sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

GOTA D’ÁGUA (PRETA)



        Um pouco de história

        Meu currículo de espectador abriga cerca de 3800 peças desde que me apaixonei pelo teatro em 1964. Em meu livro O Palco Paulistano de Golpe a Golpe (1964-2016) atesto uma grande lacuna ocorrida no final dos anos 1970 quando, por diversas razões, não pude assistir à antológica montagem de Gota d’Água escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976) e dirigida por Flávio Rangel (1934-1988) com a visceral interpretação da já saudosa Bibi Ferreira (1922-2019), desaparecida nesta semana. A emoção se renova cada vez que ouço os monólogos de Joana contidos no LP gravado na época por Bibi.
        Outras Joanas povoaram nossos palcos nesses 40 anos: Cleide Queiroz, poderosa, na montagem dirigida por Gabriel Villela em 2001, Georgette Fadel (2006) e Laila Garin (2016); estas duas últimas em versões adaptadas do original.

        A montagem atual


        Em momento oportuno do nosso país e com a intenção de dar voz a elenco negro, uma vez que a peça tem ação na Vila do Meio Dia, zona periférica onde a raça negra predomina, Jé Oliveira realiza esta potente montagem em cartaz no Itaú Cultural. Trata-se da primeira montagem com elenco negro, mas não a primeira Joana negra, pois Cleide Queirós já a interpretou na encenação já citada de Villela.
        O texto de Chico Buarque e Paulo Pontes tem muita força nos dias atuais onde a ganância e o poder concentrado nas mãos de poucos continuam a dominar o cenário brasileiro, mas há certa verborragia que poderia ser trabalhada pelo diretor, o mesmo, porém,  optou pela montagem integral com direito a inserções de cenas de candomblé que somadas a problemas de ritmo (que devem ser sanados durante a temporada) resultaram em apresentação de quase três horas e meia de duração. Com exceção do início com a conversa das vizinhas que demora a engrenar, o primeiro ato é impactante e ao seu final, o público emocionado aguarda ansioso a continuidade da trama. O segundo ato, porém, carece de ritmo e arrasta-se para um final, que da maneira que é apresentado, é bastante frustrante.
            O uso intermitente de microfones revela-se não funcional e cansativo, sendo mais um dos elementos que prolongam desnecessariamente o espetáculo. 
        A peça conta com três grandes interpretações: Salloma Salomão está emocionante como o sábio e suave Egeu; Rodrigo Mercadante tem força, talento e ótima dicção para nos indignar com seu asqueroso Creonte e Juçara Marçal, cantora, estreando como atriz, e que atriz! Sua Joana é tocante tanto na fúria como na suavidade, lembrando (sem imitar) momentos consagrados por Bibi Ferreira que só conheço em gravação. Causa estranhamento uma mesma atriz interpretar a vizinha Zaíra e a filha de Creonte, uma vez que a montagem não utilizou o sistema coringa, nem recursos épicos na sua concepção. Jé Oliveira se sai melhor como encenador do que como ator: seu Jasão tem o gingado do malandro do morro, mas não tem força para enfrentar Joana, nem consegue externar suas mudanças de comportamento até se consolidar como aproveitador e comparsa de Creonte.
        Citações de Você Não Gosta de Mim, Mas Sua Filha Gosta e Deus Lhe Pague, permeiam as canções originais de Chico Buarque para a peça, assim como, ritmos afros e de rap dando colorido especial e atualidade à encenação, há porém, uma incômoda trilha gravada que acompanha certos números musicais. O acompanhamento musical ao vivo é ótimo e é interessante e bonito o uso das vozes de Bibi Ferreira e de Chico em certos momentos, como também a homenagem que se faz à montagem original de 1975 incluindo entre os adereços de cena a capa do LP gravado na época.
        Resta ainda uma saudação a Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianninha, que adaptou a Medeia de Eurípedes para a televisão e essa adaptação foi a inspiração para Chico e Pontes escreverem a obra prima Gota d’Água.
       
        GOTA d’ÁGUA (PRETA) está em cartaz até o próximo domingo (17) no Itaú Cultural com sessões gratuitas bastante concorridas (sexta e sábado às 20h e domingo às 19h). Volta ao cartaz de 08 a 24 de março no Centro Cultural São Paulo ás sextas e sábados ás 20h30 e domingos às 19h30.

        15/02/2019

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

BABILÔNIA SEM FRONTEIRAS (BABYLON BEYOND BORDERS)




MAIS UMA DO PEDRO GRANATO

       A estrela principal deste fascinante projeto é a tecnologia, mas em momento algum ela deixa de servir o verdadeiro objetivo que é o compromisso social e o humanismo. Os recursos tecnológicos dão forma ao espetáculo permitindo a apresentação de quatro trabalhos realizados simultaneamente em quatro partes do mundo, mas seus realizadores jamais se esquecem do conteúdo.
       As imagens projetadas antes do início mostram as plateias dos quatro teatros onde vão acontecer os trabalhos: Bush Theatre em Londres, Harlem Stage em Nova Iorque, Market Theatre em Joanesburgo e nós no Teatro Anchieta em São Paulo. A seguir tem início o espetáculo com cenas interligadas: uma ao vivo e as outras três com as imagens projetadas no telão. Tudo acontece de forma harmoniosa e foram poucas as compreensíveis falhas de ocorridas no dia da estreia, falhas essas que já devem ter sido corrigidas.
       A iniciativa do nosso Pedro Granato do Pequeno Ato junto com Mwenya Kabwe (África do Sul), Ruthie Osterman (Reino Unido) e Sarah Elisabeth Charles (Estados Unidos) é digna de louvor tanto no aspecto experimental/tecnológico como na abordagem de temas tão importantes nos dias de hoje como situação de imigrantes/exilados, fundamentalismo, governos autoritários e ascensão assustadora do conservadorismo no mundo todo.


       A apresentação brasileira conta com a participação da multi artista Karina Buhr que tem forte presença cênica e do congolês Gloire Ilonde, radicado no Brasil desde 2011 e com muitas histórias para contar sobre seu exílio. Ao longo do espetáculo eles erguem um muro, símbolo funesto das fronteiras que dividem nosso planeta, que eu esperava que fosse derrubado ao final. Segundo o diretor essa era também sua vontade e só não acontece por problemas técnicos.
       São apenas cinco apresentações de 12 a 16 de fevereiro, sendo que duas já aconteceram no momento em que redijo estas linhas, portanto, você que aprecia e/ou faz e/ou estuda as artes cênicas não pode perder este evento que acontece no Teatro Anchieta, sempre às 17h somente até o próximo sábado.
       De que vale a tecnologia se ela não for veículo para valorizar o ser humano?

       14/02/2019
        

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

OSSADA



O grito de independência de uma atriz

        Dona de belos e imensos olhos verdes, Ester Laccava parece ter soltado todas as amarras para se lançar de corpo e alma e sem rede de proteção na criação de Ossada que, infelizmente, encerrou sua primeira temporada no domingo 03/02/2019 no SESC Pompeia.
        Segundo ela os textos da inglesa Maureen Lipman lhe chegaram às mãos por meio de uma amiga também inglesa. Ester escolheu cinco histórias, juntou textos da poetisa polonesa Wislawa Szymborska e de Laurie Anderson e com a colaboração de Elzemann Neves e João Wady Cury criou a dramaturgia deste perturbador espetáculo.
        Para a tradução cênica, Laccava contou com a colaboração das iluminadoras Mirella Brandi e Aline Santini que realmente são cocriadoras como bem atesta a ficha técnica constante no programa. A luz dialoga com a performance da atriz e com o público, criando ambiente digno de participar da Bienal de Praga, pois o trabalho dessas magas da iluminação funciona como uma verdadeira cenografia do espetáculo.
        Quanto à interpretação de Laccava... Poderosíssima e visceral desde sua entrada em cena andando e depois correndo no meio do público; passando pela tragédia de filhas em relação aos pais (uma em dúvida se desliga os aparelhos do pai agonizante em um hospital e outra liquidando o pai que a maltrata), ansiosa ao tentar acender um cigarro durante uma tormenta (a cena mais bela do espetáculo), dançando ao som de Stevie Wonder, patética como uma mulher bêbada fazendo speech durante a festa de casamento do filho e, finalmente, neutra em palestra no Museu de História Natural. Versatilidade e energia não faltam a essa atriz que se realiza também como criadora deste ousado Ossada.
        Ossada não pode se limitar às 16 apresentações realizadas no SESC Pompeia. É espetáculo para se expandir, para ser assistido e admirado por muita mais gente e assim cumprir seu papel admirável como um dos trabalhos mais criativos apresentados nos palcos paulistanos nos últimos anos. Muito moderno sem ser modernoso, nem pretensioso. Contemporâneo, sem ser inacessível. Belíssimo e comovente, além de fazer refletir sobre o tempo presente. É ver para crer.

        04/02/2019

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A PONTE



        Texto bem comportado do dramaturgo canadense Daniel MacIvor, do qual já vimos os menos convencionais In On It, A Primeira Vista e Cine Monstro. Neste caso as personagens são bem definidas e a história tem ação linear com perfeita definição de tempo e lugar, algo explicitado pela direção em uma tela de TV que faz parte do espaço cênico.
        A trama principal é a relação de três irmãs que se encontram devido à eminente morte da mãe. Há uma subtrama que trata da relação de uma delas com a filha que teve de abandonar quando nasceu por imposição da mãe e o bebê foi adotado por outra família. Os modos de ser e viver muito distintos das três irmãs movem os conflitos surgidos durante o tempo em que se passa a ação. A ponte do título fica em lugar “paradisíaco” imaginado por elas (a Moscou das três irmãs de Tchekhov) onde fizeram piquenique quando eram jovens. Nesse local se passa a última cena da peça; todas as outras cenas acontecem na cozinha da casa, toda decorada em vermelho, o que dá belo efeito para o cenário assinado pelo diretor Adriano Guimarães e Ismael Monticelli. Seria a cor vermelha opção da direção ou faz parte das rubricas do autor.

Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor

        Bel Kowarick, envelhecida para o papel da freira Tereza, atua de forma natural e contida ficando a explosão histriônica e até cômica para a personagem Agnes, muito bem defendida por Debora Lamm. Maria Flor tem voz pequena e estridente, mas se sai bem como a caçula e “estranha” Louise.
        A peça em dois atos tem duração de 120 minutos. Cada ato tem seis cenas e cada personagem tem um longo monólogo que é dirigido diretamente ao público com as luzes da plateia acesas.
        Trata-se de espetáculo bastante delicado dirigido sobriamente por Adriano Guimarães (desta vez sem seu irmão e parceiro de tantos outros espetáculos) e focado, sabiamente, no trabalho das três atrizes.
        Enquanto algumas montagens respondem com a mesma moeda, tem-se notado outra tendência que é enfrentar estes tempos agressivos e truculentos com poesia e delicadeza,  haja vista este espetáculo e também O Jardim das Cerejeiras, Sob o Céu de Rubem Braga, Quando ismália Enlouqueceu e Meu Quintal É Maior do Que o Mundo para ficar apenas em trabalhos que estrearam este ano nos palcos paulistanos. Tudo vale a pena, quando a “arte” não é pequena, poderia dizer Fernando Pessoa.

        A PONTE está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil às sextas, sábados e segundas ás 20h e aos domingos ás 18h até 25/03. Sessões extras em 21 e 28 de fevereiro e 07 de março (quintas, 20h).

           Fotos de Flávia Canavarro.

        02/02/2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO


 Foto de Gal Oppido

       Em tempos tão truculentos é um verdadeiro alento usufruir dos momentos de delicadeza proporcionados pelo espetáculo que estreou ontem para convidados no Centro Cultural FIESP.
       Uma antiga paixão da atriz Cássia Kis pela obra do poeta Manoel de Barros (1916-2014) uniu-se ao talento do encenador Ulysses Cruz para realizar esse trabalho que é muito mais que um recital de poesias. Contando com a extraordinária intervenção musical de Gilberto Rodrigues, a criativa iluminação de Nicolas Caratori, os adereços de Luís Rossi e cenário e figurinos do diretor, o resultado é de beleza tão singela que emociona, provando mais uma vez como é raro atingir o simples.
       Tendo sua carreira mais voltada para a televisão, Cássia Kis é atriz pouco presente nos palcos paulistanos. Seu último trabalho em São Paulo foi em 2009 com O Zoológico de Vidro (no Brasil mais conhecido como À Margem da Vida) de Tennessee Williams também com direção de Ulysses Cruz, onde ela interpretava a emblemática personagem de Amanda Wingfield. É incrível a paixão com que ela se entrega à interpretação da eterna criança que foi Manoel de Barros. Vestindo um folgado pijama ela percorre o palco carregando adereços, interpretando os poemas e até se arriscando em um acompanhamento musical tocando marimba.
       Tudo funciona nessa hora de puro encantamento que dura o espetáculo, onde o teatro prova mais uma vez que é o templo da esperança e da utopia.

       MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO será apresentado apenas nos dias 1º, 2, 3, 8, 9, 10, 15, 16 e 17 de fevereiro (sexta e sábado ás 20h e domingo às 19h). Ingressos gratuitos. ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL.

       01/02/2019