segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

ABUJAMRA PRESENTE - UM TRIBUTO EXORBITANTE AO PROVOCADOR com OS FODIDOS PRIVILEGIADOS



        O nome da nossa companhia é esse pois somos Fodidos porque fazemos teatro no Brasil e somos Privilegiados porque fazemos teatro no Brasil. Mas hoje eu diria que somos Privilegiados porque fizemos teatro com Antônio Abujamra”. Esta bela frase consta do programa da peça em cartaz no SESC Ipiranga que é um tributo ao Mestre Abu, como era carinhosamente chamado o fundador do grupo e diretor do mesmo por cerca de dez anos.
        Também somos Fodidos Privilegiados! Fodidos por estarmos vivendo neste país caótico e Privilegiados por termos a oportunidade de ver no palco Guta Stresser, Rose Abdallah e Dani Barros (a inesquecível Estamira), atrizes cariocas ausentes a bom tempo dos palcos paulistanos, além de outros elementos que fizeram ou ainda fazem parte do grupo, hoje sob a direção de João Fonseca, discípulo de Abu e também presente em cena.

Guta Stresser e Rose Abdallah

        A montagem é uma festa irreverente, ousada e politicamente incorreta bem ao estilo do homenageado. Trata-se da colagem de cenas de peças que o provocador dirigiu para o grupo, além de frases do artista e supostas cenas de ensaios onde Abu dirigia aos atores irônicos, agressivos, mas no fundo carinhosos, petardos. Atrizes e atores vestem camisolas que têm  seus sobrenomes na parte traseira. (figurinos de Nello Marrese)
        São apresentadas cenas de muitos espetáculos, entre eles de O Casamento, de A Serpente e até de Tudo no Timing que não foi dirigida por Abujamra, mas que tem o seu toque (ele assinou a coreografia do espetáculo) na hilária cena Variações Sobre a Morte de Trotsky recriada com o elenco original (Denise Sant’Anna, Nello Marrese e Ricardo Souzedo).
        Como não se deliciar com a implicância que aquela mulher (divertida criação de Dani Barros) tem da Dona Célia? E com a cena do beijo de O Casamento? E com Rose Abdallah seduzindo o patrão? São tantos os momentos antológicos que é difícil citar este ou aquele.
        Ao que eu saiba este espetáculo é uma versão reduzida daquela grande homenagem a Abu realizada pelo grupo no Teatro Dulcina em 2015, ano da morte do diretor. Aqui ele complementa a abrangente exposição Rigor e Caos – Antônio Abujamra que tem curadoria da sobrinha do homenageado, Marcia Abujamra.

        O espetáculo de Os Fodidos Privilegiados fica em cartaz só até o próximo fim de semana (27/01). CORRA!!!
        A exposição e a programação a ela integrada seguem em cartaz no SESC Ipiranga até 17 de março. Não precisa correr, mas não deixe de ver!

VIVA ABU! VIVA O TEATRO BRASILEIRO!


        21/01/2019


domingo, 20 de janeiro de 2019

QUANDO ISMÁLIA ENLOUQUECEU


Joseli Rodrigues/Salete Fracarolli/Cleide Queiroz/Maria do Carmo Soares
Foto de Sillas H e Vini Poffo

       A poesia de Alphonsus de Guimarães (1870-1921) que dá título a esse delicado espetáculo é um dos mais belos exemplos da poesia simbolista brasileira. Merecidamente ela aparece por duas vezes na montagem. No início, belamente musicada por Tato Fischer, e quase ao final quando é dita por Joseli Rodrigues entremeada por outra poesia dita por Salete Fracarolli. Na sua doce loucura Ismália consegue o feito de ter o céu e o mar ao mesmo tempo. E a doce loucura do grupo As Tias consegue o feito de nos deliciar por uma hora com o que de mais belo os poetas brasileiros do final do século XIX produziram.
       Recital de poesia? Não! Por meio de criativo roteiro elaborado pelo grupo e pelo diretor Fernando Cardoso essas deliciosas quatro damas indignas interpretam, cantam e até dançam o melhor que os poetas escreveram tendo a liberdade de cantar a Canção do Exílio de Gonçalves Dias com a melodia de Torna a Surriento e até fazer uma paródica interpretação de uma música brega (A Noiva) que fez muito sucesso nos anos 1950 nas vozes de Agnaldo Rayol e Cauby Peixoto (Branca e radiante vai a noiva...).
       Com suas vastas experiências de palco Maria do Carmo Soares e Cleide Queiroz dominam a cena, muito bem acompanhadas por Salete Fracarolli e Joseli Rodrigues. A simpática figura de Tato Fischer faz o acompanhamento musical ao piano, eterna presença no palco da Biblioteca Mário de Andrade, que desta vez tem função nobre em um espetáculo.
       Quando Ismália Enlouqueceu não pretende revolucionar a cena teatral brasileira, mas é espetáculo digno e divertido que enaltece de maneira lúdica a literatura e a poesia brasileira, não caindo em momento algum no didatismo . Isso não é pouco!
       Em cartaz na Biblioteca Mário de Andrade até 17/02 aos sábados e domingos às 18h. Ingressos gratuitos.

       20/01/2019
      


sábado, 19 de janeiro de 2019

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES


        O filão de tramas que envolvem encontro de casais ou famílias e que depois de alguns estímulos (etílicos ou não) tiram a máscara social e começam a destilar verdades com requintes de crueldade, creio que foi inaugurado na década de 1960 com A Volta ao Lar de Harold Pinter e, principalmente, Quem Tem Medo de Virginia Woolf de Edward Albee. O sucesso dessas peças gerou várias outras nas dramaturgias inglesa e norte americana das quais se pode citar algumas que chegaram até os palcos brasileiros: Closer (Patrick Marber), Jantar Entre Amigos (Donald Margulies), Deus da Carnificina (da francesa Yasmina Reza).
        Dan Rosseto retoma o filão em Nunca Fomos Tão Felizes colocando dois casais em cena que após início de conversa cordial iniciam combate verbal e até físico. A novidade é a presença do irmão do protagonista que sofre de síndrome de Tourette (bela composição do ator Luccas Papp, que emociona na última cena da peça).
        A direção de Rosseto conduz a narrativa pontuando-a com belíssima trilha sonora que inclui Nina Simone, Billie Holiday e muitas canções de Cole Porter. Essa trilha formidável por vezes atrapalha os diálogos uma vez que todo sonoplasta sabe que não é bom mesclar músicas cantadas com a fala dos atores, sob o risco do espectador ficar dividido em prestar atenção na fala ou na voz do cantor. Um reparo à interessante cenografia de Luiza Curvo formada de malas que assumem várias funções: em 1962, época em que se situa a ação, os gramofones já eram peça de museu e nunca puderam reproduzir LPs que eram a mídia da época.
        É bom e oportuno o irônico título que Rosseto escolheu para sua peça. Ele já foi usado por Murilo Salles em 1984 em triste e nada feliz filme sobre a relação de filho e pai na época da ditadura brasileira. Aqui também essas cinco figuras podem ser tudo, menos felizes.
        Os figurinos de Kleber Montanheiro reproduzem a contento a época em que se passa a peça, haja vista o “modelito” usado pela personagem Simone.


        Não há como não destacar a forte interpretação de Nicole Cordery que leva a plateia quase ao delírio. Ela personifica Simone, uma mulher de meia idade que se mostra segura de si, cruel e individualista, mas que ao longo da trama vai desmoronando e, literalmente, se desnudando dessa máscara. O melhor elogio para este trabalho é que se Cacilda Becker fosse interpretá-lo, ela faria exatamente como Nicole o faz.
        Noite de estreia é sempre complicada: não senti firmeza, nem um “à vontade” na interpretação de Mateus Monteiro que sempre se revelou excelente ator em outros trabalhos, mas creio que isso possa se resolver durante a temporada.
        Completam o elenco Larissa Ferrara e Eduardo Martini, este em papel bastante diverso daqueles que tem interpretado em comédias.
        NUNCA FOMOS TÃO FELIZES está em cartaz no Teatro Itália até 17/03. Sextas e sábados 21h e domingos 18h.

        19/01/2019
       
        

domingo, 13 de janeiro de 2019

SOB O CÉU DE RUBEM BRAGA


Bruno Cavalcanti

       O maior elogio que se pode fazer ao delicado espetáculo dirigido por Antônio Januzelli e elegantemente interpretado por Bruno Cavalcanti é que se sai da peça com enorme vontade de ir a uma livraria para adquirir e mergulhar em um livro de crônicas do escritor nascido capixaba em 1913 e morto carioca em 1990.

Rubem Braga

       Rubem Braga é reconhecido como o maior cronista brasileiro e dentre a infinidade de textos que ele escreveu o ator e o diretor escolheram meia dúzia de pérolas muito bem amarradas, com destaque para a obra prima Aula de Inglês que é responsável por delicioso momento de humor dentro da montagem.
       Cavalcanti inicia a peça fazendo breve introdução de quem foi Rubem Braga (algo bastante oportuno, pois as novas gerações talvez não o conheçam), para em seguida fazer a interpretação das crônicas iniciando por O Conde e o Passarinho que é uma das primeiras escritas por Braga e onde ele já deixa claro sua posição social desdenhando do conde industrial (trata-se do Conde Matarazzo) e enaltecendo a natureza (o passarinho).

Antônio Januzelli

       Excelente diretor de atores, Antônio Januzelli acerta mais uma vez neste belo monólogo onde todo o brilho recai no excelente trabalho de Bruno Cavalcanti que cativa o público com seu talento e simpatia.  Crédito para o pensamento da voz expressiva assinado por Mônica Montenegro.

       SOB O CÉU DE RUBEM BRAGA está em cartaz no SESC Ipiranga até 3/2. Sextas (21h30)/Sábados (19h30)/Domingos e feriados (18h30).

       13/01/2019

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O JARDIM DAS CEREJEIRAS



        No ano 2000 ao escrever sobre O Jardim das Cerejeiras dirigida por Elcio Nogueira, Mariangela Alves de Lima abria sua matéria em O Estado de S. Paulo com a seguinte frase: “Na história do teatro brasileiro, as encenações de Anton Chekhov são mais escassas do que as de tragédias gregas ou dos textos clássicos de outros períodos da história”. Uma análise rápida dos textos clássicos estrangeiros montados em São Paulo mostra que nos últimos dezoito anos esse cenário mudou e o nome de Tchekhov é bastante presente deixando, às vezes, atrás de si os clássicos gregos, Brecht, Beckett, aqueles americanos tão caros à cena paulistana (Tennessee Williams, Eugene O’Neill e Arthur Miller) e até Shakespeare! (vide o ano de 2014).

Anton Tchekhov (1860-1904)

        O desencanto presente na obra do dramaturgo russo e a passividade de seus personagens seriam algumas das razões da escolha dos nossos encenadores por sua obra nos dias de hoje? Existe interessante análise desse assunto no recém-lançado Tchekhov e os Palcos Brasileiros de Rodrigo Alves do Nascimento (Editora Perspectiva).   
        Uma comédia de Tchekhov abre a temporada teatral paulistana. Comédia? O Jardim das Cerejeiras é assim classificada pelo autor, talvez pelas interferências das personagens dos criados Duniacha, Iacha e Firs e principalmente do irmão de Liuba, Gaev que na verdade estão mais para patéticos do que para engraçados. O tema principal da peça, no entanto, não é nada cômico, pois trata da decadência da elite russa diante da ascendência de uma nova classe dona do dinheiro.
        O Grupo TAPA comemora seus 40 anos de vida com a encenação dessa que foi a última peça escrita por Tchekhov e a escolha não podia teria sido mais acertada. O belíssimo texto revela-se bastante atual, tem o perfil de seu diretor Eduardo Tolentino de Araujo e dá chance de grandes interpretações para atrizes e atores que acompanham o TAPA desde a sua fundação, assim como a outros que foram se incorporando ao grupo.
        Contando com a belíssima iluminação do constante colaborador Nelson Ferreira e com o despojado cenário cuja autoria não consta do programa, Tolentino realiza espetáculo delicado, de rara beleza e com interpretações antológicas. É particularmente belo o momento em que a contrarregragem transforma velho guarda roupa em janela na qual Liuba, Gaev e Vária ficam admirando o jardim das cerejeiras.
        Sergio Mastropasqua empresta ao seu Lopakhin toda a ambiguidade requerida pelo personagem. Natália Beukers é uma deliciosa surpresa como a criada Duniacha. Anna Cecília Junqueira tem a responsabilidade de interpretar Vária, uma das mais importantes personagens da peça, e o faz com muita dignidade. A personagem do criado Firs é feita com a habitual competência de Guilherme Sant’Anna, apesar de a barba dificultar o total entendimento de suas falas.
        Brian Penido Ross está muito à vontade como Gaev, perdido em seus sonhos e devaneios e Clara Carvalho mais uma vez empresta seu imenso talento para a personagem principal da peça que é Liuba, proprietária do cerejal que está prestes a ser destruído por conta da especulação imobiliária representada por Lopakhin. Sua belíssima interpretação soma-se a outras maravilhosas Liubas vividas no Brasil por Vanda Lacerda (1968 – RJ), Cleyde Yáconis (1982 – SP), Nathalia Timberg (1989 – RJ), Tônia Carrero (2000 – SP) e Carolina Fabri (2014 – SP).

Programas de montagens a que assisti

        O que virá após a derrubada do cerejal? Existe a esperança profetizada pelos jovens Pétia e Ânia?   Muitas perguntas, poucas respostas, mas o que sabemos é que Tchekhov antecipou em sua obra a Revolução Russa que aconteceria 13 anos após ela ter sido encenada pelo Teatro de Arte de Moscou, dirigida por Stanislavski.

        O JARDIM DAS CEREJEIRAS está em cartaz no Teatro Aliança Francesa até 24/02 com sessões de quinta a sábado às 20h30 e domingo às 19h. Além das apresentações o grupo fará, durante a temporada, ciclo de leitura de dramaturgos russos toda segunda feira às 19h.
        A peça abre com chave de ouro a temporada teatral paulistana.

IMPERDÍVEL

        11/01/2019

        
        
        
        

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A DRAMATURGIA BRASILEIRA NOS PALCOS PAULISTANOS EM 2018


Palco e plateia/Ator e espectador: As únicas coisas de que o teatro não pode abrir mão - Foto de Letícia Godoy: Cia. Mungunzá no Teatro de Contêiner

                Conforme obtido nos guias de teatro no ano de 2018 estiveram em cartaz nos palcos paulistanos 550 títulos de autores brasileiros, número que pode ser conferido no banco de dados que alimento mensalmente desde 1990. O gráfico abaixo mostra a evolução do número de peças brasileiras apresentadas em São Paulo de 1990 a 2018.


        Pode-se notar no gráfico como a tendência de crescimento aumentou após 2002, ano em que entrou em vigor a Lei do Fomento (o primeiro edital é de junho de 2002). Nota-se também que apesar de se manter em nível elevado em relação à média de anos anteriores, o número de peças em 2018 teve significativa queda de 13% em relação a 2017 (de 633 para 550), o que pode ter sido ocasionado pelas incertezas que rondam as políticas para o teatro e para a cultura de maneira geral.

        Segundo amostras coletadas nos guias de teatro, porcentagens aproximadas indicam que a cena paulistana está assim dividida:
                Dramaturgia brasileira: 45%
                Dramaturgia estrangeira: 20%
                Stand Up: 15%
                Teatro Infantil: 20%
        Considerando o número preciso de 550 para dramaturgia brasileira e usando as porcentagens acima, podemos inferir que a cena paulistana teve cerca de 1220 espetáculos em cartaz no ano de 2018, sem levar em conta os trabalhos realizados nas ruas e na periferia da cidade que não constam dos guias consultados.

        Voltando à dramaturgia brasileira que é o objeto desta matéria, segue abaixo uma análise do que ocorreu em 2018.
        Os 550 títulos podem ser tanto estreias como reestreias de espetáculos vindos do ano anterior.

        Nelson Rodrigues continua sendo o autor mais montado, comparecendo em dez montagens, seguido por Plínio Marcos e Ronaldo Ciambroni cada um deles com sete espetáculos montados. É curioso notar que das sete montagens de peças de Plínio Marcos, quatro foram da clássica Navalha na Carne.
        O único autor que teve quatro títulos montados foi Rodolfo García Vázquez, sendo que dois deles tiveram Ivam Cabral como coautor.
        14 dramaturgos tiveram três montagens de seus trabalhos. São eles: Alamo Facó, Alexandre Dal Farra, Aziz Bajur, Carol Rainatto, Hugo Possolo, Julia Spadaccini, Marcelino Freire, Márcio Azevedo, Mário Bortolotto, Paula Giannini, Pedro Fabrini, Regiana Antonini, Sérgio Roveri e Viviane Dias.
        51 dramaturgos compareceram com duas montagens.
        37 espetáculos aparecem como criação coletiva (33) ou processo colaborativo (4). Estas classificações são passíveis de crítica porque nunca aparecem de maneira explícita na ficha técnica.
        345 autores tiveram um espetáculo montado. Muitos nomes desconhecidos aparecem nesta lista e lamentavelmente é muito difícil que eles voltem a comparecer no futuro.
        É sempre estimulante ver a presença de Gianfrancesco Guarnieri (Eles Não Usam Black Tie), Jorge Andrade (A Escada), Raimundo Magalhães Júnior ( A Canção Dentro do Pão), Martins Pena (O Diletante e O Usurário), e até Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Espelho) e Guimarães Rosa (O Espelho).
        Louve-se a realização da IV Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do CCSP que entre outros tantos méritos este ano revelou o autor Jhonny Salaberg (Buraquinhos ou O Vento É Inimigo do Picumã).
        A qualidade da dramaturgia brasileira marcou presença com o já citado Buraquinhos e O Desmonte (Amarildo Felix), Pequena Ladainha 1 e 2 (Chico Carvalho), Michel III – Uma Farsa à Brasileira (Fabio Brandi Torres), Pousada Refúgio (Leonardo Cortez), Homem ao Vento (Marcos Damaceno) e Aproximando-se de A Fera na Selva (Marina Corazza).

        A maioria dos textos foi criada isoladamente pelo(s) autor(es) (495) ou foram adaptações assinadas pelo adaptador (18). Houve 33 criações coletivas e 4 processos colaborativos. Em 78 casos a obra contou com coautor.

        Em 278 trabalhos o autor exerceu outras funções como ator e/ou diretor.

        Foram 321 dramas, 116 comédias, 40 musicais e 73 que se classificam como comédia dramática, tragicomédia, comédia romântica e outras invencionices como “teatro coreográfico”, “happening gay”, “humor sombrio”, “transcendental”.

        Quanto ao número de atores houve 103 monólogos, 89 espetáculos com dois atores e 358 com três ou mais atores.

        Apenas 73 espetáculos explicitaram a ligação com um grupo/companhia.

        A cena paulistana apresentou em 2018 a média de 46 novos títulos de autores brasileiros por mês, mas o total em cartaz se manteve constante, assim se pode concluir que em média 46 títulos deixaram o cartaz a cada mês, o que significa alta rotatividade e pouco tempo de permanência em cartaz, inibindo a possibilidade de haver um dos mais eficientes meios de divulgação de um espetáculo que é o “boca a boca”.

        2019 começa com perspectivas tenebrosas para a cultura e para a liberdade de expressão, mas tenho certeza que o nosso teatro sobreviverá. As estreias de vários espetáculos já estão sendo anunciadas e pelo menos já estão confirmadas a MITsp e a Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do CCSP.

        Muita água vai passar debaixo do rio e nós estaremos na plateia de algum templo da utopia e da esperança aplaudindo o trabalho dos corajosos homens e mulheres que fazem do teatro sua bandeira de resistência e de luta.

        VIVA O TEATRO!

        02/01/2019




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O BEIJO NO ASFALTO – O FILME



        Não fui muito ao cinema neste 2018, mas tive boas surpresas com os filmes brasileiros. Desde o excelente documentário Quando as Luzes das Marquises Se Apagam de Renato Brandão, fazendo um poético levantamento dos cinemas da época de ouro da cinelândia paulistana, passando por Arábia de Alfonso Uchôa e João Dumans, o lindo Paraíso Perdido de Monique Gardenberg, o tenso  e bem realizado O Animal Cordial de Gabriela Amaral, a delicadeza de Benzinho de Gustavo Pizzi, a contundência de Alma Clandestina de José Barahona  (apresentado na Mostra de Cinema) e culminando com esse que para mim, não é só o melhor filme nacional do ano, mas o melhor filme a que assisti em 2018: O Beijo no Asfalto de Murilo Benício.
        Eu já havia assistido ao filme na Mostra de Cinema de 2017 e revê-lo só fez aumentar minha admiração por ele. Trata-se de excelente exemplo do diálogo do cinema com o teatro que com certeza teve como inspiração Tio Vânia em Nova York (1994) de Louis Malle, Ricardo III – Um Ensaio (1996) de Al Pacino e Moscou (2008/2010) de Eduardo Coutinho, mas tem vida própria demonstrando o talento do ator Murilo Benício como diretor (este é seu filme de estreia.


        Fotografado em deslumbrante preto e branco por Walter Carvalho, o filme tem cenas que se passam em mesa de ensaio, em camarim onde as atrizes ensaiam seus papeis, em cenário de um teatro onde também se avista a plateia. A direção joga com os planos criando uma saborosa mescla de ilusão e distanciamento. Os atores representam a si próprios e os personagens da peça de Nelson Rodrigues.
        Murilo Benício reuniu elenco de ouro para seu filme. Dá medo a escrotice do Amado Ribeiro de Otávio Müller; ótimo também Augusto Madeira como o delegado Cunha. Com muita dignidade Débora Falabella interpreta a esposa Selminha, papel vivido por Fernanda Montenegro na primeira montagem da peça em 1961. Lázaro Ramos empresta seu talento para a perplexidade do personagem Arandir, assim como Stênio Garcia para o problemático sogro Aprígio. Boa surpresa é a atriz Luiza Tiso que interpreta a cunhada Dália. Amir Haddad, em participação especial, faz as vezes do diretor da peça que explica as ações e as personagens para os atores. E por último a presença iluminada de Fernanda Montenegro como a vizinha Dona Matilde; a cena em que ela vem contar as novidades para Selminha é antológica e chega a ser aplaudida pelos espectadores.


        Em época de fake news, de delação e de abuso de poder, o texto de Nelson Rodrigues mostra-se atualíssimo e sua estrutura dramática é tão poderosa que consegue manter o suspense mesmo para quem conhece o surpreendente desfecho da história.
        As adaptações cinematográficas dos textos do autor nunca foram muito felizes, mas creio que ele ficaria muito satisfeito com o filme de Murilo Benício.
        Grande momento do teatro brasileiro, perdão, do cinema brasileiro, porque antes de tudo trata-se de magnífico exemplo de tradução cinematográfica de um texto teatral.

Cena da montagem teatral de 1961 com Oswaldo Loureiro (Arandir) e Fernanda Montenegro (Selminha)

        O filme estreou há menos de um mês e já está restrito a apenas uma sessão (21h) no Cine Belas Artes, portanto corra para ver.

        31/12/2018