sábado, 29 de novembro de 2025

ANTÍGONA TRAVESTI

 

Em meados da década de 1960 surge o espetáculo “Les Girls”, talvez o primeiro no Brasil estrelado por travestis, entre elas as memoráveis Rogéria e Valéria. Elas brilhavam no Teatro Alaska na galeria do mesmo nome em Copacabana. A travesti Eloína mais tarde criou “A Noite dos Leopardos” no mesmo local onde se apresentava junto com belos rapazes.

Uma verdadeira revolução nos espetáculos do gênero acontece no início dos anos 1970 com o surgimento do fenômeno Dzi Croquettes. Acredito que é nesse período da ditadura militar que inicia a perseguição e marginalização das travestis, que até então eram vistas como glamourosas e “inofensivas”.

Essa repressão isolou as travestis em um gueto, muitas voltaram-se para a prostituição para poder sobreviver e começaram a acontecer esses assassinatos que perduram até hoje.

Perseguidas e isoladas socialmente pelos poderosos as travestis passaram a se organizar como grupo para defender seus direitos de cidadãs e é disso que trata o surpreendente espetáculo criado por Renata Carvalho a partir da tragédia de Sófocles escrita por volta de 440 A.C.

No original, Antígona enfrenta o tirano Creonte que proibiu que seu irmão Polinice tivesse um enterro digno.

Na engenhosa versão de Renata Carvalho, Polinice é uma travesti filha de Antígona que foi barbaramente assassinada e o presidente Creonte não permite que ela seja enterrada como travesti, tendo que se colocar roupa e nome de registro masculinos. Para defender seus direitos como cidadã travesti Antígona convoca uma assembleia para organizar uma frente para derrubar o tirano. O espetáculo acontece durante essa assembleia onde Antígona dialoga com o Coro Travesti formado por Alice Guél, Andreas Mendes, Ave Terrena, Ayo Tupinambá, Daniela D1eon, Maria Lucas e Thays Villar. O desempenho de todas as integrantes do coro é exemplar e Renata interpreta Antígona com rara sensibilidade e humanidade.

O protesto denúncia da Antígona de Renata Carvalho transcende a causa travesti e atinge qualquer ser humano perseguido e privado de sua liberdade.

FORA CREONTE! 

A peça encerra temporada no dia 30 de novembro nas ruínas do Teatro TAIB.

NÃO DEIXE DE VER!

29/11/2025

 

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