A exceção confirma a regra, há trinta atrizes brasileiras de talento nascidas no século XX para cada ator com as mesmas qualidades. Procure enumerar de memória os nomes delas e deles e veja se não tenho razão.
Ao fazer esse exercício com certeza um dos primeiros nomes masculinos a surgir é o de Othon Bastos. Sua trajetória tão bem contada no presente espetáculo começa em 23 de maio de 1933, dia em que nasceu na cidade de Tucano, na Bahia passando por fases da vida e por espetáculos importantes do qual participou.
Othon Bastos entregou para Flavio Marinho uma sacola de supermercado com documentos, fotos, programas que fizeram parte de sua trajetória. Marinho elaborou um sofisticado texto teatral introduzindo a figura da Memória que ajuda o ator a contar sua história de maneira lúdica e bem humorada. São quase duas horas de puro prazer diante dessa lição de teatro e de vida.
Pessoalmente, a primeira vez que me vi diante desse grande ator não foi ao vivo, mas através do cinema. Othon brilhava como Corisco em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) de Glauber Rocha ao responder à chamada de Antônio das Mortes: “Se entrega Corisco!” com “Eu não me entrego, não”, que cabe tão bem como título deste espetáculo.
Foi no Teatro Oficina que percebi o seu grande talento, primeiro em um papel secundário (Segredo) em “Galileu Galilei” (1968) e depois na explosão de “Na Selva das Cidades” (1969) onde se digladiava em cena com outra exceção, o grande Renato Borghi.
A partir daí foram muitos os trabalhos no cinema e no teatro relembrados por Othon, citando grandes figuras que o dirigiram e aquelas com quem contracenou. Citou Zé Celso Martinez Corrêa, para ele o maior diretor do teatro brasileiro. Em momento particularmente emocionante a Memória vai citando nomes e ele responde com “Presente!”. Difícil conter as lágrimas.
O recurso dramatúrgico da Memória é bom, mas o ator poderia prescindir disso pois tem uma lucidez e uma memória impressionantes; louve-se também sua garra e vitalidade em cena, chegando até a ensaiar alguns passos de dança, quando como Lopakhine comemora a compra de jardim das cerejeiras na peça de Tchekhov encenada no Rio de Janeiro em 1990.
Juliana Medela tem presença marcante como a Memória, alinhavando com humor as várias fases da vida de Othon.
Quanto à interpretação de Othon Bastos, haveria necessidade de muitas laudas para louvar sua carismática presença em cena.
O cenário da peça reproduz grandes momentos da carreira de Othon Bastos no teatro e no cinema.
Não tenho dúvida em afirmar que estamos diante de um dos mais importantes espetáculos do nosso teatro, que deveria fazer parte do currículo dos cursos de pós graduação de toda escola de teatro que se preze.
Repito: É UMA GRANDE LIÇÂO DE TEATRO E DE VIDA
Um rápido bate papo com Othon Bastos ao final do espetáculo mais uma vez comprovou sua simpatia, sua lucidez e sua memória sobre os grandes espetáculos de sua carreira.
A peça está em cartaz no SESC 14 Bis apenas até 21 de abril com sessões de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h. Sessão no dia 21/04 às 15h.
A informação é que todas as sessões estão esgotadas, mas não perca a esperança, vá até lá e lute por um lugar ao sol.
28/03/2025