Em meados da década de 1960 surge o
espetáculo “Les Girls”, talvez o primeiro no Brasil estrelado por travestis,
entre elas as memoráveis Rogéria e Valéria. Elas brilhavam no Teatro Alaska na
galeria do mesmo nome em Copacabana. A travesti Eloína mais tarde criou “A
Noite dos Leopardos” no mesmo local onde se apresentava junto com belos rapazes.
Uma verdadeira revolução nos
espetáculos do gênero acontece no início dos anos 1970 com o surgimento do
fenômeno Dzi Croquettes. Acredito que é nesse período da ditadura militar que
inicia a perseguição e marginalização das travestis, que até então eram vistas
como glamourosas e “inofensivas”.
Essa repressão isolou as travestis em
um gueto, muitas voltaram-se para a prostituição para poder sobreviver e
começaram a acontecer esses assassinatos que perduram até hoje.
Perseguidas e isoladas socialmente
pelos poderosos as travestis passaram a se organizar como grupo para defender
seus direitos de cidadãs e é disso que trata o surpreendente espetáculo criado
por Renata Carvalho a partir da tragédia de Sófocles escrita por volta de 440
A.C.
No original, Antígona enfrenta o
tirano Creonte que proibiu que seu irmão Polinice tivesse um enterro digno.
Na engenhosa versão de Renata Carvalho,
Polinice é uma travesti filha de Antígona que foi barbaramente assassinada e o
presidente Creonte não permite que ela seja enterrada como travesti, tendo que
se colocar roupa e nome de registro masculinos. Para defender seus direitos
como cidadã travesti Antígona convoca uma assembleia para organizar uma frente
para derrubar o tirano. O espetáculo acontece durante essa assembleia onde
Antígona dialoga com o Coro Travesti formado por Alice Guél, Andreas Mendes,
Ave Terrena, Ayo Tupinambá, Daniela D1eon, Maria Lucas e Thays Villar. O
desempenho de todas as integrantes do coro é exemplar e Renata interpreta
Antígona com rara sensibilidade e humanidade.
O protesto denúncia da Antígona de Renata
Carvalho transcende a causa travesti e atinge qualquer ser humano perseguido e
privado de sua liberdade.
FORA CREONTE!
A peça encerra temporada no dia 30 de
novembro nas ruínas do Teatro TAIB.
NÃO DEIXE DE VER!
29/11/2025


Nenhum comentário:
Postar um comentário