segunda-feira, 23 de julho de 2018

ALGUNS ESPETÁCULOS DE JULHO de 2018



        Assistindo em média de 4 a 5 espetáculos por semana fica difícil escrever sobre todos aqueles que me chamaram a atenção e que mereceriam uma matéria. Registro aqui alguns deles a que assisti no mês de julho, todos eles dignos de serem prestigiados:

        - NEM PRINCESAS, NEM ESCRAVAS – Divertimento sem maiores pretensões dirigido por Cacá Rosset. Quem brilha é Christiane Tricerri.

        - A BARRAGEM DE SANTA LUZIA – Ação de resistência, assunto que aparece tantas vezes no teatro, desta vez tratado com bastante originalidade. Texto de Rudifran Fernandes com Nataly Cavalcanti.

        - JUSTA – Texto contundente de Newton Moreno com proposta radical para a eliminação dos corruptos deste país. Mais uma grande interpretação de Yara de Novaes. Direção de Carlos Gradim.

        - BURAQUINHOS – Primeira peça do jovem dramaturgo Jhonny Salaberg mostrando o delírio de um jovem negro que foi baleado pela polícia quando foi à padaria comprar pão. Texto explosivo e necessário com direção primorosa de Naruna Costa.

        - CAIXA DE MEMÓRIAS – Viagem nostálgica do dramaturgo Josè Eduardo Vendramini por suas raízes familiares, traduzida cênicamente com muita delicadeza por Marcio Aurélio.

        - PEQUENA LADAINHA ANTI-DRAMÁTICA PARA O EPISÓDIO DA FUGA DO LEÃO DO CIRCO E OUTROS BOATOS POUCO OU QUASE NADA INTERESSANTES – Gostosa brincadeira jogando com elementos do teatro do absurdo de Ionesco, escrita e dirigida com irreverência por Chico Carvalho. Trilha sonora saborosa e elenco ótimo.

        - ZECA PAGODINHO – UMA HISTÓRIA DE AMOR AO SAMBA - Escrito, dirigido e interpretado com muita verve pelo incansável Gustavo Gasparani, o musical presta uma bela homenagem ao músico Zeca Pagodinho.

        - ANDY – Interpretação excelente de Victor Mendes encarnando o anti-comediante norte americano Andy Kaufman com direção pop e criativa de Gero Camilo que também participa da peça.


        23/07/2018

domingo, 22 de julho de 2018

HOMEM AO VENTO



        É sempre com grande satisfação e curiosidade que os palcos paulistanos recebem companhias de outros estados, além do Rio de Janeiro. Curitiba é polo teatral importante e a Marcos Damaceno Companhia de Teatro liderada pelo diretor e dramaturgo que dá nome à companhia e pela grande atriz Rosana Stavis é um dos grupos mais significativos daquela cidade. São Paulo assistiu a Árvores Abatidas ou Para Luís Melo em 2013, onde a interpretação de Rosana Stavis arrebatou crítica e público; em 2016 assisti em Curitiba a Artista de Fuga outro excelente trabalho da dupla que merecia uma temporada em São Paulo e alguns poucos privilegiados tiveram a oportunidade de testemunhar o talento da atriz em Hoje É Dia de Rock (dirigida por Gabriel Villela) que teve passagem relâmpago pelo Sesc Paulista em maio deste ano.
        Eis que a Companhia está de volta à cidade com a instigante Homem ao Vento, escrita por Damaceno e dirigida por ele e por Rosana Stavis. No melhor estilo pirandelliano, a peça coloca nove atores em volta de uma mesa de ensaios à procura de seus personagens. A ação, a princípio confusa para os atores (e para o público, mais ainda), vai se tornando clara mostrando as fragilidades do ser humano contemporâneo.
        Um grupo de jovens (alguns deles recrutados para a temporada paulistana e com pouco tempo de ensaio) liderado por Rosana Stavis entrega-se com paixão na descoberta de que papel vai representar naquela peça inacabada que lhe foi entregue. Os atores repudiam o dramaturgo que escreveu aquele texto mal escrito e inacabado e o jogo torna-se mais interessante quando presenciamos na plateia o verdadeiro dramaturgo. Realidade? Ficção? A verdade, onde está a verdade?


        O elenco é bastante homogêneo ficando difícil realçar esta ou aquela interpretação, pois cada um tem seu momento de destaque na tentativa de ser a mãe, o pai, o homem, a mulher, o menino e o amigo.
        Exemplo de meta teatro, Homem ao Vento é um dos textos brasileiros mais interessantes e complexos surgidos em nossos palcos nesta temporada e merece toda atenção daqueles que se interessam pela nossa dramaturgia e pelo teatro de qualidade. E por último, mas não menos importante: trata-se de espetáculo que se assiste com muito prazer e curiosidade de descobrir quem é quem naquele emaranhado de atores reais, atores que representam atores que devem representar personagens. Ufa! Viva Pirandello!

        HOMEM AO VENTO está em cartaz na SP Escola de Teatro até 06 de agosto. Sexta, sábado e segunda às 21h e domingo às 19h. Ingresso: Pague quanto quiser.

        22/07/2018       


quarta-feira, 18 de julho de 2018

REFÚGIO



        O dicionário define refúgio como o “local para onde alguém foge a fim de estar em segurança; asilo, abrigo. Apoio, amparo, proteção; socorro”. Que refúgio é esse proposto pelo dramaturgo Alexandre Dal Farra?
        Os seres retratados na peça têm um cotidiano modorrento envolvido com pequenas coisas. São pessoas conformistas, alienadas e voltadas para o próprio umbigo; suas conversas são banais e sem sentido. Vivem em uma sociedade injusta, sentem que há muita coisa errada, mas não têm coragem de tomar uma atitude para tentar mudar o status quo. De repente, quase por milagre, as pessoas começam a desaparecer e isso se torna a máxima preocupação do casal que deixou de sumir. Mais tarde elas voltam revigoradas e com mudança radical no comportamento, parecendo dispostas e com coragem para mudar as coisas, talvez até pegando em armas (a sacola do pai está cheia de armas) no melhor estilo dos rebeldes da Revolução Francesa. A peça de Dal Farra parece dar esse recado redentor e apesar de seus méritos, falha ao mostrar a transformação não como uma consciente tomada de posição, mas como o milagre citado acima.
        O texto é recheado de bons momentos com diálogos ágeis e saborosos ditos com muito brilho pelo excelente elenco. O monólogo sobre as baratas, dito com muita leveza por Carla Zanini, é antológico, assim como o diálogo das duas mulheres sobre o primeiro desaparecimento. Outra cena notável é a fala da nora para um sogro que come de maneira assustadora.
        Fabiana Gugli tem uma das melhores interpretações de sua carreira como a assustada dona de casa que vê, ao lado do marido, seu mundinho se esfacelando. Marat Descartes empresta seu habitual talento à personagem do marido. Completam o elenco André Capuano e Clayton Mariano, também ótimos.

Fabiana Gugli e Carla Zanini

        O cenário móvel de Marisa Bentivegna, também iluminado por ela, se presta muito bem às necessárias mudanças dos locais de ação da peça. A trilha sonora de Miguel Caldas enfatiza o suspense presente na trama, assim como as cenas captadas por uma câmera nas mãos de um dos atores e projetadas nas paredes, destacando os detalhes das expressões das personagens.  
        Na cena final todos estão confinados em um espaço reduzido. Vão ter forças de sair dali e ir para o refúgio e tentar mudar o mundo? Como toda a dramaturgia de Dal Farra, esta também não procura dar respostas, mas criar perguntas e reflexões na cabeça do espectador. Grande mérito do autor!
        REFÚGIO está em cartaz no Sesc Bom Retiro até 29 de julho ás sextas e aos sábados às 21h e aos domingos às 18h.

        18/07/2018
       

terça-feira, 17 de julho de 2018

PRÊMIO APCA - INDICAÇÕES 1º SEMESTRE 2018




DRAMATURGIA
- Gustavo Colombini – Colônia
- Leonardo Cortez – Pousada Refúgio
- Marina Corazza – Aproximando-se de A Fera na Selva

ATOR
- Alexandre Cioletti - Love, Love, Love
- Maurício de Barros – Pousada Refúgio
- Rodrigo Pandolfo - Pi

ATRIZ
- Amanda Acosta – Bibi – Uma Vida Em Musical
- Clara Carvalho – A Profissão da Sra. Warren
- Yara de Novaes – Love, Love, Love

DIREÇÃO
- Bia Lessa – Pi
- Gustavo Paso – Hollywood
- Malú Bazan – Aproximando-se de A Fera na Selva

ESPETÁCULO
- Bibi – Uma Vida Em Musical
- Love, Love, Love
- Pi – Panorâmica Insana

* Críticos votantes: Edgar Olimpio deSouza, Evaristo Martins de Azevedo, Kyra Piscitelli, José Cetra Filho, Márcio Aquiles, Miguel Arcanjo Prado e Vinício Angelici.

16/08/2018


sexta-feira, 13 de julho de 2018

AGOSTO



         Certa vez conversando com o diretor do Grupo TAPA, Eduardo Tolentino, ele me disse que gostaria muito de montar Agosto: Osage County do dramaturgo norte americano Tracy Letts, mas a peça exigia a construção de cenário grandioso que representava em corte uma antiga casa do sul dos Estados Unidos de três andares o que inviabilizava a produção por duas razões: o alto custo e o uso exclusivo do palco do teatro durante toda a temporada da peça, algo quase impossível nos dias de hoje, onde a maioria dos teatros mais parece shopping centers com mais de três peças simultaneamente em cartaz. Essa conversa ficou em minha memória junto com o desejo de assistir à peça em nossos palcos, pois eu havia assistido ao filme homônimo nela baseado, que no Brasil foi rebatizado como Álbum de Família, mesmo título da famosa peça de Nelson Rodrigues.
         Em 2017 eu soube que André Paes Leme montava a peça no Rio de Janeiro tendo Guida Vianna à frente do elenco no papel de Violet, personagem de Meryl Streep no filme citado acima. Impedido de ir até o Rio persistiu a vontade de assistir ao espetáculo.
         Eis que neste 12 de julho de 2018 a montagem chegou a São Paulo no icônico Teatro Anchieta, palco, desde 1967, de espetáculos tão importantes para o teatro brasileiro e todas as emoções que eu acreditava que ia sentir, se concretizaram no espetáculo apresentado.
         A montagem de André Paes Leme é superlativa em toda a sua simplicidade, a partir do cenário. Segundo ele, as necessidades oriundas de restrições de produção, o obrigaram a reduzir o cenário a um palco nu, com alguns adereços e concentrar as mudanças de locais da ação na iluminação (belíssimo trabalho de Renato Machado). Essa concepção fez com que o encenador criativamente intercalasse ações e até falas, dando um frescor e uma beleza ao trabalho, jamais imaginada, creio eu, nem pelo autor da peça, que sempre teve a mesma encenada com cenários realistas. O cenário original é descrito no início da peça pela empregada Johnna e está implícito em sua fala o pedido famoso de Shakespeare na abertura de Henrique IV, para que com o auxílio da imaginação o público “veja” os diversos aposentos onde se passam as ações.
         Nada contra as narrativas fragmentadas surgidas após o advento do teatro pós-moderno, mas como é bom ouvir uma boa história, desde que bem contada, dentro dos cânones da dramaturgia tradicional, com começo, meio e fim e com diálogos fluentes e bem estruturados. E Tracy Letts faz isso muito bem, como já tínhamos visto em Killer Joe (filme e peça aqui montada por Mário Bortolotto). Louve-se a ótima tradução do texto realizada por Guilherme Siman, também presente no elenco.

Letícia Isnard e Guida Vianna

         O elenco de onze atores é ótimo e homogêneo e a peça oferece momentos de destaque para cada personagem, mas não há como salientar os papéis de Barbara e Violet, as verdadeiras protagonistas, aqui vividas com muito brilho, respectivamente, por Letícia Isnard (atriz pouco presente nos palcos paulistanos) e a talentosíssima Guida Vianna, que acompanho desde 1981 quando assisti ao inesquecível Poleiro dos Anjos, com o seu grupo Pessoal do Cabaré, dirigido por Buza Ferraz.
         Um aparte: Levei o programa de Poleiro dos Anjos para mostrar à Guida Vianna e as fotos abaixo podem testemunhar a emoção e a alegria que tomou conta de nós dois.




Esta é a foto de 1981 que estamos vendo. Guida Vianna está na frente, ao centro.

         Voltando a Agosto: É um espetáculo forte com dramaturgia consistente, tradução cênica criativa e bela, interpretado por elenco talentoso e que desde já pode ser considerado um dos melhores já apresentados em nossos palcos neste ano.
         No programa, a idealizadora do projeto, Maria Siman, inicia o seu texto com a frase “Gosto de histórias” e nada mais coerente com esse pensamento o fato dela escolher para produzir o drama dessa família disfuncional do árido sul dos Estados Unidos tão bem retratada no texto de Tracy Letts.
         As fortes emoções contidas nos 130 minutos de duração do espetáculo e a excelência do mesmo, assim como o precioso trabalho de Guida Vianna e do elenco, fazem com que esse tempo passe em um piscar de olhos e só nos traga de volta à realidade na ovação final. Além disso, com certeza, você vai ver alguém de seu conhecimento retratado em uma das 12 personagens da peça.

         AGOSTO está em cartaz no Teatro Anchieta de quinta a sábado às 21h e domingo às 18h até 05/08/2018. ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

         13/08/2018





quinta-feira, 12 de julho de 2018

PACTO – A HISTÓRIA DE LEOPOLD & LOEB



        Ao que eu me lembre foi em 2013 que pela primeira vez em teatro  tive o impacto de assistir a uma intensa situação dramática (bipolaridade, perda de entes queridos, tratamento com eletrochoque) tratada na forma de musical. Quase Normal era a peça de Brian Yorkey e Tom Kitt, aqui dirigida por Tadeu Aguiar e com grande interpretação de Vanessa Gerbelli.  Em 2015 foi a vez de Urinal de Mark Hollmann e Greg Kotis dirigida por Zé Henrique de Paula mostrando de forma realista os problemas vividos pelos menos favorecidos pelo poder do capital.
        Esses experimentos realizados nos teatros off Broadway por autores norte americanos chegaram até nós nesta segunda década do século 21 demonstrando que há vida inteligente no planeta dos musicais dominado pelas historinhas superficiais e alegres.
        Pacto – A História de Leopold & Loeb, ora em cartaz no Teatro Porto Seguro é experiência ainda mais radical. Trata de assunto escabroso baseado em fatos reais (o assassinato de um adolescente por dois jovens desajustados em 1924 em Chicago) com apenas dois atores/cantores e um pianista. Texto e música de Stephen Dolginoff em excelente versão brasileira dos dois atores da peça, que também tiveram a iniciativa de montá-la e mais uma vez sob a direção de Zé Henrique de Paula.
        Na peça os jovens Nathan Leopold e Richard Loeb são assumidamente homossexuais, algo relativamente camuflado nas versões cinematográficas de Hitchcock (Festim Diabólico, 1951) e de Richard Fleischer (Estranha Compulsão, 1959) e a versão da história é contada pelo velho Leopold prestes a sair da prisão após mais de 30 anos de confinamento. Segundo ele foi sua obsessão por Loeb que o fez participar do crime hediondo planejado pelo primeiro,  para provar que eles eram os seres superiores proclamados como super homens por Nietzsche.
        Apesar do tema bastante forte e sério a peça sugere alguns momentos de descontração e até engraçados, algo que a direção e os atores fazem bom uso e o público responde com boas risadas.
        Leandro Luna (Leopold) e André Loddi (Loeb) se desincumbem com muita dignidade dos seus papéis passando da fala ao canto de maneira natural e harmoniosa. Presença importante é aquela do pianista (Andrei Presser) que também interpreta o Promotor de Justiça e a quem o programa não dá o devido destaque.
        A direção de Zé Henrique de Paula destaca o trabalho dos atores e é bem apoiada pela segura direção musical de Guilherme Terra e a iluminação sempre criativa de Fran Barros. Cenário e figurinos também assinados pelo diretor remetem à época da ação da peça.
        PACTO é um dos bons momentos teatrais deste iniciante segundo semestre e merece uma visita ao Teatro Porto Seguro às quartas e quintas feira às 21h. Em cartaz até 30 de agosto.

        12/07/2018