segunda-feira, 30 de novembro de 2020

TAPA VIRTUAL e A PENTEADEIRA

 

Eduardo Tolentino, além da incontestável excelência como encenador e líder do Grupo TAPA desde sua fundação há 41 anos, é um verdadeiro caçador de tesouros. Graças a ele tivemos acesso, entre outras, às peças de Jean Tardieu e às peças curtas de Pirandello. Além disso, sua apurada escolha de repertório nos trouxe clássicos da dramaturgia nacional e internacional em mais de 70 títulos sempre apresentados com extremo profissionalismo.

Em tempos de pandemia Tolentino foi em busca de textos que teriam bons resultados para montagens virtuais: peças curtas com poucos personagens e que não requeressem grandes aparatos cênicos e novamente está nos trazendo algumas joias.

Tivemos contato com Encontro no Bar, texto esquecido do também pouco lembrado Bráulio Pedroso, que permitiu deliciosas interpretações de Clara Carvalho, Brian Penido Ross e Guilherme Sant’Anna.

Seguiu-se o curioso Diálogo Com os Personagens, monólogo tipicamente pirandelliano onde o dramaturgo interpretado por Brian Penido Ross conversa com os personagens que está criando, principalmente, aqueles da peça Assim É, Se Lhe Parece. Pura delícia!

O texto de Cecé, também de Pirandello, carece de maior profundidade, mas rendeu belos trabalhos de André Garolli, Antoniela Canto e Riba Carlovich.

Outro grande momento dessa mostra virtual do TAPA foi Uma Aventura Parisiense de Guy de Maupassant com Denise Weinberg em estado de graça narrando as aventuras de uma provinciana francesa quando em visita a Paris.

Agora foi a vez de A Penteadeira onde Tolentino fez harmoniosa junção de três autores, seis personagens, uma atriz e um ator em torno de penteadeiras parisiense, vienense e carioca. Um narrador costura as três peças curtas de forma deliciosa.

Guy de Maupassant comparece mais uma vez com No Quarto de Dormir, uma crítica mordaz à aristocracia francesa do início do século 20 (a cena fez parte da montagem Contos de Sedução de 2002). 

Depois é a vez do olhar frio e cirúrgico de Arthur Schnitzler (autor do livro História de Um Sonho que deu origem ao filme De Olhos Bem Fechados de Stanley Kubrick) em Joias, que trata de um casal onde o homem tem ciúmes doentios da mulher. 

Para a terceira parte Tolentino foi buscar no Rio de Janeiro do começo do século passado uma peça de João do Rio intitulada Pena Ser Só Ladrão onde um gatuno invade o muquifo de uma prostituta para roubar e ela, a princípio apavorada, acaba gostando da ideia (a situação remete a Fala Baixo, Senão Eu Grito, grande sucesso de 1969, escrito por Leilah Assumpção e com interpretação inesquecível de Marília Pêra).

Camila Czerkes (linda e charmosa com seus longos cabelos loiros) e Bruno Barchesi (classudo e também charmoso) dão conta com muita versatilidade dos três personagens que cada um tem que defender iniciando com a leviandade parisiense, passando pela quase tragédia vienense e chegando à malemolência carioca.

Ariel Cannal faz a amarração das três peças de maneira informal e espirituosa.

As peças se passam em três ambientes diferentes do Teatro Aliança Francesa - local de onde foram transmitidas - sempre com a presença de uma penteadeira.

E tudo indica que na próxima semana (sábado, dia 05/12, às 19h) haverá outro grande momento na mostra do Grupo TAPA: a grande Walderez de Barros interpreta As Portas da Noite de Jacques Prévert, espetáculo que o TAPA realizou com grande sucesso em 1992 e que retorna de forma virtual. 

Em tempo: Vários espetáculos do TAPA estão registrados em vídeo e os DVDs podem ser adquiridos na loja do grupo pelo site grupotapa.com.br 

30/11/2020



sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A SEMENTE DA ROMÃ

 

 

INTRODUÇÃO INÚTIL

No quintal da minha infância havia uma linda romãzeira plantada pela minha nonninha e cuidada por ela com muito amor. Era um pequeno arbusto com pequenas folhas muito lustras e que ficava mais lindo quando florescia e frutificava. Na minha imaginação infantil ele se assemelhava à árvore do maná que aparecia no filme Os Dez Mandamentos, épico bíblico hollywoodiano muito famoso na época.

Certa vez acordamos pela manhã com a pequena árvore totalmente nua, devastada numa única noite por um bando de saúvas que invadiu nosso quintal. Tenho presente na memória o semblante triste de minha avó diante da pequena tragédia ocorrida, mas nossa romãzeira se recuperou e tempos depois voltou a florescer (aliás, sua flor vermelha é muito linda) e a frutificar.

Degustar uma romã era uma delícia. Partindo sua casca grossa colocávamos seus gomos vermelhos na boca e mastigávamos até restarem apenas as sementes. Após secá-las, embrulhávamos e colocávamos as sementes na carteira para dar sorte.

O título da peça da Companhia da Memória me remeteu a essa lembrança e apesar de ela não ter nada a ver com o espetáculo, não resisti e estou a incluindo nesta matéria.

Por sinal, procuro por meio dessa historinha, entender o título da peça. 

O ESPETÁCULO

Existe uma curiosidade muito grande em assistir no teatro a esse projeto da Companhia da Memória que põe simultaneamente em cena as peças As Três Irmãs em uma plateia e A Semente da Romã na outra, mesmo que esse recurso cênico já tenha sido utilizado, entre outros,  por Leonardo Moreira em Wiosna (2016), Christiane Jatahy em Ítaca - Nossa Odisseia 1 (2018) e, de certa maneira, pelo próprio Ruy Cortez no memorável Karamázov (2014).

Na impossibilidade de vê-lo em sua completude por conta do isolamento social, temos que nos contentar em assistir à versão digital de A Semente da Romã, o que já se reveste de um grande prazer.

O texto de Luís Alberto de Abreu mostra os bastidores de um teatro onde um grupo de atores aguarda seu momento de entrar em cena. São três gerações de artistas discutindo as delícias e as amarguras do fazer teatral e das dificuldades em sobreviver vivendo da arte e da cultura, assuntos tão negligenciados neste país que foi esquecido por Dionísio.

Ao que parece os atores gravaram suas falas individualmente, as quais foram posteriormente editadas. Esse fato traz alguns problemas de continuidade e dá certo tom artificial aos diálogos, mas o elenco é tão bom que isso não afeta a emoção do espectador. O elenco atua próximo à câmera (dando o efeito zoom cinematográfico) e olhando para ela, como se a mesma fosse seu interlocutor. 

Walderez de Barros (Ariela) e Sérgio Mamberti (Guilherme) brilham! Representando a geração mais velha, eles trazem as lembranças do teatro dos anos 1960/1970 (a recordação de Mamberti da montagem de As Três Irmãs realizada pelo Grupo Oficina em 1972, abre o espetáculo e é um dos grandes momentos do mesmo).

 A geração intermediária representada por Ondina Clais, Lavínia Pannunzio e Eduardo Estrela mostra personagens com características diferentes. O inconformismo e a revolta de Augusto (Estrela) contrapõem-se às esperanças de Maria Antonia (Lavínia) e ao desencanto com a profissão de Katia (Ondina). Outro grande momento da peça é o emocionante diálogo entre Maria Antonia e Katia, quando esta resolve abandonar a profissão.

João Vasconcellos é Deusdeu Aparecido, o jovem apaixonado pelo teatro e esperançoso com seu sucesso futuro como ator. 

Os diálogos são intercalados por belas cenas mostrando o camarim dos atores e seus objetos pessoais ao som da trilha sonora de Thomas Rohrer.

A velha atriz Ariela termina esta bela peça citando o grande Plínio Marcos e oferecendo uma galharufa ao jovem ator Deusdeu, passando a ele a tocha sagrada do teatro que nunca será apagada. 

Este emocionante aperitivo para o projeto completo dirigido por Marina Nogaeva Tenório e Ruy Cortez faz temporada virtual até 08/12 TODOS OS DIAS DA SEMANA  às 21h e aos domingos às 17h e às 21h. Pelo Sympla. 


27/11/2020

 

 

 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

JACKSONS DO PANDEIRO

 


Barca dos Corações Partidos é um grupo brilhantemente solar, haja vista seus ensolarados Auê (2016, direção de Duda Maia) e Suassuna – O Auto do Reino do Sol (2017, direção de Luiz Carlos Vasconcelos). Seguiu-se a versão sombria de Macunaíma (2019, direção de Bia Lessa) onde, no meu modo de ver, o grupo não estava muito à vontade. Eis que o grupo retorna mais solar do que nunca neste final pandêmico de 2020 de novo sob a batuta de Duda Maia para contar e cantar Jackson do Pandeiro, por enquanto via digital. É, segundo eles, uma “homenagem sincopada” ao compositor paraibano.

Duda Maia é a maga da direção de movimento do teatro brasileiro, suas dinâmicas e criativas coreografias são uma marca registrada facilmente reconhecível e ganham muita vida com os meninos da Barca.

Assistir Jacksons na telinha do computador é um pouco frustrante, mas mesmo assim, absolutamente encantador e delicioso. É espetáculo para se assistir ao vivo, com a plateia vibrando e aplaudindo ao final de cada número, um mais sedutor que o outro, mas enquanto o vírus não permite, vamos nos contentando com a versão on line que, diga-se de passagem, tem seus atrativos particulares: a  linguagem cinematográfica com a câmera dirigindo nosso olhar para detalhes de cada momento (é claro, que às vezes, nossos olhos queriam estar em outra parte da cena, mas a escolha da direção é quase sempre acertada) com bem vindos closes de cada intérprete e até tomadas do alto, mostrando a planta do palco.

A dramaturgia de Bráulio Tavares e Eduardo Rios contempla de forma exemplar momentos da vida do genial Jackson do Pandeiro (1919-1982), mesclando-os com o melhor de sua obra, formada por cocos, baiões, sambas, forrós e até aquela deliciosa mistura Chiclete com Banana que ele chamou de “samba rock” (um dos pontos altos do espetáculo). A direção musical é de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos.

O cenário de André Cortez formado por praticáveis com planos inclinados, um telão ao fundo e uma lona de salto retangular é o elemento que Duda Maia usa para criar a estimulante coreografia da montagem, fazendo os atores/cantores/instrumentistas/dançarinos circularem continuamente por ele durante as duas horas do espetáculo. A movimentação é muito variada e sempre muito criativa, havendo até uma de Renato Luciano, literalmente, de cabeça para baixo! 


As sequências diante do telão são lindas, remetendo um pouco ao que Antunes Filho fazia nos anos 1980. A iluminação de Renato Machado torna toda essa beleza mais intensa ainda. Os intermezzos são realizados com luz baixa ficando à vista a movimentação dos atores para a próxima cena. Em um teatro esses momentos serão preenchidos pelos aplausos calorosos do público.

O que dizer de Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Renato Luciano e Ricca Barros que formam a Barca dos Corações Partidos? Fazem de tudo e um pouco mais em cena, sempre de forma não mais que excelente. A dinâmica da montagem permite que cada um deles tenha seu solo e momento de destaque. Neste espetáculo eles são acompanhados por mais três elementos perfeitamente integrados à dinâmica do grupo. São eles: Everton Coroné (excelente sanfoneiro), Lucas dos Prazeres (interpretando Jackson e fazendo música até com os tamancos) e a deliciosa Luiza Loroza que, entre tantos momentos belos se pode destacar aquele em que ela fala das mulheres da vida do biografado (a mãe Flora Mourão e as companheiras Almira Castilho e Neusa Flores dos Anjos).


Tem sido uma constante nos espetáculos virtuais uma duração de no máximo 50 minutos, pois a concentração do web- espectador é menor do que aquela do espectador que vai ao teatro. Jacksons dura duas horas e eu não arredei o pé da frente do note book por nada. Entre tantos momentos magníficos é difícil fazer destaques, mas não há como não sublinhar “Vixe, como tem Zé na Paraíba”, “Sebastiana”, “Como chegar na casa de alguém que toca pandeiro”, “Aquele é o marido da mulher que virou homem” e o já citado “Chiclete com Banana”.


JACKSONS DO PANDEIRO fica em cartaz até 06 de dezembro, de quinta a domingo às 20h. Temporada gratuita. É só acessar o you tube e procurar pelo grupo e pelo espetáculo.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

14/11/2020

domingo, 1 de novembro de 2020

ENCONTRO NO BAR

 

O sinal fraco da Internet dificultou a minha fruição do sensível Encontro no Bar apresentado virtualmente pelo Grupo TAPA. A cena congelava, voltando em seguida. Em certo momento houve interrupção do sinal e eu perdi cerca de quatro minutos da apresentação. Por sorte, na tarde chuvosa de sábado eu havia lido o texto o que facilitou o acompanhamento da ação quando o sinal voltou, mesmo com um sentimento de indignação deste espectador.

Coisas do “web” teatro, ou teatro virtual, ou..., ou.... No teatro de verdade isso jamais aconteceria. Uma interrupção por conta de falta de luz ou outro incidente seria tão coletiva (público e artistas) como o ato de estar ali. 

Mas vamos ao espetáculo.

De início a distribuição dos papeis já nos surpreende e alegra! Seria cômodo para o diretor colocar Isadora e Valentino nas mãos de Clara Carvalho e Brian Penido Ross - afinal eles já formaram tantos casais no palco e já o foram até na vida real – no entanto Valentino ficou com o incrível Guilherme Sant’Anna, uma das vozes mais belas do nosso teatro (o personagem diz que tem aquela voz sensual por conta de um enfisema!!).

O encontro entre Isadora e Valentino é um embate entre o Eros e o Thanatos que cada um tem dentro de si e esse embate é testemunhado pelo garçom que a tudo assiste com atenção e certa ternura. E quem de nós não tem esse embate interno? Tratar disso é o maior mérito deste curto e belo texto de Bráulio Pedroso (1931-1990) em boa hora resgatado pelo TAPA ( a peça nunca foi montada em São Paulo, tendo sido apresentada no Rio de Janeiro em 1973 com direção de Celso Nunes).

A direção de Eduardo Tolentino de Araújo é elegantemente precisa, marca registrada desse encenador. Em um cenário simples montado no palco do Teatro Aliança Francesa as personagens se deslocam entre duas mesas, algumas cadeiras e o balcão do bar, reinado do garçom; vestidos com interessantes figurinos e iluminados de maneira simples e precisa. (Não foi divulgada a ficha técnica do trabalho). A câmera que direciona o olhar do espectador limita-se a observar a ação.

Brian Penido Ross empresta todo seu talento a uma personagem que poderia ser secundária, fazendo com que não deixemos de prestar atenção nele, mesmo quando a ação está concentrada nas personagens principais.

Escrever sobre o talento de Clara Carvalho é redundância pois já se viu e se escreveu sobre muitos trabalhos exemplares dessa excelente atriz, mas vale a pena mencionar, principalmente, o gestual de sua Isadora; para citar apenas um, a sua tirada de luva é um dos atos sexuais mais eróticos a que já assisti e sua morte em seguida mostra o vencimento de Thanatos sobre o Eros, que tinha acabado de explodir.

Guilherme Sant’Anna, elegantemente vestido, interpreta Valentino com sobriedade, revelando uma ansiedade que cresce durante a ação e chega ao ápice quando se revela a mão de Isadora. Parece que Eros venceu a luta. Só parece.

Tolentino não utilizou as canções compostas por Egberto Gismonti na montagem de 1973, preferindo que o elenco falasse as letras sem cantar.

Com todos os inconvenientes dessas transmissões via Internet, foi um grande prazer assistir a mais esse belo e profissional trabalho do Grupo TAPA. Quem sabe um dia ainda o veremos “de verdade”! 

01/11/2020  

domingo, 25 de outubro de 2020

PROTOCOLO VOLPONE – Um clássico em tempos pandêmicos.

 ANTES: 

Hoje, 24 de outubro de 2020, é um dia histórico na minha jornada de espectador. Vou ao teatro depois de exatos 228 dias de abstinência. A última vez foi no dia 14 de março, quando assisti a Farm Fatale no Teatro Antunes Filho (SESC Vila Mariana).

Vou ao TEATRO! Recuso-me a chamar de teatro presencial. “Teatro presencial” é pleonasmo! Teatro só pode ser presencial! Deixemos a adjetivação para o teatro que se faz nos dias de hoje via Internet (com muito louvor e muita importância, diga-se de passagem): teatro virtual, teatro online, web teatro, teatro televisionado, teatro filmado. 

 DURANTE: 

A expectativa era grande e poucos minutos antes das 20h caiu uma forte chuva que talvez pudesse inviabilizar a apresentação. O encontro com pessoas queridas no hall do teatro já foi uma festa.

A apresentação acontece em uma estrutura metálica montada no estacionamento do Teatro Arthur Azevedo. A ação da peça se passa no centro do espaço, que é rodeado por 20 cabines individuais de plástico onde ficam os espectadores. Uma vez acomodado nas cabines o público ansioso aguarda a apresentação.

Vista através da cabine

As luzes se apagam e voltam a se acender sobre os atores. A peça tem um prólogo dito pelo personagem Mosca onde ele enfatiza a coisa única que é o  teatro e a importância do olho do ator no olho do espectador. Muito emocionado com essa fala, eu já me vi aplaudindo com entusiasmo nos primeiros cinco minutos do espetáculo.

A trama de Volpone de autoria do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572-1637) trata de ganância e corrupção, nada mais atual para o tempo presente e a adaptação de Marcos Daud enfatiza esses cancros da nossa realidade. O melhor de tudo é que se ri muito dessas mazelas durante o espetáculo e, como todos sabem, o humor tem um poder corrosivo impressionante. É engenhosa a comparação que o autor faz das atitudes das personagens com características de animais: a astúcia da raposa (Volpone), o parasitismo da mosca (Mosca), o instinto predador do corvo (Corvino), a aparente delicadeza da pomba (Colomba), o faro e o instinto da cadela no cio (Canina), o furor e a valentia do leão (Leone). Não consigo identificar com quais animais se parecem Voltore e Corbaccio, mas se trata de personagens tão corruptoras, gananciosas e animalescas quanto as outras.


Fotos de Maria Clara Diniz

Johana Albuquerque rege com mão firme o espetáculo harmonizando todos os elementos de cena: a bela cenografia e os adereços de Julio Dojcsar (interessante a troca dos adereços pelos anjos para evitar o contacto); os significativos figurinos de Silvana Marcondes (o detalhe da cor da máscara ser igual àquela do figurino é uma delícia); a iluminação sempre “iluminada” de Aline Santini; a parte musical (Pedro Birenbaum); o excelente visagismo de Leopoldo Pacheco (em um primeiro momento se torna difícil reconhecer alguns atores) e, é claro, um elenco em estado de graça e tão emocionado quanto nós, os espectadores.

Todos brilham tanto no conjunto como em seus apartes: Daniel Alvim como Volpone; Helena Ranaldi exuberante como Canina; Vera Bonilha, fingindo a ingênua e submissa, mas dando seu recado feminista ao final como Colomba; Joca Andreazza emprestando seu talento como o predador machista Corvino (machista, mas não hesita em ceder a própria mulher quando se trata de ter algum ganho material); Sérgio Pardal dando verossimilhança ao caquético Corbaccio; Vanderlei Bernardino exibindo toda a hipocrisia do notário Voltore; Luciano Gatti visceral como o tempestuoso Leone; Marcelo Villas Boas como o, até certo momento, incorruptível juiz e Pedro Birenbaum, que além de músico em cena, interpreta o Inspetor.

E por último Maurício de Barros! Maurício se supera a cada peça em que participa: do Bonifácio de Cais, passando pelo Dario de Refluxo e o Pradella  de Pousada Refúgio (Prêmio APCA 2018 de melhor ator), chega agora a esse incrível Mosca, mostrando talento e preparo físico impressionantes para quase voar sobre nossas cabeças e costurando toda a trama da peça com suas interferências quase sempre cômicas e perspicazes. Maurício de Barros é a cereja de um bolo no todo muito delicioso!

Protocolo Volpone é um marco histórico no teatro paulistano, quiçá no teatro brasileiro, e trata-se do espetáculo da retomada: primeira encenação a incorporar o protocolo do isolamento social provocado pela pandemia com o uso de máscaras (elenco e espectadores), cabines isoladas e todos os demais procedimentos que fazem com que a encenação seja segura tanto para quem faz como para quem assiste. Quando terminar o isolamento, a encenação deverá ter outra tratativa, mas assisti-la agora com todas as limitações impostas pelo protocolo reveste-se de enorme e significativa importância. Serão apenas 20 apresentações com 20 espectadores em cada uma delas. 400 privilegiados espectadores levarão para sempre em suas memórias este importante momento de nosso teatro. Em cartaz até 08 de novembro.

Estando numa cabine isolada o espectador sente falta das risadas e das reações do restante do público e segundo os atores, eles também sentem falta de sentir como os espectadores estão reagindo. Este é o único senão dessa noite inesquecível.

Ao final do espetáculo foi um grande prazer me congraçar com a querida Johana Albuquerque, com quase todo o também querido elenco e com os anjos que orientam a entrada e saída do público, além de fazerem a contra regragem do espetáculo.

O robusto programa da peça (27 páginas) é muito bonito e contém dados importantes sobre a Bendita Trupe e sobre a peça. Não foi impresso, mas não resisti e fiz uma impressão caseira para incorporar ao meu acervo de mais de 3000 programas.  

 DEPOIS:

Ao chegar em casa não pude deixar de tomar uma taça de vinho e brindar sozinho à Bendita Trupe e ao teatro.

O TEATRO NOS UNE

O TEATRO NOS TORNA FORTE

VIVA O TEATRO! 

25/10/2020

 

 

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A MORTE ANUNCIADA DE UM TEMPLO DA CULTURA E DA RESISTÊNCIA

 

Em 15 de dezembro de 1964 – poucos meses depois do golpe civil-militar que instalou a famigerada ditadura que durou mais de 20 anos no Brasil - a sempre corajosa e empreendedora Ruth Escobar (1935-2017) inaugurou o seu teatro na Rua dos Ingleses com A Ópera dos Três Vinténs de Brecht, dirigida pelo saudoso José Renato. A partir daí aquele espaço abrigou momentos fundamentais não só do teatro brasileiro (Roda Viva, 1ª Feira Paulista de Opinião, Revista do Henfil, A Viagem, entre muitos outros) como também da resistência da classe teatral aos desmandos da ditadura militar o que hoje pode ser verificado no livro de Rofran Fernandes com o sugestivo nome de Teatro Ruth Escobar-20 Anos de Resistência (Global Editora1985) e. no futuro, no livro de Alvaro Machado a ser publicado pelo SESC ainda em 2020.





 Ruth destruiu e reconstruiu seu espaço para abrigar da melhor maneira montagens antológicas como O Balcão (1969). Com o tempo, além da sala original (Gil Vicente – 320 lugares), foram criadas mais duas: Galpão/Dina Sfat (390 lugares) e Myrian Muniz (70 lugares). Os nomes do teatro e das duas salas honram três mulheres que muito fizeram pelo teatro brasileiro e deveriam tornar sagrado aquele solo.


Em 1997, não conseguindo mais arcar com as despesas do teatro, Ruth Escobar o vendeu para a Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp), a qual afirmava que o objetivo da compra era “prestar maiores benefícios aos seus associados” (página da Associação). Desde então essa entidade tornou-se responsável pela programação do teatro.

         Ícone do melhor teatro que se fez em São Paulo entre os anos 1960 e 1980, lamentavelmente esse teatro foi se destinando cada vez mais a “produtos” estritamente comerciais e foi agonizando artisticamente, suas salas sendo tomadas cada vez mais por títulos esdrúxulos como os citados abaixo, colhidos em banco de dados que alimento desde os anos 1990:

         Se Meu Ponto G Falasse//O Acidente da Perua//Sex Shop Café//Diálogo do Pênis//Sexo, Etc e Tal//Segura o Velho//Engolindo Sapo Para Um Dia Comer Perereca//Será Que Dona Flor Foi a Única?//Confidências de Um Espermatozoide Careca//Entre a Pizza eo Motel//TPM-Tratamento Para Machos//Cobras, Lagartos e Minhas Sogras//Patro Rica, Pode//Assalto Alto/Cura Ele Cura Ela/Quem Não Vê Cara, Não Vê Furacão/O Dia Em que Eu Comi a Pomba Gira/De Mala e Cuia no Trem do Riso/Homens no Divã/Casal TPM/Casal TPM 2-A Música da Nossa Vida/TPM-Terapia Para Mulheres/O Amante do Meu Marido/Nua na Plateia/Uma Família Muito Doida. Alguns espetáculos com muito sucesso popular, como A Sogra Que Pedi a Deus, em cartaz por cerca de uma década.

         Essas programações não fizeram jus ao brilhante passado do edifício que as abrigam e muito menos à brava guerreira Ruth Escobar que dá nome ao teatro.

         Teatro com esse passado e que leva o nome de uma mulher desbravadora que enaltece e engrandece a cena brasileira merecia títulos mais importantes em seus cartazes. E agora a Apetesp colocou o teatro à venda, dando o golpe de misericórdia a uma morte que já vinha sendo anunciada há muitos anos.

         Mas tem de haver meios dessa situação ser revertida. Não há uma lei para isso, mas eticamente a Apetesp deveria se recusar a vender o teatro para uma igreja, supermercado ou qualquer outra atividade que não fosse teatral. Buscar isenção de impostos nesta fase em que procuraria compradores entre o município, o estado, o SESC ou patrocinadores, talvez seria uma saída. E que aquele local volte a ser um templo de cultura e de resistência na nossa cidade. Chega de fechar teatros!

         Citando Bertolt Brecht no final de A Alma Boa de SetSuan:

         Tem de haver outro final,

         Tem de haver um que é bom,

         Tem de haver,

         Tem de haver.

CLASSE TEATRAL: VAMOS LUTAR POR ISSO!!!

O TEATRO NOS UNE

O TEATRO NOS TORNA FORTE

VIVA O TEATRO!!

         Caso isso não aconteça, vai restar a memória daqueles que ali assistiram a momentos fundamentais do teatro brasileiro. E o meu receio é que logo mais o Teatro Maria Della Costa, também administrado pela Apetesp, siga o mesmo caminho.

         22/10/2020

 

 

        

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A SALA NYDIA LICIA DO TEATRO SÉRGIO CARDOSO

 

É bem conhecida a maneira como em 1954 o casal Nydia Lícia e Sérgio Cardoso voltando de um ensaio “descobriu” um prédio semi abandonado na Rua Conselheiro Ramalho e com muito esforço  reformou o antigo Cine Esperia e dois anos depois o inaugurou como Teatro Bela Vista com a peça Hamlet. A companhia do casal ali encenou inúmeras peças até 1960, quando Sérgio Cardoso se retirou para seguir carreira solo. Nydia Lícia manteve o teatro e sua companhia com muita garra e sacrifício até 1970 quando teve que entregar o prédio. Todos esses fatos estão relatados de forma concisa e elegante no livro de Nydia, Ninguém Se Livra de Seus Fantasmas. 

O que pouca gente sabe é que foi em boa parte por obra de Nydia Licia que aquele espaço não se transformou em uma garagem, em um supermercado ou até em uma igreja evangélica!

Transcrevo abaixo parte do depoimento de Nydia Licia ao Serviço Nacional de Teatro realizado em 02/07/1976, que atesta a luta da atriz para a preservação daquele local como espaço de arte: 

“O Teatro Bela Vista, conforme eu disse, eu tinha um contrato. O contrato venceu e os proprietários pediram o teatro de volta, para uso próprio. Acontece que eles eram três, se desentenderam, e quiseram vender o terreno. Ou alugar, fazer uma garagem, sei lá. Então, quando eu estava na Comissão Estadual de Teatro, nós conversamos numa reunião, estavam Silney Siqueira, a Lola, a Etty Fraser, Marina Freire, tudo gente que tinha trabalhado no Bela Vista. Eu disse: ‘Vamos falar com o governo’. Falei então com o secretário do governador. Eu disse ‘Olha, tem um teatro maravilhoso, que além de teatro, tem um terreno muito grande na frente, onde se podem construir mais dois teatros pequenos. Por pouca coisa eu acho que vocês conseguem este teatro, porque os proprietários, a esta altura, até preferem que o governo encampe, porque já viram que não chegam a um acordo entre eles.’ Acharam a ideia maravilhosa. E o governo concordou com isso. Foi desapropriado o teatro. Mas aí, aconteceu uma coisa incrível. Os técnicos, os grandes cenógrafos, os grandes arquitetos, todos acharam que o teatro estava um horror. ‘A gente põe abaixo e faz um outro’. Começaram então a derrubar o Bela Vista, levaram acho que dois meses para conseguir derrubá-lo. E construíram alguma coisa que até hoje não está pronta. Que quando ficar pronta, provavelmente, será um teatro muito bonito, importante, com lotação muito grande, mas poderia ter ficado o Bela Vista 

Ao realizar pesquisa sobre os 40 anos do Teatro Sérgio Cardoso criei banco de dados para documentar títulos e parte das fichas técnicas dos espetáculos ocorridos nas duas salas e foram mais de 700 inserções, na maioria das vezes, de inestimável valor artístico. Temos que creditar em grande parte a Nydia Lícia o fato de ali continuarmos a alimentar nossa alma com cultura ao invés de nos dirigirmos para aquele espaço para estacionar o carro ou para comprar pasta de dente no supermercado. 

Sempre me incomodou o fato do espaço ocupado hoje pelo Teatro Sérgio Cardoso não fazer nenhuma menção à importância de Nydia Lícia para a existência do mesmo. Ainda me incomoda a falta de simples placas ou fotos contando um pouco para as novas gerações que frequentam o local quem foi Sérgio Cardoso e Paschoal Carlos Magno.

Parte desse incômodo foi sanado em grande estilo na noite de 13 de outubro de 2020 (data da inauguração do teatro há 40 anos) com o batizado da sala maior do teatro como SALA NYDIA LÍCIA. O emocionante evento contou com a presença de Sylvia Cardoso Leão, filha de Sérgio e Nydia, grande batalhadora pela importância de seus pais para o teatro brasileiro. Parabéns, Sylvia! Parabéns, Amigos da Arte!


Sylvia Cardoso Leão

Teria sido assim, se ela ainda estivesse entre nós. 

Em seguida houve sarau celebrando a vida e a obra de Sérgio Cardoso que contou com a participação de Carlota Joaquina, Chris Couto, Duda Mamberti e a presença iluminada do querido Sérgio Mamberti que se emocionou até as lágrimas ao ouvir gravação de Sérgio Cardoso declamando um poema. A emoção de Mamberti ultrapassou os limites da distância e da Internet, deixando este web espectador com os olhos cheios de lágrimas.



Grande noite de celebração.

O TEATRO NOS UNE,

O TEATRO NOS TORNA FORTE,

VIVA O TEATRO. 

14/10/2020