quinta-feira, 16 de novembro de 2017

GRAÇA

- Qual é a graça?
- Qual é a sua graça?
- Não tem graça!
- Você é uma graça! (nos sentidos carinhoso ou irônico)
- Que engraçado!
- Desgraçado!
- Sem graça!!
- Ave Maria, cheia de graça!
- Muchas gracias.
- Gracias a la vida que me ha dado tanto!

- AFINAL: O QUE É A GRAÇA?

        Uma palestra na pequena cidade de Garanhões é realizada para discutir o tema. Esse é o mote da deliciosa e descomprometida comédia de Eloisa Vitz, nova montagem do Grupo Gattu em cartaz no aconchegante Teatro do Sol em Santana.
        Uma organizadora/mediadora do encontro (Laura Vidotto) tenta por ordem na mesa constituída por um aloprado crítico chamado Débil (Daniel Gonzales), um professor pernóstico (Rodrigo Vicenzo) e uma doutora em qualquer coisa (Mariana Fidelis). Cada um deles mostra os exemplos mais esdrúxulos de graça para uma plateia que não existe. Isso mesmo! A assessora de imprensa da cidade se esqueceu de divulgar o evento.
        O elenco se reveza em diversas personagens: os habitantes da cidade, os participantes da mesa já citados e as figuras que ilustram os exemplos de graça. O texto e a montagem dirigida pela autora privilegiam o teatro de grupo permitindo que cada ator tenha seu momento de destaque. Mesmo assim é impossível não nomear os trabalhos de Daniel Gonzales, com ótimo tempo de comédia; de Rodrigo Vicenzo, bela e forte presença cênica em todas as personagens que interpreta e de Miriam Jardim que demonstra  que é fácil ser Deus para quem já foi Timbiras em A Falecida.
        A peça contém vários elementos do assim chamado teatro do absurdo e não pretende, absolutamente, dar uma resposta para o que é a graça, nem filosofar a respeito. Feito para divertir o espetáculo cumpre totalmente o seu objetivo e não deixa de mostrar que a melhor resposta para a pergunta está na canção de Violeta Parra Gracias a la Vida: na graça de viver está a verdadeira graça.
         Assisti ao espetáculo na noite da estreia quando houve deliciosa confraternização entre atores e público ao final com champanhe e bolo. O acolhimento é um dos pontos fortes do Grupo Gattu e isso, somado a um bom espetáculo só traz alegria para o espectador.



        GRAÇA está em cartaz de terça a sexta às 20h, sábados às 21h e domingos às 19h com entrada franca no Teatro do Sol (Rua Damiana da Cunha, 413 – Santana). Reservas: 3791-2023.


16/11/2017

domingo, 12 de novembro de 2017

VOU VOLTAR

PONTO DE PARTIDA CONTA EL GALPÓN



        O Grupo Ponto de Partida de Barbacena pretendia montar espetáculo que tratasse de refugiados que têm nas fronteiras suas piores inimigas e particularmente lhes interessava aqueles exilados políticos que tiveram que buscar asilo em outros países, tendo saído de seus países após perseguições, prisões e torturas. Em suas pesquisas o grupo encontrou na trajetória do Grupo El Galpón do Uruguai o mote para a presente encenação. El Galpón foi fundado em 1949 (o grupo ainda em plena atividade em Montevidéu está prestes a completar 70 anos) e em 1976 por decreto da ditadura militar teve sua sede fechada e todos seus bens confiscados. Vários integrantes do grupo se refugiaram na Embaixada do México, país que lhes concedeu asilo político. A peça do Ponto de Partida inicia nesse ponto, fala dos oito anos de exílio do grupo no México (1976-1984) e de sua emocionada volta à terra natal.
        A dramaturgia do espetáculo assinada pela também diretora Regina Bertola foi montada como uma colagem de textos de Mário Benedetti, Eduardo Galeano, Bertolt Brecht e de depoimentos de remanescentes do grupo uruguaio recolhidos pelo grupo mineiro.
        Nove atores (cinco mulheres e quatro homens) representam atrizes e atores do Galpón, acompanhados por dois músicos (Pablo Bertola ao violão e Pitágoras Silveira nos teclados). Com muita emoção o elenco mostra as tristezas, mas também as alegrias do grupo exilado tanto no plano profissional/grupal como nas questões pessoais (a distância dos entes queridos, a morte de um irmão e a saudade das raízes). A trama é permeada por belas canções do cancioneiro latino americano, inclusive o brasileiro (não poderia faltar a emblemática Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque, talvez a mais bela canção já escrita sobre o tema do exílio). A parte musical é uma das mais bonitas deste significativo trabalho com excelente rendimento dos cantores/intérpretes.
        A tocante cena final mostra o elenco com bandeiras interpretando a volta ao Uruguai enquanto projeções mostram fotos dos participantes do Grupo El Galpón.
        Apesar de mostrar a história de um grupo estrangeiro acontecida há mais de 30 anos, a peça deixa clara a denúncia da situação caótica do Brasil atual.
        VOU VOLTAR está em cartaz no Sesc 24 de Maio apenas por mais uma semana: sexta (17) e sábado (18) às 21h e domingo (19) e segunda (20) às 18h.
        Nos dias 17, 18 e 20 eles apresentam o musical MINEIRAMENTE, sempre às 13h.
        NÃO PERCA a oportunidade de se emocionar com o belo trabalho do Grupo Ponto de Partida.

12/11/2017

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER


        Um palco nu. Três atrizes vestidas discretamente com macacões, elas têm longos cabelos loiros e olhos claros como convém a intérpretes de personagens russas. Essas três mulheres vão nos relatar durante pouco mais de uma hora como era a vida das mulheres russas que foram combater na segunda guerra conforme o livro homônimo de Svetlana Aleksiévitch, escritora premiada com o Prêmio Nobel. A originalidade tanto do livro como do espetáculo é o olhar feminino sobre assunto sempre tratado e mostrado sob o ponto de vista dos homens. No meio de tantas atrocidades bélicas, elas chegam a sentir falta do uso de calcinhas, uma vez que o uniforme continha roupas íntimas pouco femininas.
        Louve-se em primeiro lugar a inteligente adaptação teatral do livro feita pelo elenco e pelo diretor Marcello Bosschar.
        A direção vale-se da bela iluminação de Aurélio de Simoni; da sua escolha da trilha sonora que vai desde dance music até uma envolvente música de Philip Glass (epílogo da ópera Kepler,) que ilustra uma das cenas mais fortes do espetáculo e , é claro, do elenco:
        Carolyna Aguiar, Luisa Thiré e Priscilla Rozenbaum revezam-se com muito talento ao interpretar/narrar as vivências de cerca de trinta mulheres que, num primeiro momento, levadas por seu patriotismo querem ir para a guerra e depois sofrem e testemunham os horrores dos campos de batalhas. O programa fornece o nome dessas mulheres. 

     
        De qualquer maneira, apesar de falarem muito sobre a morte, elas são sobreviventes e louvam a vida. E a peça termina com essa louvação em uma bela coreografia assinada por Carolyna Aguiar.
        Mais uma vez temos prova dos bons e sérios trabalhos oriundos do Rio de Janeiro.
        Pelo tema tratado e pela interpretação visceral das três atrizes, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, é espetáculo obrigatório.

        Em cartaz no Teatro FAAP às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 18h até 17/12.

12/11/2017
       



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

SCAVENGERS


Na foto, da esquerda para a direita: Davi Reis, Gabriela Rabelo, Rogério Brito, Fani Feldman e Ricardo Corrêa.

        Scavenger: Alguém que recolhe coisas descartadas por outros; catador de lixo; qualquer animal que come coisas refugadas e apodrecidas.
            A trama da peça do dramaturgo escocês Davey Anderson é simples: o jovem e bem casado empreendedor Marco, depois de alguns negócios bem sucedidos, vai à falência e acha a melhor solução no abandono de tudo tentando o suicídio afogando-se no mar. Mas Marco não morre e no encontro com alguns miseráveis ele vai descobrindo o sentido da vida, indo até o fundo do poço para depois transcender numa das cenas mais bem resolvidas, do ponto de vista poético, que temos visto em nossos palcos. Não vou estragar o prazer de quem vai assistir à peça me estendendo no que acontece em seguida.
        O grande achado dramatúrgico é a maneira como a história é contada: um grupo de atores vai narrando a saga de Marco, enquanto o ator que o interpreta, em certos momentos, também narra a história. A tradução cênica realizada pelo sempre competente e sensível Francisco Medeiros é engenhosa utilizando-se de microfones espalhados pelos quatro cantos do palco por meio dos quais os atores fazem a narração (um senão é que na sessão em que assisti algumas falas se tornaram inaudíveis, talvez por algum problema de sonorização). Uma plataforma central móvel que contém tampas por onde os atores entram e saem é o espaço onde se desenrola a ação propriamente dita. O cenário é assinado por Cesar Rezende Santana.
        Quatro bons atores (Davi Reis, Fani Feldman, Rogério Brito e a carismática Gabriela Rabelo) revezam-se nas narrações e na interpretação das personagens que se envolvem com o protagonista Marco, representado pelo talentoso Ricardo Corrêa.
        A produção é da Cia. Artera de Teatro (Ricardo Corrêa e Davi Reis) que já montou Dadesordemquenãoandasó do mesmo autor e o polêmico e assustador Bug Chaser-Coração Purpurinado. As três montagens estão em cartaz na cidade.
        Destaque para a trilha executada ao vivo por seu autor Tiago de Mello e para a significativa iluminação de Fran Barros.
        SCAVENGERS está em cartaz no Centro Cultural São Paulo às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 20h até 05/11.

29/10/2017




SE EXISTE EU AINDA NÃO ENCONTREI





       Esta peça do jovem dramaturgo inglês Nick Payne (1984-) mostra, ao contrário do filme “Teorema”, como uma família disfuncional pode se reestruturar e se humanizar com a chegada de um parente (irmão do pai) que, a princípio, parece o mais disfuncional de todos os outros componentes (pai, mãe e filha).


       A encenação de Daniel Alvim dá margem a bons trabalhos de Helena Ranaldi (ótima nas cenas em que tem que ser enérgica), de Leopoldo Pacheco (disfarça a gagueira do pai de modo brilhante) e de Lyv Ziese (a filha gordinha complexada), mas quem dá um show de interpretação é Luciano Gatti como o tio extrovertido que com seu calor humano derrete a geleira da casa.


       SE EXISTE EU AINDA NÃO ENCONTREI está em cartaz no Teatro Eva Herz até 10/12 com sessões aos sábados (21h) e aos domingos (19h).


30/10/2107

CÉUS


        Em entrevista quando esteve no Brasil em 2014 o dramaturgo canadense de Quebec Robert Lepage (1957-) comentou que procura fazer espetáculos que tenham duas histórias: uma com H maiúsculo (universal) e outra com h minúsculo cujo tema cotidiano/familiar seja uma porta para o espectador melhor compreender a primeira. Nota-se igual procedimento no libanês Wajdi Mouawad também radicado em Quebec (1968-) tanto em Incêndios; onde H era a guerra (provavelmente do Líbano) e suas consequências, e h o drama familiar da protagonista Nawal; como em Céus onde H é o terrorismo e h os dramas privados das cinco pessoas confinadas em missão secreta em um bunker com o objetivo de detectar onde e quando poderão ocorrer ataques terroristas. Mouawad lida bem com o mistério e o suspense que são desvendados sempre ao final da trama, mantendo o interesse do espectador em suas mãos.
        O cenário bastante simples de Fernando Mello da Costa consta de uma grande mesa com computadores onde se desenvolve a trama H, enquanto as histórias h são feitas sobre uma cama que entra e sai de cena e que representa o privado, o pessoal das personagens e suas relações com o mundo exterior. São quatro homens e uma mulher, além da citação de um sexto componente que cometeu suicídio. A descoberta das razões do suicídio, a agitação e a urgência de procurar por futuros ataques, além dos dramas pessoais de cada um são as molas propulsoras deste bem urdido drama de Mouawad.
        Espetáculo desse tipo necessita de bons atores capazes de darem conta tanto de H como de h e o diretor Aderbal Freire Filho soube escolher o elenco como também focar toda a sua direção no mesmo. Iluminação (Maneco Quinderé) e figurinos (Antônio Medeiros) bastante discretos, como exige a encenação; além das poderosas projeções (Radiográfico) embaladas pela potente trilha sonora de Tato Taborda.



        Felipe de Caroli desempenha o jovem criptógrafo Clément que irá tentar decodificar as informações contidas no computador de Valery (o suicida) e é responsável por longo discurso onde se desvenda o mistério da morte de Valery, os outros integrantes masculinos do grupo são Marco Antônio Pâmio, Rodrigo Pandolfo e Isaac Bernat todos em excelentes intervenções. A personagem feminina Dolorosa Haché é bem representada por Karen Coelho.
        O mais que grito, na verdade um urro dilacerante que encerra a peça é assim descrito pelo autor: “... me dei conta de maneira monstruosa o quanto ele estava há muito tempo calado dentro de mim. De sofrimento em sofrimento, ele tinha se sedimentado sob a camada opaca das razões e das aceitações, na resignação das tristezas que nos tira a coragem para viver o dia seguinte”. O som dessa voz ecoa por toda a plateia deixando o espectador atordoado mesmo depois que as luzes da plateia se acendem.
        Céus não é uma peça fácil. Trata de assuntos contemporâneos graves e tem desfecho há anos luz de um happy end, mas é muito necessária para se refletir sobre os tempos cruéis em que vivemos.
        Louve-se a iniciativa do produtor e idealizador do projeto Felipe de Carolis de trazer para o Brasil a obra tão importante de Wadji Mouawad.
        A peça é o marco inicial da nova curadoria do Teatro Vivo feita por André Acioli. O teatro deve passar por reformas modernizadoras no início de 2018.
        CÉUS está em cartaz às sextas (20h), sábados (21h) e domingos (18h) no Teatro Vivo até 10/12/2017. NÃO DEIXE DE VER.

31/10/2017



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O REI DA VELA- ANTES E DEPOIS


O REI DA VELA - ANTES


Capa do programa de 1967


        Dedico um capítulo de meu livro O Palco Paulistano de Golpe a Golpe (1964-2016) à montagem de O Rei da Vela de 1967. É uma das encenações mais significativas dentre as mais de 3500 a que assisti nesse mais de meio século como espectador.  Tenho na memória o delirante segundo ato, sobre o qual escrevi “No primeiro e no último atos, a peça extremamente atual de Oswald de Andrade colocava em questão aspectos importantes, como a usura, os malefícios do capitalismo, a importância da luta de classes e a dependência aos Estados Unidos, mas os fundamentos do que viria a ser o tropicalismo e o germe dos futuros espetáculos de José Celso estavam no segundo ato, onde um telão de Hélio Eichbauer, pintado nos moldes das antigas revistas musicais, mostrava uma Baía de Guanabara com cores fortes. Na parte superior, havia – de certo modo adotando proposição épica - a frase de Olavo Bilac “Criança... não verás país nenhum como este”, originalmente escrita em um contexto totalmente diverso e que ironizava a cena apresentada. Defronte a esse cenário, desfilavam as personagens da "família" brasileira: Dona Cesarina, Totó Fruta do Conde, Dona Poloquinha, Joana (João dos Divãs), Heloisa de Lesbos, Abelardo, entre outros. A cena escarnecia com muita ironia e humor dos costumes e valores da burguesia nacional. Ria-se muito. As frases de efeito, criadas pelo autor e tão bem articuladas pelo afiado elenco, eram muito boas, e algumas delas viraram jargão na roda de amigos que frequentavam teatro”

        Pois é, escrita em 1933 ela era atual nos obscuros anos da ditadura militar e, ao que aparece, contínua atualíssima no catastrófico Brasil de 2017.

        Não é sem certo temor que vou revê-la no próximo domingo. A lembrança da montagem de 1967 é muito forte. Não estarão lá Edgard Gurgel Aranha, Etty Fraser, Fernando Peixoto, Liana Duval, Ítala Nandi e tantos outros. Caberá ao Zé Celso e ao Renato Borghi manterem a chama do clima revolucionário que a peça ainda tem.
 
 

27/10/2017

 
O REI DA VELA - DEPOIS
 
 
        Fica difícil colocar em palavras as sensações que tive ao rever, 50 anos depois, a remontagem de O REI DA VELA dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa.
 
        A primeira foi de espanto ao constatar a atualidade de uma peça escrita há 80 anos em plena ascensão do nazi-fascismo.
 
        A segunda foi a constatação de como eu era ingênuo aos 23 anos, quando assisti a peça pela primeira vez e como hoje, após ter sentido e ainda estar sentindo na pele os malefícios desse sistema capitalista selvagem consigo entender melhor o que Oswald de Andrade denunciava no texto em 1933 e o que Zé Celso tão bem traduziu cenicamente em 1967, ano que precedeu o famigerado AI-5.
 
        A terceira foi de temor, ao confirmar que o Brasil e o mundo de hoje não estão muito diferentes daqueles que precederam a segunda guerra mundial. O que está apresentação de 2017 está precedendo?
 
        A quarta foi a alegria de ver a energia que Renato Borghi extrai de sua própria fragilidade em função da idade e de um problema sério de coluna, recriando de forma magistral o Abelardo I de meio século atrás. Assistir ao embate dele com Zé Celso como Dona Poloquinha no segundo ato é daqueles raros momentos que só o teatro pode oferecer.
 
        A quinta foi a surpresa de ver recriados nos mínimos detalhes os cenários de Hélio Eichbauer.
 
         A sexta foi o prazer de ver como a tecnologia do século XXI (sonorização, sonoplastia, iluminação) conseguiu enriquecer a montagem de 1967, sem descaracterizá-la.
 
        A sétima foi a surpresa de, desta vez, ter gostado menos do segundo ato, que foi o meu favorito em 1967. Aqui senti falta do elenco original que dava maiores brilho e ritmo à divina “decadence” da família brasileira.
 
        A oitava foi o aperto no coração e a raiva ao ver baixar os painéis dos finais do segundo ato (“Criança, não verás jamais país como este”) e do ato final (“Respeitável público! Não vos pedimos palmas...”).
 
        E finalmente a nona e última: a vontade de ir à luta após a corajosa fala do sempre brilhante e lúcido Zé Celso após o final da peça conclamando o público ao desacovardamento. Suas palavras do que seria uma São Paulo cultural passando pelo Oficina, pelo terreno que pretendem construir torres, pela casa da Dona Yayá, pelo TBC, chegando até o Parque Augusta me levou a acreditar numa utopia atingível e na esperança de dias melhores para o planeta Terra fazendo brotar lágrimas nos olhos.
 
        VETA as TORRES!
 
        ABAIXO A CANALHADA!
 
        E parafraseando Oswald de Andrade: LUTEMOS POR ESSA ENJEITADA, A CULTURA BRASILEIRA!
 
        URGE que os jovens assistam a O REI DA VELA! Os ingressos estão quase esgotados até o fim da temporada, mas vale tentar. Sábados às 19h e domingos às 18h, só até 19/11 no Sesc Pinheiros.
 
        OBS 1: O programa da peça é um primor com reprodução dos cenários, textos esclarecedores e belas fotos das personagens vestindo os figurinos criados por Hélio Eichbauer (são citados todos atores que criaram as personagens ao longo dos anos).
        OBS.2 (a título de propaganda!!): Meu livro “ O Teatro Paulistano de Golpe a Golpe (1964-2016)” contém ampla matéria com fotos e ficha técnica completa da montagem de 1967.
 
        30/10/2017
 
       

 

 

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

OBSCENO

ROBERTO VIGNATI ESTÁ DE VOLTA... E O PALCO PAULISTANO AGRADECE.


        Diretor, autor, iluminador e eventualmente, até ator e cantor Roberto Vignati começou a sua carreira dirigindo espetáculos infantis na década de 1960.
        Realizou trabalhos importantes na década de 1970, entre eles o memorável A Noite dos Assassinos (1979) que revelou Rosi Campos, Maria do Carmo Soares e Calixto de Inhamuns.
        Acumulou sucessos de crítica e de público na década de 1980 iniciando com o mega Bent (1981), seguido de Bella Ciao (1982), Um Casal Aberto, Ma Non Troppo e Brincando Em Cima Daquilo (ambos de 1985 e de autoria de Dario Fo e Franca Rame, sendo que o último teve interpretação antológica de Marília Pêra). Ainda em 1985 monta As Is, outra peça sobre a aids. Ópera de Sabão (1987), montada em antigo cinema pornô da Rua Aurora completa a lista dos espetáculos mais significativos dessa década.
        Entre os anos de 1978 e 1989 Vignati trabalha na TV Globo assinando vários trabalhos de sucesso.
        Na década de 1990 encena, entre outros, Uma Rosa Para Hitler (1993), Risco de Vida (1993) e Aidsnós (1999) (que completa a trilogia sobre a aids), todas de sua autoria.
        Entre os anos 2005 e 2016 dedica-se a um grupo na cidade de Cordeirópolis sendo o responsável por transformar uma antiga subestação da Fepasa em belo e moderno teatro.
        Carreira tão brilhante não cabe nestas poucas linhas e o maior objetivo desta matéria é anunciar o auspicioso retorno de Vignati aos teatros da cidade com autor que lhe é caro: Dario Fo.


        O espetáculo Obsceno interpretado por Clovis Gonçalves (que vimos há pouco em Race) estreia nesta quinta feira, dia 19 e é composto de duas peças curtas O Asno e A Borboleta Xoxotuda. Das habituais competência e perfeccionismo de Vignati só se pode esperar trabalho de alto nível. Fecho esta pequena matéria com as palavras do diretor:

        “Dos 174 espetáculos que já dirigi no Teatro ao longo de 55 anos de carreira,’ Obsceno’, com textos de Dario Fo entremeados por poemas eróticos, é sem dúvida, o mais despojado e simples que já dirigi quanto à produção, mas o mais ousado quanto à criação e imaginação.
        Partindo de que o ator é o centro de tudo no palco, eu e Clóvis Gonçalves, que já tive a chance e prazer de dirigir outras vezes no teatro e na televisão, nos dispusemos a fazer um trabalho sem artifícios, sem cenário, sem sonoplastia, buscando todos os sentimentos humanos, criando tudo a partir das possibilidades do ator.
        Motivado pela falta de apoio à cultura e crise vergonhosa que estamos vivenciando neste país, resolvi assumir a criatividade e potencial do ator como a maior arma no palco, criando um espetáculo cinematográfico cheio de imagens que devem levar a plateia a ver realmente os diversos fotogramas de um filme que conduz estas histórias vividas pelos seus protagonistas.
        Creio que o resultado será surpreendente, inovador, estimulante não apenas para o ator, num monólogo que não parece monólogo buscando o que sempre quis Dario Fo com seu teatro, levar o público ao raciocínio e ao questionamento,sem deixar de se divertir jamais.
        Assim fica bem claro que mesmo que nos tirem tudo, com apenas um ator e um bom texto, o teatro sobreviverá, nos fazendo rir e emocionar sempre. Podem nos roubar tudo, mas jamais vão fazer calar o artista e seu poder de criação e mergulho no universo da fantasia e da beleza”

        OBSCENO estreia quinta feira, dia 19/10 no VIGA Espaço Cênico. Sessões às quintas e sextas às 21h. Temporada até 17/11.


16/10/2017

domingo, 24 de setembro de 2017

PALAVRA DE STELA


      Personagens com perturbações mentais sempre proporcionaram memoráveis interpretações para atores de talento, haja vista Rubens Corrêa em Diário de Um Louco (1965), todos os atores que representavam os internos do hospício de Charenton em Marat-Sade (1967), Dani Barros em Estamira (2012) e no cinema Giulietta Masina como a inesquecível Gelsomina de La Strada (1954) de Fellini. Agora é a vez de Cleide Queiroz brilhar com sua impressionante atuação em Palavras de Stela.
              A concepção deste espetáculo se assemelha àquela de Estamira. Tanto Dani Barros como Cleide Queiroz tiveram mães psicóticas e as montagens mesclaram fatos da vida e do modo de ser das personagens Estamira e Stela com acontecimentos vividos pelas atrizes. O resultado em ambos os casos é impactante e comovente.
         A encenação de Elias Andreato está calcada apenas em dois pontos: a atriz e a iluminação; esta última consegue captar situações diversas como os estados de espírito de Stela e as cenas de eletrochoque. O desenho de luz é tão vital para o espetáculo que só podia ter sido concebido pelo próprio diretor. Todos os outros elementos de cena (cenário, figurinos, adereços e trilha sonora) colaboram para o bom resultado final.
        A julgar pelos programas disponíveis Cleide Eunice (era assim seu nome artístico na época) estreou profissionalmente em 1969 na montagem de Silnei Siqueira para Morte e Vida Severina produzida e interpretada por Paulo Autran (não confundir com aquela do TUCA em 1965). 

Foto do programa de Morte e Vida Severina (1969)

        A presença de Cleide não foi muito constante nos palcos paulistanos nesses quase 50 anos, sendo que seu trabalho mais lembrado e importante foi a Joana de Gota D’Água (2001) dirigida por Gabriel Villela. Em Palavra de Stela a atriz tem oportunidade de mais uma vez mostrar todas as nuances de seu imenso talento alternando momentos de quase ferocidade com outros de calmaria mostrando assim a instabilidade emocional de Stela do Patrocínio. Dona de bela e potente voz Cleide se dá ao luxo de nos comover por duas vezes ao cantar Estrela do Mar que ela traduz ao final para “Stela do ar”, fazendo lembrar outra “louca” chamada Ismênia, imortalizada no poema de Alphonsus de Guimaraens: Sim! Cleide, apesar de seu corpo, flutua divinamente no belo espaço criado por Mira Haar. Uma das grandes interpretações do ano!

        PALAVRA DE STELA está em cartaz até 29/10 no Teatro Núcleo Experimental às sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (19h).

        Ah! O programa é lindo, com ilustrações de Roberto Alencar e simpáticos agradecimentos a Artaud, Castro Alves e Fernando Pessoa, entre outros.

24/09/2017
       


sábado, 23 de setembro de 2017

PEDRAS AZUIS


        Pedras Azuis (nome fictício?) é um vilarejo situado no sertão nordestino que leva esse nome, pois surgiu quando sertanejos vieram explorar a terra que continha preciosa pedra azul. “As pedras acabaram, mas os habitantes e os problemas ficaram”, revela uma das personagens da peça homônima. O vilarejo sofre com a seca e Antero, um dos habitantes, sobrevive transportando água de local distante cerca de 200 km com seu carro pipa. Antero é casado com Diana, mulher submissa, portadora de defeito físico e, segundo ele, “atrasadinha no raciocínio”. Acontece que o governo resolve trazer um caminhão pipa mais moderno, fato que inviabilizará o sustento da família. Aí começam os problemas de Antero e também a ação da peça escrita e dirigida por Márcio Mecena ora em  cartaz na cidade.
        O texto bem estruturado e escrito nos padrões da dramaturgia tradicional conta uma história com começo, meio e um fim que é deduzido pelo espectador, mas não explicitado em cena. A peça traz para o sertão brasileiro trama inspirada em 27 Carros de Algodão de Tennessee Williams, mas tem, ao meu modo de ver, uma grande diferença no comportamento da protagonista Diana, em relação à Flora da peça de Williams.  A direção do próprio autor tem grande apoio no simples, mas bastante funcional cenário, este, por sua vez, inundado pela bela iluminação de Cesar Pivetti e Vânia Jaconis. A trilha sonora escolhida por Felipe Roseno e Frederico Puppi com canções de prévio conhecimento encaixa-se perfeitamente ao ambiente da peça.
        Neto Mahnic, apesar de seu aspecto sulino, encarna com muita propriedade o nordestino Antero e Annelise Medeiros comove com a perplexidade e aparente fragilidade de Diana não esquecendo em nenhum momento de exteriorizar o defeito físico da personagem. Emanuel Sá completa o elenco como Lívio, o homem “civilizado” que veio esclarecer o acidente ocorrido na cidade.
        Pedras Azuis é espetáculo que deve ser prestigiado por contar uma boa história, com bons intérpretes e por denunciar os abusos e violências sofridos pela mulher neste mundo de meu Deus.
        PEDRAS AZUIS está em cartaz no Viga Espaço Cênico às quartas e quintas às 21h até 16/10/2017.

23/09/2017

        

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CERBERA


        Em cenário onde dramaturgos aparecem e desaparecem como cometas com a encenação de apenas uma obra, louve-se o surgimento de Carol Rainatto que no período de um ano tem três textos encenados pela Cia. do Ruído. Em 2016 foi a vez de Oito Balas e Meia Noite, Feliz Natal e agora Cerbera que completa a trilogia. O que torna o fato mais louvável é a ousadia da autora em inovar tanto no tema (a hipocrisia da classe média) como na forma (enquanto mantinha certa linearidade em Meia Noite, Feliz Natal, em Cerbera busca novos caminhos criando cenas não cronológicas e abrindo o espetáculo com significativos monólogos de cada uma das personagens, ouvidos de forma estranha, mas que vão se esclarecendo à medida que a ação se desenvolve).
        Cerbera é planta altamente tóxica e venenosa. Ela é considerada a arma do crime perfeito, pois o componente químico fica indetectável após o envenenamento. Metáfora perfeita para as intenções da peça.
        Obsessões ao alcance de todas as personagens parece ser o lema da dramaturga: Martin (Rodrigo de Castro) é um rapaz introvertido que adora se travestir; sua mãe Helena (Ynara Marson) é alcoólatra, apanha do marido e tem tendências homossexuais; Paulo, o marido (Rodrigo Frampton) é meio tarado e coça o saco permanentemente; Clara (Victoria Blat) é uma professora de piano reprimida que assedia sexualmente o aluno Martin; finalmente Cecília (Carol Rainatto) é uma garota fútil com tendências ninfomaníacas. São essas personagens que Carol põe em cena de forma cruel para mostrar a falsa moral da classe média brasileira. Não há dúvida que há um toque de Álbum de Família de Nelson Rodrigues.
        A direção de Elias Andreato carrega na dramaticidade resvalando, propositalmente, para o melodrama em muitos momentos. O cenário de Diogo Monteiro e os figurinos de Ananda Sueyoshi reforçam a decadência das personagens.

Rodrigo de Castro, Ynara Marson, Carol Rainatto, Rodrigo Frampton e Victoria Blat

        Victoria Blat empresta autoridade para sua professora de piano e tem bons momentos nos embates com Helena, interpretada por Ynara Marson. Rodrigo de Castro consegue mostrar as nuances de sua personagem. Rodrigo Frampton não distingue os momentos de cólera com os de sua obsessão por Cecília, algo que pode ser sanado ao longo da temporada. Ousada também é a participação da autora como a garota Cecília, sua inflexão de voz, a princípio estranha, depois se incorpora à tresloucada personagem.
        CERBERA está em cartaz no Espaço Parlapatões às quintas e sextas às 21h até 27 de outubro.

20/09/2017
       
       

        

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ANTÍGONA



CINCO RAZÕES PARA ASSISTIR ANTÍGONA

        1 - A peça é representada na íntegra, fato que há muitos anos não ocorria nos palcos paulistanos. O autor Sófocles (496 A.C. / 406 A.C.) e o público agradecem.
        2 – A versão de Celso Frateschi tem elegante tom coloquial sem, no entanto, vulgarizar as falas.
        3 – O espaço cênico está muito bem estruturado consistindo de uma plataforma com poltronas de ambos os lados onde os espectadores se acomodam tendo o olhar ao mesmo nível daqueles dos atores. Os atores ainda atuam nas laterais da plataforma, assim como em andar mais elevado. A aproximação entre atores e público dá um ar de cumplicidade entre ambos.
        4 - A discreta direção de Moacir Chaves utiliza da melhor forma o espaço cênico, a bela iluminação e a movimentação dos atores.
        5 - A distribuição das personagens entre os três atores é muito boa. Celso Frateschi encarrega-se de Creonte; Naruna Costa responde pela personagem título, além de Ismênia e Eurídice; Pascoal da Conceição toma para si o restante das personagens (o guarda, o mensageiro, o jovem Hemon e o velho Tirésias). Os três atores representam o coro dos anciãos. Todos ótimos, com destaque (pela surpresa) para Naruna Costa, que já esteve ótima como Elza Soares em Garrincha de Bob Wilson e que aqui mostra sua competência para a tragédia, além de ser muito bonita. Celso Frateschi e Pascoal da Conceição não precisam provar nada e minha única observação vai para o tom histérico e nervoso que Pascoal imprime a Tirésias (com o conhecimento e sapiência que tem, o velho profeta não necessitaria de tantos gritos para expor suas ideias).

Foto de Gisela Schlogel

        Texto, direção e interpretação - a tríade essencial para um bom espetáculo - estão aqui muito bem representados. Some-se a isso a significativa trilha sonora de Daniel Maia, a já citada iluminação de Aurélio de Simoni e os figurinos de Sylvia Moreira. Como se vê há bem mais que cinco razões para assistir a este importante trabalho.

        E o cordão dos anciãos continua mais prudente do que nunca e com o rabo entre as pernas! Alguma semelhança?

        ANTÍGONA está em cartaz no Ágora Teatro de quinta a sábado às 21h e domingo às 19h. Toda sexta feira, após a apresentação, haverá debate coordenado por Welington Andrade e com a participação do elenco.


10/09/2017

sábado, 9 de setembro de 2017

CANÇÃO DENTRO DO PÃO


        O intelectual Raimundo Magalhães Junior (1907-1981) foi influente homem de teatro como dramaturgo e tradutor. Suas peças fizeram bastante sucesso quando encenadas nas décadas de 1940 e 1950. Canção Dentro do Pão é de 1953 e foi dirigida e protagonizada por Sérgio Cardoso (Jacquot), tendo no elenco Nydia Licia (Jacqueline) e Leonardo Vilar (Finot).

Montagem de 1953

         Com o advento da “modernização” do teatro, essa e muitas obras do gênero foram esquecidas. Ao que se sabe a peça nunca mais foi montada nos últimos 60 anos e, no entanto, tem fôlego para falar aos tempos atuais como prova a bela montagem dirigida por Bete Dorgam para o CPC-UMES.
        O texto padece de certa ingenuidade própria das peças da época, no entanto é engenhoso ao ligar a trama à revolução francesa e à famosa fala “Ça ira”, algo como “Agora a coisa vai”, proclamada pelos revolucionários para derrubar a monarquia e a aristocracia. O momento que o Brasil vive é digno de um “ça ira” por parte da população, cada vez mais saturada de tantas falcatruas da escória que “dirige” o país. Outra característica que aproxima a peça aos dias de hoje é que as personagens se não são imorais (Finot) são no mínimo amorais (Jacqueline e o próprio Jacquot que muda de lado conforme a ocasião)
        A montagem de Bete Dorgam é fiel ao original e enriquecida com as músicas criadas por Marcus Vinicius de Andrade e Léo Nascimento que servem tanto para ilustrar as cenas, como para distrair o espectador nos dois entreatos (originalmente a peça tem três atos). O simpático cenário de Caio Marinho, assim como os bolos criados por Vanessa Abreu remetem à ingenuidade da época, assim como os significativos figurinos de Atílio Beline Vaz. Louve-se em tudo isso os visíveis cuidados com a produção do espetáculo, apesar dos prováveis poucos recursos disponíveis.

Foto de Marcelo Kahn

        Do elenco, saem-se bem João Ribeiro como o patético Finot e Ricardo Koch Mancini como o inspetor Jean. Rafinha Nascimento incumbe-se do ajudante surdo, do ajudante do inspetor e ainda do cantor/narrador. Rebeca Braia (muito bonita e lembrando uma jovem Maria Della Costa morena) tem bons momentos como Jacqueline, mas exagera nas caretas e nas “corridinhas”. O destaque fica com Pedro Monticelli (Jacquot) que tem excelente tempo de comédia dosando muito bem o gestual e o vocal e banhando todo o espetáculo com bem vindo toque clownesco que não nega a influência da sempre palhaça Bete Dorgam. 
        Canção Dentro do Pão é espetáculo digno que fala ao espectador de hoje, além de diverti-lo. Isso não é pouco! Em cartaz no Teatro Denoy de Oliveira às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 19h.


09/09/2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

TCHEKHOV É UM COGUMELO


        Tempo de delicadeza. Tempo de singeleza. Tempo de beleza. Tempo, tempo, tempo...

         1900, ano em que Tchekhov escreve As Três Irmãs.

Olga Knipper e Tchekhov em 1901, ano da estreia de "As Três Irmãs" em Moscou.


        1972, ano em que o Grupo Oficina monta a peça por apenas alguns dias. (tive o privilégio de assistir a essa montagem, que tinha ar bastante melancólico e triste).


        1995, ano em que Zé Celso Martinez Corrêa dá histórica entrevista para um grupo de estudantes de teatro sobre a montagem de 1972.


       2017, ano em que André Guerreiro Lopes (um dos entrevistadores de 1995), reúne tudo isso em uma delicada viagem pelo tempo e que resulta em dos mais belos espetáculos presentes em nossa cena: TCHEKHOV É UM COGUMELO.


        Em 2010 quando assisti a Ilhada Em Mim escrevi:Eu queria ter veia poética para poder traduzir com palavras adequadas todas as sensações que tive ao assistir Ilhada em Mim. A encenação de André Guerreiro Lopes é absolutamente sensitiva e fica difícil escrever sobre ela de maneira racional.” A mesma sensação eu tive ao ver O Livro da Desordem e da Infinita Coerência (anterior a Ilhada Em Mim, mas que vi posteriormente) e eis que ela novamente se repete com este belíssimo Tchekhov É Um Cogumelo! André tem o dom de transformar poesia em ato cênico.
        O espetáculo, bastante complexo, coloca em cena literalmente o que se passa no cérebro do encenador mixando de forma extremamente harmoniosa os tempos citados acima. Um ato de “esculpir o tempo” como informa o belo e informativo programa.
        A mais que lúcida entrevista de Zé Celso serve como guia para o espetáculo sendo intercalada com cenas de As Três Irmãs onde Olga, Irina e Masha são representadas com muita sensibilidade por Helena Ignez, Djin Sganzerla e Michele Matalon e as canções são lindamente cantadas por Roberto Moura. Samuel Kavalerski e Fernando Rocha completam o harmonioso elenco.  A iluminação de Marcelo Lazzaratto e a trilha sonora de Gregory Silvar embalam suavemente toda a encenação e não contente em esculpir o tempo, Guerreiro Lopes esculpe também o lugar nos trazendo da longínqua Rússia do início do século 20 para as ruas de São Paulo de 2017 por meio da surpreendente participação do Grupo Embatucadores. É muita emoção para um espetáculo só!
             A peça também comemora os dez anos do Estúdio Lusco-fusco, a companhia teatral criada por Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes.
        Cada um à sua maneira, Tchekhov É Um Cogumelo e Boca de Ouro (direção de Gabriel Villela, em cartaz no Tucarena) são, na forma, os dois mais belos espetáculos em cartaz na cidade, além, obviamente, da qualidade de seus conteúdos.
        TCHEKHOV É UM COGUMELO está em cartaz no Teatro Anchieta até 08/10/2017 às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 18h.
        IMPERDÍVEL!!

27/08/2017