quinta-feira, 24 de setembro de 2020

ÉRAMOS EM BANDO

 


Amar e admirar o Grupo Galpão são verbos que fazem parte do vocabulário de qualquer teatrófilo que se preze. Eu os conheço desde 1993 quando eles apresentaram seu cartão de visitas (Romeu e Julieta) à cidade de São Paulo no SESC Pompeia. A partir daí tenho acompanhado toda a trajetória desses mineiros que se renovam a cada novo espetáculo e que mantém em seu elenco muitos elementos daquela época (Antônio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Teuda Bara).

Nesses 27 anos muita água passou debaixo da ponte e o Galpão deixou maravilhas em seu rastro como A Rua da Amargura (1994), Um Trem Chamado Desejo (2000), Um Homem É Um Homem (2005), Pequenos Milagres (2007), Moscou (2008), Till (2009), Tio Vânia (2011), Os Gigantes da Montanha (2013) e a pequena joia De Tempo Somos (2014). Em 38 anos de existência – já existia há onze anos quando esteve por aqui pela primeira vez -  o grupo realizou 24 espetáculos e um sarau sempre primando pela qualidade e pela diversidade tanto nos temas como nos autores e nos diretores, culminando com os contemporâneos Nós (2016) e Outros (2018), ambos dirigidos por Marcio Abreu.

E chegou 2020, ano de estrear o 25º espetáculo, mas com 2020 também chegou a pandemia e cada um teve que abdicar temporariamente desse sonho e ir para o seu canto viver o isolamento social.

Silêncio em um primeiro momento, mas depois a vontade de criar fez o grupo se juntar virtualmente e desses encontros resultou Éramos em Bando, filme dirigido por Marcelo Castro, Pablo Lobato e Vinicius de Souza. Nas conversas, cada um em seu casulo fala desse momento difícil para a vida e para o teatro e como está lidando com isso. Muita improvisação onde momentos engraçados (quase sempre provocados pela carismática Teuda) se mesclam com momentos dramáticos e de denúncia, tudo sempre com muita arte e delicadeza. Os encontros também contaram com a participação/provocação dos diretores Marcelo Castro e Vinicius de Souza. O RESULTADO É UM RICO DOCUMENTO HISTÓRICO SOBRE A SOBREVIVÊNCIA DE UM GRUPO TEATRAL EM TEMPOS DE PANDEMIA.

Atores que participam do filme: Inês Peixoto, Eduardo Moreira, Teuda Bara, Julio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Antônio Edson.

Está sendo exibido também um registro do encontro/debate realizado no dia da estreia do filme (21/09/2020). Esse encontro contou com a participação dos diretores Pablo Lobato e Vinicius de Souza e dos atores Lydia Del Picchia e Paulo André; a mediação foi feita por Victor Guimarães.


Vale a pena fazer uma dobradinha no Youtube e assistir aos dois documentos. Exibição por tempo limitado. 

E VIVA O GRUPO GALPÃO!

VIVA O TEATRO! 

23/09/2029

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

UMA MULHER SÓ

 


Não são muitas as atrizes brasileiras que transitam com facilidade entre o drama e a comédia. Parece que é mais fácil fazer comédia do que drama, mas intérpretes são unânimes em afirmar o contrário. No meu entender a maior representante dessa categoria sempre será Marília Pêra com suas interpretações antológicas de Fala Baixo Senão Eu Grito (1969), Apareceu a Margarida (1974) e Brincando Em Cima Daquilo (1985). Ao seu lado podemos lembrar de Andrea Beltrão, Beth Goulart, Débora Bloch, Fernandinha Torres e agora, com este Uma Mulher Só, de Martha Meola, que por coincidência interpreta uma das personagens criadas por Marília em 1985 na peça de Dario Fo e Franca Rame.

Foto de Ronaldo Gutierrez

Essa mulher da peça do casal italiano me remeteu ao título de uma obra de Leonid Andreiev: O Que Leva Bofetadas. Ela leva bofetadas de todos os homens que passam por sua vida: o marido que a agride fisicamente e a prende em casa, o cunhado tetraplégico que abusa sexualmente dela, o homem que a agride por telefone, o jovem amante que quer se suicidar por ela, mas também a violenta e até o bebê que chora o tempo todo não lhe dando paz. Aceitando sua triste condição feminina, a princípio ela se limita a desabafar com uma vizinha que mudou para o prédio em frente (recurso parecido com aquele usado por Antônio Bivar em 1968 em Alzira Power que era interpretado por Yolanda Cardoso, outra grande atriz que sabia como graduar o dramático com o cômico), mas ao final ela encontra uma forma mais radical de acabar com tudo. É impressionante a interatividade/intimidade de Martha Meola com os web espectadores que se tornam a vizinha que testemunha as agruras daquela mulher só.

A violência doméstica é um fato no Brasil e ela só aumentou com o isolamento social e o pior é que a maioria das mulheres aceita passivamente essa situação por medo ou alienação, No início deste ano a peça Uma Lei Chamada Mulher tratou desse assunto e é muito bom que Uma Mulher Só volte a tratar do assunto, agora com um bem vindo toque de humor corrosivo que faz pensar.

Marco Antônio Pâmio dirige a atriz com sua elegância costumeira saindo-se muito bem em sua primeira experiência audiovisual e contando com a ótima direção de movimento de Marco Aurélio Nunes (fundamental para o bom desenvolvimento da ação) e a excelente trilha de Gregory Slivar que comenta e reforça a ação.


SERVIÇO: UMA MULHER SÓ - Estreia em 11 de setembro, sexta, às 20 horasTemporada - Até 27 de setembro, sextas e sábados, às 20 horas, domingo, às 17 horas.  Direção - Marco Antônio Pâmio. Interpretação - Martha Meola. Autores - Dario Fo e Franca Rame. Direção de movimento - Marco Aurélio Nunes. Iluminação - Nicolas Caratori. Trilha Original - Gregory Slivar. Direção de arte - Raphael Gama. Operação de som - Alexandre Martins. Fotos - Ronaldo Gutierrez. Produção executiva - Marcela Horta. Direção de produção - Selene Marinho e Sergio Mastropasqua. Duração - 40 minutos (+15 minutos de debate após o espetáculo). Ingressos - De R$ 10,00 a R$ 250,00 (vendas pelo Sympla). 

11/09/2020

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

TODO MUNDO QUER SER DONA MARGARIDA (?)

 

O desempenho de Marília Pêra em ‘Apareceu a Margarida’ (1974) é, para mim, a obra prima absoluta de interpretação feminina no Brasil, ao menos nos 50 anos que frequento teatro. Pelo texto de Roberto Athayde e pela interpretação de Marília, classifico este espetáculo como um dos cinco mais significativos de toda minha longa vida de espectador.” 

Com essa frase eu encerrava o capítulo do meu livro sobre Apareceu a Margarida. Posto isso o leitor pode imaginar a minha apreensão ao me preparar para assistir a transmissão ao vivo da versão da peça realizada por Abílio Tavares e o maior elogio que posso fazer a esse espetáculo é que já nos primeiros minutos me distanciei de Marília e já estava curtindo a nova (para mim) Dona Margarida.

Abílio Tavares montou a peça várias vezes, mas nunca tive a oportunidade de assistir; surge agora a versão online em razão do isolamento social. A primeira coisa que chama a atenção é o novo título que amplia a vontade de dominar (todo mundo quer ser) e ao mesmo tempo põe em dúvida esse desejo com um intrigante ponto de interrogação ao final da frase.

A potência e a atualidade do texto de Athayde são coisas incontestáveis e Abílio Tavares apodera-se com unhas e dentes das frases absolutamente antológicas que compõem o mesmo, reforçando a contundência das mesmas escrevendo-as em lousas espalhadas pelos vários cômodos da casa onde foram situadas as ações. O fato de situar as ações em vários cômodos ameniza, a meu modo de ver, a claustrofobia de uma sala de aula, local onde Dona Margarida deve sentir-se mais à vontade para exercer seu poder, porém a solução cênica é válida pois dinamiza a apresentação quando realizada via recursos televisivos.

Apesar de toda demonstração de poder que procura demonstrar, Dona Margarida é frágil e temerosa de perder esse poder. Trata-se de uma personagem em muitos aspectos asquerosa e perigosa (Marília Pêra dizia que interpretá-la era uma violentação), mas também digna de pena. Personagem que vai do drama à comédia, fato que exige muita versatilidade de quem a interpreta e essa qualidade não falta a Abílio Tavares.

Muitas Donas Margaridas estão presentes no triste cenário brasileiro e isso torna este trabalho de Abílio Tavares urgente e necessário.

 

10/09/2020

SERVIÇO

Reestreia de Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?)

Releitura de Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde

De 5 de setembro a 27 de setembro de 2020 | Sábados e domingos, às 20h *

* As sessões serão exibidas ao vivo e não ficarão registradas no canal

Acesso gratuito | Onde: YouTube A Dona Margarida Oficial

Duração: 50 min. | Classificação: 12 anos

terça-feira, 1 de setembro de 2020

SEMINÁRIO CPT 2020



Dando início ao que o Danilo Santos de Miranda chamou de relançamento do CPT (Centro de Pesquisas Teatrais do SESC), aconteceu um encontro mediado por Sérgio Luís Oliveira na manhã do dia 01 de setembro de 2020 com a presença do próprio Danilo, da encenadora Bia Lessa, do encenador Gabriel Villela e do dramaturgo Samir Yazbek para falar sobre o legado de Antunes Filho para o teatro.


O CPT foi criado por Antunes dentro da unidade Consolação do SESC e esteve sob sua liderança até sua morte ocorrida em 2019. Nesses 37 anos ali foram concebidos espetáculos e formaram-se atores, diretores, dramaturgos, sonoplastas, cenógrafos que enriquecem a cena teatral brasileira.

Segue abaixo algumas pérolas pinçadas desse longo e instigante papo que se prolongou por mais de duas horas. 

Danilo Santos de Miranda:

        - Realiza-se hoje o relançamento oficial do CPT.

        - Estamos fazendo uma celebração do legado de Antunes.

        - Surge um CPT sem Antunes, mas inspirado nele. 

Bia Lessa:

        - Com a morte desses gênios (Pina Bausch, Tadeusz Kantor, Antunes Filho) não se pode criar uma sombra e querer imitá-los, mas dar um passo a frente, pensando nos pilares que eles construíram.

        - Somos absolutamente iguais e absolutamente diferentes uns dos outros.

        - Citou Mário de Andrade “Não vim ao mundo para ser pedra”, frase que ilustrou sua encenação de Macunaíma.

        - Macunaíma de Antunes (1978) era solar, a minha (2019) era soturna. Agora a questão é “Ai, que preguiça do mundo como ele está agora”.

        - Sempre pensar em CONTEÚDO e FORMA (estética). Qual a melhor forma de dizer determinado conteúdo?

        - Destaque para a importância do Festival Mirada por criar o diálogo com os outros (no caso, a cena estrangeira) 

Samir Yazbek:

        - Recordou a maneira como conheceu Antunes no CCSP.

        - Entrou para o CPT quando Paraíso Zona Norte estava em cartaz (1989)

        - Antunes pretendia montar um espetáculo que mesclasse Jorge Luís Borges e as 1001 noites com Raul Cortez no papel de Borges. A ideia não vingou e mudou para uma obra inspirada na vida do escritor argentino. Samir trabalha nessa obra desde aquela época e a alavancou após a morte de Antunes.

        - Antunes fazia auto crítica. Prova disso é o fato que certo dia Samir apreciava as fotos de Macunaíma afixadas no corredor do CPT e Antunes lhe deu um empurrão bradando “Aqui ninguém olha para o passado!” 

Gabriel Villela:

        - Comparou o CPT a um ateliê renascentista onde se pesquisava sem fins imediatos gerando artistas como Michelangelo.

        - O CPT e arte em geral são excelentes vacinas para a sobrevivência do nosso teatro.

        - Citou a experiência junguiana para o teatro e a obra de Antunes Filho, assim como seu olhar e admiração pelo Oriente. 

A mediação de Sérgio Luís Oliveira foi perfeita e pela primeira vez ouvi dizer que sou um webespectador! 

Elogios quase unânimes surgiram nas mensagens que os webespectadores enviavam, com exceção de uma tal de Silvania P que quase ao final do evento começou a disparar críticas à retomada do CPT (tenho quase certeza quem é essa senhora -ou senhor-!) 

Parabéns SESC! Sempre na frente quando se trata de cultura e cidadania! 

A programação completa do evento que segue até novembro pode ser conferida no site do SESC e nas redes CPT_SESC 

01/09/2020

 

 

       

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

LUCIANA PAES – OLAR UNIVERSO

 

O talento de Luciana Paes não é surpresa para ninguém. Seja na televisão, no cinema e, principalmente, no teatro ela sempre se destaca por sua forte presença cênica. Suas participações nas peças da Cia. Hiato sempre foram uma das grandes atrações do grupo dirigido por Leonardo Moreira. Quem assistiu a O Jardim jamais vai esquecer de sua atuação, como também do solo sobre Frida Kahlo em Ficção. No cinema louve-se seus trabalhos em Sinfonia da Necrópole e O Animal Cordial, neste ela formava uma dupla sinistra com Murilo Benício.


Agora foi a vez de Luciana participar de uma transmissão ao vivo pelo #EmCasaComSesc. Olar Universo foi totalmente concebido pela atriz na dramaturgia, na direção e na interpretação, com colaboração de Otávio Dantas (co-direção, direção de fotografia e operação de câmera) e Claus Lehmann (assistente de câmera).

        A partir de duas obras contemporâneas (Breve História de Quase Tudo de Bill Bryson e Sapiens-Uma Breve História da Humanidade de Yuval Noah Harari) a personagem criada por Luciana procura entender qual a razão do Universo tê-la criado: um ser formado de átomos que são tudo e nada ao mesmo tempo.

 A viagem começa na criação do Universo, passa pelos pobres dinossauros (que também eram formados de átomos!), chegando nos dias atuais onde essa mulher isolada pela pandemia do corona vírus quase enlouquece ao pensar que milhões de anos são apenas uma fração de tempo para o Universo. Tempo? Que tempo?

Luciana propõe quase em tom de brincadeira questões filosóficas da maior envergadura que deixam o espectador com um sorriso nos lábios, mas cheio de questões para refletir sobre.

A atriz, como de hábito, tem uma interpretação não menos que excepcional transitando com muita versatilidade entre a comédia e o drama.

O #EmCasaComSesc tem nos oferecido excelentes momentos de teatro televisivo entre os quais podemos destacar Eu Não Dava Praquilo com Cassio Scapin interpretando Myrian Muniz, Meu Ser Ator com Renato Borghi criando cena antológica onde interpreta várias personagens de Pequenos Burgueses, Alma Despejada com Irene Ravache, Três Maneiras de Tocar no Assunto com Leonardo Netto, A Frasqueira de Jacy com Quitéria Kelly e A Cobradora com Maria Abreu. O espetáculo de Luciana Paes insere-se nessa galeria de ouro com a qual o Sesc nos alimenta com um pouco da arte teatral nestes tempos de isolamento. 

20/08/2020

 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

CENA INQUIETA

 

Há uma frase de Ferreira Gullar pela qual tenho muito apreço e que sintetiza o que entendo como arte: “A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”. Esse tirar do chão e me surpreender é o que sempre procuro quando me vejo diante de um evento artístico, mas nem sempre é o que encontro.

Tesouros precisam ser descobertos e quando isso acontece sinto compensar o tempo perdido com obras que não me dizem nada ou até que chegam a me irritar pela má qualidade e, principalmente, pelas más intenções.

Tudo isso para escrever que algo muito especial está acontecendo toda quinta feira às 23h no canal SescTV. Trata-se de CENA INQUIETA, série com 26 programas dirigida pelo cineasta Toni Venturi focando o teatro de grupo realizado no Brasil. Com curadoria da pesquisadora Silvana Garcia, a série gira em torno de três eixos: teatro negro, teatro sócio-político e teatro de gênero, mas como declara o diretor “os trabalhos dos grupos se imbricam: qual o teatro negro ou de gênero que não é político?”. Silvana não só selecionou os grupos como também definiu junto com Venturi as duplas que compõem cada episódio.

A curadora Silvana Garcia preparando uma entrevista

O diretor Toni Venturi

Cada programa focaliza dois grupos, além de espetáculos independentes e conta também com intervenções de um especialista que comenta sobre as ações dos grupos focados. O diretor explora o conteúdo de cada grupo entrevistando componentes dos mesmos e ilustrando com cenas de seus espetáculos.

 Belos planos fazem notável equilíbrio entre forma e conteúdo, provando que a linguagem cinematográfica pode contribuir para mostrar a linguagem teatral. Nota-se um perfeito equilíbrio no diálogo entre o cinema e o teatro. Outro ponto forte da edição do programa é a mesclagem harmoniosa de momentos de cada grupo evitando a monotonia da linearidade.

Até o momento foram apresentados três programas, cada um deles enfatizando os eixos citados acima:

Teatro negro: Grupo Clariô de Teatro (SP) e Capulanas Cia de Arte Negra (SP).

Grupo Clariô

Teatro sócio-político: Coletivo Estopô Balaio (SP) e Trupe Sinhá Zózima (SP).

Estopô Balaio

Sinhá Zózima

Teatro de gênero: Os Satyros (SP) e espetáculo O Meu Lado Homem, Um Cabaré d’Escárnio com Luís Mármora (SP).

O teatro sócio-político volta a comparecer no quarto episódio a ser veiculado nesta semana com Cia do Tijolo (SP), Teatro do Osso (SP) e espetáculo Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos.

E assim os episódios vão se suceder apresentando também grupos do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de Recife e de Salvador. Pelo que foi apresentado até agora pode-se prever que a série manterá o alto nível apresentado nos três primeiros episódios.

Percorrendo a lista dos grupos a serem apresentados sente-se a falta em São Paulo, entre outros, da Brava Companhia, do Engenho Teatral, da Antropofágica, da Pombas Urbanas e do Teatro do Incêndio. Do Rio de Janeiro o grande ausente é o Ensaio Aberto. E com certeza há muita coisa a ser descoberta nos estados que não fazem parte dessa primeira abordagem. Um recorte era necessário e várias foram as razões deste ou aquele grupo não ter sido escolhido. Quiçá uma segunda temporada da série possa contemplar tantos outros grupos importantes para o assunto.

CENA INQUIETA é importante documento sobre o teatro contemporâneo de grupo e deve fazer parte do currículo de todas escolas de teatro do país. O exemplo desses jovens que sem muitos recursos e mesmo enfrentando toda sorte de preconceitos e dificuldades realizam teatro experimental militante da melhor qualidade precisa ser mostrado e servir de exemplo para aqueles que pretendem abraçar essa profissão tão ingrata, mas tão apaixonante.

CENA INQUIETA revela o olhar de um cineasta e de uma equipe que entendem e amam o teatro, mostrando também a importância do SESC na realização de projetos que incentivam a cultura brasileira.

 

A série é apresentada no endereço

www.sesctv.org.br (clicar em “no ar”)

às quintas feiras às 23h, com reprise na terça da semana seguinte no mesmo horário.

 

PARA QUEM AMA E, PRINCIPALMENTE, PARA QUEM FAZ TEATRO!

NÃO DEIXE DE VER!

 

11/08/2020

domingo, 26 de julho de 2020

OS PERSAS no TEATRO DE EPIDAURO



TEATRO NACIONAL DA GRÉCIA

        Ésquilo (525-AC-456-AC) era o mais velho dos três grandes trágicos gregos, seguido de Sófocles (497-AC-406-AC) e Eurípedes (480-AC-406-AC) e sua peça Os Persas é considerada a mais antiga tragédia completa do teatro ocidental, por isso revestiu-se da maior importância a apresentação a que o planeta teve a oportunidade de assistir diretamente do teatro de Epidauro na Grécia no último sábado (25/07/2020).
        Uma hora antes da apresentação as câmeras já mostravam o público chegando naquele espaço mítico que foi sendo preenchido aos poucos até ficar completamente lotado ao se aproximar a hora do início do espetáculo. Uma lua crescente compareceu no firmamento para abrilhantar essa noite tão especial.
 
 
        Ésquilo escreveu uma tragédia (472-AC) que lhe era contemporânea ocorrida apenas oito anos antes (480-AC): a derrota dos persas pelos gregos na batalha naval de Salamina. Vista sob o ponto de vista dos perdedores, a peça põe em cena a rainha Atossa, o fantasma do seu marido Dario, um mensageiro e o filho derrotado, rei Xerxes, tudo sob a vista do coro de fiéis.
 
 
        A encenação de Dimitri Lignadis não enfeita nada e é extremamente limpa com cenas de conjunto extremamente harmoniosas. O coro tem seu ponto de referência em cadeiras situadas ao fundo do espaço cênico, mas também atua neste, realizando belíssimo trabalho coreográfico. Sem sair de cena o coro acompanha e dialoga com as falas de Atossa (trabalho visceral da atriz cujo nome desconheço), do mensageiro (responsável pela cena mais impactante do espetáculo quando ele descreve para a rainha a derrota sofrida pelos persas), do fantasma de Dario e com o cantar lamentoso de Xerxes que encerra a trama.
        Todos os homens vestem roupas brancas com inscrições e manchas vermelhas de sangue e a rainha usa um portentoso vestido negro, dando muita dignidade ao figurino como um todo.
        Interpretações perfeitas de todo o elenco, com destaque para o ator que representa o mensageiro.
        O único senão foi a dificuldade de ler as legendas em inglês quando sobrepostas a um fundo branco.
        Excelente programa. Um verdadeiro presente de grego.
 
        26/07/2020