Nunca houve, nem haverá jamais outra
canção como “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. No “Festival de Música Popular
Brasileira” da TV Record de 1967 essa música causou espanto, vestida com um
revolucionário arranjo de Rogério Duprat, que mescla sons de música clássica
com toques de berimbau e interpretada por Gil e Os Mutantes.
Nos seus três minutos e quarenta e
dois segundos de duração a canção conta uma história desde a definição dos
personagens até seus finais trágico. Tudo de maneira tão envolvente que o
ouvinte chega a visualizar o que acontece com José, João e Juliana.
A transposição para a cena teatral dessa
história sensual e trágica que acontece em um ambiente de capoeira deve ter
ficado no imaginário de muitos encenadores brasileiros por muito tempo.
O diretor Alexandre Reinecke comenta
que essa ideia ficou na sua cabeça por 30 anos até a sua realização ora em
cartaz no Teatro Claro Mais SP.
Reinecke criou uma dramaturgia
simples, mas bem estruturada ambientada numa roda de capoeira e seus arredores.
Introduziu as personagens de Juci, companheira de João e da Mãe Preta,
conselheira de José. Comparecem também duas crianças, uma, filha de Juci e João
e a outra, filha de Juliana. Juliana é cantora numa casa noturna e, para dar um
toque político em sua versão, o autor também a coloca como militante engajada
na luta contra a ditadura (a ação se passa nos anos 1970).
Com a inclusão desse aspecto político
abriu-se uma brecha para a inclusão da “Canção do subdesenvolvido” de Carlos
Lyra e Chico de Assis muito em voga naqueles anos de chumbo. Esse número
musical encerra de maneira vibrante o primeiro ato com todo o elenco no palco.
Com todos esses elementos e a inclusão
de 20 canções, Reinecke, agora encenador, transformou os três minutos e
quarenta e dois segundos da canção em um espetáculo musical de duas horas de
duração.
Os números musicais são bem
interpretados sob a direção musical de Bem Gil e a preparação vocal de Gabe
Fabri.
São sempre estimulantes as cenas de
capoeira muito bem realizadas por quase todo o elenco.
O cenário de Marco Lima mostra de
maneira simples e bela a casa de João e Juci, a casa de José, a banca da feira
de José, a roda de capoeira e, é claro, o parque de diversões com direito até à
roda gigante. Tudo isso sob a iluminação, sempre “iluminada” de Cesar Pivetti.
Figurinos de Lena Santana e direção de arte de Billy Castilho.
Todo o elenco tem uma interpretação correta,
mas não há como não destacar a presença forte de Adriana Lessa e sua bela voz como
Mãe Preta, o magnetismo de Badu Morais como Juci, a mulher sofrida de João (ela
tem alguns números musicais que arrancam emoção e aplausos da plateia).
E um tópico especial para Alan Rocha
como José. Alan tem um gingado todo especial tão cheio de significados que
poderia fazer parte ilustrativa do capítulo de “gestus” de um livro de Brecht.
Sua interpretação é tragicômica e é o grande trunfo desta montagem. O ano
teatral está apenas começando, mas já se pode pensar em seu nome na lista das
melhores interpretações do ano.
O grande mérito desta encenação de
Alexandre Reinecke é que há uma coerência entre o texto e a escolha das canções
que o ilustram, sem as apelações e clichês desnecessários e tão presentes em
espetáculos “livremente inspirados”.
DOMINGO NO PARQUE, O MUSICAL está em
cartaz no Teatro Claro Mais SP até 08 de fevereiro com sessões: quinta e sexta (20h), sábado (17h e 20h30),
domingo (18h)
DELICIE-SE!
06/01/2026
