sexta-feira, 17 de abril de 2015

AQUI ESTAMOS COM MILHARES DE CÃES VINDOS DO MAR


 


UM RETRATO EM BRANCO E PRETO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO

        As sempre bem vindas boas surpresas continuam surgindo nesta temporada teatral que ainda não completou seu primeiro quarto e já nos ofereceu excelentes trabalhos brasileiros (alguns vindos do ano passado) como Transgressões, As Criadas, Salamaleque, A Volta para Casa, Consertando Frank, Ato a Quatro, Josefina Canta, A Ópera do Malandro (Cia. da Revista), O Que Você Realmente Está Fazendo É Esperar o Acidente Acontecer, A Jornada de Orfeu, Urinal, Ricardo III, Cartas Libanesas, além dos espetáculos internacionais da 2ª MITsp que, salvo poucas exceções, tiveram alto nível.
        O entusiasmo é maior ainda quando se trata de grupos jovens com nomes ainda desconhecidos, como estes Barulhentos (este é o nome do grupo) que estão apresentado no Espaço Elevador Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar, colagem de peças curtas do dramaturgo romeno - cada vez mais em voga no Brasil - Matéi Visniec e com direção de Rodrigo Spina.
        A primeira coisa que chama a atenção é o cuidado com a produção da peça e em especial com o trinômio formado por cenário (Moshe Motta), figurino (Camila Fogaça) e maquiagem (Domitila Gonzalez) todo ele em cores brancas, negras e cinzas.
        Três das peças aqui incluídas foram apresentadas recentemente em A Volta Para Casa e não há como não comparar as duas encenações. Enquanto na montagem de Regina Duarte as peças eram apresentadas por inteiro independentes umas das outras, aqui elas aparecem fragmentadas e mescladas com as outras que compõem o espetáculo. No meu modo de ver, o que era defeito na primeira montagem (falta de ligação entre as peças) é uma grande qualidade na segunda (a costura entre as peças, dando uma unidade ao todo), por outro lado uma qualidade da primeira (a integral de cada peça) tornou-se defeito da segunda (as peças apresentadas de modo fragmentado perdem parte de seus impactos, fato mais evidente em A Volta Para Casa com seu hilário e angustiante desfile de cadáveres). O que é o ideal? Não há ideal! Tudo depende da visão do encenador e quem sou eu para dizer o contrário?
 

        Rodrigo Spina realiza trabalho maduro de direção harmonizando as funções acima citadas com o trabalho de dez jovens atores em cena. Todo o elenco tem ótimo rendimento, mas cabe destacar as interpretações da atriz que faz Catarina, a mulher grávida, em Sanduiche de Frango, do ator que dá o curso de como ser um eficiente mendigo em Cuidado Com as Velhinhas Carentes e Solitárias e finalmente do ator que empresta sua bela voz ao cego que conversa com seu cachorro na peça que dá título à montagem; apresentado totalmente às escuras este é um dos melhores e mais criativos momentos do espetáculo. Condizente com o pensamento de Visniec o programa da montagem contém dois belos textos de Rodrigo Spina e de Domitila Gonzalez, além de apresentar uma breve biografia do autor, mas na ficha técnica não relaciona os atores com as personagens, fato que não me permite citar nomes nos comentários deste parágrafo.

        Com humor cáustico e forte diálogo com o teatro do absurdo os textos instigantes de Matéi Visniec encontraram sua perfeita tradução cênica nesta bela montagem realizada por Os Barulhentos sob a direção de Rodrigo Spina e creio que este é o maior elogio que posso fazer sobre o espetáculo.

        AQUI ESTAMOS COM MILHARES DE CÃES VINDOS DO MAR está em cartaz no Espaço Elevador (Rua Treze de Maio, 222) aos sábados (20h) e domingos (19h) até 31 de maio.
 
        Fotos de Valérie Mesquita.

 

15/04/2015

3 comentários:

  1. Também gostei do espetáculo e concordo com vc nos pontos positivos. Há uma cena que a atriz está com uma lanterna na mão, com uma vela acesa. Sobre ela há um "holofote rouco": sincronizado com a voz off. O efeito é maravilhoso. Juntamente com cenário, figurino, e maquiagem a iluminação é perfeita. E a direção amarra tudo isso lindamente. O espetáculo é uma belíssima surpresa.

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  3. Instigante seus comentários. Gosto dos textos de Matéi Visniec e fico ainda mais curiosa para ver a peça depois dos seus comentários. Não vi a montagem da Regina Duarte, mas gostaria de ter visto. Obrigada por mais uma recomendação.

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