“Qualquer que seja o
lado que você fique, você está errado”
(David Mamet)
Em primeiro lugar louve-se a qualidade
do texto do dramaturgo norte-americano David Mamet (1947 -) escrito em 1992 que,
por meio de diálogos ágeis e consistentes, nos mostra o embate entre John, um
professor universitário muito seguro de si e Carol, uma aluna de classe social
inferior que está com dificuldades em acompanhar o curso.
Na primeira parte da trama o professor
vale-se de sua retórica e, detentor do poder naquele momento, procura manipular
a jovem em função da inferioridade (intelectual e de classe) que vê nela.
Na segunda parte, Carol sentindo-se
humilhada e assediada pelo professor o denuncia por elitismo, sexismo e até
assédio físico fazendo com que ele possa perder as possibilidades de uma promoção;
agora é ela que detém o poder, enquanto ele tenta convencê-la a retirar a
denúncia.
Esse ping pong de poder e de
argumentos é o cerne da peça levando o espectador a cada momento, dar razão a um dos lados, fazendo valer o
pensamento de Mamet em epígrafe.
O jogo entre as personagens proposto
pelo autor é complexo e exige intérpretes de alto nível e isso é o que não
falta a Velson D’Souza e Juliana Gerais que se entregam de forma brilhante ao
embate. O espectador tem o privilégio de apreciar tanto a personagem que tem a
vez de falar como as reações daquela que a escuta. Momentos mágicos que só a
arte teatral tem o dom de oferecer.
Daniela Stirbulov, uma jovem
encenadora que já havia surpreendido em “O Mercador de Veneza”, reitera seu
talento com uma direção enxuta totalmente focada na interpretação realista de
Velson e Juliana, cuja proximidade com o público cria um clima de cumplicidade
com o mesmo.
O cenário (Carmem Guerra) e os
adereços (Rebeca Oliveira) também de cunho realista se fantasiam um pouco com a
iluminação mais impressionista de Fran Barros.
Todos esses fatores colaboram para
tornar esta montagem de “Oleanna”, um dos pontos altos da temporada teatral
paulistana de 2026.
Curiosidades:
1 - Por que “Oleanna”? David Mamet
retirou o título de uma canção folclórica norueguesa que recebeu letras em
inglês de Pete Seeger e que fala de Oleanna, um lugar onde a utopia seria
possível.
2 – A peça teve duas montagens
importantes apresentadas nos palcos paulistanos: em 1996 com Antonio Fagundes e
Mara Carvalho dirigidos por Ulysses Cruz e em 2015 dirigido por Gustavo Paso com
Luciana Fávero como Carol e Miwa Yanagizawa/Walter Breda revezando-se no papel
do professor.
3 – A versão cinematográfica dirigida pelo autor data de 1994 tendo William H. Macy e Debra Eisenstadt como intérpretes
OLEANNA está em cartaz no Espaço
Convivência do Teatro Vivo até 07 de junho. Sexta e sábado 20h e domingo 18h.
NÃO DEIXE DE VER!
19/04/2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário