É estimulante ver um grupo de jovens
atrizes e atores empenhados em produzir e interpretar um texto difícil e
complexo como “Os Gigantes da Montanha” de Luigi Pirandello (1867-1936). Tal
fato nos faz acreditar que, pelo menos por mais uma geração, nosso teatro tem
futuro. Que venham outras e mais outras gerações!
Dentro da peça há o mago Cotrone que
transita com o sonho e a fantasia, enquanto fora dela temos o mago Kiko Marques
que com seu talento e criatividade nos oferece sempre espetáculos preciosos.
Pirandello dedicou os últimos oito
anos de vida na elaboração dessa obra e a deixou inacabada. A peça trata de
assuntos caros ao autor como a relatividade da verdade, os tênues limites entre
sonho e realidade e a vulnerabilidade da arte no mundo moderno e no meu modo de
ver, nesta última obra ele flerta com o teatro do absurdo e o realismo mágico
que só iriam surgir décadas depois com Ionesco e Beckett (anos 1950) e García
Márquez (anos 1960). Pirandello só não é o fundador desses gêneros porque ele
justifica as ações do segundo ato como sendo sonhos.
A montagem de Kiko é resultado de uma
oficina realizada com esse jovem elenco e o rendimento do grupo é
surpreendente. A encenação acontece nas dependências da Zona Franca em espaço
que um dia deve ter sido uma garagem e com um pouco de imaginação o público
acompanha e mergulha no ambiente mágico e misterioso proposto pela peça.
Cleyde Yáconis em 1969 e Inês Peixoto
em 2013 já interpretaram a Condessa Ilse e desta vez cabe a Alejandra Sampaio,
como atriz convidada, interpretar essa que é uma das mais importantes
personagens femininas do teatro do século XX. A interpretação de Alejandra é
arrebatadora e ilumina a cena de forma extraordinária, sem ofuscar a
interpretação do resto do elenco menos experiente.
Existe um equilíbrio nas
interpretações e Kiko teve o cuidado de oferecer solos importantes para Ingrid
Ruiz, para Isadora Maffei numa emocionante composição de Stefano, o filho de
Pirandello, ao final do espetáculo e para os atores que interpretam o Conde, o
amante suicida e Crono.
Por último, mas não menos importante,
o segundo papel da peça é aquele de Cotrone que já foi vivido por Ziembinski
(1969) e Eduardo Moreira (2013). O jovem ator Bruno Rods, com uma dicção
impecável, interpreta o mago com muita garra, faltando, porém, a aura de magia
que pessoalmente vejo na personagem. Outro figurino que não esse que mais
lembra um malandro carioca e outro tom de voz talvez contribuísse para uma
composição mais adequada de Cotrone.
São cem minutos de tudo aquilo que
chamamos de verdadeiro TEATRO e é um privilégio vivenciar plenamente esses
momentos.
A simpatia do grupo se estende após o
término do espetáculo e as conversas que tive com minha querida Lelê, Bruno,
Ingrid, Isabella, Gustavo (que interpreta o Pequeno) e o ator que interpreta
Crono renderiam outra matéria repleta de afeto e trocas. Presentes também
nessas conversas gente querida como o Imad, o Fábio Mraz, o André Garolli , a
Barbara Bruno, o Roberto Borenstein, dois simpáticos senhores mineiros e um rapaz muito legal, apesar dele ter adorado um espetáculo que eu odiei (viva a diferença!!).
Sem contar o ambiente acolhedor que é
a Zona Franca sempre com um cafezinho e os pães e os bolos maravilhosos que a
Lelè traz da padaria.
Esta matéria está muito afetuosa? É
PRA ESTAR MESMO!!
Mais uma noite memorável que o teatro
oferece para este espectador apaixonado.
VIVA O TEATRO!
OS GIGANTES DA MONTANHA está em cartaz
na Zona Franca (Rua Almirante Marques de Leão, 378 na Bela Vista) até 28 de
junho. Sexta e sábado, 20h/Domingo, 18h.
IMPERDÍVEL
13/06/2026


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