Robert Icke (29/11/1986) é um fenômeno
do teatro britânico: com quarenta anos não completos é autor e diretor de uma
dezena de peças de sucesso, em sua maioria adaptações (eu chamaria de
recriações) de grandes clássicos: “Oresteia” de Ésquilo, “Tio Vânia” de
Tchekhov, “Mary Stuart” de Schiller, “O Pato Selvagem” de Ibsen, “Édipo Rei” de
Sófocles foram algumas obras que passaram pelo crivo adaptador/recriador de
Icke.
No momento, uma recriação de “Romeu e
Julieta” de Shakespeare está em cartaz em Londres e em São Paulo temos a
estreia de “Édipo” pelas mãos do “Círculo de Atores”, grupo responsável pela
montagem de grandes obras do teatro universal: Bernard Shaw, Henrik Ibsen e o
próprio Icke (A Médica) fazem parte de seu repertório.
O Édipo de Icke é um político
contemporâneo na eminência de vencer uma eleição cuja esposa Jocasta prepara
recepção para comemorar a provável vitória. No decorrer da celebração segredos
terríveis vão sendo revelados. A grande qualidade do texto é o suspense criado
em torno desses segredos, mesmo que todos espectadores conheçam de antemão o
desfecho da tragédia. Diga-se de passagem, que essa qualidade já está presente
no original de Sófocles, mas Icke a reforça.
A atual montagem de Édipo é trabalho
de gente grande que sabe muito bem o que está fazendo a começar pela direção
exemplar de Clara Carvalho que a cada dia se revela tão boa diretora como a
grande atriz, cujos méritos já são bem conhecidos.
Clara harmoniza a primorosa
interpretação do elenco com o cenário mais que urbano (verdadeira arquitetura
cênica, como destaca a ficha técnica) de Chris Aizner, que incorpora as paredes
do auditório do MASP; a trilha sonora sempre surpreendente de Gregory Slivar;
os figurinos de Marichilene Artisevskis e a iluminação de Gabriele Souza que
vem se destacando como uma grande profissional e deve estar enchendo de orgulho
o papai Jorge, querido guardião do extinto Viga. Destaque também para o vídeo
da entrevista de Édipo que abre o espetáculo.
O elenco de doze atores (coisa rara
nos dias de hoje) brilha desde os papeis menores até os protagonistas.
Marisa Mainarte é a secretária Lídia.
Thomas Huszar (Etéocles), Thalles
Cabral (Um Polinice gay!), Thaina Muniz (uma Antígona já combativa) são os
filhos de Édipo e Jocasta. Icke eliminou Ismênia da filiação do casal.
Em pequenas, mas brilhantes
participações têm-se Oswaldo Mendes como Tirésias e Roberto Borenstein como o
Motorista. João Bourbonnais também se destaca como Quirino.
Rodrigo Scarpelli apresenta um Creonte
enérgico, mas ainda conciliador antes da tragédia se revelar.
Resta escrever sobre o trio de ouro:
Sergio Mastropasqua é um Édipo vigoroso e cheio de si no início, mas que
demonstra muita fragilidade à medida que seu passado vai sendo revelado;
Clarisse Abujamra tem um grande momento de sua carreira interpretando uma
Jocasta poderosa que só sucumbe, fora de cena, ao final da peça; Chris Couto
parece vinho que está cada dia melhor e sua participação como Mérope, a mãe de
Édipo, surpreende e encanta a cada entrada em cena.
“Édipo” é Teatro com letras maiúsculas
colocando aquilo que é fundamental no fazer teatral (texto, direção, elenco,
cenografia, figurinos, iluminação, trilha sonora, produção) da maneira melhor e
mais harmoniosa possível.
Longa vida ao Círculo de Atores esperando que um dia monte um texto brasileiro.
ÉDIPO está em cartaz no Auditório do
MASP.
07/07/2026
Sexta e sábado, 20h / Domingo 18h
07/07/2026

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