terça-feira, 20 de novembro de 2018

ORDINÁRIOS



        É preciso muita arte para ter delicadeza, sutileza e ao mesmo tempo humor ácido e crítico para fazer palhaçaria como se deve e La Mínima talvez seja atualmente a companhia que melhor sabe fazer essa fusão de circo e teatro de forma tão harmoniosa e divertida. Depois de Mistero Buffo (2012) e Pagliacci (2017), surge Ordinários, este outro bijou a ser incorporado em seu consistente repertório e onde Álvaro Assad volta a dirigir o grupo.
        La Mínima era formada basicamente por Fernando Sampaio e Domingos Montagner (o palhaço Agenor). Em 2012, Fernando Paz, excelente ator que já atuou em muitas companhias paulistas, incorporou-se de forma definitiva ao grupo. Após o falecimento de Montagner, Alexandre Roit em Pagliacci e agora Filipe Bregantim em Ordinários, fazem as vezes do personagem metido a galã e valentão que era Agenor.
        Com um roteiro enxuto assinado por Newton Moreno, Álvaro Assad e pelo grupo, contam-se as desventuras de três soldados perdidos em uma guerra tão insana, como qualquer outra guerra. Por meio das dificuldades que eles enfrentam para resgatar um major prisioneiro do inimigo somos testemunhas dos absurdos que fazem parte do mundo contemporâneo. Momentos muito engraçados mesclam-se com outros poéticos e sublimes como a pequena joia que é Fernando Paz tocando O Cisne nos copos singelamente acompanhado pelos outros dois companheiros.
        Fernando Sampaio com sua irresistível máscara facial é responsável pelos momentos mais engraçados da peça; Fernando Paz faz com delicadeza o soldado mais sensível e intelectualizado da tropa e Filipe Bregantim se sai muito bem como o chefe atrapalhado do grupo.
         Ordinários, marchem... até a próxima mina terrestre!
        Voar é com os pássaros e palhaçaria é para quem sabe fazê-la, não tornando o grotesco simplesmente grosseiro, como acontece com muitos espetáculos que tentam se aproximar da linguagem dos palhaços.
        Ordinários é um espetáculo divertido e ao mesmo tempo muito sério com forte carga poética. Para se aplaudir de pé e para se sair do teatro com a alma lavada e alimentada.
        A curta temporada de Ordinários termina hoje (20/11) no Itaú Cultural, onde La Mínima realizou uma série de atividades, mas fique atento que brevemente deve voltar ao cartaz de algum teatro da cidade. IMPERDÍVEL.

        20/11/2108


       

sábado, 17 de novembro de 2018

O ETERNO RETORNO


  
        O novo texto de Samir Yazbek, que está comemorando 30 anos de profissão dramaturgo, traz uma série de referências devidamente creditadas pelo próprio autor no programa da peça: o título é igual ao da memorável montagem do Mestre Antunes Filho de 1981 que abrigava quatro peças de Nelson Rodrigues e este é outra referência do autor, que se utiliza do recurso dramatúrgico-cênico dos três planos (realidade, memória, imaginação) de Vestido de Noiva para demonstrar os conflitos do protagonista (um ator em crise existencial e profissional) com a mãe (memória), o primeiro diretor (imaginação) e a namorada e o amigo produtor (realidade).
        Utilizando-se desses elementos e da linguagem do metateatro o dramaturgo cria trama cheia de significados que extrapola o universo teatral e faz refletir sobre os dias conturbados que estamos vivendo
        A encenação de Sérgio Ferrara faz límpida tradução cênica do texto de Yazbek e é amparada pela belíssima iluminação de Aline Santini. A meu ver trilha menos grandiloquente do que Richard Wagner na cena final surtiria melhor efeito para ilustrar os dramas do protagonista.

Patrícia Gasppar, Helô Cintra Castilho, Luciano Gatti, Carlos Palma e Gustavo Haddad

        Outro grande trunfo do espetáculo é o elenco harmonioso: desde o pequeno papel do amigo produtor muito bem defendido por Gustavo Haddad, passando pelas boas interpretações de Helô Cintra Castilho como a namorada (ótima na cena da ruptura), de Carlos Palma (como o diretor, lembrando Antunes Filho, do qual autor e diretor foram discípulos), de Patrícia Gasppar (grande presença cênica como a mãe) e culminando com Luciano Gatti como o protagonista, em significativo momento de sua carreira que nos últimos anos já nos ofereceu Ato a Quatro, Solilóquios e Se Existe Eu Ainda Não Encontrei, sempre com muito talento e comprovando que ele é um dos melhores atores dessa geração que hoje circula pela faixa dos 40 anos de idade.
        A encenação de O Eterno Retorno é acompanhada pela leitura dramática de cinco peças inéditas do dramaturgo, além de bate-papo sobre dramaturgia contemporânea brasileira e oficina sobre dramaturgia ministrada por Yazbek. (vide datas e horários na programação do SESC 24 de Maio)
        O ETERNO RETORNO está em cartaz no SESC 24 de Maio até 02 de dezembro às sextas (18h e 21h), sábados (21h) e domingos (18h).

        17/11/2108


       


terça-feira, 13 de novembro de 2018

HOTEL TENNESSEE



        A experiência de assistir ao interativo, imersivo e itinerante Hotel Tennessee não chega a ser nova, mas é bela e excitante.



         A sensação inicia quando se chega à Casa Don’Anna, um majestoso casarão construído em 1912 que faz parte do “Conjunto de Imóveis do Campos Elísios” tombado pelo Estado em 2013. A mansão está em perfeito estado de conservação, possui belíssimo jardim com muitas árvores, orquídeas e outras plantas. O jardim abriga restaurante peruano e cafeteria com mesas onde o público pode se acomodar até ser chamado para fazer o check in no hotel. E aí é que realmente começa a aventura.


        O público, ou melhor, os hóspedes são recepcionados por uma jovem e enérgica hostess (desempenho da atriz Ana Lys, que, entre outras qualidades, tem dicção perfeita) que dá as informações necessárias sobre o funcionamento do hotel e as regras da casa.
        Adentra-se o lobby que contém o front desk, tenda de bebidas e petiscos e loja de souvenir, aí acontecem as primeiras ações com a participação do dono do hotel, dos funcionários, do próprio Tennessee Williams e até de alguns hóspedes famosos como a atriz Rita Hayworth. A veracidade das cenas é notável, fazendo com que nos sintamos como verdadeiros hóspedes testemunhas oculares do que ali se passa.
        Após o check in somos confrontados com os conflitos dos funcionários para em seguida rumar para o Bar Peacock onde assistimos à cena selecionada para aquela sessão (12 peças de Tennessee Williams são a base do projeto e em cada sessão são apresentados trechos de algumas delas).
        Uma imponente escada de mármore adornada por colorido vitrô nos leva aos quartos onde será apresentada a última cena da noite. Nossa hospedagem chega ao fim e só resta nos dirigirmos à recepção para fazer o check out.
        Elenco jovem e afinadíssimo dirigido por Brian Penido Ross e Ana Lys compõe tanto os funcionários do hotel, como os personagens das peças representadas. É estimulante ver o rendimento do conjunto que provém de um grupo de estudos da obra de Tennessee Williams realizado pelo Grupo TAPA.
        Hotel Tennessee é uma das gratas surpresas teatrais deste ano tão conturbado para as artes, para a cultura e para o país de maneira geral e merece ser prestigiado não só pelas suas qualidades artísticas como também por divulgar um verdadeiro oásis existente nas proximidades da Cracolândia. (Não se preocupe que o acesso ao local é bastante seguro tanto por transporte público como por auto)

        HOTEL TENNESSEE está em cartaz até 02 de dezembro na Casa Don’Anna (Rua Guaianazes, 1149 – esquina com a Alameda Nothmann) às quintas (20h), sextas (21h), sábados (19h e 21h) e domingos (17h30 e 19h30). É obrigatório fazer reserva pelo whatzap de Mrs Wire: 11 99386 8150.

        13/11/2018



terça-feira, 6 de novembro de 2018

O DESMONTE



AINDA RESTA UMA ESPERANÇA

        Nelson Rodrigues tinha pouco menos de 30 anos quando escreveu sua primeira peça A Mulher Sem Pecado e atingiu a fama aos 31 quando estreou Vestido de Noiva em 1943. O mesmo se deu com Jorge Andrade que escreveu O Telescópio aos 29 anos e tornou-se conhecido em 1954 com A Moratória. Gianfrancesco Guarnieri escreve sua obra prima Eles Não Usam Black Tie aos 23 anos. E no campo da música para teatro basta lembrar-se de Edu Lobo com a trilha para Arena Conta Zumbi aos 22 anos e Chico Buarque com a mesma idade compondo para Morte e Vida Severina.

           Flor da idade, onde estás nos dias de hoje?

        Sempre me faço essa pergunta cada vez que entro em um teatro para assistir a um espetáculo realizado por jovens e tenho boas surpresas no campo da interpretação e da direção, mas confesso que raramente isso ocorre em relação à dramaturgia.   
        E eis que o jovem e talentoso trinômio autor/diretor/ator se concretizou na noite de ontem, quando assisti, já em final de temporada, ao surpreendente O Desmonte, escrito e dirigido por Amarildo Felix e interpretado por Vitor Placca.


        Um homem isola-se do mundo ao perder alguém e sofre um verdadeiro desmonte físico e moral. Acaba achando companhia em um rato, que a princípio o incomoda, mas depois acaba fazendo parte dele. Com essa simples premissa, Felix escreve texto repleto de poesia indignada e potente que mantém essa potência na sua tradução cênica tendo por base a excepcional atuação de Vitor Placca, sem dúvida uma das melhores deste ano prestes a acabar. Toda essa beleza é realizada por dois jovens artistas beirando os 30 anos que contribuem e vão continuar contribuindo de maneira inestimável com o teatro brasileiro... Se a realidade do nosso país assim o permitir, é claro!
        Artistas maravilhosos como Antunes Filho, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Zé Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Nathalia Timberg estão aí muito firmes enriquecendo nossos palcos, mas necessitamos desse sangue jovem para dar continuidade ao tesouro inestimável que é nosso teatro.
        O DESMONTE está em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade às segundas e terças às 20h, só até a próxima semana (13/11). Entrada gratuita. IMPERDÍVEL para todos aqueles que acreditam na qualidade e na renovação do nosso teatro.

        06/11/2018

       
       

sábado, 27 de outubro de 2018

NAVALHA NA CARNE NEGRA DE ELZA




        Dois espetáculos em cartaz na cidade revelam grande potência no que se refere à defesa dos direitos humanos e em especial àqueles das mulheres e dos negros e têm muito mais coisas em comum do que aparentam ter: ambos, sem ser panfletário, vão direto ao ponto de maneira clara, objetiva e com muita arte, cada um à sua maneira. Uma peça de teatro de 1967 e a vida de uma grande cantora negra combatente pela vida são as bases para Navalha na Carne Negra e Elza, respectivamente.


        Navalha na Carne Negra. A montagem de José Fernando Peixoto de Azevedo para o texto de Plínio Marcos trás três negros nos papeis de Neusa Sueli, Vado e Veludo e o detalhe que faz toda a diferença na encenação é o tratamento dado ao personagem do cafetão Vado, sempre mostrado como o machão violento e dono da situação em outras montagens. Aqui ele é mais um perdido naquela noite suja e também vítima do submundo onde nasceu e cresceu; sua única linguagem é a violência, que na verdade demonstra sua fragilidade e insegurança. O homossexual Veludo é o mais esperto dos três e o que melhor sabe tirar proveito da situação em que eles vivem.
        É absolutamente sensacional o desempenho de Lucelia Sergio. Suas expressões faciais são impressionantes e muito bem visualizadas pelos closes permitidos pela captação em vídeo. Trabalho digno de constar na lista das melhores interpretações femininas de 2018. Raphael Garcia interpreta Veludo com muita ironia e garra e a apatia de Rodrigo dos Santos vem de seu personagem (Vado) e não de sua interpretação. Três trabalhos exemplares que nada ficam a dever àqueles de Ruthinéa de Moraes, Edgar Gurgel Aranha e Paulo Villaça na antológica montagem de 1967 dirigida por Jairo Arco e Flexa.
        A direção dos atores é valorizada pelo uso da câmera que capta detalhes das expressões de cada um, sendo que a “camera woman” Isabel Praxedes é quase uma quarta personagem da peça, tanto que ela se incorpora totalmente à ação. Azevedo usa também o recurso de repetir algumas cenas no intuito de enfatizar o que elas têm a dizer. O dispositivo cênico também de autoria do diretor é formado por duas telas que mostram as imagens captadas pela câmera, poucos adereços e uma cama bonita demais para o hotel de quinta categoria onde se passa a ação.


        Elza a princípio parece ser mais um musical biográfico como tantos que grassam em nossos palcos, a maioria proveniente do Rio de Janeiro, mas é muito mais. A partir do texto escrito por Vinicius Calderoni e de um roteiro de canções perfeito (a ficha técnica não especifica a autoria desse roteiro) que comenta e costura a ação, Duda Maia cria um musical só com mulheres (sete atrizes e seis musicistas) pautado em movimentação cênica vibrante das atrizes (marca registrada de Duda, haja vista seu trabalho em Auê), uso de adereços baratos e criativos (baldes e alguns carrinhos), cenário de André Cortez e excelente direção musical comandada por Pedro Luís. O texto mostra as agruras vividas por Elza Soares e sua luta constante para enfrentar os limões que a vida lhe deu, sempre os transformando com muita garra em uma limonada. Peço perdão pela frase clichê, mas é a que mais se adequa a essa grande mulher. São sete atrizes/cantoras interpretando Elza e as pessoas que passaram pela sua trajetória, todas elas excelentes tanto nas falas como no canto. Vozes amplas e sonoras que ecoam esplendorosamente no grande auditório do Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros. Larissa Luz é o destaque natural por incorporar a personagem de maneira impressionante, mas seria injusto não mencionar o belíssimo trabalho das outras seis intérpretes e das musicistas.
        A reação do público é emocionante com aplausos de pé em vários momentos do espetáculo.

        As duas peças, como se vê, têm muito em comum no conteúdo, apesar de diferirem totalmente na forma e no desfecho. Enquanto Navalha na Carne é bastante pessimista concluindo que aquela vida não passa de “um monte de bosta fedida”, Elza, por outro lado, mostra que apesar de todos os tombos sofridos, a protagonista (e a mulher na vida real) sempre “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Dois grandes espetáculos para pensar o tempo presente.

        NAVALHA NA CARNE NEGRA – Cartaz do Centro Cultural São Paulo às sextas e aos sábados (21h) e aos domingos (20h). Até 11/11.

        ELZA – Cartaz do SESC Pinheiros de quinta a sábado (21h) e domingo (18h). Até 18/11.

        27/10/2018       

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

AI - 5




        Ontem dediquei o dia a relembrar um dos momentos mais tenebrosos da nossa história recente: a promulgação do ato institucional número 5 pelo General Costa Silva, então presidente da ditadura que nos foi imposta pelo golpe civil-militar de abril de 1964. É de conhecimento geral os verdadeiros anos de terror provocados pela aplicação de tal ato e os dois eventos a que assisti tratam de sinalizar a ato em si e suas consequências. Uma exposição e uma peça de teatro que se complementam e que curiosamente foram idealizadas e realizadas em separado. Organizadas por dois visionários, dois Paulos de sobrenomes muito parecidos Miyada (exposição) e Maeda (peça), os dois acontecimentos são de suma importância para o momento que estamos vivendo, momento esse que dependendo do resultado das eleições dp próximo domingo pode fazer reviver os anos de terror da ditadura instalada no Brasil por 20 anos (1964-1985).

        AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar é a exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até o próximo dia 04 de novembro. Por meio de documentos e de obras de arte (cinema, teatro, artes plásticas) realizadas no período testemunhamos as barbaridades ocorridas como tortura, desaparecimento e morte de opositores do regime, assim como, a censura imposta aos artistas que corajosamente tentavam denunciar o que estava acontecendo. A lista dos artistas participantes da exposição inclui cerca de 100 nomes.

        AI-5 - Reconstituição Cênica da Reunião do Conselho de Segurança Nacional de 13 de dezembro de 1968. Com esse longo título Paulo Maeda coloca no palco os integrantes de tal reunião que sob a liderança de Costa e Silva aprovaram o ato. Trata-se de poderoso exemplo de Teatro Documentário que estarrece o mais preparado espectador. Sim, nossos brasileiros são capazes disso, me obrigando a discordar do conceito de “homem cordial” do Mestre Sérgio Buarque de Holanda. Com o intuito de amenizar a aridez do texto e torná-lo mais atual o encenador permite a introdução de cacos e brincadeiras relativas ao presente durante os discursos dos ministros, fato que enfraquece a proposta, uma vez que não é preciso nada mais que o próprio texto para mostrar como estamos infelizmente, próximos daquela realidade, haja vista os discursos de Costa e Silva e de Médici, que são ditos tal como ocorreram. A figura do vice-presidente Pedro Aleixo, único opositor do ato, é mostrada de forma patética e muito bem representada pelo ator Paulo Goya. A ficha técnica apresentada no mini programa da peça não mostra a relação ator/personagem, mas cabe destacar o trabalho do ator que representa Costa e Silva.

        LEMBRAR É RESISTIR. É importantíssimo que jovens vejam a exposição e a peça e conheçam um pouco desse lado escuro da nossa história e que os mais velhos relembrem como foi duro viver naqueles anos de chumbo. QUE A HISTÓRIA NÃO SE REPITA! E para tal me vem à memória o nome de uma música do Ivan Lins: DEPENDE DE NÓS!

        AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar é a exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até o próximo dia 04 de novembro de terça a domingo das 11h às 20h. Ingressos grátis.

        AI-5 - Reconstituição Cênica da Reunião do Conselho de Segurança Nacional de 13 de dezembro de 1968. Cartaz do Casarão do Belvedere toda terça feira às 20h30 até dezembro de 2018. Pague quanto puder.
        Obs: O dia 13 de dezembro de 2018, data oficial do aniversário de 50 anos do AI-5 cai em uma quinta feira e seria uma data politicamente excelente para a apresentação do espetáculo. Fica a sugestão.
       
        24/10/2018
         


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

AS BRASAS



        Com esse título o húngaro Sándor Márai (1900-1989) escreveu um dos seus mais importantes e populares romances. Trata-se do encontro depois de mais de 40 anos de dois homens que foram amigos íntimos e cujo motivo da separação é algo ainda não esclarecido. O romance escrito em boa parte na forma de diálogo não deve ter dado muito trabalho para Duca Rachid e Julio Fischer fazerem a transposição para a linguagem teatral, aliás, muitíssimo bem realizada.
        Os diálogos envolventes são ditos com maestria pelos dois atores Herson Capri e Genézio de Barros que interpretam Henrik, o visitado e Konrad, o visitante; respectivamente. O visitado tem uma série de questões pendentes com o visitante que envolve uma caçada e uma mulher (Kriztina, que foi esposa do primeiro). Além de certas rememorações do passado, a peça passa-se em tempo real durante a breve visita de Konrad a Henrik. Há uma bela e discreta participação da cellista Nana Carneiro da Cunha que além de tocar a trilha original de Marcelo Alonso Neves faz intervenções como a esposa Kriztina.
        A ação da peça passa-se no castelo habitado por Henrik e que foi palco no passado dos fatos relembrados nessa noite onde deveriam acontecer revelações, mas que por opção do autor, elas não acontecem ficando as mesmas na imaginação do leitor/espectador.


        Não tenho nada contra atualizar ambientes cênicos quer para dar um toque contemporâneo à montagem, quer por mera economia de produção, mas é necessário haver harmonia e certa beleza, coisa que não acontece com o cenário de Bia Junqueira formado por tubos escuros, sacos plásticos pretos, uma mesa flutuante, uma vasta faixa iluminada que representa uma lareira e duas poltronas. No meu modo de ver esse cenário empobrece a bela montagem dirigida com sobriedade por Pedro Brício. A iluminação de Renato Machado atenua esse problema.

Capa do livro editado pela Companhia das Letras que sugere um cenário para o castelo de Henrik.

        Com pouco menos de uma hora o espetáculo de Pedro Brício prende a atenção pela força do texto, pelas interpretações de Herson Capri e de Genézio de Barros, pela intervenção musical de Nana Carneiro da Cunha e pela movimentação dos atores no espaço cênico que nunca deixa a ação se tornar monótona.

        AS BRASAS está em cartaz no SESC Santana às sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h até 04 de novembro. NÃO DEIXE DE VER.

        15/10/2018

domingo, 14 de outubro de 2018

CARMEN – A GRANDE PEQUENA NOTÁVEL – O RETORNO



REDONDINHA, REDONDINHA

        Na manhã de ontem levei minha neta Laura de cinco anos no CCBB para assistir ao espetáculo sobre Carmen Miranda dirigido por Kleber Montanheiro, ao qual eu já havia assistido na estreia. Escrevi matéria na ocasião em meu blog http://palcopaulistano.blogspot.com/2018/09/carmen-grande-pequena-notavel.html, elogiando o trabalho, mas apontando algumas arestas. Menos de um mês depois as arestas desapareceram por completo e o espetáculo está redondinho. O elenco cresceu muito estando bem mais harmonioso, além de se deslocar com maior desenvoltura pelo pequeno palco do CCBB movimentando as seis letras que fazem belo efeito ao formarem palavras que têm a ver com a ação, mas que insistem em esconder as belas pinturas de Victor Grizzo. As intervenções humorísticas adquiriram forma mais suave, moldando-se à delicadeza que é o tom da montagem; nesse aspecto cabe lembrar o momento do “Rebola Bola” na qual Luciana Ramanzini rouba deliciosamente a cena, sem tirar o brilho da interpretação de Amanda Acosta.
        Amanda Acosta é o acontecimento deste 2018! Indicada ao prêmio de melhor atriz do primeiro semestre pela APCA por seu maravilhoso desempenho em Bibi - O Musical volta a ter um desempenho fenomenal podendo repetir a dose nas indicações do segundo semestre.
        A cena que revela a morte da grande cantora é belíssima e tem ótima resolução cênica embalada por um dos grandes sucessos de Carmen.
        CARMEN – A GRANDE PEQUENA NOTÁVEL está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil aos sábados às 11h até 26 de janeiro de 2019. Espetáculo que nos traz muito amor e muito humor nestes tempos tão conturbados. Leve as crianças e não se emocione se for capaz.
        Ah! A Laura adorou o espetáculo!

        14/10/2018

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sábado, 6 de outubro de 2018

AS IRMÃS SIAMESAS



        Em nome da contemporaneidade tenho visto muitos Shakespeares histéricos, Tchekhovs mais que gritados; urrados. Será que é necessário berrar um texto clássico para provar que ele é atual e reflete essa realidade de ódio que o Brasil está vivendo? Vejo um grande equívoco nessa postura e foi com o desagradável eco dessas últimas experiências que me dirigi ao Teatro Aliança Francesa para assistir a As Irmãs Siamesas cujas atrizes eu não conhecia e minhas únicas referências eram o autor José Rubens Siqueira (Prêmio APCA de melhor autor em 1987 com esta peça) e o diretor Sébastien Brottet- Michel (ator nos dois espetáculos do Théâtre du Soleil que foram apresentados em São Paulo em 2007 e 2011).
        Que diferença! Ao se apagarem as luzes da plateia a silhueta de duas mulheres sobre um fundo de cor bege clara já antecipa a beleza e a delicadeza do que está por vir.
        Duas irmãs conversam após a morte da mãe numa cidade do interior. Uma se emancipou e foi morar em São Paulo, a outra permaneceu na cidade do interior, casou, teve um filho, ficou viúva e cuidou da mãe até a sua morte. Em um jogo de atração e rejeição as duas conversam sobre o que a vida fez com elas remexendo memórias e as roupas de um baú. Dentro desse baú há outro menor que contém objetos e cartas que foram da falecida. A própria casa representada no cenário por um grande baú é a principal caixa de memórias dessas duas mulheres que, cada uma à sua maneira, são muito solitárias e frágeis.
        A encenação de Brottet-Michel prima pela delicadeza. Tudo é harmonioso desde os figurinos de Kene Heuser cujas cores combinam com as nuances que o cenário de Marisa Rebolo vai adquirindo por meio da belíssima iluminação de Rodrigo Alves. Creio que alguém que não entendesse uma palavra do espetáculo se encantaria com a movimentação das atrizes nesse espaço e com a envolvente trilha sonora de Wayne Hussey.


        E por falar em atrizes, mais uma grata surpresa. Além de terem o aspecto físico apropriado para seus papeis (Nara Marques é bastante alta e exuberante e Cinthya Hussey é bem mais baixa e tem aparência frágil), elas têm excelente desempenho jogando muito bem com as mudanças de estado de espírito requeridas pelas personagens. Não há a mais forte ou a mais fraca e em cada momento é uma delas que “está ganhando o jogo”.  
        As Irmãs Siamesas é de uma beleza ímpar e conta bonita história de amor fraternal que um cordão umbilical insiste em manter. Excelente antídoto para o veneno que a realidade está nos injetando. IMPERDÍVEL!

        AS IRMÃS SIAMESAS está em cartaz no Teatro Aliança Francesa às sextas e aos sábados às 20h30 e aos domingos às 19h.

        06/10/2018

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O JOGO DE A[R]MARELINHA





        Tudo na vida é obra do acaso? Ou nada na vida é por acaso?
       Desço para a plataforma do metrô. Escolho o vagão que vou entrar ou pego o vagão que está na minha frente. Quem está nesse vagão? Como foi que eles/elas foram parar nesse vagão? Pode ser que uma/um delas/deles seja minha metade da laranja? A gente vai se olhar? Será que ele/ela vai descer na mesma estação que eu? Em caso negativo desço na dele/dela? Ele/Ela vai para a esquerda ou para a direita? De maneira muito brilhante Julio Cortázar já falou sobre a casualidade em sua obra e, em particular, no conto Manuscrito Achado Num Bolso, que inspirou Paulo Azevedo a escrever este instigante A[R]mar em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso.
        Eu tive o privilégio de viajar no mesmo vagão e em um banco muito próximo de ELE e ELA (assim são denominados os personagens) e ser testemunha dos seus encontros e desencontros. Em um primeiro momento é o acaso que faz esses dois seres cruzarem olhares e iniciar um relacionamento que atinge um apogeu seguido de desgaste. É necessário fazer alguma coisa para reativar a chama e não dá mais para confiar no acaso...
        A direção do autor é madura e enxuta valendo-se de uma criativa disposição cênica colocando no palco alguns espectadores que farão parte da história como passageiros do metrô, de excelente trilha sonora de Érico Theobaldo e Mano Bap, de projeções em vídeo (Janaína Patrocínio) e, fundamentalmente, de dois excelentes intérpretes como Rita Pisano e Bruno Perillo, sem os quais espetáculo deste tipo naufragaria. A química entre eles é perfeita dando vida ao casal de maneira intensa na surpresa do primeiro encontro, nas descobertas sobre cada na mesa de um no bar e na provocante cena de sexo realizada de maneira delicada e bela sem necessidade de explicitar nada.
        Vários filmes e textos literários são lembrados no programa como citados na dramaturgia, mas quando se trata de casualidade não há como não se lembrar de outra obra prima do gênero, o filme Corra Lola, Corra do alemão Tom Tykwer.



        A[R]MAR é uma gratíssima surpresa da atual temporada paulistana e está em cartaz só até o dia 1º de outubro (Segunda feira) no Teatro Sérgio Cardoso: Sexta e Sábado (19h30), Domingo (20h) e Segunda (19h).
        Reestreia na sexta feira, dia 05/10 no Teatro Cacilda Becker às sextas, sábados e domingos até 21/10.
        SABOROSO DEMAIS PARA VOCÊ DEIXAR PASSAR!

        25/09/2018


sábado, 22 de setembro de 2018

EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE



        Jean-Luc Lagarce (1957-1995) escreveu J’Étais Dans Ma Maison et J’Attendais Que la Pluie Vienne em 1994, um ano antes de sua morte, que ele já pressentia, pois estava contaminado pelo vírus da aids desde 1986. A peça trata de uma eterna espera tal como aquela de Estragon e Vladimir no clássico Esperando Godot de Beckett. Aqui, são cinco mulheres denominadas pelo autor como “a mais velha de todas”, “a mãe”, “a filha mais velha”, “a segunda” e “a mais nova” que após esperarem anos a fio pela volta do neto, filho e irmão, continuam a esperar que ele saia de uma espécie de coma na qual entrou quando de sua volta ao lar e assim possa relatar como foi sua vida de aventuras nos anos em que esteve fora depois que foi expulso pelo pai, agora já falecido.
        Eu havia assistido a uma montagem da peça em 2007 no Sesc Paulista com direção de Marcelo Lazzaratto da qual gostei e tenho boas lembranças dos trabalhos de Miriam Mehler como “a mais velha de todas” e de Carolina Fabri (sempre ótima) como “a filha mais velha”. Consultando as anotações da época constato minha admiração pela obra com a ressalva de achá-la muito longa e do texto ser belo, porém verborrágico.


        Onze anos depois, o mestre Antunes Filho utiliza-se da mesma tradução de Maria Clara Ferrer reduzindo-a quase pela metade e adaptando-a segundo sua concepção cênica, Com isso o que era bom ficou ainda melhor.
        Um espaço cênico cheio de cadeiras que simbolizam o vazio da eterna espera é aos poucos invadido por aquelas cinco mulheres de vida solitária cujos desejos e motivações o espectador vai aos poucos descobrindo, ou melhor, imaginando.
        Apesar de árido, o texto de Lagarce é bastante poético e Antunes imprime mais poesia em sua bela encenação, haja vista, a primeira cena onde “a filha mais velha” (interpretação primorosa de Fernanda Gonçalves, filha do saudoso Enio Gonçalves) faz talvez o mais belo monólogo de toda a peça. Louvem-se, de passagem, as perfeitas dicção e emissão de vozes das atrizes fazendo com que o espectador não perca uma palavra do texto, qualquer que seja sua posição na plateia (coisa que anda rara em nossos palcos).
        Há muita simbologia na encenação de Antunes e apesar do encenador solicitar no programa que não interpretemos a peça, não há como não imaginar o porquê do gesto lembrando a saudação fascista quando as mulheres se encontram, o porquê da bandeira vermelha carregada pela “mais velha de todas” (TFP?), o porquê do ritual de tirar e por objetos de uma caixinha e mesmo o porquê daquele contorno superior pintado com flores muito coloridas que contrasta com a aridez do resto do cenário. Antunes joga todos esses porquês e a imaginação do espectador que preencha os vazios como quiser.
        O texto remete (sem perder sua grande originalidade) ao já citado Esperando Godot, ao filme O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled) de 1970, dirigido por Don Siegel e também a A Casa de Bernarda Alba de Garcia Lorca. Todas essas obras com certeza eram de conhecimento do autor.


        Do elenco afinadíssimo, destaque para a visceral interpretação de Suzan Damasceno, figura trágica da “mãe”, cujas expressões vão do autoritarismo à imensa tristeza. A figura lembra muito a personagem Bernarda Alba da obra de Lorca citada acima.
        O caprichado programa, com trechos dos monólogos das cinco personagens e textos do autor e do encenador, tem várias ilustrações e entre elas, uma do quadro No Leito da Morte de Edvard Munch. O lancinante grito de revolta/impotência/indignação dado na cena final pela “mais nova” nos leva àquele que é quadro mais famoso do pintor norueguês.
        E por último fica a questão: o que aconteceria com aquelas mulheres se o “caçula” acordasse?
         Grande Mestre Antunes, sempre nos surpreendendo e nos tirando do chão.

        EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE é uma produção do CPT/Sesc e do Grupo de Teatro Macunaíma. Em cartaz no Teatro Anchieta às sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h. Até 16/12/2018

        22/09/2018. Início da primavera.



sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CARMEN – A GRANDE PEQUENA NOTÁVEL




        Contrariando as regras da boa redação vou usar várias vezes o adjetivo: notável a iniciativa de Heloisa Seixas e Julia Romeu de escreverem um livro sobre Carmen Miranda endereçado às crianças e depois transformá-lo em musical; mais notável ainda a iniciativa de Kleber Montanheiro de montar e dirigir com tanto amor o espetáculo que está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil apenas aos sábados no horário que abriga as peças infantis (11h). A mais que notável pequena notável precisa ser conhecida pelos jovens como a mulher que enfrentou com seu imenso talento o mundo machista e conservador da primeira metade do século 20 dominando não só a cena brasileira como também o fechado show business norte americano. Acusada pelos radicais de plantão de se vender ao gosto norte americano, sua obra mostra que a portuguesa Carmen soube como ninguém mostrar a rica música brasileira ao mundo. Tudo muito notável.
        O palco do CCBB é muito pequeno para nele caber a grandeza da pequena notável, o brilho de Amanda Acosta e as letras gigantescas que formam o nome “Carmen” que atravancam a movimentação dos atores além de encobrirem a singela pintura em preto e branco de Victor Grizzo que compõe o cenário concebido pelo diretor. Os figurinos belos e muito coloridos criados por Montanheiro  contrastam harmoniosamente com o sóbrio cenário.

O diretor Kleber Montanheiro e Amanda Acosta na estreia para convidados em 19/09/18 

        Depois de sua impressionante caracterização como Bibi Ferreira, eis Amanda Acosta entoando a voz no ritmo de Carmen, usando o seu erre tão característico e cantando como ninguém... Como ninguém NÃO! Como Carmen Miranda! Esses dois trabalhos qualificam Amanda como a mais versátil estrela dos musicais brasileiros. O elenco de apoio sustenta o espetáculo nas ausências de Amanda para troca de figurino, mas a cena só volta a brilhar em sua reaparição. Em alguns momentos há certo exagero nas intervenções humorísticas que desbalanceiam a delicadeza do espetáculo.
        A direção musical de Ricardo Severo é impecável, sendo que os números musicais muito bem tocados e cantados pelo elenco constituem-se como o ponto forte da peça.
        ATENÇÃO MAMÃES E PAPAIS: Levem seus pequenos para assistir a este delicioso espetáculo; eles vão adorar... E vocês também!
        Apesar de endereçada ao público infantil a peça tem fôlego para temporada em horário noturno e, se possível, em um palco maior.

         P.S. Tenho certeza que Marília Pêra adoraria não só assistir, mas também participar deste trabalho. Carinhosamente há no programa um agradecimento (in memorian) a ela, que emprestou seu imenso talento a exuberantes Carmens Mirandas em tantas ocasiões.

Aplausos!!

            



        21/09/2018

terça-feira, 18 de setembro de 2018

a ponte - itaú cultural


a_ponte - cena do teatro universitário

            Uma consequência natural da efetiva participação dos universitários nos assuntos políticos do Brasil, na década de 1960, foi a criação de vários grupos de teatro universitário que buscavam discutir através de suas encenações a situação política e cultural do país. Naquele período os direitos humanos começavam a ser violados e a liberdade se tornava cada vez mais cerceada. Em São Paulo a criação do Teatro da Universidade Católica (TUCA) em 1965, com Morte e Vida Severina, talvez corresponda ao início desse movimento estudantil. Seguiram-se, entre outros, o Teatro Sedes Sapientae (TESE) em 1966; o Grupo Experimental Mauá (GEMA) da Escola de Engenharia Mauá em 1968; o Grupo Experimental de Teatro Universitário (GEXTU) em 1969, ligado à Escola Superior de Administração de Negócios (ESAN); o Teatro do Onze do Centro Acadêmico Onze de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1970 que viria a se transformar no até hoje atuante Teatro União e Olho Vivo (TUOV), não mais de caráter universitário e sempre liderado por César Vieira; o novo Teatro Universitário da Pontifícia Universidade Católica (TUPUC) em 1972. Os participantes não pertenciam a escolas de teatro, sendo que na época o único curso de teatro que existia era aquele ministrado na Escola de Arte Dramática (EAD) e seus espetáculos limitavam-se a apresentações de fim de ano dentro do próprio campus; já os espetáculos dos grupos universitários cumpriam temporadas nos teatros da cidade e eram dirigidos por encenadores profissionais. Todos esses grupos tiveram maior ou menor longevidade, mas nenhum deles sobreviveu até o fim da década de 1970, quando a censura e a repressão tornaram impossível a participação estudantil nos assuntos políticos. A consequência disso é notável quase meio século depois, por isso é extremamente importante a iniciativa do Itaú Cultural de criar a_ponte-cena do teatro universitário para “estudantes brasileiros de cênicas intercambiarem entre si e apontarem novas tendências da área”.
        Trata-se de projeto ambicioso de caráter nacional que resultará na apresentação de dez trabalhos escolhidos por comissão avaliadora nas dependências do Itaú Cultural no período de 24 de janeiro a 03 de fevereiro de 2019. As inscrições ficam abertas de 19/09 a 22/10 no endereço http://itaucultural.formstack.com/forms/a_ponte
        A apresentação do projeto foi feita no dia 17/09 por uma entusiasmada Galiana Brasil, gerente do Núcleo de Cênicas do Itaú Cultural e esse entusiasmo tomou conta de todos os presentes  que vêm no projeto não só um elemento catalisador das realizações teatrais dos universitários de todo o Brasil, como também uma volta dos estudantes na participação dos problemas do país.  

        18/09/2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

DIAS DE MIRADA (05 a 15 de setembro de 2018)



        Onze dias e dezoito espetáculos depois terminou o MIRADA 2018. Hospedado no quarto 1208 do hotel Sheraton, caminhei todos os dias os 400 metros que o separam do SESC Santos - QG do Festival - para participar das mesas Encontros de Vozes e Urgências, retirar os ingressos para os espetáculos que havia escolhido e encontrar muita gente que tem, como eu, o teatro por paixão. Foram muitas conversas e muitas trocas das quais tenho certeza todos saíram enriquecidos. O Festival aconteceu em vários espaços de Santos e teve prolongamento em algumas cidades da Baixada Santista. Foram 41 espetáculos de 13 países, a maioria deles discutindo importantes questões sociais e políticas da realidade de seu país. Alguns escorregaram nas dramaturgias que, do meu ponto de vista, não deram conta da força dramática da realidade em que se baseavam (caso de Nimby, Cine Splendid e La Ciudad Vacía).  
        A cada realização o Mirada homenageia um país o qual junto com o Brasil tem uma maior representatividade em número de espetáculos. Foi assim com a Argentina (2010), o México (2012), o Chile (2014) a Espanha (2016) e agora com a Colômbia que apresentou nove espetáculos e uma instalação.
        Gostar ou não gostar é algo pessoal e intransferível, no entanto não quero me furtar de apresentar a minha lista classificada na ordem da minha preferência (alguns desses títulos foram alvo de matérias que publiquei durante a realização do Festival):

        - El Bramido de Düsseldorf (Uruguai)
        - Mucho Ruido Por Nada (Peru)
        - Labio de Liebre (Colômbia)
        - Quando Estallan las Paredes (Colômbia)
        - La Ciudad de los Otros (Colômbia)
        - Del Manantial Del Corazón (México)
        - Souvenir Asiático (Colômbia)
        - Colônia (Brasil)
        - Estado Vegetal (Chile)
        - La Despedida (Colômbia)
        - Nos Hemos Olvidado de Todo (Colômbia)
        - Nimby (Chile)
        - Ñaña (Peru)
        - Cine Splendid (Paraguai)
        - Euria (Espanha)
        - La Ciudad Vacía (Nicaragua)
        - Promesa de Fin de Año (Colômbia)

        OBS: 1. Não houve como apreciar Caliban – A Tempestade de Augusto Boal apresentado no Emissário que além de atrasar o início (sem explicações) por quase uma hora, não organizou o público que acabou se comprimindo em um espaço reduzido, sendo que era quase impossível ver ou mesmo ouvir os atores.
                2. Espetáculos nacionais aos quais eu já havia assistido e que não entraram na lista acima: A Invenção do Nordeste, A Vida, Grande Sertão: Veredas, Guanabara Canibal, Odisseia, Preto e Vou Voltar.
             3. Dois espetáculos estrangeiros a que infelizmente não assisti e que foram bastante elogiados: El Ritmo (Argentina) e Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas (Portugal).
             4. Alguns dos espetáculos foram apresentados nos SESCs de São Paulo no Extensão Mirada e La Miel Es Más Dulce Que la Sangre (Colômbia) será apresentado no SESC Pompeia na próxima quinta feira, dia 20.

        Longa vida ao Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas!
        Que venha o MIRADA 2020.

        17/09/2018