífero: GRANADA (Chile) - 4

        - Prolixo: QUEMAR EL BOSQUE CONTIGO ADENTRO (Peru) - 3

        - Inexpressivo: EL PRESIDENTE MÁS FELIZ Peru) - 1

        - Menos visto: PALMASOLA (Suíça/Bolívia) – sem avaliação           

        Entenda essas adjetivações lendo as matérias que escrevi sobre os espetáculos.

        Deixei de ver alguns importantes espetáculos muito elogiados por aqueles que os assistiram, são eles: EL RINCÓN DE LOS MUERTOS (Peru), MONGA (Brasil), VILA SOCÓ (Brasil)e    A VELOCIDADE DA LUZ(Argrentina).

        Enquanto São Paulo ardia de calor e de poluição, Santos esteve com céu nublado, clima úmido e temperatura fresca  durante todo o tempo que lá estive. Nem foi possível ver o mar!

        15/09/2024

 

 

ÚLTIMO DIA DO MIRADA: EL PRESIDENTE MÁS FELIZ e SOMBRAS, POR SUPUESTO

 

El PRESIDENTE MÁS FELIZ

        Um espetáculo peruano de dança contemporânea inexpressivo que não deixa claro a que veio e que não tem nada a ver com a sinopse constante no catálogo nem com o título do mesmo.

        A concepção é da coreógrafa Cristina Velarde.

A única coisa boa do espetáculo é a música de Ulisses Quiroz executada ao vivo. 

SOMBRAS.POR SUPUESTO

        Esta peça argentina escrita e dirigida por Romina Paula começa bem, mostrando com boa dose de humor a visita que dois policiais fazem em uma residência para encontrar provas do eventual crime do filho do casal morador. Os questionamentos são feitos por meio de diálogos ágeis e engraçados, mas a partir do momento em que a policial mostra poderes sensitivos a peça perde a graça e a dramaturgia emperra numa longa verborragia. Uma pena porque temos um quarteto de bons atores e boas atrizes defendendo o texto.

        A peça padece de um problema muito comum também no teatro brasileiro: um bom mote dá origem a uma dramaturgia que começa bem, mas se perde ao longo do caminho e termina mal.

        Tal qual a dramaturgia, o MIRADA não teve o último, como um dos seus melhores dias. Na verdade este foi o penúltimo dia, mas não há mais estreia e aqui me despeço desse grande evento.

        15/09/2024

sábado, 14 de setembro de 2024

MIRADA 9 - MEXA E SERGIO BLANCO

 

 

POPERÓPERA TRANSTLÂNTICA

        Uma deliciosa revista musical do Grupo Mexa de São Paulo comandada com muito brilho por Ivana. Todos interpretam, todos cantam, todos dançam, todos brilham.

        Ivana tem presença magnética em cena, com seu porte altivo e poderosa voz e o elenco tem garra e energia para acompanha-la.

        A Odisseia e a volta de Ulisses para Ítaca são mero pretexto para cada um fazer seu solo e depois brilhar no conjunto.

        Puro entretenimento, muito necessário para os dias de hoje.

        Noto que usei a palavra “brilho” três vezes neste curto texto. Não faz mal, o espetáculo merece!


TIERRA 

         Como admirador da obra e do estilo do dramaturgo/diretor uruguaio Sergio Blanco me incomoda concluir que ele está se repetindo.

O trabalho é bom, mas já não surpreende. É a utilização da mesma formula dos bem sucedidos espetáculos anteriores, em especial do insuperável O Bramido de Dusseldorf.

Mais uma vez Sergio é personagem da peça interpretado por um ator, misturando realidade (a morte da mãe) com ficção, na chamada auto ficção; a peça inicia e é permeada com canções cantadas em inglês e o elenco em vários momentos refere-se a cenas já apresentadas em exercício de meta linguagem. Tudo isso é interessante, mas não instigante porque já apareceu em quase todas as outras peças de Blanco e a receita parece estar se esgotando.

A trama se arrasta por três atos onde surgem os encontros do autor com seus entrevistados.

Após essas ressalvas cabe elogiar o ótimo elenco (Sebastián Serantes compõem um excelente Sergio Blanco e conduz a cena em grande estilo), a produção bem cuidada pode ser notada no cenário que reproduz o chão de uma quadra de esportes e na luz, ambos de Laura Leifert e Sebastião Marrero.

Alguns espectadores justificaram não ter apreciado a peça por não conhecer a obra de Sergio Blanco; acredito que seja exatamente o contrário: quem conhece a obra do autor é que nota a repetição tanto na forma como no conteúdo, gerando um desagradável sentimento de dejá vu. 

14/09/2024

 

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

PALMASOLA

 


A PALMASOLA QUE EU NÂO VI

ou

A VOLTA DE QUEM NÃO FOI

ou

A CORAJOSA FUGA DE PALMASOLA

Palmasola, situada em Santa Cruz de la Sierra, é a maior prisão da Bolívia e é para lá que é levado um jovem que é flagrado pela polícia com cápsulas de cocaína no estômago, ingeridas para posterior transporte para a Europa.

A vida dos presidiários nessa prisão é o mote desse espetáculo do grupo suíço KLARA.

Para dar maior realismo à apresentação na bela Casa da Frontaria Azulejada de Santos, ela foi tornada mais feia com boa parte das paredes cobertas com folhas de zinco e com iluminação beirando a penumbra.

Faz parte da convenção da peça que o público seja tratado como presidiário, caminhando por todo o espaço sem se sentar durante a hora e meia de duração da peça.

Com minha mobilidade reduzida e caminhando com alguma dificuldade com auxílio de uma bengala pensei em desistir antes de adentrar o espaço cênico, mas incentivado por alguns amigos resolvi tentar.

O pessoal do SESC disse que me daria todo apoio que fosse necessário.

Um guarda truculento (personagem) organizou a fila aos berros e após carimbar uma identificação no braço de cada um, fez o público entrar se confinando em uma pequena sala; ali fiquei sabendo que uma senhora do SESC me acompanharia durante todo o trajeto. Nas cenas paradas eu ficaria sentado numa cadeira e no percurso itinerante ela zelaria por mim e carregaria a cadeira até a próxima parada. Nesse salão acontece a cena em que o homem/mula conta como foi parar em Palmasola.

Uma enorme porta de zinco é aberta a seguir e nós, os presidiários, somos conduzidos para um ambiente mais escuro e nesse pequeno trajeto já tropecei. Conclui, talvez tardiamente, que ali não era lugar pra mim. Precisava fugir daquela cadeia, mas como fazê-lo já que eu era um detento sob o olhar dos vigilantes?

A minha acompanhante/carcereira insistia para que eu ficasse, mas achei um jeito de fugir. Uma vez na rua, respirei a minha liberdade e com o suporte da minha bengala caminhei até os Arcos do Valongo onde uma van do SESC me trouxe de volta a segurança (quase) perdida em Palmasola.

Quero deixar claro que não reprovo a maneira da condução do espetáculo; já assisti a muitos espetáculos itinerantes/interativos com ótimos resultados e tudo indica que esse também é o caso deste Palmasola. Sai nos primeiros momentos por duas razões: o medo de cair e para não atrapalhar o clima da peça com uma cadeira circulando no meio das cenas.

Agradeço a atenção do pessoal do SESC procurando ao máximo me apoiar e dar proteção, mas esse espetáculo não é indicado para um octogenário com mobilidade reduzida no momento.  Estava no lugar errado. 

13/09/2024