terça-feira, 7 de julho de 2026

ÉDIPO

 

Foto de Ronaldo Gutierrez

Robert Icke (29/11/1986) é um fenômeno do teatro britânico: com quarenta anos não completos é autor e diretor de uma dezena de peças de sucesso, em sua maioria adaptações (eu chamaria de recriações) de grandes clássicos: “Oresteia” de Ésquilo, “Tio Vânia” de Tchekhov, “Mary Stuart” de Schiller, “O Pato Selvagem” de Ibsen, “Édipo Rei” de Sófocles foram algumas obras que passaram pelo crivo adaptador/recriador de Icke.

No momento, uma recriação de “Romeu e Julieta” de Shakespeare está em cartaz em Londres e em São Paulo temos a estreia de “Édipo” pelas mãos do “Círculo de Atores”, grupo responsável pela montagem de grandes obras do teatro universal: Bernard Shaw, Henrik Ibsen e o próprio Icke (A Médica) fazem parte de seu repertório.

O Édipo de Icke é um político contemporâneo na eminência de vencer uma eleição cuja esposa Jocasta prepara recepção para comemorar a provável vitória. No decorrer da celebração segredos terríveis vão sendo revelados. A grande qualidade do texto é o suspense criado em torno desses segredos, mesmo que todos espectadores conheçam de antemão o desfecho da tragédia. Diga-se de passagem, que essa qualidade já está presente no original de Sófocles, mas Icke a reforça.

A atual montagem de Édipo é trabalho de gente grande que sabe muito bem o que está fazendo a começar pela direção exemplar de Clara Carvalho que a cada dia se revela tão boa diretora como a grande atriz, cujos méritos já são bem conhecidos.

Clara harmoniza a primorosa interpretação do elenco com o cenário mais que urbano (verdadeira arquitetura cênica, como destaca a ficha técnica) de Chris Aizner, que incorpora as paredes do auditório do MASP; a trilha sonora sempre surpreendente de Gregory Slivar; os figurinos de Marichilene Artisevskis e a iluminação de Gabriele Souza que vem se destacando como uma grande profissional e deve estar enchendo de orgulho o papai Jorge, querido guardião do extinto Viga. Destaque também para o vídeo da entrevista de Édipo que abre o espetáculo.

O elenco de doze atores (coisa rara nos dias de hoje) brilha desde os papeis menores até os protagonistas.

Marisa Mainarte é a secretária Lídia.

Thomas Huszar (Etéocles), Thalles Cabral (Um Polinice gay!), Thaina Muniz (uma Antígona já combativa) são os filhos de Édipo e Jocasta. Icke eliminou Ismênia da filiação do casal.

Em pequenas, mas brilhantes participações têm-se Oswaldo Mendes como Tirésias e Roberto Borenstein como o Motorista. João Bourbonnais também se destaca como Quirino.

Rodrigo Scarpelli apresenta um Creonte enérgico, mas ainda conciliador antes da tragédia se revelar.

Resta escrever sobre o trio de ouro: Sergio Mastropasqua é um Édipo vigoroso e cheio de si no início, mas que demonstra muita fragilidade à medida que seu passado vai sendo revelado; Clarisse Abujamra tem um grande momento de sua carreira interpretando uma Jocasta poderosa que só sucumbe, fora de cena, ao final da peça; Chris Couto parece vinho que está cada dia melhor e sua participação como Mérope, a mãe de Édipo, surpreende e encanta a cada entrada em cena.

“Édipo” é Teatro com letras maiúsculas colocando aquilo que é fundamental no fazer teatral (texto, direção, elenco, cenografia, figurinos, iluminação, trilha sonora, produção) da maneira melhor e mais harmoniosa possível.

Longa vida ao Círculo de Atores esperando que  um dia monte um texto brasileiro. 

ÉDIPO está em cartaz no Auditório do MASP.

07/07/2026

Sexta e sábado, 20h / Domingo 18h

 

07/07/2026 

Nenhum comentário:

Postar um comentário