quarta-feira, 24 de junho de 2026

EDDY – VIOLÊNCIA & METAMORFOSE

 

Em 2023, “Vista” foi um espetáculo impactante vindo do Rio de Janeiro revelando Julia Lund (atriz) e Luiz Felipe Reis (diretor) da companhia POLIFÔNICA para os palcos paulistanos. Três anos depois eles voltam à cidade com “Eddy – Violência & Metamorfose” que tem em comum com “Vista” a agressão e a violência praticadas por seres humanos contra outros seres humanos

“Eddy” é a tradução cênica do livro “História da Violência” escrito pelo jovem autor francês Édouard Louis (1992-), permeada por trechos de outros livros dele (“O Fim de Eddy” e “Mudar: Método”).

Em harmonioso diálogo entre teatro e cinema (imagens gravadas e imagens da cena captadas por câmeras e celulares manipulados pelo elenco) a montagem conta o que aconteceu com o autor na noite de Natal de 2012 em Paris:

Após um jantar com amigos, ao voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina, chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas, após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem e quase assassinado.”

 Esse diálogo harmonioso é garantido pela origem dos dois encenadores: Luiz Felipe Reis, homem de teatro e Marcelo Grabowsky, vindo do cinema.

No livro o escritor visita a irmã Clara na sua cidade de origem (Hallencourt) e conta a ela o que aconteceu naquela noite de Natal e ela tece comentários com ele e com o marido sobre o ocorrido.

Na encenação de Reis e Grabowsky João Côrtes interpreta Louis e Erom Cordeiro se reveza como Redá, o marido de Clara e o investigador da polícia. Cabe a Julia Lund o papel de Clara que em bem-vindo recurso de distanciamento narra e comenta criticamente a ação.

A dramaturgia realizada pelos dois diretores é bastante fiel ao espírito da obra de Édouard Louis e sua passagem para o palco confirma essa fidelidade.

Encenação dinâmica que em nenhum momento resvala para o melodramático ou o sensacionalismo. A bela cena de sexo é exemplo disso, sendo realizada sem nenhum falso pudor, mas com muita elegância.

O elenco é composto por Erom Cordeiro que com poucos recursos transita entre as personagens que lhe cabem, sendo bastante eloquente ao mostrar as contradições de Redá.

Julia Lund é responsável por trazer ao público as incoerências de Louis numa interpretação bastante diversa daquela de “Vista”, fato que só confirma sua versatilidade e seu talento.

A grande surpresa para nós paulistanos, é o trabalho de João Côrtes numa composição perfeita daquele que imaginamos ser Édouard Louis. Corpo e voz extremamente expressivos demonstrando sua luta entre o desejo e a insegurança de ser agredido no momento em que conhece Redá na rua. Foi muito justa sua indicação como melhor ator pela APTR e o mesmo deve acontecer em São Paulo.

A montagem não fica nada a dever àquela dirigida por Thomas Ostermeier apresentada na MITsp em março deste ano, tendo até alguns pontos a seu favor como uma ambientação mais latina (francesa e brasileira) do que germânica.

EDDY está em cartaz no Teatro FAAP até 06 de agosto. Terças, quartas e quintas às 20h.

ABSOÇUTAMENTE IMPERDÍVEL

 

24/06/2026

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