Vitor Rocha é um rapaz (Rapaz, sim!
Ele tem apenas 28 anos) de muito talento e rara sensibilidade. Lançou-se como
autor com apenas 21 anos com “Cargas d’Água” e não parou mais, acumulando
sucessos de crítica e de público com os quatro espetáculos que se seguiram,
culminando com essa preciosidade chamada “Donatello”, escrita e estreada em
2024 e agora retornando a São Paulo para uma bem-vinda temporada no Teatro do
Núcleo Experimental.
A peça mostra um homem que desde
menino teve uma relação muito amorosa com seu avô Donatello. Foi numa
sorveteria muito frequentada pelos dois que surgiram os primeiros sinais de
Alzheimer no velho. A partir daí o homem mostra os desdobramentos da doença do
avô e a relação com seus pais e uma primeira namorada; cada sentimento
experimentado por ele tem o sabor de um sorvete criando um jogo deliciosamente
lúdico com a plateia, coroado com frase emblemática que reproduzo a seguir:
“Tem gente que é tão boa que merece
virar sabor de sorvete”.
A encenação dirigida por Victória
Ariante privilegia a presença de Vitor em cena interpretando o neto de
Donatello. As belas canções que permeiam a narrativa têm letras do próprio
Vitor e músicas de Elton Towersey. Tudo flui de maneira delicada e bem humorada
apesar de tratar de assunto sério e doloroso.
Vitor Rocha é presença luminosa em
cena. É simpático, bonito e carismático criando uma relação de intimidade e
cumplicidade com o público pouco vista em tantos espetáculos a que já assisti.
Sentado no palco, pude ver os olhos de
muita gente na plateia tão marejados de emoção como os meus.
“Donatello” não resvala para o
melodrama em nenhum momento graças ao texto e interpretação de Vitor, à direção
de Victória e às intervenções do pianista Guilherme Gila.
Muitos são os momentos marcantes
desses noventa minutos que passam voando, mas se é para destacar apenas um,
fico com aquele que é quase uma cena de cabaré onde Vitor canta e interage com o
pianista sentado ao seu lado.
As relações do narrador com a nova
namorada (que é uma das espectadoras) quando ele descobre o amor que tem sabor
de flocos também é uma cena deliciosa que para este espectador tem sabor de
chocolate já que este é meu sabor preferido.
“Donatello” agrada em cheio qualquer
que seja o sabor de sua preferência e é preciso estar com o coração aberto para
melhor degusta-lo.
Em cartaz no Teatro do Núcleo
Experimental aos sábados, 20h e aos domingos, 19h até 19 de julho.
Corra para ir, pois você vai querer ver de novo. O espetáculo tem gosto de QUERO MAIS!
08/06/2026

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