quarta-feira, 18 de julho de 2018

REFÚGIO



        O dicionário define refúgio como o “local para onde alguém foge a fim de estar em segurança; asilo, abrigo. Apoio, amparo, proteção; socorro”. Que refúgio é esse proposto pelo dramaturgo Alexandre Dal Farra?
        Os seres retratados na peça têm um cotidiano modorrento envolvido com pequenas coisas. São pessoas conformistas, alienadas e voltadas para o próprio umbigo; suas conversas são banais e sem sentido. Vivem em uma sociedade injusta, sentem que há muita coisa errada, mas não têm coragem de tomar uma atitude para tentar mudar o status quo. De repente, quase por milagre, as pessoas começam a desaparecer e isso se torna a máxima preocupação do casal que deixou de sumir. Mais tarde elas voltam revigoradas e com mudança radical no comportamento, parecendo dispostas e com coragem para mudar as coisas, talvez até pegando em armas (a sacola do pai está cheia de armas) no melhor estilo dos rebeldes da Revolução Francesa. A peça de Dal Farra parece dar esse recado redentor e apesar de seus méritos, falha ao mostrar a transformação não como uma consciente tomada de posição, mas como o milagre citado acima.
        O texto é recheado de bons momentos com diálogos ágeis e saborosos ditos com muito brilho pelo excelente elenco. O monólogo sobre as baratas, dito com muita leveza por Carla Zanini, é antológico, assim como o diálogo das duas mulheres sobre o primeiro desaparecimento. Outra cena notável é a fala da nora para um sogro que come de maneira assustadora.
        Fabiana Gugli tem uma das melhores interpretações de sua carreira como a assustada dona de casa que vê, ao lado do marido, seu mundinho se esfacelando. Marat Descartes empresta seu habitual talento à personagem do marido. Completam o elenco André Capuano e Clayton Mariano, também ótimos.

Fabiana Gugli e Carla Zanini

        O cenário móvel de Marisa Bentivegna, também iluminado por ela, se presta muito bem às necessárias mudanças dos locais de ação da peça. A trilha sonora de Miguel Caldas enfatiza o suspense presente na trama, assim como as cenas captadas por uma câmera nas mãos de um dos atores e projetadas nas paredes, destacando os detalhes das expressões das personagens.  
        Na cena final todos estão confinados em um espaço reduzido. Vão ter forças de sair dali e ir para o refúgio e tentar mudar o mundo? Como toda a dramaturgia de Dal Farra, esta também não procura dar respostas, mas criar perguntas e reflexões na cabeça do espectador. Grande mérito do autor!
        REFÚGIO está em cartaz no Sesc Bom Retiro até 29 de julho ás sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h.

        18/07/2018
       

terça-feira, 17 de julho de 2018

PRÊMIO APCA - INDICAÇÕES 1º SEMESTRE 2018




DRAMATURGIA
- Gustavo Colombini – Colônia
- Leonardo Cortez – Pousada Refúgio
- Marina Corazza – Aproximando-se de A Fera na Selva

ATOR
- Alexandre Cioletti - Love, Love, Love
- Maurício de Barros – Pousada Refúgio
- Rodrigo Pandolfo - Pi

ATRIZ
- Amanda Acosta – Bibi – Uma Vida Em Musical
- Clara Carvalho – A Profissão da Sra. Warren
- Yara de Novaes – Love, Love, Love

DIREÇÃO
- Bia Lessa – Pi
- Gustavo Paso – Hollywood
- Malú Bazan – Aproximando-se de A Fera na Selva

ESPETÁCULO
- Bibi – Uma Vida Em Musical
- Love, Love, Love
- Pi – Panorâmica Insana

* Críticos votantes: Edgar Olimpio deSouza, Evaristo Martins de Azevedo, Kyra Piscitelli, José Cetra Filho, Márcio Aquiles, Miguel Arcanjo Prado e Vinício Angelici.

16/08/2018


sexta-feira, 13 de julho de 2018

AGOSTO



         Certa vez conversando com o diretor do Grupo TAPA, Eduardo Tolentino, ele me disse que gostaria muito de montar Agosto: Osage County do dramaturgo norte americano Tracy Letts, mas a peça exigia a construção de cenário grandioso que representava em corte uma antiga casa do sul dos Estados Unidos de três andares o que inviabilizava a produção por duas razões: o alto custo e o uso exclusivo do palco do teatro durante toda a temporada da peça, algo quase impossível nos dias de hoje, onde a maioria dos teatros mais parece shopping centers com mais de três peças simultaneamente em cartaz. Essa conversa ficou em minha memória junto com o desejo de assistir à peça em nossos palcos, pois eu havia assistido ao filme homônimo nela baseado, que no Brasil foi rebatizado como Álbum de Família, mesmo título da famosa peça de Nelson Rodrigues.
         Em 2017 eu soube que André Paes Leme montava a peça no Rio de Janeiro tendo Guida Vianna à frente do elenco no papel de Violet, personagem de Meryl Streep no filme citado acima. Impedido de ir até o Rio persistiu a vontade de assistir ao espetáculo.
         Eis que neste 12 de julho de 2018 a montagem chegou a São Paulo no icônico Teatro Anchieta, palco, desde 1967, de espetáculos tão importantes para o teatro brasileiro e todas as emoções que eu acreditava que ia sentir, se concretizaram no espetáculo apresentado.
         A montagem de André Paes Leme é superlativa em toda a sua simplicidade, a partir do cenário. Segundo ele, as necessidades oriundas de restrições de produção, o obrigaram a reduzir o cenário a um palco nu, com alguns adereços e concentrar as mudanças de locais da ação na iluminação (belíssimo trabalho de Renato Machado). Essa concepção fez com que o encenador criativamente intercalasse ações e até falas, dando um frescor e uma beleza ao trabalho, jamais imaginada, creio eu, nem pelo autor da peça, que sempre teve a mesma encenada com cenários realistas. O cenário original é descrito no início da peça pela empregada Johnna e está implícito em sua fala o pedido famoso de Shakespeare na abertura de Henrique IV, para que com o auxílio da imaginação o público “veja” os diversos aposentos onde se passam as ações.
         Nada contra as narrativas fragmentadas surgidas após o advento do teatro pós-moderno, mas como é bom ouvir uma boa história, desde que bem contada, dentro dos cânones da dramaturgia tradicional, com começo, meio e fim e com diálogos fluentes e bem estruturados. E Tracy Letts faz isso muito bem, como já tínhamos visto em Killer Joe (filme e peça aqui montada por Mário Bortolotto). Louve-se a ótima tradução do texto realizada por Guilherme Siman, também presente no elenco.

Letícia Isnard e Guida Vianna

         O elenco de onze atores é ótimo e homogêneo e a peça oferece momentos de destaque para cada personagem, mas não há como salientar os papéis de Barbara e Violet, as verdadeiras protagonistas, aqui vividas com muito brilho, respectivamente, por Letícia Isnard (atriz pouco presente nos palcos paulistanos) e a talentosíssima Guida Vianna, que acompanho desde 1981 quando assisti ao inesquecível Poleiro dos Anjos, com o seu grupo Pessoal do Cabaré, dirigido por Buza Ferraz.
         Um aparte: Levei o programa de Poleiro dos Anjos para mostrar à Guida Vianna e as fotos abaixo podem testemunhar a emoção e a alegria que tomou conta de nós dois.




Esta é a foto de 1981 que estamos vendo. Guida Vianna está na frente, ao centro.

         Voltando a Agosto: É um espetáculo forte com dramaturgia consistente, tradução cênica criativa e bela, interpretado por elenco talentoso e que desde já pode ser considerado um dos melhores já apresentados em nossos palcos neste ano.
         No programa, a idealizadora do projeto, Maria Siman, inicia o seu texto com a frase “Gosto de histórias” e nada mais coerente com esse pensamento o fato dela escolher para produzir o drama dessa família disfuncional do árido sul dos Estados Unidos tão bem retratada no texto de Tracy Letts.
         As fortes emoções contidas nos 130 minutos de duração do espetáculo e a excelência do mesmo, assim como o precioso trabalho de Guida Vianna e do elenco, fazem com que esse tempo passe em um piscar de olhos e só nos traga de volta à realidade na ovação final. Além disso, com certeza, você vai ver alguém de seu conhecimento retratado em uma das 12 personagens da peça.

         AGOSTO está em cartaz no Teatro Anchieta de quinta a sábado às 21h e domingo às 18h até 05/08/2018. ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

         13/08/2018





quinta-feira, 12 de julho de 2018

PACTO – A HISTÓRIA DE LEOPOLD & LOEB



        Ao que eu me lembre foi em 2013 que pela primeira vez em teatro  tive o impacto de assistir a uma intensa situação dramática (bipolaridade, perda de entes queridos, tratamento com eletrochoque) tratada na forma de musical. Quase Normal era a peça de Brian Yorkey e Tom Kitt, aqui dirigida por Tadeu Aguiar e com grande interpretação de Vanessa Gerbelli.  Em 2015 foi a vez de Urinal de Mark Hollmann e Greg Kotis dirigida por Zé Henrique de Paula mostrando de forma realista os problemas vividos pelos menos favorecidos pelo poder do capital.
        Esses experimentos realizados nos teatros off Broadway por autores norte americanos chegaram até nós nesta segunda década do século 21 demonstrando que há vida inteligente no planeta dos musicais dominado pelas historinhas superficiais e alegres.
        Pacto – A História de Leopold & Loeb, ora em cartaz no Teatro Porto Seguro é experiência ainda mais radical. Trata de assunto escabroso baseado em fatos reais (o assassinato de um adolescente por dois jovens desajustados em 1924 em Chicago) com apenas dois atores/cantores e um pianista. Texto e música de Stephen Dolginoff em excelente versão brasileira dos dois atores da peça, que também tiveram a iniciativa de montá-la e mais uma vez sob a direção de Zé Henrique de Paula.
        Na peça os jovens Nathan Leopold e Richard Loeb são assumidamente homossexuais, algo relativamente camuflado nas versões cinematográficas de Hitchcock (Festim Diabólico, 1951) e de Richard Fleischer (Estranha Compulsão, 1959) e a versão da história é contada pelo velho Leopold prestes a sair da prisão após mais de 30 anos de confinamento. Segundo ele foi sua obsessão por Loeb que o fez participar do crime hediondo planejado pelo primeiro,  para provar que eles eram os seres superiores proclamados como super homens por Nietzsche.
        Apesar do tema bastante forte e sério a peça sugere alguns momentos de descontração e até engraçados, algo que a direção e os atores fazem bom uso e o público responde com boas risadas.
        Leandro Luna (Leopold) e André Loddi (Loeb) se desincumbem com muita dignidade dos seus papéis passando da fala ao canto de maneira natural e harmoniosa. Presença importante é aquela do pianista (Andrei Presser) que também interpreta o Promotor de Justiça e a quem o programa não dá o devido destaque.
        A direção de Zé Henrique de Paula destaca o trabalho dos atores e é bem apoiada pela segura direção musical de Guilherme Terra e a iluminação sempre criativa de Fran Barros. Cenário e figurinos também assinados pelo diretor remetem à época da ação da peça.
        PACTO é um dos bons momentos teatrais deste iniciante segundo semestre e merece uma visita ao Teatro Porto Seguro às quartas e quintas feira às 21h. Em cartaz até 30 de agosto.

        12/07/2018

domingo, 24 de junho de 2018

POUSADA REFÚGIO


Tatiana Thomé, Maurício de Barros, Daniel Dottori, Glaucia Libertini , Leonardo Cortez e a maquete da Pousada.

        Os pós-dramáticos com certeza vão torcer o nariz para esse novo trabalho de Leonardo Cortez: Texto construído com começo, meio e fim; com unidades de tempo, lugar e ação e além do mais (pecado extremo!!) sem narrativa fragmentada vai contra os dogmas criados pelos discípulos de Hans-Thies Lehmann. O que esse grupo não percebe é que o teatro não pode ter dogmas nem precisa ser pós-moderno para ser bom. E Pousada Refúgio é muito bom teatro, consolidando o trabalho desse dramaturgo que nos últimos anos nos deu os excelentes Maldito Benefício (2014) e Sala dos Professores (2016).
        Dois casais se reúnem em jantar para comemorar a construção de uma pousada (metáfora para o paraíso utópico que todo ser humano almeja). O escapismo fica coroado com o nome que o grupo batiza o local: “Refúgio”. Bebe-se muito nesse encontro e aos poucos as verdades e os podres de cada um começam a florescer. Está presente também o cunhado do dono da casa que irá representar papel importantíssimo e desestabilizador na trama.
        A peça tem início muito engraçado e evolui para a quase tragédia ao final e o elenco sabe conduzir essa trajetória de maneira exemplar.
        A direção de Pedro Granato está em perfeita harmonia com o texto de Cortez provando que o trabalho foi feito em conjunto, o que é revelado no programa da peça.
        O bonito cenário de Diego Dac é construído de maneira exemplar e tem papel importante e significativo no desenlace. Os floridos figurinos de Marichilene Artisevkis revelam a personalidade e os desejos da classe média representada na peça.
        Leonardo Cortez também atua na peça representando o arrogante José Claudio, dono da casa, que aos poucos vai revelando sua fragilidade; Glaucia Libertini tem forte presença como a sua esposa. Tatiana Thomé sabe tirar partido de seus momentos de fúria. Maurício de Barros é presença iluminada em todos os espetáculos que faz e consegue arrancar boas risadas do público com seu patético Pradella, professor universitário frustrado. A grande surpresa do espetáculo é Daniel Dottori como o cunhado bipolar que inicia a peça como mero coadjuvante e depois se impõe sendo o responsável por vários desvios de trajetória da trama.
        Ri-se muito durante o espetáculo, risos até nervosos, por mexerem com valores do nosso cotidiano. Ao final, porém, resta aquele gosto amargo na boca da maioria dos brasileiros que tem seus sonhos destruídos por uma realidade acapachante.
        POUSADA REFÚGIO está em cartaz no Sesc Pompeia às quintas, sextas e sábados às 21h30 e aos domingos às 18h30. Só até o próximo domingo 1º de julho. CORRA!

24/06/2018


terça-feira, 12 de junho de 2018

DEADLINE



 
Maria Fanchin e Nicole Cordery


        Duas mulheres, uma roteirista e outra atriz, cada uma frustrada à sua maneira, falam ao telefone com seus interlocutores enquanto aguardam para fazer seus exames ginecológicos. Acabam se aproximando e tornando-se “amigas”, uma amparando as fraquezas da outra diante da perversidade do mundo em que vivem. A direção de Fernanda D’Umbra valoriza a história dessas duas mulheres imprimindo ritmo ágil à ação. Para tanto se vale do cenário de Anne Cerruti, formado por pufes de equilíbrios extremamente instáveis (clara metáfora ao desequilíbrio das personagens) e aos figurinos (também de Anne Cerruti) confeccionados com embalagem bolha.
        A trilha sonora de Conrado Goys tem aquela qualidade fundamental que é comentar a ação, sem se impor como protagonista.
        Quanto ao elenco... Quem elogiar em primeiro lugar?
        Edu Guimarães interpreta o patético bancário Washington que se torna a obsessão da carente Guta (a atriz); seu desequilíbrio ao sentar nos pufes pode entrar para a antologia das cenas engraçadas do nosso teatro. Edu também interpreta o namorado da roteirista Nicky.
        Maria Fanchin, verdadeira revelação na peça Pequenas Certezas (2017), também dirigida por Fernanda D’Umbra, reafirma seu talento cômico e histriônico, compondo Guta: insegura, carente e ao mesmo tempo tão engraçada. Suas expressões faciais nas reações às ações do interlocutor são impagáveis.
        Nicole Cordery, grande talento dramático comprovado em suas duas Alices (Ato a Quatro de 2015 e Alice- Retrato de Mulher Que Cozinha ao Fundo de 2016), mostra com sua Nicky que também tem excelente tempo de comédia, dando vida e graça até à leitura de um contrato de trabalho.
        A dinâmica movimentação cênica do elenco realizada/quase coreografada por Vitor Vieira é outro ponto forte da montagem.



        DEADLINE é um espetáculo tragicômico, como tragicômicos têm sido os dias que vivemos. Cartaz da Oficina Cultural Oswald de Andrade até 25 de julho às segundas, terças e quartas às 20h. Entrada franca. NÃO PERCA!

12/06/2018
         

segunda-feira, 4 de junho de 2018

III FEIRA ANTROPOFÁGICA DE OPINIÃO





            - O que pensa você do Brasil de hoje?

       A pergunta que Augusto Boal dirigiu a vários dramaturgos em 1968 que deu origem à I Feira Paulista de Opinião é repetida pela terceira vez pela Companhia Antropofágica para grupos de teatro de São Paulo. O resultado está nesta III Feira, desta vez apresentada em diversos espaços da Oficina Cultural Oswald de Andrade nos dias 31/05 e 01- 02/06 de 2018.  
       O evento foi animado pelos integrantes da Companhia: Rafael Graciola vestido de He Man (“Alô, amiguinhos!”) e Martha Guijarro que faziam festivamente as ligações entre as cenas.

       Na noite em que estive presente assisti a três cenas que tentavam responder à pergunta acima:
       NADA! (nos rostos cobertos e nas placas sem nenhuma palavra) e NOJO (nos arrotos de um dos atores), foi a resposta contundente do grupo Les Commediens Tropicales.
       Os Satyros fizeram uma denúncia sobre a perseguição e a intolerância com as minorias, em especial as travestis e as lésbicas.
       O grupo Arlequins de Teatro completou as cenas a que tive oportunidade de assistir com uma didática apresentação do conceito de mais valia de Karl Marx.


       O evento capitaneado por Thiago Reis Vasconcelos contou com a apresentação de cerca de 30 grupos teatrais e teve ainda atrações das áreas de música, poesia, cinema e artes visuais, além de mesas de debates. A logística das apresentações, assim como o horário do início e fim das mesmas funcionou perfeitamente, testemunhando a boa organização da Feira.
       Parabéns Companhia Antropofágica!

       02/06/2018


domingo, 3 de junho de 2018

AS 3 UIARAS DE SP CITY



A REALIDADE BATE À SUA PORTA... E COBRA SEU PREÇO!

        Na primeira cena de As 3 Uiaras de SP City, a travesti Miella cumprimenta o público e mostra o quanto ele é responsável, conivente ou, no mínimo, omisso em relação á perseguição e à intolerância com as travestis. A cena é forte e permite que cada um reveja seus conceitos. “Não mi objetifique sexualmente nem mi trate com violência, ouviu?, pelo menus no teatro, já q agora tô ocupando esse espaço”, fala Miella em certo momento dirigindo-se agressivamente aos espectadores em um olho no olho difícil de encarar.
        A esse prólogo segue-se a história da relação de Miella com sua amiga Cínthia que sonha fazer um show e da mulher cis Valéria, militante feminista que abraça a causa das travestis. Elas são as três Uiaras que vão viver a perseguição que um tal delegado Rochetti faz às travestis e àqueles que ele chama de “vagabundos” por não terem carteira de trabalho assinada. A peça se baseia em fatos reais ocorridos nos anos duros da ditadura militar (1970/1980), mas a atual taxação que travesti é marginal e sua consequente perseguição dão uma triste atualidade ao que é apresentado neste forte e necessário texto de Ave Terrena Alves, escrito em português bastante característico como pode ser notado na frase de Miella citada acima.

Ave Terrena Alves, autora

        Muito interessante e bem vinda é a inclusão da guerreira Ruth Escobar como personagem defensora dos direitos humanos; o embate de Ruth com Rochetti é um dos momentos mais impactantes da peça. Uma verdadeira homenagem a essa mulher a quem o teatro paulistano tanto deve.
        A encenação de Diego Moschkovich tem bons aliados nos figurinos de Diogo Costa, na iluminação de Wagner Antônio e na participação de três músicos ao vivo e concentra-se na interpretação do elenco. Há um belo achado interativo na cena da passeata pela liberação das travestis e pela deposição de Rochetti.
        Sophia Castellano (Valéria) e Diego Chilio (Rochetti) começam suas cenas titubeantes e revelando certa insegurança, mas crescem de maneira surpreendente ao longo da ação. Maria Emília Faganello tem uma entrada triunfal como Ruth Escobar e brilha junto com Diego na já citada do embate.

Sophia Castellano, Veronica Valentino e Danna Lisboa

        Veronica Valentino tem voz potente e bela, além de grande presença cênica, sendo responsável pelos poucos momentos de humor do espetáculo. À poderosa interpretação do prólogo, segue-se um meticuloso trabalho de composição de Danna Lisboa para sua personagem Miella. Os trabalhos dessas duas atrizes podem ser considerados como uns dos melhores vistos neste ano nos teatros de SP City.
        Dessa maneira, esta 4ª edição da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP começa com o pé direiro, revelando o texto tão oportuno e bem realizado de Ave Terrena Alves. Longa vida à Mostra!

        AS 3 UIARAS DE SP CITY fica em cartaz no CCSP apenas até 10/06. Sexta e sábado ás 21h e domingo às 20h.

        03/06/2018
       

sábado, 2 de junho de 2018

Pi – PANORÂMICA INSANA



O RETRATO DO CAOS

        O elucidativo programa da peça Pi contém valiosas informações sobre os malefícios que o homem já provocou para si e para este pobre planeta; uma delas mostra que se a escala de criação da terra fosse marcada por 24 horas, o homem teria surgido no último segundo antes do dia se completar. O espetáculo de Bia Lessa mostra que seria melhor que o homem tivesse ficado para o dia seguinte, ou melhor ainda, para nunca mais. Mas uma vez que estamos por aqui e criamos um mundo que não nos serve, algo precisa ser feito, completa a diretora. E o que ela faz é denunciar fortemente o caos provocado pelos seres humanos.
        Pi é um dos acontecimentos teatrais mais importantes e contundentes surgidos neste ano nos palcos paulistanos. Bia Lessa repete com maior impacto aquele provocado por Grande Sertão: Veredas no ano passado.
        A peça é montada em um teatro semi destruído e tem todo o espaço cênico coberto com 11 mil peças de roupa que terão papel importante no desenvolver da ação. A encenação remete a um dos primeiros trabalhos de Bia Lessa, o Exercício nº1 (1987) tanto na concepção cênica como nos temas tratados. Apresentado em São Paulo no Teatro Mars no ano seguinte, Exercício nº1 apresentava em flashes vários aspectos de um mundo cruel e Pi mostra que a situação só piorou nos 30 anos que separam os dois espetáculos, além de também comprovar a maturidade e a criatividade da diretora. As cenas são assinadas por Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant'Anna.
        Os quatro atores iniciam a peça vestindo e desvestindo roupas e caracterizando os donos daqueles vestuários. Essa ação acontece enquanto o público adentra a sala e o ritmo da troca de roupas aumenta vertiginosamente até o espetáculo realmente começar. Não se trata de uma história, mas de vários fragmentos do mundo contemporâneo como aquele dos habitantes de um lixão, o nascimento, a morte, o sexo, a ostentação, o preconceito, a guerra e tantas outras coisas criadas pelo homem. Há até um momento suave com brincadeiras de crianças.
        Cláudia Abreu, Leandra Leal, Rodrigo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira encarregam-se de representar todas essas situações com entrega pouco vista em nossos palcos. Seria injusto destacar este ou aquele nome porque todos estão absolutamente soberbos em suas interpretações. No caso de um prêmio ele só seria justo se contemplasse o elenco como um todo. E por falar em prêmios, Bia Lessa é mais uma vez forte candidata àquele de melhor direção, assim como o seu espetáculo, onde tudo se encaixa de maneira perfeita: cenografia, luz e a excelente trilha sonora que vai desde o belíssimo tema do filme Amor à Flor da Pele até a poderosa música das óperas de Wagner.
       
        Ao contrário do número pi (3,1416...., lembra?) que talvez termine no infinito, a peça tem um final que é de tamanho impacto que as pessoas saem da sala atordoadas e com lágrimas nos olhos.
        Somos responsáveis pelo mundo em que vivemos e Pi nos faz refletir sobre isso.


        Pi – Panorâmica Insana está em cartaz no Teatro Novo situado em uma galeria da Rua Domingos de Moraes, 348 ás sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h até 29/07. IMPERDÍVEL.

        02/06/2018


segunda-feira, 28 de maio de 2018

TEATRO - TEMPLO DA UTOPIA E DA ESPERANÇA: AUÊ e SUASSUNA



        Nos dias tão sombrios que nosso país está vivendo, onde buscar um pouco de alento, sem se alienar do mundo?
        No último sábado saí de casa sem saber se chegaria ao meu destino e se chegasse, preocupado se conseguiria voltar (dependo de um ônibus do metrô até em casa); além disso, meu pensamento rodava mais preocupado ainda com o destino deste pobre Brasil, que está nas mãos sabe lá de quem. Foi nesse estado de espírito que cheguei no Teatro Shopping Frei Caneca para assistir pela quarta vez  a AUÊ com a Barca dos Corações Partidos.
        Que alimento para a alma! Esses talentosos rapazes desfilam por hora e meia as alegrias e tristezas da paixão e do amor por meio de belíssimas canções e movimentação cênica primorosa orquestrada pela diretora Duda Maia. Eles cantam, dançam, tocam muitos instrumentos, interpretam e fazem o público rir e chorar por meio de dramaturgia toda calcada nas letras das músicas. Ao final cada um do público sai encantado e feliz, assobiando as canções e se congraçando com aqueles que estão ao seu lado em direção à saída. Sorrisos de cumplicidade demonstram a felicidade de ter visto algo tão belo.


        No mesmo teatro está em cartaz SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL, outra maravilha do mesmo grupo.


        O Teatro Shopping Frei Caneca deve se sentir privilegiado por estar abrigando até 01 de julho essas duas preciosidades que estão trazendo tanta alegria para o público paulistano.

        Palmas para a BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS!



        AUÊ – Sábados às 17h e domingos às 16h
        SUASSUNA – Sextas e sábados às 21h e domingos às 19h

domingo, 27 de maio de 2018

LEOPOLDINA – INDEPENDÊNCIA E MORTE



AQUILO QUE JOAQUIM SILVA NÃO ME CONTOU


        Na minha época escolar a maioria dos livros de História era de autoria desse senhor Joaquim Silva. Eles mostravam versão romanceada dos protagonistas da História; Dom Pedro I, por exemplo, era o herói bonitão que proclamou a independência do Brasil e que só se apaixonou pela sensual Domitila porque sua esposa Leopoldina era feia e desinteressante. Essa versão, de interesse da classe dominante, só se consolidou através dos tempos como, por exemplo, através do filme Independência ou Morte (produzido em 1972, no auge da ditadura militar), onde os protagonistas eram Pedro (Tarcisio Meira) e Domitila (Glória Menezes) e à pobre Leopoldina era reservado um papel secundário representado ali por Kate Hansen (pelo menos aqui ela era bonita!). A vida me levou para outras áreas de interesse e essa versão permaneceu na minha memória, apesar de que com o tempo cada vez mais ter desconfiado das versões oficiais da nossa história.
        Eis que Marcos Damigo apoiado nos dados obtidos com a consultoria histórica de Paulo Rezzuti traz para o teatro uma versão revolucionária da figura de Leopoldina, que foi uma mulher inteligente, estrategista e a verdadeira agente da independência do Brasil, enquanto isso o seu Pedro voltava de Santos esfarrapado montado em uma mula às margens do riacho Ipiranga! Essa e outras importantes ações de Leopoldina, como seu amor e conhecimento pelas plantas, são a base do texto e da encenação de Damigo. Sem saber, no século 19, Leopoldina plantou a semente do feminismo e dos direitos da mulher no Brasil.
        A peça é dividida em três pequenos atos. No primeiro, Leopoldina, que era austríaca, fala sobre suas dificuldades em se adaptar em um país tropical dominado pelos grosseiros portugueses e onde os negros desfilam seminus pelas ruas. No segundo há o embate com José Bonifácio, onde ela toma conhecimento das manobras de Pedro com Domitila. Uma envelhecida (apesar da pouca idade) e revoltada Leopoldina domina o terceiro ato onde ela expõe toda a fragilidade de Pedro. Cada ato é separado por informações históricas apresentadas em vídeo. A montagem de Damigo chega a ser didática, sem absolutamente ser monótona. Há momentos tragicômicos como quando Leopoldina revela que apesar de seus esforços ela só será lembrada no Brasil como estação de trem ou enredo de escola de samba.
        Joca Andreazza representa José Bonifácio mostrando a força da personagem, mas também sua fragilidade em momento que está sujeito a ser enviado a Portugal sob-risco de ser condenado a morte. Sara Antunes brilha como Leopoldina. Seus dois solos que vão da perplexidade do primeiro ato à revolta do terceiro, assim como seu diálogo com José Bonifácio revelam, ou melhor, consolidam a carreira dessa grande atriz. Sua movimentação em cena é prejudicada por uma marcação convencional e, principalmente, pelo figurino de Cassio Brasil, que dificulta o seu andar.
        O cenário de Renato Bolelli Rebouças com um telão ao fundo não diz muito ao que veio.
        A revelação de fatos importantíssimos da História do Brasil e a interpretação extraordinária de Sara Antunes tornam obrigatório o espetáculo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 21/06.
        Segunda, quarta, quinta, sexta e sábado às 20h e domingo às 18h.



        27/05/2018
 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL




        Bibi é teatro musical brasileiro de gente grande. Apesar de usar os recursos estéticos dos shows da Broadway com números musicais grandiosos com grands finales preparados para os aplausos da plateia, a peça tem cara de Brasil mostrando aspectos da vida e obra de Bibi Ferreira (1922) e por consequência do teatro brasileiro, uma vez que Bibi vive a cena brasileira praticamente desde que nasceu. Figuras que fizeram parte de sua trajetória como Henriette Morineau, Maria Della Costa, Cacilda Becker, Maria Bethânia, Ítalo Rossi, Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar, Thereza Aragão e Paulo Pontes aparecem ao longo do espetáculo, às vezes de forma superficial e caricatural. Há uma delicada homenagem a Tônia Carrero na cena em que Bibi fica sabendo que foi escolhida para o papel de Elisa Doolittle em My Fair Lady (Tônia era a outra candidata ao papel)
          Procópio Ferreira (1898-1979), pai de Bibi, é uma personagem bem desenhada pelos autores e muito bem interpretada pelo jovem Chris Penna. Sua última saída de cena caracterizando sua morte emociona e é aplaudida em cena aberta. Guilherme Logullo exagera nos gestos “combatentes” de Paulo Pontes, mas o faz bem. Leo Bahia brilha como o Mestre de Cerimônias, bem ladeado por Flávia Santana (Cigana) e Rosana Penna (Vó Irma) que junto com ele narram a trajetória de Bibi. Destaque também para Luísa Vianna como a secretária Neide.

Amanda Costa (Bibi) e Chris Penna (Procópio)

        A estrela absoluta da noite é Amanda Costa em interpretação comovida de sua personagem tanto nos números musicais como nas cenas faladas (sua postura física na maturidade de Bibi é impressionante). Amanda entrega-se totalmente ao papel, canta e interpreta maravilhosamente, estando desde já na lista das melhores atrizes de 2018. Na noite de estreia, ao cumprimentá-la tive o prazer de ser fotografado ao seu lado pela Nanda Rovere.


        Como Bibi interpretou grandes musicais (My Fair Lady; Alô, Dolly; O Homem de la Mancha; Gota d’Água, Piaf), a peça tem chance de recriar momentos memoráveis dos mesmos. A produção teve o cuidado de pesquisar as letras das versões originais. As músicas adicionais são de Thereza Tinoco e a segura direção musical é de Tony Lucchesi que rege um pequeno grupo de oito músicos com efeito de grande orquestra.
        Direção segura e madura de Tadeu Aguiar a partir do eficiente texto de Artur Xexéo e Luanna Guimarães que ambienta a trajetória de Bibi em um circo de nome Querolo e que dá um passo adiante em relação aos musicais biográficos provenientes do Rio de Janeiro que têm inundado a cena brasileira.        
        O espetáculo é uma grande homenagem não só a Bibi, mas ao teatro brasileiro e quem se delicia com isso é o feliz espectador.

        BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL está em cartaz no Teatro Bradesco às quintas (19h), sextas e sábados (21h) e domingos (20h) até 01/07. IMPERDÍVEL (até para quem torce o nariz para musicais, mas ama o teatro brasileiro)

        14/05/2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A PROFISSÃO DA SRA. WARREN



        A Sra. Warren é uma velha dama indigna que prosperou, e é feliz, exercendo a profissão mais antiga do mundo. Às custas dessa profissão educou à distância sua filha Vivie nas melhores escolas. Vivie é uma jovem extremamente pragmática e materialista, porém,   quando fica sabendo da origem do dinheiro que a educou, não aceita mais a mãe. Ambas têm argumentos que justificam seus atos e aí está a grandeza dessa peça de Bernard Shaw (1856-1950) escrita no final do século XIX com tema polêmico e proibido na época, que defende os direitos femininos de ter livre escolha; a peça vai além colocando em questão outros assuntos como a necessidade da arte, no embate entre Vivie e Praed, um cultor das artes. A peça originalmente tem quatro atos que nesta montagem de Marco Antônio Pâmio são apresentados em sequência (separados por suaves black outs) em ato único com duração de 1h40. A tradução é de Clara Carvalho e o programa não indica se houve supressão de cenas e/ou diálogos.
        Teatro de palavra muito bem captado por Pâmio que soube focar sua atenção no trabalho dos atores e trazendo a ação para os anos 1950. O elenco é ótimo: Sergio Mastropasqua representa o vilão da história Crofts (o único personagem para o qual Shaw dá um veredito), Mario Borges está ótimo como o bonachão Praed, o jovem Caetano O”Maihlan é uma boa surpresa como Frank e Cláudio Curi representa com dignidade o Reverendo Gardner. Karen Coelho defende a fria Vivie (vivida em 1960 por Fernanda Montenegro no Rio de Janeiro), enfrentando com brio e em pé de igualdade os diversos embates a que é submetida durante a ação da peça. E agora chega a vez da sempre talentosa Clara Carvalho! É bonito vê-la em papel que foge ao seu tipo físico e à sua elegância e delicadeza: a Sra Warren é uma pessoa simpática, mas é vulgar no modo de agir e de se vestir (haja vista seus vestidos rodados criados por Fabio Namatame e seu penteado) , e Clara a representa com todas as nuances necessárias à personagem.


        O cenário simples de Duda Arruk é prático e abriga os diversos ambientes em que se passa a peça. A trilha criada pelo talentoso Gregory Silvar desta vez parece deslocada daquilo que texto e encenação se propõem.

        A PROFISSÃO DA SRA. WARREN está em cartaz no MASP às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 20h até 01/07.

        14/05/2018

       

sábado, 12 de maio de 2018

HOJE É DIA DE ROCK



Relato crítico-poético de uma noite mágica

        Zé Vicente (1945-2007) morava em Londres com Antonio Bivar em 1970 quando recebeu carta de seu irmão Messias relatando a morte de seu pai Pedro. A emocionada resposta a essa carta para sua mãe Júlia é gênese de sua peça Hoje É Dia de Rock que consiste de memórias familiares com personagens inspirados nos pais e nos irmãos banhadas com o realismo fantástico de Gabriel García Marquez e as ideias de Carlos Castañeda (a personagem Inca).
         A peça teve uma montagem considerada clássica em 1971 no Rio de Janeiro dirigida e interpretada por Rubens Corrêa e outra em São Paulo       em 1973 dirigida por Emílio Di Biasi com Raul Cortez e elenco com nomes de enorme talento, mas que não teve repercussão semelhante à carioca.


        Quase 50 depois, Gabriel Villela revisita essa bela obra de Zé Vicente em produção do Teatro de Comédia do Paraná com elenco formado por atores da cena curitibana. O ambiente mineiro sugerido pelo texto está garantido pelo estilo inconfundível do encenador, pelos figurinos e cenários também assinados por ele e pela sugestiva inclusão de canções do Clube da Esquina que permeiam toda a ação da peça. O excepcional jovem elenco liderado pela grande atriz Rosana Stavis interpreta, canta e dança aquilo que Zé Vicente criou. Fica difícil destacar esta ou outra interpretação haja vista a homogeneidade do elenco, mas arrisco lembrar os trabalhos de Helena Tezza como Isabel, de Nathan Milléo Gualda como a suave e doce Rosario, de Evandro Santiago como o narrador, de Rodrigo Ferrarini como Pedro e da poderosa Rosana Stavis como a mãe Adélia.


        Existem alguns momentos da vida em que uma conjunção de fatos gera fato maior, digno de entrar na história pessoal de alguém. Na noite de ontem, graças ao meu amigo Haroldo Ferrari fui agraciado por um desses momentos.
        Já conformado com a impossibilidade de assistir à montagem que Gabriel Villela fez da obra de José Vicente no Sesc Paulista (apenas quatro apresentações em espaço com 50 lugares com ingressos esgotados) fui surpreendido com telefonema de Haroldo me informando que eu era convidado dos familiares de Zé Vicente, para assistir à peça na noite de estreia.

Eu, Mariana, Maria Antônia, Vitória e Áldice Lopes (produtor)

        Assisti à peça ao lado do cunhado Osmar, da sobrinha Mariana e das irmãs Vitória e Maria Antônia (retratada na peça na personagem Isabel). Maria Antônia, sentada ao meu lado, em muitos momentos me cutucava emocionada com lágrimas nos olhos e sussurrava “Foi assim mesmo!”. Esse momento de conviver de maneira tão próxima com realidade e ficção pode ser considerado um dos mais sublimes da minha longa vivência como espectador: emoções provocadas pelo texto e pela excepcional montagem de Villela embaladas e alimentadas pela presença ao meu lado de alguém que inspirou personagem da peça.

        Por cortesia e com permissão de Maria Antônia reproduzo abaixo foto da família de Zé Vicente com os nomes de cada um e entre parênteses os nomes das personagens por eles inspiradas na peça: no alto, João (Quincas), o irmão mais velho. Segunda fileira, da esquerda para a direita: José Vicente (Valente); Maria, a irmã cega (Rosario); Cida; Messias (Davi). Terceira fileira, da esquerda para a direita: Maria Antônia (Isabel); Pedro, o pai (Pedro Fogueteiro); Vitória; Júlia, a mãe (Adélia) e Bartolomeu. Foto tirada em São Sebastião do Paraíso, MG, nos anos 1950.


        Noite mágica de 10 de maio de 2018.

        ONTEM FOI DIA DE ROCK!

      P.S. São Paulo não pode ficar limitada a essa temporada relâmpago onde apenas 200 privilegiados espectadores tiveram a oportunidade de assistir a este belo espetáculo. Urge que o Sesc e/ou outras entidades culturais os tragam de volta para uma temporada mais longa.

        11/05/2018