quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O NOME DO TANGO

 

Surgindo esporadicamente nos palcos paulistanos nos últimos anos, José Rubens Chachá tem bem-vinda volta à cena ao protagonizar este solo de sua autoria com direção afetuosa de sua filha Maíra Chasseraux.

Entre os anos 1976 e 1983 a Argentina sofreu tempos negros com uma violenta ditadura militar liderada por Jorge Videla. Nesse período eram comuns os voos da morte onde se despejavam no mar os corpos de presos políticos e a adoção, por famílias de militares, de bebês nascidos na prisão e retirados de suas mães presas políticas.

Quinze anos depois (a peça se passa em 1998), o escritor Lucho Cervan ainda sofre os traumas daqueles anos de chumbo. Sofrendo um processo de demência ele mistura fatos, esquece de outros e questiona sobre seu envolvimento com a ditadura. Sozinho em seu apartamento fala várias vezes com seu editor Gaia, a quem deseja fazer um pedido, e com o filho. Ouve muitos tangos enquanto tenta escrever sem sucesso o texto de um novo livro; quer lembrar de um determinado tango que, segundo ele, será a chave para voltar a escrever com sucesso.

O icônico “Cambalache” de Enrique Santos Discépolo e muitas composições de Piazzolla embalam as ações do velho escritor.

Depois de muito pensar, lembra do pedido que desejava fazer ao editor e telefona para o mesmo que se recusa a atendê-lo.

Quando finalmente lembra qual era o tango corre para a máquina de escrever, mas aí já é um pouco tarde. (assista à peça para saber porquê)

Chachá domina a cena com muito vigor e com as pitadas de humor que lhe são peculiares e é um verdadeiro prazer assistir a interpretação desse grande ator que, ao contrário da sua personagem, está em pleno domínio físico e intelectual.

O cenário de Júlio Dojscar reproduz o quarto de Cervan com as paredes repletas dos livros que ele escreveu e que foram publicados em todo mundo. Iluminação de Ney Bonfante e trilha sonora (muitos tangos maravilhosos!) elaborada por Sérvulo Augusto.

Maíra se vale de todos esses recursos teatrais e do foco no trabalho do pai para criar um espetáculo bonito, honesto e muito humano.

O NOME DO TANGO está em cartaz no Teatro Estúdio até 08/11 aos sábados e domingos às19h. 

07/10/2026

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

SIDARTA

 

        O livro “Sidarta” de Herman Hesse foi uma febre entre os estudantes dos anos 1960. Enquanto o herói do livro caia na estrada em busca de iluminação e conhecimento, o jovem brasileiro também procurava seu lugar no mundo,

        A adaptação teatral do livro feita por Angel Ferreira contempla todas as fases da jornada de Sidarta narradas do livro: A vida entre os brâmanes / O ascetismo com os samanas e o convívio com Govinda / O encontro com Buda / O mundo material e o prazer carnal com Kamala / A sabedoria do rio e o encontro com o barqueiro Vasudeva.

Angel também assina a direção com colaboração de Beth Martins e Renato Livera

        Há em cena apenas um grande tapete e a belíssima iluminação assinada por Renato Livera e João Giogia que se responsabiliza por traçar os caminhos da personagem em sua jornada em busca de seu eu.

        Atuando sem roupa boa parte do espetáculo o ator Angel Ferreira usa apenas o seu corpo e sua voz para criar em cena não só Sidarta, mas também seu amigo Govinda, a sensual Kamala e o barqueiro Vasudeva. Sua excelente movimentação em cena tem colaboração de Alexandre Maia.

Angel tem carreira na televisão e participou de vários espetáculos teatrais no Rio de Janeiro, mas ao que se sabe este é seu primeiro trabalho importante em palcos paulistanos. Sua performance contida e cheia de pequenas nuances merece ser lembrada como um dos melhores trabalhos masculinos da atual temporada.

        Trata-se de uma joia rara, verdadeira obra de arte a ser apreciada suavemente no mesmo ritmo em que acontece. São duas horas do mais puro prazer estético.

        Os aplausos ao ator, contidos e respeitosos, ao final do espetáculo acompanham o ambiente criado, mas mereciam uma verdadeira ovação pela sua magnífica performance.

        “Sidarta” não pode ser ignorado pelos amantes do bom teatro e precisa ser prestigiado em sua temporada no Teatro Estúdio durante outubro. Sexta, 20h / Sábado e domingo, 17h.

        06/10/2026

 

 

 

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CANSEI DE SER BELO

 

        1 – Um pouco de história

Comédias rasgadas que tem os bastidores teatrais como cenário sempre rendem boas gargalhadas do público, principalmente para aqueles que convivem com o fazer teatral.

Elas são melhor estruturadas do que o gênero, assim chamado, besteirol (*), mas não deixam de revelar que são herdeiras das memoráveis “Quem Tem Medo de Itália Fausta” (1979) de Ricardo de Almeida e Miguel Magno e “Pedra, a Tragédia” (1986) de Vicente Pereira. E muito antes (1970) não se pode esquecer da visita que Braulio Pedroso fez ao gênero com “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” onde Marília Pêra brilhava como a vedete Joana.

Foi assim com “Barbara Não Lhe Adora” (2001), comédia impagável de Henrique Tavares que mostrava um grupo teatral sequestrando a crítica Barbara Heliodora e obrigando-a a assistir todos os ensaios da peça que estava sendo montada e isso se repete com este texto de Emilio Boerchat dirigido com muito humor por Kleber Montanheiro. Ambas são de “rir às bandeiras despregadas”, como se dizia das comédias de Dercy Gonçalves nos anos 1960.

2 – Cansei de Ser Belo

Boechat e Montanheiro conhecem os meandros do mundo teatral e sabem tirar partido disso com piadas e situações cômicas desse ambiente.

Rodrigo (Fernando Pavão) é galã típico de telenovelas. Bonitão por fora e oco por dentro um dia resolve provar que também é bom ator e para isso quer abrir mão de sua bela estampa. Estão em jogo os interesses comerciais de seu empresário (Wilson de Santos), do autor de telenovelas (Marcelo Goes) e de sua companheira espevitada que se julga uma vênus platinada (opa!) com sua longa peruca que circula afetadamente ao redor da cabeça (Erica Montanheiro).

As peripécias de Rodrigo para tornar-se feio envolvem várias situações: ensaios com outros diretores, outras atrizes, vivência como morador de rua (os famosos laboratórios que os artistas faziam há algumas décadas) e convívio com hippies e drogados; tudo isso relatado com um humor escrachado e muito engraçado. Com exceção de Fernando Pavão que interpreta o ator, o restante do elenco se reveza em vários personagens todos eles bastante caricaturais. O resultado é muito divertido e a direção de Kleber Montanheiro é muito responsável por isso criando situações cênicas impagáveis como o final da peça, que não vou comentar por aqui para não tirar o prazer do riso do futuro espectador.

Erica Montanheiro dá um show como as diversas mulheres que atravessam a vida de Rodrigo. Wilson de Santos está ótimo como o empresário e como o diretor de teatro pobre que é viciado em whisky Old Eight. Marcelo Goes reveza-se com versatilidade em outros papeis. Fernando Pavão sabe passar do charmoso e maneiroso galã para um tipo nada belo ou atraente sem usar máscaras ou maquiagem.

Rindo e se divertindo também crescemos.


 

CANSEI DE SER BELO está em cartaz no Teatro YouTube até 22/11. Sexta e sábado, 20h / Domingo, 18

(*) Besteirol é um gênero de comédia surgido nos anos 1980 focado em humor pastelão, situações absurdas, piadas visuais e escatologia, sem grande compromisso com a seriedade.

05/10/2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SAVANNAH BAY É VOCÊ

 

A adaptação que André Guerreiro Lopes fez do original de Marguerite Duras (1914-1996) e sua transposição cênica privilegiam dois dos nossos sentidos.

A beleza estética do espetáculo com projeção de imagens, a presença muito bela de Djin Sganzerla, a manipulação da água projetada numa tela e a iluminação mágica de Aline Santini são um colírio para nossa visão.

Instrumentos de percussão e de objeto metálico delicadamente manipulados por Djin, a trilha sonora de Gregory Slivar e principalmente a voz ao mesmo tempo poderosa e delicada de Helena Ignez, somente ouvida na maior parte do espetáculo estimulam prazerosamente a audição do espectador.

O olfato e o tato (nos abraços e cumprimentos) e o paladar (no pró seco e no salgadinho) não deixaram de ser contemplados no coquetel ao final da apresentação.

A peça é uma poesia cênica realmente mais para ser sentida do que analisada e entendida de maneira racional.

A jovem interpretada por Djin busca em suas memórias e até em seus delírios (algo que remete à Alaíde de Nelson Rodrigues) aquilo que resta de sua relação física ou emocional com a enigmática Madeleine com quem ela dialoga durante os 60 minutos de duração da peça. Muito é sugerido, mas propositalmente nada é esclarecido.

Savannah Bay que é nome de um lugar é também na peça o nome da jovem. Coisas da Marguerite Duras; afinal é dela a famosa frase final do filme “Hiroshima, Meu Amor” (1959) de Alain Resnais: “Tu es Hiroshima”.

Reafirmo aqui que a solução achada pelo encenador para manter apenas a voz de Helena Ignez ouvida em cena durante a primeira meia hora da peça é um achado muito feliz, permitindo ao espectador usufruir de um encanto poucas vezes encontrado em um teatro.

Pura poesia! Puro teatro! 

SAVANNAH BAY É VOCÊ está em cartaz no Itaú Cultural até 18/10 com sessões de quinta a sábado às 20h e domingo às 18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

02/10/2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

CASA DO NORTE

 

 

O Grupo Clariô que afirma no programa da peça que produz teatro PELA periferia, NA periferia e PARA a periferia, contraria desta vez o NA e o PARA ao se apresentar NO Teatro Anchieta PARA público mais amplo, com o espetáculo “Casa do Norte” que celebra os 20 anos da trajetória do grupo.

Quem já foi “Grupo Lasca o Oco” (2002) e “ETônoBorô” (2005), passou a se chamar” Grupo Clariô” a partir de 2005 com sede na Rua Santa Luzia em Taboão da Serra onde pratica uma arte militante muito fiel ao PELA, NA e PARA a periferia.

Como o nome indica, a peça escrita por Jhonny Salaberg é ambientada nesses comércios espalhados pelos bairros populares da cidade que vendem produtos vindos do norte/nordeste do país e onde migrantes se encontram para matar as saudades de seus lugares de origem. Esses locais, sempre sujeitos a serem desalojados pela especulação imobiliária podem também servir como metáfora para centros culturais e teatros que sofreram e ainda sofrem dos mesmos males.

A encenação de Naruna Costa propositalmente acumula excessos: é excessiva na interpretação exteriorizada e gritada do elenco, no humor escrachado e na sua duração (mais de duas horas) e resulta numa boa comédia onde se procura descobrir quem roubou a caixa de correio do estabelecimento. O final apoteótico é um delicioso show de música brega.

O elenco diverte o público e diverte-se em cena ao interpretar figuras masculinas como Raimundão (Alexandre Souza), Sacola (Cleydson Catarina), Piruinha (Washington Gabriel), Ganga (Rager Luan) e femininas que brilham em cena como Walquíria (Naloana Lima), Yolanda (Martinha Soares) e Charlene (Naruna Costa).

O cenário criado por Rager Luan reproduz em detalhes uma casa do norte e é iluminado por Zerlô.

A destacar também as músicas criadas pelo grupo com direção musical de Naloana Lima.

O espetáculo pode não agradar a todos os públicos, mas diverte, faz pensar e, o que é mais importante, é fiel aos princípios de um grupo teatral militante da periferia da cidade.

VIVA O GRUPO CLARIÔ DE TEATRO! 

CADA DO NORTE está em cartaz no Teatro Anchieta até 01/11/2026. Quinta a sábado, 20h / Domingo, 18h. 

28/09/2026

domingo, 27 de setembro de 2026

MEU FILHO É UM MUSICAL

 

Esse espetáculo foi uma grata surpresa.

Fui assisti-lo pensando em encontrar mais um musical biográfico dos tantos que chegam aos nossos palcos cheios de clichês, tratamento superficial da vida e obra do biografado e recheados de canções que fizeram sucesso em outras situações e soam falso na atual conjuntura, como por exemplo usar a canção “Atrás da Porta” toda a vez que há um rompimento amoroso.

A dramaturgia de “Meu Filho É Um Musical” de Fil Braz com colaboração de Beatriz Coelho não é nada disso; ela faz um recorte mostrando as relações familiares de Paulo Gustavo e também as dificuldades que ele teve para encontrar uma personagem que se adequasse ao seu tipo de comediante, algo que, como se sabe, ele encontrou na própria mãe. A cena da peça em que diante do espelho ele descobre sua personagem é memorável. Nada na dramaturgia resvala para o melodramático, mesmo na cena final que tem forte apelo dramático e emocional.

Outro fator que distingue este espetáculo dos demais musicais biográficos é que as canções de Daniel Salve foram compostas especialmente para ele, encaixando-se nas cenas sem artificialidade.

É um espetáculo de produção cara com cenografia requintada de Nello Marrese e figurinos de Theodoro Cochrane. Aqui fica uma dúvida deste espectador: apesar de belos, qual a razão dos motivos gregos nos cenários, nos figurinos e até na coreografia de Alonso Barros?

Do grande elenco os destaques vão para Valéria Barcellos, hilária e esfuziante em cada aparição; Milena Machado como Juju, a irmã masculinizada de Paulo Gustavo; Marcelo Varzea, ótimo como o pai; Talita Castro como a madrasta e Stella Rodrigues encarnando a mãe Dona Déa com muita garra (apesar de gritar um pouco demais nas primeiras cenas).

Por último, mas muito importante: Pierre Baitelli que interpretou Paulo Gustavo na sessão em que estive presente. Dotado de grande talento e de um tempo de comédia bom e equilibrado, Baitelli brilha tanto como o jovem à procura do seu caminho, como quando veste a personagem da mãe.

João Fonseca e Ju Amaral (irmã de Paulo Gustavo) harmonizam todos esses componentes com uma direção também digna de elogios.

Solar na sua maior parte, o espetáculo torna-se sombrio ao mencionar a pandemia do Covid 19 e o desaparecimento de cerca de 700 mil pessoas, cuja morte de parte delas poderia ter sido evitada caso houvesse tido uma política em prol das vacinas.

A peça não explicita, mas fica claro que houve negligência do malfadado governo da época com o assunto. Se isso serviu de  alerta para que o público presente NÃO VOTE no filho daquele ser ignóbil, que tivemos o horror e a vergonha de ter como presidente do nosso país, a peça já valeu a pena.

Dona Déa participa carinhosamente do início e do fim da peça, recebendo aplausos carinhosos do público e recomendando às mães e aos pais que não discriminem seus filhos devido às suas opções sexuais.

Um grande elogio ao espetáculo é que se sai dele com muita vontade de saber mais sobre a obra de Paulo Gustavo, desaparecido precocemente em 04 de maio de 2021 aos 42 anos de idade.

MEU FILHO É UM MUSICAL está em cartaz no Teatro Renault. Quinta e sexta, 20h / Sábado, 15h e 20h / Domingo, 14h30 e 19h30.

NÃO DEIXE DE VER! 

27/09/2026

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A GENTE MIRA NO AMOR E ACERTA NA SOLIDÃO

“Podemos ler que o amor contém a solidão em seu interior,

pois no coração do amor está sempre a solidão,

 e por isso quem não suporta a solidão também não suporta o amor.”

(Ana Suy)

       A adaptação teatral do livro de Ana Suy realizada por Júlia Portes é um dos trunfos dessa deliciosa montagem dirigida por Helena Varvaki: um guia turístico propõe ao público fazer uma visita ao coração e através dela vão surgindo os temas do amor e da solidão contidos no livro.

       Johnny Massaro faz toda a diferença no espetáculo. Demonstrando vulnerabilidade e insegurança o seu personagem seduz o público nas primeiras palavras ditas e a partir daí rola muita emoção até o final. À medida que discorre sobre a anatomia do coração o guia relembra as dores de um amor perdido e da solidão do ser humano.

       Massaro é um ator de muita sensibilidade, fino traço de humor e muito carismático o que resulta em rara comunhão com o público durante os 60 minutos de duração do espetáculo.

       A direção de Helena Varvaki foca toda a atenção no trabalho do ator e conta com a colaboração da cenografia de um coração estilizado de autoria de Aurora dos Campos e cena belamente iluminada por Nina Balbi.

       O coração visitado, atento às digressões do guia, vez ou outra chama a sua atenção com a voz de Júlia Portes.

       “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” é um espetáculo singelo, bonito e emocionante que tem o grande mérito de confirmar o talento desse ator chamado Johnny Massaro.

       A peça está em cartaz no SESC Pinheiros até 31 de outubro de quinta a sábado às 20h30.

       NÃO PERCA!!!

       25/09/2026

 

      

      

       

terça-feira, 22 de setembro de 2026

BAAL – O MITO DA CARNE

 

Foto de Kym Kobayashi

Brecht (1898 – 1956) escreveu “Baal” em 1918 com apenas vinte anos, bem antes de desenvolver suas teorias e práticas sobre teatro épico. Ao longo dos anos fez várias versões da peça e segundo o encenador Marcelo Marcus Fonseca, a atual montagem utilizou trechos de várias delas resultando em um espetáculo frenético de duas horas e meia de duração.

Baal é um sujeito rebelde, sempre bêbado, seduzindo e jogando fora aqueles que não lhe interessam mais. É um ser amoral, típico anti-herói, que, de certo modo, se filia a outras personagens literários e/ou teatrais como o Till Eulenspiegel (século XVI), o Peer Gynt (1867) de Ibsen e até o Macunaíma (1928) de Mário de Andrade.

Marcelo Marcus Fonseca ambienta sua montagem em um espaço nu, onde cenários não fazem a menor falta, dada a potência das interpretações que estimulam a imaginação do espectador.

Toda a peça gravita em torno de Baal que se ausenta de cena em breves momentos. Marcelo interpreta a personagem título com muita garra dando um toque de ironia ao observar o mundo burguês que o circunda.

A relação de Baal com Ekart, companheiro de aventuras, é bastante acentuada do ponto de vista erótico na encenação de Marcelo, explicitando uma homossexualidade apenas sugerida no original de Brecht. Daniel Ortega entrega-se com energia à personagem de Ekart.

A destacar também a participação da bela Stella Rocha que, apesar de sua juventude e pouca experiência teatral, faz uma ótima composição como Sophie, a amante grávida de Baal que depois é abandonada por ele.

O elenco de apoio tem boa atuação apesar de exagerar no volume da voz e no som gutural da mesma.

Marcelo Marcus Fonseca retorna a essa peça depois de 30 anos; foi com ela que ele deu início às atividades do Teatro do Incêndio, grupo que ele mantém com muita garra, quase sempre sem nenhum apoio, tendo montado praticamente uma peça por ano com a visão anárquica e surrealista, que lhe é característica.

Longa vida ao Teatro do Incêndio que já tem planos de mudança em seu espaço e a montagem de um Shakespeare nunca visto em nossos palcos. 

BAAL está em cartaz até 04/10 no Teatro do Incêndio (Rua Treze de Maio, 48) Aos sábados e domingos ás 20h. 

22/09/2026

 

 

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

DO CAVALO NADA SABEMOS

 

       João Paulo Lorenzon é um solitário no palco. Das doze peças que tenho registro que ele participou desde “Rei Lear” no ano 2000, seis foram trabalhos solos; do memorável “Memória do Mundo” (2009) onde ele visitou o universo de Jorge Luis Borges até o atual “Do Cavalo Nada Sabemos” onde a inspiração vem de fato ocorrido com Friedrich Nietzsche ao presenciar o espancamento de um cavalo.

       Partindo de um poema de Denise Stoklos, Lorenzon e Renata Zambonelli elaboraram a dramaturgia onde cavalo, observador e açoitador revezam-se para contar uma história sobre a crueldade humana: em algum momento da vida o ser humano sempre será vítima de um açoite.

       Como em outros trabalhos de Lorenzon a parte visual é bastante elaborada, como prova a ficha técnica: Dominic Kiessling responde pelo objeto cenográfico que envolve o ator na parte final, Leandro Castro assina o figurino sóbrio do ator e a cena é iluminada com o habitual talento de Wagner Freire.

       O ator teve preparação corporal de Toshiko Oiwa e Lu Favoreto, preparação circense de Kiko Caldas, preparação física de Leandro Marques e preparação contínua de Isabel Setti, além do olhar também contínuo das diretoras Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, tudo isso resultando numa interpretação muito sofisticada na sua aparente simplicidade, incluindo chibatadas em uma “coreografia extenuante”, conforme informa o programa da peça.

       DO CAVALO NADA SABEMOS está em cartaz no SESC Ipiranga até 11/10. Sextas, 21h / Sábados e domingos, 18h30.

 

       20/09/2026

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DE BRAÇOS ABERTOS


Uma noite muito especial no Centro de Pesquisa e Formação do SESC

 

” Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem

essa é a primeira experiência teatral

e outras para quem essa será a última”

-Recado de Ariane Mnouchkine a seu elenco- 

         Vanessa Bruno idealizou o projeto “Dramaturgas Contemporâneas” que mapeia a trajetória de dramaturgas brasileiras vivas por meio de uma visão crítica de suas obras e da leitura de um de seus textos.

Já estiveram presentes Silvia Gomez, Michelle Ferreira, Janaína Leite, Luh Maza, Dione Carlos e nessa memorável noite de 16 de setembro foi a vez de Maria Adelaide Amaral. Para os próximos encontros estão previstas Ave Terrena e Claudia Schapira.

        Silvana Garcia abriu o encontro fazendo relato sobre as características da obra para teatro de Maria Adelaide, a seguir, dirigidos por Vanessa, Paula Cohen e Jiddu Pinheiro fizeram uma leitura apaixonada da peça “De Braços Abertos”, obra prima da autora, que foi imenso sucesso de publico e de crítica nos anos 1984/1985 com Irene Ravache e Juca de Oliveira dirigidos por José Possi Neto. Tenho carinho muito especial por essa peça, não só pelas suas imensas qualidades, mas também por ter sido a última peça que Vera, minha mulher, presenciou e como isso foi importante para seus últimos dias de vida. (vide palavras de Ariane Mnouchkine em epígrafe)

        Maria Adelaide abriu sua fala comentando sobre suas antecessoras na dramaturgia feminina brasileira: Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Isabel Câmara que abriram o caminho no ano de 1969. Sua primeira peça “A Resistência” escrita em 1975 só foi montada em 1980, cabendo sua estreia nos palcos em 1978 com “Bodas de Papel”. A seguir comentou o sucesso de” De Braços Abertos” em 1984 e questionou os presentes sobre a atualidade da peça. Relações humanas nunca saem de moda, foi quase a unanimidade das respostas.

        Parabéns a Vanessa Bruno pela idealização de projeto que contribui para a preservação da memória do teatro brasileiro e também ao Centro de Pesquisa e Formação do SESC por abrigar evento de tal importância.

        Noite inesquecível!

 

        18/09/2026

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O ALIENISTA


Foto de Ronaldo Gutierrez 

“Todo mundo nasce louco, só que alguns permanecem”

(Samuel Beckett)

        Estreada em 2022 no Rio de Janeiro, “O Alienista” na versão da Cia Teatro Epigenia era há muito tempo aguardada em São Paulo. E chegou com a cara e a coragem, sem patrocínio, com uma equipe de cerca de vinte pessoas.

        O texto teatral escrito por Gustavo Paso e Celso Taddei inspira-se no conto de Machado de Assis lhe modificando com a intenção de denunciar as mazelas da atualidade brasileira. A aparição de um pneu em cena, os discursos feministas e até a mudança do destino de Simão Bacamarte ao final são alguns sinais dessas alterações do original. Os perigos das verdades absolutas e das mentiras presentes no conto, permanecem intactos na adaptação teatral. O texto substitui a sutileza de Machado de Assis por uma proposital truculência.

        A montagem de Gustavo Paso ambientada em cenário “desequilibrado” que remete aos filmes alemães da década de 1920 tem caráter expressionista tanto no visual como na interpretação exagerada do elenco. Não há como não lembrar da montagem de “Ubu Rei” realizada por Cacá Rosset em 1985, que também utilizava recursos de Patafísica.

        Roger Gobeth domina a cena na interpretação do protagonista Simão Bacamarte; mas é bem acompanhado por Luciana Fávero como a esposa Dona Evarista, Gláucio Gomes, excelente, como o ajudante Crispim e Augusto Cezar Astos como o barbeiro Porfírio. Todos os outros participantes têm boa atuação tanto nos solos, como nas cenas corais.

        Além da direção e da autoria, Gustavo Paso assina o cenário e a direção de arte do espetáculo.

            O visagismo do elenco é uma verdadeira obra de arte. É desenhada, sempre em branco e preto, a máscara de cada personagem de acordo com as características de sua personalidade e sua função na trama. Os rostos dos bonecos que representam o povo são outra relíquia da montagem com o detalhe que eles (o povo) são literalmente jogados no lixo após a sua participação.

        Se me fosse dado o desafio de premiar apenas uma das muitas qualidades dessa bela montagem eu premiaria o visagismo e os rostos dos bonecos.

        A Cia Teatro Epigenia comemora 26 anos de existência em grande estilo, graças ao empenho de seus idealizadores Luciana Fávero e Gustavo Paso e espera-se que o fôlego desses dois lutadores seja forte para a realização de novos espetáculos.

        O ALIENISTA está em cartaz no Teatroiquê. Sexta, 21h/Sábado, 20h/Domingo,18h

 

        NÃO DEIXE DE VER!

 

        16/09/2026

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SÁBADO DE PROGRAMA DUPLO COM A NADYA E O ARNALDO NO TEATRO SANTANDER

 


16H – GIL – ANDAR COM FÉ – Teatro Santander

O Tempo Rei narra fases da vida de Gilberto Gil, entremeada com as canções do compositor. A original estrutura dramatúrgica criada por Newton Moreno tem tradução cênica de Miguel Falabella.

A coreografia (Leilane Teles e Tiago Dias) com forte acento afro é bela, mas nem sempre funciona e a cenografia monumental e modernosa (Natália Lana) não combina com a obra de Gil.

É sempre difícil apresentar personagens baseadas em figuras reais muito conhecidas sem cair na representação caricatural baseada apenas no exterior da pessoa e infelizmente é o que acontece com os intérpretes de Caetano, Gal, Elis, Bethânia, Chacrinha e Chico Buarque. A honrosa exceção é Gui Ventura em excelente composição como Gil. Ele atravessa todo o espetáculo com muita garra e emoção, além de se parecer com o biografado.

Gui e Guga Barbosa como Tempo Rei são os grandes trunfos da montagem.

 

20H – SETE MULHERES E UM MISTÉRIO – 033 Rooftop

Uma explosão de talentos femininos dirigida com muito humor e talento por Ricardo Grasson e Heitor Garcia.

Seja nas cenas coletivas, seja nos belos solos que cada uma tem direito, essas sete mulheres maravilhosas brilham e nos divertem muito. Fica difícil destacar esta ou aquela, mas é impossível deixar de escrever sobre as performances de Veronica Valentino como a esposa Marguerita brincando muito com a versatilidade de sua voz, de Stella Miranda como a vovó Perfídia e, principalmente, de Bruna Guerin como a espevitada governanta Suzette; além de cantar muito bem, Bruna revela um surpreendente tempo de comédia, algo novo em sua brilhante carreira.

Palmas também para Laura Castro (Catarina), Malu Rodrigues (Bianca), Paula Capovilla (Augusta) e Larissa Noel (Bete) substituindo Letícia Soares nessa apresentação.

O belo cenário com dependências da casa é de Natália Lana (cenógrafa também de “Gil”).

Músicas e letras de Anna Toledo.

Para resumir em apenas duas palavras: PURA DELÍCIA!

 

14/09/2026

domingo, 13 de setembro de 2026

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER

 

 

1     -Um pouco sobre Edwin Luisi

Durante os anos 1970 e no início dos 1980 o ator paulistano Edwin Luisi, formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) em 1970, apareceu de forma regular nos palcos da cidade.

Ator de grande talento já interpretou Mozart (1982) e Freud (1985), sendo inesquecível também o seu Tom Wingfield em “À Margem da Vida” (1976) ao lado de Beatriz Segall, dirigido por Flávio Rangel.

Após a mudança para o Rio de Janeiro a presença de Luisi nos palcos paulistanos tornou-se cada vez mais rara.

Das poucas vezes que esteve em São Paulo neste século, cabe lembrar de “Triunfo Silencioso” (2005) ao lado de Herson Capri e de “Alair” (2017). Seu último trabalho por aqui foi em uma montagem despretensiosa de título “O Martelo” (2019).

Elogiadíssimo e premiado em 2007 na montagem carioca de “Eu Sou Minha Própria Mulher”, o ator finalmente chega em São Paulo com uma nova encenação da peça.

 

2     - Eu Sou Minha Própria Mulher

A vida da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf foi tema de um docudrama alemão de 1992 dirigido por Rosa von Praunhein.

A partir de entrevistas que realizou com Charlotte, o dramaturgo norte-americano Doug Wright (1962) escreveu a peça que mostra  sua trajetória sendo perseguida tanto pelo regime nazista até o fim da segunda guerra, como pela “Stasi”, polícia política da Alemanha Oriental durante o regime comunista. Charlotte sobreviveu com elegância e bom humor a esses duros períodos colecionando antiguidades e até montando um museu.

Além de Charlotte aparecem na trama o próprio Wright, um colega seu jornalista, o pai e a mãe de Charlotte e mais uma dezena de personagens, todos e todas interpretados/as por Edwin Luisi em composição merecedora de todos os prêmios que recebeu e que ainda há de receber.

Pequenas mudanças no tom de voz e no sugestivo figurino preto desenhado por Marcelo Marques são o suficiente para Luisi se transformar de uma para outra personagem, todas ótimas, mas atingindo a perfeição na figura frágil e bem humorada de Charlotte.

Herson Capri foca toda a direção do espetáculo na impressionante e bela interpretação de Edwin Luisi.

Muito emocionado, ao final do espetáculo Edwin registrou a presença na plateia de companheiras e companheiros da sua turma de 1970 na EAD.

Foto cedida por Pedro Cosmos 

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER está em cartaz no Teatro FAAP até 29 de novembro às sextas e sábados, 20h e domingos, 17h.

NÃO DEIXE DE VER! 

13/09/2026

sábado, 12 de setembro de 2026

CONFUZO – está escurecendo dentro de mim –

 

Foto de Renato Mangolin

“A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar)

        “Enquanto você pedala, eu crio raízes”, esta é uma citação, com uma mudança no primeiro verbo, do título da montagem anterior da Cia. Dos à Deux, enquanto voava agora você pedala para gerar energia na forma de luz e eu já criei raízes!

        A peça mostra o Homem-Árvore e o Homem-Luz, enquanto um deles busca o pertencimento por meio de suas raízes, o outro gera luz e liberdade por meio de seus intensos movimentos ao pedalar.

        Conforme citação dos componentes do grupo (André Curti e Artur Luanda Ribeiro): “o corpo, a imagem, a luz, o espaço e a matéria ocupam o centro da dramaturgia”, mas desta vez eles acrescentam a fala para criar essa fábula contemporânea.

        Esteticamente muito belo o espetáculo tem outro ponto fortíssimo na surpreendente trilha sonora de Federico Puppi que acompanha toda a ação. É notável a sincronia dos movimentos e falas com o som e a luz.

        André Curti interpreta o Homem-Árvore equilibrando na cabeça uma raiz de 4,5kg e Artur Luanda Ribeiro é o Homem-Luz pedalando mais de 30km para gerar toda a luz da encenação. Além do já conhecido talento da dupla, eles mostram um incrível preparo físico.

Foto de Victor Pollak

        É mais um trabalho impecável da Cia. Dos à Deux!

        “Confuzo” deve ser visto, sem prevenções, com olhos à procura do novo e do surpreendente; a beleza visual esconde atrás de si, um retrato de como caminha a humanidade.

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até 18/10: quinta e sexta, 19h – sábado e domingo, 18h.

Não perca essa oportunidade de se deslumbrar!

12/09/2026

       

       

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

AS TROIANAS

 

 

Foto de Anne Beatriz

Zé Henrique de Paula já havia adaptado “As Troianas” de Eurípedes (480 aC-406 aC) em 2009, ambientando a montagem no clima de terror que foi o campo de concentração de Auschwitz na Polônia durante a segunda guerra mundial.

Na atual montagem, Zé Henrique trouxe a história para ambiente de terror mais próximo: a chamada “Torre das Donzelas” do Presídio Tiradentes em 1972, onde aconteciam os desmandos e barbaridades cometidos pela ditadura brasileira com as presas políticas ali encarceradas.

Com base na história recente do país, nas informações contidas no livro “A Torre: o cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura” de Luiza Villaméa e na tragédia de Eurípedes Zé Henrique criou dramaturgia poderosa que denuncia males do terrível regime que dominou o Brasil de 1964 a 1985. De alguma maneira, esta montagem dialoga com “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” (2022) e “Codinome Daniel” (2024), outras duas obras do Núcleo Experimental que Zé Henrique realizou em parceria com Fernanda Maia na parte musical e que tratam de um período negro de nossa história.

As personagens da tragédia de Eurípedes, Hécuba, Cassandra, Andrômaca e Helena, estão presentes na adaptação do diretor, na pele de mulheres confinadas no presídio e as outras detentas formam o coro, também uma referência ao original grego.

Pequenos, mas importantes, detalhes escapam do espectador como a leitura de um texto teatral pelas presidiárias (referência ao fato real de que na ocasião elas ensaiaram e apresentaram uma peça na torre) e também a canção “Suíte dos Pescadores” entoada por Hécuba quando uma detenta é retirada do local (referência à canção que as presidiárias cantavam quando uma delas era retirada do local). Esses detalhes estão relatados no programa repleto de informações, mas que, infelizmente só está disponível via QR code.

O coro das detentas é formado por Edyelle Brandão, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli e Vanessa Esposito.

Foto de Edgar Machado

Os papeis masculinos cabem a Fernando Tavares, Victor Edwards, Fabio Redkowicz (um advogado que remete a Taltíbio) e Brian Penido Ross (um general prepotente que remete a Menelau).

Bia Rezi interpreta Andrômaca grávida com bastante delicadeza, Mari Rosinski (substituindo Bruna Guerin na sessão a que assisti) apresenta Helena com muita garra, Nábia Villela empresta seu talento costumeiro para a interpretação de uma Hécuba vencida e envelhecida, Patricia Gifford brilha como Cassandra, a vidente que prevê fatos realmente acontecidos como a desativação do presídio e a construção de uma estação do metrô no lugar.

A “Midas” Fernanda Maia compôs obras (letra e música) de acordo com a época (anos 1970), onde canções de protesto brasileiras e latino americanas estavam em voga). A direção musical, também de Fernanda, é precisa e bela.

O espetáculo de Zé Henrique será sempre importante e necessário quando nossa democracia correr perigo, como parece ser o caso neste momento. Urge que os jovens o assistam!

AS TROIANAS está em cartaz às terças e quartas feiras às 20h no Teatro do Núcleo Experimental.

NÃO DEIXE DE VER! 

09/09/2026