domingo, 16 de julho de 2017

PESCADORA DE ILUSÃO

Carol Badra e Mel Lisboa. Foto de Deborah Schcolnic

        Por conta de levar a netinha Laura tenho tido contato com o teatro infantil que se faz na cidade e como já comentei em outra matéria é surpreendente a maturidade e a qualidade das produções infantis, muitas vezes bem superiores daquelas praticadas pelo teatro adulto.
        Ontem foi a vez de Pescadora de Ilusão, sugestiva adaptação de GpeteanH do livro A Mulher Que Matou os Peixes de Clarice Lispector. Trazer o universo e a lembrança dessa grande escritora para as crianças é extremamente louvável e o adaptador, que também dirige o espetáculo, o fez com muita delicadeza e cuidado. Momentos hilários como a relação da escritora com o cachorro e os patos cantores caipiras são pontuados com momentos sérios e tristes como a morte da macaquinha Lizete. A montagem dosa muito bem esses elementos fazendo as crianças se divertirem muito, mas também tomarem contato com despedidas e mortes.
        As atrizes-palhaças Carol Badra e Mel Lisboa se revezam nos papeis de Branco e Augusto narrando com muita graça e espírito os envolvimentos da pescadora/escritora com os animais: baratas, lagartixas, gatos, cachorros, jacarés, coelhos, patos e a graciosa Lizete desfilam pelo palco e pela plateia para a alegria das crianças e dos adultos presentes.
        A tão decantada efemeridade do teatro torna-se muito palpável em espetáculo com crianças presentes. Elas são em geral desinibidas e participativas, dando palpites e até subindo ao palco fazendo cada apresentação ser absolutamente única. Na sessão a que assisti dois garotos subiram abruptamente ao palco durante a apresentação dos patos. Um incrédulo pai corria atrás do seu garoto que fugia dele lhe dando verdadeiro drible. A plateia acompanhava a inesperada ação torcendo para que o pai não alcançasse o pequeno: Que maldade! Enquanto isso as atrizes contornavam a situação improvisando algumas falas. Do modo como aconteceu essa cena não se repetirá jamais, por isso, viva o teatro, arte única!
        Há muitos momentos deliciosos na peça como o sapateado dos coelhos e o quase balé inicial debaixo da chuva. Tudo pontuado pela direção de arte de Marco Lima, pela música de Pedro Paulo Bogossian e pelo talento das atrizes.
        Nas últimas cenas as crianças são convidadas a julgar se condenam ou absolvem a mulher que matou os peixes, devolvendo ou não seu coração. E a noção de justiça é mais um elemento a ser incorporado ao universo infantil.
        PESCADORA DE ILUSÃO é exemplo de bom teatro infantil e deve ser prestigiado pelos pais em busca de divertimento saudável, educativo e formador de público para os seus rebentos.
        Em cartaz aos sábados e domingos às 16h no Teatro Sérgio Cardoso até 30 de julho.

Carol Badra, Guto Togniazzolo, eu, Mel Lisboa e GpeteanH, ao final do espetáculo.


16/07/2017

terça-feira, 11 de julho de 2017

HOTEL MARIANA



 Triste tempo presente
Em que falar de amor e flor
É esquecer que tanta gente
Tá sofrendo tanta dor

(Augusto Boal e G. Guarnieri em Arena Conta Zumbi, 
a partir do poema Aos Que Vão Nascer de B. Brecht)


        Importa escrever sobre encenação, dramaturgia, interpretação, cenografia e iluminação diante da tragédia ocorrida em Mariana em novembro de 2015? Tragédia esta anunciada e decorrente do descaso de empresas e autoridades (in) competentes cujos únicos objetivos são a ganância e o lucro.
        Citando mais uma vez Boal/Guarnieri/Brecht: “A voz da minha gente se levantou e a minha voz junto com a dela” Como cidadãos (elenco e público), damos nosso grito de indignação com os fatos apresentados na peça, pois sabemos que “nossas vozes não podem muito, mas gritar nós bem gritamos; temos certeza que os donos da Samarca e as autoridades ficariam mais contentes se não ouvissem a nossa voz”.
        Só pelo tema tratado a peça causaria emoção e indignação mesmo que não fosse boa, mas se trata de uma das melhores montagens desta temporada de 2017 e como pessoa de teatro me restrinjo ao fato teatral, deixando o assunto em si para a mídia, sociólogos, antropólogos e historiadores. Fica a ressalva que isso não pode cair no esquecimento (como parece ser o caso da mídia) porque lembrar é resistir e vai aí talvez o maior mérito desta encenação idealizada por Munir Pedrosa.
        Seis dias após o acontecimento Pedrosa viajou para o local da tragédia e recolheu relatos de pessoas de Bento Rodrigues e Paracatu, dois locais afetados pelo tsunami de lama e rejeitos sólidos.


         De posse desse material foi organizando junto ao diretor Herbert Bianchi e ao elenco a dramaturgia do que viria a ser Hotel Mariana. A encenação usa a técnica Verbatim que já havia sido empregada por Zé Henrique de Paula em 2015 no espetáculo Ao Pé do Ouvido, no qual Bianchi participou como ator e dramaturgo. Segundo o programa da peça “Verbatim é um tipo de teatro documentário que reproduz no palco as palavras exatas de depoimentos reais sobre um determinado tema ou evento”. A técnica se encaixa como uma luva na proposta de Hotel Mariana. Munidos de fones de ouvido onde escutam o relato original os atores reproduzem não só as falas, mas a emoção do entrevistado.
        A organização cênica (cenário e disposição dos atores) de Herbert Bianchi é exemplar e muito bela, tendo um grande aliado no desenho de luz criado por Rodrigo Caetano.
        A atuação do elenco é pungente e vai ser muito difícil esquecer a expressão de dor estampada na face de Angela Barros, a canção entoada pelo velhinho representado por Rodrigo Caetano (que só fui reconhecer quando interpretou o prefeito da cidade) e a figura cômica e comovente do “herói” Arnaldo interpretado por Munir Pedrosa. Não disponho da relação ator/personagem do restante do elenco, mas todos sem exceção estão perfeitos em suas interpretações.




        Hotel Mariana é espetáculo impactante que merece retorno ao cartaz (a última apresentação foi em 10/07/2017 na Estação Satyros) por ser belíssimo e mais que isso, NECESSÁRIO E URGENTE!

11/07/2017



sexta-feira, 7 de julho de 2017

PATÉTICA


        No dia 13/10/1975 foi feita no Teatro Paiol uma leitura dramática da peça Concerto nº 1 Para Piano e Orquestra de João Ribeiro Chaves Neto, dirigida por Sérgio Mamberti. No programa o autor comenta sobre suas habilidades na arte de escrever e dá uma relação das peças já escritas e duas que estavam em preparação. Exatos doze dias depois, seu cunhado Wladimir Herzog foi covarde e brutalmente assassinado pelos órgãos repressores da famigerada ditadura militar nas dependências do DOI-Codi. O fato fez o dramaturgo mudar seus planos e escrever em regime de urgência uma peça que denunciasse o ocorrido. Assim surgia Patética que ganhou o Prêmio do Serviço Nacional de Teatro em 1977. Proibido o prêmio, a peça só foi editada em 1978 e só teve a liberação para montagem em 1980, quando foi dirigida por Celso Nunes e provocou fortes comoções em suas apresentações no Auditório Augusta.  Na ocasião, Sábato Magaldi escreveu “Ver Patética importa em emocionar-se e refletir maduramente sobre a História contemporânea do país”.


        “São Nuvens. São nuvens que passam”, comenta o personagem Hans, referindo-se aos tempos maus que a família vinha atravessando com a perseguição aos judeus durante a 2ª guerra mundial. As nuvens negras voltaram a assombrar a família em 1975 com a morte de Wlado.
        Passaram-se 42 anos. Estamos em 2017 e as nuvens insistem em não passar neste Brasil corroído pela corrupção e pelo ódio. Em bom momento a militante Companhia Estável de Teatro optou por uma nova montagem de Patética, porque mudam as moscas, mas...
        A encenação de Nei Gomes é límpida e reforça o lado circense da ação. O início da peça com a apresentação dos artistas do circo é alegre e movimentada. Quando Bolota, o palhaço líder do grupo anuncia a representação de uma peça sobre o assassinato de Glauco Horowitz, diga-se Wladimir Herzog, as nuvens começam a surgir no horizonte mostrando que o que está por vir não é nada engraçado. Acompanha-se a mudança de fisionomia do público à medida que a ação avança.
        Os cinco atores desdobram-se na interpretação dos artistas do circo e das personagens que retratam Wlado, seus pais, sua esposa, o cunhado (que é o próprio dramaturgo) e o torturador. Juliana Liegel faz uma fogosa Joana da Criméia, tornando-se dolorosamente mãe quando interpreta Ana. Paula Cortezia se sai muito bem como Iara Rosa, a gostosa da companhia, e adquire a gravidade necessária ao fazer Clara, a esposa. Osvaldo Pinheiro faz um doce pai, enquanto é um gutural e primitivo Valter Rosado do circo. Sérgio Zanck não tem muitas oportunidades como participante da companhia, mas tem seus bons momentos como o cunhado e como o torturador, é ele também que anuncia as cenas, no melhor distanciamento brechtiano. Por último, cabe destacar o belo e emocionado trabalho de Miriele Alvarenga como o palhaço Bolota que interpreta Glauco. O sotaque “portinhol” cai bem em Bolota, mas soa estranho em Glauco.
        O comentário musical dirigido por Reinaldo Sanches comenta a ação de maneira perfeita.
        Além de ser uma peça que ainda emociona e faz refletir sobre o Brasil de hoje, a montagem da Companhia Estável relembra um período negro do país (Lembrar é resistir) e resgata o nome de João Ribeiro Chaves Neto, promessa de grande dramaturgo com suas duas peças encenadas (Concerto em 1976 e Patética em 1980), mas que desapareceu dos palcos depois disso. Em tempo: o nome das peças que estavam em preparação em 1975 eram Sabalha Sociedade Anônima e As Mal Traçadas Linhas.
       
        PATÉTICA está em cartaz em pavilhão na área externa da Oficina Cultural Oswald de Andrade até 22 de julho às quintas e sextas às 20h e aos sábados às 18h. Ingressos gratuitos a serem retirados uma hora antes da apresentação.

Wladimir Herzog (1937-1975)

07/07/2017


domingo, 2 de julho de 2017

O DRAGÃO DE FOGO



O TEATRO INFANTIL VAI MUITO BEM, OBRIGADO

        Quando eu era criança havia muito poucos espetáculos feitos especialmente para o público infantil. Meus pais tentavam preencher essa lacuna contentando-se em nos levar a shows de mágica ou de patinação no gelo (Holyday on Ice). Íamos também ao circo, onde além dos números tipicamente circenses (acrobacias, malabarismo e palhaços), se podia assistir a peças de circo teatro, nem sempre interessantes e adequadas para um pequeno de cinco anos.
        Há cerca de 35 anos voltei a assistir a espetáculos infantis para levar minha filha Mariana. Na maioria das vezes eram apresentações constrangedoramente fracas, quer no conteúdo (mensagens edificantes), quer na forma (produções baratas e mal feitas), tratando as crianças como débeis mentais.
        Agora volto a frequentar o teatro infantil para levar minha netinha Laura que está com três anos e meio e é surpreendente a qualidade das montagens: dramaturgias bem elaboradas e traduções cênicas que acompanham o seu nível de qualidade, pensando no ser inteligente que está sentado na plateia, seja criança ou adulto. Os cuidados da produção aparecem nos cenários, trilha sonora, iluminação e nos atores muito bem preparados tanto na interpretação como na interação com a criançada.
        Restrinjo-me apenas aos trabalhos que assisti este ano para exemplificar o que escrevo acima: A Gaiola (texto de Adriana Falcão e direção de Duda Maia), A Princesinha Medrosa (texto de Carolina Moreyra e direção de Kiko Marques), Kazuki e a Misteriosa Naomi (de Marcus Cardeliquio e direção de Heitor Goldflus) e agora O Dragão de Fogo (de Cássio Pires e direção de Marcelo Lazzaratto). Todos excelentes.
        Cássio Pires baseou-se em conto japonês para contar a história do garoto Shun-Li que deve enfrentar perigoso dragão que está ameaçando a sua aldeia.
        O Dragão de Fogo usa pouquíssimos adereços cênicos (leques, lanterna, papel e uma bandeira) e palco nu apenas com grande tapete branco, além dos sugestivos figurinos de Fauze Haten. Lazzaratto aposta na imaginação do público contando com isso com a excelência do trio de atores. Esio Magalhães com sua arte de palhaço interpreta várias personagens atingindo o auge quando faz o rato Shun-Lé (Laura, literalmente, rolou de rir na poltrona). Eduardo Okamoto exibe sua sofisticada expressão corporal saindo-se muito bem em sua primeira incursão no teatro infantil. A surpreendente Luciana Mizutani exibe sua versatilidade tanto na delicada (e louca!) borboleta como no vigoroso e ameaçador dragão.


        Uma criança que assiste a espetáculo desse nível que trata o amor como a coisa mais forte do mundo e que comenta de maneira sutil que é preciso estar atento e forte porque o perigo está sempre à nossa porta só pode sair fortalecida do teatro, além de querer continuar a ir ao teatro. Quer formação de público mais eficiente?
        A peça saiu do cartaz do Teatro Anchieta no sábado, dia 01/07, mas deve cumprir nova temporada no Teatro Cacilda Becker. Atentos, pois!



02/07/2017
       


quinta-feira, 22 de junho de 2017

TOM NA FAZENDA




        Cerca de 448 espectadores  foram as privilegiadas testemunhas da montagem mais impactante apresentada  nos palcos paulistanos na atual temporada. Trata-se de Tom na Fazenda (Tom à la Farme), peça do canadense Michel Marc Bouchard  apresentada por apenas duas noites no Itaú Cultural e que faz grave denúncia à homofobia presente não só na sociedade em geral, mas também e, principalmente, nas relações familiares. Mais uma produção carioca de alto nível que chega a São Paulo.
        Em 2013 Xavier Dolan filmou a peça. O filme foi apresentado no mesmo ano na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas inexplicavelmente nunca chegou ao circuito comercial.
        A montagem idealizada por Armando Babaioff que também traduziu o texto e interpreta a personagem título, foi dirigida com brilho por Rodrigo Portella que coloca os atores em cenário (de Aurora Campos) que vai aos poucos se deteriorando e se emporcalhando, assim como as personagens que, de mentira em mentira, se enveredam em trilha que só poderia desembocar na tragédia final.
        A montagem tem cenas brilhantes como aquela magnificamente coreografada da luta dos dois homens semi despidos com forte teor erótico e que remete ao filme Mulheres Apaixonadas (1969) de Ken Russell onde Oliver Reed e Alan Bates realizavam ação semelhante. Kelzy Ecard também tem momentos inesquecíveis como quando descobre a verdade sobre o filho falecido.



        Armando Babaioff e Gustavo Vaz se entregam de maneira visceral a suas personagens realizando interpretações dignas de serem lembradas para sempre. E a participação de Camila Nhary é bastante significativa trazendo um pouco de humor ao denso drama apresentado.


        Poucas vezes se viu público tão envolvido e impactado com uma peça: após breve silêncio ao apagar das luzes, houve verdadeira ovação por parte do mesmo.
        Atenção produtores paulistanos: TOM NA FAZENDA precisa voltar a São Paulo para desfrutar do sucesso que com certeza obterá com uma temporada regular.
        Por enquanto fica aquele gostinho de “De quem viu, viu!”.



22/06/2017


sábado, 17 de junho de 2017

MIL MULHERES E UMA NOITE


       


        Em uma noite me referindo ao espetáculo Madame Satã escrevi “Quando, porém, a chama brilha tenho que agradecer ao universo por amar o teatro e insistir em frequentá-lo.”. Ainda não refeito dessa sensação eis que a chama voltou a brilhar na noite seguinte ao assistir a Mil Mulheres e Uma Noite, primeira incursão do grupo As Meninas do Conto no teatro adulto.
        As Meninas, que são exímias contadoras de histórias, tomaram como ponto de partida a mais célebre de suas colegas: nada mais, nada menos que Sheerazade!   Com a intenção de denunciar o mundo opressivo vivido por muitas mulheres, uniram-se a Cassiano Sydow Quilici para criar em processo colaborativo a dramaturgia que contempla não só trechos das mil e uma noites, mas também relatos contemporâneos sobre violência e abusos sofridos pelo sexo feminino. O resultado não poderia ser mais coerente.
        Diga-se que o elenco, só de mulheres, teve forte apoio masculino, não só por parte do dramaturgo, mas da sensível direção de Eric Nowinski. O encenador concebeu espetáculo itinerante que explora de maneira surpreendente os espaços do belo edifício que abriga a Oficina Cultural Oswald Andrade, criando cenas de rara beleza.
        As Meninas são excelentes atrizes e cada uma delas brilha em seu momento solo, mas não há como não destacar aquele de Norma Gabriel que é, sem exagero, arrebatador! Norma incorpora uma mulher que após vida relativamente boa envolve-se com belo jovem e por conta de incidente involuntário é torturada pelo companheiro e seus escravos transformando-se em verdadeira múmia viva. Gestos precisos, voz suave ou forte dependendo da situação, tornam a cena digna de qualquer antologia de interpretação. A atriz foi aplaudida em cena aberta!


        A direção musical e preparação vocal das atrizes é responsabilidade da nossa Midas que transforma em ouro todo trabalho que toca: Fernanda Maia. O elenco interpreta muito bem as canções coreografando-as (preparação corporal de Letícia Doreto) de maneira bela e harmoniosa. 
        Mil Mulheres e Uma Noite é longo na medida certa. Nas quase duas horas de duração percorremos os espaços, ora rindo, como na cena em que a cozinheira do palácio conta as razões pelas quais o sultão Sharyar quer assassinar todas as mulheres do seu sultanato, ora indignados, como quando somos confrontados com notícias de violência contra a mulher, e sempre encantados com a interpretação das atrizes.
        O espetáculo nos faz refletir sobre o fato que na maioria das vezes mulheres são molestadas por homens que só estão por aqui porque foram gerados e paridos por uma mulher. Assim rasteja a humanidade!
        MIL MULHERES E UMA NOITE está em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade às sextas às 21h e aos sábados às 20h até 30/06. O ingresso é gratuito e deve ser retirado uma hora antes da apresentação.

17/06/2017


sexta-feira, 16 de junho de 2017

MADAME SATÃ


Um espetáculo típico da Lapa carioca com sotaque mineiro.

        A arte tem que me surpreender, ela tem que tirar meus pés do chão! É por isso que cada vez que eu me dirijo a um teatro vou com a esperança de assistir ao melhor espetáculo da minha vida. Muitas vezes o que vejo são trabalhos corretos, bem feitos, mas sem aquela fagulha que me provoque, muitas outras vezes assisto a encenações ruins, sem brilho que me desenergizam e que fazem eu prometer para mim mesmo que vou ficar um tempo sem ir ao teatro. Quando, porém, a chama brilha tenho que agradecer ao universo por amar o teatro e insistir em frequentá-lo.
        E na última noite a chama brilhou graças ao Grupo dos Dez de Minas Gerais que está apresentando Madame Satã na Caixa Cultural.
        O espetáculo começa na área externa da Caixa com roda de samba onde as prostitutas da peça e os moradores de rua do entorno são as principais atrações
        A seguir o público é direcionado para o espaço cênico onde é recepcionado por uma bela e sorridente negra de seios fartos e pelas prostitutas do cabaré. Cantando Flor, Linda Flor (curiosamente a canção tem o mesmo título daquela cantada em Romeu e Julieta, criação antológica do também mineiro Grupo Galpão) e em provocante ambiente vermelho a peça já ganha o espectador.



      João Francisco dos Santos (1900-1976), mais tarde conhecido como Madame Satã, tinha tudo para ser perseguido: negro, pobre, nordestino e homossexual; a peça faz virulenta denúncia em relação ao preconceito e a intolerância usando a vida dele como mote e por meio de belas canções compostas especialmente para ela por vários compositores, muitos deles pertencentes ao grupo.
        João das Neves e Rodrigo Jerônimo fazem a direção da parte interpretativa e Bia Nogueira dirige musicalmente os ótimos atores/cantores/instrumentistas.
        O recurso dramatúrgico usado para a atuação do protagonista foi dividi-la por três atores com portes físicos bastante distintos: Rodrigo Ferrari é muito alto, viril e tem pinta de galã, Denilson Tourinho é pequenino e muito sensual e Evandro Nunes tem aparência frágil e muito humana. Todos em excelentes interpretações, mostram as diversas faces dessa mítica figura que foi Madame Satã.


        Tudo funciona neste contagiante espetáculo: cenário (despojado, mas muito funcional), os deliciosos figurinos de Cícero Miranda e Débora Neves (também responsáveis pelo cenário), a iluminação de João das Neves e esse maravilhoso elenco que nos deixa com gosto de “quero mais” assim que as luzes se apagam e o público aplaude entusiasticamente.
        Toda essa beleza mereceu apenas oito apresentações em sua temporada relâmpago em São Paulo. Cinco já se foram, mas ainda restam três: sexta (16), sábado (17) e domingo (18) sempre às 19h15 na Caixa Cultural na Praça da Sé. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados no dia da apresentação a partir das 9h. Não deixe para a última hora, porque tem muita gente voltando para  casa com água na boca sem conseguir entrar. CORRA QUE AINDA DÁ TEMPO!


Em tempo: na noite de quinta feira a sessão contou com uma atração extra: a presença na plateia de João Silvério Trevisan, autor do emblemático Devassos no Paraíso.

16/06/2017
       

        

quarta-feira, 14 de junho de 2017

FIT RIO PRETO 2017

FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO (FIT) DE RIO PRETO 2017


        É grande a expectativa em torno da edição deste ano do FIT RIO PRETO que se realiza de 06 a 15 de julho. Depois de ser (des)organizado  e desmoralizado por vários anos pela gestão anterior e atingir o fundo do poço no último ano, eis que ressurge tal qual Fênix, agora sob a batuta do competente Jorge Vermelho e de novo com o patrocínio do Sesc, que nos últimos anos havia se retirado do evento por razões facilmente imagináveis.
        A programação é poderosa: vários títulos internacionais aparentemente muito atrativos, espetáculos nacionais adultos e para crianças e jovens e espaço para os trabalhos dos grupos da cidade em “Cena Rio Preto). É de tirar o fôlego!
        Da programação “espetáculos nacionais adultos” fazem parte oito montagens já testadas com muito sucesso de público e de crítica em São Paulo, além de SUASSUNA O AUTO DO REINO DO SOL, espetáculo de abertura apresentado pela Cia. Barca dos Corações Partidos que encantou São Paulo em 2016 com AUÊ. Publiquei matérias sobre elas e faço aqui uma compilação das mesmas para quem se interessar.

GRITOS


        Difícil de explicar e de definir, mas muito fácil de elogiar “Gritos”, novo espetáculo da “Companhia Dos à Deux” formada por André Curti e Artur Luanda Ribeiro, ora em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. A tênue e bela iluminação direciona o olhar do espectador para aquelas figuras que ilustram os três poemas gestuais (é assim que o grupo define as cenas) que tratam de amor, preconceito e guerra. A penumbra e até a escuridão têm função estética, revelando um teatro “noir”, bastante diferente de certo tipo praticado em nossos palcos. Os dois atores auxiliados por um contrarregra manipulam bonecos e máscaras criando surpreendente efeito visual. A mais pungente é a última cena onde mãe refugiada de guerra perde seu filho durante a fuga. Lindíssimo na forma e tocante no conteúdo, GRITOS merece ser visto

IRACEMA VIA IRACEMA


        Quantas Iracemas viajam naquele ônibus que tem ponto na Praça Roosevelt? Quantas daquela Iracema você já encontrou e até desprezou pelas ruas da cidade? Ela mesma pergunta “Perdeu alguém parecido comigo?”.
        A pesquisa conjunta das companhias Agrupamento Andar 7 e Trupe Sinhá Zózima resultou nesse espetáculo que tem forte interpretação de Luciana Ramin e direção de Anderson Maurício a partir do texto de Suzy Lins de Almeida.
        A encenação é composta de vários flashes da vida dessa mulher marginalizada e semi analfabeta, mas dona de muita coragem e perspicácia para enfrentar os inimigos que encontra pela sua sofrida vida. Apesar de se ressentir de mais forte amarração entre esses flashes, a peça flui de maneira vigorosa em função do trabalho da atriz e dos detalhes da encenação: o ônibus como personagem, os adereços de cena, a iluminação cenográfica de Tomate Saraiva, os figurinos e a trilha sonora com canções que emolduram os vários momentos da vida de Iracema, incluindo até uma bonita versão de India, cantada pela própria atriz, na cena em que a personagem vai a um programa de rádio.
        Luciana Ramin tem porte e talento e entrega-se com muita coragem à sua personagem, despindo-se de qualquer pudor para personificar a sua Iracema. A atriz sabe interagir com o público, além de contornar muito bem certas interferências de algum espectador mais afoito.
        Desta vez o encenador Anderson Maurício optou por manter o ônibus da Sinhá Zózima parado durante a apresentação. A meu ver, solução cênica correta, pois a interação com o cenário externo torna-se mais forte como as investidas de Iracema junto aos passantes e também com o surpreendente momento final.

TRILOGIA ABNEGAÇÃO

ABNEGAÇÃO 1 – UM ESPETÁCULO ESTRANHO


        Desde seu título esta peça nos distancia de qualquer raciocínio lógico. Abnegação? As cinco personagens não têm absolutamente nada de abnegadas e nem o gesto suicida de uma delas pode ser assim chamado.
        O texto instigante de Alexandre Dal Farra beira o absurdo ao não esclarecer o que está acontecendo com aquelas pessoas pertencentes a um determinado grupo (partido político? empresa? alguma confraria?) que se digladiam em torno de fatos que o público desconhece até o final do espetáculo. O já citado suicídio do líder no final da primeira parte vai mover toda a ação da segunda, onde os “sobreviventes” que se aproveitaram da situação remoem os seus remorsos.
        O uso de dois praticáveis (que remete à solução cenográfica usada em Les Éphémères do grupo francês Théâtre du Soleil) é bastante interessante, com a ressalva que a troca de cenário no praticável à direita da plateia desvia a atenção  do público do que está acontecendo em cena.
        O grande trunfo do espetáculo é o elenco e nota-se que os diretores (Dal Farra e Clayton Mariano) concentraram suas atenções nas interpretações cheias de silêncios e gestos enigmáticos. Transitando por frases soltas e ações inconsistentes (pelo menos para o público) eles atuam com energia e verdade passando uma verossimilhança daquilo que é, senão inverossímil, pelo menos, racionalmente incompreensível. Todos estão ótimos, mas é necessário destacar o vigoroso trabalho de Vitor Vieira, que já havia nos brindado em 2012 com uma grande interpretação em Mateus 10.
        Este corajoso trabalho da companhia Tablado de Arruar com toda sua estranheza, surpreende e faz refletir sobre a situação do Brasil atual. “Surpreender” é sinônimo de bom teatro e “refletir” é sinônimo de um salutar engajamento, prova que o Tablado de Arruar não está brincando em serviço.
        O espetáculo tem 2h10 de duração e talvez merecesse alguns cortes na primeira parte como também no número de charutos fumados por André Capuano!

ABNEGAÇÃO 2
UM SOCO NO ESTÔMAGO!


        Assisti a Abnegação 2 pela primeira vez em um dia particularmente infeliz para o público (um sério problema na linha azul do metrô por volta das 19h deixou toda a cidade congestionada) e também para o grupo Tablado de Arruar  (um refletor foi danificado e todas as cenas de fundo foram prejudicadas). Isso aconteceu no dia 30 de abril de 2015 na Oficina Cultural Oswald de Andrade e quando não acontece a esperada comunhão entre espectador e ator algo sai fora dos eixos. Saí do espetáculo sem confirmar as boas expectativas que tinha em relação a esse novo trabalho de Alexandre Dal Farra (Abnegação 1 foi para mim um dos melhores textos brasileiros da temporada de 2014), mas sentindo que ele tinha potencial para dar bons resultados.
        Na última semana revi o espetáculo agora no simpático Armazém Cultural e o que vi foi, no meu ponto de vista, uma outra peça.
        Abnegação 2 tem o subtítulo de O Começo do Fim e declara-se inspirada no caso do assassinato em 2002 de Celso Daniel que foi prefeito de Santo André. É dividida em dois planos: a vida pública e a vida privada (as cenas deste plano é que ficaram prejudicadas na primeira vez a que assisti a montagem). Tudo é corrupção, conchavo político e muita libertinagem (drogas, traições públicas e privadas). Enquanto as podridões do plano público são apresentadas em tom histérico, aquelas do plano privado são ditas à meia voz com os atores semiestáticos, mas em ambas fica patente a sordidez de que é capaz o ser humano em busca de poder e privilégios. A peça é um soco no estômago e não deixa pedra sobre pedra. O ser humano é tratado como mera mercadoria a base de troca tanto no sexo como na aquisição de valores e na luta pelo poder. Com a situação política atual creio que já estamos não mais no começo, mas a meio caminho do fim.
        Há quem diga que o espetáculo é uma virulenta crítica ao PT, o que não deixa de ser verdade, mas a sua abrangência é muito mais ampla: as intrigas palacianas apresentadas fazem parte de toda a política brasileira.
        Os diretores Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano optaram por uma montagem literalmente suja: Jorge (a personagem que vai ser assassinada) cobre-se de cerveja para depois bêbado ser “lavado” com detergente; José (um dos articuladores do crime) banha-se em cocaína e por aí a fora. Tudo é muito exteriorizado nas cenas do plano público levando os espectadores a um proposital incômodo enquanto a pior forma de sedução é mostrada nas cenas do plano privado, o que também não deixa de provocar um mal estar. Neste plano os dois papeis femininos têm alta importância, algo que havia me escapado na primeira vez e as atrizes Ligia Oliveira e Alexandra Tavares desempenham seus papeis com garra e coragem. Vinicius Meloni sai-se bem, principalmente, no seu monólogo final, mas sua dicção em certos momentos dificulta a compreensão do texto. André Capuano é um ótimo ator, mas sua interpretação over over para uma personagem que já é over perde impacto no decorrer da ação. Vitor Vieira brilha no papel de Jorge; ele é um ator de forte presença cênica e suas atuações junto ao Tablado de Arruar tornam-se cada vez mais poderosas. Sua interpretação em Abnegação 2 vem juntar-se a outros notáveis trabalhos masculinos deste ano : Chico Carvalho (Consertando Frank), Daniel Costa (Urinal), Danilo Grangheia (Krum), Eduardo Mossri (Cartas Libanesas) Gustavo Gasparani (Ricardo III), Jarbas Homem de Mello (Chaplin) e Marcos Breda (Oleanna).
        Segundo o dicionário “abnegação” significa “desinteresse, renúncia, desprendimento, devotamento”. Esta aí mais uma ironia do dramaturgo ao dar esse título à peça.
        Abnegação 2 junta-se a Abnegação 1 e a Os Collegas (peça do ano 2003 da Bendita Trupe injustamente esquecida) na denúncia das intrigas e sujeiras da política brasileira (curiosamente um tema pouco tratado pelos nossos dramaturgos) e precisa ser vista por quem acredita que tomando conhecimento e refletindo sobre o assunto possa contribuir para mudar esse lamentável estado de coisas.
        O fôlego de Alexandre Dal Farra é bastante forte e como ainda há muita sujeira a ser mostrada ele já tem Abnegação 3 em preparo.

ABNEGAÇÃO III 
CENAS DA VIDA PRIVADA DE UM PAÍS À BEIRA DO CAOS.


        Em Abnegação II, as cenas dividiam-se em públicas (extremamente dinâmicas) e privadas (semi-estáticas). Nesta Abnegação III que trata da vida privada, os encenadores Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra resolveram radicalizar optando por deixar os atores sentados com os braços estendidos ao longo do corpo, dando vida às falas das personagens apenas com suas expressões faciais e vocais. Pouquíssimas vezes e em momentos necessários para o desenvolvimento da ação eles se debruçam para frente, ficam em pé ou caem no chão. Há de se convir que tal solução cênica poderia resultar em espetáculo, no mínimo cansativo, mas os diretores, sabedores da força e do talento do seu elenco, apostaram e o resultado é surpreendentemente dinâmico e envolvente. Um emblemático pano vermelho cobre todo o fundo do palco.
        O texto de Alexandre Dal Farra, dividido em nove cenas, visita cinco famílias de várias classes econômico-sociais todas elas envolvidas, de alguma maneira, com o PT. A partir da 6ª cena as quatro primeiras voltam a aparecer em momentos diferentes, ficando a quinta (Na casa de um oficial) como um divisor entre os dois tempos ocorridos. Diálogos ágeis entremeados com longas falas (“bifões”, como se diz, na gíria teatral) dão vigoroso painel da situação do Brasil no momento em que se preconizava a agonia do PT (2014). Curiosamente, se na leitura do texto os “bifões” chegavam a incomodar, na encenação eles funcionam muito bem em função da maneira como são interpretados pelos atores.
        Poucas vezes temos a oportunidade de ver em nossos palcos elenco tão coeso e talentoso. Os seis atores, utilizando-se quase que apenas de seus recursos faciais e vocais passam para o público toda a emoção e o ridículo de certas situações. A ironia presente é responsável por risos nervosos e também irônicos do público.
        Ligia Oliveira tem seu melhor momento como a patética Adriana, empregada de uma família de herdeiros ricos. É difícil acreditar que seja a mesma pessoa que encarnou a espevitada perua de peruca longa em Abnegação II.
        Antonio Salvador entra para a trilogia apenas nesta última e empresta todo seu talento para as várias personagens que interpreta.
        André Capuano despoja-se das interpretações exageradas das duas primeiras “abnegações” e usa máscaras variadas para dar vida a seus personagens.
        Alexandra Tavares, parecendo muito mais jovem, com seu cabelo cortado rente, tem dicção clara e consegue parecer uma menina ou uma velha (a mãe de uma das cenas) com igual desenvoltura.
        Amanda Lyra é um vulcão em cena, sendo responsável pela maior parte das falas engraçadas da peça.
        E finalmente Vitor Vieira, ator que confirma mais uma vez (se isso fosse necessário!) seu grande talento e versatilidade.
        Muitos elogios? Pode ser, mas todos verdadeiros e muito necessários. Se houvesse algum prêmio dedicado a elenco o meu voto iria com certeza para este trabalho onde predomina a ideia de coletivo.
        Com 15 anos de existência, só tomei contacto com a Tablado de Arruar em 2012 quando assisti ao impactante Mateus 10. A partir daí surgiu Abnegação que deu origem à trilogia que ora se encerra. Trilogia corajosa onde um grupo nitidamente de esquerda faz crítica feroz do partido de esquerda que levou o país à situação ora vivida por todos nós.
        Antes do início do espetáculo, um amigo e eu comentávamos a situação dramática que ora vivemos, pelo fato de não haver perspectivas de luz no fim do túnel, pois este túnel só tem políticos corruptos e arrivistas. E essa falta de luz é muito bem metaforizada ao final do espetáculo com o black out que ocorre na casa pobre e com a ausência dos atores no palco. Soco no estômago, como Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano sabem muito bem dar!

BLANCHE
MAIS UMA DO MESTRE ANTUNES


        Antunes Filho volta a surpreender a começar pela escolha de um homem para interpretar uma das personagens femininas mais importantes e icônicas da dramaturgia mundial. Ela surgiu em 1947 no teatro norte americano pelas mãos de Jessica Tandy e foi imortalizada no cinema por Vivien Leigh (1951). No Brasil Blanche Dubois já foi vivida por Henriette Morineau (1950), Maria Fernanda (1965), Eva Wilma (1974), Tereza Rachel (1986), Leona Cavalli (2002) e Maria Luisa Mendonça (2015); agora é a vez de Marcos de Andrade trazer à luz a frágil e sofrida personagem.
        Retomando e radicalizando a estética de A Falecida Vapt Vupt encenada em 2009 o encenador volta a apresentar um espetáculo no Espaço CPT iluminado apenas com as lâmpadas do local, sem uso de refletores e com reduzidos objetos de cena. O único recurso extra-interpretação usado é a inserção de algumas músicas para ilustrar a ação (trilha sonora selecionada por Raul Teixeira). A casa da irmã Stella não tem portas (as cortinas do espaço servem como tal); a campainha é ouvida pelo som de quem a toca; os atores mimicam o comer, o beber e o lavar a louça. Tudo se passa como se fosse um ensaio... mas não é um ensaio! Coisas do Mestre Antunes que como sempre resultam em algo inovador e surpreendente.
        Falado em fonemol (qual seria a diferença com gromelô?) a ação torna-se totalmente compreensível para quem conhece a peça de Tennessee Williams uma vez que esta é seguida quase à risca. Para facilitar o acompanhamento da trama é fornecido ao público um roteiro com a sinopse da mesma cena por cena.
        Há a clara intenção de denunciar a violência física e moral com mulheres e travestis e isso é evidenciado com a ênfase na cena do estupro muito bem estilizada pelo diretor.
        Com tal radicalismo na encenação a peça exige muito dos atores que são praticamente o único recurso cênico da mesma. Marcos de Andrade compõe uma Blanche perfeita; sem afetações e maneirismos inúteis ele comunica ao público a graça e a fragilidade da personagem emocionando na medida certa. Outro bom destaque é Alexandre Ferreira com seu patético Mitch. Andressa Cabral se sai bem como Stella, mas falta a Felipe Hofstatter a brutalidade exigida para interpretar Stanley Kowalsky, coisa que fica mais patente com o figurino “arrumadinho” usado por ele (fica difícil acreditar que Stanley use aquele robe de chambre). O restante do elenco cumpre o seu papel.
        Volto a repetir que a interpretação de Marcos de Andrade é tão perfeita que após o estranhamento inicial, esquecemos que estamos diante de um homem travestido, mas sim perante uma frágil senhorita perdida, à procura de um bonde chamado desejo.

PROJETO BRASIL


        Não é fácil escrever sobre esse instigante espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro (Curitiba). Trata-se de 16 cenas denominadas pelo encenador Marcio Abreu de discursos verbais e não verbais onde as mostram as mazelas desse bRASIL com letra minúscula: preconceitos, muita violência, individualismo exacerbado. A cor preta predomina nos figurinos, no geométrico e belo cenário e nas bexigas pretas que ao estourarem remetem aos tiros que matam tantos inocentes no dia a dia violento de nossas metrópoles. Para a criação do texto o grupo valeu-se de suas próprias improvisações além de discursos de Christiane Taubira (ex-ministra de Justiça da França) e de Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai). Marcio Abreu assina o texto final.
Rodrigo Bolzan tem um dos melhores momentos de sua sólida carreira de ator e Giovana Soar, além do imenso desgaste físico com tombos e agressões físicas, está ótima na interpretação em libras da letra da música Um Índio de Caetano Veloso e, principalmente, no emocionante monólogo (discurso 15) quase ao final da peça. Nadja Naira e Felipe Storino (músico) completam o elenco. Apesar de tudo a peça acredita no homem. Em que homem não se sabe, mas em um homem que talvez virá (Virá que eu vi). Eis as palavras com que a peça se encerra:
        - Depois do futuro, o fim como começo.
        - Há muitos mundos no mundo.
        - Sonhar outros sonhos.
        - Só o homem nu compreenderá.
        - Ele flutua.

JACY


        “Fale de sua aldeia e estará falando do mundo”. A frase de Tolstoi se encaixa como uma luva no espetáculo Jacy do grupo potiguar Carmin.  A primeira boa surpresa está em estarmos assistindo a espetáculo criado fora do eixo Rio-São Paulo e a segunda, melhor ainda, é que se trata de excelente e criativa montagem.
        Uma frasqueira encontrada ao acaso na rua pelo ator/dramaturgo/diretor Henrique Fontes é o início de tudo. A abertura revelou objetos, cartas e documentos pertencentes a Jacy. Um homem? Uma mulher? De posse do cartão de um taxista o grupo iniciou processo de investigação detetivesca até chegar em Sara, cuidadora de uma senhora de nome Jacy que morreu aos 90 anos em Natal e o resto é história!
        A montagem mostra o processo de investigação, assim como, a vida dessa senhora nascida em 1920 que teve vida nada espetacular a não ser ter vivido em épocas conturbadas como a segunda guerra mundial e a ditadura militar e também ter se apaixonado e casado por capitão americano.
        São dois atores em cena: Quitéria Kelly e Henrique Fontes, auxiliados por Pedro Fiúza que opera som e luz, além de manipular imagens e adereços que são projetados em tela ao fundo do palco. Os recursos são extremamente simples, mas os resultados são muito criativos e significativos. O texto escrito por Pablo Capristano e Iracema Macedo sofreu tratamento dramatúrgico por Henrique Fontes e Pablo Capistrano. A direção de Henrique Fontes é sóbria focando toda a atenção no trabalho dos atores. Quitéria Kelly, além da bela presença, apresenta com versatilidade tanto cenas narradas como interpretativas, o mesmo podendo se dizer de Henrique Fontes. Os desenhos que o ator faz mostrando Jacy se curvando com a idade é um dos momentos mais belos a que já presenciei no teatro (vide foto acima).
        As citações da situação política potiguar, assim como, de fatos acontecidos no passado revelam uma universalidade que faz jus à frase de Tolstoi citada no início desta matéria. Em vários momentos do espetáculo, os atores comentam ironicamente algo parecido com “Mas agora as coisas mudaram...”. Pois é!!
        Jacy faz pensar e também comove pela simplicidade com que foi concebido ao contar história trivial que podia ter ocorrido com qualquer um de nós. Excelente exemplo de teatro documental (gênero que corre o risco de resultar monótono e tedioso) que precisa ser visto.
        O Grupo Carmin completa dez anos neste janeiro e tem respeitável currículo como é mostrado no programa da peça. Espera-se que São Paulo tenha a oportunidade de assistir a outros trabalhos do grupo.

14/06/2017