domingo, 28 de dezembro de 2025

DO PRIMEIRO “HAIR” NINGUÉM ESQUECE

 

No final da década de 1960, enquanto os famigerados ditadores do regime militar insistiam em combater a cultura censurando espetáculos, prendendo e torturando artistas e promulgando o fatídico AI-5, os palcos paulistanos reagiam bravamente apresentando espetáculos icônicos que fazem parte da história do nosso teatro: “Oh! Delícia de Guerra” (1966), “Marat-Sade” (1967), ambas dirigidas por Ademar Guerra; “Roda Viva” (1968), “Galileu Galilei” (1968), “Na Selva das Cidades” (1969), dirigidas por Zé Celso Martinez Corrêa; “A Cozinha” (1969) dirigida por Antunes Filho; “Esperando Godot” (1969), dirigida por Flávio Rangel e triste despedida de Cacilda Becker; “Cemitério de Automóveis” (1968), “O Balcão” (1969) dirigidas por Victor Garcia. Montagens que se tornaram clássicas. 

Enquanto isso, em outubro de 1967 estreava na off Broadway um musical sobre hippies de autoria de James Rado, Gerome Ragni (texto e letras) e Galt MacDermot (música) que denunciava o envolvimento dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, outra tragédia da humanidade ocorrida naqueles anos. Rado e Ragni também interpretavam, respectivamente, Claude e Berger as figuras principais da peça. Depois de uma temporada tímida de um mês e meio, a peça migrou para a Broadway em abril de 1968 onde triunfou em 1750 apresentações.


O que mais se ouvia por aqui era que a peça tinha um nu frontal coletivo e algumas canções da peça como “Aquarius” e “Let the sunshine in” com “The Temptations” já tocavam em nossos rádios e nas casas noturnas.

Altair Lima, um ator de médio sucesso viu ali uma oportunidade de alcançar seu lugar ao sol e comprou os direitos para a apresentação da peça em São Paulo.

Contratou Ademar Guerra para dirigir o grande elenco necessário e muniu-se de profissionais de comprovado talento para a produção: Renata Palotini na versão para o português, Marika Gidali na coreografia e Claudio Petraglia na direção musical.

A escolha do elenco deve ter sido feita em conjunto (Guerra e Altair). Nomes famosos e estreantes juntaram-se para contar a história dos cabeludos: Armando Bógus (Claude), Altair Lima (Berger), Aracy Balabanian (Sheila) e Helena Ignês (Jeannie) formavam o quarteto principal, muito bem acompanhados por Ricardo Petraglia, Sonia Braga, Laerte Morrone, Antonio Pitanga, Bibi Vogel, Neusa Borges, Celia Olga e mais 17 intérpretes totalizando 28 figuras em cena. O curioso é que a maioria interpretava muito bem, mas era bem fraca ao cantar e quase nula ao dançar mesmo assim a peça fez um sucesso arrebatador no Teatro Bela Vista onde estreou em outubro de 1969 e o sucesso foi tão grande que permitiu que Altair Lima comprasse e reformasse um velho cinema (Cine Rex) na esquina da Rua Ruy Barbosa com a Rua Conselheiro Carrão rebatizando-o de Teatro Aquarius onde “Hair” continuou com sua carreira vitoriosa até 1972 com várias modificações no elenco: Luiz Fernando Guimarães, Ney Latorraca, Ariclê Perez, Antonio Fagundes e Francarlos Reis, entre outros, entraram nesta segunda fase.

A montagem de Ademar Guerra era uma festa bastante solar, com excelente rendimento do elenco (mesmo não cantando tão bem).

Enquanto isso “Hair” seguia sua carreira internacional, sendo montado em várias partes do mundo.

No Brasil também cumpriu temporada no Rio de Janeiro onde contou com a participação do querido Gilberto Bartholo no elenco.

Em 1979 Milos Forman filmou a peça com muita liberdade chegando a trocar os destinos de Berger e de Claude no final. A coreografia de Twila Tharp, apesar de bonita, não combinava com o espírito da obra. Treat Williams e John Savage brilhavam como Berger e Claude. 

Entusiasmado com o sucesso de “Hair”, Altair Lima comprou os direitos da ópera rock “Jesus Cristo Superstar” de Tim Rice (letras) e Andrew Lloyd Weber (música) que estreou no final de 1972 no Teatro Aquarius com direção do próprio Altair. O espetáculo não fez o sucesso esperado e depois dele Altair afasta-se da direção do teatro que passa por várias reformulações até chegar ao triste estado de prédio abandonado nos dias de hoje. 

Nos palcos paulistanos “Hair” surgiu em nova montagem em 1994, dirigida por Jorge Fernando com Roberto Bataglin como Berger e Luciano Viana como Claude. As apresentações foram no extinto Music Halla na Alameda Eduardo Prado nos Campos Elíseos.

Em 2012 surge a versão idealizada por Charles Möeller e Claudio Botelho que foi apresentada no Teatro do Shopping Frei Caneca com Hugo Bonemer (Claude) e Fernanda da Rocha (Berger).

Todas muito bonitas e solares.

Curiosamente a nova montagem de Móeller apresentada em 2025 no BTG Pactuaal Hall é soturna, escura e sem energia perdendo todo o viço e a claridade tão importantes nessa obra.

Novos “Hairs” virão, trazendo novamente toda a energia que transpirava na montagem original de 1969, que até hoje não foi superada,


DEIXA O SOL ENTRAR! 

28/12/2025

 

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

ZESCAR 2025

 

Lista dos melhores em teatro nos palcos paulistanos segundo José Cetra Filho

Conforme já divulguei, devido à banalização dos prêmios que indicam/premiam até o papagaio de louça que faz parte do cenário, decidi que o ZESCAR não é um prêmio virtual; ele é apenas a lista dos melhores, na minha ótica de espectador apaixonado e o RACSEZ é a lista dos piores do ano! E além disso, a partir deste ano indico no máximo cinco nomes em cada categoria, por mais que me doa deixar alguns nomes de fora.

O ZESCAR é minha lista pessoal. Ele leva em conta os 171 espetáculos a que assisti no ano e nada tem a ver com a minha participação em comissões de premiação onde os premiados são eleitos por votação e nem sempre correspondem àqueles que a meu ver são os melhores.

E o ZESCAR vai para: 

ATRIZ:

Andrea Beltrão - Lady Tempestade

Bruna Longo – Queda de Baleia

Daniele Tavares – Etiqueta do Luto

Lilian de Lima – Carta à Rainha Louca

Paula Cohen – Finlândia 


ATOR:

Celso Frateschi e Zecarlos Machado – Dois Papas

Coletivo Ocutá – A Máquina

Dan Stulbach – O Mercador de Veneza

Marcelo Médici – Dona Lola

Rafael Primot – Um Pequeno Incidente 


DRAMATURGIA:

Lady Tempestade – Silvia Gomez

Nebulosa de Baco – Marcos Damaceno

Nora e a Porta – Marina Corazza

Restinga de Canudos – Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante

Velocidade – Assis Benevenuto e Marcos Coletta

 

DIREÇÃO:

Daniela Stirbulov – O Mercador de Veneza

Dinho Lima Flor – Restinga de Canudos

Eric Lenate – Novas Diretrizes em Tempos de Paz

Patrícia Gifford – Carta à Rainha Louca

Rodrigo Portella – (Um) Ensaio Sobre a Cegueira

 

ESPETÁCULO:

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira

A Máquina

Novas Diretrizes em Tempos de Paz

Restinga de Canudos

Velocidade

 

UM ACONTECIMENTO:

Lady Tempestade

 

ESPETÁCULOS ESPECIAIS FORA DA CURVA:

Odisseia – Instalação Para Um Retorno

Filoctetes em Lemnos

Um Tartufo

 

DELÍCIA DO ANO:

Dzi Croquettes Sem Censura

 

OUTROS DESTAQUES:

Abertura do Teatroiquê

Acolhimento: Teatro do Sol (Grupo Gattu) e Teatro Manás Laboratório (Dante Passarelli e Fernanda Zancopé)

Dimitri Luppi e Wagner Antônio – Iluminação de “Filoctetes em Lemnos”

Eric Lenate – Arquitetura cênica de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”.

 

DESTAQUES NEGATIVOS:

Demolição do Teatro Ventoforte

Fechamento do Teatro Alfa e reabertura como BTG Pactua Hall totalmente desfigurado.

Processo de despejo do Teatro de Contêiner

 

ESPETÁCULOS INTERNACIONAIS:

Transfiguration - Olivier de Sagazan (no SESC)

Gaivota – direção de Guillermo Cacace (na MITsp)

Moulin Rouge (em Bristol)

 

PERDIDOS:

12º Round- A História de Emile Griffith

Coyote

Deserto

Entre Irmãos

Jersey Boys

O RioLear

Tom Jobim Musical

Trabalhadores (Zózima)

 

SHOWS, CONCERTOS, ÓPERAS, DANÇA:

Foram 18 espetáculos:

SHOWS (2): Grupo Rumo/Gilberto Gil- Tempo Rei no Allianz Park

CONCERTOS (12): OSESP (assinatura)

ÓPERAS (1): Macbeth

DANÇA (3): Deborah Colker-Sagração (2X) / Lia Rodrigues – Borda

Perdi temporada do Grupo Corpo (Piracema) por estar viajando.

 

RESUMO: 

TEATRO:     171

SHOW:           2

CONCERTO:  12

ÓPERA:          1

DANÇA:          3

TOTAL:        189


        RACSEZ para os piores do ano!



            23/12/2025

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O AUTOR BRASILEIRO NOS PALCOS PAULISTANOS EM 2025

 

Tijolinhos de jornal dos anos 1970

Fontes: Guia OFF, releases e anotações pessoais. 

        479 espetáculos de autores brasileiros estiveram em cartaz em São Paulo em 2025 entre estreias e peças vindas de temporadas anteriores, com uma média de 40 ao mês.

        A proporção média foi de 79 brasileiros para 21 estrangeiros totalizando cerca de 600 títulos apresentados nos palcos paulistanos sem incluir espetáculos infantis, peças apresentadas em festivais e mostras e e os chamados “stand up comedy”.

Trata-se de um número surpreendente em termos quantitativos sendo que os espetáculos de autores brasileiros tiveram um aumento de 22% em relação a 2024 (de 393 para 479)

Desse universo anual de 479 títulos podemos verificar que Nelson Rodrigues voltou a ter lugar de destaque com sete peças montadas empatado com Mario Bortolotto, seguidos de Luiz de Assis Monteiro com seis títulos em cartaz. Note-se que os dois últimos possuem teatro próprio e as peças de suas autorias em geral fazem temporadas curtas nesses teatros.

Seguem Plínio Marcos, Michele Ferreira e Claudia Barral com quatro peças cada.

Newton Moreno, Dione Carlos e Rodrigo Portella (adaptações) comparecem com três peças cada. 

Resumindo:

Nelson Rodrigues:        7

Mario Bortolotto:          7

Luiz de Assis Monteiro: 6

Plínio Marcos:              4

Michele Ferreira:          4

Claudia Barral:             4

Newton Moreno:          3

Dione Carlos:              3

Rodrigo Portella:          3

Sub total:                   41

Com dois ou um:        438 (*)

TOTAL:                      479

 

(*) Autores importantes como Daniela Pereira de Carvalho, Renata de Carvalho, Ave Terrena, Anderson Negreiro, Giovani Tozi, Luh Maza, Hilda Hilst, Marcelo Marcus Fonseca, Silvia Gomez, Bosco Brasil, Marina Corazza, Nanna de Castro, Leonardo Cortez, Jeh Oliveira, Carlos Canhameiro, Marcio Abreu aparecem neste grupo com um ou dois trabalhos, mas a grande maioria é formada por aqueles autores com um título que surgem em uma temporada desaparecendo a seguir, fato muito comum nos últimos anos 

E continuo sentindo falta de uma maior presença de Jorge Andrade, Carlos Alberto Soffredini, Gianfrancesco Guarnieri e Vianinha nos nossos palcos. Eles ainda têm muito a dizer  

 

Destaques da dramaturgia estreada em 2025:

Lady Tempestade – Silvia Gomez

Restinga de Canudos – Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante

Velocidade – Assis Benevenuto e Marcos Coletta

 

E também:

Antigona Travesti – Renata de Carvalho

Deserto – Luiz Felpe Reis (não assisti, mas foi muito elogiado)

Macuco – Victor Nóvoa

Mural da Memória – Ave Terrena

Nora e a Porta – Marina Corazza

O Céu da Língua – Gregório Duvivier

Os Vencedores – Leonardo Cortez

Real Politik – Daniela Pereira de Carvalho

Tudo Acontece Numa Segunda Feira de Manhã – Vinicius Piedade 

Em tempo: É louvável a iniciativa de várias editoras de publicar textos de dramaturgia nacional: Javali, Cobogó, Patuá, É Realizações Editora. A Javali está lançando a coleção Brasis  com 20 dramaturgias das cinco regiões do país. 

18/12/2025

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A PALMA

 

Planetas ou estrelas?

Os planetas não tem luz própria e só a refletem. As estrelas têm luz natural e a emitem.

É por isso que nas artes se convencionou chamar de estrelas e astros aquelas/aqueles artistas que brilham em suas áreas de atividades e emitem uma energia luminosa tão poderosa que iluminam aqueles que a recebem: nós, espectadores planetas.

Lembrei disso ao assistir a “A Palma”, texto de Claudia Barral e Marcos Barbosa feito sob medida para Gilda Nomacce, Verônica Valentino e Donizeti Mazonas brilharem: são três intérpretes à beira de um ataque de nervos que se apoiam um no outro em busca de soluções para seus problemas financeiros, artísticos e pessoais. Todos com os nervos à flor da pele.

Verônica tem possante presença em cena; Donizete, sempre excelente, surpreende na demonstração de rara energia física e Gilda é sempre uma presença luminosa em cena, quer lembrando a Blanche Dubois de “O Bonde Chamado Desejo” em certos momentos, ou a Norma Desmond de”Sunset Boulevard” em outros.

Na direção Mariano Mattos Martins orquestra a performance dos três artistas com muito equilíbrio, valendo – se também da ótima cenografia de Paloma Mecozzi que utiliza espaços raramente visitados do palco do Capobianco, da iluminação sempre surpreendente de Wagner Antônio, dos figurinos bastante variados de Rogério Romualdo e da trilha sonora de Negro Leo.

“A Palma” é um espetáculo que se assiste com muito prazer.

Em cartaz no Instituto Capobianco: sexta e sábado 20h e domingo 18h até 01/02/2026. Não haverá apresentações entre 22/12/2025 e 15/01/2025. 

17/12/2025

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

INDICADOS AO PRÊMIO APCA DE TEATRO ADULTO 2025

 

As indicações do segundo semestre unem-se àquelas do primeiro semestre para compor a lista da qual sairão os premiados do ano em votação a ser realizada em próxima reunião dos críticos. Na ocasião também serão votados os Prêmios Especiais. 

ATOR: 

- CELSO FRATESCHI – (DOIS PAPAS)

- ERIC LENATE (NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ)

- MARCELO MÉDICI (DONA LOLA)

- RAFAEL BACELAR (VEIAS ABERTAS 60 30 15 SEG)

- RAFAEL PRIMOT (UM PEQUENO INCIDENTE)

- ZÉCARLOS MACHADO – (DOIS PAPAS)

         ATRIZ:

- ANA LÚCIA TORRE (OLHOS NOS OLHOS)

- ANDREA BELTRÃO – (LADY TEMPESTADE)

- BRUNA LONGO (QUEDA DE BALEIA OU CANTO PARA DANÇAR COM MINHA MORTE)

 - CAROLINA MÂNICA (NA SALA DOS ESPELHOS)

- PAULA COHEN – (FINLÂNDIA)

- THAINA MUNIZ – (ELISA EM FUGA)

DRAMATURGIA:

- ASSIS BENEVENUTO E MARCOS COLETTA (VELOCIDADE)

- GREGÓRIO DUVIVIER – (O CÉU DA LÍNGUA)

- LUIZ FELIPE REIS (DESERTO)

- MARCOS DAMACENO – (NEBULOSA DE BACO)

- MICHELLE FERREIRA (VALÊNCIA = 2 HOMENS E 1 COOLER)

- SILVIA GOMEZ – (LADY TEMPESTADE)

DIREÇÃO:

- AMANDA LYRA E JUUAR (ESTRATAGEMAS DESESPERADOS)

         - DINHO LIMA FLOR – (RESTINGA DE CANUDOS)

- JÉ OLIVEIRA – (PAI CONTRA MÃE OU VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?)

- KLEBER MONTANHEIRO – (JOÃO)

 - LAVÍNIA PANNUNZIO (ADULTO)

 - RODRIGO PORTELLA ((UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA)

ESPETÁCULO:

 - (UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

.         - A MÉDICA

 - A MÁQUINA

 - PAI CONTRA MÃE OU VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?

 - RESTINGA DE CANUDOS

 - VELOCIDADE

         16/12/2025

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

ETIQUETA DO LUTO – Ninguém pergunta nada à mãe da menina morta

 

                    
 

“Minha filha sonhava em ser atriz, e de alguma forma, estar novamente no palco é também um reencontro com ela”

(Daniele Tavares)

À primeira vista pode parecer que se trata de mais um monólogo voltado para o umbigo da intérprete onde ela discorre sobre os dramas que sofreu na vida. “Etiqueta do Luto” poderia até ser isso, mas é MUITO MAIS DO QUE ISSO.

Com uma dramaturgia consistente preparada por Marcelo Varzea, Mariela Lamberti e Bruno Rods a partir do texto de Daniele Tavares e a interpretação iluminada de Daniele, estamos diante de uma tragédia que se anunciou, mas Daniele não percebeu e que se traduziu cenicamente em um dos espetáculos mais pungentes do ano.

Basta uma cadeira em cena e um desenho de luz magnífico de Vini Hideki que direciona a atriz por todo o espaço cênico para Daniele Tavares demonstrar que os trinta anos em que esteve fora do palco não arranharam o seu talento e sua empatia com o público.

A direção de Marcelo Varzea é enxuta e bastante fiel aos preceitos do Teatro Essencial.

Alguns trabalhos apresentados nos últimos tempos foram tema de assuntos parecidos como a minissérie “Adolescência” (os males das redes sociais) e a peça “O Filho” (problemas de saúde mental), mas nenhum deles tratou o assunto de maneira tão envolvente e corajosa como Daniele Tavares o fez ao expor no palco o quanto, talvez – tem sempre um talvez- ela pudesse ter dado mais importância àquilo que foi destruindo sua filha à sua vista e ela não percebeu. De qualquer maneira fica claro em todas essas narrativas que o quarto dos jovens encerra mais perigos do que pode imaginar nossa vã realidade. (Obrigado, Shakespeare).

O que levou aquela moça bonita de narizinho arrebitado, boa saúde, sem maiores problemas financeiros, com vontade de ser atriz e bem relacionada com sua família (pai, mãe e irmão) a iniciar um processo de autodestruição que culminou com sua morte aos 21 anos?

Essa é uma pergunta que acompanha Daniele desde a morte da menina e ela até tenta algumas respostas ao final do espetáculo.

Em determinado momento da peça a atriz passa o microfone para o público e ao ser arguida se essas apresentações onde ela reabre a ferida a cada vez não lhe fazem mal, ela respondeu que sente isso como um dever ao jogar para o público esse grito de alerta para que se preste atenção ao desenvolvimento dos jovens. Essa atenção pode salvar uma vida, algo que não aconteceu com a de sua filha.

Daniele também sentiu que durante muito tempo amigos, familiares e conhecidos evitaram falar sobre o acontecido e isso lhe fez muito mal e o teatro talvez tenha siso a maneira dela fazer o grande desabafo publicamente.

O tema é espinhoso e Daniele não se furta a pisar nos espinhos para oferecer ao público uma das interpretações mais autênticas e viscerais desta temporada, mas o seu talento transcende o tema e ainda iremos presenciar novos trabalhos onde ela vai mostrar tudo aquilo de que uma grande artista é capaz!

Fotos de Jukio Arakack 

ETIQUETA DO LUTO tem sua última apresentação de 2025 nesta segunda, dia15, mas volta ao cartaz de 10 de janeiro a 2 de fevereiro no Teatro Pequeno Ato aos sábados e segundas às 20h e aos domingos às 19h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL! 

No melhor estilo de teatro documentário deverão ocorrer algumas sessões em 2026 em que a atriz Veronica Nobili interpretará Daniele Tavares como personagem. Isso promete! 

14/12/2025





terça-feira, 9 de dezembro de 2025

AS ARMAS MILAGROSAS

 

Foto de Marcelle Cerutti

- Seis Personagens à Procura de Existência -

I got life, mother
I got laughs, sister
I got freedom, brother
I got good times, man

(Ragni, Rado, MacDermot) 

Há certos assuntos dos quais é difícil se manifestar com o risco de sermos julgados preconceituosos ou racistas. Às vezes só por ser branco se pode pensar que se é contra os negros e sua rica cultura.

Ser branco absolutamente não significa pertencer ou defender a branquitude que é uma atitude bastante racista.

Sou contra certos espetáculos do movimento negro que colocam um dedo indicador no nariz de um espectador que só pelo fato dele ser branco é acusado de inimigo e causador de toda sofrida saga dos negros desde a época da escravidão. DENUNCIAR E ACUSAR É PRECISO, mas que se aponte o dedo para quem merece.

Negros ou brancos todos nós procuramos um lugar ao sol e quando alguém ocupa o nosso lugar é justo que reivindiquemos o espaço que nos cabe.

O primeiro mérito de “As Armas Milagrosas” é que denuncia e acusa o racismo fortemente, mas de maneira elegante e artística.

Para ilustrar a sua tese sobre os malefícios da branquitude Anderson Negreiro coloca em cena de um lado um grupo de brancos sem viço e opaco que ensaia burocraticamente uma peça e do outro um grupo de negros cheio de energia e vida (“I got life”). Os negros que atuavam nos bastidores em funções secundárias, reivindicam seu merecido espaço e não há como o espectador não vibrar com a performance dos negros e as vozes perturbadoras e potentes de Cainã Naíra e Joy.Anne torcendo para que eles atinjam seus objetivos.

Um desenho de luz rigoroso idealizado por Anderson Negreiro e realizado por Matheus Brant define os limites de atuação de cada grupo, cabendo aos negros romper essa fronteira.

A dramaturgia assinada por Negreiro mescla a ideia de “Seis Personagens A Procura de Um Autor” de Pirandello com “As Armas Milagrosas” e “Os Cães se Calavam” do autor martinicano Aimé Césaire e o resultado é um importante libelo contra o racismo.

A direção conjunta é assinada por Daniela Manrique e Anderson Negreiro.

Esse importante espetáculo deixou o cartaz em 07/12, mas deve voltar em 2026 no TUSP.

09/12/2025

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

HIP HOP HAMLET

 

Esse espaço já foi o CINE ASTOR, depois LIVRARIA CULTURA e a partir de agora é a GALERIA MAGALU uma bela loja situada no Conjunto Nacional. O espaço foi totalmente redecorado, mas manteve o imenso dragão que decorava a livraria e a boa notícia é que o teatro continua ali, agora batizado de TEATRO YOUTUBE-SALA EVA HERZ.



Após um brunch no BLUE NOTE, a galeria e o teatro foram abertos para a imprensa com a apresentação de algumas cenas do espetáculo que reabre o teatro a partir da próxima semana.

Entre outras boas notícias, agora há sanitários ao lado do teatro!

HIP HOP HAMLET é uma releitura contemporânea do clássico de Shakespeare dirigida por Guilherme Leme Garcia e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (Claudia Schapira). Na saborosa amostra oferecida fomos apresentados aos hip hopianos Hamlet, Ofelia, Rei Claudio, Rainha Gertrudes e aos indefectíveis coveiros. O espetáculo promete!!


Essa união das forças AVENTURA, YOUTUBE e GALERIA MAGALU vai render bons frutos para a cultura paulistana.

 

08/12/2025

domingo, 7 de dezembro de 2025

MORTE E VIDA SEVERINA

 

A “Companhia Ensaio Aberto” é um grupo do Rio de Janeiro criado em 1992, bastante conhecido por seu engajamento político, sua militância em prol da liberdade democrática e responsável pela criação de excelentes espetáculos sempre denunciando a desigualdade social no Brasil. Pessoalmente fui testemunha das atividades do grupo no “Armazém da Utopia” e assisti à memorável montagem de “Sacco e Vanzeti” dirigida por Luiz Fernando Lobo; por conta disso estava bastante entusiasmado com essa primeira visita da companhia aos palcos paulistanos com o inquestionável texto de João Cabral de Melo Neto.

Merecidamente esse poema é muito lembrado por quem faz teatro.

Quem primeiro lembrou dele foi Cacilda Becker que o produziu em 1960 com direção de Clemente Portela, tendo Walmor Chagas no elenco, provavelmente no papel de Severino (ou Mestre Carpina?). A montagem foi um grande fracasso permanecendo poucos dias em cartaz.

Ocorreu em 1965 a montagem histórica do grupo TUCA formado por estudantes da PUC com direção de Silnei Siqueira e músicas do jovem compositor Francisco Buarque de Holanda.

A partir daí, as músicas de Chico não se separaram mais de todas outras montagens do poema que vieram a seguir.

Em 1969 Silnei volta a dirigir o texto, desde vez com atores profissionais liderados por Paulo Autran como Mestre Carpina. A montagem passou longe do brilho, da energia e da repercussão daquela de 1965.

Em produção do Grupo TAPA o texto volta a ser montado em 1996 novamente com direção de Silnei.

 O poema descansou nos livros por 26 anos, mas voltou para os palcos paulistanos em 2022 numa bela encenação dirigida por Elias Andreato.

Com o histórico do “Ensaio Aberto” e de seu diretor Luiz Fernando Lobo é difícil acreditar que esta montagem, a meu ver, tão equivocada tenha sido realizada por eles.

Em primeiro lugar na estreia a montagem teve sérios problemas de sonorização, dificultando a compreensão do texto, mola mestre do espetáculo. Em muitos momentos a música cantada pelo coro ou tocada pelos instrumentos cobria totalmente a voz dos atores. Logo no início, por exemplo, quando Severino quer se identificar o coro cobria totalmente a sua voz. Na cena dos coveiros, a voz deles estava tão amplificada que não se entendia o que eles falavam. Esses problemas técnicos são sérios, mas podem ser solucionados ao longo da temporada.

Para este espectador o problema maior está na concepção do espetáculo que sacrifica o texto em função de uma exagerada beleza estética. Tem-se a impressão de estar diante de uma montagem vinda da Broadway, tão comum nos Renaults e Santanders da vida ou até de uma versão assinada por Charles Möeller e Claudio Botelho. A peça tem tanto a cara desses musicais que o público até aplaude  ao fim de cada número musical, como costuma acontecer nesse tipo de espetáculo.

O cenário de J. C. Serroni com um imenso telão ao fundo e a iluminação de Cesar de Ramires são arrebatadores, assim como os figurinos de Beth Filipecki e Ronaldo Machado. O numeroso elenco interpreta e canta muito bem, assim como o acompanhamento musical é primoroso.

Mas e o texto do lindo e potente auto de Natal pernambucano?

O melhor exemplo do descaso com o texto está na cena das ciganas do Egito que no original é um libelo contra a pobreza e o futuro de crianças marginalizadas e que aqui surge com as ciganas se contorcendo ao falar o texto enquanto três atores fazem gracinha dançando defronte ao telão ao fundo. Lamentável!

Para este espectador trata-se de beleza exagerada e edulcorada para mostrar a sofrida vida severina e isso, a meu ver, não bate com os preceitos de Luiz Fernando Lobo e do Ensaio Aberto.

Por que então? Fica a pergunta.

Luiz Fernando Lobo e a “Companhia Ensaio Aberto” continuam devendo a São Paulo um espetáculo que mostre toda a garra de seus talentos e de seus comprometimentos sociais e políticos.

P.S. Pensei muito se publicava ou não esta matéria, mas foi um desabafo que achei necessário explicitar, dada a grande admiração que tenho pelos idealizadores do espetáculo. 

MORTE e VIDA SEVERINA está em cartaz no Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros de 05 a 21/12/2025 e de 08 a 18/01/2026 de quinta a sábado (20h) e domingo (18h). 

06/12/2025

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

MATILDE, UMA DELÍCIA!

 

Fotos de Daniel Chiacos 

Ela é uma senhora de 60 anos, aposentada após trabalhar 30 anos em um banco e como todo aposentado brasileiro tem dificuldade de pagar as contas com o salário que recebe do INSS. Vive sozinha em um apartamento em Copacabana, provavelmente herdado dos pais.

Solitária, seus únicos contatos são o peixinho Bartô e a amiga Odete com quem fala ao telefone. Surge a ideia de alugar um quarto para complementar a renda e aí entra em cena o novo inquilino, um belo homem de nome Jonas que vai mudar o rumo da vida da mulher.

Só no último momento da peça ela fará uma grande revelação a Jonas.

Está aí parte da trama do delicioso texto que Julia Spadaccini escreveu para Malu Valle a pedido de Paulo Gustavo a quem a montagem é dedicada.

A encenação dirigida por Gilberto Gawronski flui delicadamente entre o humor inteligente e o drama da mulher solitária, contando para isso com a excelente interpretação de Malu Valle, que tem aquele dom, pouco comum entre as atrizes, de transitar de maneira suave entre o drama e a comédia, talvez por isso sua presença em cena me fez lembrar da saudosa Marília Pêra que era mestra no assunto.

Ivan Mendes tem beleza, carisma e talento para interpretar o ator que passa a compartilhar o apartamento com a mulher e a faz repensar todos seus valores (nesse sentido a peça me remeteu a “Fala Baixo, Senão Eu Grito” de Leilah Assumpção, grande sucesso de Marília em 1969).

É bom lembrar da participação especial de Bartô que não sai de cena em nenhum momento.

A comédia de Julia Spadaccini não provoca gargalhadas, mas sim um sorriso permanente nos lábios em função do seu humor inteligente tão bem defendido por Malu e Ivan.

Assiste-se “Matilde” com muito prazer e ainda nos faz refletir sobre solidão na velhice e possibilidade de novos amores, por que não?

Delicie-se com Matilde!

 

MATILDE está em cartaz no CCBB de 04 a 21/12 e de 08 a 25/01: quinta e sexta, 19h /sábado e domingo, 17h. 

05/12/2025

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

MURAL DA MEMÓRIA

 

Uma bela forma sem conteúdo é apenas contemplativa, por outro lado um bom conteúdo sem forma pode ser chato e indigesto. Um bom conteúdo em boa forma é o resultado que todo artista almeja.

Esses conceitos de forma e conteúdo me vieram à mente depois de assistir “Mural da Memória” realização do LABTD (Laboratório de Técnica Dramática) com texto de Ave Terrena e direção de Diego Moschkovich. 

- Quanto ao conteúdo: é extremamente louvável que um grupo com idade média ao redor de 38 anos venha se preocupando ao longo de sua trajetória em denunciar os desmandos de uma ditadura militar que governou o Brasil com punhos de ferro de 1964 a 1985, ano este em que a maioria dos integrantes do grupo ainda não tinha nascido. Essa época funesta está sempre presente nos trabalhos do LABTD e como se sabe, nunca é demais relembrar para ter força de resistir caso esses tempos sombrios insistam em voltar. “Mural da Memória” toca nesses pontos por meio de personagens que de um modo ou outro foram vítimas desse tempo cruel.

LEMBRAR É RESISTIR, SEMPRE!

- Quanto à forma: Ave Terrena escreveu o texto de “Mural da Memória” como um mosaico formado por cinco blocos que ela chama de barbantes. O sub título da obra é: “Dramaturgia muralista: cinco barbantes entrelaçados”. Ela usa a assim chamada narrativa multiplot, também conhecida por multiperspectiva, técnica que se tornou muito popular nos filmes do diretor norte-americano Robert Altman (1925-2006), cujo melhor exemplo é o magnífico “Short Cuts” (1993).

A narrativa multiplot consiste em mostrar vários personagens em histórias paralelas (os tais barbantes) que se desenvolvem independentemente, mas se cruzam em certos momentos. O pano de fundo de todas elas, no caso de “Mural da Memória” é o Brasil dos anos da ditadura.

Deve haver uma imensa sincronia entre texto (Ave Terrena) e sua tradução cênica (Diego Moschkovich encenador e elenco) e quando isso acontece realiza-se o milagre do teatro que é agregar o espectador a essa sincronia. Haja vista a emoção que tomou conta deste espectador no momento em que a travesti Mirela canta uma canção ao mesmo tempo que o casal Edna e Abel narra uma partida de futebol e os irmãos Juca e Silaine agregam seus movimentos à cena. Nas cenas do julgamento e no final da peça essa junção volta a acontecer, mas sem o impacto do momento citado acima.

No meu ponto de vista a encenação ganharia ao introduzir mais momentos como esse ao desenrolar da trama e isso seria possível, caso se reduzisse a frequência e o tempo das locuções dos jogos de futebol. Deve ficar claro que o futebol foi usado com muita perversidade como instrumento de propaganda dos militares para encobrir as atrocidades que aconteciam.

Em um cenário simples e funcional o elenco se desloca com desenvoltura. Diego e Maria Emília Faganello incumbem-se dos irmãos resistentes Juca e Silaine. Com muita energia Andréa Sá e Diego Chillo se encarregam do casal de locutores de futebol (seria bom se Andréa gritasse um pouco menos na sua fala final). As travestis Mirela Melcarro e Cátia Celeste são interpretadas com muita dignidade por Danna Lisboa (presença imponente em cena) e Jessica Marcele.

A encenação tem também a participação de Gabriel Barbosa e Felipe Pagliato na música em cena.

“Mural da Memória” não é um espetáculo perfeito, mas tem muitas qualidades e cumpre o objetivo de unir forma e conteúdo com harmonia.

NÃO DEIXE DE VER! 

04/12/2025