sábado, 21 de setembro de 2019

ALMA DESPEJADA





       Com seu talento e suas técnicas e experiências teatrais, Irene Ravache domina e preenche com tranquilidade o imenso palco do Teatro Porto Seguro. Ela nos faz ver a família, os móveis e a empregada que habitaram aquela casa hoje vazia e prestes a ser transformada ou até demolida. Dona Teresa está morta e visita a casa pela última vez e nesse aspecto a peça dialoga com Quando Tudo Estiver Pronto do dramaturgo americano Donald Margulies que esteve em cartaz até a pouco em São Paulo. Irene Ravache, com sua interpretação segura e contida, conduz as emoções dos espectadores em suas mãos.
       O cenário de Fábio Namatame preenche o espaço com as caixas dos móveis e objetos que, assim como a alma da antiga dona da casa, serão despejados. Um imenso painel ao fundo da cena tem uma árvore pintada, bonita, mas quase brega, como a fonte que Teresa diz ter na entrada da casa. Namatame também assina o sóbrio modelo vestido pela atriz.
       Solos de violoncelo (autoria de George Freire e Daniel Grajew) e uma suave iluminação de Hiram Ravache ilustram e complementam os humores e sentimentos pelos quais a personagem passa durante a ação da peça.
      Com muita delicadeza Elias Andreato harmoniza todos esses elementos junto com a soberba interpretação de Irene Ravache, presenteando o público com pouco mais de uma hora de bom teatro.
       Tudo funciona no espetáculo, mas a maior atração é o texto de Andréa Bassit. Com construção dramatúrgica enxuta e perfeita, Andréa dribla o que poderia haver de melancólico no tema, tratando-o com humor delicado e certeiro, além de não deixar de mencionar coisas importantes dos tempos atuais como a posição da mulher na sociedade e a corrupção dos políticos, uma das maiores feridas do nosso país.

       ALMA DESPEJADA está em cartaz no Teatro Porto Seguro às quartas e quintas feiras às 21h até 28/11.

       21/09/2019

      

terça-feira, 10 de setembro de 2019

CHERNOBYL





        Assisti ontem a Chernobyl, mais um soco no estômago como aqueles provocados quando estamos diante de uma obra que trata de imensa tragédia humana.
        Na última sexta feira assisti a uma peça-conferência do uruguaio Sergio Blanco onde ele comenta sobre a celebração da violência e sobre certo fascínio mórbido com que olhamos as barbaridades ocorridas à nossa volta, quer sejam produzidas por acidentes naturais, quer sejam realizadas pelo homem.
        Essas obras me fizeram refletir sobre o misto de compaixão/revolta/piedade/indignação e porque não? fascínio, com que olhamos para os prisioneiros de Auschwitz, para as vítimas do ataque de Hiroshima, para o menino sírio morto na praia de Bodrum na Turquia, para a condição sub humana em que vivem os moradores de rua e para tantas outras barbaridades, a maior parte delas, provocadas pelo assim chamado homo sapiens!


        Foi com esse espírito e com forte mal estar provocado por uma gripe que assisti ao pungente espetáculo dirigido com mão de mestre por Bruno Perillo tendo quatro excelentes atrizes no elenco.
         O texto da francesa Florence Valéro narra os terríveis fatos ocorridos em 1986 na Ucrânia com a explosão da usina nuclear de Chernobyl contando a história pelos olhos de uma boneca que a tudo presenciou sem poder fazer absolutamente nada. E aqueles dotados de vida o que puderam fazer? Nada também!
        Com o uso de sugestivas imagens e até com pitadas de humor, a encenação de Perillo procura amenizar, sem deixar de denunciar, essa imensa tragédia, para tanto se mune dos sugestivos figurinos cinzentos criados por Chris Aizner, assim como do cenário também de Aizner, composto por caixotes que circulam pelo espaço adquirindo diversas funções. A iluminação e o vídeo de Grissel Pinguillem completam o ambiente necessário para o espetáculo.
        Quatro grandes atrizes se revezam nas diversas personagens/narradoras propostas pela autora. Excelentes quando atuam em conjunto, Carolina Haddad, Joana Dória, Manuela Afonso e Nicole Cordery brilham ainda mais em seus solos/depoimentos.
        Chernobyl é espetáculo necessário para refletirmos sobre os desmandos a que estamos sujeitos. Não podemos esquecer que temos uma Angra 3 à espreita!
        Vou rever o espetáculo em momento melhor de saúde e talvez mude meu ponto de vista e volte a escrever sobre ele.

        CHERNOBYL está em cartaz no SESC Consolação às segundas e terças às 20h até 22/10. NÃO DEIXE DE VER.

 

        10/09/2019

 

 

sábado, 7 de setembro de 2019

CASA SUBMERSA



Virginia Buckowski
 
         Desta vez a Velha Companhia mergulha fundo nas águas turvas de um Brasil desumano e violento para contar a saga de Maíra, uma bióloga marinha traumatizada com seu passado obscuro e que ao ir atrás dele descobre não só as suas origens como os fatos que levaram ao assassinato do seu suposto pai pelo fato dele ter denunciado a morte de 500 caminhoneiros no estado do Pará na década de 1980. O público é guiado por um escafandrista que o conduz literalmente até o fundo do poço brasileiro.
 
Leonardo Fernandes

         A peça de Kiko Marques é dividida em três atos que ele chama de estágios de apneia. No primeiro (O Tubarão de Okinawa) o autor faz o seu costumeiro jogo com o tempo e o espaço de maneira não cronológica para contar um pouco sobre quem é a protagonista Maíra. O ato termina com um diálogo entre Maíra e um tubarão do aquário de Okinawa que, ao que se sabe, é o único de sua espécie que vive confinado em um viveiro. O segundo estágio (A Casa) é mais linear e no meu modo de ver, o melhor elaborado, ali conhecemos a família de Maíra e parte do seu passado. No terceiro ato (Lago de Lágrimas) uma madura e agora vivida Maíra já com todos os detalhes do seu passado e de sua origem provoca uma verdadeira explosão em relação aos seus predadores. Mais não escrevo para não ser desmancha prazer. Apesar de estarem dramaturgicamente bem amarrados, com pequenos ajustes cada um desses atos poderia funcionar como uma peça independente.

         A elaboração do texto começou a partir de oficinas realizadas pela Velha Companhia em 2018. Os participantes relataram casos fictícios ou reais. Um desses fatos - terrivelmente cruel e retrato do Brasil violento em que vivemos - somado a um sonho que Kiko teve com casa submersas foi o embrião da obra que hoje se chama Casa Submersa. Trata-se do texto mais complexo do dramaturgo e ele completa a Trilogia das Águas iniciada com a obra prima Caís ou Da Indiferença das Embarcações de 2013 e continuada com Sinthia em 2016.

         Para dar conta do texto a encenação é tão complexa quanto ele. O cenário de Marisa Bentivegna que corta o espaço cênico numa semi diagonal expõe e esconde os personagens, além de servir de tela para as projeções de imagens, a iluminação através de uma porta com as entradas e saídas do escafandrista sugerem os quadros de De Chirico. Os belos figurinos de João Pimenta são bastante estilizados sugerindo a personalidade da cada personagem. Bruno Menegatti criou uma poderosa trilha musical para acompanhar as ações.

         Kiko Marques harmoniza todos esses elementos com um elenco tão homogêneo que fica difícil destacar esta ou aquela interpretação.
 
         O autor dá um verdadeiro presente para sua companheira Virginia Buckowsky por meio da personagem Maíra que vai da insegurança das primeiras cenas ao total domínio da situação no final da peça. Virginia atravessa praticamente toda a peça em cena e aproveita cada momento de sua personagem nos presenteando com uma vigorosa interpretação.
 
Kiko Marques

          Kiko reservou para si o difícil personagem do Senador e o faz com grande brilho. Willians Mezzacapa está ótimo como o patético português Augusto, enamorado de Maíra e homenageia Maurício de Barros no modo de falar com o Seu Dejair. Os Marcelos Marothy e Diaz brilham como sempre, o primeiro como o asqueroso Salsicha e o segundo como o impagável tubarão de Okinawa. Valmir Sant’Anna que foi uma revelação em Sínthia confirma seu talento como o injustiçado pai. Leonardo Fernandes faz sua estreia na companhia em grande estilo como o escafandrista. Bruno Menegatti e Rodrigo Vellozo encarregam-se da parte musical, além do último também interpretar o psiquiatra que cuida de Maíra.
 
Patrícia Gordo
 
Adriana Dham

         E o que dizer do elenco feminino? As três irmãs de Maíra ganham vida nas intervenções de Patrícia Gordo (cada dia melhor), Adriana Dham e Ana Negraes, sendo que esta última interpreta uma sensual “sereia” no primeiro ato. Muito simpática e oportuna a inclusão de uma verdadeira índia (Sandra Nanayna) como Dulce que além de boa atriz canta com uma linda voz.
 
Juliana Sanches
 
         Por último, mas não menos importante: a talentosíssima Alejandra Sampaio interpretaria a personagem de Maíra Mãe, mas sua nenê deu sinais de querer vir ao mundo antes do tempo e ela teve que abandonar temporariamente o projeto. Substituída às pressas por Juliana Sanches, esta teve menos de uma semana para se preparar para o papel. Contando com o carinho e o apoio do grupo, com seu esforço e com o imenso talento que o Universo lhe deu, Juliana já na noite de estreia nos ofereceu tanto uma “Maíra Mãe” como “A Que Ria das Dores” plenas de humanidade e verossimilhança.
 

         Essa somatória de talentos só poderia resultar em mais uma vitória da Velha Companhia.

         CASA SUBMERSA está em cartaz no SESC Pompeia de quarta a sábado às 20h e aos domingos às 18h. São poucos lugares e a temporada é curta (só até 22/09). Corra e acompanhe o escafandrista por nossas águas turvas! É doloroso, mas é necessário!

         07/09/2019

        

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 1 de setembro de 2019

CORDEL DO AMOR SEM FIM



        Há muita delicadeza e muita singeleza neste texto de Claudia Barral. Delicadeza e singeleza tão raras nos dias conturbados que vivemos que é um verdadeiro alento parar o tempo por uma hora para testemunhar que para a protagonista Tereza o tempo só passa para ela esperar pelo resto de sua vida um Antonio que virá, que virá, que virá...
         O texto de Barral é pleno de poesia e beleza e Daniel Alvim soube conservar essas qualidades na ótima montagem ora em cartaz no SESC Santo Amaro.
        Em 2007 o grupo Sinhá Zózima dirigido por Anderson Maurício já havia montado esse texto que era representado dentro de um ônibus e agora Alvim faz uma nova leitura do mesmo.
        A trama é muito simples: três irmãs têm uma vida simples no sertão nordestino à beira do Rio São Francisco, a caçula Tereza está prometida para o matuto José, mas ao apaixonar-se por Antonio que ela conheceu ao acaso no cais, ela jamais pensará em outro homem, malgrado as interferências das duas irmãs e a espera eterna pelo homem que viu uma única vez. A história tem desdobramentos trágicos beirando o melodrama, o qual tanto a autora como o diretor sabem dosar.
        A direção de Daniel Alvim é de uma delicadeza ímpar valendo-se das belas canções criadas por Dadi Barral para criar o clima necessário ao espetáculo. São importantíssimos os silêncios que pontuam toda a encenação e que muitas vezes transmitem muito mais que as palavras. Apesar de estarmos no sertão nordestino um suave vento tchekhoviano sopra durante toda a peça. O tablado criado pelo cenógrafo André Cortez onde se desenvolve toda a ação é bonito e bastante flexível; ele está aparentemente apoiado em bacias cheias de água que poderiam representar o Rio São Francisco.
        Um elenco primoroso dá vida às personagens criadas por Claudia Barral: as três irmãs são interpretadas com muito carinho por Helena Ranaldi, Patrícia Gasppar e Débora Gomez, todas elas, de alguma maneira, esperando que um dia as coisas tomem um novo rumo (olha aí, Tchekhov!). Rogério Romera com seu belo porte é o narrador da história e intérprete das canções dedilhando o seu violão. Luciano Gatti representa com muita garra o matuto José, poço de frustrações que ele transforma em ódio desencadeando o trágico final da história. Trágico não para Tereza que vai continuar a esperar o seu Antonio.
        O texto Rio adentro e suas histórias de Daniel Alvim constante do programa é um bônus poético que complementa o espetáculo e não pode deixar de ser lido.

        CORDEL DO AMOR SEM FIM está em cartaz só até o próximo fim de semana (08/09). Quinta e sexta (21h), Sábado (20h) e Domingo (18h30). IMPERDÍVEL!

        01/09/2019

 

 

       

CRIATURA – UMA AUTÓPSIA


 
       O artista que muito jovem escreve sua obra prima fica marcado por ela pelo resto de sua vida. Com Mary Wollstonecraft Shelley (1797-1851) não aconteceu diferente. Ela tinha apenas 21 anos quando escreveu Frankenstein e essa é a obra pela qual ela será sempre lembrada. Apesar de muito jovem Mary já tinha uma experiência de vida e já havia perdido dois filhos, mesmo assim é surpreendente pensar em sua imaginação ao criar personagem tão monstruoso.
       Bruna Longo concebeu um espetáculo onde coloca frente a frente criadora e criatura e em apenas uma hora dá ao espectador uma boa ideia da vida de Mary Shelley e de seu personagem mais famoso. Pequenina em tamanho, Bruna se agiganta em cena colocando seu corpo e sua límpida dicção (como é bom entender cada sílaba que o ator diz!) a serviço de seus personagens. Contribuem para o sucesso da empreitada a lúgubre ambientação cênica criada pela atriz e por Kleber Montanheiro; assim como os adereços que compõem a cena trazidos também por Bruna com a colaboração de Larissa Matheus; a precisa iluminação de Rodrigo Silbat e a poderosa trilha sonora escolhida também por Bruna. Todos esses elementos harmoniosamente somados oferecem a moldura perfeita para a intérprete que transitando entre o criador e a criatura mostra pleno domínio de cena e oferece ao espectador uma marcante interpretação com base no assim chamado teatro físico.
 
Foto de Danilo Apoena
 
       Para quem não conhece detalhes da vida de Mary Shelley a primeira parte da peça pode soar confusa, principalmente pelo fato de uma parte da história ser narrada em off e outra pela atriz em cena. Uma leitura prévia do texto incluso no programa ajudaria, mas o mesmo só é entregue quando se entra na plateia.
        
       CRIATURA – UMA AUTÓPSIA encerrou sua temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade no dia 31/08, mas fará QUATRO SESSÕES EXTRAS no mesmo local no mês de setembro. Fique de olho nas datas e horários (Telefone: 3222-2662)
 
       01/09/2019
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

NESTE MUNDO LOUCO, NESTA NOITE BRILHANTE



Silvia Gomez e seus coelhos voadores

        É difícil, ou quase impossível, escrever de maneira cartesiana sobre uma peça de Silvia Gomez. Quem assistiu a O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade (2008), Mantenha Fora do Alcance do Bebê (2015) e Marte, Você Está Aí? (2017) sabe ao que estou me referindo. Ela mesma define este seu último trabalho como um delírio e é um pouco nesse estado que devemos assistir ao espetáculo.
        A princípio a estrutura da trama é simples: uma Vigia está no km 23 de uma rodovia, quase um fim de mundo, onde é comum ocorrerem crimes e principalmente estupros, aos quais ela está acostumada. Acontece mais um com uma jovem chamada apenas de L. e a Vigia relata de forma impessoal o fato, mas pouco a pouco a relação das duas evolui em outro sentido levando o público a uma viagem pelos delírios da autora onde coelhos voam e onde “comissários de bordo fazem o mundo parecer sob controle”. Usando recursos de metateatro as atrizes saem de seus personagens para indicar qual a melhor iluminação e a melhor música para determinada cena da peça (em certo momento a Vigia pede uma música do tipo “o mundo é bom e as pessoas generosas”). A música, por sinal, é deliciosamente tocada pela banda de jovens colombianas Las Majas.
        Visualmente a montagem é muito bonita com cenário em perspectiva de André Cortez e Luiz Duva, este último responsável pelo vídeo cenário. A criativa iluminação de André Prado e Gabriel Fontes Paiva em certos momentos chega a invadir toda a plateia criando efeito muito interessante para o envolvimento do público na trama.
        Yara de Novaes mais uma vez é absolutamente poderosa como a Vigia, dominando a cena do início ao fim da peça. Débora Falabella, dona de excelente expressão corporal, interpreta a jovem L. com muita precisão.
        Gabriel Fontes Paiva – membro do Grupo 3 de Teatro junto com Yara de Novaes e Débora Falabella - orquestra elenco, músicos, cenário e iluminação de maneira harmoniosa criando um todo belo e intrigante, fiel à escrita delirante da autora.
        Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante é o tipo de espetáculo mais para ser sentido do que entendido, apesar de ficar bastante claro o que ele quer dizer. Quando o público adentra a sala de espetáculos as atrizes e as garotas músicas estão realizando um exercício com varas e a seguir Yara e Débora têm um breve diálogo sobre a dificuldade em iniciar a peça. Coisas de Silvia Gomez!
 
      Débora Falabella, Yara de Novaes, Gabriel Fontes Paiva, Silvia Gomez

        A peça está em cartaz no Teatro Anchieta até 06/10 com sessões ás sextas e sábados (21h) e domingos (18h).


        27/08/2019

domingo, 25 de agosto de 2019

A NEVE ou FORA DE CONTROLE



 
São só mais cinco minutos...

        Nem sempre um bom texto literário resulta em bom espetáculo. Os dois primeiros trabalhos apresentados nesta 5ª edição da sempre bem-vinda e tão necessária Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do CCSP careciam, a meu modo de ver, de dramaturgia cênica, sendo mais interessantes lidos do que encenados.
 
        A Neve, último espetáculo da Mostra, no entanto, tem exuberância cênica, apesar dos poucos recursos de produção disponíveis.
        O texto de René Piazentin parte de premissas caras ao realismo fantástico para contar uma história que infelizmente é muito real e nada fantástica. Os porões do regime totalitário brasileiro são mostrados com certa crueza enquanto lá fora faz sol e ao mesmo tempo neva sobre o Pão de Açúcar. Pedro é o jovem que desaparece aos olhos de sua irmã e de sua companheira e em torno deles gravitam personagens muito interessantes e bem construídas como Dona Serena (a proprietária da padaria), o jovem Neneno da Dor Profunda (talvez a figura mais interessante da peça), Dodô (amigo de Pedro), o Presidente, Militares e Carcereiros. Tudo transcorre em um clima de sonho, ou melhor, de pesadelo.
        O próprio autor dirige a montagem com mãos certeiras mostrando bastante domínio especialmente nos vários momentos em que coloca sonho, imaginação e realidade simultaneamente em cena e também usando recursos cênicos e interpretativos quando a trama parece resvalar para o melodrama evitando assim essa armadilha.
        O cenário de Eliseu Weide composto de estruturas móveis deslocadas pelos atores é simples, mas bastante eficiente e é particularmente notável o painel “tropicalista” pintado com o Pão de Açúcar coberto de neve. A trilha sonora selecionada pelo autor/diretor pontua bem e discretamente toda a ação e fecha o espetáculo de maneira irônica com a marchinha de carnaval que antecedia Presidente Bossa Nova que a saudosa Elis cantava em Saudade do Brasil. Pois é Elis! Se em 1980 você tinha saudade do Brasil de 1960, o que dizer do que sentimos neste calamitoso 2019.
        O programa tem o mérito de incluir o texto integral da peça, porém presta um desserviço ao elenco! Na ficha técnica não há a relação de quem faz o que, dificultando a nominação deste ou aquele trabalho. Destaco então o trabalho do elenco feminino: a firmeza de Thaís e de Carmen, a humanidade de Serena e principalmente, a inocência e a perplexidade da garota que interpreta Neneno Dor profunda. Do elenco masculino o destaque vai para o ator que representa o locutor e o militar.

Elenco com Neneno Dor Profunda à frente

Thaís e Carmen

Dona Serena
 
        A Neve ou Fora de Controle é espetáculo bem escrito e bem encenado, contando bem uma história com final surpreendente, que não vou ser desmancha prazer de contar aqui.

        E a neve continua a cair sobre todo o Brasil, mas só por mais cinco minutos...

        A NEVE ou FORA DE CONTROLE está em cartaz no Centro Cultural São Paulo até 15/09 às sextas e sábados (20h30) e domingos (19h30). NÃO DEIXE DE VER!

 

        25/08/2019

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

PROJETO REVIDE


Foto de Leekyung Kim

       No programa da peça Hotel Mariana, verbatim foi definido como “um tipo de teatro documentário que reproduz no palco as palavras exatas de depoimentos reais sobre um determinado tema ou evento”. Herbert Bianchi volta a usar o verbatim em sua nova direção Projeto Revide. O grupo passou a se chamar Teatro Verbatim.

       Quatro atrizes e três atores se revezam em cena com fone de ouvido reproduzindo os relatos de pessoas que foram entrevistadas durante o processo de criação do espetáculo. O tema escolhido pelo grupo foi a violência que cresce dia a dia neste Brasil que está se tornando uma imensa terra de ninguém. Os relatos são em sua maioria áridos e pesados.

       Herbert Bianchi e Letícia Sobral que assinam a dramaturgia criaram uma narrativa para ligar os relatos localizando a ação em um espaço repleto de arquivos de aço (arquitetura cênica de Bianchi e Eric Lenate), símbolos da burocracia e da inércia de nosso país em tratar de assuntos de tamanha gravidade. Ali um suposto chefe (Carlos Moreno) dá instruções burocráticas para uma arquivista novata (Letícia Sobral).

       O elenco interpreta com bastante sobriedade as personagens entrevistadas e o resultadoi é bastante homogêneo e sóbrio, apesar da crueldade do tema tratado.

       Projeto Revide vem se somar a Terror e Miséria no Terceiro Milênio na denúncia das mazelas políticas e sociais em que o Brasil está enterrado. É notável testemunhar os trabalhos de grupos que suplantam a autocensura (algo mais  nefasto que uma censura oficial) e fazem suas denúncias de forma direta e corajosa.


       PROJETO REVIDE está em cartaz no Teatro Cacilda Becker somente até 25/08 com sessões no sábado às 21h e no domingo às 19h.

 

       19/08/2019

domingo, 18 de agosto de 2019

TEATRO CACILDA BECKER




O DIA EM QUE GRETA GARBO VIROU CACILDA BECKER OU VICE-VERSA
 
       No início da noite do quente domingo de 18 de agosto de 2019 me dirigi ao Teatro Cacilda Becker para assistir ao espetáculo Projeto Revide.
       Atravessando a Rua Tito notei um enorme painel com o retrato de uma mulher que me pareceu a Greta Garbo. Mas o que fazia a Greta Garbo na entrada do Teatro Cacilda Becker?
       A curiosidade exigiu que eu perguntasse para a senhora da bilheteria sobre o assunto e ela me garantiu que aquela era a Cacilda Becker e me indicou o pintor Johnny que estava realizando a pintura. Fui falar com ele sobre a semelhança com a Greta Garbo e ele me disse que tinha feito o trabalho a partir da foto que lhe entregaram como modelo e em seguida me mostrou a foto.
 
 
 
       - Mas esta é a Greta Garbo, eu exclamei.
       - Essa foto estava entre as fotos da Cacilda no Google, Johnny respondeu.
       Patrícia Borges Roggero - simpaticíssima e solícita diretora do teatro - estava por lá e eu fui falar com ela. A princípio incrédula, depois ela concordou comigo que houve um grande equívoco que precisa ser reparado: o lindo retrato de Greta infelizmente vai desaparecer para dar lugar a quem de direito: Cacilda Becker!
       Além deste, Johnny deverá realizar mais retratos de Cacilda nos muros que circundam o teatro.
       Essa homenagem à grande atriz brasileira que dá nome ao teatro é uma belíssima iniciativa do grupo que administra o espaço.
 
 
VIVA CACILDA BECKER (1921-1969)
VIVA O TEATRO BRASILEIRO
 
       18/08/2019
       

terça-feira, 13 de agosto de 2019

FRANCESCO


Francisco, segundo Pennacchi


       Quem conhece a obra e a personalidade do dramaturgo italiano Dario Fo (1926-2016) sabe que jamais uma obra sua sobre Francisco de Assis se assemelharia ao adocicado Irmão Sol, Irmã Lua de Franco Zeffirelli. O seu Francesco é irreverente, cheio de vida e humor, claramente contrário aos dogmas da igreja católica, e trata o biografado de forma muito humana e poética. Pode-se avaliar a importância desse monólogo para Fo ao saber que ele próprio o interpretou por quinze anos (de 2000 a 2015).

       Neyde Veneziano, nossa especialista em teatro de revista e em Dario Fo conduz com muita energia a encenação, focando a atenção na interpretação de Paulo Goulart Filho que se não nos surpreende com suas conhecidas qualidades de dançarino, nos espanta com sua interpretação vigorosa e versátil (ele dá conta de cerca de vinte personagens, incluindo um urso). Dono de porte e voz potentes, o ator em cena lembra muito o seu pai, o saudoso Paulo Goulart (1933-2014).
 
Neyde Veneziano e Paulo Goulart Filho nos agradecimentos
 
       As pequenas igrejas, as catedrais, o palácio papal e a paisagem da Itália medieval ganham vida no palco nu do teatro por meio do engenhoso desenho de luz criado por André Lemes.

       Enriquecem o espetáculo a bela trilha sonora de Daniel Maia e o sóbrio e franciscano figurino criado por Fabio Namatame.

       Francesco é espetáculo alegre, cheio de vida e com cheiro de terra, digno daquele Francisco humano que compartilhou suas histórias com o povão de sua terra e que nas horas vagas conversava com ursos e passarinhos.


       FRANCESCO está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 31/08 com sessões às quintas, sextas, sábados e segundas às 20h e aos domingos às 18h.


       Detalhe extra crítica: Toda a família Goulart (com exceção de Beth) estava presente na noite de 12/08 prestigiando orgulhosa o trabalho do filho/marido/irmão/tio/pai e foi um verdadeiro privilégio testemunhar o perfil da querida Nicette Bruno (ela estava sentada na fileira da frente da minha) acompanhando alegre e emocionada o trabalho do seu Paulinho.

 

       13/08/2019

      




domingo, 11 de agosto de 2019

O CASO SEVERINA


 
Foto: Arnaldo Pereira

        Desde os primeiros momentos da peça fica-se sabendo que Severina Maria da Silva foi a mandante do assassinato do próprio pai Zé Fuba. O restante da peça trata de forma bastante didática a reconstituição dos fatos que antecederam e sucederam o crime, buscando as razões que levaram Severina a tal atitude.
        Acostumados ao humor consciente que sempre permeou as montagens da Fraternal Companhia de Arte e Malas Artes, somos surpreendidos por uma narrativa densa e dramática baseada em fatos reais e que denuncia de forma contundente as violências praticadas com as mulheres neste vasto Brasil. Na hora e meia do espetáculo não há, nem deveria haver, nenhum pequeno espaço para o riso épico tão comum ao grupo.
        A direção de Ednaldo Freire acompanha o didatismo e a linearidade propostos pela dramaturgia de Alex Moletta que é baseada em fato real ocorrido em 2005 no agreste nordestino. Não se sente falta de cenário no palco nu nem de muitos figurinos para se acompanhar com tensão os fatos interpretados/descritos pelos atores/narradores. A trilha sonora de Luiã Borges e Luiz Carlos Bahia é discreta e pontual, comentando e enriquecendo com muita precisão as ações da peça.
        Mirtes Nogueira e Aiman Hammoud, excelentes intérpretes e veteranos da Fraternal, encarregam-se das personagens de Severina e Zé Fuba, enquanto Maria Siqueira, Carlos Mira e Giovana Arruda dividem-se nas demais figuras que de alguma maneira tiveram participação nos fatos ocorridos.
        Pelo tema tratado O Caso Severina é teatro urgente e de denúncia e deve ser visto por todos que se interessam pelas barbaridades ocorridas contra as mulheres e os seres humanos em geral neste Brasil tão propenso à violência e às impunidades.
        Temporadas curtas, normalmente inferiores a um mês, dificultam o boca a boca, recurso tão importante para a divulgação de bons espetáculos. O Caso Severina sai de cartaz no próximo domingo (18/08) e espera-se que encontre recursos para prorrogar sua carreira.

        O CASO SEVERINA está em cartaz no Galpão do Folias às sextas e sábados ás 21h e aos domingos às 19h. NÃO DEIXE DE VER.

        11/08/2019


       

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

AUTO DA COMPADECIDA


Foto de Tati Motta

ALEGRIA, ALEGRIA!

        Vou fazer a louvação do que deve ser louvado: louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado”, já diziam Torquato Neto e Gilberto Gil.

        Louvar essa delícia clássica de Ariano Suassuna e a assinatura de Gabriel Villela na direção é discorrer sobre o óbvio. O texto de Suassuna tem vigor juvenil e é atualíssimo, além de extremamente popular; Villela tem mãos de Midas transformando tudo o que toca em cores vivas, além de conduzir os atores de forma vibrante.
        Agora a louvação deve se dirigir a essa surpresa para nós paulistanos que é o Grupo Maria Cutia que já tem 13 anos e é formado por jovens e talentosos mineiros com grande vivência em teatro popular e de rua.
        A encenação já coloca o público em suas mãos com a entrada pelas escadas do teatro do Bloco Maria Cutia cantando sorridente e triunfante. Depois de interpretarem com muita garra um ícone da nossa música resistente que é Eu Quero Botar o Meu Bloco na Rua do saudoso Sérgio Sampaio e dedicarem ao momento atual uma sequencia hilária de canções (“Já fui pobre, já fui jornaleiro”, seguida de “O Guarani”) que Elis imortalizou em Falso Brilhante e que eles interpretam da mesma maneira que ela, nossos corpos ainda estão sentados, mas nossa alma já está no palco e preparada para ver e ouvir as peripécias de Chicó e João Grilo, deliciosamente interpretados respectivamente por Hugo da Silva e Leonardo Rocha.
        É difícil descrever toda a beleza e a alegria de assistir a este espetáculo. O desenvolvimento da conhecida trama intercalado por canções da época da Tropicália e ilustrado com o cenário e os figurinos coloridos tão característicos de Villela mostram atores em estado de graça que interpretam as várias personagens e cantam muito bem, preparados vocalmente pela sempre competente Babaya.
        Assim como o gato de João Grilo que “descome” dinheiro, o espetáculo “deslouva” o “ruim”, sem deixá-lo de lado como na letra de Torquato Neto. De maneira divertida e direta com pequenas inserções no texto original mostra com humor como é ridícula e atemorizante a situação atual do nosso pobre Brasil com todo o “ruim” que emana do Planalto Central.
        O espectador sai energizado do espetáculo acreditando que um dia este Brasil poderá ser melhor. Resta saber o que ele fará com essa esperança.

        Sei não, só sei que foi assim”.

         AUTO DA COMPADECIDA está em cartaz no SESC Pompeia de quinta a sábado às 21h e domingos às 18h só até 1º de setembro. CURTA TEMPORADA! CORRA!!

 

        09/08/2019

domingo, 4 de agosto de 2019

CARAS DE PLAUTO


 
        A comédia grega de Aristófanes (450 A.C.- 385 A.C.) repercutiu na Roma antiga dois séculos depois nas obras de Plauto (254 A.C.- 184 A.C.) e Terêncio  (185 A.C. – 159 A.C.). Muitos séculos depois Shakespeare em uma de suas primeiras obras foi buscar em Os Menecmos de Plauto inspiração para sua A Comédia dos Erros e se Shakespeare (1564-1616) o fez lá no século 16, por que Atilio Bari (meados do século 20 -?) não pudesse fazê-lo em pleno século 21?
        Com bastante irreverência e numa linguagem deliciosamente atual e construída em versos, Bari nos reconta a história dos irmãos gêmeos idênticos de nome Menecmo que são separados na infância e que voltam a se encontrar após muitas peripécias e confusões envolvendo a nobreza (eles próprios) e a ralé (parasitos, escravos, serviçais e cortesãs). Segundo o autor trata-se de uma viagem por mares gregos e romanos, tocada por ventos de brasilidade, com o que concordamos plenamente acrescentando que é uma viagem muito divertida. O espetáculo não vende gato por lebre: foi feito para divertir e o faz com muita competência.
        O elenco diverte e se diverte com as aventuras dos Menecmos. Caras de Plauto misturam-se saborosamente com Caras de Pau todas elas adornadas com belas máscaras (a ficha técnica não indica a autoria das mesmas), com exceção da personagem da cortesã Erócia, a única a mostrar a sua cara.
        Patrocinado pela loja de artigos masculinos Ao Grego Elegante, o espetáculo se permite um pequeno intervalo onde são apresentados os modelitos vestidos pelos personagens.
        Em tempos tão difíceis e sombrios é muito bem vinda uma comédia que nos faça rir por algumas horas. Valeu Atilio Bari!
 
        CARAS DE PLAUTO está em cartaz no Espaço Parlapatões até 08 de setembro aos sábados (21h) e aos domingos (20h).
 
        04/08/2019

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

BALADA DOS ENCLAUSURADOS



 
Foto de Leekyung Kim

        Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. Não há como não se lembrar dessa frase de Camille Claudel (1864-1943), presente em placa da residência onde ela morou em Paris e celebrizada por Caio Fernando Abreu em uma de suas belas crônicas, ao assistir ao pungente espetáculo criado por Erica Montanheiro e Eric Lenate sobre os trinta anos de confinamento em hospícios de Camille e de Nijinsky (1889-1950).
 
 
        Trata-se de dois monólogos: em Inventário a autora Erica interpreta a escultora Camille no final de seus dias dirigida por Lenate e em Testemunho Líquido o autor Lenate interpreta o dançarino Nijinsky em alguns de seus surtos e devaneios dirigido por Erica. Ideia que se mostrou ótima no projeto e que se realiza plenamente no palco.
        Seres geniais que viveram intensamente seus talentos e paixões, Camille e Nijinsky perdem-se nos labirintos da mente humana desenvolvendo o que se convencionou chamar de desequilíbrio mental e que os confinam em hospitais psiquiátricos onde são submetidos a tratamentos cruéis tão em voga na época. No caso de Camille os próprios médicos não aconselhavam a sua permanência nos asilos, mas a negligência de sua família, em especial de seu irmão Paul, ali a mantiveram durante trinta anos até a sua morte.
        Apesar de serem dirigidos por mãos diferentes os dois espetáculos dialogam entre si criando um todo harmônico e coerente que remete ao lado mais sombrio de Beckett e Artaud; para isso muito contribui a arquitetura cênica criada por Erica, Lenate e o sempre criativo e talentoso Kleber Montanheiro. A maneira como o público é introduzido nos espaços onde ocorrem as cenas já o aclimata para o que irá presenciar.
        A composição de Erica Montanheiro, auxiliada pela marcante maquiagem criada por Leopoldo Pacheco, é poderosa desde os primeiros momentos onde uma velhinha entoa canções de sua infância até o delírio final onde ela finalmente pronuncia o nome, do até então inominável, Rodin. Em projeções sobre a cabeça da personagem desfilam figuras importantes de sua triste existência. Camille morreu aos 79 anos e ao que se sabe foi enterrada em uma vala comum.
 
 
        A introdução no espaço onde ocorrerá Testemunho Líquido é um soco no estômago! Eric Lenate tem tamanho domínio corporal e vocal (herança de seus tempos com o Mestre Antunes) que hipnotiza o público com sua interpretação absolutamente visceral. Muitos atores já interpretaram papeis de esquizofrênicos [como não se lembrar do genial Rubens Corrêa em Diário de Um Louco (1965) e de Gabriel Miziara em Loucura (2002)?], mas meus mais de cinquenta anos de espectador me permitem afirmar que este trabalho de Lenate está entre os melhores a que já assisti nesse meio século de itinerância pelos palcos paulistanos. Com seus dotes de dançarino, Lenate ainda se permite reproduzir parte da coreografia antológica de Prélude à l'Après-Midi d'Un Faune, dançada por Nijinsky em sua juventude.
        Muito poderia se escrever sobre a impecabilidade desse projeto: a chamada experiência imersiva, a iluminação criada por Aline Santini, o impressionante visagismo assinado por Carol Badra e Leopoldo Pacheco e toda a equipe que transformou por completo e de maneira muito criativa o espaço cênico do Núcleo Experimental que nunca mais será o mesmo depois dessa experiência.

        BALADA DOS ENCLAUSURADOS está em cartaz no Núcleo Experimental de 02/08 a 02/09/2019 às sextas, sábados, domingos e segundas. Todos os dias são apresentadas as duas peças que podem ser assistidas no mesmo dia ou em dias alternados:

        - INVENTÁRIO: sextas e sábados às 19h/domingos às 20h/segundas às 21h

        - TESTEMUNHO LÍQUIDO: sextas e sábados às 21h/domingos às 18h/segundas às 19h

        OBS: É possível que após essa temporada o projeto se apresente em outros espaços, mas garanta a sua presença na instalação criada no Núcleo Experimental que dificilmente será reproduzida em outros espaços.


        02/08/2019