terça-feira, 16 de julho de 2019

PRÊMIO APCA DE TEATRO 2019 – 1º SEMESTRE (indicados)


 
                Em reunião realizada no dia 15 de julho de 2017 na SP Escola de Teatro os críticos da área de teatro da APCA escolheram os indicados do primeiro semestre de 2019 ao Prêmio. Escolha bastante difícil, haja vista a quantidade de bons espetáculos e boas interpretações acontecidas nesta primeira metade do ano nos palcos paulistanos malgrado todas as dificuldades impostas à cultura pelo nefasto governo que ora temos que engolir.
 
 
        Os críticos Celso Cury, Edgar Olimpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, Gabriela Mellão, José Cetra Filho, Kyra Piscitelli, Maria Eugênia de Menezes, Márcio Aquiles, e Vinício Angelici indicaram seus escolhidos em cada categoria e o resultado da votação foi o que se segue:
 
         DRAMATURGIA
        - Eloisa Elena – Entre
        - Newton Moreno – As Cangaceiras Guerreiras do Sertão
        - Pedro Kosovski – Kintsugi, 100 Memórias
 
         ATOR
        - Mário Sérgio Cabral – Apenas o Fim do Mundo
        - Pedro Vieira – De Volta a Reims
        - Ricardo Gelli – Rio Grande
 
         ATRIZ
        - Amanda Lyra – Fim
        - Ester Laccava – Ossada
        - Luciana Carnieli – Amar, Verbo Intransitivo

         DIREÇÃO
        - Clara Carvalho – Condomínio Visniec
        - Jé Oliveira – Gota D’Água Preta
        - José Roberto Jardim – A Desumanização
 
         ESPETÁCULO
        - Fim
        - Gota D’Água Preta
        - Tom na Fazenda
 
 
        16/07/2019
 
       
 
 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

ATOR MENTE


 


       Com seus habituais talento e elegância Marco Antônio Pâmio traduziu e dirigiu três peças curtas do dramaturgo inglês Steven Berkoff reunidas no espetáculo Ator Mente em cartaz no Teatro Nair Bello.
       Os dois primeiros textos, mais curtos, colocam em cena Norival Rizzo e Josemir Kowalick, ora como dois atores no camarim de um teatro (Quero Um Agente), ora como uma mãe (divertida composição de Rizzo) conversando com o filho criança (Assado). Sabiamente Pâmio deixou para o final a melhor e mais longa peça (Isto É Uma Emergência) onde um casal discute sobre o desemprego do marido que é ator e uma troca de ofensas ao telefone entre o homem e um chofer de taxi resulta em algo que foge ao controle do casal, interpretado por Rizzo e Noemi Marinho, numa hilária e surpreendente intervenção.
 
 
       O patético diálogo inicial entre o casal enquanto a mulher balança infinitamente seu saquinho de chá na xícara e dá sugestões de emprego para o desacorçoado marido revela-se como um dos mais preciosos momentos que o teatro vem nos oferecendo. As chamadas do agressor por telefone e sua chegada (Luciano Schwab) transformam a cena de patética em tragicômica, onde se revelam males tão presentes na contemporaneidade: a insegurança, a violência, o medo, a covardia e a repressão sexual da mulher.
       O cuidado da produção (marca registrada de Pâmio) pode ser lido na ficha técnica e constatado ao assistir ao espetáculo: O cenário simples e flexível é de Duda Arruk, os figurinos de Fabio Namatame, a iluminação de Caetano Vilela e a ótima trilha sonora é assinada por Gregory Slivar.
       Entre os vários méritos deste espetáculo, os maiores para mim, são, sem dúvida, as brilhantes interpretações de Norival Rizzo e Noemi Marinho que por si valem a ida ao teatro.

       ATOR MENTE está em cartaz no Teatro Nair Bello no Shopping Frei Caneca às sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 19h. Até 28/07.

       15/07/2019

domingo, 7 de julho de 2019

EM CASO DE EMERGÊNCIA QUEBRE O VIDRO

 
 


        Eles são apenas ELE e ELA e jamais se chamam pelo nome. Depois de oito anos separados e dela ter ido viver em Londres eles voltam a se encontrar em uma barulhenta estação de metrô de São Paulo. Os ressentimentos ainda existem e também persiste a dúvida de ir embora e se sujeitar a um subemprego no exterior ou ficar e enfrentar a realidade cada vez mais problemática e sem perspectiva deste país. A peça de Denio Maués escrita em 2013/2014 adquire assustadora atualidade nos momentos sombrios que o Brasil passa nos dias de hoje, onde grande parte da população, se pudesse, estaria com malas prontas indo em direção do aeroporto.
        Fábio Mráz estreia na direção com muito bom senso focando sua atenção no desempenho dos atores e utilizando o bonito desenho de luz de Adriana Dham e a trilha sonora de Igor Souza, fundamental para esta peça que tem as canções de Morrissey e dos Smiths como pilares para o desenvolvimento da trama.
        César Cantão e Lívia Ziotti são duas gratas surpresas e já conquistam o espectador no primeiro diálogo que mostra o reencontro do casal. A segunda cena volta ao passado no dia em que ELA anuncia ao surpreso namorado que vai deixar o país no dia seguinte e a terceira cena fecha a peça com a nova partida dELA. ELA sempre quebra o vidro em caso de emergência e ELE não o faz, por mais que ela insista (“Vamos comigo para Londres!”)
        Há uma cena muito bem resolvida cenicamente onde ELA destila sua revolta tocando bateria. As fortes palavras de seu solilóquio somadas ao som da bateria provocam intensa reação no espectador.  
        Ao final ficam as perguntas para o público: ELE é acomodado ou cauteloso? ELA é corajosa ou irresponsável e aventureira? Sabiamente o autor deixa as questões em aberto e cada um dará o seu veredito com seus próprios valores.

        Em Caso de Emergência Quebre o Vidro é espetáculo realizado com muita delicadeza tanto pelo autor, como pelo diretor e pelo ótimo elenco e merece ser visto.
 
 
        Cartaz do Instituto Cultural Capobianco até 28/07 sempre aos sábados às 21h e aos domingos às 19h.

        OBS: Na noite terrivelmente fria do domingo, dia 07 de julho, chegamos ao Capobianco com uma hora de antecedência para usufruir da cafeteria ali existente e nos esquentarmos com um bom chocolate quente ou uma taça de vinho, mas para nossa decepção o local estava fechado. LAMENTÁVEL!

        07/07/2019

sexta-feira, 21 de junho de 2019

ELZA




        O musical Elza está de volta em São Paulo no Teatro Sérgio Cardoso. Um libelo contra os preconceitos racial e de gênero defendido com muita energia por sete atrizes/cantoras e que causa verdadeiro frisson no público. Abaixo reproduzo minhas impressões após assistir ao espetáculo em 2018: 

         “Elza a princípio parece ser mais um musical biográfico como tantos que grassam em nossos palcos, a maioria proveniente do Rio de Janeiro, mas é muito mais. A partir do texto escrito por Vinicius Calderoni e de um roteiro de canções perfeito (a ficha técnica não especifica a autoria desse roteiro) que comenta e costura a ação, Duda Maia cria um musical só com mulheres (sete atrizes e seis musicistas) pautado em movimentação cênica vibrante das atrizes (marca registrada de Duda, haja vista seu trabalho em Auê), uso de adereços baratos e criativos (baldes e alguns carrinhos), cenário de André Cortez e excelente direção musical comandada por Pedro Luís. O texto mostra as agruras vividas por Elza Soares e sua luta constante para enfrentar os limões que a vida lhe deu, sempre os transformando com muita garra em uma limonada. Peço perdão pela frase clichê, mas é a que mais se adequa a essa grande mulher. São sete atrizes/cantoras interpretando Elza e as pessoas que passaram pela sua trajetória, todas elas excelentes tanto nas falas como no canto. Vozes amplas e sonoras que ecoam esplendorosamente no grande auditório do Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros. Larissa Luz é o destaque natural por incorporar a personagem de maneira impressionante, mas seria injusto não mencionar o belíssimo trabalho das outras seis intérpretes e das musicistas. A reação do público é emocionante com aplausos em pé em vários momentos do espetáculo.”

        Elza Soares é exemplo de resistência nesses dias sombrios e ameaçadores que estamos vivendo e a peça passa isso ao público. E vamos resistir a esses reacionários conservadores que estão prometendo acabar com a nossa cultura.
 
        ELZA no teatro Sérgio Cardoso de quinta a sábado às 20h e aos domingos ás 17h até 11/08. IMPERDÍVEL

 

        21/06/2019

 

domingo, 16 de junho de 2019

KINTSUGI, 100 MEMÓRIAS



        A comparação pode parecer banal e até vulgar, mas não posso deixar de compartilhá-la: Kintsugi não é Skol, mas como desce redondo!
        Trata-se do novo espetáculo do Grupo Lume de Campinas. A entrada em cena dos quatro atores brindando com saquê (que será “personagem” importante ao longo do espetáculo) já antevê o ambiente de camaradagem que permeará toda a apresentação, ou quase toda, pois há uma movimentada cena de insultos (!) quase ao final da mesma.
        O vaso que adorna o centro do espaço cênico quando o público adentra a sala será quebrado logo no início da peça, sendo reconstruído ao longo da mesma, assim como são reconstruídas as memórias dos atores por meio de objetos que vão sendo colocados sobre o chão. Kintsugi é uma palavra japonesa que significa emenda com ouro e a emenda das memórias dos atores é realizada com o ouro de seus talentos e oferecida generosamente ao público.
        O processo de criação do espetáculo iniciou com a ideia de pesquisar o mal de Alzheimer (no transcorrer da peça são apresentados os casos de três portadores dessa doença), mas depois se ampliou para a memória de maneira geral e a peça acaba sendo quase um retrospecto da trajetória do grupo que completa 34 anos em 2019. Há até uma simpática invocação do fantasma de Luís Otávio Burnier (1956-1995), fundador do Lume, falecido precocemente. O mote para isso é uma confraternização de fim de ano do grupo onde há uma discussão que é apresentada em 12 versões realistas e uma utópica.
        É impossível não se identificar e não se emocionar com histórias e/ou objetos apresentados nas 100 memórias mostradas durante a apresentação. No programa há um inventário delas.
        É inegável a empatia criada entre atores e público e isso se deve às espontâneas interpretações de Ana Cristina Colla, Jesser de Souza (emocionante ao falar a poesia de Álvaro de Campos), Raquel Scotti Hirson (muito parecida com o Harpo Marx) e Renato Ferracini.  
        A ficha da montagem é extensa e rica tanto na criação como na parte técnica. A direção, realizada com muita sensibilidade, é do argentino Emilio García Wehbi.
        Fato que a memória pode trair: o espetáculo me remeteu a outro do Lume com o mesmo quarteto a que assisti há cerca de 20 anos: o delicioso Café Com Queijo.
 
 

        KINTSUGI, 100 MEMÓRIAS encerra temporada no SESC Avenida Paulista no próximo fim de semana (23/06). Sessões de quinta a sábado às 21h; domingos e feriados às 18h. Sessão extra no dia 19 (quarta) às 21h. IMPERDÍVEL

        16/06/2019

quinta-feira, 13 de junho de 2019

57 Minutos – o tempo que dura esta peça



       Ao iniciar a peça se apresentando de maneira muito simpática e informal Anderson Moreira Sales já obtém a adesão do público para que este trilhe junto com ele um dia na vida de Leopoldo/Esteves/Aki. O primeiro nome dado ao personagem é uma clara referência ao Leopold Bloom do livro Ulisses de James Joyce que serviu de inspiração para o jovem dramaturgo/diretor/ator.

       Baseado numa bem vinda oralidade dos contadores de histórias Anderson inicia sua narrativa preparando tanto a massa de um pão de queijo que será servido ao fim da peça como os ouvidos do público para o que vem depois.

       Ele mesmo diz que a narrativa é fragmentada e há algumas cenas que nem chegam ao final, mas isso não importa, pois Anderson sabe conduzir a história do que se passa em um dia de vida de um homem qualquer, um anti-herói que é testemunha passiva de agressão a um travesti, sonha em ter grande amor e almeja ser dançarino em uma companhia liderada por uma ensaiadora que se assemelha a uma bruxa.

       O espetáculo é dinâmico servindo-se do talento e da criativa movimentação cênica de Anderson; da iluminação de Ricardo Vivian que reforça aspectos da trama; do cenário simples, mas eficiente de Vivian e de Anderson e da trilha sonora de Kevin Brezolin. Recursos que se somam para resultar em harmonioso e belo espetáculo.

       A situação econômico-política do Brasil da qual o ator comenta no início que não irá falar, permeia todo o espetáculo mostrando a preocupação de Anderson com a triste realidade que os brasileiros estão vivendo.

       57 Minutos-o tempo que dura esta peça dura mais que 57 minutos!!! Mas ninguém se incomoda com um adicional de dez minutos porque o espetáculo é muito agradável ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre a violência e os tempos de ódio que estamos vivendo.

       Bem vindo a São Paulo, Anderson Moreira Sales!

 

       57 MINUTOS-O TEMPO QUE DURA ESTA PEÇA está em cartaz no Espaço Parlapatões As terças e quartas às 21h até 10 de julho.

 

       13/06/2019

segunda-feira, 10 de junho de 2019

DOLORES


 
       Quem é essa mulher chamada Dolores? Pela sua entrada triunfal em cena, supõe-se que ela seja uma estrela no auge da fama que está ali para receber os louros e aplausos de seus fãs adoradores, mas aos poucos o público vai percebendo que não é bem assim e que ela tem um quê da atriz decadente Norma Desmond, icônica personagem do filme de Billy Wilder Sunset Boulevard (1950). Apesar de ter apenas 50 anos Dolores sente estar no seu crepúsculo por conta de todos os tombos que a vida lhe deu. Em tom narrativo ela conta sua história desde a infância em um circo até o momento presente, tendo sido usada pela maioria das pessoas com quem conviveu.
       Apesar de muito bonita e exuberante para uma estrela decadente, Lara Córdulla convence e tem uma grande interpretação que contrasta com seu também excelente trabalho como a introvertida e fria filha de O Mal-Entendido de Albert Camus (2018). Mérito para a atriz que demonstra assim a sua versatilidade.
 
Marcelo Várzea, autor e diretor.
 
       Dolores é uma peça que depende totalmente da atriz que a interpreta e o maior mérito do diretor Marcelo Várzea, também autor, foi escolher a melhor intérprete para o papel e deixá-la à vontade para desenvolver a personagem. Várzea contou também com cenários e figurinos de Marcio Macena, com uma gostosa e correta trilha sonora de Raul Teixeira e com o belíssimo desenho de luz de Cesar Pivetti e Vânia Jaconis que, além de criar o clima propício para a ação, conduz toda a movimentação da atriz.
 
 
       DOLORES está em cartaz às terças e quartas às 21h no Instituto Capobianco, que agora conta com o aconchegante café liderado por Alex Galvão e Carlos Colabone. Até 14/08
 
       10/06/2019