terça-feira, 12 de novembro de 2019

SAMBA FUTEBOL CLUBE



        - Você não entende de futebol? Nem eu!

        - Você não gosta de futebol? Nem eu!

        Fui com o pé atrás assistir ao espetáculo em cartaz no Teatro Unimed, tendo como única referência positiva o espetáculo ser de Gustavo Gasparani, um especialista em musicais brasileiros, que já nos deu Otelo de Mangueira, Zeca Pagodinho, Gilberto Gil, Sambra, Bem Sertanejo para ficar apenas naqueles bem sucedidos espetáculos apresentados em São Paulo; além disso, Gasparani pertence ao conceituado grupo carioca Cia. dos Atores e já nos ofereceu o antológico solo Ricardo III que os palcos paulistanos estão clamando para que volte a ser apresentado por aqui.
 
Gustavo Gasparani
 
        Premiadíssima no Rio de Janeiro Samba Futebol Clube é uma verdadeira delícia representada por oito sensacionais cantores/atores/dançarinos/músicos, ora torcedores (fanáticos, é claro!), ora jogadores que cantam e coreografam belíssimas músicas do cancioneiro popular brasileiro que têm como tema o futebol e interpretam textos deliciosos de Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos, entre outros. Duas horas de pura curtição onde cabe até um pequeno alerta sobre os sombrios tempos do AI-5.
        Então esse é o recado: goste ou não goste de futebol você terá duas horas de puro prazer ao assistir mais esse ótimo trabalho de Gustavo Gasparani.
        As músicas são todas ótimas, mas como não vibrar com Fio Maravilha e todas as músicas de Jorge Benjor que tratam de futebol!

        SAMBA FUTEBOL CLUBE fica em cartaz só até 01 de dezembro no Teatro Unimed de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 18h. NÃO PERCA!
 

        12/11/2019

       

sábado, 9 de novembro de 2019

A VALSA DE LILI


 
        Beckett já colocou sua personagem Winnie enterrada até o pescoço em Dias Felizes e radicalizou ainda mais ao colocar apenas os lábios de uma atriz em cena, tudo isso para falar sobre o absurdo que é viver.
        Lili está presa e imóvel em uma cama de hospital por toda sua vida, mas neste caso trata-se de situação real, “absurdamente” real! Atacada pela poliomielite quando criança, Eliana Zagui ficou tetraplégica e foi praticamente abandonada pela família. Vivendo em um hospital, ela foi aprendendo a viver dentro de suas limitações tornando-se escritora, pintora e mais que isso, um exemplo de superação diante de tanto sofrimento.
        O livro Pulmão de Aço escrito por Eliana serviu de base para A Valsa de Lili, peça teatral escrita por Aimar Labaki e interpretada com grande paixão por Débora Duboc sob a direção de Débora Dubois.
        Débora Duboc está em cena com roupas brancas em um leito hospitalar coberto de lençóis também muito alvos (cenografia e “figurino objeto” de Márcio Vinicius). Só tem a cabeça para se comunicar e quando o público adentra o espaço ela se mostra muito feliz e descontraída sorrindo e cantando músicas da Rita Lee.
        O relato de Lili falando de sua infância, do cotidiano no hospital, de momentos alegres como a visita de Fabio Júnior, de outros muito tristes como o abandono da família e a morte de companheiros vizinhos de cama e ainda revelando indignação ao dizer que até para morrer depende de terceiros é muito comovente e Débora Duboc é no mínimo surpreendente na interpretação dessa figura extraordinária.
        A interpretação de Débora Duboc vem somar-se a outros não menos excelentes trabalhos femininos neste conturbado 2019 (Cássia Kiss, Esther Laccava, Juçara Marçal. Lara Córdulla, Tânia Bondezan, Analu Prestes, Virginia Buckowski, Juliana Sanches, Alejandra Sampaio, Helena Ignez, Yara de Novaes, entre tantas outras). O poder feminino é símbolo de resistência no teatro e o maior exemplo disso é a figura da grande Fernanda Montenegro do alto dos seus 90 anos de vida digna e laboriosa.
        A delicada direção de Débora Dubois está focada na interpretação de sua xará com o auxílio da cenografia e “figurino objeto” de Márcio Vinicius, tudo isso sob a iluminação sempre competentíssima de Aline Santini. Apesar do tema, em momento nenhum o espetáculo resvala para a emoção fácil, porém não há um espectador que não saia da sala enxugando as lágrimas e acenando para aquela figura imóvel que se despede dele com um sorriso nos lábios.
        Devemos essa grande demonstração de sensibilidade, humanidade e exemplo de vida a Eliana Zagui, Aimar Labaki, Débora Dubois e, é claro, a Débora Duboc em momento extraordinário de sua carreira de grande atriz. Que venham os prêmios, porque a interpretação para recebê-los já existe.
        Termino esta matéria com o dizer de Eliana Zagui: apesar do corpo imóvel, “minha alma nunca deixou de dançar”.


        A VALSA DE LILI está em cartaz no Giostri Livraria e Teatro (antigo TOP Teatro, ao lado do Teatro Sérgio Cardoso) às quintas e sextas às 21h até 13/12. ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL.

 

        09/11/2019

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

PUSH UP




        O que acontece quando surge uma vaga que representa promoção e perspectivas de ascensão ao topo do organograma de uma grande empresa? Os ânimos se inflamam, a competividade fica à flor da pele e são usadas estratégias nem sempre éticas para se conseguir o posto almejado. É disso que trata a peça de Roland Schimmelpfennig (1967 -), dramaturgo alemão pela primeira vez montado no Brasil.
 
O autor Roland Schimmelpfennig

        É interessante e original a maneira como Schimmelpfennig conduz a narrativa, usando em seu drama realista recursos de distanciamento tão caros ao teatro épico como as quebras de diálogo.
        São apresentadas três situações todas elas envolvendo duplas de personagens. Essas situações são sempre testemunhadas por dois funcionários da segurança da empresa que funcionam como uma espécie de narradores e fios condutores da trama. Há uma espécie de coro sem palavras que comenta a ação, formado por aqueles que não estão na cena; esse coro sobe e desce uma escada para entrar e sair de cena em recurso a princípio interessante, mas que pelas inúmeras vezes que ocorre acaba se tornando repetitivo e previsível. 
        O elenco de oito atores é bastante homogêneo e cada ator tem seu momento de destaque tanto nos monólogos dos vigias (Karlla Braga e Fabio Acorsi) como nos saborosos duetos: da frustrada presidente da empresa (Antoniela Canto) com a funcionária (Sabine Vasconcellos) que pleiteia uma vaga em Nova Dehli e para tanto já transou com o chefão, marido da presidente; do chefe e funcionária que já tiveram o melhor sexo de suas vidas e agora se odeiam (Isabella Lemos e Daniel Faleiros Migliano) e do chefe e funcionário, ambos candidatos à vaga de Nova Dehli (Fulvio Filho e João Bourbonnais). Esses embates de tão cruéis chegam a ser cômicos e o elenco sabe tirar partido das nuances de seus personagens.
        A direção de César Baptista tem seus pilares no desempenho do elenco, de sua movimentação em cena, no eficiente desenho de luz de Wagner Pinto e, principalmente, no objetivo de passar com a maior clareza o bom texto de Schimmelpfennig, que extrapola o cenário empresarial para mostrar que o ser humano da contemporaneidade tornou-se ainda mais individualista e competitivo, esquecendo-se da humanidade que deveria reger os relacionamentos humanos. Utopia? Pode ser. Mas a arte tem que buscar o utópico possível, como já disse Ariane Mnouchkine.

        PUSH UP está em cartaz no Viga Espaço Cênico às terças e quartas às 21h até 18/12.

        07/11/2019

       

         

 

domingo, 3 de novembro de 2019

RES PÚBLICA 2023


 
Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere. 

         A trajetória do grupo A Motosserra Perfumada é bastante acidentada. Em 2015 eles foram “contemplados” com o roubo de seu material de trabalho, segundo eles por outro grupo de teatro (!!), quando da temporada de seu primeiro espetáculo (Aquilo Que Me Arrancaram Foi a Única Coisa Que Me Restou) no subterrâneo da Rua Xavier de Toledo. Em 2019 teve a temporada desta nova peça suspensa na Funarte por “aquele senhor rego pinheiro”, após o mesmo ler a sinopse da mesma (seria cômico se não fosse trágico). Não há dúvida que esses percalços alavancaram o interesse do público por Res Pública 2023, além, é claro, de seus inegáveis méritos que o boca a boca está tratando de divulgar; prova disso é a casa lotada e os lugares disputados em todas as sessões agora realizadas no Centro Cultural São Paulo que bravamente abrigou a peça censurada na Funarte por “aquele senhor rego pinheiro”. Nem tudo está perdido e a prefeitura da cidade com as ações de sua secretaria de cultura mais o SESC e o Itaú Cultural têm mostrado isso.

        E a peça? Pode-se adotar qualquer atitude ao assisti-la, menos a indiferença. Pós-tropicalista, anárquica, antropofágica, canibalista, excessiva, épica, brechtiana e outros mil adjetivos poderiam lhe ser aplicados, mas nenhum deles talvez esteja tão de acordo com uma fala do personagem John “Punk que é punk é contra o sistema e tem que gritar!” e isso é o que a peça faz durante todo o seu desenvolvimento com um final aterrador, pessimista e apocalíptico, remetendo aos finais dos filmes Cabaret e Os Deuses Malditos (Ah! A antropofagia!). É isso então? Trata-se de uma peça punk? Mais que uma classificação, o que importa é que o espetáculo da Motosserra busca desesperadamente uma maneira nova e transgressora da arte refletir sobre a realidade e isso é o mais importante de tudo, mesmo levando em conta certos excessos notados por este ranheta velho espectador.
        Os maiores excessos, a meu modo de ver, ficam por conta das atuações de Bruno Caetano e Camila Rios que, apesar de serem bons intérpretes, passam a maior parte do tempo aos gritos e em atitudes histéricas. Curiosamente o ator mais contido em cena é o próprio diretor e dramaturgo, Biagio Pecorelli e isso tem a ver com a personagem que interpreta, mas também com sua maneira de interpretação. Leonarda Glück é uma figura potente em cena como a travesti Valentina e tem seu grande momento no monólogo quase ao final, remetendo aos famosos apartes que Brecht colocava em seus espetáculos como a Jenny e os Piratas da Ópera dos Três Vinténs. Nota-se o uso desse valioso recurso de distanciamento em vários outros momentos da montagem. Mais antropofagia.
        Pensando em antropofagia, não há nada mais antropofágico na encenação do que a excelente trilha sonora que vai de Wagner a Ray Conniff passando, é claro, pelo punk executado ao vivo pelos músicos Edson Van Gogh e Jonnata Doll.
        É impossível ignorar o espetáculo deste grupo relativamente novo que sem dúvida tem muito a dizer, tanto na forma como no conteúdo, que mescla a República de Platão com fatos sobre a nossa República, talvez a mais periférica região do centro de São Paulo.
        Minhas referências talvez não sejam suficientes para analisar mais a fundo tudo o que se propõe em Res Pública 2023, mas minha intuição diz que a Motosserra Perfumada está em um caminho certo e inovador.
        Talvez pelo nome do grupo lembrei do provérbio brega citado em epígrafe que as garotas dos anos 1960 costumavam colocar em seus diários. Parafraseando o tal provérbio, eu diria “Sê como aquele espectador, que reflete sobre o que a Motosserra tem a lhe dizer, mesmo que isso não o perfume”.

        RES PÚBLICA 2023 está em cartaz no Centro Cultural São Paulo de quinta a sábado às 21h e aos domingos às 20h. só até o final da próxima semana (10/11)

        OBS: É uma pena que a ingrata acústica do Espaço Ademar Guerra continue impedindo que se entenda na plenitude o que os atores estão falando, mesmo que gritem!  

        03/11/2019

 

 

 

 

 


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

HÁ DIAS QUE NÃO MORRO


 

        “Em certos dias eu morro e em outros não” ou “Faz algum tempo que não morro”. Qual dessas duas possibilidades tem a ver com o título desse espetáculo?
        Qualquer que seja, talvez o melhor significado seria “O que fazer nos dias que tenho de viver?", ou melhor, “O que eu vou fazer com o resto da minha vida?". E parece que para aquelas conformadas moças a vida vai continuar monótona, triste e repetitiva apesar de muito colorida e com manhãs sempre maravilhosas. Ou não?

        Brilhantemente concebido e dirigido por José Roberto Jardim e pelas componentes da Academia de Palhaços (Aline Olmos, Laíza Dantas e Paula Hemsi), o espetáculo tem texto de Paloma Franco Amorim e primorosas cenografia (Bijari) e iluminação (Paula Hemsi), aprofundando a belíssima experiência estética iniciada com Adeus Palhaços Mortos.
        O elenco é impecável, mas não há como não destacar as intervenções, em geral cômicas, de Laíza Dantas.
 
 
        Deslumbrante, a princípio; irritante, a seguir, pelas infindáveis repetições de texto e ação e emocionante, ao final, quando se entende as razões das repetições e do formalismo imprimido à montagem. O movimento repetitivo das atrizes exige perfeitas sincronia e continuidade na coreografia extremamente sofisticada exigida pela encenação.
        Uma atmosfera beckettiana ronda todo o espetáculo que transpira tristeza e depressão, mas que termina com uma ponta de esperança, quando as personagens se livram do cubo onde estavam confinadas e finalmente constatam que há algo diferente no ar.
        A Academia de Palhaços doravante adota o nome de ultraVioleta_s, a meu ver um nome difícil, principalmente no que se refere à escrita com minúscula no início da palavra, maiúscula no meio da palavra e ainda um underline! Enfim! Este não é o propósito desta matéria, mas fica a observação.

        HÁ DIAS QUE NÃO MORRO saiu do cartaz do SESC Pompeia em 27/10/2019, mas cumpre nova temporada no Galpão do Folias a partir de 02/11. NÃO DEIXE DE VER.

        28/10/2019

domingo, 27 de outubro de 2019

AS CRIANÇAS



 
        As minhas expectativas em torno de As Crianças giravam em torno do diretor Rodrigo Portella, de quem já havia assistido ao poderoso Tom na Fazenda e do elenco: pelo retorno de Analu Prestes aos palcos paulistanos, pela presença de Andrea Dantas que eu não conhecia, mas de quem tinha ouvido falar pelas crônicas do saudoso Patrício Bisso e pelo sempre talentoso Mário Borges. Da autora eu não sabia nada e o título da peça não me parecia muito promissor.
        A autora Lucy Kirkwood é uma inglesa de apenas 35 anos e parece ter uma carreira promissora segundo os dados que constam no programa, tendo iniciado suas incursões dramatúrgicas aos 21 anos em 2005.
        A peça As Crianças começa leve como uma comédia de costumes onde um casal recebe a visita de uma velha amiga e companheira de trabalho em uma Usina Nuclear onde os três trabalharam.
        Antigas relações mal resolvidas, um tsunami que provoca acidente nuclear na Usina, a poeira atômica invadindo o ambiente e uma proposta feita pela visitante são fatos que se somam para criar o quase pesadelo em que a ação se transforma. Muito bem escrito, o texto surpreende tanto pelo conteúdo como pela forma não linear.
        Analu Prestes volta a São Paulo depois de cerca de 40 anos com uma interpretação cheia de nuances e significativos silêncios durante os quais não se consegue despregar os olhos dela. Uma verdadeira filigrana a ser apreciada com muito respeito e admiração.
        Andrea Dantas tem uma interpretação bastante objetiva e tem excelentes momentos nos diálogos com seus parceiros de cena.
        Com sua habitual e forte presença, Mario Borges dá vida à personagem do marido e amante.
 
 
        A direção de Rodrigo Portella é limpa e direta como pede o texto, dispensando grandes recursos cenográficos e de iluminação, deixando tudo por conta da imaginação do espectador como ele escreve no programa, numa clara alusão ao prólogo de Henrique V de Shakespeare.
        Tudo funciona em As Crianças, resultando em um dos melhores e mais fortes espetáculos que passaram pelos palcos da cidade nesta temporada que já vai chegando ao fim. A peça fez carreira brilhante no Rio de Janeiro, estando indicada a 14 prêmios. Esperemos que São Paulo descubra esse tesouro na curta temporada do mesmo por aqui.      

        AS CRIANÇAS está em cartaz no SESC 24 de Maio às quintas, sextas e sábados às 21h e aos domingos e feriados às 18h. Até 17 de novembro. NÃO DEIXE DE VER.

        27/10/2019

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A GAIVOTA - HOMENAGEM AO CHICO MEDEIROS


        Esta é uma homenagem ao querido Chiquinho Medeiros, falecido em 16/10/2019 e velado no dia de hoje sob forte emoção no solo sagrado do Teatro de Arena. Debaixo de fortes aplausos Chiquinho partiu dali para sua morada definitiva.
        O texto abaixo (de 2012) foi escrito para a minha dissertação de mestrado e está presente em meu livro; nele eu exalto uma das encenações mais significativas a que assisti em minha vida de espectador.
        As fotos foram um presente que recebi de outro querido, Oswaldinho Mendes, que também fazia parte do elenco dessa inesquecível montagem.
 
 
A GAIVOTA
 
        Ficha técnica conforme apresentada no programa:
 
        Texto: Anton Tchekhov. Tradução: Tatiana Belinky. Direção: Francisco Medeiros. Assistente: Nilton Bicudo.
         Elenco: Walderez de Barros, Marco Ricca, Mayara Magri, Genezio de Barros, Maria Letícia, Oswaldo Mendes, Bri Fiocca, Nilton Bicudo, Ricardo Homuth, Luiz Carlos Rossi e Cacá Soares.
        Cenografia e figurinos: J.C.Serroni. Cenógrafo assistente: Gustavo Siqueira Lanfranchi. Figurinista assistente: Telumi Helen Yamanaka. Iluminação: Wagner Freire. Assistente: Ari Nagô. Trilha sonora: Zero Freitas e Márcio Ribeiro. Preparação corporal: Fernando Lee. Fotos: Lenise Pinheiro. Programação gráfica: Ishiki Comunicação. Cenotécnico: Chimanski. Confecção de adereços: Telumi Helen Yamanaka. Confecção das gaivotas: Juvenal Irene dos Santos. Costureiras: Cida de Paula e Rosa Vieira Lima. Operador de luz: Ari Nagô. Operadora de som: Roberta Serrettielo. Direção de cena: Vlady.
        Direção de produção: Bel Gomes. Produtora assistente: Guga Pacheco. Divulgação: Textos e Ideias. Administração: Maria Antônia Silva e Paulo Jordão. Produção: Marco Ricca e Cia. do Bixiga.
        A peça estreou no dia 16 de maio de 1994, na Sala Porão do Centro Cultural São Paulo.
 
        Este foi o melhor aproveitamento que eu presenciei do ingrato porão do Centro Cultural São Paulo, atualmente denominado Espaço Ademar Guerra. Entrava-se no espaço ao som do Concerto nº 2 para piano e orquestra de Sergei Rachmaninov (1873-1943), contemporâneo e conterrâneo de Tchekhov (1860-1904), música que iria pontuar todo o espetáculo e que, mesmo sem ter sido escrita para ele, foi a trilha sonora perfeita para as desventuras de Treplev, o trágico herói tchekhoviano. Com os ouvidos já sensibilizados, chegava o momento de encantar o olhar com o belíssimo cenário de J.C. Serroni, reproduzindo “Um trecho do parque na propriedade de Sorin”, como pede Tchekhov nas rubricas da peça. Assim, mesmo antes do início do espetáculo, o espectador já estava aclimatado e predisposto para o que iria acontecer após o terceiro sinal.
        O texto é uma absoluta obra-prima e teve uma tradução primorosa, pelas mãos competentes de Tatiana Belinky, que infelizmente não foi publicada. Obra tão preciosa e delicada, merecia tratamento à altura, e Francisco Medeiros soube fazê-lo, criando um espetáculo belíssimo e sensível. Esse foi meu primeiro contato com uma encenação de A Gaivota. Houve outras, uma dirigida por Daniela Thomas em 1998 com Fernanda Montenegro, e outra que era uma eficiente desconstrução da peça dirigida por Enrique Diaz em 2007, mas nenhuma alcançou a densidade poética conseguida por Medeiros, e é ela que merece um lugar muito especial em minhas memórias de espectador.
 
 
        Texto, cenário, música, iluminação perfeitos, regidos por uma excelente direção de cena. E o elenco? Aqui a memória criou uma armadilha. Tenho lembrança da forte presença de Walderez de Barros compondo uma vigorosa Arkádina, do sempre eficiente Genezio de Barros como Trigorin, da atuação iluminada do jovem Marco Ricca como Treplev e da competência dos outros atores do vasto elenco. A questão é a atuação de Mayara Magri como Nina, personagem que personifica a metáfora da gaivota do título. Tenho essa atuação como o ponto fraco do espetáculo, mas não chegando a comprometê-lo. De qualquer maneira, perante o resto do elenco o seu trabalho era o mais fraco. Nelson de Sá foi implacável em sua crítica publicada em Folha de S. Paulo:
        O destaque para baixo (no elenco) é Mayara Magri, que chega a dar a impressão de só haver sido escalada porque a personagem diz ter consciência de "estar representando verdadeiramente mal". Fora a brincadeira, a atriz não consegue, em momento algum, refletir a pureza, a imagem de uma gaivota morta em seu voo. Sem a imagem de Nina e sua paixão juvenil pelos artistas, a ponto de confundir a glória com a fama, um dos temas tocados pela peça, A Gaivota perde muito, mas muito mesmo. Nina, por Mayara Magri, não parece um anjo caído, mas uma menina que já começou na futilidade e daí terminou como bem merecia.”
        Sem radicalizar como o crítico, esses senões não maculavam a bela encenação de Medeiros, que refletia muito bem o universo do dramaturgo russo e as questões por ele levantadas, como o confronto entre uma arte conservadora (representada por Arkádina), considerada ultrapassada pelos mais jovens (Treplev), e uma arte jovem (representada por Treplev), incompreendida e rejeitada pelos mais velhos (Arkádina e Trigorin). Quem está com a razão? A arte não tem fronteiras, ela existe como tal, enquanto for feita com verdade e paixão. Era essa a proposta do belíssimo espetáculo de Francisco Medeiros, planejado nos mínimos detalhes, como, por exemplo, o intervalo que durava exatamente os 12 minutos do adagio sostenuto (segundo movimento do já citado concerto de Rachmaninov) e durante o qual se podia percorrer as planícies russas criadas por Serroni para o espetáculo. Sempre que ouço esse movimento do concerto, me transporto para o ambiente criado pelo cenógrafo, fazendo uma significativa soma das memórias auditiva e visual.
        Uma curiosidade final: a peça iniciou a sua temporada quando a moeda era o cruzeiro (a Cr$ 6000,00 o ingresso) e terminou com o real já corrente (a R$ 4,40 o ingresso), pois foi nesse período que foi implantado o Plano Real, tendo como objetivo a estabilização econômica. A nova moeda foi lançada no dia 01/07/1994.
 
TCHAU, CHICO!
 
        17/10/2019
 

domingo, 13 de outubro de 2019

JARDIM DE INVERNO



        O close é poderoso recurso que tem o cinema para registrar a emoção dos atores e provocar a emoção no espectador. Boa parte do filme Foi Apenas Um Sonho (2008) de Sam Mendes concentra-se nas expressões faciais de Leonardo DiCaprio (Frank) e de Kate Winslet (April) amplificadas pelo uso do close.
        A peça Jardim de Inverno é baseada no livro Revolutionary Road de Richard Yates, o mesmo no qual o filme acima citado foi baseado e Fabricio Pietro e Andréia Horta interpretam as personagens do casal Frank e April. Sem o recurso do close cabe a eles transmitir as emoções da história pelos recursos de interpretação teatral (gestos e vozes), auxiliados pelos outros elementos que compõem a linguagem teatral: cenografia, iluminação, trilha sonora e, principalmente, pelo fato exclusivo do teatro de estar realizando aquela cena aqui e agora. Fabrício Pietro é versátil ao demonstrar muita energia ao “machão” que considera o homem como o único provedor da casa e ao mesmo tempo muita fragilidade em relação às adversidades que a vida lhe impõe. A personagem mais importante da peça é April, pois são suas ações que norteiam as mudanças na trama. Andréia Horta, que foi uma inesquecível Elis no cinema, tem uma interpretação contida ressaltando mais o servilismo do que as iniciativas de April. Talvez por seus trabalhos na televisão, a voz da atriz poucas vezes sai do palco para atingir o fundo da plateia, dificultando o entendimento de algumas de suas falas.
        Pietro nos disse que tem o projeto de montar esse texto há dez anos e tudo leva a crer que esse desejo tenha surgido após assistir ao filme de Sam Mendes, com o qual a adaptação teatral se assemelha bastante.
        Marco Antônio Pâmio mais uma vez realiza uma bem sucedida encenação e é aquela que mais se aproxima de sua premiada Assim É (Se lhe Parece). O início da peça com todo o elenco no palco é belíssimo e com o auxílio da direção de movimento de Marco Aurélio Nunes a cena se assemelha a um balé. Todas as cenas de conjunto (a plateia aplaudindo a peça de April, as entradas e saídas do elevador do trabalho de Frank, as mudanças dos objetos de cena) são extremamente bem realizadas e sincronizadas dando um aspecto coreográfico à cena. Para tanto Pâmio conta com a cenografia clean de Marisa Rebollo, os figurinos de Flaviana Bernardo, a iluminação de Wagner Antônio e a linda trilha sonora por ele escolhida toda calcada no cancioneiro popular norte americano da década de 1950, época em que se passa a peça. Pâmio dribla os momentos em que a trama tende para o melodramático com sugestivos congelamentos dos movimentos dos atores e as intervenções dos suburbanos vizinhos do casal também amenizam o clima triste que domina quase toda a peça.
        Erica Montanheiro, Martha Meolla e Iuri Saraiva são os principais destaques do elenco coadjuvante com excelentes momentos individuais, sendo que Iuri arranca aplausos do público em cena aberta por conta da interpretação da personagem John, considerado desequilibrado, mas o mais lúcido de todas elas e responsável por escancarar a verdade para o casal Wheeler.
        O título do romance (Revolutionary Road) refere-se tanto à rua onde mora o casal como a um irônico “caminho revolucionário” desejado, mas nunca percorrido pelo casal.  Foi traduzido como Foi Apenas Um Sonho para o português. A versão teatral optou por Jardim de Inverno que a meu ver não tem muito a ver com a história.
 
        Com ótimo elenco, contando uma bela história e muito bem dirigida por Marco Antônio Pâmio, JARDIM DE INVERNO merece ser prestigiada. Cartaz do Teatro Raul Cortez até 17/11 às sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (20h).

        13/10/2019

 

         

         

         

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

CHERNOBYL 2


 
        Curado da gripe e ouvindo melhor, fui ontem rever Chernobyl, o pungente espetáculo dirigido por Bruno Perillo que a cada novo trabalho tem revelado sua criatividade e talento como encenador. Não tenho muito a acrescentar ao que escrevi quando assisti à peça na estreia:
 
 
a não ser que percebi melhor certos detalhes que me escaparam da primeira vez.
 
        Apesar da crueza das palavras que ouvimos é um raro prazer testemunhar a interpretação das quatro atrizes que revelam suas versatilidades narrando os trágicos acontecimentos e interpretando crianças, funcionários da Central, vítimas do acidente e até uma boneca!
        Como não se sensibilizar com o relato da mulher que perdeu o marido e a quem foi negado o corpo radioativo da filhinha morta? Nicole Cordery o faz com tamanha perplexidade e equilibrada emoção que facilmente transmite essas sensações ao espectador.
        O perfeito gestual de Carolina Haddad como a boneca Antonia foi algo que me escapou na estreia. O olhar assustado daquela boneca que tudo vê e nada pode fazer ficará para sempre na lembrança de quem o presencia.
        Joana Dória com seu costumeiro talento empresta corpo e voz para várias personagens, entre elas, Helena, a mãe das crianças que após perder o marido e a filha se exila na França com o filho e as lembranças da tragédia que viveu.
        Manuela Afonso tem interpretação dinâmica e com semblante trágico emoldura muitas das cenas. Nesta segunda visita ao espetáculo fui testemunha de um tombo da atriz que não constava da cena. Espero que não tenha sido nada grave.
        Chernobyl é espetáculo denúncia que mostra de forma clara como a ganância e a indiferença dos governantes podem levar a tragédias devastadoras. Mariana, Brumadinho, devastação da Amazônia e agora invasão de óleo nas nossas praias que o digam! E temos Angra 3!
 
        CHERNOBYL está em cartaz no SESC Consolação até 22/10/2019 às segundas e terças às 20h com sessões esgotadas, mas que podem ser tentadas na fila da esperança. Se você não conseguir no SESC, o espetáculo cumprirá uma segunda temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade de 05 a 21 de dezembro. PROGRAME-SE.
 
        09/10/2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

SÍSIFO

 
 


        Vinicius Calderoni tem facilidade enorme para falar das coisas corriqueiras de maneira original e criativa”, essa é uma frase que abre um dos parágrafos do texto que escrevi por ocasião da estreia de Os Arqueólogos em 2016 e ela é válida para esse instigante Sísifo que ele escreveu em parceria com Gregório Duvivier. Cerca de sessenta pequenos textos preenchem a hora e meia da encenação onde um incansável ator sobe e desce uma rampa à maneira repetitiva do mitológico Sísifo que, segundo a lenda,  carrega pedras montanha acima por toda a eternidade. Gregório Duvivier consegue dar nuances interpretativas (voz e gestos) para ações que se repetem inúmeras vezes não caindo em momento algum na monotonia e mantendo o espectador atento o tempo todo.
        Contribuem para a dinâmica do espetáculo a rampa criada pelo cenógrafo André Cortez, a iluminação de Wagner Antonio e a excelente direção de movimento de Fabrício Licursi. Como figurino, Fause Haten criou um confortável agasalho para que o ator possa correr a vontade no espaço e dê seus inúmeros saltos no “vazio”. Fundamental também a participação do contrarregra que movimenta a rampa, cujo nome não consegui identificar no programa.    
        Como são pequenas histórias, umas podem ser mais interessantes do que as outras sendo que isso também depende do espírito do espectador no momento. A metáfora para o Brasil de hoje representada por um tombo bem tumultuado é brilhante e a conversa entre o ator e a sacola de lixo é uma pequena obra prima mostrando de forma contundente a efemeridade do homem diante da eternidade da sacola. Esses tristes tempos do triunfo da tecnologia sobre o homem são bem demonstrados pelo acúmulo de sacolas de lixo em cena e podem ser resumidos parafraseando Bertolt Brecht: “desta humanidade nada restará, a não ser o lixo que por ela gerada”.
        Sísifo é uma peça muito sutil e inteligente, diverte e faz pensar, atinge várias camadas de público, além de comprovar o imenso talento de seus realizadores.
        Um pequeno senão: Nos quinze minutos finais, por várias vezes, parece que a peça chegou ao fim... Mas ela continua, criando uma perda de expectativa para o final verdadeiro.

        SÍSIFO está em cartaz no SESC Santana até 20/10 às sextas e sábados às 21h e aos domingos ás 18h. Haverá uma sessão extra no dia 10/10 (quinta feira). NÃO DEIXE DE VER
 

        07/10/2019

domingo, 29 de setembro de 2019

BRIAN OU BRENDA



        Raças, gêneros e os tipos físicos mais variados compõem o elenco da peça Brian ou Brenda e essa diversidade não foi uma escolha ao acaso dos diretores Yara de Novaes e Carlos Gradim, uma vez que ela atesta a proposta da encenação.
        Ao que consta no programa o autor Franz Kepler fez uma grande pesquisa em torno do caso da família Reimer ocorrido na década de 1960 no Canadá, onde um dos gêmeos nascidos saudavelmente teve o pênis destruído numa cirurgia de circuncisão. Por sugestão médica a família concordou que o menino sofresse cirurgia para mudança de sexo “transformando-se” de Brian em Brenda. Um corpo de Brenda com espírito de Brian foi o tormento desse ser durante toda sua vida terminada tragicamente em 2004. Baseado nesses fatos reais Kepler escreveu texto dramaturgicamente ágil com elementos da trama que vão se esclarecendo aos poucos e que não devem ser comentados sob pena de tirar a surpresa do espectador.
        Com esse texto em mãos e o elenco citado acima os encenadores criaram espetáculo extremamente ágil e criativo onde todo elenco interpreta todas as personagens da história no melhor estilo coringa. Para facilitar o entendimento do espectador e também para criar clima propício para o desenvolvimento das personagens, os atores usam etiquetas com o nome das pessoas que estão vivendo naquele momento. Uma simples arquibancada com espaço frontal foi o cenário idealizado por André Cortez para o desenvolvimento da peça; para tanto contou também com a sempre criativa luz desenhada por Aline Santini que em certos momentos “encara” o espectador, colocando-o na berlinda. A trilha sonora de Dr Morris completa o clima exigido pela encenação, assim como os criativos figurinos de Cassio Brasil que ressaltam a importância da identidade de gênero.
        Lavínia Pannunzio, Augusto Madeira e Daniel Tavares, donos de raro domínio de palco, têm intervenções excelentes quaisquer que sejam as personagens que estejam fazendo e são muito bem acompanhados por todo o resto do elenco formado pelos surpreendentes Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Marcella Maia e Paulo Campos.        
        A intervenção da atriz Marcella Maia ao final do espetáculo coroa de forma exemplar tudo o que foi mostrado até então e é com o coração apertado de emoção e de indignação que o público deixa a sala de espetáculos.

        BRIAN OU BRENDA está em cartaz no Centro Cultural São Paulo às sextas e sábados às 21h e domingos às 20h até 20/10. NÃO DEIXE DE VER... Principalmente se tiver filhos pequenos!!


        28/09/2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

INSÔNIA – TITUS MACBETH



        O horror! O horror!” Exclama o coronel Kurtz diante da tragédia humana em O Coração das Trevas de Joseph Conrad.
        “O horror! O horror!” Exclamamos com um gosto amargo na boca, ao final de Insônia-Titus Macbeth.

        Parece incrível que espetáculo tão forte e cruel tenha saído de mãos tão delicadas como aquelas de André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla e Sérgio Roveri. Sinal dos tempos! Uma vez que escolheu montar Shakespeare (1564-1616), o casal, por sua índole e beleza poderia ter optado pelos nobres de Sonho de Uma Noite de Verão ou até por Romeu e Julieta, mas a violência e a truculência dos nossos tempos fizeram com que a escolha recaísse sobre dois dos mais sangrentos textos do bardo: Titus Andronicus (obra da juventude, ~ 1590) e Macbeth (obra da maturidade, ~ 1607)
        A costura dramatúrgica das duas obras realizada a quatro mãos por André e Roveri dá o protagonismo para Lady Macbeth e Titus e a inteligente intersecção das duas obras presente em vários momentos do espetáculo se intensifica e se completa na vigorosa cena final do banquete
        A encenação de André Guerreiro Lopes ocupa todo o espaço do 13º andar do SESC Avenida Paulista e permite que o espectador circule pelos vários pontos onde se desenvolvem as diversas cenas. Apesar de cruel e sanguinolenta a montagem é esteticamente muito bonita, fato reforçado pelo cenário e figurinos de Simone Mina e a preciosa iluminação de Marcelo Lazzaratto. A sonoridade do espetáculo concebida por Gregory Slivar e executada em boa parte em cena por Samuel Kavalerski é um dos pontos fortes do espetáculo.
        Helena Ignez, do alto dos seus 80 anos, interpreta Titus com vigor impressionante. Sua poderosa voz clamando pela liberdade dos filhos ecoa por todo o espaço cênico e perdura na mente do espectador tempos depois do término da função. Sua poderosa interpretação e a corajosa caracterização de seu Titus são fatos notáveis da atual temporada teatral.
        Djin Sganzerla demonstra sua versatilidade e seu talento interpretando a maquiavélica Lady Macbeth com muita energia.
        Michele Matalon encarrega-se de uma das bruxas que surgem para Macbeth (junto com Djin e Helena) e de Tamora, outra das malvadas de Shakespeare.
        Samuel Kavalerski tem poucas palavras, mas é poderosíssima presença em todo o espetáculo, servindo quase como um narrador por meio dos sons que produz ao tocar nos diversos objetos de cena.
        Dirceu de Carvalho empresta sua bela voz a um Macbeth ofuscado pela sua poderosa companheira.
        Camila Bosso interpreta Lavínia, filha torturada e estuprada de Titus. Sua figura em certo momento da peça lembra uma índia e em minha ignorância estranhei “O que faz uma índia na Roma do século IV a.c.?”, mas depois me lembrei que estamos no século XXI em um Brasil que já torturou, estuprou e matou muitos índios! E ainda o faz! Seria essa a relação? 
        Insônia – Titus Macbeth não é, nem se propõe a ser, um espetáculo fácil. É pungente e direto em seu recado e extremamente necessário para que se reflita na relação dele com a violenta situação deste nosso país desgovernado. Mais uma vitória para o Estúdio Lusco-Fusco que nos tem oferecido trabalhos que aliam tecnologia avançada de som e imagem com conteúdo consistente.

        INSÔNIA – TITUS MACBETH está em cartaz no SESC Avenida Paulista até 20/10 de quinta a sábado às 21h e domingos e feriados às 18h.

        OBS: O SESC prima pelo bom acolhimento a seus visitantes, porém, não é o que acontece com o hall do elevador do 13º andar da unidade da Avenida Paulista onde o público que vai assistir a um espetáculo na sala daquele andar é obrigado a aguardar a abertura da sala espremido. Situação extremamente desconfortável não prevista pelos arquitetos que fizeram a reforma do prédio, que a meu modo de ver, oferecia muito mais conforto ao visitante enquanto era a unidade provisória.  


        27/09/2019                             

 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

EU DE VOCÊ



1.   Uma introdução

         Tenho um amigo, figura influente de nosso teatro, que abomina monólogo. Argumenta que monólogo não é teatro e que os pouquíssimos bons monólogos a que assistiu eram exceções que comprovavam a regra!
        Até a metade da década de 1960 eram raras as montagens com menos de três atores. Os espetáculos do TBC e mesmo do Arena e do Oficina tinham elencos numerosos. O único monólogo que marcou época nesse início de década foi Diário de Um Louco (1965) na interpretação do grande Rubens Corrêa.
        O sucesso em 1969 de O Cão Siamês de Antonio Bivar (posteriormente rebatizada como Alzira Power) - com uma interpretação antológica de Yolanda Cardoso - e as dificuldades de produção devido à eterna crise do teatro, agora intensificada pela ação da censura, levaram alguns autores a escreverem textos com duas personagens, entre eles algumas obras primas, como O Assalto de José Vicente e, principalmente, Fala Baixo Senão Eu Grito de Leilah Assumpção, com Marília Pêra e Paulo Villaça. Completavam a lista desse ano: As Moças de Isabel Câmara e À Flor da Pele de Consuelo de Castro, mas os monólogos continuavam raros. Só nos anos 1970 é que eles marcam presença com A Vinda do Messias (1970) com Berta Zemel e Apareceu a Margarida (1974), momento maior de Marília Pêra.
        Com pouca incidência até o final do milênio, o monólogo atinge força total na segunda metade da segunda década deste século atingindo a considerável número de uma centena de espetáculos por ano (cerca de 20% do total de peças apresentadas nos palcos paulistanos). Alguns excelentes, outros razoáveis e outros francamente ruins, como qualquer outro espetáculo quer seja monólogo ou não. 

2.   Eu de Você

        Denise Fraga aderiu ao monólogo e o faz com seu talento e sua graça habituais. Dirigida por Luiz Villaça, ela foi buscar em relatos de pessoas comuns, as histórias que compõem o novo espetáculo. Acompanhada por um trio de músicas, Denise interpreta, canta e dança em cena mostrando com muita humanidade os dramas e comédias de seres humanos iguais a ela, a mim e a você. Os relatos sofreram tratamento dramatúrgico e o texto final assinado a seis mãos por Rafael Gomes, Denise e Villaça apresenta-se coeso e harmonioso.
        O espaço cênico contém três telões onde são projetadas fotos das pessoas que enviaram suas narrativas e a iluminação de Wagner Antônio colore esses telões nos momentos adequados a cada emoção. Esses elementos mais a participação preciosa das três músicas (Fernanda Maia, piano; Clara Bastos, guitarra e Priscila Brigante, bateria) são os recursos disponíveis e o resto é com Denise Fraga que circula pela plateia, interage com o público fazendo-o até cantar.
        E já que escrevemos sobre monólogos é bom lembrar que na mesma semana estreou no Teatro Porto Seguro Alma Despejada com Irene Ravache. Mais uma exceção para comprovar a regra do meu amigo???


3.   O novo Teatro Vivo 

        E o Teatro Vivo está de cara nova! A sala de espera bem mais iluminada; a sala de espetáculos e o palco dão a impressão de terem ficado mais amplos, além de significativa melhoria na acústica. É uma felicidade ver uma empresa privada investindo em cultura. Viva a Vivo!!

        Na reabertura da casa, Eu de Você, que é apresentada às sextas (20h), aos sábados (21h) e aos domingos (19h) está em boa companhia: o excelente espetáculo Ordinários da Cia. LaMínima apresenta-se às quartas e às quintas (20h).


(*) Endereços das matérias sobre esses espetáculos.

        23/09/2019