segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

DRAMATURGIA BRASILEIRA NOS PALCOS PAULISTANOS BALANÇO DE 2024

 

     - Fontes da pesquisa: Guia OFF / Releases dos espetáculos / Anotações pessoais

     


     - A pesquisa não inclui espetáculos apresentados em mostras/festivais, stand up, espetáculos infantis. Por falta de informações também não fazem parte os espetáculos apresentados na periferia da cidade.


     O resultado do levantamento mostra uma situação bastante parecida com aquelas dos anos anteriores.

     Autores brasileiros estiveram presentes em 393 espetáculos, sendo que cerca de três dezenas deles vieram de temporadas anteriores. 

     Muitas adaptações de romances, algumas muito bem sucedidas como o musical Dom Casmurro que Davi Novaes adaptou do romance de Machado de Assis.

      Compareceram também colagens de textos com destaque para os brilhantes Cão Vadio (Ana Rosa Tezza), Prontuário 12.528 (Cesar Ribeiro) e Ao Vivo (Marcio Abreu).

     Dos clássicos (não sei se essa é melhor denominação para os medalhões) compareceram Ariano Suassuna e Nelson Rodrigues cada um com 4 títulos, Consuelo de Castro e Caio Fernando Abreu (2), Arthur Azevedo, Abílio Pereira de Almeida, Fauzi Arap, Paulo Gonçalves, Hilda Hilst e até Oswald de Andrade, cada um com uma peça montada. Curiosamente Plínio Marcos não aparece na lista de 2024.

     Os autores contemporâneos conhecidos comparecem com cerca de 50 títulos com destaque para Dione Carlos (4), Samir Yazbek, Mário Bortolotto e Jhonny Salaberg (3) e os outros (cerca de 15) com duas ou uma peça montada. Neste grupo há de se destacar Daniela Pereira de Carvalho (A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe), Nanna de Castro (O Vazio na Mala), Sandra Vargas e Luiz Miguel Cherubini (Para Mariela), Sara Antunes (Dora) e a grande surpresa que foi Bruno Cavalcanti com o instigante texto de Exercício das Crianças. Estranha a ausência de Luccas Papp, muito presente nos anos anteriores.

     Os mais de 300 títulos restantes foram assinados por autoras/autores pouco conhecidos que raramente solidificam uma carreira na dramaturgia, comparecendo apenas por um ano com textos montados. Em geral seus textos são apresentados em espaços alternativos e eles acumulam outras funções como intérpretes ou diretores. Urge que surjam novos dramaturgos que tragam novas experiências, novas linguagens e sangue novo para o teatro brasileiro.

     Completando a pesquisa vale informar que em 2024 a proporção foi de 3,8 autores nacionais para cada estrangeiro, sendo assim de maneira aproximada foi 500, o total de espetáculos de teatro adulto oferecido ao público paulistano em 2024. 


     27/12/2024  




segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

ZESCAR TEATRO 2024

Neste ano atípico passei cerca de quatro meses longe dos palcos paulistanos. 

Quarenta dias viajando pela Europa, dois meses acamado, dez fins de semana viajando pelo interior apresentando minha palestra dentro do projeto Que Fim Levou Carlotinha? e dez dias no Mirada em Santos me deixaram longe do que se fez em São Paulo nos teatros.

Isso resultou em 120 idas a espetáculos ao vivo, número bem menor do que a média dos últimos anos. Mesmo assim acredito ter assistido aos trabalhos mais importantes apresentados na cidade tendo perdido Brás Cubas da Armazém Cia de Teatro e Cabaret, dirigido por Kleber Montanheiro que foram apresentados enquanto eu estava hospitalizado.

Conforme já divulguei no ano passado a banalização dos prêmios que indicam/premiam até o papagaio de louça que faz parte do cenário, decidi que o ZESCAR não é um prêmio virtual; ele é apenas a lista dos melhores, na minha ótica de espectador apaixonado e o RACSEZ é a lista dos piores do ano!

O ZESCAR é minha lista pessoal. Ele leva em conta os espetáculos a que assisti no ano e nada tem a ver com a minha participação em comissões de premiação onde os premiados são eleitos por votação e nem sempre correspondem àqueles que a meu ver são os melhores.

Cada categoria pode ter apenas um ou mais de 20 títulos, o que importa é que o que está ali é aquilo que realmente me impressionou e que considero os melhores do ano.

Foi um ano repleto de interpretações marcantes e bons espetáculos.

Segue minha lista dos melhores (ZESCAR) entre as 108 peças de teatro a que assisti:

ATOR:


- Brian Penido Ross – Tio Vânia

- Chico Carvalho _ Primeiro Hamlet

- Daniel Gonzales – A Mulher Sem Pecado e Outono

- Elcio Nogueira Seixas – Alegria É a Prova dos Nove

- Evandro Santiago – Cão Vadio

- Fabio Enriquez – Dom Casmurro

- Isio Ghelman – Julius Caesar – Vidas Paralelas

- Kiko Mascarenhas – Todas as Coisas Maravilhosas

- Lucas Drummond -Orfãos

- Pedro Conrado – Patrimônio 12.528

- Rodrigo Mercadante – Dom Casmurro

- Tuca Andrada- Let’s  Play That


ATRIZ:


Em um ano de grandes interpretações femininas não há como não destacar o primoroso trabalho de Fernanda Viacava e Nicole Cordery em Exercício das Crianças.

Não custa lembrar que no cinema Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) e Yara de Novaes (Malu) também brilharam com seus trabalhos.

Segue a lista com mais de 20 nomes, todos eles “melhores do ano”!!

- Anna Cecília Junqueira -Tio Vânia

- Carla Salle – Shakespeare Apaixonado

- Carolina Fabri – 21 Passos Para MdEa

- Debora Falabella – Prima Facie

- Fafá Rennó – Shakespeare Apaixonado

- Fernanda D’Umbra – Alegria É a Prova dos Nove.

- Fernanda Viacava e Nicole Cordery – Exercício das Crianças

- Guida Vianna – A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe

- Isabel Teixeira – Jandira

- Jéssica Teixeira – Monga

- Karen Coelho – Hedda Gabler

- Lindsay Castro Lima – Petra

- Luciana Ramanzini – Codinome Daniel

- Mariana Leme – Hedda Gabler

- Mel Lisboa – Rita Lee – Uma Autobiografia Musical

- Miriam Jardim – A Mulher Sem Pecado e Outono

- Noemi Marinho – O Vazio na Mala

- Rafaela Azevedo – King Kong Fran

- Regina França – Alegria é a Prova dos Nove

- Renata Sorrah – Ao Vivo

- Sara Antunes – Dora

- Silvia Buarque - A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe


DRAMATURGIA:

- Bruno Cavalcanti – Exercício das Crianças

- Daniela Pereira de Carvalho – A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe

- Davi Novaes – Dom Casmurro (adaptação)

- Marcio Abreu – Ao Vivo

- Nanna de Castro- O Vazio na Mala

- Sandra Vargas e Luís Miguel Cherubini – Para Mariela 

- Sara Antunes – Dora


DIREÇÃO:


- Adriana Câmara – Traição

- Ana Rosa Tezza – Cão Vadio

- Bruno Perillo – Copo Vazio

- Cesar Ribeiro – Prontuário 12.528

- Claudia Schapira – Corte Seco

- Leonardo Netto – A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe

- Marcio Abreu – Ao Vivo

- Rafael Gomes – Shakespeare Apaixonado

- Sandra Vargas e Luis Miguel Cherubini – Para Mariela


ESPETÁCULO:

- A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe

- Alegria É a Prova dos Nove

- Ao Vivo (Dentro da Cabeça de Alguém)

- Cabaré Coragem

- Cão Vadio

- Codinome Daniel

- Copo Vazio

- Dom Casmurro

- Exercício das Crianças

- O Vazio na Mala

- Órfãos

- Para Mariela

- Prontuário 12.528

- Shakespeare Apaixonado


OUTROS DESTAQUES QUE ENRIQUECERAM OS PALCOS PAULISTANOS EM 2024:


- Aline Santini – Iluminação

- Diego Pallardo – Espaço de Provocação Teatral

- Gregory Slivar – Trilha sonora executada ao vivo

- J.C. Serroni – Cenografia

- Um Cafofo (André Grynwask e Pri Argoud) - Videomaping


ESPETÁCULOS INTERNACIONAIS:

- MITsp – Não acompanhei

- MIRADA – Não teve o brilho das anteriores com poucos espetáculos significativos, mesmo aqueles do país homenageado (Peru).

- Em viagem ao exterior tive o privilégio de assistir a dois excelentes trabalhos:

- Nôtre Vie Dans l’Art no Théâtre du Soleil/Paris

- Hadestown em Londres


PERDIDOS: Também foram muitos!

- A Árvore

- A Filha Perdida

- A Última Entrevista de Marília Gabriela

- Aqui 1.000.000.000.000

- Brás Cubas

- Cabaret

- Clara Nunes

- De Dionísio Para Koré

- Decameron

- Diário de Um Louco

- Donatello

- Esse Maldito Fecho-Éclair

- Hairspray

- Magnolia

- Martinho Coração de Rei

- Não Fossem as Sílabas do Sábado

- Norma

- O Ninho

- O Viajante

- Os Escafandristas

- Parto Pavilhão

- Por Trás das Flores

- Quase Infinito

- Real Politik

- Rei Lear

- Sangue

- Um Grande Encontro

- Um Jaguar Por Noite

- Vedete do Brasil

- Verme


SHOWS, CONCERTOS, ÓPERAS, DANÇA

Foram apenas doze espetáculos: 

- SHOWS (3): Monica Salmaso e André Mehmari - Elis e Tom/Afeto/Jards Macalé

- CONCERTOS (1): Outros Toms (OSESP)

- ÓPERAS (2): Maria de Buenos Aires /La Bohème (Theatro Municipal)

- DANÇA (6): Deborah Colker (Sagração) / Grupo Corpo (reprises) / Crusaders (Espanha no Mirada) / Sadeh 21 (Ópera de Paris)


RESUMO:

TEATRO:  108

SHOW:         3

CONCERTO: 1

ÓPERA:        2

DANÇA:        6

TOTAL:     120


RACSEZ para os piores do ano!



23/12/2024



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domingo, 8 de dezembro de 2024

21 passos Para MdEa

 

     Essa Medeia contemporânea criada por Marcelo Lazzaratto é MdEa, uma mulher sofrida e rejeitada pelo seu companheiro (Se você não me queria/não devia me procurar/não devia me iludir/nem deixar eu me apaixonar) com o qual teve dois filhos. 

     Com sua imensa dor, debruçada na mureta de uma ponte ela tenta, sem sucesso, esquecer desse homem que a rejeitou (Evitar a dor é impossível/evitar esse amor é muito mais/você arruinou a minha vida) e então se vale do mito de Medeia para dar vazão à sua ira. Suas mãos estão cobertas de sangue. Terá já cometido o infanticídio nos moldes do mito? Em cena, ao contrário de seu arquétipo, ela não age, mas só articula ações talvez nunca realizadas.

     Essa personagem angustiada e introspectiva é interpretada com muita contenção por Carolina Fabri. Poucos gestos, quase nenhuma movimentação facial e alteração de voz e ao mesmo tempo quanta emoção provocada em quem assiste.

     O monólogo de Carolina soma-se às grandes interpretações femininas do ano.

     A música de Monsueto (Me Deixa Em Paz) serve como uma luva para o tema da peça com a importante exclusão do “Ora vá mulher, me deixa em paz” dita pelo homem, que dava uma conotação machista à canção. Essa exclusão Milton Nascimento já havia feito na sua versão presente no álbum Clube da Esquina, com uma interpretação antológica de Alaíde Costa, que é aquela presente no espetáculo. 

     E por falar em canção é digna de nota a trilha sonora do espetáculo, assim como a sensível iluminação assinada pelo autor/diretor que pontua e separa os 21 passos que MdEa deve dar até decidir não se jogar da ponte, descer da mesma e talvez encontrar um novo caminho para sua existência.

     Assim o Espaço Elevador fecha com chave de ouro seu trajeto de vinte anos, tendo sido cenário de excelentes espetáculos nos quais, Marcelo e Carol, de uma maneira ou de outra, sempre estiveram presentes.

     A peça fica em cartaz até a próxima semana (15/12) com sessões às sextas às 20h e aos sábados e aos domingos às 19h.

     08/12/2024






sábado, 7 de dezembro de 2024

INDICADOS AO PRÊMIO APCA DE TEATRO ADULTO 2024



As indicações do segundo semestre unem-se àquelas do primeiro semestre para compor a lista da qual sairão os premiados do ano em votação a ser realizada em próxima reunião dos críticos. Na ocasião também serão votados o Prêmio Especial e o Grande Prêmio da Crítica.

ATOR:

. Beto Sargentelli (O Rei do Rock – o Musical)

. Caco Ciocler (A Mulher da Van)

. Giordano Castro (Édipo REC) 

. Isio Ghelman (Julius Caesar - Vidas Paralelas)

. Rodrigo Mercadante (Dom Casmurro)

. Tuca Andrada (Let´s Play That, ou Vamos Brincar Daquilo)


ATRIZ:

. Débora Falabella (Prima Facie) 

. Karen Coelho (Hedda Gabler) 

. Larissa Luz (Torto Arado - o Musical)

. Luciana Ramanzini (Codinome Daniel)

. Mel Lisboa (Rita Lee – Uma Autobiografia Musical)

. Noemi Marinho (O Vazio na Mala)


DRAMATURGIA 

. Liana Ferraz (Não Fossem as Sílabas do Sábado)

. Marcio Abreu (Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém])

. Maurício Arruda Mendonça (Brás Cubas)

. Nanna de Castro (O Vazio na Mala)

. Newton Moreno (O Ninho, um recado da raiz)

. Sara Antunes (Dora)


DIREÇÃO

. Ana Rosa Genari Tezza (Cão Vadio)

. Eduardo Tolentino (Tio Vânia) 

. Leonardo Netto (A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe)

. Rodrigo Portella (Ray - Você Não Me Conhece) 

. Tadeu Aguiar (Beetlejuice - O Musical, O Musical, O Musical) 

. Yara de Novaes (Prima Facie) 


ESPETÁCULO 

. Brás Cubas 

. Cabaré Coragem

. Cão Vadio

. Dom Casmurro

. Prima Facie

. Tio Vânia

. Todas As Coisas Maravilhosas


07/12/2024


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

TENNESSEE WILLIAMS DEVE MORRER!

    Com certeza como admiradores de Tennessee Williams (1911-1983), Marcelo Braga e Luís Felipe Caivano escreveram esse instigante exercício de metateatro contemplando a vida e a obra do grande dramaturgo norte americano. 

    Os autores colocam em cena Rose e Tom, dois irmãos artistas de teatro, às voltas com uma crítica negativa recebida por peça que eles estão representando. Ao tentar reescrever a peça Tom percorre, junto com a irmã, fatos da vida de Tennessee e partes de sua obra.

    Figuras reais da vida do dramaturgo mesclam-se em cena com personagens de suas peças criando um jogo muito interessante para o espectador. O melhor exemplo disso é o surgimento em cena de Rose, irmã de Tennessee e de Rose, personagem de “A Margem da Vida” inspirada na verdadeira Rose, e para complicar mais um pouco quem as interpreta é Rose, irmã de Tom, que é na verdade o alter ego de Tennessee. Parece complicado, mas é uma delícia acompanhar o desenvolvimento da trama.

    Surgem cenas de “À Margem da Vida”, “Gata em Teto de Zinco Quente” e citações de “Um Bonde Chamado Desejo” e “De Repente, no Último Verão”. 

    Da vida real do dramaturgo aparecem sua relação com a mãe e dando um toque de humor à peça os autores colocam em cena a irmã Rose descrevendo inocentemente um passeio de Tennessee em um parque, onde na verdade ele ia caçar uma companhia para fazer sexo.

    Cita-se também ligeiramente a morte do dramaturgo que se engasgou com a tampa de um medicamento.

    Vivian Bertocco e Luciano Schwab desdobram-se na interpretação dos irmãos, das figuras de Tennessee e Rose e das personagens das peças do dramaturgo, algo bastante complexo que os dois fazem com muita desenvoltura.

    Completam o espetáculo duas cenas de cortina onde uma extrovertida apresentadora entrevista o dramaturgo e se ouve ao fundo o coro dos críticos que massacraram sua obra nos últimos anos “TENNESSEE WILLIAMS DEVE MORRER! TENNESSEE WILLIAMS DEVE MORRER!

    As competências de Aline Santini (desenho de luz), José Carlos de Andrade (cenário e figurinos) e Um Cafofo (videomaping) complementam a direção de Marcelo Braga.


    A peça está em cartaz no SESC Pinheiros até 14 de dezembro com sessões de quinta a sábado às 20h.

    Um prato cheio para quem ama teatro e mais ainda para aqueles que admiram a obra de Tennessee Williams.

    29/11/2024


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

EXERCÍCIO DAS CRIANÇAS

 

Foto de João Caldas

                     EXERCÍCIO PARA AUTOR, DIRETORA E DUAS ATRIZES

     A trama de O Exercício das Crianças é bastante comum: duas irmãs se reencontram após 15 anos de separação devido à morte do pai. No confronto, velhas histórias escabrosas vêm à tona. Muitas vezes já se viu isso no teatro, mas nunca contado da maneira originalíssima como Bruno Cavalcanti o faz. 

     Os diálogos entrecortados por onomatopeias chegam a beirar o absurdo e contam essa relação conflituosa entre as duas irmãs. Crianças geradas por uma e criadas pela outra têm presença constante nas conversas e até fazem parte do título da obra, mas nunca aparecem.

     A original construção dos diálogos e a maneira como a história é contada revelam um autor com pleno domínio da escrita teatral, apesar de ser, ao que eu saiba, um dos primeiros escritos de Bruno Cavalcanti nessa área.

     Noemi Marinho colaborou na dramaturgia e traduziu cenicamente o texto de forma exemplar, focando toda a atenção no trabalho das atrizes.

     Não há cenário, todo o espaço cênico é preto, assim como os figurinos das atrizes. Não há recursos de iluminação, toda a peça é iluminada de forma quase única. Assim, toda a atenção do público se concentra no magnetismo das atrizes e a magia do teatro acontece graças à história contada e aos talentos de Fernanda Viacava e Nicole Cordery.

     Com pleno domínio dos recursos vocais, faciais e corporais, Fernanda e Nicole atuam em perfeita sintonia provocando uma empatia com o público, poucas vezes vista em nosso teatro. Há uma química entre as atrizes digna de muitos aplausos. O aconchegante local da apresentação colabora para a intimidade entre atrizes e público.

     Apesar de classificado como “exercício” pelo grupo, o espetáculo tem resultado muito superior a muitos trabalhos que se proclamam acabados.

     O Espaço de Provocação Teatral é um charmoso teatro localizado na Vila Romana, próximo à Rua Aurélia, instalado na residência de Diego Pallardó. È um off off Bixiga que merece ser visitado.

     O release da peça indica algumas maneiras de se chegar de condução pública no teatro, mas para uma primeira vez o meu conselho é que você vá de carro (próprio ou aplicativo). 

     MAS VÁ, PORQUE VALE A PENA!!

     28/11/2024



domingo, 24 de novembro de 2024

PERFEITA!

     Ousadia talvez seja a palavra que mais se aplique ao espetáculo que encerra sua temporada neste domingo, 24 no SESC Pinheiros.

     Ousadia do dramaturgo Samir Yazbek que saiu da zona de conforto de sua dramaturgia sempre bem recebida tanto pela crítica como pelo público para se arriscar por campos “nunca dantes navegados” por ele.


     Ousadia do produtor Fernando Padilha e do diretor Ulysses Cruz de embarcarem no voo futurista de Samir produzindo/dirigindo um espetáculo complexo que talvez provocasse um descaso do público acostumado aos trabalhos anteriores de Samir.

     A produção caprichada da peça inclui os nomes de Aline Santini, responsável pela magnífica e surpreendente iluminação, dos Irmão Lessa, responsáveis pela poderosa trilha sonora que envolve o público desde sua entrada na sala do teatro e de Bijari que assina o cenário. Pela complexidade da encenação um contingente de mais de trinta pessoas faz parte da ficha técnica da mesma.

     Trata-se de uma trama futurista que remete à nossa contemporaneidade quando se realiza que os agregados da peça podem ser os imigrantes, ou migrantes ou ainda qualquer ser menos favorecido e que as cópias do grande ditador podem ser as milhares de pessoas que se hipnotizam com os discursos de fascistas de extrema direita como os ex-presidentes dos Estados Unidos e do Brasil e os seguem cegamente sendo até mais radicais do que sua matrizes. Esses seguidores podem não ser cópia física do original, mas suas cabeças e ações o são. Isso é muito assustador e é nessa ferida que Samir põe a mão e Ulysses traduz cenicamente de forma poderosa.

     Louve-se também o elenco formado por Luma Litaiff em pequena, mas perfeita composição, Sol Menezes como a esposa do ditador, ela também uma agregada, Gustavo Machado como o Cientista que produz as tais cópias fieis e a presença surpreendente de Sergio Guizé que compõe o ditador/comandante e suas cópias com muito talento. 

     O final da peça deixa muito claro que esses movimentos de extrema direita conduzem a um trágico desfecho com líder hitlerista se dirigindo à manada que é sua cópia, por isso, citando Caetano Veloso, “é preciso estar atento e forte” e com olhos bem abertos para evitar o pior.

     A meu ver é isso que corajosamente Samir Yazbek denuncia e alerta neste trabalho, que com certeza terá repercussão em suas futuras escritas. È o Samir Yazbek, necessariamente político, dos novos tempos.

     É pena que Perfeita! saia de cartaz no dia em que escrevo esta matéria, mas aqui uso uma frase que aparecia na última cena do filme A Hora Final (On the beach) de 1958: “Ainda há tempo, irmãos!”.

     AINDA HÀ TEMPO de assistir a este importante espetáculo hoje.

     AINDA HÁ TEMPO de evitar que se chegue à situação que o espetáculo mostra.

     PERFEITA! faz sua última apresentação no Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiro hoje às 18h. Que venham novas temporadas!

     24/11/2024